Ciência da Informação

“Considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada”: Entrevista com o Professor Armando Malheiro da Silva

Entrevistámos Armando Malheiro da Silva, Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Docente da Licenciatura em Ciência da Informação e do Programa Doutoral Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, de cuja Comissão Científica  é membro Coordenador do Grupo Cultura Digital do CITCEM

(Archivoz) Iniciou a sua carreira como historiador, nomeadamente em torno da figura de Sidónio Pais nos alvores do Republicanismo em Portugal. Quando se deu o ponto de viragem para a investigação científica em torno dos arquivos?

(Armando Malheiro) Em rigor, minha atividade profissional, enquanto ainda estudante universitário, iniciou-se em 1978, como professor do ensino secundário e, em 1982, concluído meu curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (simultaneamente concluíra as Licenciaturas em História e em Filosofia), fui Responsável da Biblioteca Municipal de Barcelos e, pouco tempo depois, convidado para Técnico Superior do Arquivo Distrital de Braga – Unidade Cultural da Universidade do Minho. Por vicissitudes burocráticas, acabei acumulando funções de arquivista e de docente universitário, o que me levou a desenvolver investigação em História, para efeitos de progressão na carreira académica e funções técnicas e de docência em Arquivística. Portanto, a minha experiência foi desde cedo algo “múltipla”, agindo como historiador/investigador e como arquivista, papéis conflitantes naquela época e ainda hoje não são facilmente harmoniosos e compatíveis.

(Archivoz) O “salto” de um paradigma custodial para um novo paradigma científico-informacional, ou seja, das ciências documentais para a ciência da Informação foi um marco que hoje constitui numa nova visão da disciplina e do perfil do profissional da informação. Pode aprofundar um pouco este tema?

(AM) A identificação e a formulação de paradigmas, na área profissional e disciplinar das denominadas Ciências Documentais (Arquivística, Biblioteconomia e Documentação), foram devedoras da minha experiência profissional e de vida e tornaram-se necessárias depois de dez anos em que lecionei Arquivologia com o meu colega e amigo Dr. Júlio Ramos, Técnico Superior,  aposentado do Arquivo Geral da Universidade de Coimbra, no antigo Curso de Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 1990 a 2000. O estágio que fiz, em 1990, na École National des Chartes (Sorbonne, Paris), foi também influente no processo de reflexão sobre os pressupostos filosóficos, modelos teóricos, conceitos operatórios e outros elementos que, por via da formação superior e especializada e por força da atividade in locu, moldaram a mentalidade, o modo de ver, de pensar e de agir dos arquivistas, bibliotecários e museólogos vindos desde, pelo menos, a segunda metade do séc. XIX. Ao refletir sobre isto e com o passar do tempo, já com os paradigmas (inicialmente dois: o custodial e o pós-custodial) fixados, ao reler a conferência de Umberto Eco A Biblioteca (1980) e ao recordar o enredo de O Nome da Rosa (1980), percebi que a genialidade do académico e escritor italiano tinham conseguido capturar a essência do paradigma custodial, que marcou a fase sincrética ou pré-Ciência da Informação dos profissionais das Bibliotecas, Arquivos e Museus.  Estas instituições culturais ou “lugares de memória”, como os designou Pierre Nora, foram uma invenção da Modernidade , desde o dealbar da Era Digital ou Era da Informação, estão a sofrer um impacto profundo da revolução tecnológica em curso, transversal a todas as dimensões da vida humana e social, e, por isso, a formação dos respetivos profissionais tinha de ser alterada, e vem sendo, só que, genericamente, em dois sentidos extremos e paradoxais, com consequências perversas: a adaptação à mudança sem abandonar a vertente mais tecnicista e culturalista do paradigma custodial (tendência visível em vários pontos geográficos, nomeadamente na América do Sul, em Itália, na Grécia, em países dos Balcãs, etc.); e, num sentido eminentemente tecnológico, derivado da Information Science norte-americana, surgida a partir dos inícios dos sessenta do séc. XX e que herdou lastro importante da Ciência da Documentação de Paul Otlet, transformado pelo potencial de automação eletrónica. O movimento atual das iSchools, já espalhado na Europa e na Ásia, representa claramente essa tendência. Ora, diante destes dois extremos, a via do ponto de equilíbrio só pode ser, em minha opinião, a da defesa e consolidação de uma Ciência da Informação trans e interdisciplinar, que resulta da integração das disciplinas documentais anteriores e se configure como uma ciência social aplicada, mantendo, ao mesmo tempo, uma vocação interdisciplinar, desde logo com as Ciências da Comunicação e, mais extensivamente, no âmbito das Ciências Sociais, e com outras disciplinas mais afastadas, saberes e tecnologias. Este perfil de CI é o que melhor se encaixa no paradigma emergente pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar. Mais recentemente, eu e a Professora Fernanda Ribeiro acrescentamos mais um paradigma detectável na formação, que vem sendo dada algo disperso em várias latitudes, embora o tenhamos identificado mais claramente em cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutoramento) do Brasil. Trata-se de um paradigma importado da Sociologia, que aí se designa de Dialético e abrange várias nuances, uma das quais é a Teoria Crítica, herdeira da Escola de Frankfurt, de forte inspiração marxista. Entre este paradigma e o pós-custodial há um profundo potencial de convergência e integração, limadas algumas arestas e melhor centrado o exercício crítico no método científico. Aliás, o grande contributo da passagem de um arquivista ou de um bibliotecário do paradigma custodial para o pós-custodial tem a ver com o ganho de formação realmente científico e da capacidade crítica de superar os ensinamentos normativos e práticos, orientando-os para uma compreensão desse fazer como um processo intencional de mediação que é preciso conhecer, sistematicamente, em todas as suas implicações.

