Centro de Memória

“Qualquer espaço onde ocorre a atuação humana deveria contar com um arquivista a fim de implementar uma eficiente Gestão Documental”. Entrevista com Marcia Pessoa, arquivista do Centro de Memória da Escola SESC.

Marcia Rodrigues Pessoa – Arquivista (UFF – Universidade Federal Fluminense), especialista em Sistemas de Informação (UFF) e mestra em Gestão de documentos e arquivos (Unirio – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), atualmente é responsável técnica pelo centro de memória do Polo Educacional Sesc.

(ARCHIVOZ) Primeiramente gostaria de agradecer-te por ter aceitado nosso convite. Segundamente, gostaria de saber como nasceu seu interesse em ser arquivista e como foi seu percurso de formação? Você se considera uma apaixonada pela área?

(MP) É um prazer contribuir com ações que possam dar visibilidade à Arquivologia.
Meu interesse pela área surgiu no Ensino Médio, quando li uma matéria sobre o Arquivo Nacional em um jornal de grande circulação no Brasil. O interesse cresceu quando soube que uma das universidades que ofereciam o curso no estado do Rio de janeiro era a Universidade Federal Fluminense – UFF, perto da minha residência à época. Ao entrar para a faculdade eu tive certeza de que era o que eu queria como profissão, pois era muito mais do que eu havia lido na matéria do jornal anos atrás. Me deparei com um leque de possibilidades do fazer arquivístico, do planejamento à gestão as possibilidades de atuação são inúmeras. Concluí o curso no prazo previsto e também me apaixonei por História, pois a grade curricular de então mantinha diversas disciplinas de História. Cheguei a pedir reingresso, mas foi impossível conciliar o curso com o meu trabalho como arquivista na área de Gestão Documental. Tive a honra de iniciar minha carreira em uma instituição em que a gestora documental era um ícone da Arquivologia brasileira: Marilena Leite Paes. Foi com ela que compreendi o que significa ser um profissional de arquivo e o quanto a Gestão Documental é importante ferramenta de apoio à gestão corporativa e importante aliada para a Memória Institucional.

(ARCHIVOZ) Atualmente você colabora no Centro de Memória do Polo Educacional Sesc. Como foi seu percurso profissional até chegar ao Centro de Memória da ESEM?

(MP) Me orgulho muito de ter atuado em grandes empresas do setor privado e considero um grande desafio manter a empregabilidade como arquivista nesse setor. É desafiador na medida em que exige agregação de valor ao currículo profissional por meio de outros conhecimentos. Ao arquivista cabe a busca por atualizações acadêmica e profissional constantes. Cabem o inconformismo e a superação, considerando que não é possível dar como concluída uma formação cuja atuação profissional vive em constante transformação sobretudo quando relacionada às tecnologias da informação. No meu caso, percebi que o meu contexto passava pelo campo da Administração e decidi fazer minha primeira pós-graduação nessa área. Cursei uma pós-graduação Lato Sensu em administração com ênfase em gestão da qualidade. Algum tempo depois cursei um MBA em Administração e Sistemas de Informação. Essas duas qualificações foram fundamentais no aprimoramento dos conhecimentos adquiridos na universidade e na vida profissional. Mais tarde, com a criação do primeiro Mestrado em Arquivologia no Brasil, venci mais um desafio ingressando na primeira turma. Foi durante o Mestrado que decidi reconfigurar minha atuação profissional, acrescentado a Memória ao meu currículo que antes se baseava em Gestão Documental. A Memória é apaixonante, exige muita interlocução com outras áreas do conhecimento humano, como História e Filosofia, o que vem ao encontro do meu interesse pessoal sobretudo por História. Atuar no campo da Memória me traz diálogos com essas duas disciplinas e me permite perceber cada vez mais a relação destas com a Arquivologia e a importância de associá-las.

(ARCHIVOZ) As funções arquivísticas estão entrelaçadas, contudo, no seu trabalho, há uma função na qual você considera de maior prioridade?

(MP) Entendo que a maior prioridade é dar acesso aos acervos mantidos nos espaços documentais. Independente da configuração, da denominação, enfim, seja um arquivo ou um espaço de memória, viabilizar o acesso deve ser o grande objetivo do arquivista.

