“Uma história universitariamente interrogativa e uma pesquisa inconformista e radiográfica em Arquivos e Bibliotecas permite a criação de ciência nova”: Entrevista com Paula André

Entrevistámos Paula André, Professora do Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE-IUL, coordenadora da Área Científica de Teoria e História da Arquitectura e Urbanismo, e membro da Comissão Científica e investigadora integrada do DINÂMIA’CET-Iscte.

(ARCHIVOZ) Não poderia deixar de começar por destacar o seu extraordinário e diversificado currículo, mensurável no seu percurso académico, experiência docente, orientações, publicações, conferências/workshops e comunicações, projetos de investigação, cargos de gestão académica, organização/coordenação de eventos, etc. Fale-nos do seu percurso formativo e profissional até chegar a Professora Auxiliar do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do ISCTE-IUL.

(Paula André) Em 1984 realizei o Curso de Formação Plástica (pintura e desenho de modelo) na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, e entre 1986-1988 dirigi a Galeria de Arte “Atelier 2” no Atelier de Serigrafia do António Inverno.

Entre 1993 e 1999 foi Professora de História da Arte no Curso de Formação de Bailarinos da Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, dirigida pelos Professores Graça Bessa e António Rodrigues, pelos quais nutro uma profunda admiração ética e profissional.

Concluí o Mestrado em História da Arte (FCSH-UNL) em 1999 com a dissertação “Os Cemitérios de Lisboa no Século XIX: Pensar e Construir o Novo Palco da Memória”, orientada pela Professora Margarida Acciaiuoli da qual herdei o sentido de rigor na investigação, o vicio de habitar os Arquivos e as Bibliotecas e que procuro incutir nos alunos.

Em 2010 concluí o Doutoramento em Arquitectura (“Arquitectura Moderna e Portuguesa: Lisboa 1938-1948”) no Iscte-IUL onde em 1999 iniciei a docência ainda na Licenciatura em Arquitectura e no Mestrado Desenho Urbano, prosseguindo no Mestrado Integrado em Arquitectura, no Mestrado em Museologia e depois Gestão e Estudos da Cultura e no Doutoramento em Arquitectura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos.

Em Parceria com a Câmara Municipal de Lisboa em particular com o Arquivo Municipal e agregando um conjunto de professores nomeadamente contigo e com o Ricardo Agarez em 2020 submeti no Iscte a proposta de criação de um Curso de Especialização e de um Curso de Mestrado em “Arquitectura e Cultura Visual em Lisboa”, suportados nas fontes dos arquivos de arquitectura, que assumem um papel particularmente importante no âmbito da actividade profissional e científica na área da arquitectura e áreas afins, e investindo num processo de produção de conhecimento integrado (privilegiando o acesso aos arquivos, o contacto directo com espólios dos arquitectos e com processos de obra, assim como o contacto in-situ na cidade). O Arquivo Municipal de Lisboa, base científica e documental, detém espólios de um conjunto de arquitectos com considerável obra em Lisboa (José Luís Monteiro; Cassiano Branco; Keil do Amaral; Ruy Jervis de Athouguia; Alberto Souza Oliveira e brevemente o espólio de João Bento d’Almeida) assim como o acervo dos processos de obras particulares, cruciais enquanto fontes primárias da investigação a desenvolver e que permitem garantir a prossecução de estudos monográficos dos arquitectos e da arquitectura em Lisboa. O contacto com os espólios permite obter informação sobre a formação dos arquitectos, as suas viagens do olhar, a sua produção critica e teórica, os seus ateliers, as encomendas e concursos, os projectos não realizados que no conjunto constitui parte do universo da cultura arquitectónica e da cultura visual

(ARCHIVOZ) Tendo em conta a sua notável experiência docente no ISCTE-IUL, que referiu na resposta anterior, e de Membro da Comissão Científica do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território – DINÂMIA’CET-IUL, em que é Investigadora Integrada, encontra-se, de há muitos anos para cá, bastante próxima do mundo dos arquivos. O que recorda das primeiras experiências com estes serviços de informação, que retrato é que nos consegue transmitir dos mesmos nessa altura?

