Sérgio Lira

Licenciado em História e Mestre em História Medieval pela FLUP. PhD em Museum Studies pela University of Leicester (U.K.) reconhecido com grau de "Doutor" pela Universidade do Porto. Foi Professor Associado na Universidade Fernando Pessoa tendo deixado de leccionar em 2013. É sócio fundador, membro da direcção e investigador responsável no Green Lines Instituto para o Desenvolvimento Sustentável onde realizou já dezenas de congressos internacionais sobre património e desenvolvimento sustentável. É Investigador Integrado do CLEPUL e membro da coordenação do pólo do Porto daquele centro de investigação. É autor de inúmeros artigos com revisão por pares, tem publicados vários capítulos de livros e livros editados. Tem realizado vários projectos museológicos e museográficos a nível nacional e internacional. Áreas investigação científica: Museologia; Património, Cidadania, Consumos Culturais.

“Um museu contemporâneo, logo na sua génese, deve as mais das vezes considerar a existência de (pelo menos) um “Centro de Documentação” que será, de facto, o Arquivo correspondente aos acervos do Museu”: Entrevista com Sérgio Lira

Doutorado em Museum Studies pela University of Leicester (U.K.) reconhecido com grau de “Doutor” pela Universidade do Porto. Foi Professor Associado na Universidade Fernando Pessoa tendo deixado de leccionar em 2013. É sócio fundador, membro da direcção e investigador responsável no Green Lines Instituto para o Desenvolvimento Sustentável. É Investigador Integrado do CLEPUL e membro da coordenação do pólo do Porto daquele centro de investigação. Hoje entrevistamos o Professor Sérgio Lira que nos dará uma visão integrada de Museus e Arquivos.

(Archivoz) Podemos afirmar que o seu percurso académico começou nos confins da Idade Média, como deu o salto para a museologia?

(Sérgio Lira) O meu percurso académico começou com uma licenciatura em História (na FLUP). Dos 4 anos que compunham essa licenciatura, aquele em que o conjunto dos Docentes se destacou pela qualidade, empenho, organização e presença foi, sem a menor dúvida, o 2º ano – História Medieval. Dessa forma, abandonei a “menina dos meus olhos” até à data – a Cultura Clássica e a História Antiga – e decidi-me a um Mestrado em História Medieval. Isso implicou realizar uma cadeira “a mais” (Paleografia e Diplomática – que não tinha feito, por ter escolhido Epigrafia e Numismática) e (finalmente!) aprender algum Latim… depois de cumprido o Serviço Militar obrigatório, que se entrepôs entre a Licenciatura e o Mestrado, iniciei esse grau. À época, os mestrados constavam de 4 anos – 2 lectivos e 2 de Dissertação. Sob a preciosa orientação do saudoso Professor Doutor José Marques – para nós será sempre “Padre Marques” – decidi compulsar, transcrever, estudar e publicar toda a colecção documental que fosse possível identificar do Mosteiro de S. Simão da Junqueira, desde o mais antigo documento até ao século XIII. Foi um trabalho exigente, quer do ponto de vista paleográfico que do rigor que trabalhar com tal tipo de documentação implica. Resultou numa peça de investigação com a publicação de mais de 300 documentos (seguindo as regras de publicação do Pe Avelino de Jesus da Costa) e do estudo correspondente, tendo eu optado por nele incluir tanto os documentos relativos à Instituição como os particulares que nesses fundos estavam (estão) guardados.

De posse do grau de Mestre – que à época não era tão vulgar quanto hoje – retomei a leccionação ao nível do Ensino Superior (onde já tinha feito uma experiência, ainda como licenciado, mas de curta duração, tendo depois labutado nos ensinos preparatório e secundário). Aí colocou-se um novo desafio: leccionar num Curso de Antropologia onde havia duas cadeiras de Museologia. Optei então pela realização de um PhD em Inglaterra, na Universidade de Leicester que tinha (e tem) um dos maiores e mais prestigiados departamento de Museum Studies do mundo. O ingresso e o início do percurso nesse novo universo não foi isento de dificuldades: estava a entrar num espaço conceptual diferente do “meu”, tinha que usar uma língua que não era a minha, havia inúmera bibliografia que me era completamente estranha e que era preciso “devorar” a um ritmo significativo – a isso juntava-se a leccionação a tempo integral na Universidade e a vida familiar… esses primeiros tempos implicaram viver entre Leicester e o Porto, foram um desafio e um esforço que só se faz uma vez na vida, e em certas idades. Mas vencidos os escolhos, conclui a Tese com sucesso e antes do tempo limite previsto. Nesse processo, e uma vez que usei muita documentação dos arquivos dos museus, a prática anterior, o rigor e a exigência que a investigação de tempos medievos haviam exigido foi especialmente útil. A partir desse momento, a Museologia tem estado muito mais presente na minha vida académica e profissional do que a Idade Média, mas não nego que um “saltinho” (de quando em vez) a esse Mundo pretérito e querido me não tenta – e, por isso, lá regresso por vezes.