(ARCHIVOZ) Como você avalia o papel do arquivista em uma escola, e em um centro de memória? Qual a recepção dos usuários?

(MP) Qualquer espaço onde ocorre a atuação humana deveria contar com um arquivista a fim de implementar uma eficiente Gestão Documental. Não faço essa afirmação com a intenção de estabelecer uma reserva de mercado, mas é inegável a contribuição do arquivista na organização, disponibilização e preservação da informação. A atuação de um profissional arquivista em uma instituição escolar com certeza agrega muito valor quanto à eficiência administrativa, à tomada de decisão e ao atendimento a seus públicos. Quando uma instituição entende que preservar sua memória representa recontar e valorizar sua trajetória, evidencia que paralelamente entende que para reunir os objetos que contam sua história é necessário implementar políticas documentais que assegurem essa preservação. Isso não é comum; de modo geral as empresas criam centros de memória sem a preocupação com a necessária política que irá garantir a alimentação dos mesmos. Criam esses espaços para privilegiar determinadas memórias em detrimento de outras ou para comemorar datas. Entendo que ao arquivista cabe o desafio de apresentar a importante conexão entre uma eficiente política documental e a preservação dos elementos que representam a Memória Institucional. A perpetuação do centro de memória depende da implantação de uma política que assegure de fato a preservação dos elementos constitutivos da Memória pela qual foi criado. Quanto aos usuários, o perfil varia desde alunos interessados em entender um pouco mais o processo de criação da escola, professores que percebem o centro de memória como espaço de guarda e preservação da memória propriamente dita, gestores que percebem os usos da memória como estratégia de gestão, enfim, se trata de um público variado e com diversas expectativas. Todos, via de regra, com um olhar de ótima aceitação acerca do estabelecimento do lugar de preservação da Memória Institucional.

(ARCHIVOZ)Para finalizar fazendo um balanço da nova realidade com a pandemia do novo COVID19, pensa que os arquivos foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(MP) Ainda estamos vivendo e sobrevivendo a essa pandemia que nos trouxe, para além das tristezas e lutos que de alguma forma vivenciamos, algumas práticas antes inimagináveis. Por exemplo, tomar decisões a partir de uma reunião remota não seria a primeira opção antes da pandemia. Éramos muito apegados ao presencial, ao contato físico, às decisões ao redor de uma mesa, enfim, ao “antigo normal”. O “novo normal” de forma repentina não nos deixou alternativa e tivemos que adotar práticas que, fora do cenário de pandemia, talvez levassem anos para que naturalmente fossem implementadas.  Fazendo um recorte para as minhas atividades, a reinvenção imposta pela pandemia trouxe realizações que em uma rotina presencial talvez não tivessem fluído tão bem. A permanência de um Centro de Memória vai além da manutenção de um local de guarda onde os elementos de memória são arquivados de acordo com metodologias arquivísticas. É necessário dar visibilidade ao espaço por meio de ações. Romper barreiras, negociar, expor, usar. Tudo isso foi necessário para reinventar o Centro de Memória do Polo Educacional Sesc. Foram criadas estratégias a fim jogar luz ao fazer arquivístico no espaço, tais como palestras por lives sobre Memória, buscando evidenciar a importância da preservação, da valorização e do uso dos materiais representativos da Memória Institucional.

 

“A história não é apenas ação dos grandes homens, mas sim de todos os homens que operam cotidianamente para a realização de ações que resultam em movimentos dessa mesma história”: Entrevista com Américo Baptista Villela

Américo Baptista Villela é Professor da Escola Técnica Bento Quirino, curador do Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” * na mesma instituição, e historiador do Museu da Cidade de Campinas, São Paulo. A Escola Técnica Bento Quirino é fruto do legado testamentário de Bento Quirino dos Santos, que foi um comerciante próspero e homem engajado na política e sociedade do seu tempo. Criada em 1915 como instituição particular masculina, a “Associação Instituto Profissional Bento Quirino” foi projetada pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo e edificada na região central da cidade de Campinas no ano de 1917.

A expansão das escolas profissionais no Brasil esteve, inicialmente, diretamente vinculada ao processo de urbanização e industrialização do país, mas também à necessidade de oferecer uma opção para os filhos dos homens brancos pobres e livres que viviam nas cidades, e aos órfãos e desprovidos de fortuna. Um dos principais objetivos era transformar os indivíduos em cidadãos e qualificá-los para o trabalho através da educação. Em 1927 a Escola foi incorporada pelo Governo de São Paulo, ano em que também passou a ser uma escola mista com a criação da Seção Feminina. No ano de 1967 deixa o seu edifício original e transfere suas atividades para o endereço onde está localizada até os dias de hoje, na Avenida Orosimbo Maia nº 2600.

(ARCHIVOZ) Prezado Professor, no ano de 2020 o Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” comemora 20 anos de existência. Gostaria que você comentasse como surgiu a ideia de constituição do Centro, assim como sua participação e dos alunos neste projeto.

(Américo Baptista Villela) Bom dia. Inicialmente, gostaria de agradecer a possibilidade de divulgar esse importante instrumento de ensino e pesquisa que é o Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” da Etec Bento Quirino de Campinas. Isto posto, vou tentar reconstruir a trajetória que resultou na construção do mesmo.

Em 1992, a escola passa por muitas modificações preparando-a para ser incorporada pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, autarquia do governo do Estado de São Paulo, e para tanto há a mudança na direção da escola, bem como a chegada de um grupo de professores recém-formados no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas. A direção é assumida pela professora Orleide, posteriormente homenageada como patrona do Centro de Memórias, entre os professores estavam presentes eu, Ronaldo Finelli – in memoriam, Claudia Bevilacqua Denardi, Sandra Regina de Almeida Moratto.

Esse grupo, ao chegar a escola, encontrou uma rica documentação espalhada por diversas dependências do prédio e correndo risco de deterioração. Em um primeiro momento, a escola convida um grupo técnico do Centro de Memória da Universidade de Campinas para visitar a escola e conhecer a documentação em questão. Esse grupo composto por  Fernando Antônio Abrahão, diretor da área de arquivos históricos, Cássia Denise Gonçalves, arquivista – responsável pelo setor de fotografias, Maria Alves de Paula Ravaschio, diretora da biblioteca, após a visita,  reforçou a percepção original do grupo de professores sobre a importância do acervo e fez algumas recomendações sobre como proceder para garantir a preservação do mesmo, mas, naquela conjuntura, marcada pela transição que a escola vivia, essas recomendações não puderam ser atendidas.

Realizada a transição em 1995, os professores retomam o tratamento do acervo e em 1997, durante a comemoração dos oitenta anos da construção da primeira sede da escola, há a montagem de uma exposição sobre a história e desenvolvimento da mesma. Na construção desta exposição, o engajamento e participação dos alunos foi muito grande e demonstrou novamente a importância e riqueza do acervo. Em 1998, há aproximação com a equipe do Centro de Memória da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, que estava realizando uma parceria com o Centro Paula Souza e que contribuiu para viabilizar o sonho esboçado em 1992, de que a escola viesse a ter o seu próprio Centro de Memórias.

(ARCHIVOZ) Sobre a participação da Etec Bento Quirino no Projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais”, uma parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e o Centro Paula Souza, qual foi a maior contribuição deste projeto para a Escola, além claro, da criação do Centro?

(AV): Sem sombra de dúvidas, o protagonismo se deu em função do envolvimento de toda a comunidade escolar em torno do tema. Professores, alunos, funcionários e todos os órgãos auxiliares da escola como a Associação de Pais e Mestres e o Grêmio Estudantil se envolveram na transformação de um sonho em realidade. Além disso, a capacitação técnica oferecida pela equipe do Centro de Memória da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, bem como a capacidade do referido Centro em mobilizar o apoio de outras instituições da referida universidade como o Instituto de Estudos Brasileiros (USP), o Museu de Arte Contemporânea, etc. e também de instituições como o Arquivo do Estado de São Paulo para qualificar os professores envolvidos foi determinante.

Ainda, foram determinantes o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, que ofereceu bolsas de estudos para os professores e recursos para a aquisição de materiais de consumo e equipamentos e da Associação de Pais e Mestres da escola, que auxiliou na reforma do espaço e recebeu a documentação. Difícil dimensionar qual foi a maior contribuição, mas eu acredito que foi a articulação entre ensino e pesquisa que o projeto não só permitiu como incentivou e que se mantém até hoje.

Ações foram desencadeadas pelos alunos para reconstruir o conhecimento sobre a história da escola e surgiram iniciativas de conservação e restauro de antigos documentos que incentivaram práticas transdisciplinares, como o atual restauro de um torno da década de 1940 ou a montagem do laboratório fotográfico para reprodução dos documentos iconográficos.  Além disso, aponto a forma como os alunos passaram a ver não apenas o patrimônio histórico cultural, mas o próprio patrimônio da escola como propriedade de cada um dos membros da comunidade escolar e portanto objeto de carinho, cuidado e guarda de todos, o que fez com que o patrimônio escolar deixasse de ser alvo de vandalismo.

(ARCHIVOZ) Para realizar a constituição do Centro de Memórias da Etec Bento Quirino foram realizadas capacitações para a equipe técnica-administrativa e professores da escola. Como se deu a incorporação dos alunos neste projeto que foi intitulado “Introdução ao Tratamento do Documento Museal” e quais as principais atividades realizadas?

(AV) O curso “Introdução ao Tratamento do Documento Museal” foi uma estratégia para socializar os conhecimentos adquiridos pelos professores participantes do projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais” durante as capacitações realizadas. Abriu-se inscrição para os alunos interessados através do Grêmio estudantil e o mesmo realizou a seleção para a participação, pois não foi possível atender a todos.

As atividades do curso, apostilado, ocorreram no período das férias de julho de 1998 e consistiram em 20 horas aulas, organizadas em 5 dias, com duas horas iniciais de discussão teórica seguidas de duas horas de atividades práticas. Em cada um dos dias de curso foi tratado um dos assuntos a serem aplicados pelos alunos: arquivística, teoria das três idades, iconografia, diferentes suportes de informação, tratamento de documento tridimensional, procedimentos museológicos, etc.

Após o curso, os alunos participantes passaram a socializar com os colegas que atuavam voluntariamente, para inventariar, catalogar, higienizar e embalar os acervos em seus diferentes suportes e formatos. Além disso, alguns alunos com habilidades em informática desenvolveram sistemas para controlar e disponibilizar o acervo ao público, o que levaria a inauguração do Centro de Memórias no ano de 2000.

(ARCHIVOZ): A professora Orleide, analisando os trabalhos que resultaram na construção do Centro de Memórias Bento Quirino avaliou que ao mobilizar a comunidade para higienizar, embalar e organizar os documentos, ficou evidente que o gerenciamento da coisa pública é responsabilidade de todos. Gostaria que você comentasse sobre essa experiência coletiva.

(AV) Como apontado anteriormente, os alunos passaram a ver não apenas o patrimônio histórico cultural, mas o próprio patrimônio da escola como propriedade de cada um dos membros da comunidade escolar, portanto objeto de carinho, cuidado e guarda de todos. Isso fez que o patrimônio escolar deixasse de ser alvo de vandalismo. Isto porque, acredito eu, foi transferida para eles a responsabilidade pelas ações que garantiriam a preservação dos documentos, e eles próprios passaram a se perceber como partes constituintes e agentes da história da escola. Sendo assim, cada um deles pretendia deixar um legado e compreenderam que carteiras, máquinas, enfim, objetos que hoje estavam ali em função de seu valor de uso, amanhã poderiam estar no Centro de Memórias pelo seu valor cultural.

Nas comemorações dos cem anos da escola em 2017, muitos retornaram para a cerimônia de abertura da Cápsula do Tempo. Nesta cápsula foram depositados bilhetes para a posteridade durante as comemorações dos oitenta anos da escola em 1997.  Em 2017 uma nova capsula foi lacrada, para que em 2037 seja reaberta com as recordações e objetos depositados pelos alunos.

(ARCHIVOZ) Você utilizou para a realização do seu projeto de Mestrado* * na Unicamp a documentação do Centro de Memórias.Por ter participado da constituição desse acervo, como se deu a seleção e análise dos documentos na elaboração da sua dissertação?

