Arquivos

“Com o COVID-19, as empresas foram obrigadas a modificar as suas formas de trabalhar e os seus processos para conseguir sobreviver” Entrevista com Elaine Maciel criadora do blog Aluna de Arquivo

(Archivoz) Qual foi sua trajetória na Arquivologia?

(EM) No Ensino Médio, tive a oportunidade de estagiar em empresas e instituições que possuiam departamentos de arquivos e os profissionais eram super atenciosos e adoravam ensinar o ofício. Por ser muito detalhista e organizada (chata mesmo, rs), alguns colegas e familiares me incentivaram a escolher a Arquivologia como profissão, hoje sei que foi a escolha certa para a minha vida. No primeiro semestre da faculdade, eu já estava fazendo o primeiro estágio na área e aprendendo no dia a dia com outros profissionais. Essa troca foi muito importante, os vários estágios que participei e profissionais que conheci, formaram a profissional que sou hoje.

(Archivoz) Como surgiu a ideia de criação do Blog Aluna de Arquivo?

(EM) Primeiro temos de lembrar que em 2008 não tinhamos smatphones e nem a internet como temos hoje. Quando eu buscava no Google o assunto arquivologia, não conseguia obter quase nada de informação. As notícias, eventos e vagas era normalmente divulgadas nos murais da universidade e muitas vezes não ficavam lá por muito tempo (as pessoas pegavam os papéis e levavam com elas, rsrsr). Na época, eu já era blogueira e decidi criar o Blog Aluna de Arquivo – Arquivista em Construção. Ele foi criado como um espaço destinado ao compartilhamento de conhecimento das áreas de Arquivologia, Documentação e Ciências da Informação (Biblioteconomia, Museologia, etc.). Tendo o foco no desenvolvimento profissional, com o objetivo de divulgar notícias e conhecimentos da área, além de oportunidades e também como uma forma de unir os colegas de profissão. Desde então, se tornou meu arquivo pessoal e trabalho voluntário, uma nova forma de conhecer os profissionais e trocar conhecimento. Nele, sempre busquei divulgar notícias, eventos (congressos, palestras, cursos, etc.), vagas de empregos, vagas de estágios, concursos públicos (e material de estudo), além de assuntos sobre tecnologia, dicas sobre a carreira, entre outros. O seu objetivo sempre foi informativo e não nos responsabilizamos pelas informações divulgadas. Atualmente, centralizo as postagens no LinkedIn.

(Archivoz) Considera que a função dos Arquivos, e consequentemente dos arquivistas tem mudado no transcurso do tempo?

(EM) Sim, acredito que a mudança é grande, assim como os novos desafíos. No início, estagiei e trabalhei em empresas com grande volume documental físico. Nossa, eu passava horas e horas fazendo arquivamento e desarquivamento manual em grandes arquivos deslizantes. Todo o volume de trabalho da empresa era medido pela quantidade de “papel impresso”. Hoje, tenho o dobro do trabalho em questão de quantidade, mas, agora faço tudo sentada em frente a um computador. O suporte mudou, mas o volume de trabalho não. Hoje temos de lidar com as novas tecnologias e sua obsolescência, grandes desafios, que mudam a cada dia.

(Archivoz) Que soluções acredita para melhorar a posição do Arquivista no Mercado de trabalho?

(EM) Acho que a principal solução é o aprendizado constante, não podemos parar no tempo, assim como qualquer profisisonal, temos de buscar atualização constante. Estudar outras línguas, aprender a utilizar as novas tecnologias e tambem soft skills. Além de fazer netwoorking com outros profissionais, visando a troca de informação e crescimento mútuo.

(Archivoz) A pandemia do novo COVID-19 tem sido um divisor de águas na história da humanidade, de que forma o arquivo vem sendo afetado?

(EM) Com o COVID-19, as empresas foram obrigadas a modificar as suas formas de trabalhar e os seus processos para conseguir sobreviver. Desse modo, os profissionais da informação estão sendo vistos como peças chaves para o sucesso do negócio, auxiliando na gestão do conhecimento e dos documentos. Ajudando com a digitalização dos processos e os desafios das mudanças ocasionadas pela alteração do suporte do documento físico para o digital.

(Archivoz) Você considera o Brasil referência em Arquivologia? Se não o que falta?

(EM) Considero sim o Brasil como referência na Arquivologia, nem tenho como contabilizar quantos ótimos profissionais temos tanto das áreas públicas quanto privadas. Temos espaço para todos trabalharem nas áreas que se identificarem. Na UFF tive a oportunidade de ter professores super dedicados e engajados em fortalecer a nossa área, tenho muito orgulho da nossa profissão. Mas é claro que nem tudo é perfeito, sinto falta de maior integração dos profissionais da área.

(Archivoz) Que consolo você dar para os colegas arquivistas neste momento de crise em todas as áreas?

(EM) Desejo que todos não percam a fé em si mesmos e no futuro. Essa fase irá passar e os que conseguirem continuar otimistas, atualizados e em busca de conhecimento terão retorno de sua dedicação. Respeito muito meus colegas e acredito que a união faz o sucesso de nossa profissão. Por isso, por mais que a rotina me tome muito tempo, ainda tento manter o #blogalunadearquivo nas redes, como o LinkedIn, visando a união dos profissionais.

 


Entrevista realizada por: Débora Vilar Melo

«Pretende-se uma abordagem profunda ao nível arquivístico e também integrada e estratégica, ou seja, fazendo parte da área da Cultura como uma área que se relacione com as outras áreas da Santa Casa» Entrevista a Nuno Reis, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos

Archivoz teve a honra de entrevistar o Dr. Nuno Reis, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, no ano das comemorações do 521 Aniversário desta instituição, vem dar-nos a conhecer os seus mais recentes projetos na área da cultura, nomeadamente do seu núcleo museológico e arquivo.

