história ambiental

“Os arquivos continuarão a representar um importante património enquanto repositório da história e identidade de todos e cada um de nós”: Entrevista com Olegário Pereira

Entrevistámos Olegário Pereira, Historiador e investigador na área da História Ambiental , professor universitário, sobre a sua experiência em arquivos de Portugal e do Brasil.

(ARCHIVOZ) Qual foi a sua primeira experiência de pesquisa em arquivos?

(Olegário Pereira) As primeiras experiências em arquivos, enquanto visitante ou frequentador, surgiram quando já cursava a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Recordo-me particularmente de duas. A primeira, aquando de uma visita ao Arquivo Distrital do Porto, realizada numa unidade curricular de História Medieval e conduzida, se não me falha a memória, por Luís Carlos Amaral e Paula Pinto Costa, docentes da referida Faculdade. Durante a mesma visita, para além de tomarmos contacto com o espaço do arquivo em si e com o seu funcionamento, tivemos a oportunidade de ver alguns documentos, o que, para quem se interessa pela pesquisa em História, é muito estimulante! A segunda tratou-se de uma experiência bastante interessante, na qual tive a sorte de participar enquanto aluno na unidade curricular “Judeus e Cristãos Novos na Cultura Portuguesa”, lecionada por Elvira Mea. Uma das atividades consistiu numa visita à Sinagoga da cidade do Porto. Estávamos então a estudar a história do capitão Artur Barros Basto, o seu fundador, e da sua atuação para converter ao judaísmo oficial os criptojudeus (marranos) das regiões de Trás-os-Montes e Beiras. Recordo-me que um dos objetivos era desenvolvermos um estudo para avaliação na unidade curricular, utilizando alguma da documentação que se encontrava acondicionada num dos espaços da Sinagoga. Para o efeito, coligimo-la e realizámos um breve inventário. Posteriormente, essa documentação foi temporariamente transferida para o arquivo da biblioteca da Faculdade de Letras, onde, amiúde, juntamente com alguns colegas, me dirigi para a analisar. Por fim, redigimos um breve estudo relacionado com o instituto teológico israelita do Porto, que funcionava naquele espaço religioso. Recordo-me do fascínio de manusear documentos vários, como, por exemplo, a correspondência entre o instituto e os pais dos estudantes, membros ou beneméritos da comunidade, alguns documentos relativos a entidades oficiais, exames, avaliações e cadernos dos alunos e, ainda, vários números do jornal “Ha-Lapid” publicado pela comunidade israelita do Porto.

(ARCHIVOZ) Quando é que se apercebeu do potencial da informação arquivística para a sua área de investigação, a História Ambiental?

(OP) Quando realizei o mestrado em História Medieval, a minha primeira ideia foi abordar a questão da floresta na Idade Média. Na altura, o sistema de ensino superior encontrava-se na fase de transição para o chamado “processo de Bolonha”. O tempo para a realização desse ciclo de estudos diminuiu para dois anos e apenas no segundo ano nos era possível a dedicação integral à pesquisa e redação da dissertação. Para além de me encontrar a realizar o mestrado, trabalhava na indústria têxtil, o que não me permitia dedicar-me tanto quanto desejaria ao desenvolvimento da pesquisa. Tais contingências levaram-me a alterar o objeto de estudo, aliás, aconselhado pelo meu orientador, Luís Carlos Amaral, que me propôs trabalhar o tema da atividade piscatória no litoral norte de Portugal ao longo dos séculos XIV e XV, recorrendo, sobretudo, a fontes publicadas. Assim o fiz!

Na altura, não tinha a ambição de analisar assuntos relacionados com a História Ambiental, embora (e hoje tenho mais noção disso) a análise da pesca seja na realidade a pesquisa de um tipo de interação entre o ser humano e o ambiente. No decorrer da investigação, foi-me forçoso recorrer a estudos de cariz interdisciplinar quando verifiquei que a área de estudo selecionada, nomeadamente o litoral compreendido entre as desembocaduras do rio Minho e do rio Mondego, tinha uma configuração muito diferente da atual. Como facilmente se entende, para melhor analisar os dados que havia coligido na documentação compulsada, nomeadamente os relacionados com as localidades piscatórias, com as espécies de peixe e com as tipologias das artes de pesca e das embarcações, era imprescindível localizar a linha de costa de antanho. Em todos os casos mencionados, interessava compreender se as afinidades eram marítimas e litorais. Através dos estudos de autores como Alberto Souto, Amorim Girão, Inês Amorim, João Alveirinho Dias, Maria Rosário Bastos, Miguel de Oliveira, entre outros, constatei a potencialidade da documentação histórica para nos dar resposta a questões nem sempre abordadas pela historiografia. Neste caso em particular, os dados históricos possibilitavam informações relativamente à evolução costeira e às influências humanas nesse processo. Posso dizer que, de certa forma, fui compelido a sair da minha área de conforto e abeirar-me de assuntos estudados por outras disciplinas cujos conceitos e metodologias de análise são diferentes, pelo que, me foi necessário aprender algumas noções. De repente via-me a tentar perceber em que consistia a deriva litoral, o carreamento sedimentar, as taxas de migração, processos de erosão e acreção sedimentar, enfim, conceitos que me eram distantes enquanto aprendiz de historiador.

