3.º Encontro Cidades, Arquitetura e Arquivos no Contexto Ibérico: Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura

A Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura, em Matosinhos, na zona metropolitana do Porto, acolheu, no dia 1 de outubro de 2021, o 3.º Encontro Cidades, Arquitetura e Urbanismo no Contexto Ibérico, organizado pela Casa da Arquitectura e o CIDEHUS.UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora. Pela primeira vez, este evento decorreu em modo híbrido, tendo sido transmitido em direto  através do Facebook da Casa da Arquitectura, com o objetivo de assegurar a maior difusão possível do mesmo, muito para além dos que puderam estar presentes nesta notável instituição.

Esta iniciativa, que nas edições anteriores se realizou na Universidade de Évora, em 2019, e no Centro de Informação Urbana de Lisboa – CIUL, em 2020, com a coordenação científica de Paulo Batista (CIDEHUS.UE) e Ricardo Costa Agarez (Dinâmia’CET-IUL / CIDEHUS.UE), contou com a presença de arquitetos, investigadores de arquitetura e arquivistas dos meios académicos e municipais/distrital.

O formato deste Encontro seguiu o modelo das edições anteriores, com quatro painéis, dois de arquitetura, da responsabilidade de Ricardo Agarez, e outros tantos sobre arquivos, coordenados por Paulo Batista, cada qual com duas conferências, num total de oito apresentações, cujos resumos, que apresentamos a seguir, foram disponibilizados pelos respetivos oradores.

Coube a Ana Filipe, Coordenadora do Departamento de Arquivo e Biblioteca da Casa da Arquitectura, a conferência de abertura, em que deu conta da missão e projetos desta notável instituição, criada em 2007, no âmbito da criação e desenvolvimento de conteúdos para a difusão e afirmação, muito para além de Portugal, da arquitetura junto da sociedade.

Painel I – As Cidades e os Campos: Territórios da Arquitetura e seus Arquivos

A primeira conferência deste painel, moderado por Ricardo Agarez, pertenceu a Ana Alves Costa, da Universidade do Porto, Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, e teve como título Rogério de Azevedo: A Construção de um Enredo, entre Arquivos, Fragmentos e Obras Construídas.

Segundo a autora, “O nosso testemunho tem como base o trabalho de investigação (recentemente publicado em livro) realizado em torno da figura de Rogério de Azevedo, arquitecto do Porto que viveu entre 1898 e 1983. A sua prática projetual, reflexo das diversas condições que, a vários níveis, a moldaram, dificilmente se categoriza. Beaux-arts e Art-déco, tradição clássica e modernismo são referências que nela convergem, manuseadas com liberdade e com sabedoria pelo seu autor.

A coerência na diversidade da obra deste arquitecto, que procuramos defender, implicou a reconstituição da vida deste autor e de uma obra arquitetónica cujos vestígios documentais fomos encontrando em diferentes suportes, dispersos por diversos arquivos e centros de documentação. O que restou do material de projecto de Rogério de Azevedo não era, de modo algum, um todo íntegro e coerente. Talvez desencantado ou pouco interessado em perpetuar a sua obra desenhada, pouco restou dos documentos originais. Assim, em cada arquivo visitado, onde a expectativa em cada aproximação foi sendo crescente, pelas suas especificidades, fomos descobrindo diferentes conteúdos ou fragmentos que, mesmo que parcelares, reunidos e cruzados, foram, ao longo dos tempos, peça a peça, formando o nosso enredo. Do Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto ao Centro de Documentação da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), passando por muitos outros arquivos em diversas localizações do país, fomos reunindo as evidências que possibilitaram o entendimento e a compreensão sobre uma obra até então pouco divulgada.”

A conferência seguinte deste painel, de Filipa de Castro Guerreiro, da Universidade do Porto, Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, centrou-se Entre Tremocilho e Le Play: Arquitetura Adormecida nos Arquivos do Ministério da Agricultura.

Como a sua autora assinalou, “Em 2010, quando iniciei a investigação sobre as Colónias Agrícolas construídas pela Junta de Colonização Interna, era parco o conhecimento, no campo da arquitectura, sobre os projectos e obras realizadas por este organismo. O arquivo da secção de projectos dos serviços da Junta foi, em parte, destruído quando o espaço foi atingido por uma bomba, em 1977, e a documentação sobrevivente terá sido levada para um armazém que viria, posteriormente, a sofrer um incêndio.