(Archivoz) O arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos é um dos pilares da memória da instituição. O que está a ser feito para a sua valorização?

(Nuno Reis) O Arquivo da SCMB tem sido alvo, ao longo dos tempos, de intervenções pontuais ao nível de inventariação do seu acervo.

Agora, pretende-se uma abordagem profunda ao nível arquivístico e também integrada e estratégica, ou seja, fazendo parte da área da Cultura como uma área que se relacione com as outras áreas da Santa Casa, possibilitando uma dinamização interna que, no que lhe concerne, se pretende que seja igualmente voltada para o exterior, com o propósito de contribuir para uma maior fruição cultural no território.

Naturalmente, esta linha de atuação parte da visão que temos, e andará a pari passu quer no plano da comunicação organizacional interna, quer no plano para a área da comunicação em termos mais globais.

(Archivoz) Com a estruturação da área da Cultura como posicionaria em termos estratégicos o Arquivo e o Núcleo Museológico da Santa Casa?

(NR) Como uma área integrada que “comunique” com todas as outras da Santa Casa. O Núcleo Museológico tem muito potencial a vários níveis: histórico, pedagógico, turístico e também de marketing. O arquivo e o núcleo museológico representam a instituição, fazem parte do seu “rosto” e, como tal, assumem também posição dianteira na imagem e acolhimento da Misericórdia de Barcelos.

Como já referi, o posicionamento estratégico da área da cultura está orientado não só para o ambiente interno, mas também para o externo, para a comunidade. A História desta Santa Casa está intimamente ligada à História da nossa região. E até mesmo de um país, em que foi uma das primeiras Misericórdias.

(Archivoz) E a difusão no concelho e região norte pode-nos revelar alguma novidade?

(NR) Neste momento, trabalhamos uma parceria com o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave num projeto multidisciplinar que pretende ser o lançamento do nosso projeto não apenas pela comunidade académica, mas também por áreas que passam pelo turismo e pela gestão. Mas não só, há outras entidades com as quais desenvolvemos contactos e a breve trecho poderemos divulgar mais novidades.

A médio prazo queremos que o arquivo e o núcleo museológico ganhem um lugar de destaque no turismo no concelho e em toda a região e façam parte dos locais turísticos a visitar.

(Archivoz) O arquivo foi recentemente registado como marca “Arquivo Leonor”. Porquê dar um nome a um arquivo?

(NR) Para cada vez mais assumir uma identidade própria, neste caso escolhendo um nome que também presta homenagem à Rainha D. Leonor, ou seja, à fundação das Santas Casas.

(Archivoz) Os esforços são para tornar o “Arquivo Leonor” uma referência no panorama das Misericórdias Portuguesas?

(NR) As misericórdias têm a particularidade de se regerem por princípios comuns desde a sua fundação, isto é, a prática das Obras de Misericórdia corporais e espirituais. No entanto, são entidades independentes umas das outras. Nesse sentido, e como sabemos que muitas ainda não têm o seu arquivo “organizado” gostaríamos de ser referência, lembrando que os arquivos são áreas tão importantes como outras e não são para serem lembradas, apenas excecionalmente! Queremos e estamos no caminho de encarar o espaço do Arquivo Leonor e do Núcleo Museológico como organismos vivos, dinâmicos e integradores.

“Um museu contemporâneo, logo na sua génese, deve as mais das vezes considerar a existência de (pelo menos) um “Centro de Documentação” que será, de facto, o Arquivo correspondente aos acervos do Museu”: Entrevista com Sérgio Lira

Doutorado em Museum Studies pela University of Leicester (U.K.) reconhecido com grau de “Doutor” pela Universidade do Porto. Foi Professor Associado na Universidade Fernando Pessoa tendo deixado de leccionar em 2013. É sócio fundador, membro da direcção e investigador responsável no Green Lines Instituto para o Desenvolvimento Sustentável. É Investigador Integrado do CLEPUL e membro da coordenação do pólo do Porto daquele centro de investigação. Hoje entrevistamos o Professor Sérgio Lira que nos dará uma visão integrada de Museus e Arquivos.

(Archivoz) Podemos afirmar que o seu percurso académico começou nos confins da Idade Média, como deu o salto para a museologia?

(Sérgio Lira) O meu percurso académico começou com uma licenciatura em História (na FLUP). Dos 4 anos que compunham essa licenciatura, aquele em que o conjunto dos Docentes se destacou pela qualidade, empenho, organização e presença foi, sem a menor dúvida, o 2º ano – História Medieval. Dessa forma, abandonei a “menina dos meus olhos” até à data – a Cultura Clássica e a História Antiga – e decidi-me a um Mestrado em História Medieval. Isso implicou realizar uma cadeira “a mais” (Paleografia e Diplomática – que não tinha feito, por ter escolhido Epigrafia e Numismática) e (finalmente!) aprender algum Latim… depois de cumprido o Serviço Militar obrigatório, que se entrepôs entre a Licenciatura e o Mestrado, iniciei esse grau. À época, os mestrados constavam de 4 anos – 2 lectivos e 2 de Dissertação. Sob a preciosa orientação do saudoso Professor Doutor José Marques – para nós será sempre “Padre Marques” – decidi compulsar, transcrever, estudar e publicar toda a colecção documental que fosse possível identificar do Mosteiro de S. Simão da Junqueira, desde o mais antigo documento até ao século XIII. Foi um trabalho exigente, quer do ponto de vista paleográfico que do rigor que trabalhar com tal tipo de documentação implica. Resultou numa peça de investigação com a publicação de mais de 300 documentos (seguindo as regras de publicação do Pe Avelino de Jesus da Costa) e do estudo correspondente, tendo eu optado por nele incluir tanto os documentos relativos à Instituição como os particulares que nesses fundos estavam (estão) guardados.