Mais tarde, tive a oportunidade de participar no III encontro da Rede BrasPor realizado na vila de Ponte de Lima, no qual, aliás, a Alexandra Vidal integrava a organização. Essa experiência proporcionou-me o contacto com vários investigadores que trabalhavam o litoral através de abordagens interdisciplinares, tanto no caso de Portugal, quanto no caso do Brasil, tais como, por exemplo, João Alveirinho Dias, Maria Antonieta Rodrigues, Luís Cancela da Fonseca, Maria Rosário Bastos, Joana Gaspar de Freitas, Sílvia Dias Pereira, entre outros. Os aportes que cada um trazia da sua respetiva área científica, entre os quais os provenientes da História, e a conjugação de todos aqueles saberes tão diversos, mas complementares, aplicados no estudo da interação entre o Homem e o Meio, logo me cativaram! Julgo que se a semente já estava plantada, foi nesse momento que germinou! A partir de então, ao tratar de questões relacionadas com a pesca, com a ocupação do litoral, com a salicultura, com o clima, com os problemas de erosão costeira, ou outros temas que tenho procurado analisar no meu curtíssimo percurso académico, constato a enorme potencialidade da informação arquivística. Considero que há muito terreno a desbravar no que se refere à informação arquivística de interesse para a História Ambiental, como, aliás, a crescente produção científica portuguesa neste campo de estudos tem demonstrado. Repare-se que muitas coisas não são propriamente novas, ou seja, por vezes, a releitura da documentação é que é efetuada sob prismas diferentes. De certo modo, o corpus documental é o mesmo, mas tenta-se compreender a historicidade dos sistemas naturais onde se desenvolvem os processos históricos por forma a um mais profícuo entendimento das relações entre a sociedade humana e a natureza. Aliás, a possibilidade de se questionar um documento não se esgota, antes se esgota, eventualmente, a capacidade do historiador fazê-lo, pois cabe somente a cada um procurar as respostas para as distintas perguntas possíveis de se elencarem, fruto de diferentes abordagens, metodologias, ou mesmo dos próprios interesses por certos temas em detrimento de outros.

(ARCHIVOZ) No seu percurso, a sua experiência em arquivos brasileiros foi certamente muito enriquecedora. Pode descrever um pouco esse caminho pelos arquivos brasileiros?