(Archivoz) Como investigador / historiador como encara a evolução dos arquivos?

(SL) Ao longo do meu percurso de investigação conheci já muitos arquivos, dos mais pequenos aos centrais – ainda do tempo da licenciatura, por exemplo documentação dos antigos arquivos paroquiais, até aos arquivos centrais que foram o cerne dos fundos compulsados para a Dissertação de Mestrado. Mesmo para a Tese de doutoramento entrei noutros tipos de arquivos (aqueles que guardam muita documentação dos próprios museus). Nos Idus de 1980/90 havia práticas que (presumo!) entretanto arredadas (como seja permitir-se a fotocópia de pergaminhos, ou manipulação de papéis sem qualquer espécie de protecção, entre outras). Mas já então tal não era transversal: havia arquivos que tinham já implementado boas-práticas (recordo, por exemplo, o acesso ao arquivo fotográfico da Fundação Calouste Gulbenkian onde se podia aceder ao que ainda não estava digitalizado, mas apenas em sala própria e usando luvas/máscara apropriadas o que não era comum em muitos outros arquivos). Acresce que os processos de digitalização eram ainda inexistentes ou estavam em fase embrionária, pelo que a maior parte das vezes utilizávamos os originais – fica bem aqui dizer “eu ainda sou do tempo dos microfilmes”, o que provavelmente deixará de fazer sentido para a maior parte dos utilizadores muito em breve. Quando naveguei pelos arquivos dos museus, onde respiguei a maior parte da documentação que empreguei na Tese de doutoramento, encontrei de tudo: desde documentação ordenada e organizada até documentação a esmo, sem qualquer espécie de (sequer) registo digno do nome. Hoje pugno como e quando posso, por Arquivos que preservem a documentação e a deem a conhecer, a façam acessível sem perigar os originais. Para isso muito contribuem os modernos sistema de inventariação e acesso, tendo a minha actividade académica e profissional passado também por aí.

(Archivoz) No seu trabalho recorre frequentemente a documentos de arquivo? A Museologia pode viver sem arquivos?

(SL) Não, não pode! o objecto museológico é mudo: não fala connosco de moto-próprio… aquilo a que em museologia se chama vulgarmente “informação associada” é fundamental para a interpretação das peças – e uma peça não-interpretada, é uma peça museologicamente inútil. Quando muito, poderá ser esteticamente interessante – mas isso será uma galeria de arte (ou similar), não um museu. Desse ponto de vista os anglo-saxónicos distinguem, e muito bem “Museums” e “Galleries”. Aliás, um museu contemporâneo, logo na sua génese, deve as mais das vezes considerar a existência de (pelo menos) um “Centro de Documentação” que será, de facto, o Arquivo correspondente aos acervos do Museu. Falamos, naturalmente, de arquivos que podem conter documentos de muito tipo (escritos, imagens, filmes, áudio…). Para além desses centros de documentação que devem fazer parte dos museus, é também normal que os museólogos recorram aos arquivos na busca de outras informações, dados, confirmações, sempre no sentido de interpretar as peças que colocam em exposição, ou de conhecer aquelas que integram as reservas do museu.

(Archivoz) Como definiria a proliferação de arquivos difundidos online em Portugal?

(SL) Será uma tendência natural… a manipulação dos originais deve ser de todo em todo evitada; peças digitalizadas tanto podem ser consultadas local como remotamente – ora, havendo essa possibilidade, não fará muito sentido ter que me deslocar ao Arquivo para me sentar numa sala com o meu computador ligado à rede e consultar, ali, o que poderia consultar em casa. Essa proliferação corresponde a uma maior facilidade em digitalizar as peças e, concomitantemente, ao facto de existirem ligações de rede eficazes e com velocidades apreciáveis. A evolução a este nível tem sido vertiginosa: quando comecei a visitar a “Torre do Tombo” era proibido (sim, interdito, vedado, impedido, impossível) entrar com um computador portátil… e eu não sou “tão” velho assim! A outra face desta moeda poderá vir a ser uma certa “banalização” do acesso, mas os eventuais males que daí possam advir não se comparam com os benefícios que se colhem, quer em termos de preservação dos originais quer de democratização do acesso.