(AV) A bem da verdade, durante a realização do projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais”, algo me incomodava: era a percepção de que muitos acreditavam que o nosso papel era apenas o de garantir a conservação, preservação e disponibilização das fontes documentais para os pesquisadores e para a posteridade, o que, acredito eu, por si só, já seria uma meta louvável.

No entanto, eu entendia que o nosso papel como professores era maior. Era necessário não apenas garantir a conservação, preservação e disponibilização das fontes documentais para os pesquisadores e para a posteridade, mas também oferecer aos nossos alunos a possibilidade de se utilizarem dessas fontes para reconstruir o seu próprio conhecimento do passado e foi essa percepção que nos motivou a deixar que a exposição inaugural fosse construída por eles.

Para minha grata surpresa eles optaram por dividir a exposição em dois módulos: no primeiro, a partir dos instrumentos de trabalho que eles haviam utilizado (trinchas, estiletes, material para confecções de embalagens e jaquetas para as fotos, etc.) e imagens, eles reconstruíram a trajetória de criação do Centro de Memórias. Pensei comigo, muito bom, eles estão “dessacralizando” os objetos museológicos e percebendo que a história não é apenas ação dos grandes homens, mas sim de todos os homens que operam cotidianamente para a realização de ações que resultam em movimentos dessa mesma história. O Centro de Memórias não é criação dos professores ou da direção escolar, mas de toda a comunidade.

No segundo módulo, eles se propuseram a recontar os anos iniciais da escola a partir do acervo e, nesse ponto surge o embrião da minha dissertação. Ao reconstruir a história da escola eles romperam com a visão tradicional e consagrada pela memória oficial de ver a escola como uma ação de mera filantropia do patrono. Eles perceberam a criação da escola como resultado de uma cidade que via surgir a industrialização em uma economia agroexportadora baseada na cultura cafeeira, e em que o próprio benemérito havia se envolvido com o setor de serviços. Para tanto, eles se utilizaram de um quadro de 1914 oferecido pela Cia. Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação para homenagear o patrono por ter sido presidente da mesma, destacando a importância do patrono para a criação da Cia. Campineira de Águas e Esgoto em 1889.

Mais do que isso, os alunos perceberam que os cursos oferecidos estavam diretamente relacionados com as fábricas que estavam se instalando na cidade. Foi a partir dessa exposição que comecei a pensar minha futura dissertação. A seleção e análise da documentação se realizou a partir das pesquisas realizada por alunos da própria ETEc e do suporte oferecido a outros pesquisadores que realizaram seus trabalhos sobre o acervo, pois me obrigaram a conhecer quantitativa e qualitativamente a documentação e, nesse sentido, as atividades oferecidas pela Faculdade de Educação da UNICAMP permitiram e contribuíram para um maior rigor e aprimoramento teórico metodológico da minha pesquisa.

(ARCHIVOZ) Hoje, como o acervo está organizado, quais os principais tipos documentais, tamanho do acervo, e quais as condições de consulta e acesso aos documentos? E perante às mudanças ocorridas na Escola e no Centro de Memórias, quais as possibilidades de retomada deste trabalho, esperança e perspectivas de futuro?

(AV) Hoje, o acervo que havia sido organizado em um espaço único composto por: uma sala de exposição, uma área grande para reserva técnica, duas salas para tratamento da documentação (sendo uma para o tratamento físico de higienização e embalagem para exposição ou guarda e outra para catalogar e alimentar banco de dados e página na internet), uma sala na qual foi instalado o laboratório fotográfico… novamente voltou a estar espalhado pela escola.

Documentos que exigem guarda em função de seu valor probatório, tais como prontuários de professores e ou de alunos estão sob gestão dos respectivos setores que os geram, a saber, respectivamente, Diretoria de Serviços e Diretoria Acadêmica. Os documentos que foram preservados em função de seu valor cultural, como imagens, livros ou objetos estão sob guarda do Centro de Memórias em uma pequena sala com uma exposição permanente.