(OP) Entre os anos de 2015 e 2019 realizei o Doutoramento em Ciências Ambientais no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente (PPG-MA) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, após ser selecionado num processo de atribuição de bolsa de doutorado da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Trata-se de um programa doutoral interdisciplinar, que apesar de relativamente recente, uma vez que somente foi criado em finais de 2004, tem um corpo docente altamente qualificado, cujo principal objetivo é formar membros da sociedade capazes de pensar os problemas ambientais sob uma ótica sistêmica e interdisciplinar. A minha proposta consistiu em desenvolver um estudo sob o viés da História Ambiental que permitisse analisar comparativamente dois socio-ecossistemas lagunares costeiros, a laguna de Aveiro, em Portugal, e a laguna de Araruama, no Brasil. Procurei entender quais os processos de ocupação, exploração e alteração antrópica perpetrados nesses ambientes e como tais processos originaram vulnerabilidades socio-ambientais e a necessidade da adaptação humana. De certo modo, o que hoje designamos como História Ambiental, já vem sendo praticado faz muito tempo, designadamente em Portugal. Por exemplo, alguns dos autores que citei anteriormente, tendo formação de base que não a História, fizeram-no. Refiro-me ao Alberto Souto e ao Amorim Girão, que na primeira metade do século XX abordaram a questão da formação da laguna de Aveiro numa perspetiva interdisciplinar, recorrendo a documentação arquivística e, de certo modo, integrando métodos historiográficos. Aliás, podemos recuar para o século XIX e mencionar autores como Constantino Botelho de Lacerda Lobo com os seus trabalhos relacionados com a pesca e a salicultura ou José Bonifácio de Andrada e Silva com o seu estudo sobre o plantio de bosques no litoral. Lembro um interessante artigo sobre a questão do recente desenvolvimento da área da História Ambiental em Portugal, da autoria de Paulo Guimarães e Inês Amorim, que demonstra uma forte tradição da geografia histórica na análise das questões ambientais, enquanto só muito recentemente, a Historiografia portuguesa o assumiu. Assim, embora com uma certa tradição, a História Ambiental enquanto ramo historiográfico pode ser considerado muito recente em Portugal. Por tais motivos, decidi que seria uma mais-valia diversificar o meu percurso académico, mais ainda, num país onde a História Ambiental despontou há mais tempo. Por outro lado, a incorporação de uma abordagem interdisciplinar, tal como proposta pelo programa de doutoramento, era muito importante para desenvolver a pesquisa a que me propus. Fui orientado por três destacados investigadores de áreas científicas distintas: Elza Neffa Vieira de Castro, investigadora dedicada ao estudo de questões ambientais e docente do PPG-MA, Rosário Bastos, historiadora e docente da Universidade Aberta de Portugal e Luís Cancela da Fonseca, biólogo e docente da Universidade do Algarve, o que me permitiu realizar, tanto quanto possível, um estudo interdisciplinar. Feita esta contextualização, posso dizer que a experiência em arquivos brasileiros foi, sem dúvida, muito enriquecedora. Dada a temática da investigação, embora muita da informação tenha sido alocada no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, recorri a alguns dos principais arquivos e bibliotecas do Rio de Janeiro. Parte da pesquisa bibliográfica, da consulta a crónicas dos viajantes e a periódicos, foi realizada na Biblioteca Nacional, situada no coração da cidade, junto ao belíssimo teatro municipal do Rio de Janeiro. Aí, também pude coligir muita informação em fontes publicadas, nomeadamente numa coleção intitulada “Documentos Históricos”, editada por essa instituição desde o ano de 1928 e que já constitui um corpus de cerca de 110 volumes de documentos publicados, nos quais me foi possível encontrar dados para a região de Cabo Frio, onde se situa a laguna de Araruama. Outras bibliotecas a que amiúde me desloquei foi à Biblioteca Parque, situada junto da interface ferro-rodoviária “Central do Brasil” e, embora menos vezes, ao Real Gabinete Português da Leitura. No que respeita aos arquivos, realizei pesquisa no Arquivo Nacional do Brasil, onde estudei sobretudo contratos de sesmaria concedidos na região de Araruama, uma tipologia documental através da qual foi possível coligir dados acerca do uso e ocupação desse território, em especial entre os séculos XVII inícios de XIX. Ainda nessa vertente, também estudei os “livros de Registros Paroquiais de Terras”, nomeadamente das freguesias de Cabo Frio, de Saquarema e de Araruama, os quais se encontram no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Já numa vertente de documentos que, em parte, se encontram disponibilizados em formato digital, analisei sobretudo os livros de emprazamento de Cabo Frio, os quais se encontram no arquivo municipal dessa localidade e os livros de casamento, batismo e óbito que se encontram no Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Niterói. Como referi, parte dos dados foi coligida no Arquivo Histórico Ultramarino, nomeadamente nos fundos documentais relativos ao Rio de Janeiro, onde pesquisei, mais particularmente, a documentação atinente à antiga circunscrição administrativa de Cabo Frio. Neste caso particular, chamo a atenção para o excelente contributo no que se refere à disponibilização em linha do acervo relacionado com as capitanias do Brasil em suporte digital, através do qual me foi possível dar continuidade à consulta dos fundos de documentação avulsa do Rio de Janeiro, dos contratos do sal, entre outros, quando já me encontrava no Brasil. A documentação encontra-se microfilmada e digitalizada em formato CD-Rom, através do “Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Grande”, e também disponibilizada em linha pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o que me permitiu proceder à transcrição de cerca de uma centena de documentos que posteriormente disponibilizei no segundo volume da tese.

(ARCHIVOZ) Denota algumas diferenças de disponibilização da informação em relação aos arquivos portugueses?

(OP) Quanto a este assunto não me parece que possa responder com propriedade. Talvez que a grande diferença se encontre na disponibilização dos acervos em linha na internet. Como referi anteriormente, há muita informação que se encontra acessível através de plataformas digitais, no entanto, notei que há uma grande dispersão devido à multiplicidade de iniciativas perpassando entidades particulares, de ensino, militares, religiosas e administrativas de diferentes instituições locais, estaduais e federativas. Embora tais iniciativas sejam de louvar, parece-me que seria interessante uma congregação de esforços no sentido de reunir as distintas unidades orgânicas a exemplo daquilo que, por exemplo, verificamos em Portugal, com o caso da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). Julgo que o Diretório Brasil de Arquivos (DIBRARQ), ferramenta que considero bastante importante no que se refere à localização de fundos e coleções documentais, seria fundamental para a prossecução desse objetivo, uma vez que permitiria, por um lado, reunir as diversas instituições que guardam e promovem o acesso aos documentos custodiados e, por outro lado, o acesso através da integração da multiplicidade de repositórios disponíveis. Obviamente que as dimensões dos países e a produção arquivística forçosamente exigem uma capacidade de resposta diferente. De qualquer modo, o processo de digitalização dos acervos documentais e a sua disponibilização são tarefas extraordinariamente importantes e às quais os respetivos governos não se devem furtar. Tem-se verificado que, embora haja cada vez mais uma aposta nesse sentido, nem sempre o suporte orçamentário o viabiliza, o que é penalizador não só para os profissionais, mas ainda para a população em geral que, embora muitas das vezes não tenha noção, não prescinde desse serviço.

(ARCHIVOZ) Agora falemos em termos concretos. A nível de busca, recuperação da informação foi possível ter acesso aos termos específicos que utilizo para a sua investigação? Quais foram os resultados?

(OP) Através da História Ambiental, abordamos temas ou objetos de estudo que, por norma, não nos oferecem fundos documentais específicos. Ou seja, habitualmente é-nos forçoso recorrer a fundos ou coleções documentais diversificados e que à partida não se atêm, ao nível descritivo, aos objetivos da pesquisa. Essa questão é mais usual quanto mais a pesquisa recua em termos cronológicos. Por exemplo, se o objetivo é entender a configuração do litoral numa dada região durante a Idade Média, em princípio, não existirá nos arquivos um fundo documental que responda a essa questão! Forçosamente ter-se-á de pesquisar documentos relacionados com as instituições detentoras dos territórios a analisar, onde, em diplomas referentes a outras questões, que nada têm que ver com a informação que se pretende pesquisar, lá se encontra uma ou outra evidência que nos ajuda a estudar a questão. A existência de bases de dados nos arquivos e principalmente a digitalização e acesso aos documentos através da internet veio em muito facilitar essa questão. Através desses recursos, quando disponíveis, tornou-se possível recuperar mais celeremente a informação através da utilização de termos específicos relacionados ao âmbito da pesquisa. A título de exemplo, tanto no caso da DIBRARQ quanto da DGLAB, a que atrás me referi, foi-me possível localizar vários fundos que interessavam à pesquisa. Já, por exemplo, nos recursos em linha disponibilizados pelas bibliotecas nacionais de Portugal e do Brasil, através da utilização de descritores, ou termos de pesquisa, tive resultados muito favoráveis no que se refere à pesquisa bibliográfica. Também no Arquivo Nacional do Brasil, a busca e recuperação da informação através de termos específicos, nomeadamente na pesquisa dos contratos de sesmaria, foi de uma enorme mais-valia, uma vez a avultada quantidade desse tipo de documentação. Por outro lado, a ferramenta de pesquisa disponibilizada no caso da documentação atinente à capitania do Rio de Janeiro e que se encontra no Arquivo Histórico Ultramarino, também ajudou bastante a circunscrever a documentação que interessava para o desenvolvimento da pesquisa. Atualmente colaboro no Projeto SIARL (Sistema de Administração do Recurso Litoral), gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente e executado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. O objetivo desse projeto consiste na recolha, tratamento e carregamento de dados para ampliar o conhecimento costeiro e apoiar as estratégias de adaptação costeira para os riscos instalados e em cenários de alterações climáticas. No módulo de ocorrências históricas, aquele que coordeno, a busca e consequente recuperação da informação através de termos específicos tem sido uma mais-valia uma vez que, por um lado, a extensão territorial abrangida pelo projeto é bastante acentuada – todo o litoral continental português – e por outro lado, existe uma ampla proliferação da documentação e dispersão das informações que interessam aos objetivos delineados.

(ARCHIVOZ) Para finalizarmos, sentiu alguma vez que a falta de acesso à informação afetou a sua investigação ou foi o contrário, teve surpresas nas suas buscas?

(OP) Como historiador essa questão, à partida, não se me coloca nem pode colocar-se! Antes de encetar qualquer trabalho científico ou académico, a primeira tarefa a realizar é averiguar quais as fontes (em qualidade e quantidade) disponíveis, sejam diretas ou indiretas, inéditas ou publicadas, para aferir se é possível levar a investigação a bom porto. Sem fontes (ou proxies, como se costumam apelidar nas chamadas Ciências Naturais) não há a capacidade de produção científica. Por absurdo: podemos querer estudar a exploração de sal marinho em Coimbra, ao longo do período histórico. Mas como Coimbra nunca esteve na interface mar/litoral não iremos encontrar fontes para o nosso estudo (e aqui, como é óbvio, não me refiro às localidades próximas onde se explorava esse produto, como na zona da foz do Mondego, nem à exploração de sal-gema). Podemos e devemos fazer uma análise do “estado da arte” face à temática que nos propomos, aliás, primeiro momento da investigação. Se tudo se mostrar despiciendo ou pouco fecundo, o melhor é abandonar a questão, ou, quem sabe, abordá-la de outra forma. Outra coisa diferente é sabermos que existe informação, mas ela não é acessível. Aí há que, sempre que possível, fazer todos os esforços para a ela aceder. Por exemplo, durante o confinamento total resultante das medidas tomadas para fazer face à pandemia de COVID 19, muitos documentos que não se encontram digitalizados e apresentados em linha, estiveram, na prática, inacessíveis. Face a essa situação, duas hipóteses se colocam: ou temos capacidade/oportunidade para esperar, ou reconfiguramos o foco dos trabalhos em curso.

(ARCHIVOZ) No seu entender, o acesso aos documentos de arquivo online exclui uma visita presencial? Como encara os arquivos num futuro próximo?

