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“A experiência mostrou que devemos incluir questões emergentes do setor privado em relação aos seus arquivos”: Entrevista com Cecília Machado Coordenadora do Curso Técnico em Museologia da ETEC Parque da Juventude

Entrevistamos a Historiadora e Museóloga Cecília de Lourdes Machado Fernandes que nos conta sobre a sua trajetória e participação na institucionalização do Curso Técnico em Arquivo, que pela primeira vez é oferecido como um dos cursos de ensino profissional público e gratuito, nas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) do Centro Paula Souza (CPS) em São Paulo (Brasil). 

(Archivoz) Uma breve apresentação da sua trajetória.

(Cecília Machado) Sou Historiadora formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, e Museóloga pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, FESP-SP. Trabalhei como profissional em diversas instituições públicas e privadas e tive oportunidade de atuar tanto em museus quanto em arquivos. Destaco do meu percurso o período em que me dediquei à Gestão de Museus do Interior do Estado de São Paulo, entre 1994 e 1998, pelo Departamento de Museus e Arquivo da Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo. Implantei instituições museológicas ao longo da minha trajetória e coordeno o Curso Técnico de Museologia do Centro Paula Souza desde 2007. Fui diretora do Sistema Estadual de Museus entre 2008 e 2013, período em que foi reestruturada a Secretaria de Estado de Cultura e junto ao Instituto Brasileiro de Museus colaboramos para a institucionalização da política Nacional de Museus, que até hoje é responsável pelas políticas públicas nacionais para a área. Atualmente, opero no desenvolvimento de Gestão de Museus e Centros de Memória, elaboro e acompanho o desenvolvimento de Planos Museológicos, predominantemente no Estado de São Paulo, mas com algumas ocorrências em outros Estados e países.

Desde o início da minha carreira a ação junto aos arquivos históricos foi muito intensa. Trabalhei no Arquivo Público do Estado de São Paulo, AESP-SP, onde fiz parte da equipe que recebeu a custódia permanente dos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, DEOPS-SP, os quais revelam a repressão política imposta pela ditadura militar no Brasil (1964-1985), e fui também responsável pela área de eventos e exposições. Desde 2012, tenho trabalhado diretamente com a implantação de Centros de Memória e na formação de equipes multidisciplinares compostas por arquivistas, museólogos e bibliotecários, no sentido de tornar tais instituições com fins de preservação, pesquisa e difusão de patrimônio, espaços híbridos e multidisciplinares. Sempre vi nos arquivos espaços e acervos a serviço da pesquisa e, portanto, com grande potencial de difusão e transformação social por meio de seus conteúdos. A vocação principal dos museus, bibliotecas e arquivos para mim é a sua inequívoca potencialidade como mediador de inclusão e reflexão social. Trabalho sempre com essa perspectiva.

(Archivoz) Como se deu o projeto do Curso Técnico em Arquivos?

(CM) Desde 2008, uma equipe formada por mim, pela minha então coordenadora pedagógica, a arquiteta Fernanda Martins, pela museóloga Juliana Monteiro e pelo historiador e arquivista Gabriel Moore, imaginava ter na Escola Técnica “Parque da Juventude”, em São Paulo, um núcleo de cursos formadores de profissionais técnicos para as “Três Marias” [termo comumente utilizado para designar as áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia]. Demos início a esse projeto e chamamos a Profa. Dra. Ana Maria Camargo (Universidade de São Paulo) e a Profa. Dra. Telma Campanha (Universidade Estadual de São Paulo), dentre outros, para estruturarmos tais cursos técnicos. O Curso Técnico de Museologia se efetivou, mas os outros dois foram adiados e retomados posteriormente. Em 2017, o Arquivo Público do Estado de São Paulo, AESP, sabendo da existência do projeto formatado para a instalação de um curso técnico em arquivo, incentivou a recobrada de estudos sobre a questão e a formação de um grupo que o reestruturasse.