(PA) Uma história universitariamente interrogativa e uma pesquisa inconformista e radiográfica em Arquivos e Bibliotecas permite a criação de ciência nova, a permanente revisão historiográfica, o desvendar de vícios e discursos hegemónicos, e a abertura a novas perspectivas de entendimento do hipertexto da arquitectura. A pesquisa em Arquivos permite montar atlas e constelações de relações, sempre como ponto de partida e não de chegada. O número crescente de Arquivos de Arquitectura (Câmara Municipal de Lisboa, Ordem dos Arquitectos, Fundação Calouste Gulbenkian, Forte de Sacavém, Fundação Serralves, Casa da Arquitectura, Fundação Marques da Silva entre outros) tem vindo a potenciar investigações monográficas e interpretações sintéticas.

A investigação para a dissertação de mestrado centrada no séc. XIX foi realizada maioritariamente no Arquivo Municipal de Lisboa: Arco do Cego, onde passei longos meses mergulhada nos processos dos Jazigos e estabeleci laços de afecto com as magníficas funcionárias, mas também em outros Arquivos e Bibliotecas nacionais (Arquivo Fotográfico, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Histórico de Obras Públicas, Biblioteca Nacional de Portugal) e internacionais (Bibliothèque Nationale de France, Biblioteca Nacional de España).

A investigação para a tese de doutoramento centrada no séc. XX foi realizada em Arquivos e Bibliotecas nacionais (Arquivo Municipal: Bairro da Liberdade, Gabinete de Estudos Olisiponenses, Arquivo Fotográfico, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Arquivo do Forte de Sacavém, os Espólios de Arquitectos e o Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian).

No âmbito do projecto “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)” a investigação foi realizada em Arquivos e Bibliotecas nacionais (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional de Portugal, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa: Arco do Cego, Fotográfico, Arquivo Fílmico e Videográfico da Cinemateca Portuguesa, Biblioteca da Ordem dos Arquitectos) e internacionais (Biblioteca Nacional de España, Biblioteca do Colegio Oficial dos Arquitectos de Madrid).

(ARCHIVOZ) Entre 2017 e 2019 coordenou a Linha Temática “Imagens das Realizações Materiais” do Projeto da Fundação para a Ciência e a Tecnologia “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)”, uma parceria do DINAMIA’CET-IUL e a FCSH-UNL. Quais foram os principais resultados e evidências produzidas nesse sentido?

(PA) Em 2016 fui convidada pela Professora Filomena Serra a integrar a equipa do projecto “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)”. Na sequência da investigação desenvolvida pela equipa em Bibliotecas e Arquivos editamos revistas, livros, produzimos exposições, organizamos colóquios, seminários, cursos de verão, workshops, entre outros encontros científicos (https://printedphotography-pt.weebly.com/). Coordenei a Linha Temática “Imagens das Realizações Materiais” que incluiu as temporalidades e as escalas das imagens arquitectónicas e urbanas; da cultura popular e da paisagem; do património e do restauro de monumentos; do turismo e do cinema. O estudo procurou desvendar os mecanismos de comunicação visual e os significados da exibição de Portugal. A fotografia revelou-se instrumento documental, meio discursivo, dispositivo operativo e ferramenta matricial da imagem e da propaganda de Portugal no período do Estado Novo (1934-1974). No âmbito da investigação devo destacar em particular a pesquisa desenvolvida no Arquivo do Secretariado da Propaganda Nacional/Secretariado Nacional da Informação no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no Arquivo Fílmico e Videográfico da Cinemateca Portuguesa e na Biblioteca Nacional de Portugal onde tínhamos o privilégio de ter um gabinete.

(ARCHIVOZ) Em 2020 publicou o livro “Construir com imagens: fotogenias da arquitetura”, editado pela Direção Regional da Cultura do Alentejo. O que nos pode dizer sobre esta obra?