(OP) Como já referi, entendo que a disponibilização e o concomitante acesso aos documentos de arquivo em linha é, por diversas razões, uma aposta com futuro. Para começar, julgo que essa disponibilização dos arquivos digitais traduz-se num movimento de democratização da ciência, mais ainda, nos momentos em que se enfrentam ciclos sociopolíticos conturbados e consequentemente com reflexos negativos no que respeita às conjunturas económicas. Normalmente em tais situações, tendem-se a reduzir os apoios à ciência e mais particularmente a áreas científicas muitas das vezes consideradas menos relevantes… Em tais situações, mesmo que se observe o corte de verbas, o profissional que trabalhe com informação arquivística, e não me refiro somente ao historiador, terá no acesso em linha uma forma de suprir a impossibilidade de, por exemplo, se deslocar pessoalmente ao arquivo. Muitas das vezes, grande parte das vezes, diria, a informação encontra-se polarizada por diversos arquivos, os registos descritivos nem sempre suprem as pesquisas, os horários de funcionamento das instituições inviabilizam pesquisas mais aprofundadas. Tudo isto acaba por ser debelado através da pesquisa em linha, não sendo necessário ao pesquisador deslocar-se fisicamente à unidade arquivística, podendo antes estabelecer o horário de realização das suas pesquisas. Por outro lado, a digitalização, para além de facilitar a pesquisa e o acesso às informações arquivísticas, minimiza os riscos relacionados ao acervo, seja no que se refere à deterioração do documento pelo sucessivo transporte e manuseamento dos originais ou de eventuais danos, furtos ou outro tipo de situação que eventualmente ocorra e possa colocar em risco a documentação. Dito isto, embora as potencialidades desse tipo de disponibilização, não me parece que tal signifique a exclusão de uma visita presencial. Por exemplo, havendo a necessidade de se proceder a uma crítica interna e externa ao documento, implicará necessariamente a consulta ao original físico. Por outro lado, casos em que há dificuldades na leitura do exemplar digitalizado, seja por baixa resolução da imagem, seja por outros motivos como o original se encontrar em mau estado de conservação ou a tinta se encontrar repassada, tem-se de recorrer a uma visita presencial. De todo o modo, hajam as alterações que houverem, da arquivística dependerá sempre a produção, a organização, a preservação, e em último caso, a utilização e o acesso aos arquivos. Como tal, a arquivística será sempre um ramo fundamental não só para os estudos históricos, mas também para outros, como a Genealogia, a Diplomática, a Sigilografia, e enfim, para um amplo espectro da sociedade. Portanto, os arquivos continuarão a representar um importante património enquanto repositório da história e identidade de todos e cada um de nós.


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

Banner portugués

“Acho que a arquivística e os arquivistas estiveram à altura dos desafios que se colocaram à Ciência em geral neste século XXI”: Entrevista com Maria do Rosário da Costa Bastos

Entrevistamos Maria do Rosário da Costa Bastos docente na Universidade Aberta, especializada em História Ambiental, nomeadamente a interação Homem/Meio na zona de Interface entre o oceano e a costa; História Ambiental com especial incidência para análises de largo espectro cronológico com relevância para a denominada época Medieval.

(Archivoz) Como historiadora sempre esteve ligada aos arquivos. Pode-nos referir a sua primeira experiência nos arquivos? Como era na altura o acesso à informação?

(Rosário Bastos) A minha ligação aos arquivos, já como historiadora (“mirim”, como dizem os brasileiros e palavra a cuja sonoridade acho imensa graça), foi desde logo total e absoluta. Terminei a licenciatura em História na Época de Recurso, em setembro, porque decidira deixar uma cadeira (unidade curricular como hoje se intitula) para essa altura uma vez que em julho me encontrava exausta. Acontece que, imediatamente depois de concluído o curso, fui recomendada por um jovem Professor de História de Portugal Medieval para, em conjunto com uma Colega, ser entrevistada pelo Dr. Manuel Real, à época Diretor do Arquivo Histórico Municipal do Porto – Casa do Infante, tendo em vista chegarmos a um consenso para fazermos a descrição, leitura e sumário de todos os pergaminhos medievais à guarda do aludido Arquivo Histórico. Fixou-se o horário, a data de início dos trabalhos e o valor da minha remuneração e da minha Colega (uma vez que o jovem docente só nos iria orientar de quando em vez e não iria auferir nenhum valor pecuniário por estar em regime de exclusividade de funções). Em outubro comecei a trabalhar mal sabendo o que me esperava: ora me apareciam autênticos “lençóis”, imensos, onde para acompanhar a escrita, as linhas e as entrelinhas do pergaminho, tinha que recorrer a uma “mega” régua de madeira que, entretanto, engendrei; ora se me deparavam autênticos “buracos” com qualquer coisinha escrita; ora eram documentos com a tinta repassada… enfim, diria que fiz uma “recruta em palco de guerra”. Pesem embora os factos descritos, ao cabo de cerca de ano e meio a missão estava terminada e tinha ganho algo para a vida: humildade, resiliência (científica) e a absoluta convicção que, com muita persistência, quase tudo se consegue.

