(Archivoz) Como é que nasceu o seu interesse pelo mundo dos arquivos e o desejo de trabalhar nesta área?

(Bernardino Castro) Apesar de durante o meu percurso académico ter frequentado vários arquivos com o objetivo de investigação e recolha de informação para apresentação de trabalhos nas diferentes disciplinas académicas, o meu verdadeiro interesse começou quando, já licenciado, uma colega de curso, e atualmente arquivista e Diretora do Arquivo Distrital de Viana do Castelo, a Dr. Clotilde Amaral, me referiu que estava a fazer a pós-graduação em Arquivos. Decidi inscrever-me no curso de Ciências Documentais – variante arquivo, o que veio a ditar o meu futuro e vocação a partir desse momento.

(Archivoz) Fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional até chegar a Diretor do Centro Português de Fotografia, cargo que ocupa desde junho de 2008, e quais as funções que desempenhou.

(Bernardino Castro) Como formação académica passei por uma licenciatura em Ciências Históricas, da Universidade Portucalense terminada em 1991. Posteriormente, fiz a Pós-graduação do curso de especialização em Ciências Documentais – opção de arquivo, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e em seguida a opção em e Biblioteca e Documentação, que serviu para confirmar a minha apetência e maior realização na área de arquivos. No ano de 2005, fiz Pós-graduação, parte curricular do Mestrado em Gestão Pública pela Universidade de Aveiro.

Quanto ao percurso profissional, após a licenciatura estive dedicado ao ensino recorrente e básico a partir de 1991, pelo que percorri escolas desde Sabrosa, Sernancelhe, Cinfães do Douro, Briteiros, Tibães, Valongo e Marco de Canaveses, percurso finalizado no ano de 1998. Apenas terminado o curso de especialização em ciências documentais em 1996, fui convidado a exercer a atividade de arquivista no Arquivo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), onde me mantive até concorrer para técnico Superior de Arquivo para a Câmara Municipal do Porto. Passando a desempenhar essas funções no seu Arquivo Geral a partir de outubro de 1998. Exerci também nesse mesmo serviço, de forma temporária e em substituição, a Chefia de Divisão de Arquivo Geral durante três meses.

De referir igualmente algumas prestações de serviços técnicos na área de arquivo no Museu de Serralves e na Faculdade de Arquitetura. Fui também formador em vários cursos de técnicos de arquivo na Associação de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, e em outros cursos de arquivos e projetos. No âmbito do Ensino Superior fui professor convidado da Universidade Portucalense – Infante D. Henrique, para lecionar as disciplinas: Informação Documental e a de Armazenamento e Recuperação de Informação no Curso de Especialização em Ciências Documentais, desde 2001 a 2008.

Por fim por meio de concurso público, em junho de 2008, entrei como diretor de serviço do Centro Português de Fotografia, funções que detenho atualmente.

(Archivoz) Como referido, atualmente é diretor do Centro Português de Fotografia, que integra a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). Que balanço faz de quase 14 anos de exercício deste cargo e quais são principais projetos que se encontram a decorrer e os que estão planeados para 2022?

(Bernardino Castro) Têm sido anos bastante intensos e com grandes transformações a nível da gestão hierárquica, nomeadamente da direção em que o CPF esteve integrado e tutela ministerial, o que acaba por ter implicações diretas no funcionamento. Até ao ano de 2012 o CPF dispunha de autonomia orçamental, sendo que com a implementação do Plano de Redução e Melhoria da Administração Central do Estado (PREMAC), acabou com essa valência.

Permito-me também um pequeno parêntese para fazer um elogio à diminuta equipa do CPF, porque tem conseguido, apesar de grandes dificuldades, dar o seu melhor com grande dedicação e enfrentado os desafios que vão surgindo, no sentido da resolução dos problemas e de possibilitar ao cidadão comum o usufruto do bem público.

Julgo que é notório este facto, e a título de exemplo (poderia mencionar outros), os resultados do indicador do nº de visitantes, quando entrei em funções, rondava os cerca de 19.000. Passou a aumentar todo os anos atingindo em 2018 cerca de 220.000 visitantes (dado o período de abertura aumentado e a exposição em mostra de Frida Kahlo – As suas Fotografias, que ocorreu nesse ano) e em 2019 com a normalização dos horários de funcionamento, 120.000 visitantes. Entretanto, a conjuntura por que passamos provocou uma baixa nestes números, mas que poderemos hoje afirmar que assistimos a uma recuperação, pois até fevereiro de 2022, já estamos com cerca de 8.790 visitantes, o que é bastante animador.

