Bibliomóvel

“Fazer acontecer Biblioteca Pública que seja Próxima, Humana e principalmente Útil para as Pessoas!”: Entrevista com Nuno Marçal

Entrevistámos Nuno Marçal, responsável pela Bibliomóvel da Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova.

(ARCHIVOZ) Nuno, vamos começar pelo princípio, quando e em que circunstâncias é que chegas a Proença-a-Nova e começas a trabalhar na respetiva Bibliomóvel, Biblioteca Itinerante, a  26 de junho de 2006? Relacionada com esta questão, em que contexto é que nasceu a Bibliomóvel, a que te encontras ligado desde o início, nessa mesma data?

(Nuno Marçal) Chego a Proença-a-Nova em 2001, com a pós-graduação em Ciências Documentais terminada, iniciei a “via sacra” de envio de currículos e o Município de Proença-a-Nova acolheu-me.

O concelho de Proença-a-Nova foi praticamente devastado por grandes incêndios florestais em 2003 e o município candidatou-se a um programa de apoio as zonas mais atingidas com dois projetos de proximidade e mobilidade de serviços de apoio as populações que tinha sido mais afetadas. Esses projetos, a Bibliomóvel e a Unidade Móvel de Saúde vieram aprovadas e iniciaram os seus trajetos em 2006.

(ARCHIVOZ) Conta-nos como foi o teu primeiro dia de trabalho, como é que as populações dos locais, a que chegas com a Bibliomóvel, começaram por reagir a esta e ao serviço prestado, para mais considerando que uma parte significativa desse “público-alvo” não sabe ler nem escrever?

(NM) 26 de junho 2006, uma tarde muito quente a viajem até a primeira paragem foi cheia de dúvidas sobre aquilo que iria acontecer e poucas certezas do que iria fazer. A chegada da Bibliomóvel naquele largo do Alvito da Beira foi feita, estacionei o veículo, apresentei-me, apresentei os serviços que iríamos prestar. A incredulidade e algum pessimismo daqueles que por ali estavam, manifestado por algumas palavras que não auguravam nada de bom sobre o futuro daquele projeto naquelas paragens, foram um estímulo extra e contribuíram e muito para alterar radicalmente a minha forma de pensar e fazer acontecer Biblioteca.

“O senhor aqui vai ter pouca sorte com o negócio!!”, esta frase que foi um autêntico murro no estômago nas minhas expetativas, levou-me quase imediatamente a mudar de agulhas funcionais, da promoção do livro e da leitura passei para a escuta das histórias de vidas sentidas e sofridas, algumas delas bastante intensas.

Este trocar de foco para as Pessoas, todas as Pessoas, as que sabem e gostam de ler as que não sabem ou não sabem ler foi talvez o grande salto funcional que aconteceu no fazer acontecer uma Biblioteca pública sobre rodas e não estou nada arrependido.

(ARCHIVOZ) É sabido que a Bibliomóvel vai bastante além dos serviços tradicionais de empréstimo domiciliário e consulta de documentos, possibilitando aos seus utilizadores o acesso à Internet, impressão de documentos, mas também o pagamento de serviços, como a água, luz, etc., através de um terminal multibanco que possui, o carregamento do telemóvel, e que por vezes te fazes acompanhar de um técnico da Unidade Móvel de Saúde, para a realização de rastreios. O que nos podes dizer sobre este e outros exemplos de proximidade verdadeiramente útil às pessoas, de serviço público, a que chegas com a Bibliomóvel?

(NM) As Bibliotecas mudaram, a isso são e foram obrigadas. A sua sobrevivência pode passar muito por essa mudança de “templos sagrados” abertos exclusivamente a alguns e tendo como foco exclusivo da promoção do livro e da leitura têm de passar a ser Casas de Liberdade, Fraternidade e Igualdade de acesso à informação, conhecimento e serviços para Todos, uma vez que as Bibliotecas Públicas são efetivamente e afetivamente feitas para todos.

Esta diversidade e tipologias de serviços prestados em nada belisca as normas que regem o seu funcionamento, pelo contrário vão de facto ao encontro dessa ideia da Biblioteca ser um espaço livre para novas aprendizagens, um espaço de partilha e encontro de pessoas com pessoas, um espaço de acesso a informação fidedigna e verificada. Um espaço que quer ser importante na sociedade, relevante na comunidade, mas principalmente útil para as pessoas, todas as pessoas.