De posse do grau de Mestre – que à época não era tão vulgar quanto hoje – retomei a leccionação ao nível do Ensino Superior (onde já tinha feito uma experiência, ainda como licenciado, mas de curta duração, tendo depois labutado nos ensinos preparatório e secundário). Aí colocou-se um novo desafio: leccionar num Curso de Antropologia onde havia duas cadeiras de Museologia. Optei então pela realização de um PhD em Inglaterra, na Universidade de Leicester que tinha (e tem) um dos maiores e mais prestigiados departamento de Museum Studies do mundo. O ingresso e o início do percurso nesse novo universo não foi isento de dificuldades: estava a entrar num espaço conceptual diferente do “meu”, tinha que usar uma língua que não era a minha, havia inúmera bibliografia que me era completamente estranha e que era preciso “devorar” a um ritmo significativo – a isso juntava-se a leccionação a tempo integral na Universidade e a vida familiar… esses primeiros tempos implicaram viver entre Leicester e o Porto, foram um desafio e um esforço que só se faz uma vez na vida, e em certas idades. Mas vencidos os escolhos, conclui a Tese com sucesso e antes do tempo limite previsto. Nesse processo, e uma vez que usei muita documentação dos arquivos dos museus, a prática anterior, o rigor e a exigência que a investigação de tempos medievos haviam exigido foi especialmente útil. A partir desse momento, a Museologia tem estado muito mais presente na minha vida académica e profissional do que a Idade Média, mas não nego que um “saltinho” (de quando em vez) a esse Mundo pretérito e querido me não tenta – e, por isso, lá regresso por vezes.

(Archivoz) Como investigador / historiador como encara a evolução dos arquivos?

(SL) Ao longo do meu percurso de investigação conheci já muitos arquivos, dos mais pequenos aos centrais – ainda do tempo da licenciatura, por exemplo documentação dos antigos arquivos paroquiais, até aos arquivos centrais que foram o cerne dos fundos compulsados para a Dissertação de Mestrado. Mesmo para a Tese de doutoramento entrei noutros tipos de arquivos (aqueles que guardam muita documentação dos próprios museus). Nos Idus de 1980/90 havia práticas que (presumo!) entretanto arredadas (como seja permitir-se a fotocópia de pergaminhos, ou manipulação de papéis sem qualquer espécie de protecção, entre outras). Mas já então tal não era transversal: havia arquivos que tinham já implementado boas-práticas (recordo, por exemplo, o acesso ao arquivo fotográfico da Fundação Calouste Gulbenkian onde se podia aceder ao que ainda não estava digitalizado, mas apenas em sala própria e usando luvas/máscara apropriadas o que não era comum em muitos outros arquivos). Acresce que os processos de digitalização eram ainda inexistentes ou estavam em fase embrionária, pelo que a maior parte das vezes utilizávamos os originais – fica bem aqui dizer “eu ainda sou do tempo dos microfilmes”, o que provavelmente deixará de fazer sentido para a maior parte dos utilizadores muito em breve. Quando naveguei pelos arquivos dos museus, onde respiguei a maior parte da documentação que empreguei na Tese de doutoramento, encontrei de tudo: desde documentação ordenada e organizada até documentação a esmo, sem qualquer espécie de (sequer) registo digno do nome. Hoje pugno como e quando posso, por Arquivos que preservem a documentação e a deem a conhecer, a façam acessível sem perigar os originais. Para isso muito contribuem os modernos sistema de inventariação e acesso, tendo a minha actividade académica e profissional passado também por aí.

(Archivoz) No seu trabalho recorre frequentemente a documentos de arquivo? A Museologia pode viver sem arquivos?

(SL) Não, não pode! o objecto museológico é mudo: não fala connosco de moto-próprio… aquilo a que em museologia se chama vulgarmente “informação associada” é fundamental para a interpretação das peças – e uma peça não-interpretada, é uma peça museologicamente inútil. Quando muito, poderá ser esteticamente interessante – mas isso será uma galeria de arte (ou similar), não um museu. Desse ponto de vista os anglo-saxónicos distinguem, e muito bem “Museums” e “Galleries”. Aliás, um museu contemporâneo, logo na sua génese, deve as mais das vezes considerar a existência de (pelo menos) um “Centro de Documentação” que será, de facto, o Arquivo correspondente aos acervos do Museu. Falamos, naturalmente, de arquivos que podem conter documentos de muito tipo (escritos, imagens, filmes, áudio…). Para além desses centros de documentação que devem fazer parte dos museus, é também normal que os museólogos recorram aos arquivos na busca de outras informações, dados, confirmações, sempre no sentido de interpretar as peças que colocam em exposição, ou de conhecer aquelas que integram as reservas do museu.

(Archivoz) Como definiria a proliferação de arquivos difundidos online em Portugal?

(SL) Será uma tendência natural… a manipulação dos originais deve ser de todo em todo evitada; peças digitalizadas tanto podem ser consultadas local como remotamente – ora, havendo essa possibilidade, não fará muito sentido ter que me deslocar ao Arquivo para me sentar numa sala com o meu computador ligado à rede e consultar, ali, o que poderia consultar em casa. Essa proliferação corresponde a uma maior facilidade em digitalizar as peças e, concomitantemente, ao facto de existirem ligações de rede eficazes e com velocidades apreciáveis. A evolução a este nível tem sido vertiginosa: quando comecei a visitar a “Torre do Tombo” era proibido (sim, interdito, vedado, impedido, impossível) entrar com um computador portátil… e eu não sou “tão” velho assim! A outra face desta moeda poderá vir a ser uma certa “banalização” do acesso, mas os eventuais males que daí possam advir não se comparam com os benefícios que se colhem, quer em termos de preservação dos originais quer de democratização do acesso.