Com a ausência de documentação específica sobre os projectos de arquitectura (com excepção da presente no espólio pessoal do arquitecto Celestino de Castro, no Centro de Documentação da FAUP), a investigação assentou na observação, análise, descrição e interpretação dos espaços construídos; numa longa viagem através de cerca de 440 documentos, do foro agrícola e económico-social, presentes na Biblioteca da Divisão de Planeamento, Documentação e Informática da DGADR (até 2012) e na da Secretaria-geral do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas; e na documentação relativa aos concursos de admissão e fichas de cadastro dos funcionários da Junta de Colonização Interna, depositados no Arquivo da Torre do Tombo.

Nos projectos de colonização agrícola da Junta, a arquitectura é apenas uma das componentes: apesar de expressa na casa, no assentamento e no desenho do território, e de, em determinados momentos, assumir destaque na imagem pública das acções da Junta, a arquitectura tem uma dimensão muito reduzida relativamente às componentes agrícola e económico-social. Neste contexto os documentos correspondem, na sua maioria, a estudos, projectos e relatórios, onde a questão arquitectónica é inexistente ou escassa. Talvez a necessidade desta viagem, de procura de desenhos e menções às construções em longos documentos centrados nas questões agrícolas e socioeconómicas, com referências e linguagem codificada que passei a conhecer, tenha constituído o percurso obrigatório para a compreensão do contexto do contributo dos arquitectos e das suas propostas.”

Painel II – As Cidades e os Campos: Territórios da Arquitetura e seus Arquivos

Cristiana Freitas, do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, moderou este painel.

A primeira oradora foi Luísa Alvim, do Arquivo Municipal Alberto Sampaio, de Vila Nova de Famalicão, CIDEHUS.UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, e CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, que apresentou Os Paços do Concelho e Tribunal de V.N. Famalicão: o projeto de Januário Godinho.

Para a autora, “O presente trabalho é resultado da organização, classificação, inventariação levada a efeito pelo Arquivo Municipal Alberto Sampaio (V.N. de Famalicão) sobre o sistema documental O Projecto do Novo Edifício dos Paços de Concelho, Tribunal de Vila Nova de Famalicão do arquiteto Januário Godinho (JG/PNEPCT), datado de 1952 a 1974, que está inserido na série Obras Municipais. Esta é a série com maior quantidade de documentos e também a mais solicitada pelos utilizadores externos do arquivo. Assim, foi objetivo deste trabalho arquivístico autonomizar e destacar este projeto, porque constitui um testemunho notável da obra do arquiteto Januário Godinho, figura incontornável no âmbito da arquitetura portuguesa do século XX.

O JG/PNEPCT, pelo seu relevo, integra o inventário dos edifícios com valor cultural, a nível municipal. A preservação a longo prazo e o acesso contínuo à informação sobre este importante projeto arquitetónico levantou questões ao nível de tratamento arquivístico, dado que possui uma organicidade e relações com a instituição que o originou e acumulou, com implicações diretas no processo de classificação arquivística. Discute-se a questão da manutenção da classificação de origem da produção para o qual foi criado e uma outra opção que permitiu destacar este JG/PNEPCT e dar-lhe uma maior visibilidade, facilitando a consulta também fora do contexto da sua criação e uso. Apresenta-se uma proposta de tratamento arquivístico que permite o acesso e uso digital do projeto pelos investigadores e cidadãos em geral, contribuindo para a salvaguarda e comunicabilidade do património edificado.”

Este painel, e os trabalhos da manhã, encerraram com Julio Cerdá Díaz, do Archivo de la Ciudad en el Ayuntamiento de Arganda del Rey, en Madrid, Espanha, cuja apresentação, efetuada do país vizinho, via Zoom, deu conta de La transformación digital de los proyectos de obra. Estrategias, modelos y ejemplos de proyectos de digitalización.

Como destacou, “En los última década muchas organizaciones han abordado con mayor o menor éxito proyectos para digitalizar los documentos esenciales de sus administraciones, tanto para tramitar electrónicamente los que se producen en la actualidad, como los de aquellos documentos que proceden de la era predigital. Se trata de proyectos especialmente complejos que deben tener una estrategia muy definida, donde es necesario contar con un Sistema de Gestión de Documentos, una Política de Gestión de Documentos que especifique los distintos esquemas de metadatos y un Gestor Documental que nos permita aplicar técnicas masivas de identificación, descripción, enlazado y depuración de datos y documentos.”