É claro que sou um eterno insatisfeito e gostaria de ter feito muito mais. Mas também tenho consciência de que com os recursos que tive disponíveis não posso exigir o impossível.

Quanto a projetos a decorrer, realço somente um exemplo relacionado com cada uma das seguintes áreas, a saber:

Ao nível de fundos e coleções arquivísticos temos o projeto de digitalização no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) cujo objetivo é digitalizar cerca de 500.000 mil imagens a serem disponibilizadas aos utilizadores entre 2022 e 2025.

No que diz respeito à coleção de câmaras e equipamentos estamos a desenvolver um sistema de informação que, por um lado, permita a sua gestão (catalogação, aquisições, entradas, saídas, localização, etc) por parte dos técnicos do CPF; e, por outro, disponibilize o catálogo em linha, numa área de consulta pública. O lançamento deste catálogo está previsto para 19 de agosto de 2022, Dia Mundial da Fotografia.

Quanto à área da Biblioteconomia, tendo em conta o importante acervo bibliográfico especializado em fotografia detido pelo CPF com cerca de e 34.000 espécies, pretende-se entre o ano de 2022 e 2023 promover o acesso em linha ao catálogo.

Com toda a certeza que estes três projetos terão um grande impacto de melhoria nos serviços que o CPF presta, aumentando o grau de satisfação dos utilizadores, não só a nível nacional como internacional.

(Archivoz) Gostaria que nos apresentasse o Centro Português de Fotografia, no que respeita à sua localização, história, missão e serviços, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o seu melhor conhecimento.

(Bernardino Castro) O Centro Português de Fotografia foi criado como Direção-Geral, pelo Decreto-Lei n.º 160/97, publicado no Diário da República de 25 de junho.

Em 2007, e no quadro das orientações definidas pelo Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE), o Centro Português de Fotografia foi extinto por fusão com o Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo e surge como Direção de serviços tutelada pela Direção-Geral de Arquivos.

No âmbito do Plano de Redução e Melhoria  da Administração Central (PREMAC) em 2012, na sequência do Decreto-Lei nº103/2012 de 16 de maio, a Portaria nº192/2012 de 19 de junho, determina o enquadramento na estrutura nuclear da Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, onde se mantêm até hoje como Direção de serviços.

Em 1 de junho de 2011 foi definida em conjunto com toda a equipa a sua missão, a visão e valores que ainda se mantêm em vigor:

Como missão o CPF tem por finalidade assegurar a conservação, valorização e proteção legal do património fotográfico, mediante o apoio à formulação de políticas, o tratamento técnico arquivístico e promoção do acesso à informação fotográfica, em benefício das presentes e futuras gerações como fonte de conhecimento para o desenvolvimento cultural, social e económico.

Segue igualmente uma visão de se estabelecer como um centro arquivístico de excelência e um compromisso com o desenvolvimento continuado de técnicas de tratamento, preservação, conservação e difusão do património fotográfico, direcionado para os diferentes tipos de públicos, atingindo um nível de referência nacional e internacional.

Considerou-se igualmente importante defender determinados valores como a inovação, na busca de forma permanente novos produtos e serviços que satisfação as necessidades potenciais dos cidadãos, implementando novos métodos  nas práticas da organização orientados para os utilizadores;  o trabalho em equipa, assegurando o respeito mútuo, comunicar abertamente e incentivar a colaboração, mantendo ao mesmo tempo a responsabilidade individual como contributo para uma cultura organizacional proactiva;  a qualidade, na prestação de um serviço exigente, com a utilização plena de todos só recursos disponíveis, obedecendo a todos só procedimentos, com vista à satisfação de todas as partes envolvidas; e por fim a acessibilidade à informação contida nos documentos fotográficos que custodiamos de forma a assegurar a disponibilização da mesma ao cidadão, tanto para efeitos de concretização pessoal e profissional , como também para incrementar a participação democrática e de cidadania.

Para prossecução destas premissas, o CPF dispõe de um diretor de serviços e dezassete trabalhadores que exercem o quadro de competências, estruturando as atividades em áreas funcionais, de reduzida dimensão, com responsabilidades definidas, sem prejuízo de uma interligação horizontal em domínios de evidente pluridisciplinaridade.