(PA) Em 2019 fui desafiada pela Professora Sofia Aleixo a reunir numa exposição parte da minha colecção de publicações dos anos 30 a 70 do século XX (livros, revistas, jornais, catálogos, folhetos…) adquirida ao longo do tempo em Alfarrabistas. A Exposição realizou-se na Direcção Regional da Cultura do Alentejo com a colaboração do arquitecto Luís Marino e da Doutora Ana Borges e o catálogo contou com a colaboração da doutoranda Margarida Marino.

Entre 1933 e 1974, a construção da imagem de Portugal foi sendo concretizada através de fotografias editadas que constituíram o ensaio fotográfico da designada Política do Espirito. Essa narrativa visual, publicada em múltiplos suportes (jornais, revistas, guias, livros, catálogos, folhetos…) e encenada em espaços expositivos vários (pavilhões, museus, feiras…), foi realizada através do trabalho desenvolvido por um colectivo de caçadores e editores de imagens. Esse colectivo era constituído por fotógrafos, arquitectos, pintores, desenhadores, designers gráficos e pela equipa de decoradores do Secretariado da Propaganda Nacional/Secretariado Nacional da Informação, que se revelariam orquestradores de um Portugal gráfico fixado na mise en page de publicações nacionais e internacionais.

A exposição “Construir com Imagens: fotogenias da arquitectura” procurou revelar a politização e a estetização das imagens fotográficas, descortinando os mecanismos e significados da engenharia visual de um Portugal editado. Para o realizar seleccionei um conjunto de publicações (O Século, Diário da Manhã, O Noticias Ilustrado, O Século Ilustrado, Panorama. Revista Portuguesa de Arte e Turismo, Revista Municipal, Revista Ocidente, Arquitectura. Revista de Arte e Construção, A Arquitectura Portuguesa e Cerâmica e Edificação (reunidas), Portugal País de Turismo, Lisboa no Passado e no Presente, Lisbon and its charm, Visite Lisboa, SNI um instrumento de Governo, Guia da Exposição de Obras Públicas, Estradas de Portugal, Casas Económicas, 30 anos de Estado Novo…) que exibiam nas suas páginas e por meio de dispositivos híbridos de visualização (fotografias, fotomontagens, gráficos, tipografias), a fotogenia da arquitectura, da paisagem, dos monumentos, das obras públicas e da cultura popular, assumindo-as como campos discursivos da meta-imagem de Portugal.

(ARCHIVOZ) Coordena o “Laboratório Colaborativo Dinâmicas Urbanas, Património, Artes. Seminário de Investigação, Ensino e Difusão”, é membro da Asociación de Historiadores de la Arquitectura y el Urbanismo (AhAU) e desenvolve investigação no grupo “Cidades e Territórios” do DINÂMIA’CET-IUL centrada nas áreas: Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo; Dinâmicas Urbanas. Que informações é que, tanto quanto possível, nos pode adiantar sobre os projetos em que se encontra envolvida, naturalmente indesligáveis dos arquivos, em termos de investigação?

(PA) O “Laboratório Colaborativo: Dinâmicas Urbanas, Património, Artes. Seminário de Investigação, Ensino, Difusão”, iniciado em 2017 e contando já com seis edições, é coordenado por mim em parceria com os Profs Paulo Simões Rodrigues e Sofia Aleixo (Universidade de Évora/CHAIA), com a Profª Margarida Brito Alves (Universidade Nova de Lisboa/IHA), com o Prof Miguel Reimão Costa (Universidade do Algarve/CEAACP), com a Profª Ana Esteban Maluenda (Universidad Politecnica de Madrid), com as Profªs Maria Leonor Botelho e Maria Lúcia Rosas (Universidade do Porto/CITCEM), com as Profªs Maria Teresa Perez Cano e Blanca del Espino Hidalgo (Universidade de Sevilla/HUM700/IAPH), com o Prof Rodrigo de Faria (Universidade de Brasília/GPHUC), com o Prof Sérgio Proença (Universidade de Lisboa/CIAUD), com o Prof Alexandre Pais (Museu Nacional do Azulejo) e com o Arq João Branco Pedro (Laboratório Nacional de Engenharia Civil). O Laboratório procura promover e animar a capacidade das instituições universitárias e unidades de investigação para colaborarem entre si e com múltiplos agentes, promovendo ambientes criativos e de reunião de massa crítica.