(Archivoz) Na atualidade, a formação em Ciência da Informação é completamente diferente da formação arquivística. Porquê?

(AM) Não é fácil, numa entrevista, responder com o necessário desenvolvimento a uma pergunta como esta, por isso terei de me limitar a alguns tópicos substanciais e começo por recomendar a consulta dos trabalhos da minha colega Fernanda Ribeiro, precisamente sobre os modelos de formação nesta área. O primeiro ponto que explica toda a diferença tem a ver com a alteração do tipo de formação que até 2001, ano em que começou a ser lecionada a Licenciatura em Ciência da Informação, uma parceria de duas faculdades da Universidade do Porto – a de Letras e a de Engenharia-, era de nível especializado, nem sequer de pós-graduação (Mestrado), com duas saídas separadas ou ramos específicos – Arquivo e Biblioteca. Era um curso de dois anos, feito após uma licenciatura em qualquer área, no entanto a maioria dos ingressos vinham da História, Línguas e Literatura e Filosofia. Os Cursos de Especialização em Ciências Documentais sucederam, em 1982, ao “velho” curso de Bibliotecário-Arquivista, com origens no final do séc. XIX e que foi lecionado ininterruptamente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra,  desde 1935, com duração de dois anos, exigia uma licenciatura como formação prévia. Eu e minha colega Fernanda Ribeiro fizemos esse curso pouco antes de ele ser extinto. A segunda diferença importante concerne à incorporação no plano de estudos da licenciatura de disciplinas tecnológicas, em qualidade e quantidade que nem dá para comparar com os residuais conteúdos de informática ministrados nos CECD’s. A terceira diferença, com impacto no mercado de trabalho e na resposta às necessidades sentidas, já não pelas instituições culturais da Modernidade, ampliadas com a oferta em nível municipal (Bibliotecas Municipais e Arquivos Históricos), mas pelas mais diversas organizações públicas e privadas carentes de gestores de informação capazes de dialogar com os informáticos.

(Archivoz) A arquivística, como ramo da Ciência da Informação, tem futuro ou a tendência será absorvida pela primeira?

(AM) Pergunta pertinente e que, em países como o Brasil, traduz um estado de espírito de resistência e de desconfiança em relação à Ciência da Informação. Ora, para atalhar dúvidas e equívocos, convém insistir na distinção, para mim claríssima, entre Information Science (norte-americana) e a Ciência da Informação trans e interdisciplinar, ensinada na Universidade do Porto. Aquela não pode absorver a Arquivística, porque é uma disciplina essencialmente tecnológica, em que falta a base humanista e sociológica, indispensável para que possamos deparar uma ciência social aplicada.  Este estatuto epistemológico só está ao alcance da segunda e, graças ao contributo de todas as disciplinas (inclusa a Information Science), interligam-se e constituem uma ciência nova com o melhor e mais substancial de todas elas. Neste novo campo disciplinar, a Arquivística está presente pelo legado que aportou, e o profissional formado por esta ciência nova – o gestor da informação – será, no contexto específico em que exercer funções, um “arquivista-gestor de informação”, um profissional mais polivalente, melhor dotado, que o mero arquivista de formação antiga, de competências tecnológicas e essencialmente versátil.

(Archivoz) Existe em Portugal uma grande discussão entre designar um arquivo como um Fundo ou como um Sistema de Informação. Afinal, é apenas um preciosismo de nomenclaturas ou é muito mais do que isso?

(AM) Posso começar por frisar que não se trata de um preciosismo ou, pelo menos, eu e meus colegas de CI do Porto não usamos o conceito operatório de Sistema de Informação como um mero preciosismo ou uma designação “moderna” para significar o mesmo que Fundo. No livro “Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação”, ficou escalpelizada a origem e evolução do conceito de Fundo, um conceito instrumental usado pelos arquivistas em detrimento do conceito de coleção, deixado para uso de bibliotecários e museólogos e conotado com a acumulação aleatória e diletante (sem necessidade orgânica ou funcional) de livros e objetos. E aí foi também introduzido o conceito de Sistema de Informação, com características que viriam a ser melhor trabalhadas posteriormente. A transição para o uso de SI significava, desde logo, não apenas um conjunto de documentos marcados pela mesma proveniência, mas muito mais que documentos de um produtor, também organizados e recuperados por esse mesmo produtor e ainda articulados com outro tipo de documentos (não exclusivamente jurídico-administrativos, político-administrativos ou técnicos), como os livros e objetos tridimensionais musealizados ou musealizáveis. Por definição, sistema não é um mero somatório de partes, mas uma unidade de partes diferentes e interdependentes, ou seja, unidade na diversidade. E por aqui se vê quão redutoras são as noções de fundo e de coleção e que a abordagem correta, a que melhor serve ao potencial utilizador da informação, é a que integra as partes que nasceram, contextualmente, interrelacionadas. O conceito de SI não pertence ao paradigma custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, mas claramente ao paradigma pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar.

(Archivoz) Num mundo cada vez mais digital, as disciplinas de paleografia e diplomática praticamente desapareceram dos programas de estudo, pois os alunos aprendem hoje linguagens de programação e gestão de processos de negócio (construção de fluxos de informação e etc.). Como serão tratados os arquivos históricos num futuro próximo?

(AM) É verdade que, por exemplo, na Licenciatura em Ciência da Informação da Universidade do Porto, hoje a Paleografia e Diplomática, é residual e eventual, e os alunos preferem, no que toca a opcionais, outro tipo de disciplinas. No entanto, considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada, porque os documentos anteriores ao séc. XIX precisam ser lidos e transcritos mesmo que sejam, e cada vez serão mais, digitalizados. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pela escola que teve, mestres de proa como o Professor Cónego Avelino Jesus da Costa, devem pensar em escalar estrategicamente a formação nestas competências específicas, porque não deixará nunca de haver mercado.”


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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“Falta uma efetiva política nacional para os arquivos, em função da inexistência de uma efetiva Política Nacional para a Informação”: Entrevista com Carlos Guardado da Silva

Entrevistámos Carlos Guardado da Silva, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde dirige o mestrado em Ciências da Documentação e Informação.

(ARCHIVOZ) A sua formação base é em História, tendo efetuado o mestrado e o doutoramento em História Medieval, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL). Logo a seguir prosseguiu a sua formação em Ciências Documentais, nas variantes de Arquivístico e Biblioteca e Documentação, pelo mesma Universidade, culminando na Agregação em Ciência da Informação, pela Universidade de Coimbra. Considerando o seu percurso académico, e mesmo tendo em conta que a profissão de historiador é indissociável da pesquisa em arquivos, como é que nasceu o interesse pelo mundo dos arquivos?

(Carlos Guardado da Silva) O nosso interesse pelo mundo dos arquivos surgiu, primeiro, pela via da investigação no âmbito da História, através da qual fomos conhecendo os arquivos, mormente o Arquivo Nacional Torre do Tombo e alguns dos arquivos distritais, instituições de memória onde se conserva a maioria da informação acumulada para o desenvolvimento de estudos sobre a Idade Média relativos ao território nacional. Frequentávamos então o mestrado em História Medieval, com a duração de dois anos curriculares, acrescidos de outros dois para a elaboração da dissertação. Quando nos encontrávamos a concluir a mesma, recebemos o convite pelo então Vereador do Sector da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras, o Dr. António Carneiro, para a identificação e a organização do Arquivo Histórico, serviço de informação que não existia, como não se encontravam instituídos muitos dos arquivos municipais, que hoje conhecemos. Adquirimos depois um novo olhar sobre os arquivos, na perspectiva da arquivística, não a do investigador, mas a da mediação, bem como a consciência do papel dos arquivos na melhoria da qualidade da gestão organizacional, quando esta assenta na qualidade da informação disponível e acessível em tempo útil, de modo a contribuir para a celeridade na resolução dos problemas dos cidadãos e a tomada de melhores decisões por parte da gestão de topo. Assumimos, desde logo, a gestão integrada da informação desde a produção ao arquivo definitivo, tendo aberto o Arquivo ao público no espaço de três meses. Para tal, integrámos, também, a equipa e os projetos de modernização administrativa em curso, bem como a equipa de gestão da qualidade, quando surgiu a oportunidade de implementar um sistema de gestão da qualidade no Município. A par disso, e de modo a valorizar o Arquivo Municipal e o seu património, apostámos na comunicação e na divulgação, criando projetos e produtos culturais, colocando-o no palco de eventos locais, regionais e nacionais. Por fim, trabalhando num Arquivo Municipal, e encontrando-nos a concluir o doutoramento, apesar das leituras que fazíamos sobre a área, considerámos que deveríamos adquirir formação na área de modo a podermos melhorar o nosso desempenho profissional.

(ARCHIVOZ) Entre 1997 e 2015 desempenhou a função de Diretor do Arquivo Municipal de Torres Vedras. O que nos pode dizer dessa experiência, e quais os projetos desenvolvidos que gostaria de destacar no exercício da mesma?

(CGS) Foi, em primeiro lugar, uma experiência muito enriquecedora, de quase duas décadas, em que demos muito de nós, mas, estamos certos, recebemos muito mais, quer direta, quer indiretamente, através do que nos permitiu aprender, quer pela experiência quer pela reflexão feita sobre a mesma. Por outro lado, descobrimos que os arquivos municipais são, talvez, a melhor “escola de arquivística”, uma vez adquirida a formação académica, em virtude de os arquivistas, que exercem a sua profissão no âmbito dos arquivos municipais, conhecerem um universo muito mais amplo de informação e processos, do que em um qualquer organismo da administração central, por natureza mais específico, apesar de o olhar não raras vezes displicente por parte dos profissionais da informação dos organismos da Administração Central do Estado para com os arquivistas dos arquivos municipais, a exemplo, aliás, do que acontece, de um modo geral, com os trabalhadores da Administração Central relativamente à Administração Local.