Painel III – Os Arquivos e Nós: Reflexões em Redor da Investigação em Arquitetura

O terceiro painel foi moderado por Ana Aves Costa, cuja primeira oradora foi Susana Lobo, da Universidade de Coimbra, Departamento de Arquitetura, e Universidade de Lisboa, CiTUA – Centro em Território, Urbanismo e Arquitetura, com a comunicação Arquivos: “É Proibida a Entrada a Quem Não Andar Espantado de Existir”.

No resumo da sua apresentação, referiu que “Num artigo de opinião do Diário de Notícias de 1998, Ana Tostões apontava “7 razões para a criação do Museu Português de Arquitetura”. Entre elas, alertava para a urgência de “reunir espólios de arquitetos, acervos documentais, e material disperso referente à produção arquitetónica do nosso século (…) São desenhos, fotografias, escritos, correspondência, maquetas, que constituem um conjunto documental precioso e materialmente frágil em risco de dispersão ou mesmo extinção”. “Porque a preservação e valorização dos espólios documentais da arquitetura portuguesa (…) significa, também, promover, quer a qualidade dessa produção, quer a proteção da obra arquitetónica.

Passados mais de vinte anos, esta é a oportunidade para refletir sobre a importância dos arquivos no crescente reconhecimento patrimonial da arquitetura portuguesa do século XX. A classificação como Monumento Nacional da Fundação Calouste Gulbenkian e da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa (Decreto n.º 18/2010, 28 de Dezembro), da Casa de Chá da Boa Nova e das Piscinas de Marés, em Leça da Palmeira (Decreto n.º 16/2011, 25 de Maio), ou da Casa de Serralves, no Porto (Decreto n.º 31/2012, 31 de Dezembro), são disso testemunho e reflexo. À margem destas obras “maiores” da cultura arquitetónica portuguesa, muitas outras se vão revelando fruto do trabalho em arquivo. Percursos periféricos, esquecidos por uma historiografia disciplinar institucional. Também outras formas de expressão vão ganhando visibilidade, do planeamento urbano ao desenho de mobiliário, resultado de uma gradual expansão do próprio conceito de património. Um caminho feito de “descobertas”, “desvios”, por vezes, “desilusões”. É essa a “aventura” da investigação em arquivo. Continuemos, pois, sem medo!”

Por sua vez, Rui  Jorge Garcia Ramos, da Universidade do Porto, Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, apresentou Memória e Esquecimento: Arquivos e Investigação em Arquitetura.

Segundo esta “Pretende-se confrontar duas formas de construir conhecimento em redor de diferentes tipos de arquivo.

Por um lado, o arquivo pessoal com características autobiográficas, como elemento fundamental na organização do mundo das coisas que reclama uma latência própria, evolutiva e constituinte da personalidade. A sua organização é dirigida para construção de um conhecimento pessoal, diverso e subjetivo, mas, não menos rigoroso por isso, disponível a cruzamentos e descobertas imprevisíveis. Pretende preservar a memória, mas convive com o esquecimento.

Por outro lado, a investigação contemporânea em arquitetura exige o urgente regresso ao arquivo. Voltarmos a ver os seus documentos, considerando outras hipóteses, para questionar histórias face uma leitura dos desenhos, dos seus mistérios, numa necessidade de falar de arquitetura quando se fala de arquitetura. Este arquivo, tecnicamente organizado, talvez racional, precisa de dialogar com a necessidade de ser investigado. Assim, estabelecem-se dois lados do “balcão”, onde arquivistas e investigadores precisam de se conhecer e de dialogar sobre os seus objetivos e linguagens. Conhecer a estrutura e o funcionamento de um arquivo é um processo moroso, por vezes tão longo quanto a investigação. A experiência mostra ser uma relação complexa, difícil, porque o primeiro interesse de um não é o do outro. A lógica que levou à organização de um arquivo, não é da mesma utilidade para uma investigação. O que deve permitir refletir se o arquivo é um meio ou um fim em si mesmo. Como conviver com este problema? Uma das hipóteses experimentadas passa pela necessidade de estabelecer pontes entre os dois lados do “balcão”; ou seja, pela formação de um arquivo de investigação, que permitirá ao arquivo ter outras vidas, uma existência arquitectónica.

A investigação em arquitetura é fecundada por diferentes tipos de arquivos. É a partir desta multiplicidade de arquivos, rodeados por contextos plurais, que se poderão estudar as obras e tratar de as desmontar para saber como foram realizadas. Ou, dito de outra forma, como afirma Alfred Brendel, “o edifício da […] personalidade possui mais do que uma porta.”

Painel IV – Os arquivos de arquitetos e os arquivos de arquitetura: Dos métodos de investigação à valorização do património arquitetónico

O derradeiro painel teve a moderação de Daniela Teixeira Fernandes, do Arquivo Histórico Municipal do Porto.

Paulo Tormenta Pinto, do ISCTE-IUL, DINÂMIA’CET – IUL, Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território, foi o primeiro conferencista, com uma apresentação intitulada Investigação Cassiano Branco – hipótese método e crítica.

Como enfatizou, “Esta comunicação aborda os métodos de investigação em torno da obra arquitetónica de Cassiano Branco. O fundo documental do arquiteto e os processos de obra existentes no arquivo intermédio municipal de Lisboa, serão abordados como alicerce de uma meditação crítica, sobre a historiografia da arquitetura portuguesa do século XX.

A obra arquitetónica de Cassiano Branco, em conjunto com as fontes primárias e secundárias que a suportam, definem uma geografia, sobre a qual se traçam itinerários analíticos, onde o arquiteto é entendido como personagem, ora atuante, ora periférica, imersa num enredo complexo para onde convergem as controvérsias de um tempo marcado tanto pelo totalitarismo nacionalista, como pelo deslumbramento da vida moderna.”

A última conferência deste Encontro pertenceu a António Sousa, do Arquivo Distrital de Braga, Universidade do Minho, e Secção de Arquivos de Arquitetura do Conselho Internacional de Arquivos.

Com o título, Na paisagem construída, os “arquivos de arquitectura” não estão sós, “Esta comunicação pretende abordar dois tópicos relacionados com a importância e subsequente valorização do património arquivístico.

Assim, num primeiro momento, parte-se da constatação dos diversos fins em que podem ser valorizados os arquivos de Arquitetura e a informação que contêm. Esta abordagem inclui, também, a diversidade de outros arquivos não específicos da Arquitetura mas que incluem documentação dessa atividade.

Num segundo momento, pretende-se destacar a importância dos arquivos/informação de outras atividades que se relacionam com a Arquitetura. Trata-se de uma breve reflexão sobre a relevância dos arquivos de atividades presentes na conceção, construção e gestão dos ambientes construídos e a importância que têm na construção e preservação da memória coletiva e no desenvolvimento do conhecimento e da cidadania.”

Uma nota para assinalar o intenso, e muito produtivo, debate, que caraterizou a parte final de cada painel, envolvendo arquitetos, investigadores de arquitetura, arquivistas e público em geral, a que apenas o adiantado da hora pôs fim, ainda assim, muito para além da hora prevista para o final dos trabalhos, mostrando bem a importância desta iniciativa, com vista a uma melhor compreensão e comunicação entre os primeiros, os utilizadores dos serviços de informação arquivística, e os profissionais da informação.

As apresentações deste Encontro estão disponíveis em Casa da Arquitectura – 3º Encontro Cidades, Arquitetura e Arquivos no Contexto Ibérico – Direto | Facebook (período da manhã) e 3º Encontro Cidades, Arquitetura e Arquivos no Contexto Ibérico (facebook.com) (parte da tarde).

Este Encontro teve um segundo dia, a 2 de outubro, dedicado a visitar obras de arquitetura de referência, de Álvaro Siza Vieira, em Leça da Palmeira, bem perto de Matosinhos, nomeadamente, às icónicas Piscinas das Marés, Casa de Chá da Boa Nova e Quinta da Conceição, neste caso, para ver a respetiva e campo de ténis projetadas por este notável arquiteto.

Imagem: Cartaz do 3.º Encontro Cidades, Arquitetura e Urbanismo no Contexto Ibérico (autoria: Casa da Arquitectura)

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