Nos Seminários de Investigação, Ensino, Difusão do Laboratório são apresentadas investigações (Dissertações de Mestrado e Teses Doutoramentos em curso ou terminadas) das Universidades, Departamentos e Centros de Investigação envolvidos e centradas nas áreas das dinâmicas urbanas (que engloba o campo alargado do urbanismo), do património (que engloba o campo alargado da arquitectura) e das artes (que engloba o campo alargado da história da arte). Através da partilha do conhecimento pretende-se instigar a socialização de dúvidas e estimular novas reflexões, sendo incentivado o respectivo debate alargado ao público em geral. Nos dias 21 e 22 de Outubro de 2021 irá realizar-se em Sevilha no Instituto Andaluz del Patrimonio Histórico (IAPH) a 7ª edição do Laboratório Colaborativo.

Neste momento e naturalmente indesligável da pesquisa em Arquivos e Bibliotecas estou a organizar o Colóquio “Compromissos com o Meio Ambiente. 50 anos da Conferência de Estocolmo (1972-2022)” a realizar dia 3 de Junho de 2022 no Iscte-IUL.

(ARCHIVOZ) Considerando a primeira questão, a par da participação em projetos, na qualidade de Investigadora, como é que encara o futuro dos arquivos de arquitetos e de arquitetura em Portugal, e quais é que pensa serem os grandes desafios que os profissionais dos arquivos têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e comunicação da memória desses espólios?

(PA) No âmbito dos Arquivos e Bibliotecas entendo que a preservação deveria ser assumida como campo expandido, assumindo a dimensão de recolha, de tratamento e de disponibilização em acesso aberto, com múltiplas possibilidades de navegação, visualização e interacção, embora esteja consciente das limitações do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.

Parece-me absolutamente pertinente a proposta (1970) do arquitecto Pedro Vieira de Almeida de criação de um núcleo de estudo de problemas arquitectónicos, no qual se aprofundaria um melhor entendimento do fenómeno da arquitectura em termos ecológicos, se elaboraria um arquivo de desenhos e projectos dispersos em casas de familiares, com particular interesse para projectos não realizados, assim como também se constituiria um arquivo fotográfico documental com particular relevância para obras condenadas a desaparecer.

(ARCHIVOZ) Um assunto que, infelizmente, continua a marcar a atualidade é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que colocaram novos desafios aos serviços de informação arquivística, fazendo com que os seus responsáveis e colaboradores tivessem de se adaptar a novas metodologias e formas de trabalhar. Procurando fazer uma análise desta nova realidade, que começou em meados de março de 2020, entende que, genericamente, as instituições portuguesas que têm à sua responsabilidade arquivos de arquitetos e de arquitetura, foram capazes de se adaptar e responder eficazmente aos desafios e oportunidades surgidas?

(PA) No actual contexto as fragilidades já existentes foram naturalmente agravadas. Procuro que os alunos realizem as suas investigações com enfoques e metodologias no contacto directo com as fontes e fundos documentais, mas muitas vezes é difícil conciliar os tempos de resposta aos pedidos e as condicionantes de consulta dos Arquivos com o calendário escolar. Parece-me crucial investir numa digitalização que permita criar acessos abertos e mapas de relações e de conexões.

Imagem cedida pelo entrevistado:
Cristino da Silva, “Perspetiva de um Bairro Jardim a Edificar em Lisboa” (pormenor), P. 1933 (não construído), in, FCC, coleções digitalizadas, Espólio Cristino da Silva


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

Banner portugués

Puedes dejar un comentario

%d bloggers like this: