Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça

“Visitar a Casa dos Patudos é como entrar num espaço e vivê-lo por dentro, não como espetador, mas como parte integrante dessa história.”: Entrevista com Nuno Prates

Entrevistámos Nuno Prates, Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso académico, formativo e profissional, até chegar às funções que desempenha atualmente, como Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça.

(Nuno Prates) Iniciei o meu percurso académico, em 1994, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, aqui licenciei-me em História (Variante de Arqueologia), fazendo também o Ramo Educacional desta Licenciatura. Mais tarde frequentei a Licenciatura em História da Arte, na mesma Universidade. No ano de 2001, na Universidade de Évora, fiz estudos pós-graduados em Museologia, e ao longo dos últimos anos tenho realizado vários cursos e formações na área do património dos quais destaco o curso de Inventário do Património Cultural Imaterial, na Universidade Aberta de Lisboa.

Profissionalmente após a conclusão da licenciatura comecei a dar aulas no 3º Ciclo do Ensino Básico e Secundário, onde estive treze anos e onde lecionei, entre outras, a disciplina de História a vários níveis de ensino e desempenhei ainda os cargos de Coordenador Pedagógico e Diretor de Turma. Ainda ligado ao Ensino da História, sou formador na área e domínio da Didática da História, pela Universidade do Minho.

Sempre ligado à História Local e Regional e à Museologia, após a Especialização nesta área realizei um Estágio no Museu Agrícola de Riachos (Torres Novas).

Em 2011 assumo as funções de Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, como natural de Alpiarça, desde cedo tive contato com este espaço mágico que comecei a estudar muito jovem, com catorze anos de idade.

Em 1993 participei, na Casa dos Patudos, no Projeto Jovens Voluntários para a Solidariedade e foi uma excelente oportunidade de conhecer toda a casa e a coleção.

Atualmente sou mestrando em Gestão e Valorização do Património Cultural – especialidade Património Artístico e História da Arte, estando na fase de conclusão da dissertação.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer obre a importância arquitetónica e artística da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, destacando a personalidade de José Relvas e o papel de Raul Lino na realização desta obra, mas também sobre as potencialidades deste notável edifício, no âmbito do turismo cultural?

(NP) José de Mascarenhas Relvas (1858-1929) é uma personalidade marcante do século XX português, nas na Golegã e em 1889 vem viver para Alpiarça.

Casou em 5 de fevereiro de 1882 com D. Eugénia Antónia de Loureiro da Silva Mendes (1865-1951), filha dos Viscondes de Loureiro, de Viseu, e sua segunda prima, com quem ficou a viver na Quinta do Outeiro, na Golegã. Após a morte de D. Margarida, mãe de José Relvas, este herda a Quinta dos Patudos, em Alpiarça onde fixam residência em 1889. O casal teve três filhos, nenhum dos quais sobreviveu aos progenitores: Maria Luísa de Loureiro Relvas (1883 – 1896), Carlos de Loureiro Relvas (1884 – 1919) e João Pedro de Loureiro Relvas (1887-1899). Maria Luísa e João Pedro morrem de febre tifoide e Carlos suicida-se na Casa dos Patudos, com 35 anos de idade, no dia 14 de dezembro de 1919.

José Relvas apresentava-se na vida pública como Agricultor de Alpiarça. A agricultura era a sua maior fonte de rendimento e a produção vinícola a mais significativa. Contudo nas suas propriedades José Relvas fazia também produzir cereais, cortiça e azeite e obtinha dividendos da criação de gado.

A partir de 1907 estabeleceu uma assumida ligação ao Partido Republicano Português, participando em manifestações, comícios e reuniões políticas, um pouco por todo o país. Depois da Proclamação da República, José Relvas assumiu as funções de Ministro das Finanças do Governo Provisório (1910-1911), embaixador de Portugal em Espanha, até 1914. Afastado da política ativa desde 1915, concorreu para Presidente da República em 1918 e, não sendo eleito, assumiu posteriormente as funções de presidente do Conselho de Ministros e de Ministro do Interior por um período de dois meses (27 de janeiro a 30 de março de 1919). Para além de agricultor e político, foi também músico amador (tocava violino) e um grande colecionador de arte.

José Relvas mandou edificar a Casa dos Patudos para dar uma morada condigna à sua coleção de arte e todas as artes tiveram o seu espaço nesta casa. A construção das novas salas iniciou-se me 1905, com projeto de Raul Lino de 1904. O Senhor dos Patudos participou nas decisões do arquiteto, discutiu pormenores e deu as suas diretrizes. As salas amplas, o salão com acústica para concertos, as galerias exteriores que permitem admirar a lezíria, foram concebidas por um arquiteto moderno para um cliente exigente.

Mas o arquiteto não se limitou a desenhar uma grande residência, esmerou-se em pormenores da decoração interior e enalteceu as artes portuguesas, usando os azulejos, os ferros, as cantarias e até o mobiliário de fabrico português. A Casa foi mais tarde ampliada, em pelo menos duas fases de obra, sempre com projeto de Raul Lino.

A Casa dos Patudos foi local de romagem de artistas, políticos, escritores e poetas.

No que diz respeito ao Turismo Cultural a divulgação nacional e internacional da Casa dos Patudos já é articulada com outras ofertas turísticas na região e no concelho. Conhecida a vontade do patrono e trabalhando para cumpri-la, contribuímos para a preservação de um património que inclui o registo memorial e documental de um ilustre republicano, a Casa tem sido um elo de ligação entre outros polos de interesse para o concelho e região, nomeadamente nas ligações entre a produção vitivinícola; espaços de lazer (Albufeira, Parque de Campismo, Piscinas e Núcleos Desportivos) e ainda a criação de um Espaço de Reserva Ambiental – Reserva do Cavalo Sorraia. A abertura de novos espaços museológicos em 2011 (Aposentos) e 2013 (Cozinha) possibilitou um atrativo para quem já conhecia o projeto, manifestando-se por um aumento de visitantes. Esta Casa constitui uma referência cultural regional e também nacional, para estudiosos e público, em geral, assim como para algumas instituições internacionais que começam a despertar para a qualidade rara do acervo. Este ano vamos abrir uma nova sala ao público, a Sala Império, com a nossa coleção de leques.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, no que respeita ao seu extraordinário acervo, nomeadamente as suas coleções de pintura, escultura, mobiliário, têxteis, etc., e o respetivo percurso expositivos, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o melhor conhecimento das mesmas. O que distingue a Casa dos Patudos dos outros museus?

(NP) A Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça é um espaço único, ela própria uma obra de arte saída do eclético traço de Raul Lino

A coleção é de variadas épocas e tipologias, desde os finais do século XV até aos inícios do Séc. XX. A Casa dos Patudos pode ser encarada em três vertentes museológicas: A Casa em si, de Raul Lino; a coleção eclética e a memória do seu fundador, José Relvas. Na Casa podemos encontrar uma vasta coleção de obras de arte, composta por pintura, escultura e artes decorativas. Na pintura portuguesa destacam‐se: Silva Porto, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro e Constantino Fernandes, além de notáveis artistas de escolas estrangeiras. Podem, ainda, ser apreciadas porcelanas de Sèvres e de Saxe, azulejaria, peças da Companhia das Índias, cerâmicas da Fábrica das Caldas da Rainha (Rafael Bordalo Pinheiro), Rato, Bica do Sapato e Vista Alegre e ainda bronzes de Chapu, de Mercié e de Frémiet. A coleção é composta por cerca de 8.000 obras de arte das quais destacava como as mais importantes o Retrato de Domenico Scarlatti, óleo sobre tela, atribuído a Domingo António Velasco, do Século XVIII; a Jarra Beethoven, Faiança da Fábrica das Caldas da Rainha, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro, datada de 1903 e um Tapete de Arraiolos em seda sobre linho, datado de 1761.

Destaco também o Arquivo Histórico composto por 50.000 documentos e 5.000 fotografias.

O percurso expositivo faz-se ao longo de três andares, das 101 divisões da casa, diria que o espaço se mantém, tanto quanto possível, como residência à espera do proprietário, cuja memória é preservada nos seus objetos pessoais, livros e documentos.

Na visita à Casa dos patudos ficamos a conhecer o acervo artístico de excelência, mas também a vida da família Relvas.

A Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça distingue-se dos outros museus pelos aspetos diferenciadores deste espaço museológico é o facto de ser uma Casa-Museu, com Histórias e estórias, pode-se dizer que tem uma alma própria de um espaço vivido. Não é só um museu, existe uma narrativa história que ajuda a perceber quem foi a família Relvas, do que gostavam, o que faziam, como era a sua vida, com eram passados os serões. Visitar a Casa dos Patudos é como entrar num espaço e vivê-lo por dentro, não como espectador, mas como parte integrante dessa história.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo, desde logo através do respetivo Serviço Educativo?

(NP) O Serviço Educativo da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, desenvolve atividades para os mais variados públicos, relacionando-o com o espaço em que está inserido, promovendo a sua imagem junto das instituições e potenciais interessados na sua visita (escolas, universidades, espaços turísticos e comunidade local).

A mudança de novos paradigmas permitiu criar na Casa dos Patudos mudanças nas vertentes culturais, científica, educativa e social o que faz com que as nossas portas estejam abertos a todos, criando uma aproximação entre os públicos e as nossas coleções.

O Serviço Educativo da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça funciona como um recurso, para melhorar o seu nível de comunicação na área da educação, através da dinamização de atividades, oficinas, ateliers e criação de materiais pedagógicos, mantendo também formas de colaboração e de articulação com o sistema de ensino. Estes recursos pedagógicos proporcionam aos participantes das atividades vivenciar um maior número de conhecimentos e de experiências como a imaginação, a criatividade, construindo o seu conhecimento e ao mesmo tempo apropriando-se do conceito de património.

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça desde 2011. Que balanço faz do exercício deste cargo?

(NP) Sim, sou Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça desde 2011, foi mais um desafio que aceitei isto porque gosto muito da terra onde nasci: Alpiarça e em particular deste espaço, que é único.

O balanço que faço do exercício deste cargo, encaro-o como a minha missão ao serviço da Casa dos Patudos como potenciador da valorização deste património, divulgá-lo e torná-lo acessível a todos, cumprindo as funções museológicas (Investigação, Documentação, Conservação, Exposição/Interpretação/Difusão e Educação). A abertura de novos espaços que temos em perspetiva virão dar novas leituras à Casa.

Deste modo estou certo que deixarei a minha marca e o meu legado na história da Instituição.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2020, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o diminuir o impacto deste contexto tão negativo?

(NP) Sem sombra de dúvida a COVID 19 veio alterar a vida de todos e a cultura e os espaços culturais tiveram que lidar com esta pandemia, encontrando estratégias para chegar aos vários públicos, nomeadamente através das plataformas digitais, reinventando-se, para que os nossos públicos pudessem sempre estar próximos da Casa dos Patudos e acompanhando as nossas atividades. No que diz respeito ao trabalho interno foi um momento em que se organizaram espaços e se realização algumas intervenções ao nível da Conservação Preventiva. Continuamos sempre a trabalhar para elevar a memória de José Relvas e garantir o cumprimento da salvaguarda deste legado. No que diz respeito ao atendimento ao público e nas visitas guiadas, cumprindo todas as regras e normas de higiene e segurança vamos realizando as visitas, em pequenos grupos, num percurso menor e num único sentido, por forma a não haver contactos entre os vários visitantes. Conseguimos sempre desenvolver estratégias para chegar ao público, neste contexto as redes sociais foram fundamentais.

(ARCHIVOZ) Considerando o dinamismo que carateriza a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para 2022?

(NP) A Casa dos Patudos foi inaugurada, como Museu, em 15 de Maio de 1960 e ao longo destes 61 anos foram vários os prémios e distinções que recebeu, destacamos alguns: Prémios SOS Azulejo 2011, foi atribuída a Menção Honrosa Intervenção e Restauro’ pelo Estudo e intervenção / recolocação de painel de azulejos intitulado “Cenas agrícolas da Quinta dos Patudos conforme plano e edifício originais. Louvor Público atribuído pela Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico, pelo trabalho desenvolvido na valorização e reabilitação da Casa dos Patudos. Prémios APOM 2014 (Associação Portuguesa de Museologia), Prémio Projeto Internacional – Menção Honrosa – Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, no âmbito do projeto Animals in arts and nature, do programa Comenius.

Medalha de Ouro atribuída pela Associação Portuguesa dos Municípios com Centros Históricos (APMCH) em 2016 e o Prémio de Melhor Projeto Público de 2015 e 2017 da Entidade Regional de Turismo Alentejo e Ribatejo.

Queremos continuar a desenvolver um trabalho de excelência e a ter uma programação cultural que faz deste espaço uma referência na região. Uma das nossas apostas é a abertura de um novo espaço ao público, a Sala Império com a nossa coleção de leques, muito diversificada e de grande esplendor artístico.  Destacava também em setembro (de 24 a 26) a realização do 3º Colóquio Saudade Perpétua, onde serão abordadas temáticas ligadas à arte, cultura e património do período Romântico. Em outubro, nos dias 7, 8 e 9 irá realizar-se o Simpósio, ICTM – Grupo de Estudos de Iconografia e Artes Performativas. Este é um evento a nível mundial, numa organização conjunta do CESEM/Universidade Nova de Lisboa e Câmara Municipal de Alpiarça/Casa dos Patudos-Museu de Alpiarça. O Simpósio tem como temática principal: Objetos e Imagens de Música em Museus Públicos e Privados.

Outro grande desafio é o Projeto de Valorização Patrimonial do concelho de Alpiarça, voltado numa primeira fase para o património arqueológico. A Arqueologia pode ser um excelente exemplo de desenvolvimento dentro de um potencial turístico que precisa ser mais explorado.

Em 2022 é nossa intensão continuar a realizar iniciativas para todos os públicos, mas destacando a realização do II Seminário Nacional José Relvas: Arte, Cultura e República, que se realizou pela primeira vez em 2019.

(ARCHIVOZ) Parta terminar, quais é que pensa que são os grandes desafios que os museus portugueses e os respetivos profissionais têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(NP) Os desafios são muitos e cada vez maiores, quer para os museus, quer para os seus profissionais. Não descurando a conservação e preservação dos acervos, penso que cada vez mais há a necessidade de divulga-los convenientemente, fazendo com que se tornem acessíveis a todos, trabalhando, por exemplo, em rede.

Usando ferramentas digitais que possam estar mais próximos de públicos mais jovens. Só desta forma, e com a ajuda de todos, o património pode ser transmitido às novas gerações. Só assim poderemos dizer que estamos a preservar a memória e que esta é a gratidão no coração.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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