As áreas são as seguintes: – Arquivística, que contém a 3 subáreas aquisições; Classificação, avaliação e descrição; Coleção Nacional de Fotografia. – Conservação e Restauro.   – Digitalização e Reprodução. – Unidade Informativa/Biblioteca Pedro Miguel Frade. – Núcleo Museológico António Pedro Vicente. – Exposições. – Extensão Cultural e Educativa. – Comunicação, Imagem e Mecenato. – Apoio, Planeamento e Gestão (subáreas Edifício e infraestruturas, equipamentos e informática; Expediente e economato; Recursos humanos, tesouraria e aprovisionamento).

Dos serviços prestados é de destacar: as aquisições; consultoria e apoio técnico nas áreas de gestão de sistemas de arquivo e de documentos, digitalização e reprodução de documentos fotográficos, conservação e restauro; catalogação bibliográfica e ainda conceção e montagem de exposições; serviços em linha de pesquisa e cedência de imagens através do sistema Digitar e CRAV, respetivamente; cedência de espaços; atividades de extensão cultural e educativa, desde visitas guiadas, workshops, conferências, e diversas atividades desenvolvidas para assinalar determinados dias comemorativos; exposições temporárias e permanentes; loja com um vasto conjunto de publicações de fotografia e merchandising; e por fim um serviço de comunicação e divulgação, seja de atividades desenvolvidas pelo CPF, seja dos seus fundos, coleções e outras curiosidades relacionadas com a fotografia e edifício.

E a propósito do edifício sede do CFP, a Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, há que referir que se tratada de uma peculiar e curiosa estrutura arquitetónica em planta trapezoidal, tendo durado quase 30 anos a ser construído desde o seu início em 1767.  De mencionar que tal como o nome indica, o edifício tinha duas funções, a de tribunal com espaços mais cuidados em termos de acabamentos, com pormenores construtivos elaborados e a do espaço reservado à cadeia que obedecia às conceções punitivas que vigoravam na época, em que a segurança ditava a utilização de grossas paredes graníticas e grades duplas no piso térreo, etc.

A título de curiosidade é de mencionar que a distribuição dos presos nos vários espaços seguia critérios que deviam ter em conta o tipo de crime cometido, o estatuto social do detido e a capacidade para pagar a carceragem.

Entre tantos factos singulares ligados à história deste edifício, não posso deixar de referir o encarceramento do grande escritor Camilo Castelo Branco, e assinalar que foi neste mesmo espaço, mais propriamente no quarto de S. João, que escreveu a sua importante e reconhecida Obra – Amor de Perdição. Note-se que este espaço prisional funcionou como tal, até alguns dias após a revolução de abril de 1974. Depois dessa data foi votado ao completo abandono até que em 1987, quando a Direção Geral do Património do Estado o cedeu ao Instituto Português do Património Cultural (IPPC), começou-se a fazer algum trabalho de restauro. Entretanto, a equipa dos Arquitetos Eduardo Souto Moura e Humberto Vieira concluem as obras e adaptam o edifício às suas novas funções com a intervenção no ano de 2000.

Pese embora, desde junho de 1933 o imóvel estivesse classificado como de interesse público, só em 2017 recebe a classificação de Monumento Nacional, após a solicitação por parte do Centro Português de Fotografia.

(Archivoz) O Centro Português de Fotografia tem à sua responsabilidade um vasto e notável conjunto de fundos arquivísticos e coleções. Qual a dimensão do mesmo, que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(Bernardino Castro) O conjunto documental que o CPF detém evidencia as atividades e funções de empresas, nomeadamente as fotográficas, organismos/instituições, pessoas e famílias, com predomínio de documentação imagética.

Assim, sob sua responsabilidade direta, tem atualmente um total de 153 fundos arquivísticos e coleções, dos quais 137 têm ficha de descrição ao nível geral; cerca de 76.243 estão descritos ao nível de documento simples, dos quais 45.505 com imagens disponíveis online.

Em termos de destaque poderia referir vários fundos e coleções, talvez os mais solicitados como os fundos Fotografia Alvão, Lda. e Aurélio da Paz dos Reis. Pela sua importância nacional e internacional, salientaria a Coleção Nacional de Fotografia, composta por 8.621 documentos que permite compreender, entre outras coisas: os diferentes processos fotográficos e a sua evolução, desde os primórdios daguerreótipos até ao digital contemporâneo; os movimentos e tendências surgidos ao longo do tempo e patentes em muitas outras expressões artísticas.

De modo a proporcionar o acesso à informação aos arquivos e coleções temos vindo a produzir instrumentos de descrição documental acessíveis através do nosso serviço de pesquisa on-line.

Para facilitar a pesquisa no site do CPF, o utilizador pode consultar uma Lista alfabética dos arquivos e coleções custodiadas, autores e respetivos códigos de referência.