(ARCHIVOZ) A quantas aldeias e lugares, a quantas freguesias e a quantos percursos quinzenais é que chegas com a Bibliomóvel, qual o raio, aproximado, de km em que desenvolves o teu trabalho? Como é feito esse trabalho? Chegas a um local central de cada uma dessas aldeias e lugares, em que as pessoas sabem que lá vais estar, a uma determinada hora, avisas previamente, é um serviço porta-a-porta, ou ambos?

(NM) Em 2006 a Bibliomóvel visitava 26 aldeias, 4 escolas primárias e 4 Jardins de Infância, com o encerramento destes últimos virei agulhas exclusivamente para as aldeias e lugares do concelho de Proença-a-Nova. Neste momento são 45 aldeias e lugares onde a Bibliomóvel passa, estaciona nas suas ruas, largos ou mesmo com serviço porta-a-porta, todos os quinze dias, sensivelmente à mesma hora e no lugar de sempre.

O tempo de permanência é muito elástico e varia consoante o interesse e presença dos nossos utilizadores. Existe claro algum limite para não atrasar as próximas paragens, a experiência destes quase quinze anos vai-nos dizendo quem falta vir, se vem, caso não esteja podemos sempre perguntar ou mesmo telefonar para saber se está tudo bem.

(ARCHIVOZ) Quem são os teus utilizadores, quantos são e que autores, portugueses e estrangeiros, livros, ou géneros literários, e que temas é que mais gostam de ler? Envolvendo esta questão, recebes muitos pedidos dos teus utilizadores para a compra do livro, revista “x” ou “y”? Que tipo de livro ou revista é que te costumam pedir que a Bibliomóvel passe a disponibilizar e como é feita a articulação nesse sentido com o Município de Proença-a-Nova? Aprovam os pedidos que transmites dos utilizadores?

(NM) A Bibliomóvel tem realmente alguns utilizadores/Amigos que não sabem ler nem escrever mas existem também alguns Grandes leitores e simplesmente leitores de clínica geral que gostam de ler pelo prazer de ler.

A escolha dos títulos é feita por mim, tendo em conta os interesses dos nossos utilizadores mais generalistas e andam muito em torno de obras de escritores conhecidos na televisão, romances, biografias, culinária e agricultura. Os Grandes leitores socorro-me do acervo de clássicos da Biblioteca Municipal. Todas estas aquisições são apresentadas para aprovação ao Município de Proença-a-Nova que nunca negou a sua aquisição

(ARCHIVOZ) Infelizmente, continua a ser incontornável falar da pandemia. De que modo é que, tendo em conta as condicionantes impostas pela Direção-Geral de Saúde, esta afetou o trabalho da Bibliomóvel? Que grandes dificuldade, desafios e estratégias é que esta te colocou?

(NM) O 16 de Março de 2020 com a aplicação do estado de emergência em todo o território e consecutivo encerramento das Bibliotecas, houve que alterar rotinas e procedimentos que podem ser encaradas como dificuldades ou oportunidades. Optei pela segunda!

Como funcionário do município de Proença-a-Nova integrei as equipas de apoio às populações que se deslocavam aos supermercados, farmácias, lojas de rações para animais aviávamos as listas de compras e íamos entregar a casa das pessoas que haviam solicitado esse serviço, maioritariamente pessoas idosas e doentes.

O facto de ser bibliotecário levou-me invariavelmente a incluir nessa lista de serviços, o máximo de conteúdos e funcionalidades da Bibliomóvel que conseguisse levar num veículo diferente e mais pequeno. Um caixote com livros, revistas, um pc portátil, o ATM para pagar contas, a companhia. Tentei levar o máximo que conseguia e conciliar ao máximo as rotas deste serviço de apoio com as rotas da Bibliomóvel, esta ginástica levou-me a conhecer pessoas novas, aldeias que ainda não conhecia e que hoje fazem parte das rotas da Bibliomóvel.

