Biblioteca Municipal de Beja

“Numa cidade acordada, uma biblioteca sem sono” – um olhar sobre a Biblioteca Municipal de Beja José Saramago: Entrevista com Maria Paula Santos

Entrevistámos Maria Paula Santos, Bibliotecária Municipal da Biblioteca Municipal de Beja José Saramago.

(Archivoz) Fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional até chegar a Bibliotecária Municipal na Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, onde se encontra desde 1995.

(Maria Paula Santos) Sou licenciada em História pela Universidade de Évora, especializei-me em Ciências Documentais (Bibliotecas e Documentação) na Faculdade de Letras de Lisboa, e tenho um master em Documentação Digital pela Universidade de Pompeu Fabra de Barcelona.

Iniciei a minha vida profissional como técnica de inventário de coleções no ex IPPC (atual DGPC – Direção Geral do Património Cultural), depois fui durante 5 anos professora de história no ensino secundário e em 1991 iniciei a minha vida profissional enquanto bibliotecária na Biblioteca especializada do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa).

Tenho participado desde 1998 na minha associação profissional – BAD (Associação portuguesa de bibliotecários, arquivistas, profissionais de documentação e informação), como membro dos corpos socias da Delegação Sul, e entre 2011-2013, como presidente do Conselho Diretivo Nacional.

Sou presentemente a Bibliotecária Municipal da BMBEJA e entre a gestão do equipamento e dos serviços, sou a responsável pela programação dirigida aos adultos e de todos os projetos de literacia e também a mediadora no Clube de leitura.

Desde 2014 que me empenho em contribuir para aumentar a comunidade de leitores da obra de José Saramago, organizando em conjunto com o Diego Mesa (responsável pelo projeto Aula Saramago/Espanha) os Encontros Ibéricos de Leitores de Saramago, cuja realização alterna anualmente entre Portugal e Espanha, em 2019 criando, em conjunto com a Fundação José Saramago, a Rede de Bibliotecas José Saramago.

(Archivoz) Gostaria que nos apresentasse a Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, no que respeita à sua missão e visão, quais os principais fundos e coleções que integra, e como se encontram organizados, com vista à comunicação dos mesmos, mas também no que se refere aos serviços que disponibiliza ao público, e tudo o mais que entender para o seu melhor conhecimento. O que a distingue de outras bibliotecas?

(Maria Paula Santos) A BMBEJA é um serviço da área cultural da Câmara Municipal de Beja.

A sua missão e visão sobre o seu papel na comunidade estão traduzidas na seguinte frase que se encontra no átrio de entrada da Biblioteca – “Numa cidade acordada, uma biblioteca sem sono”, da autoria de Joaquim Figueira Mestre. Na prossecução desta missão e visão a BMBEJA assume-se como o largo da comunidade, o portal regional de acesso à informação e a promotora de parcerias locais para promoção das diferentes “leituras” e literacias.

É uma das mais antigas instituições culturais da cidade, tendo sido fundada a 21 de Junho de 1874, dentro do espírito da época em que surgiram por todo o país um conjunto de bibliotecas de leitura pública, como consequência do movimento de renovação das mentalidades, que se seguiu às Guerras Liberais.

Reinaugurada a 30 de Abril de 1993 no âmbito da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, projeto tutelado pela Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), insere-se na tipologia das bibliotecas BM2 (tipologia para populações entre 20.000 e 50.000 habitantes) dos contratos programa de financiamento estabelecidos entre o Ministério da Cultura – Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e os municípios portugueses, neste caso com a Câmara Municipal de Beja.

No âmbito da sua missão enquanto promotora de parcerias e criadora de comunidades em torno de objetivos e interesses comuns:

  • Desde 12 de Maio de 2003 que faz parte da UNAL (UNESCO Network of Associated Libraries) – Rede de Bibliotecas Associadas da UNESCO. Rede de Bibliotecas Associadas da Comissão Nacional da UNESCO, desde 29 de Setembro de 2017, com a assinatura da Carta de Princípios desta rede.
  • Desde 25 de Fevereiro de 2013 faz parte do Grupo de trabalho das bibliotecas municipais da CIMBAL (Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo). RIBBA – Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Baixo Alentejo, a partir de 8 de Novembro de 2018, com a assinatura do protocolo com a DGLAB (Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas)
  • Desde 21 de Agosto de 2015 faz parte da Rede de Bibliotecas Patrimoniais do Alentejo, promovida pela Universidade de Évora / CIDHEUS, com o objetivo de promover a preservação e divulgação do fundo documental de livro antigo
  • Desde 22 de março de 2019 é membro fundador da Rede de Bibliotecas José Saramago, que em conjunto com a Fundação José Saramago, reúne com o objetivo comum de promover a leitura da obra do Prémio Nobel da Literatura 1998, as bibliotecas municipais que tem o nome de José Saramago – Avis, Almada/Feijó, Loures, Odemira, a Biblioteca do Instituto Politécnico de Leiria e a Biblioteca Almeida Faria (Montemor o Novo).

No âmbito da sua missão enquanto largo da comunidade a BMBEJA coloca à disposição das pessoas da sua comunidade oportunidades diversas de conhecer, experienciar, refletir e agir nas seguintes áreas de intervenção:

Programa Rotas de Leitura – público-alvo: pais e filhos

Histórias de fazer tem-tem Pais e filhos entre os 10 meses e os 24 meses. Desenvolvimento da Linguagem| Leituras com sentidos| Primeiros passos; Patáti – Patáti. Pais e filhos entre os 24 meses e os 36 meses. Histórias cantadas. Histórias Lidas e Brincadas; Histórias de Déu em Déu. Pais e filhos entre os 3 e 5 anos. Pré-leituras | Literacia Emergente | Expressões. Brincar com as palavras, com o corpo e com os objetos; Barrigas cheias de Histórias. Para pais e filhos descobrirem outras maneiras de LER e encher olhos e barrigas; Clube dos Papa Livros. Pais e filhos a partir dos 6 anosLer em companhia do pai e da mãe, faz bem à filha, ao filho e aos pais também; Empresta-me as tuas orelhas. Pais e filhos a partir dos 3 anos. Contos e leituras partilhadas para pais e filhos

Programa Entre Páginas – público-alvo: escolas e outras comunidades

Programa Entre Portas – público-alvo: grupos de interesse na comunidade

Comemoração do Dia Mundial do Livro – 23 de Abril. Sob o nosso lema – “Numa cidade acordada uma biblioteca sem sono”; PALAVRAS ANDARILHAS – Encontro Nacional dos aprendizes do contar (bienal); Feira do Livro- Solstício das palavras (bienal); Comemoração do Dia Mundial da Poesia – 21 de março; Mil e uma noites Mil e uma história – Noites de contos na biblioteca. Momentos de divulgação da tradição oral local, nacional e internacional; Clube de leitura da Biblioteca Municipal de Beja – Clube de leitura para jovens adultos e adultos para partilha do prazer da leitura e as leituras do mundo; Conversas com B de Beja – Atividades de divulgação de autores de Beja ou que escreveram sobre Beja, assim como de projetos de desenvolvimento científico, cultural, educativo ou recreativo que decorrem em Beja ou sobre Beja; Universos da poesia – Projeto de sensibilização para a linguagem poética; Conversas à volta dos livros – conversas com os autores a propósito do lançamento ou apresentações de um novo livro; Vidas literárias – Atividades em torno de um autor específico a destacar; Autores ASSESTA – Destaque aos autores que pertencem a esta associação de escritores do Alentejo; Encontros ibéricos de Leitores de Saramago – Promoção da leitura da obra de José Saramago a partir da partilha dos seus leitores; Temas de ciência do ano – Ciclo anual de conferências de divulgação científica; Literacia da saúde – Ciclo anual de conferências sobre temas de saúde.

Programa “A Biblioteca Fora de Portas” – público-alvo: comunidades fora da biblioteca.

Biblioteca Andarilha – Programa de leitura em meio rural; A biblioteca perto de si: vamos, ouvimos e lemos – Projeto de promoção da leitura para idosos residentes em Lares; Para além das grades – Projeto de promoção da leitura em contexto prisional; Conversas Andarilhas – Projeto em torno da palavra contada, cantada a e lida, buscando nas memórias e histórias de vida a sua raiz; Um livro por dia, tão bem que lhe fazia – Campanha de sensibilização para novos leitores e utilizadores da biblioteca; Próximas leituras – Projeto de divulgação do fundo documental da biblioteca presencialmente nos diversos edifícios de serviços do Município; Cabine de leitura – disponibiliza livros num ambiente descontraído de responsabilidade cidadã: “Leve. Leia. Devolva”.