O acesso à informação, na altura, era muito, mas muito mais complicado do que ao presente. Não existiam praticamente fontes primárias disponíveis online e estávamos completamente dependentes do horário das instituições e, porque não dizê-lo, do humor dos funcionários que ora facilitavam um pouco, ora só deixavam sair à consulta o número de peças superiormente estabelecido para análise diária por investigador. São incomensuráveis as viagens que fiz ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo e ao Arquivo Distrital de Braga porque, por vezes numa só hora, já tinha atingido o limite de consultas/dia e, muitas vezes, sem ter encontrado nada que me interessasse (traída pelos catálogos de índices ou pela minha má interpretação dos mesmos na solicitação dos documentos que vinham para leitura).

(Archivoz) Entretanto, iniciou a sua carreira como historiadora medievalista, mas saiu fora das investigações tradicionalistas típicas da Idade Média: mosteiros, história da Igreja, etc…

(RB) É verdade, mas simultaneamente não o é. Ora vamos lá a ver se me explico convenientemente! Como referi, ato contínuo ao final da licenciatura fui trabalhar com pergaminhos medievais. Depois ingressei no Mestrado em História Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e por lá fiquei com uma bolsa de investigação da então JNIC (Junta Nacional de Investigação Científica). O meu trabalho incidiu na análise do património e estrutura fundiária de um Mosteiro Agostinho do Entre Douro-e-Minho em finais da Idade Média, a saber, o de Santa Maria de Oliveira (no atual concelho de Famalicão). Concluído o mestrado tive a soberba oportunidade de ganhar nova bolsa e de trabalhar sobre o imaginário e representações da morte nos tempos medievos sob a égide do Professor Doutor José Mattoso. Seguiu-se uma muito fugaz passagem como docente de História num Instituto Privado de Ensino Superior e o convite para a entrada como assistente na Universidade Pública de Ensino a Distância Portuguesa, a Universidade Aberta, onde delineei o meu Projeto de Doutoramento sobre a temática da estrutura e gestão patrimonial dos mosteiros agostinhos do Entre Cávado e Minho durante a Idade Média (se a memória não me trai). Ou seja, preparava-me para usar o saber e experiência adquiridos durante o mestrado para uma obra de maior vulto, como seria expectável num doutoramento. O projeto foi aprovado no Conselho Científico da Universidade Aberta, onde planeava prestar as provas. Orientadores a contento, boa parte da documentação escrita “levantada” e, eis senão quando, uma tarde muda tudo! À época partilhava o meu gabinete de trabalho com um colega e amigo biólogo marinho. Estava eu posta em sossego a ler um documento qualquer quando o dito Colega se aproxima e questiona: “- Como é que consegues ler isso”? A resposta foi, obviamente, pacífica e fácil. “- Para que queres saber isso”? – Resposta novamente na ponta da língua! “- Mas isso requer realmente muita técnica e não seria possível usar isso para saber coisas diferentes, por exemplo ligadas à evolução do nosso litoral que é tão vasto, das espécies marinhas de antanho, sei lá de coisas que fossem mais abrangentes?” A resposta foi, igualmente célere mas, em boa verdade, dada de forma já aturdida! – “Vá lá, agora cala-te e faz as tuas coisas que eu faço as minhas”. Mas não fiz mais “aquelas minhas coisas” porque o tal biólogo, naquele dia, mudou o resto da minha vida científica para sempre. Pensei, pensei, tentei voltar à minha proposta de doutoramento (onde me sentia bastante confortável), mas já não conseguia prosseguir a tarefa. Tantos já tinham feito tão mais e melhor. Eu queria algo diferente! E as coisas foram-se desenvolvendo naturalmente. Cada vez trocava mais impressões com esse colega biólogo, fui conhecendo mais e mais cientistas de áreas disciplinares muito variadas e acabei num Hotel de Lisboa, face a um Júri de 6 ou 7 especialistas de diferentes Ramos Científicos, escolhidos pela Fundação da Ciência e Tecnologia, a defender um Projeto de Investigação interdisciplinar acerca da evolução geodinâmica e antrópica do litoral português. O Projeto foi aprovado para financiamento (no remoto ano de 2002, julgo) e eu decidi redirecionar as minhas pesquisas. Contra ventos e marés – e não sem algumas agruras – propus-me a um outo doutoramento em História, igualmente na Universidade Aberta, mas agora sob a temática “O Baixo Vouga em tempos medievos: dos preâmbulos da Monarquia aos finais do reinado de D. Dinis”. Este assumia um fácies profundamente interdisciplinar e para abarcar a análise como me propunha fazer tive que estudar incomensuravelmente mais do que se mantivesse a proposta de doutoramento anterior. Não obstante, lá concluí a tese com sucesso em finais de 2006 e, contra tudo o que objetivamente seria expectável para a época, em 2009, foi-me atribuído o Grande Prémio de História Medieval, exatamente pelo meu trabalho de doutoramento fazendo sobressair o seu carácter pouco comum e, lá está, interdisciplinar. Ou seja, e voltando à questão inicial, eu não me afastei da investigação tradicional na medida em que compulsei os mesmos documentos que os medievalistas costumam trabalhar (régios, monásticos, inéditos, publicados) e usei a metodologia histórica. O que mudei foi o carácter interpretativo das informações disponíveis com o fito de responder a objetos/objetivos de estudo pouco convencionais (ao menos, à época).