Uma das nossas funções mais importantes que ficou decidido continuar foi a parceria com a Unidade Móvel de Saúde do Município de Proença-a-Nova. O técnico de saúde responsável formou equipa comigo e nas paragens feitas eram realizados rastreios (colesterol, tensão arterial e diabetes) assim como entrega de folhetos explicativos e conversas demonstrativas de normas de segurança e comportamentos para agir durante a pandemia.

(ARCHIVOZ) Entretanto, no começo deste ano, foi tornado público que a Bibliomóvel, Biblioteca Itinerante de Proença-a-Nova, que este ano celebra 15 anos, foi a vencedora da sexta edição do Prémio Boas Práticas em Bibliotecas Públicas Municipais 2019, promovido pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que tem como objetivo premiar anualmente serviços ou projetos inovadores e de forte impacto na comunidade, desenvolvidos por bibliotecas públicas municipais portuguesas, que contribuam também para uma melhor e mais eficiente gestão dos recursos disponíveis e que ultrapassem a atividade tradicional das bibliotecas. Que significado tem este reconhecimento para ti, para a Bibliomóvel e para o Município de Proença-a-Nova?

(NM) O Município de Proença-a-Nova creio que ficou muito contente pois foi o corolário de todo um investimento efetuado desde 2006 num projeto que é reconhecido por outras instituições e principalmente pelas populações que serve. Pessoalmente fiquei feliz por fazer parte desse projeto e de ter dado o melhor mim em prol das Pessoas, saber que houve alguém que achou esse trabalho merecedor de um prémio é gratificante. Todos os dias no cumprir desse fazer acontecer Biblioteca Pública sou e sinto-me gratificado pela receção e reação sempre calorosa das Pessoas que ajudamos, das quais dependemos isso sim são os grandes e satisfatórios prémios.

(ARCHIVOZ) É inegável, e os importantes reconhecimentos nacionais atestam-no bem, para além da tua presença em congressos e distinções internacionais que recebeste, que a Bibliomóvel tem um impacto muito grande nas populações que serve. Qual é a razão do sucesso da Bibliomóvel? Acredito que para além da excelência e utilidade do serviço comunitário que prestas, também seja muito importante a confiança e amizade que foste construindo com as pessoas onde a Bibliomóvel chega…

(NM) A confiança adquirida. A Amizade conquistada e o Amor pelas Bibliotecas e pelas Pessoas com que é feita!

É simples! É isto e apenas isto.

(ARCHIVOZ) Para quando a criação de uma rede de bibliotecas itinerantes e, eventualmente, uma associação específica para os seus profissionais? Tens ideia de quantas bibliotecas itinerantes existem em Portugal e onde se encontram maioritariamente?

(NM) Em Portugal existe já a Rede Nacional de Biblioteca Pública que importa valorizar e melhorar o seu funcionamento, uma vez que 99,9% das Bibliotecas Itinerantes a circular em Portugal são municipais e públicas creio que não faz muito sentido a criação de uma rede paralela.

Estes tempos de distância social veio potenciar a criação de redes informais que através das redes sociais e outros meios virtuais de comunicação foram-se encontrando, discutindo, falando e partilhando ideias, ideais, sensações e emoções em torno do fazer acontecer Biblioteca Pública sobre rodas.

Estes espaços de encontro foram e são fundamentais na criação desse espírito de grupo, onde profissionais que fazem o mesmo e sentem o mesmo encontram-se para planear, idealizar e resolver projetos, ideias e problemas comuns.

Existe um diretório criado e dinamizado por um colega nosso chamado João Henriques onde se tenta compilar toda a informação disponível sobre a localização e serviços prestados pelas cerca de 60 (a crescer) Bibliotecas Itinerantes que existem e funcionam pelas estradas, terras e Pessoas de Portugal.

O diretório chama-se Nave Voadora e pode ser visitado aqui: http://anavevoadora.wikifoundry.com/ ou aqui:  https://www.facebook.com/anavevoadorabibliotecasitinerantesportugal

(ARCHIVOZ) Para terminar, como é que imaginas a Bibliomóvel daqui a 20 anos, o que é que esperas, ou gostarias que ele se tornasse?

(NM) Quero muito regressar e quero muito tentar fazer acontecer uma Biblioteca Pública sobre rodas que seja realmente útil, próxima e humana. Tudo farei para que assim seja!

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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