(Archivoz)  Também é especialista em informática qual a sua perspetiva em torno do open-source e do software proprietário?

(SL) Eu não sou “especialista” em informática. Longe disso… a minha actividade académica, lectiva e profissional tem-me obrigado a utilizar sistemas diversos, aplicações várias e, por natureza, não gosto de usar o que não compreendo. Quando comecei a utilizar computadores, ainda nos anos 1980/90, o sistema operativo era o DOS, e sobre ele corríamos aplicações como o “WordStar”, o “DBaseIII” ou o “Quattro”……. as primeiras ligações à internet eram feitas por FTP e não havia “motores de busca”….. daí para cá a evolução tem sido alucinante, mesmo do ponto de vista do utilizador. Nessa qualidade, tenho procurado soluções open-source não-proprietárias, quer por uma questão de opção política, quer por uma questão pragmática: esse tipo de aplicações dispõe, normalmente, de uma comunidade de suporte muito significativa e colaborante, que ajuda na maior parte das circunstâncias. Sou, de há já muitos anos, utilizador de distros de Linux para máquinas pessoais: nos meus computadores já usei Ubuntu, Gentoo e Mint (é esta actualmente a distro do meu posto fixo), correndo neste momento um Arch no meu portátil de trabalho diário. Qualquer pessoa que tenha já experimentado sabe bem a diferença de desempenho da mesma máquina com um sistema operativo destes ou com um outro, proprietário – já para não falar dos níveis de segurança especialmente na utilização em rede. A nível profissional tenho também sempre advogado esse tipo de solução: é mais barato para os clientes, a manutenção é assegurada, a fiabilidade dos sistemas é das mais elevadas que se podem encontrar e o desempenho optimizado. Apenas em raríssimas circunstâncias me tenho deparado com a necessidade incontornável de empregar aplicações proprietárias embora, obviamente, elas ocorram de quando em vez.

(Archivoz) Está ligado a uma aplicação integrada de Arquivo, Museu e Biblioteca o “INDEX RERUM”. Como a descreve? Poderá ser uma boa solução para arquivos com poucos recursos financeiros?

(SL) O Index Rerum nasceu de um projecto académico, que juntou um professor de informática e bases de dados e um museólogo, para produzir um sistema que satisfizesse as necessidades de um museu que se estava a criar (um museu industrial) quando não havia no mercado nenhum produto que satisfizesse. À época, participámos activamente nos inícios de formalização do CRM do CIDOC, tendo sido membros dos seus grupos de trabalho até à sua transformação em norma ISO [211127]. O IR foi sempre pensado com uma solução que não exigisse muitos recurso de parte das instituições, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista dos recursos informáticos internos: sabíamos, como sabemos, que muitas instituições (nacionais e não apenas, porque temos o IR instalado já fora das nossas fronteiras) não dispõem dos recursos necessários a soluções financeiramente exigentes – e que, verdadeiramente, não são necessárias para cumprir de forma eficaz, segura e profissional, o que cumpre a um Museu, Arquivo ou Biblioteca – por exemplo, o IR não exige máquinas “potentes” para funcionar: qualquer computador, mesmo “velhinho”, ligado à internet e com um browser actualizado o usa sem nenhum problema. O IR, quando foi transformado em produto comercial, manteve exactamente esses princípios. Utiliza, por exemplo, por defeito, uma base de dados (PostgreSQL) das mais seguras, fiáveis e robustas actualmente existentes – e sem custos associados. Obviamente já tivemos clientes que nos pediram que usássemos outras (por exemplo da Oracle) o que para nós não representa nenhum problema. O IR é actualmente comercializado como um pacote a instalar no servidor da instituição (versão “aquisição”) ou como um serviço de software (SaaS), instalado nos servidores da empresa (FCo) que o comercializa e que assegura toda a manutenção e os backups regulares dos dados ficando a instituição que o usa liberta de todas essas preocupações – esta solução é especialmente interessante para pequenas/médias instituições que desejam dispor de um produto sofisticado e completo por um valor anual relativamente baixo, sem nenhuma preocupação técnica associada – muitas vezes essas instituições não dispõem de pessoal técnico de informática.

O IR é um sistema neste momento muito completo mas que poderia ser descrito, nas suas características principais, da seguinte forma:

–> tem 3 secções (interligadas ou independentes): Museu, Arquivo e Biblioteca
–> MUSEUS: respeita o CRM do CIDOC e toda a legislação portuguesa aplicável
–> ARQUIVO: respeita o ISAD-G (ou qualquer outra norma)
–> BIBLIOTECA: respeita o UNIMARC (ou qualquer outra norma)

–> tem uma interface profissional (destinada a trabalho) e uma interface mais amigável (destinada ao público)
–> é capaz de inventariar e fazer a gestão de colecções de qualquer espécie de património, móvel ou imóvel, tangível ou intangível
–> permite escolher o que deve ser visível e invisível para o “exterior” da Instituição (fichas completas ou campos específicos)
–> as fichas são todas parametrizáveis conforme as colecções a inventariar
–> é, de raiz, um sistema web-based (cliente-servidor)
–> não implica nenhuma instalação nas máquinas-Cliente
–> funciona, do lado do Cliente, em qualquer MSWindows, iOS, Linux, Android, etc. desde que tenha um browser actualizado
–> permite um número ilimitado de utilizadores com login (profissioinais) sem exigir pagamentos de licenças adicionais
–> implementa um nível de segurança que satisfaz instituições como o Banco de Portugal ou o Banco de Cabo Verde, por exemplo (onde está em funcionamento)
–> tem, em instalações típicas, 3 níveis de acessos (consulta, inventariação, administração); mas permite qualquer parametrização e quaisquer níveis de permissões
–> recebe e exporta dados nos principais formatos standard
–> comunica com outros sistemas que usem formatos standard
–> pode funcionar em multi-instituição com individualização de colecções
–> existe na versão “aquisição” e na versão “SaaS” (Software as a Service)

(Archivoz) Abordamos os arquivos digitais e os museus, o seu futuro será um futuro essencialmente virtual?