(Archivoz) Considerando a importância crucial da difusão da informação, diga-nos como é efetuada a disponibilização da informação à responsabilidade da Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, como é possível aceder a esta?

(Maria Paula Santos) A BMBEJA é uma biblioteca generalista e como tal em termos de documentação de informação disponibilizada abrange todas as áreas do conhecimento e disponibiliza todo o tipo de documentação e informação em qualquer suporte, que tem como documento orientador da sua ação o “Manifesto da IFLA/UNESCO sobre as Bibliotecas Públicas”:

“(…)Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social. Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores que, por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais correntes, como por exemplo minorias linguísticas, pessoas deficientes, hospitalizadas ou reclusas.

Todos os grupos etários devem encontrar documentos adequados às suas necessidades. As colecções e serviços devem incluir todos os tipos de suporte e tecnologias modernas apropriados assim como fundos tradicionais. É essencial que sejam de elevada qualidade e adequadas às necessidades e condições locais. As colecções devem reflectir as tendências actuais e a evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua imaginação.(…) “

À semelhança de todas as Bibliotecas que pertencem a esta matriz do projeto da criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, a BMBEJA está organizada por setores, onde nos mesmos se encontra segmentada a informação/documentação em função do perfil de serviço para cada um deles: Sector de adultos; Sector infantil; Sector audiovisual; Sector de periódicos. A esta matriz a BMBEJA acrescentou a Bebeteca (para bebés); Sector multimédia e internet (acesso a recursos tecnológicos e informação e documentação digital) e Centro do livro infantil (centro de documentação especializada em promoção do livro e da leitura).

Para nós a promoção do acesso faz-se a partir de duas componentes:

  1. Acesso presencial facilitado através de um alargado – 2ª a 6ª entre as 9h30 e as 22h00 e sábado entre as 14h30 e as 20h00
  2. Acesso online através do nosso catálogo bibliográfico, que para além de referências bibliográficas dos documentos físicos, contém inúmeros documentos digitais em texto integral, relacionados com a história e património de Beja.

Acesso online através do catálogo bibliográfico coletivo das Bibliotecas da RIBBA .

Acesso online através do Facebook da BMBEJA, onde divulgamos conteúdos mas sobretudo temos uma estratégia de comunicação que tem como objetivo aproximar as pessoas do universo da leitura através de conteúdos inspiradores e sugestivos.

(Archivoz) Foi assinado, em abril deste ano, na Casa dos Bicos, em Lisboa, o memorando de entendimento entre a Rede de Bibliotecas Saramago e a Fundação José Saramago, no contexto das comemorações do nascimento deste escritor (1922-1910). Qual a importância desta parceria e o que nos pode dizer sobre as iniciativas a desenvolver?

(Maria Paula Santos) Este memorando assinado em abril de 2020, é resultado do reconhecimento da Rede de Bibliotecas José Saramago, criada em 2019, como um parceiro natural nas comemorações do Centenário de José Saramago, já que as bibliotecas que compõem esta rede tem como objetivo “contribuir para a divulgação da obra, do pensamento e do legado cultural de José Saramago, mediante atividades articuladas, obedecendo ao propósito genérico de valorização da leitura, no quadro da missão assumida por cada uma das bibliotecas integrantes da Rede.”

No dia 16 de novembro de 2021, dia em que José Saramago faria 99 anos e será o dia de arranque destas comemorações, irão decorrer em simultâneo em todas as bibliotecas, diversas atividades em torno da pessoa/escritor, das suas obras ou do universo de pensamento ou causas públicas de José Saramago. E durante o ano de 2022 esta linha de celebração iniciada neste dia irá proporcionar as pessoas por todo o país, diversas oportunidades e formas de homenagear este grande homem, pensador irrequieto e escritor que é o nosso Prémio Nobel da Literatura.

(Archivoz) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como responsável pela Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(Maria Paula Santos) Neste contexto muito especial que temos vindo a viver desde março de 2019, tem havido dois grandes desafios: a gestão das consequências psicossociais da pandemia nas pessoas que fazem parte da equipa e a procura da reinvenção dos serviços da biblioteca ao longo das diversas fases da pandemia. Ambos os processos ainda se encontram em curso, pois quer as pessoas quer os serviços das bibliotecas continuam a procurar caminhos no meio deste “novo normal”.