(Archivoz)  Também é especialista em informática qual a sua perspetiva em torno do open-source e do software proprietário?

(SL) Eu não sou “especialista” em informática. Longe disso… a minha actividade académica, lectiva e profissional tem-me obrigado a utilizar sistemas diversos, aplicações várias e, por natureza, não gosto de usar o que não compreendo. Quando comecei a utilizar computadores, ainda nos anos 1980/90, o sistema operativo era o DOS, e sobre ele corríamos aplicações como o “WordStar”, o “DBaseIII” ou o “Quattro”……. as primeiras ligações à internet eram feitas por FTP e não havia “motores de busca”….. daí para cá a evolução tem sido alucinante, mesmo do ponto de vista do utilizador. Nessa qualidade, tenho procurado soluções open-source não-proprietárias, quer por uma questão de opção política, quer por uma questão pragmática: esse tipo de aplicações dispõe, normalmente, de uma comunidade de suporte muito significativa e colaborante, que ajuda na maior parte das circunstâncias. Sou, de há já muitos anos, utilizador de distros de Linux para máquinas pessoais: nos meus computadores já usei Ubuntu, Gentoo e Mint (é esta actualmente a distro do meu posto fixo), correndo neste momento um Arch no meu portátil de trabalho diário. Qualquer pessoa que tenha já experimentado sabe bem a diferença de desempenho da mesma máquina com um sistema operativo destes ou com um outro, proprietário – já para não falar dos níveis de segurança especialmente na utilização em rede. A nível profissional tenho também sempre advogado esse tipo de solução: é mais barato para os clientes, a manutenção é assegurada, a fiabilidade dos sistemas é das mais elevadas que se podem encontrar e o desempenho optimizado. Apenas em raríssimas circunstâncias me tenho deparado com a necessidade incontornável de empregar aplicações proprietárias embora, obviamente, elas ocorram de quando em vez.

(Archivoz) Está ligado a uma aplicação integrada de Arquivo, Museu e Biblioteca o “INDEX RERUM”. Como a descreve? Poderá ser uma boa solução para arquivos com poucos recursos financeiros?

(SL) O Index Rerum nasceu de um projecto académico, que juntou um professor de informática e bases de dados e um museólogo, para produzir um sistema que satisfizesse as necessidades de um museu que se estava a criar (um museu industrial) quando não havia no mercado nenhum produto que satisfizesse. À época, participámos activamente nos inícios de formalização do CRM do CIDOC, tendo sido membros dos seus grupos de trabalho até à sua transformação em norma ISO [211127]. O IR foi sempre pensado com uma solução que não exigisse muitos recurso de parte das instituições, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista dos recursos informáticos internos: sabíamos, como sabemos, que muitas instituições (nacionais e não apenas, porque temos o IR instalado já fora das nossas fronteiras) não dispõem dos recursos necessários a soluções financeiramente exigentes – e que, verdadeiramente, não são necessárias para cumprir de forma eficaz, segura e profissional, o que cumpre a um Museu, Arquivo ou Biblioteca – por exemplo, o IR não exige máquinas “potentes” para funcionar: qualquer computador, mesmo “velhinho”, ligado à internet e com um browser actualizado o usa sem nenhum problema. O IR, quando foi transformado em produto comercial, manteve exactamente esses princípios. Utiliza, por exemplo, por defeito, uma base de dados (PostgreSQL) das mais seguras, fiáveis e robustas actualmente existentes – e sem custos associados. Obviamente já tivemos clientes que nos pediram que usássemos outras (por exemplo da Oracle) o que para nós não representa nenhum problema. O IR é actualmente comercializado como um pacote a instalar no servidor da instituição (versão “aquisição”) ou como um serviço de software (SaaS), instalado nos servidores da empresa (FCo) que o comercializa e que assegura toda a manutenção e os backups regulares dos dados ficando a instituição que o usa liberta de todas essas preocupações – esta solução é especialmente interessante para pequenas/médias instituições que desejam dispor de um produto sofisticado e completo por um valor anual relativamente baixo, sem nenhuma preocupação técnica associada – muitas vezes essas instituições não dispõem de pessoal técnico de informática.