Dentre os projetos, permita-nos destacar, em primeiro lugar, a implementação do próprio serviço de informação – o Arquivo Municipal de Torres Vedras – que inaugurou instalações, no interior da Câmara Municipal, em março de 2006. Depois, os distintos projetos de modernização administrativa e de implantação do Sistema de Gestão da Qualidade desenvolvidos pelo município, alguns integrando candidaturas a financiamento da União Europeia, visando não apenas a melhoria do serviço de informação Arquivo Municipal, mas a melhoria da qualidade do Sistema de Informação do Município, com enfoque nos cidadãos. Resultado disso, acolhemos, em abril de 2006, o VII Encontro de Arquivos Municipais: Modernização Administrativa e Gestão da Qualidade, iniciativa da BAD. No âmbito da comunicação, criámos o Encontro Nacional, desde há uns anos internacional, Turres Veteras, em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que terá no próximo mês de maio de 2021 a 23ª edição, durante a qual decorrerá a publicação dos resultados da edição anterior, e criámos o evento Sopas/Chás de Pedra, um meio de valorização do património documental à guarda do Arquivo Municipal. Assumimos, simultaneamente, a responsabilidade pela política editorial, ativa e exemplar, do município de Torres Vedras, fomentando a investigação sobre o território, de que são exempla as dezenas de títulos publicados pelo Município durante esse período, quer integrados em coleções – Turres Veteras, Linhas de Torres e Patronos, quer extra-coleção. Elaborámos exposições, que marcaram a vida cultural de Torres Vedras, como Torres Vedras no caminho de Ceuta: 600 anos = Do Conselho Régio de Torres Vedras à Conquista de Ceuta (2015), no âmbito do VI Centenário da Conquista de Ceuta, em Torres Vedras, e tivemos a honra de presidir a Comissão Executiva CM200Anos – Comissão para a Comemoração do Bicentenário das Linhas de Torres Vedras (2009-2011). Por último, refira-se a iniciativa, que tomámos, de avançar com a elaboração de um Plano de Classificação da Informação Arquivística para a Administração Local, projeto iniciado em setembro de 2011, cuja publicação se espera para breve.

(ARCHIVOZ) Desde 2015 que dirige o Curso de Mestrado (2.º Ciclo) em Ciências da Documentação e Informação, da FLUL. Efetuando uma retrospetiva desde essa data, até à atualidade, o que nos pode dizer não só sobre o respetivo preenchimento das vagas existentes para a frequência do mesmo, mas também do número de discentes que o concluem, isto é, que defendem com sucesso as dissertações de mestrado. Envolvendo esta dinâmica, e tendo como pano de fundo o objetivo que a maior parte dos discentes tem de ingressar no mercado de trabalho desta área profissional, qual a taxa de empregabilidade do curso de mestrado que coordena?

(CGS) Ao contrário do projeto do Arquivo Municipal de Torres Vedras, este não é um projeto iniciado por nós, mas por outros, de que apenas fomos e somos beneficiários. Os cursos de especialização, em que adquirimos formação, tiveram como principal mentor o Professor Aires A. Nascimento, também nosso professor, e a colaboração de muitos docentes, muitos dos quais foram nossos professores e, desde 2007, nossos colegas. A partir de esta data, a formação em Ciência da Informação adquiriu, na Faculdade de Letras uma nova fase, com a instituição do mestrado em Ciências da Documentação e Informação, no âmbito do processo de Bolonha, criado pelo Professor Paulo Farmhouse Alberto, também o diretor do curso, lugar que ocuparia, a partir de 2013, o Professor Rodrigo Furtado, tendo ambos dirigido o curso de mestrado de forma exemplar e com reconhecida qualidade. Assumimos o (en)cargo na sequência de uma avaliação da A3ES, uma vez que era requisito que o diretor do curso fosse um especialista na área, tendo beneficiado dos resultados do seu trabalho, a que tivemos tão somente de dar continuidade. Por exemplo, a nova organização do curso, que passámos a dirigir, foi estruturada e decidida sob a direção do Professor Rodrigo Furtado, embora com a colaboração dos vários docentes do curso onde nós já nos encontrávamos. Todavia, nunca o curso de mestrado tinha tido um professor inteiramente dedicado ao curso, pelo que tínhamos a obrigação de fazer mais, o que temos procurado fazer.