(Archivoz) Pode afirmar que foi pioneira em Portugal no âmbito da História Ambiental? Acha que foi levada a sério pela comunidade científica portuguesa?

(RB) Não, não posso afirmar semelhante e creia-se que poderia ser por pudor, por modéstia, mas não o é. É porque não corresponde à verdade, tão-só! Se atentarmos em trabalhos de grandes vultos intelectuais da Academia Portuguesa, e circunscrevendo-nos apenas às ditas Ciências Sociais e Humanas (embora o exemplo de alguns geógrafos que vou citar seja difícil de encaixar nestas “gavetas do conhecimento”), vultos como Jaime Cortesão, de certa maneira Virgínia Rau (com os seus estudos sobre o sal), Oliveira Marques, Vitorino Magalhães Godinho ou mesmo Orlando Ribeiro, Suzanne Daveau, Nicole Vareta, e outros que certamente merecerão o meu perdão por não ser exaustiva nesta enumeração, fizeram ipso facto estudos que hoje se incorporariam em trabalhos da designada História Ambiental. Acontece, todavia, que essa designação como sub-área da História não era ainda conhecida ou, ao menos, vulgarmente usada no Portugal de antanho. O que eventualmente não fizeram nem era, de todo expectável, foi uma Ciência completamente interdisciplinar (a multidisciplinar, em alguns casos, já a terão encetado), mormente apelando a saberes e metodologias que cruzassem práticas das rotuladas Ciências Sociais e Humanas com as das Exatas e Naturais. Aí sim, modestamente, tanto quanto pude e soube, lancei uma “pedrada no charco” no medievalismo da Ciência e da Academia portuguesa. Compreendo perfeitamente a perplexidade dos meus pares que, de repente, a propósito da deslocação de uma sobrepopulação confinada ao Entre-Douro-e-Minho para uma zona pacificada com definitiva conquista da fronteira cristã em Coimbra, em 1064, para um grande golfo litoral que viria a transformar-se na atual laguna de Aveiro e seu hinterland, se deparem com conceitos como formação e desenvolvimento de uma restinga arenosa, carreamento de sedimentos pelos rios e, ao longo da costa, pela deriva litoral, enraizamento de esporões a partir de cabedelos, ações antrópicas e/ou ecossistemas lagunares etc.,etc., etc.! Tudo isto era novo e, à época considerado bizarro para não dizer “algo esotérico” vindo de alguém que estudava o período medieval. Não obstante, “atrás do tempo, tempo vem” e a História Ambiental, que surgiu com este epíteto na década de setenta do século passado nos Estados Unidos, acabou por se vir a impor um pouco por todo o mundo, Portugal incluído evidentemente, muito embora no segmento cronológico medieval não esteja, de todo, a prosperar como podia, devia e merecia.

 (Archivoz) Acha que foram os arquivos e a sua evolução em Portugal que permitiram aos historiadores diversificar as suas áreas de estudo?

(RB) Com total honestidade, acho que não foram só, mas também. Acho que a arquivística e os arquivistas estiveram à altura dos desafios que se colocaram à Ciência em geral neste século XXI. No que concerne às Ciências Sociais e Humanas ou, para ser mais específica, à História em particular, a emergente competição a nível internacional implicou a pressão para uma crescente publicação em Revistas e Publicações indexadas e bem cotadas interna e externamente, o que exigiu uma inevitável aceleração quer da fase heurística, quer hermenêutica. No que respeita à primeira, porventura aquela que mais importa para a temática em apreço, a própria Arquivística se viu como que compelida a um enorme salto qualitativo e quantitativo que pudesse facilitar as consultas absolutamente imprescindíveis à produção de Ciência de raiz. E fê-lo, e bem! Ademais penso que se tornou mais popular e eclética. Veja-se por exemplo a multiplicação de cursos de pós-graduação, mestrado e doutoramento que surgiram na área, bem como a adesão registada na sua frequência. Refiro-me a este facto sem qualquer consulta ou dados estatísticos compulsados; baseio-me nos inúmeros exemplos que conheço de cursos ministrados em Instituições de Ensino Superior Público e Privado, na certeza que, sobretudo estas últimas, não investiriam em formação que não tivesse procura e, com isso, garantia de rendibilidade.

(Archivoz) A História Ambiental é interdisciplinar, os arquivos também podem ser?