Contudo, há que ter em atenção que alguns registos, embora constantes da base de dados DigitArq, poderão não estar visíveis para o exterior por questões legais que impedem a sua acessibilidade e comunicabilidade, ou até mesmo reprodução, pelo que é aconselhável contactarem os serviços da Unidade Informativa/Biblioteca Pedro Miguel Frade, para averiguarem a existência de documentos que possam ser consultados localmente.

(Archivoz) E no que respeita à abertura do Centro Português de Fotografia à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo, desde logo, por exemplo, no que respeita a exposições e eventos?

(Bernardino Castro) A existência do CPF só faz sentido se servir a comunidade e interagir com a mesma. Precisamente nessa linha é que qualquer arquivo tem na sua vertente, para além da   recolha, tratamento e salvaguarda da documentação, outra função que é a de fazer chegar a informação que detém aos seus utilizadores, não apenas de uma forma reativa, mas igualmente proativa. Daí que na base dessa ligação com a comunidade se deve considerar o serviço de aquisições que facilita o enriquecimento do acervo do CPF. Estas são fundamentais para a proteção e salvaguarda do património arquivístico fotográfico, não raras vezes em risco de perda irrecuperável.

Para o tratamento destes fundos e coleções muitas vezes é essencial o apoio da comunidade para identificação de imagens, sobretudo quando não existe qualquer pista que nos garanta essa informação. Temos experiência de alguns casos em que essa ajuda se revelou preciosa.

Por outro lado, a crescente disponibilização online de registos descritivos e sobretudo das imagens digitais de diferentes fundos e coleções, permitem alcançar um público cada vez mais vasto e heterogéneo.

Mas para além desta forma de difusão/Divulgação, tem sido política do CPF fomentar a abertura e a aproximação à comunidade através de iniciativas utilizando outros meios e projetos para o efeito, sejam presencias ou através do social media, como:

– visitas guiadas;

– workshops para crianças;

– conferências;

– atividades a evocar dias comemorativos com o Dia internacional da Pinhole, Dia Mundial da Fotografia, Dia Nacional dos Centros Históricos, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, Dia Internacional dos Arquivos, entre outros.

– atividades social media como o projeto:

  • Cronofoto, com a presentação de factos cronológicos apresentados via social media
  • Noticias dos Arquivos/CCEF/.
  • destaques de publicações e produtos da loja
  • CPFactos

#asnossascuriosidades

Este projeto visa dar a conhecer factos singulares sobre o CPF, sobre a sua sede, a Antiga Cadeia da Relação do Porto, e sobre o trabalho desenvolvido

  • CPFin

#mostraranossacasa

Este projeto visa mostrar ao nosso público, de uma forma original e apelativa, aquilo que é normalmente invisível ao olhar dos nossos visitantes e utilizadores ou que então aquilo que pode passar despercebido numa visita à nossa sede.

– edição de publicações estando a ser preparada uma edição para breve em formato online;

– e muitas outras atividades que mesmo não diretamente ligadas à fotografia, como espetáculos ou concertos, captam novos públicos e indiretamente leva-os ao conhecimento da fotografia e dos arquivos de que o CPF é detentor.

Mas a grande aposta do CPF na área da divulgação são as exposições, além de que o próprio edifício tem um espaço funcional para esse propósito bastante significativo.

Tem patente duas exposições permanentes, uma com o Núcleo Museológico António Pedro Vicente, sobre câmaras equipamentos fotográficos e outra, a Sala memória com a exposição Ecos do Tempo, que evoca informação sobre o Edifício em termos arquitetónicos e de organização do espaço funcional ao longo da história, além da menção de presos célebre e a relação da fotografia com administração da cadeia.

Quanto às exposições temporárias, fico feliz por, em conjunto com a minha equipa, poder desenvolver um programa que visa defender a pluralidade e diversidade seja em termos de fotógrafos e fundos dos nossos arquivos e coleções ou com parcerias com fotógrafos e instituições externos ao CPF, bem como, pela diversidade dos tipos e correntes fotográficas.

Numa entrevista de Clément Chéroux, curador na área da fotografia do Museu MOMA, refere duas figuras da história da Fotografia, ambos fotógrafos e curadores, Steichen e o Szarkowski, que tem posições antagónicas, um numa vertente mais popular e outro numa vertente mais conceptual, mencionando que atualmente a sua posição não é da escolher uma ou outra posição, mas sim adotar uma abordagem holística da fotografia. Esta é igualmente uma posição que partilho e que procuro aplicar no CPF ao apresentarmos cerca de 10 a 13 exposições temporárias por ano e nas apresentações do documento do mês em que é selecionando   um conjunto documental sobre um tema a evocar anualmente apresentado em três vertentes, a arquivística, bibliográfica e museológica.