O Centro tem apostado na utilização de técnicas museológicas para garantir a manutenção e ressignificação de objetos e espaços da escola. Assim, por exemplo, um antigo torno que seria leiloado foi restaurado por um grupo de alunos e musealizados na oficina da escola, e as placas que nomeiam algumas salas seguem acompanhadas de textos que explicam os motivos da menção. O objetivo é que no longo prazo a escola volte a perceber o potencial do Centro de Memórias como um importante instrumento de ensino e pesquisa, mas também como um espaço de cidadania.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos desenvolvidos durante estes 20 anos por pesquisadores externos no Centro de Memórias? E internos? Quais você destacaria? De que forma a documentação/fontes utilizadas fundamentou os projetos desenvolvidos?

(AV) Difícil definir quais os principais, todos eles tem sua importância. Gostei muito da exposição inaugural, bem como da exposição organizada pelo Grêmio Estudantil em 2001, mas delas não restaram muitos registros, sendo assim, vou me pautar pela longevidade e possibilidades de trabalhos futuros, sendo assim destaco:

Entre os pesquisadores externos apontaria a dissertação de Lúcia Pedroso da Cruz “Bento Quirino e Cotuca: os passos do Ensino Profissional em Campinas”, tendo como orientadora Maria Helena Salgado Bagnato em 2008, e o seu Doutorado “A trajetória de um dispensário de puericultura em Campinas nas décadas de 1930 e 1940”, (2014) ambos defendidos na Faculdade de Educação da UNICAMP.

Entre os pesquisadores internos, cito os trabalhos dos alunos Jonathan Doro sobre relações étnicos raciais, que enfatiza a manutenção da discriminação racial no acesso à educação, e da aluna Sophia Carvalho Tosi sobre os cursos femininos, no qual ela analisa os impactos da revolução sexual dos anos 1960, sobre a forma como os trabalhos das meninas eram exibidos, ambos apresentados como banners no VI – Encontro de Memórias e Histórias da Educação Profissional  Concepções, Rupturas e Permanências, realizado pelo Centro Paula Souza em 2018.

Em todos esses trabalhos a documentação foi utilizada como indícios de um passado a ser conhecido e reelaborado a partir de uma análise crítica da mesma.

(ARCHIVOZ) Sobre a sua afirmação “pretendo que os documentos não apenas reafirmem e complementem as lembranças, mas que também possam gerar novas formas de reviver o passado…”. Queria que você falasse um pouco mais sobre essa questão: sobre como é possível, através do resgate do passado fazer novas reflexões sobre a história, o tempo presente, os acontecimentos,  e assim “estar preparado para mudar de ideia e reconstruir o processo histórico”.

(AV) Retomando o exemplo da exposição inaugural e o quadro mencionado ofertado pela Cia. Mogiana de Estradas Ferros e Navegação. O quadro foi entregue a escola para reforçar uma memória da ação do patrono, como filantropia, porém os alunos ao recontextualizar a vida do patrono, e da própria cidade, atribuíram a ele um outro significado que não apenas o da filantropia.

Mais do que isso, a exposição inaugural ocorreu em uma conjuntura marcada por um forte embate entre o movimento estudantil e o governo federal e estadual, tendo em vista o decreto 2208\97 que havia instituído o desvinculo entre o ensino técnico e médio, depois do projeto de lei 1603/96 não conseguir ser aprovado, o que forçou o governo a se utilizar de um expediente autoritário.

Isso fez com que os alunos inserissem lágrimas nos olhos da imagem do patrono na expografia. Na monitoria, eles explicavam para os visitantes que o patrono, caso vivo, estaria triste com as mudanças que estavam sendo impostas à escola, o que representaria uma redução da qualidade de ensino mais ampla almejada pelos republicanos do início do século XX. Assim, penso eu, a história deixa de ser pensada como algo pronto e acabado, mas sim em algo que está em constante reelaboração.

(ARCHIVOZ) Prezado professor, agradecemos a sua entrevista e disponibilidade. E desejamos sucesso na continuidade dos trabalhos no Centro de Memórias.
  • A Professora de história Orleide Aparecida Alves Ferreira, que dá nome ao Centro de Memórias, foi diretora da Escola Técnica Bento Quirino entre 1992 e 2004, ano em que retornou à sala de aula.
* * “O instituto profissional masculino Bento Quirino: uma visão social ideológica, maçônica, industrial e republicana” de 2011.
Crédito Fotográfico: Imagem cedida por Américo Baptista Villela.

Entrevista realizada por: Isabela Cristina Salgado

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