O IR é um sistema neste momento muito completo mas que poderia ser descrito, nas suas características principais, da seguinte forma:

–> tem 3 secções (interligadas ou independentes): Museu, Arquivo e Biblioteca
–> MUSEUS: respeita o CRM do CIDOC e toda a legislação portuguesa aplicável
–> ARQUIVO: respeita o ISAD-G (ou qualquer outra norma)
–> BIBLIOTECA: respeita o UNIMARC (ou qualquer outra norma)

–> tem uma interface profissional (destinada a trabalho) e uma interface mais amigável (destinada ao público)
–> é capaz de inventariar e fazer a gestão de colecções de qualquer espécie de património, móvel ou imóvel, tangível ou intangível
–> permite escolher o que deve ser visível e invisível para o “exterior” da Instituição (fichas completas ou campos específicos)
–> as fichas são todas parametrizáveis conforme as colecções a inventariar
–> é, de raiz, um sistema web-based (cliente-servidor)
–> não implica nenhuma instalação nas máquinas-Cliente
–> funciona, do lado do Cliente, em qualquer MSWindows, iOS, Linux, Android, etc. desde que tenha um browser actualizado
–> permite um número ilimitado de utilizadores com login (profissioinais) sem exigir pagamentos de licenças adicionais
–> implementa um nível de segurança que satisfaz instituições como o Banco de Portugal ou o Banco de Cabo Verde, por exemplo (onde está em funcionamento)
–> tem, em instalações típicas, 3 níveis de acessos (consulta, inventariação, administração); mas permite qualquer parametrização e quaisquer níveis de permissões
–> recebe e exporta dados nos principais formatos standard
–> comunica com outros sistemas que usem formatos standard
–> pode funcionar em multi-instituição com individualização de colecções
–> existe na versão “aquisição” e na versão “SaaS” (Software as a Service)

(Archivoz) Abordamos os arquivos digitais e os museus, o seu futuro será um futuro essencialmente virtual?

(SL) De forma alguma!

Os Arquivos, por maioria de razão, preservam documentos, originais, que mantêm nas melhores condições pelo mais longo período de tempo possível. Sabemos que todas peças são perecíveis, mas a função do arquivo (entre outras) é contrariar essa inevitabilidade. Do ponto de vista das peças, o arquivo nunca será “virtual” porque os documentos são materiais – se bem que actualmente estejamos a produzir documentação exclusivamente digital, e que isso venha a lançar novos desafios conceptuais aos arquivos. De qualquer forma, os documentos materiais vão sempre exigir preservação. Outra questão é a do acesso – e aí, sim, creio que a tendência será sempre a da “virtualização” por questões de conforto dos leitores e de preservação dos originais. De qualquer forma, para alguns casos específicos, o regresso à materialidade será inevitável em certas circunstâncias – concordaremos que essas diminuíram (e eventualmente ainda diminuirão mais), mas manter-se-ão sempre.

Os Museus são o reino das peças autênticas – the real thing na expressão consagrada por Susan Pearce, que nos dizia isso, sempre e repetidamente em cada seminário que leccionava ou em cada conferência (convidámo-la, uma vez, para keynote speaker num congresso internacional sobre património intangível, que organizámos em 2009 nos Açores, e abriu a sua alocução afirmando “Não há património intangível: tudo tem, inevitavelmente, materialidade!”). Os museus podem adoptar soluções sofisticadas (ecrãs transparentes, óculos de realidade virtual, ecrãs touch, realidade aumentada, virtualização de peças e do seu “interior”, entre tantas outras) mas nunca se desligarão da materialidade das suas peças: nada substituiu o objecto autêntico, a peça verdadeira – quer em “peso simbólico” quer em atractividade para o público. A pedra lunar (um simples e vulgar calhau de basalto, para um leigo muito semelhante ao que se poderia apanhar em tantos locais terrestres) em exposição provocava longas filas, apenas para se poder estar na presença do “objecto verdadeiro”. Se para os arquivos a leitura remota pode ser uma solução confortável, barata e (quase) sem contra-indicações, para os museus é a presença física dos visitantes que faz sentido: não há museus sem colecções (era o paradigma do século XIX e de boa parte do XX), mas também não há museus sem visitantes (é o paradigma actual).


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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