É, talvez, o maior curso de mestrado em Ciência da Informação em Portugal, com a abertura de cerca de 30 vagas por ano, encontrando-se as candidaturas permanentemente abertas, sendo a seleção de candidatos feita duas vezes por ano, em abril e novembro, para entrada no 1º ou no 2º semestre, perfazendo, em média, cerca de 70 alunos inscritos. Tendo o mestrado elevadas taxas de conclusão, com a apresentação da dissertação final, o número dos alunos que não concluem o grau académico, a exemplo de outros cursos do 2º ciclo de estudos, ainda é grande, ora por virtude de os alunos arranjarem ou mudarem de emprego, impossibilitando-os de assistirem às aulas, ora por razões de saúde, ora, ainda, por razões económicas. Este é um estudo que temos a intenção de promover de modo a conhecermos o fenómeno.

Relativamente à empregabilidade dos diplomados do Mestrado em Ciências da Documentação e Informação, os resultados são conhecidos, de que é exemplo o estudo publicado por Cláudia M. Pinto – Empregabilidade em Ciência da Informação (Colibri, 2019). Neste aspeto, não temos dúvidas de que estamos bem, uma vez que, em termos absolutos, a taxa de empregabilidade era de 87%. Hoje, são muito poucos os diplomados em Ciência da Informação pela FLUL que se encontram sem emprego. E, sendo a formação de novos diplomados um processo dinâmico, a partir do momento em que terminam o curso aqueles são frequentemente contactados pela direção do mestrado com propostas de trabalho.

(ARCHIVOZ) Com base na sua experiência como diretor do Curso de Mestrado (2.º Ciclo) em Ciências da Documentação e Informação, da FLUL, e no admirável número e qualidade de dissertações de mestrado apresentadas desde 2015, no contexto do paradigma de Bolonha, quais é que considera serem as tendências de investigação em Ciência da Informação em Portugal, e as que urge aprofundar, para além dos problemas que identifica nos mestrados desenvolvidos.

(CGS) Em estudo apresentado em 2013, defendemos que a produção científica na área atestava a ausência de equipas, programas e projetos de investigação em Ciência da Informação consolidados nas diferentes instituições de ensino superior, situação que permanece, dada a falta de uma efetiva política de investigação científica em Portugal com uma consequente afetação de recursos, incluindo os recursos financeiros, o que se pode confirmar com o último concurso de projetos de investigação da FCT. Naturalmente, os cursos de doutoramento permitem a realização de projetos de investigação de maior fôlego e duração. Mas não deixam de ser projetos individuais! São os alunos que selecionam e definem o seu tema e objeto de investigação. Porém, reconheço que os docentes têm, ou podem ter, influência nas tendências de investigação em Ciência da Informação, no âmbito dos trabalhos finais de mestrado, desde logo para os alunos que se encontrem indecisos quanto ao estudo a desenvolver.

A experiência dos distintos programas de mestrado em Ciência da Informação, e de modo particular o da FLUL, permitem-nos, como em 2013, verificar que as áreas de concentração da investigação, assim como os percursos de investigação desenvolvidos são reveladores de uma vertente profissional da Ciência da Informação, que continua a sobrevalorizar a dimensão da intervenção sobre a da investigação, mais preocupada com a resolução de problemas da atividade profissional e das próprias organizações, sobre as quais se centram muitos dos trabalhos finais de mestrado relativos a sistemas de informação. Todavia, permita-nos destacar algumas destas tendências, no que diz respeito à área aplicada da arquivística, tendo presente alguns exemplos concretos do mestrado da FLUL e, sobretudo, a partir de 2015: a organização e a representação da Informação fotográfica e audiovisual; a avaliação da informação; as políticas públicas sobre arquivos; a comunicação nos arquivos municipais; a formação superior em arquivística; os arquivos pessoais e fotográficos, com destaque para a sua organização e representação; o lugar dos arquivos nos museus; a construção de vocabulários para a conservação e documentos gráficos; a encadernação dos forais manuelinos; e, por último, os profissionais da informação nos arquivos municipais.

(ARCHIVOZ) Considerando os extraordinários números que indicou na resposta à terceira pergunta, para quando a oferta de um Curso de Doutoramento (3º Ciclo) em Ciências da Documentação e Informação, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa?