(Archivoz) Como referido, encontra-se na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago desde 1995. Considerando os mais de 25 anos de experiência ao serviço desta biblioteca, uma parte significativa dos quais com funções de direção, que balanço faz dos mesmos?

(Maria Paula Santos) O mundo mudou muito e muito rápido desde esses longínquos anos de 1991 quando iniciei a minha vida profissional no mundo das bibliotecas e estas tem sabido corresponder a essa mudança sobretudo nos serviços que prestam às pessoas da sua comunidade. Na minha perspetiva as bibliotecas devem corresponder e devem desafiar as pessoas da sua comunidade tendo como base os serviços que prestam e a BMBEJA sempre esteve atenta de modo a manter esta atitude e ter um papel consequente sempre em conjunto com as pessoas da sua comunidade.

Para mim tem sido um privilégio poder trabalhar numa área profissional que faz parte integrante da minha vida e do meu crescimento como pessoa e ser humano, e neste percurso, que hoje é solitário, porque a BMBEJA chegou a ter uma equipa de 4 bibliotecários – os 4 fantásticos – ter a oportunidade de fazer parte dos agentes culturais desta comunidade que se assumem como facilitadores de oportunidades de crescimento e desenvolvimento cultural para as pessoas que vivem nesta comunidade que é o concelho de Beja, e mais recentemente com a participação na RIBBA, para as pessoas que vivem neste território que é o Baixo Alentejo.

(Archivoz) Foi presidente da BAD, na altura a Associação portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, agora Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação, no triénio de 2011-2013. Que balanço faz do exercício destas funções?

(Maria Paula Santos) Conheci a BAD desde o primeiro momento em que comecei a estudar Ciências Documentais e desde logo me identifiquei com o papel desta Associação Profissional e sobre a importância de ser um elemento ativo na mesma, pelo que desde cedo comecei a participar na Delegação do Sul e no triénio referido fui convidada pela Dr.ª Maria José Moura para constituir uma lista para o Conselho Diretivo Nacional.

Foi um privilégio ter feito parte dessa equipa que fez parte do CDN nesse período, pois foi uma época de muitas mudanças, renovação e atividade associativa. A grande dificuldade de pertencer aos corpos socias da BAD é de facto o seu carácter de voluntariado, que não ocorre em algumas congéneres europeias, beneficiando essas de um trabalho com mais persistência e de maior proximidade com os associados e os parceiros necessários à prossecução dos seus objetivos.

(Archivoz) Uma derradeira questão, considerando o seu trajeto nesta área, nomeadamente ao nível técnico, dirigente e associativo, como é que encara o futuro das bibliotecas em Portugal e quais é que considera serem os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(Maria Paula Santos) Mais do que problematizar ou resolver questões técnicas e profissionais consideramos que hoje em dia o mais importante é destacar aqui o tipo de abordagem que se adota ao desenvolver esse processo. É necessário refocalizar o processo nas bases que garantem os instrumentos para uma análise crítica consciente e consequente.

Neste sentido os grandes desafios em qualquer área quer seja a vida pessoal, quer seja da profissional, devem ter por base um tipo de abordagem positiva que permita perspetivar o presente e o futuro de forma saudável e construtiva, baseada em valores construtivos e essenciais para o ser humano que possam garantir uma convivência ética e saudável entre as pessoas que se relacionam numa comunidade (humanidade, compaixão, solidariedade, empatia, respeito, educação, humildade, justiça):

  • Observar, conhecer, compreender e transformar em conhecimento e em ação, estando sempre atento à evolução estrutural para além das conjunturas do momento
  • Corresponder às expectativas do momento mas ao mesmo tempo desafiar-se e desafiar os seus semelhantes para novas oportunidades e novas perspetivas sobre a forma como queremos viver.

Consideramos que se adotarmos este tipo de abordagem conseguimos perspetivar os desafios do presente e futuro dos serviços de biblioteca integrando-os na evolução natural da vida das pessoas e das comunidades no sentido de uma melhor qualidade de vida e de melhores níveis de felicidade.

Imagem cedida pelo entrevistado: Fachada da Biblioteca Municipal de Beja José Saramago.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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