Formou-se uma equipe com membros representantes do AESP, do Centro Paula Souza, que no caso era representado por dois profissionais sensíveis em relação aos arquivos [eu e Juliana Monteiro] e mais duas pessoas da gerência administrativa, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e do Instituto do Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. O Curso foi formatado principalmente por agentes do Arquivo Público do Estado que acabaram por imprimir no plano de ensino características e necessidades da administração pública para com seus arquivos. Fato que nesse momento vimos tentando alterar com uma proposta de reestruturação do Curso, tendo em conta as atuais demandas do mercado e as aspirações do aluno.

(Archivoz) Como foram as experiências com as primeiras turmas?

(CM) Como dito anteriormente, o Curso foi muito mais desenhado para atender às demandas do setor público. Acabou por não agradar a nós profissionais educadores e envolvidos com a sua realização de maneira mais direta, uma vez que sendo um curso técnico almejávamos que esse estudante se inserisse no mercado de trabalho de maneira mais imediata. Acabou por não agradar aos alunos, pois também era sentida por parte deles a falta de oferta de vagas de trabalho. Via-se que com a formação que estava sendo dada, poucos conseguiam atuar em instituições híbridas – como são os centros de memória, que possuem coleções e fundos – em arquivos de empresas, pessoais ou com acervos especiais. Hoje já pensamos diferente e buscamos agir de maneira rápida nesses dois anos do Curso. A experiência mostrou que devemos incluir questões emergentes do setor privado em relação aos seus arquivos, tanto quanto discutir aspectos de acervos especiais e híbridos.

(Archivoz) Quais os resultados alcançados apesar das dificuldades apresentadas?

(CM) Estamos em 2021 e o Curso foi implantando em 2018. Acredito que em dois anos completos os resultados já são bastante sensíveis. Sentimos efeitos na vivência desse professor e desse aluno. Destaco que em relação ao professor, sendo o primeiro Curso Técnico em Arquivo, esse profissional que estava acostumado a trabalhar diretamente com os arquivos ou dar aulas para alunos de curso superior teve que adaptar ou desenvolver uma didática apropriada para um jovem de ensino médio, ainda que as turmas sejam bem heterogêneas em termos de perfil e idade. Igualmente, fez com que esse professor refletisse sobre as necessidades do mercado privado e sobre a teorização da Arquivologia no Brasil, que ainda é muito baseada nas experiências do setor público. Esse professor logrou buscar literatura que se respaldasse na aplicação de princípios e conceitos da Arquivologia a conjuntos documentais de natureza privada, pessoal e especial.

Todos nós profissionais da área de patrimônio devemos atuar de forma conjunta e respeitosa para resistirmos aos temporais que nos afligem. Click To Tweet

Por outro lado, os egressos do Curso Técnico em Arquivo têm sido mais bem preparados para serem assimilados pelo mercado à medida que surgem vagas. Muitas instituições já reconhecem o Curso como pioneiro e exemplar, ainda que enfrentemos questões de evasão, de disputas de interesses em torno do Curso e relativas a falta de parcerias institucionais.

(Archivoz) O que percebe de mudança quando o aluno entra e saí do curso?

(CM) Os alunos falam por si e adaptam o que aprendem às suas realidades. Com isso muitos passam a atuar com perspectivas mais amplas do que aquelas de quando ingressaram no Curso. Penso que devemos fazer em um futuro próximo um levantamento mais aprofundado em relação ao aluno egresso, o que responderia a inúmeras perguntas que ainda fazemos em relação à atual formação, lembrando que o Curso tem apenas 2 anos e formamos três turmas. Acredito que o aluno deve continuar a sua formação e suas reflexões em relação às matrizes oferecidas.

(Archivoz) Tendo atuado na área de museus, quais experiências levou para a dinâmica do curso de técnico de arquivos?

(CM) Como já expus anteriormente, o patrimônio para mim é um campo de ação multidisciplinar e, portanto, museólogos, historiadores, arquitetos, arquivistas, filósofos, antropólogos, sociólogos, bibliotecários, artistas plásticos e gestores atuam cada qual dentro de suas competências de maneira a salvaguardar, pesquisar e difundir isso que, para nós no Brasil, é tão caro e tão desprestigiado que é a nossa memória material e imaterial. Todos nós profissionais da área de patrimônio devemos atuar de forma conjunta e respeitosa para resistirmos aos temporais que nos afligem.


Entrevista
realizada por: Simone Fernandes

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