(CGS) Estamos, no âmbito do Programa em Ciências da Documentação e Informação, a trabalhar para isso, sem pressa, de modo a reunirmos os requisitos não apenas necessários, mas que garantam uma qualidade distintiva, que respondam às expetativas dos futuros candidatos.

(ARCHIVOZ) É coordenador da notável coleção Ciência da Informação, publicada pelas Edições Colibri, com a chancela científica do Centro de Estudos Clássicos da FLUL. Qual a importância que atribui a esta coleção, no contexto da Ciência da Informação em Portugal, e quais os títulos que se encontram no prelo?

(CGS) Naturalmente, a coleção CI – Ciência da Informação, pela visibilidade que tem, é um projeto muito acarinhado por nós, e ganhador. Basta pensarmos que não se conhece outro similar em Portugal, que contribui para o reconhecimento da área da Ciência da Informação na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas também para a consolidação da Ciência da Informação, quer em Portugal, quer no seio das Ciências Sociais e Humanas, que conta com o apoio da direção do Centro de Estudos Clássicos. Um projeto, que responde aos investigadores em Ciência da Informação e, sobretudo, aos Profissionais da Informação, não esquecendo o público em geral e os investigadores de outros campos, uma vez que a ciência da Informação, como muitos dos estudos da coleção testemunham, propõe um diálogo interdisciplinar.

Encontram-se em preparação os números 11 a 13 da coleção: O papel das bibliotecas na investigação científica, de Jorge Revez; A Rede de Bibliotecas de Lisboa, de Gabriel Filipe Casimiro; e A encadernação dos forais manuelinos: construção de um modelo de análise, de Guilherme Canhão.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o seu extraordinário e já longo percurso no mundo dos arquivos, quais é que considera que são os principais desafios e oportunidades dos profissionais da informação?

(CGS) Os principais desafios podem mais facilmente colocar-se se forem criadas oportunidades, como defendemos, no âmbito das políticas públicas para a administração pública, podendo esta influenciar o setor privado. Todavia, falta uma efetiva política nacional para os arquivos, em função da inexistência de uma efetiva Política Nacional para a Informação, dada a falta de sensibilidade demonstrada por muitos executivos, quer na definição das políticas e na sua concretização através da criação de programas e da afetação de recursos, quer no reconhecimento do papel que os arquivos e os seus profissionais podem ter na modernização administrativa, na qualificação dos sistemas de informação organizacionais e na implementação de sistemas de e-Government com a oferta de e-services, quando Portugal integra, desde 2018, o grupo de países digitais, ou seja, considerados de referência na transformação digital adaptada à Administração Pública e dos mais avançados em termos de Governo digital. Quando o principal recurso da administração pública é a informação, também não se percebe por que razão não é obrigatória a existência de um Gestor de Informação em cada organismo da administração pública, a exemplo do que acontece com os Técnicos Oficiais de Contas (TOC). Mas esta obrigatoriedade não existe, como já não existe uma carreira técnica destes Gestores de Informação, carreira que, não existindo, não valoriza socialmente os seus profissionais e não reconhece o seu papel diferenciador. E, neste aspeto, não é menos relevante o papel silencioso que o órgão coordenador da política arquivística nacional tem tido na reforma administrativa do Estado e, mormente, com a Agência para a Modernização Administrativa, onde a sua presença continua a ser irrelevante.

(ARCHIVOZ) Por último, caso seja possível, gostaria que nos desse conta dos seus projetos futuros, desde logo em termos de investigação, na área da Ciência da Informação, e do Centro de Estudos Clássicos e Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde é investigador.

(CGS) Tentando não desvelar demasiado os projetos de investigação em curso no âmbito do Programa e do Mestrado em Ciências da Documentação e Informação, sublinhamos apenas a nossa concentração no estudo “Os profissionais da informação nos arquivos municipais em Portugal”, cujos resultados serão apresentados em 2021, bem como a organização do V Congresso ISKO Espanha-Portugal, nos próximos dias 25 e 26 de novembro de 2021, que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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