(Archivoz) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde meados de março de 2021, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Centro Português de Fotografia, de forma a enfrentar esta nova e difícil realidade, no que respeita à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na disseminação da informação?

(Bernardino Castro) Em todas as fases da pandemia e do confinamento, fomos defrontados com grandes desafios de adaptação e de desenvolvimento de alternativas, sempre num curto espaço de tempo. O importante foi a tentativa, sempre que possível, de manter as atividades e causar o menor impacto nos utilizadores e trabalhadores.

Para efeitos essa concretização foram fundamentais as condições criadas a nível tecnológico por parte da Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB) e a disponibilidade e vontade de toda a equipa do CPF.

A implementação do teletrabalho introduziu alterações claras nas relações laborais e na forma como nos organizamos para trabalhar. Trouxe muitas oportunidades, mas também trouxe muitos desafios, nomeadamente de gestão deste novo processo, não só pela direção como por cada trabalhador, pois era tudo novidade. A interpenetração entre a vida profissional e a vida familiar, ou o direito à desconexão e outras situações, levaram a determinadas dinâmicas que os trabalhadores e a direção tiveram de conciliar. Somos todos diferentes e como resultado deste impacto, em alguns casos este regime foi positivo e até gostariam de dar continuidade, enquanto outros não viam a hora de regressar à normalidade.

Um dos motivos que considero que também permitiu que o processo decorresse com alguma estabilidade, foi a dimensão da equipa, que é relativamente pequena, que permitiu manter um contacto regular quer da direção com a mesma quer entre os seus membros.

Durante este processo em alguns casos foi possível conduzir os esforços para tarefas que vinham sendo eternamente adiadas e interrompendo algumas que pelas suas caraterísticas não podiam ser executadas em teletrabalho.

Os serviços de atendimento ao público da unidade informativa mantiveram-se em funcionamento, mesmo durante os períodos de confinamento, com recurso aos meios digitais e ao atendimento à distância através da utilização do balcão eletrónico CRAV. Por norma a consulta dos documentos fotográficos é feita essencialmente por meios digitais, salvo raras e devidamente autorizadas exceções. Aliás, se bem me recordo durante esse período de confinamento só surgiu uma situação em que era necessária a consulta presencial, mas como não era um caso urgente e inadiável foi possível protelar para o período pós confinamento.

 A consulta presencial na Biblioteca Pedro Miguel Frade teve de encerrar durante o confinamento e após esse período retomou através da marcação prévia.

O maior impacto foi sobretudo ao nível a loja do CPF que esteve encerrada e também o centro de exposições. O que neste último caso obrigou a reagendamentos, reorganizações administrativas dos processos e alguns cancelamentos.

Este constrangimento de programação levou a reforçar a utilização das redes sociais, como por exemplo através dos projetos atrás mencionados: CPFactos #asnossascuriosidades e o CPFin #mostraranossacasa, o que resultou num aumento expressivo de interações.

Contudo, apesar dos constrangimentos mencionados todas as solicitações foram sendo respondidas por via digital, no cumprimento das tarefas nucleares de resposta aos utilizadores do arquivo.

(Archivoz) Uma última questão, tendo em conta o seu percurso nesta área, como é que vê o futuro dos arquivos em Portugal, em geral, e o das instituições que têm fundos e coleções de fotografia à sua responsabilidade, em particular, e quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades para os respetivos profissionais?

 Fazer alguma previsão do futuro seja dos arquivos seja sobre qualquer outra matéria é sempre difícil porque não se sabe o que esse mesmo futuro nos reserva. No entanto, há que olhar em frente com otimismo.

Victor Hugo escreveu o seguinte verso que acho muito interessante:

O futuro tem muitos nomes.
Para os fracos é o inalcançável.
Para os temerosos, o desconhecido.
Para os valentes é a oportunidade.

E é esta a postura que acho que temos de adotar. Não perder as oportunidades que surgem ou que se conseguem criar.