(SL) De forma alguma!

Os Arquivos, por maioria de razão, preservam documentos, originais, que mantêm nas melhores condições pelo mais longo período de tempo possível. Sabemos que todas peças são perecíveis, mas a função do arquivo (entre outras) é contrariar essa inevitabilidade. Do ponto de vista das peças, o arquivo nunca será “virtual” porque os documentos são materiais – se bem que actualmente estejamos a produzir documentação exclusivamente digital, e que isso venha a lançar novos desafios conceptuais aos arquivos. De qualquer forma, os documentos materiais vão sempre exigir preservação. Outra questão é a do acesso – e aí, sim, creio que a tendência será sempre a da “virtualização” por questões de conforto dos leitores e de preservação dos originais. De qualquer forma, para alguns casos específicos, o regresso à materialidade será inevitável em certas circunstâncias – concordaremos que essas diminuíram (e eventualmente ainda diminuirão mais), mas manter-se-ão sempre.

Os Museus são o reino das peças autênticas – the real thing na expressão consagrada por Susan Pearce, que nos dizia isso, sempre e repetidamente em cada seminário que leccionava ou em cada conferência (convidámo-la, uma vez, para keynote speaker num congresso internacional sobre património intangível, que organizámos em 2009 nos Açores, e abriu a sua alocução afirmando “Não há património intangível: tudo tem, inevitavelmente, materialidade!”). Os museus podem adoptar soluções sofisticadas (ecrãs transparentes, óculos de realidade virtual, ecrãs touch, realidade aumentada, virtualização de peças e do seu “interior”, entre tantas outras) mas nunca se desligarão da materialidade das suas peças: nada substituiu o objecto autêntico, a peça verdadeira – quer em “peso simbólico” quer em atractividade para o público. A pedra lunar (um simples e vulgar calhau de basalto, para um leigo muito semelhante ao que se poderia apanhar em tantos locais terrestres) em exposição provocava longas filas, apenas para se poder estar na presença do “objecto verdadeiro”. Se para os arquivos a leitura remota pode ser uma solução confortável, barata e (quase) sem contra-indicações, para os museus é a presença física dos visitantes que faz sentido: não há museus sem colecções (era o paradigma do século XIX e de boa parte do XX), mas também não há museus sem visitantes (é o paradigma actual).


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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“Desde cedo, o Santuário assumiu ser uma das suas funções a recolha, conservação e estudo das fontes relativas aos episódios fundadores de Fátima e ao desenvolvimento do culto a Nossa Senhora de Fátima”: Entrevista com André Melícias

Entrevistámos André Melícias, arquivista do Arquivo do Santuário de Fátima, um dos mais importantes arquivos da cristandade contemporânea.

(Archivoz) Sendo o Santuário de Fátima um dos locais de peregrinação da Cristandade atual, qual é a sensação de trabalhar num espaço com tão grande significado?

(André Melícias) Esta questão terá de ser respondida em duas partes, uma de âmbito profissional e outra de âmbito pessoal.

Profissionalmente, trabalhar no Arquivo do Santuário de Fátima é, simultaneamente, um grande desafio, uma grande responsabilidade e uma grande honra. Fátima é, como refere, um dos maiores centros de peregrinação do Cristianismo contemporâneo e isto eleva o patamar de exigência e rigor que enquanto profissionais nos devemos impor, seja pela visibilidade que a dimensão desta instituição dá ao nosso trabalho, seja, principalmente, pela consciência do impacto que tem a ação desta instituição, para a qual concorremos com a especificidade do nosso trabalho. É, efetivamente, um local privilegiado para se estar como profissional, pelo ‘mundo’ que nos dá, seja pelo contacto regular com pessoas e instituições de realidades geográficas, socioculturais e económicas muito diferentes da nossa, seja pela riqueza e diversidade do seu espólio arquivístico e biblioteconómico.

Numa dimensão pessoal, não escondo que, desde muito novo, tenho uma ligação profunda a este local. Cresci habituado a que, várias vezes ao ano, Fátima fosse o local de um dia em família, um misto de passeio e de peregrinação, que teve um grande impacto no meu crescimento pessoal. Numa área profissional em que nem sempre é fácil garantir a empregabilidade, ter hipótese de trabalhar num local que, além dos desafios profissionais que aporta, nos toca pessoalmente, é um privilégio.

(Archivoz) Quando é que foi constituído o arquivo do Santuário?