(RB) Não só podem como o são! Vejamos na História Ambiental, por definição, estuda-se a interação entre o Homem e o seu Meio, numa análise diacrónica. Ora esta análise, tendo uma abordagem de largo espectro temático, não pode nem deve ser confinada a áreas de saber estanques. Do ponto de vista das Ciências Sociais e Humanas já atrás aludimos a algumas “disciplinas” que contribuem para a construção da narrativa historiográfica; assim, também no que concerne ao Meio ou entorno natural que configurou as sociedades de outrora, existe uma plêiade quase interminável de áreas do saber que são imprescindíveis para que possamos compreender, tanto quanto possível” o binómio ser humano/natureza no passado. Para tanto, os arquivos fornecem-nos dados preciosos para uma análise profícua! Vamos a dois exemplos: 1 – a climatologia histórica ou, mais precisamente a reconstituição do passado climático na História e o impacto do Clima na vida das sociedades humanas pretéritas é passível de ser feito de diversas formas entre as quais se contam, sem peias, as descrições de boas/más colheitas e respetivos preços de bens de primeira necessidade (sobretudo cereais), os relatos de tempestades (continentais e marítimas) bem como de chuvas e secas, a descrição de invernos ou verões atípicos, o relato de mortalidade associadas a fomes por causa de eventos climáticos extremos etc, etc. etc.. Um outro exemplo, cingindo-nos agora ao caso português, exemplifica com propriedade que os documentos à guarda dos arquivos nacionais podem ser indagados e analisados numa ótica interdisciplinar: é o caso da Chamadas Memórias Paroquiais de 1.758 que tanto nos podem fornecer importantes elementos para a análise de uma historiografia mais tradicional como, se atentarmos sobretudo na secção que diz respeito às serras e aos rios, nos permitem aferir de importantes elementos para o conhecimento da flora e fauna de muitas e variadas paróquias do Portugal de meados do século XVIII.

(Archivoz) Na atualidade, em que tantos arquivos nacionais e internacionais estão online acha que é uma mais-valia? Os arquivos online dão-lhe todas as respostas para as suas pesquisas?

(RB) Eventualmente nunca como agora os arquivos online foram tão importantes para a produção do conhecimento. Vivemos numa época atípica em que, em função da evolução da pandemia de Sars-Cov-2 que se instalou em todo o planeta, temos ritmos de trabalho que ora exigem um confinamento absoluto, ora permitem a saída de casa para algo mais que não a aquisição de bens essenciais e consultas médicas. A situação é muito complicada a vários títulos e a pesquisa, seleção e análise das fontes (e mesmo da bibliografia complementar) fica, amiúde, dependente das consultas efetuadas em linha. Isto há um bom par de anos seria completamente inviável! Acresce que os arquivos online dão-nos facilidades que a visita e consultas de arquivos físicos, in loco, não permitiriam, designadamente a flexibilidade de horário, a acessibilidade independentemente do local onde se encontra o investigador, a capacidade   infinita de consulta de fundos por pesquisa; a diminuição dos custos de reprodução de originais e muitas outras vantagens. Todavia, existe o verso do que acabei de referir. Em caso de dúvidas ou de originais cuja disponibilização é feita com baixa qualidade de reprodução, torna-se absolutamente indispensável recorrer ao material físico para a leitura dos originais e/ou para dissipação de dúvidas na leitura paleográfica. Acresce que nem todos os documentos de que necessitamos para a investigação do momento estão online e, nesses casos, obviamente que a recolha arquivística terá que ser feita nos moldes tradicionais, digamos assim. Posso referir um último senão da consulta em linha mas esse, confesso, estou a conseguir ultrapassar por autodisciplina (e necessidade) e está ligado ao prazer do tato e do olfato que compulsar as fontes nos arquivos físicos confere! Porém, até aqui, temos que nos adaptar a uma nova realidade!

 (Archivoz) Como vê o futuro da historiografia e dos arquivos?

(RB) Vejo o futuro da historiografia e dos arquivos, realidade inter – relacionadas e dependentes, com esperança e otimismo. Considero que, mercê de uma realidade que nos ultrapassa (e não refiro, propositadamente, à qual fomos alheios) estamos num ponto de viragem. A pandemia obrigou-nos a parar para pensar tudo, Ciência inclusive! Temos que decidir o que queremos efetivamente fazer das nossas vidas e da dos nossos vindouros. Está na altura de olhar para o passado e, agora como sempre, aprender com ele. É o momento de, com base nos ensinamentos que a História nos possibilita, com especial acuidade a História Ambiental, perceber até que ponto (mais) estamos dispostos a ir ou quando dizemos coletivamente chega e assumimos que atingimos o ponto de ruptura; o que estamos dispostos a largar, de que é que conseguimos prescindir para que o presente e o futuro não se transformem num inferno onde se desfiem um rosário de pandemias. Assim, considero que mais por necessidade do que por opção estamos fadados a repensar o nosso modo de vida e, nele, a valorizar a Ciência.


Entrevista realizada por: Alexandra Maria Silva Vidal

Banner portugués