Como primeiro ponto, com toda a certeza que no que diz respeito aos arquivos, e em particular aos fotográficos, uma continuidade está assegurada. O desenvolvimento tecnológico digital proporcionou aos arquivos e instituições a oportunidade de expandirem a acessibilidade aos documentos fotográficos para além das estruturas dos edifícios onde são conservados ou expostos. Pese embora não seja uma substituição do original analógico, é o fundamental para o utilizador/pesquisador. Simultaneamente, o grande desafio para as instituições é que deixam de servir uma comunidade local, ou mesmo nacional e passam para uma comunidade global à qual têm de responder.

Contudo, para chegar a esse nível de divulgação ou dar continuidade à mesma, com uma visão arquivística, há todo o um caminho a percorrer. O ponto fulcral prende-se com a decisão política, que de acordo com as influências pode ou não corresponder a essa mesma visão técnica. No entanto, independentemente do espírito decisional e do peso que as atuais políticas públicas para os arquivos possam ter, a grande questão será sempre os recursos que se queiram/possam alocar, isto é, sejam recursos financeiros, humanos, materiais ou de infraestruturas. De nada adianta qualquer discussão sobre futuro de arquivos fotográficos e suas técnicas de tratamento de informação se não forem reforçados os investimentos nos mesmos.

Também não é novidade que a cultura, aliás como outras áreas, atravessa grandes dificuldades, essencialmente financeiras, o que provoca uma rutura em todo e qualquer procedimento que possa melhorar o futuro dos arquivos fotográficos. Muito do que é feito pelos arquivos fotográficos se deve essencialmente ao trabalho indispensável e, ao esforço e dedicação das equipas que compõem as instituições. E tudo o que fazem é com base nos parcos recursos disponíveis, conseguindo operar verdadeiros milagres ou tentam minimizar os problemas que não foram resolvidos durante décadas.

E a propósito de equipas é também de realçar um outro dos problemas que diz respeito à formação, nomeadamente ao nível médio, em que se assiste à escassez de profissionais e que perante a impossibilidade do seu recrutamento, coloca em causa a existência da respetiva carreira especializada, entretanto eliminada.

Pelo que urge o reforço do papel do arquivista ou cientista de informação na sociedade, para esta compreenda e olhe com respeito esta profissão que assegura a disponibilidade da informação.

Concluiria que estamos num período em que será possível ver o renascimento dos arquivos ou o seu rápido declínio pelo que há que enfrentar os desafios de:

– Resiliência financeira e organizacional

– Demonstração de um envolvimento robusto com tecnologias, novos sistemas e produtos/serviços de valor

– Desenvolver urgentemente a liderança dentro da profissão para que a mensagem passe aos decisores.

Os profissionais que gerem os arquivos, nomeadamente de documentos fotográficos têm por missão criar acesso a informação fiável e utilizável ao longo do tempo. Desta forma, teremos sempre um papel extremamente poderoso, único e relevante a desempenhar na era da informação.

Imagem cedida pela entrevistado: Centro Português de Fotografia

Bernardino Castro

Bernardino Castro

Diretor do Centro Português de Fotografia

Licenciado em Ciências Históricas pela Universidade Portucalense, com Pós-graduação em Ciências Documentais na área de arquivos e posteriormente na área de biblioteca e documentação pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Fez também a pós-Graduação em Gestão Pública pela Universidade de Aveiro. Foi professor do ensino recorrente e básico e professor convidado da Universidade Portucalense no Curso de Especialização em Ciências Documentais; Trabalhou como Técnico superior de arquivo na FLUP e no Arquivo Geral da CMP. Exerceu igualmente funções de chefe de divisão do arquivo geral em regime de substituição e desde 2008 que dirige o Centro Português de Fotografia. Autor ou colaborador em comunicações e publicações nas áreas da arquivística e fotografia; Tem participado como conferencista ou membro de conselho cientifico em encontros a nível nacional e internacional na área de arquivos. Colabora como membro júri de vários concursos de fotografia.

 Degree in Historical Sciences at Portucalense University, with postgraduate degree in Documentary Sciences in the area of archives and later in the area of library and documentation by the College of Arts of the University of Oporto. Postgraduate degree in Public Management at the University of Aveiro. Was a teacher of recurrent and basic education and a visiting professor at the Portucalense University in the Specialization Course in Documentary Sciences; Worked as Senior Archiving Technician at FLUP (College of Arts of the University of Oporto) and on the General Archive Oporto City Hall. Has held the position of head of division of the general archive on a replacement basis and since 2008 directed the Portuguese Center for Photography. Author or collaborator in communications and publications in the areas of archiving and photography; Participated as a lecturer or member of the scientific council in national and international archives meetings. Collaborate as a jury member of several photography contests.

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