(AM) Desde cedo, o Santuário assumiu ser uma das suas funções a recolha, conservação e estudo das fontes relativas aos episódios fundadores de Fátima e ao desenvolvimento do culto a Nossa Senhora de Fátima. Se, num sentido mais lato, podemos dizer que o Arquivo se constitui a partir do momento em que, na década de 20 do século passado, se começa a desenhar a estrutura organizacional de enquadramento das manifestações cultuais e pastorais na Cova da Iria, se pretendermos entender o Arquivo enquanto unidade orgânica, teremos de procurar a sua génese na década de 50. D. José Alves Correia da Silva, bispo de Leiria entre 1920 e 1957, por provisão de 13 de agosto de 1955, criou no Santuário de Fátima o Museu-Biblioteca. Esta instituição, que cedo se confundiu com o próprio Santuário, tinha funções ligadas à recolha, gestão e conservação de espécies arquivísticas, além das biblioteconómicas e museológicas enunciadas na sua denominação. No entanto, a sua filosofia estaria mais próxima da de um centro de documentação e não tinha a seu cargo a gestão da informação produzida no âmbito das atividades administrativas do Santuário, assegurada a partir da secretaria.

A reorganização orgânica do Santuário, a partir de 1973, deu origem ao Serviço de Estudos e Difusão (SESDI), que assumiu e ampliou as funções do antigo Museu-Biblioteca. É desta época uma distinção clara entre os chamados “arquivo fotográfico” e “arquivo documental”, cujos impactos se fizeram sentir até data recente, pela existência de duas equipas distintas para cada um dos serviços de arquivo, então denominadas de secções. Com a reforma dos anos 70 o Santuário assumiu a necessidade de introduzir metodologias eficientes para a gestão da informação e documentação que produzia e, ainda que subsistisse uma clara distinção entre o arquivo histórico-erudito e o arquivo administrativo – frequente ao longo dos séculos XIX e XX – , foi levado a cabo, a partir do SESDI, um esforço de organização da informação, visível na elaboração e adoção de planos de classificação. A viragem do milénio traria um novo momento de evolução do arquivo, com a colaboração de entidades externas que, no caso do “arquivo fotográfico” conduziu à sua organização e à digitalização de uma considerável parte do espólio e, no caso do “arquivo documental”, ao início do projeto de gestão integrada que permitiu eliminar as barreiras entre o arquivo histórico e arquivo das diversas unidades orgânicas, promovendo uma gestão integral da informação, independentemente da sua idade e usos hipotéticos.

(Archivoz) O Dr. André Melícias como arquivista sente que existem diferenças no seu trabalho arquivístico, em relação a outros colegas de profissão? Quais os cuidados que este arquivo exige?

(AM) É frequente utilizar-se expressões como “arquivística religiosa” ou “arquivística eclesiástica” para designar a atividade que, enquanto profissionais, desenvolvemos neste tipo de organizações. Na minha perspetiva, devemos ter alguns cuidados na sua utilização para que desta não resulte a noção de que estamos perante uma subdisciplina arquivística. De facto, não existe arquivística religiosa, existe, isso sim, a arquivística que, enquanto conjunto de teoria e prática, é aplicada ao contexto específico de organizações religiosas, estejam ligadas à Igreja Católica ou a qualquer outra realidade eclesial. É neste sentido entendo deverem ser utilizadas aquelas expressões ou outras semelhantes.

Partindo desta perspetiva, assumo que não existem diferenças entre o meu trabalho e o de outros colegas de profissão, com exceção daquelas que são originadas pela diferença dos sistemas de informação arquivística que trabalhamos, sejam elas geradas por especificidades da informação e documentação geridas, sejam pelas especificidades do ambiente regulador – especialmente visíveis nas organizações religiosas –, da estrutura orgânico-funcional ou dos meios disponíveis.

(Archivoz) Dada a relevância deste arquivo e a curiosidade dos Media, como é efetuada a comunicabilidade da informação arquivística de Fátima?

(AM) O fim de qualquer arquivo é o de ser comunicado e, desse modo, contribuir para o enriquecimento da ação administrativa, científica e cultural dos seus utilizadores. As diferentes estratégias que cada serviço de arquivo utiliza para fazer essa comunicação resultam da especificidade de cada um ao nível da visão, dos objetivos e também dos meios de que dispõe. No caso do Arquivo do Santuário, podemos entender a comunicação da informação arquivística em torno de dois eixos principais: o da relação com o utilizador e o da comunicação em fóruns científicos.

O apoio aos nossos utilizadores, tanto internos como externos ao Santuário, é feito de modo personalizado. Fátima, enquanto espaço de devoção, é uma realidade com pouco mais de um século e, por isso, boa parte do nosso arquivo está ainda sujeita a limitações próprias dos arquivos contemporâneos, nomeadamente possíveis restrições ao acesso e comunicabilidade da informação e documentação arquivísticas. Com o objetivo de permitir o acesso franco ao maior volume possível de documentação, apostamos, por um lado, no aprofundamento do nosso conhecimento acerca do espólio que custodiamos e, por outro, no conhecimento das necessidades informacionais do utilizador, assumindo claramente o papel de mediadores ativos e colaborantes.

Outra dimensão é a da comunicação em fóruns científicos como modo de divulgação do nosso espólio e de promoção da reflexão em torno de questões técnicas e científicas que nos dizem respeito enquanto profissionais e interessam especificamente à gestão do espólio que o Santuário nos confia. Neste sentido, tanto eu, como o diretor e outros técnicos do Departamento de Estudos – que sucedeu, em 2018, ao SESDI enquanto unidade orgânica de tutela das áreas do Arquivo e da Biblioteca – temos participado com comunicações em diversos eventos científicos nacionais e internacionais. Temos também apostado na organização de jornadas científicas que, partindo da nossa realidade, pretendem refletir temas de interesse para a os profissionais das ciências da documentação e informação, entre outros. Nesse sentido, foram organizadas, entre 2018 e 2020, a I e II Jornadas de Arquivo, bem como as I Jornadas de Biblioteca, nas quais procurámos trazer à discussão questões como a proteção de dados nos arquivos das Igrejas, o papel dos arquivos audiovisuais para o estudo da história contemporânea, bem como o papel das bibliotecas eclesiásticas como repositório do conhecimento humano. Poderemos incluir aqui, ainda que num âmbito mais cultural do que científico, a colaboração que, durante quatro anos, tivemos com o jornal «Voz da Fátima», assegurando a coluna «Peça do mês» na qual explorámos o espólio do Arquivo e também da Biblioteca.

(Archivoz) A nível de utilizadores: Quem são? O que procuram?

(AM) O Arquivo do Santuário responde tanto a utilizadores internos como a utilizadores externos à instituição, no entanto, poderemos dizer que a maior parte da nossa atividade tem como destino os utilizadores internos. A informação e a documentação são ativos estratégicos para qualquer organização, no apoio à tomada de decisão, ao normal andamento dos processos administrativos e, um aspeto muito relevante no Santuário, à produção de conteúdos científicos, culturais e pastorais. O recurso que os diferentes departamentos em que está organizado o Santuário fazem do Arquivo demonstra essa importância estratégica e faz-nos acreditar que estamos a conseguir desempenhar corretamente a função primária que nos é solicitada.

Os utilizadores internos solicitam desde documentação contabilística a documentação de cariz arquitetónico, passando por registos paroquiais e correspondência, entre outra documentação relativa a todos os aspetos da vida do Santuário, desde o acolhimento de peregrinos à gestão do alojamento nas casas de retiros, passando, claro está, pela liturgia e atividade pastoral. Devemos igualmente referir a importância das espécies fotográficas, geridas a partir do núcleo audiovisual do Arquivo.  Se, tendo em consideração números de 2020, pensarmos que, num universo de 5710 imagens licenciadas, 5379 foram-no para uso interno, percebemos facilmente o contributo do Arquivo para a produção de conteúdos pastorais, culturais e científicos do Santuário.

Os utilizadores externos que nos consultam têm origens e objetivos bastante distintos, mas é possível delinear alguns perfis-tipo, a começar pela comunidade académica e científica, que nos procura no âmbito do desenvolvimento de dissertações, projetos de investigação ou produção de publicações. As áreas de estudo deste grupo, longe de se fixar somente nas ciências religiosas, vão desde a história e história da arte, até à antropologia, geografia, sociologia, economia, passando pelo turismo, pela arquitetura, engenharias e até pela proteção civil. Temos também investigadores que, por razões pastorais ou devocionais, pretendem esclarecer aspetos da história e Mensagem de Fátima e são direcionados para as fontes apropriadas. Finalmente, poderemos referir a existência de utilizadores originários de empresas ou gabinetes de estudo e que nos procuram no sentido de obter informações, nomeadamente estatísticas, para apoio a estudos de mercado.

(Archivoz) Referiu num dos seus trabalhos uma interessante série documental denominada “Cartas a Nossa Senhora”. Pode descrever-nos esta série?

(AM) A série «Correio de Nossa Senhora», resulta da prática de os peregrinos deixarem no Santuário, nomeadamente na Capelinha das Aparições, cartas, pequenos bilhetes ou fotografias com mensagens que dirigem a Nossa Senhora. Também se dá o caso de os peregrinos enviarem as suas mensagens por terceiros, por correio e, ultimamente, até por email. Não sabemos desde quando existe esta prática, mas percebemos que se foi impondo na ritualidade própria deste local e deu origem à série documental que tem um maior ritmo de crescimento e que é, na minha opinião, uma das séries mais relevantes do Arquivo do Santuário, porque reflete aquilo que justifica a existência do próprio Santuário, isto é, a fé e os motivos que, ao longo do tempo, trouxeram os peregrinos a este espaço cultual.

O estudo desta série permite aceder a várias camadas de informação, que vão desde a abordagem direta ao pedido ou agradecimento que serviram de mote à criação do documento, até níveis mais profundos, como o da mentalidade do remetente, a realidade do seu contexto familiar, político e económico, relevantes para o estudo científico e também para o trabalho pastoral. No entanto, levanta também alguns problemas, nomeadamente o do ritmo de crescimento – já ultrapassa os 350 metros lineares – e da dificuldade da sua comunicação, devido à necessidade da proteção da intimidade dos que lhe deram origem. Após reflexão foi estabelecido um conjunto de regras, que implicam o acesso diferido e a minimização dos dados, que permitiu que fosse dado acesso de uma parte dessa documentação, tendo já dado origem a algumas conferências e publicações.

(Archivoz) Recentemente foi anunciado nos meios de comunicação social que o arquivo da Irmã Lúcia está a ser tratado por um grupo de especialistas. O Arquivo do Santuário de Fátima está envolvido?

(AM) O Arquivo do Santuário de Fátima detém espécimes do punho de Lúcia, entre os quais se destacam os documentos conhecidos como as quatro primeiras «Memórias», propriedade da diocese de Leiria, que aqui se encontram em depósito. O espólio que refere como «Arquivo da Irmã Lúcia» é custodiado pelo Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, que é responsável pelo projeto de tratamento em curso e no qual o Arquivo do Santuário de Fátima não está envolvido. O conjunto documental é composto por, entre outros, um grande volume de correspondência recebida e enviada por aquela religiosa no período em que integrou aquela comunidade religiosa. É de saudar o esforço de preservação e organização de um espólio riquíssimo de uma figura ímpar da nossa história recente e que diz tanto ao Santuário de Fátima e aos seus peregrinos.

(Archivoz) Vivemos num mundo cada vez mais digital e imediato. Existe algum projeto de disponibilização online do Arquivo do Santuário?

(AM) Os projetos de digitalização e disponibilização online em larga escala implicam um conjunto de recursos humanos, técnicos e financeiros bastante considerável, pelo que o esforço que implicam torna necessária a sua ponderação cuidada. Se considerarmos as características deste arquivo, nomeadamente a sua idade, e as restrições de acesso que se podem impor, não nos parece viável equacionar um projeto de digitalização e disponibilização online em larga escala.

A prática em relação a este tópico tem sido a da digitalização, seja por meios próprios, sejam por meios externos, nos casos em que a salvaguarda da informação ou a necessidade da sua comunicação assim o impõe.

 


Entrevista realizada por: Alexandra María Silva Vidal

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A colonialidade dos arquivos holandeses: o que pode ser feito e em que termos?

Em 2017, os Arquivos Nacionais da Holanda realizaram uma conferência, ‘Rethinking the VOC’, destacando a nova pesquisa, agora tornada possível, que todo o arquivo da VOC (Dutch East India Company) foi digitalizado. A conferência terminou com uma mesa redonda sobre a descolonização dos arquivos holandeses da qual participei. Em 2019, escrevi um artigo para a Revisão Histórica dos Países Baixos resumindo essa mesa redonda. Salientei que muito do debate na Holanda até agora sobre a descolonização se concentrou em museus, e não em arquivos. Esse é provavelmente o caso porque muito mais está sendo feito no setor de museus, como, por exemplo, as ‘Palavras importam’ do Centro de Pesquisa para Cultura de Materiais; a prática desviante do Museu Van Abbe, Queering the Collection e por que estou aqui? Programas; a decisão do Museu de Amsterdão de se abster de usar o termo “idade de ouro” para se referir ao século XVII; e o museu anteriormente conhecido como Witte de With (em homenagem a um oficial naval colonial do século XVII) que mudou recentemente de nome.

Neste sentido, examinarei mais detalhadamente os arquivos holandeses e a descolonização, com foco nas instituições estatais.

No meu artigo anterior, usei o termo não colonial ao invés de descolonização, e ainda defendo esse termo quando visto da perspetiva dos arquivos estatais (holandeses), já que a ideia de descolonização originada de instituições estatais parece no máximo elevada. Ao escrever este ensaio, pensei no ponto de Michel-Rolph Trouillot de que “o foco no Passado muitas vezes nos desvia das injustiças presentes para as quais as gerações anteriores apenas estabeleceram as bases” (Silencing the Past, p. 150). Pensar em termos de descolonização está a nos dirigir muito para o passado, deixando instituições como os Arquivos Nacionais da Holanda se concentrarem em arquivos coloniais como os da Companhia Holandesa das Índias Orientais, ao invés de nosso (colonial) presente e futuro? É mais importante para um arquivo agir de maneiras não coloniais e não racistas e focar nas comunidades que existem hoje por meio de novas formas de divulgação e desenvolvimento de coleções? Ou a descolonização aponta para a colonialidade que existe na sociedade contemporânea? Se a descolonização se manifesta apenas em projetos curtos, como a digitalização de uma coleção colonial ou repatriação, então temo que seja apenas a primeira. Esses projetos tentam expiar os pecados do passado em vez de resolver os pecados de hoje.

Veja, por exemplo, o caso do arquivo devolvido do Suriname. Registos da colônia holandesa do Suriname foram enviados para a Holanda durante o período colonial para guarda. Após a transferência da soberania para a República do Suriname, os registos passaram a ser legalmente propriedade da nova república, mas foi somente em 2017 que estes, tendo sido digitalizados pela primeira vez, foram devolvidos ao Arquivo Nacional do Suriname. A digitalização e a disponibilidade online foram condições para sua devolução, estabelecidas pelos Arquivos Nacionais da Holanda, apesar de reconhecer o Suriname como o proprietário legal. A escolha de digitalizar e tornar acessíveis os arquivos coloniais foi feita pelo ex-colonizador e não foi necessariamente a vontade do Arquivo Nacional do Suriname. Foi uma colonização prolongada ou uma tentativa de fazer um arquivo mais inclusivo na Holanda? Descolonização ou pensamento neocolonial do alto escalão do governo holandês?

Também nos últimos anos, uma mudança ocorreu nos Arquivos Nacionais da Holanda. Após um processo de vários anos, o pesquisador Harry Poeze adicionou descrições individuais no inventário do arquivo do NEFIS (Serviço de Inteligência das Forças Holandesas), a mais de 4.000 documentos que foram ‘apreendidos, encontrados ou roubados’ da Indonésia durante a guerra de independência de 1945- 1949. No entanto, sendo este o Arquivo Nacional da Holanda, as descrições de registos roubados ainda estão em solo holandês, para uma coleção que é predominantemente em indonésio.

E fora dos Arquivos Nacionais? Que trabalho está sendo feito para mudar o panorama arquivístico na Holanda? Um dos exemplos mais conhecidos na Holanda é o Black Archives de Amsterdão, fundado em 2016. Por meio de suas exposições, pesquisas e divulgação, o Black Archives atua como um espaço comunitário que também regista e aborda a experiência negra histórica e contemporânea na Holanda.

Mas esses projetos não precisam existir apenas fora da infraestrutura de arquivamento. Arquivos como o do Instituto Internacional de História Social começaram a perceber que antigas descrições estão repletas de colonialidade e estão tentando escrever novas com premissas de inclusividade. Enquanto isso, Verloren Banden (fitas perdidas) era um projeto que trouxe uma coleção de fitas de vídeo criadas pela comunidade molucana na cidade de Vaassen para o Gelders Archief (o arquivo da província de Gelderland). Essas fitas foram feitas na década de 1970 por membros da comunidade.

Bibliografía

Trouillot, Michel-Rolph (1995). Silencing the past : power and the production of history. Boston, Mass.: Beacon Press.