Arquivistas

“Com o COVID-19, as empresas foram obrigadas a modificar as suas formas de trabalhar e os seus processos para conseguir sobreviver” Entrevista com Elaine Maciel criadora do blog Aluna de Arquivo

(Archivoz) Qual foi sua trajetória na Arquivologia?

(EM) No Ensino Médio, tive a oportunidade de estagiar em empresas e instituições que possuiam departamentos de arquivos e os profissionais eram super atenciosos e adoravam ensinar o ofício. Por ser muito detalhista e organizada (chata mesmo, rs), alguns colegas e familiares me incentivaram a escolher a Arquivologia como profissão, hoje sei que foi a escolha certa para a minha vida. No primeiro semestre da faculdade, eu já estava fazendo o primeiro estágio na área e aprendendo no dia a dia com outros profissionais. Essa troca foi muito importante, os vários estágios que participei e profissionais que conheci, formaram a profissional que sou hoje.

(Archivoz) Como surgiu a ideia de criação do Blog Aluna de Arquivo?

(EM) Primeiro temos de lembrar que em 2008 não tinhamos smatphones e nem a internet como temos hoje. Quando eu buscava no Google o assunto arquivologia, não conseguia obter quase nada de informação. As notícias, eventos e vagas era normalmente divulgadas nos murais da universidade e muitas vezes não ficavam lá por muito tempo (as pessoas pegavam os papéis e levavam com elas, rsrsr). Na época, eu já era blogueira e decidi criar o Blog Aluna de Arquivo – Arquivista em Construção. Ele foi criado como um espaço destinado ao compartilhamento de conhecimento das áreas de Arquivologia, Documentação e Ciências da Informação (Biblioteconomia, Museologia, etc.). Tendo o foco no desenvolvimento profissional, com o objetivo de divulgar notícias e conhecimentos da área, além de oportunidades e também como uma forma de unir os colegas de profissão. Desde então, se tornou meu arquivo pessoal e trabalho voluntário, uma nova forma de conhecer os profissionais e trocar conhecimento. Nele, sempre busquei divulgar notícias, eventos (congressos, palestras, cursos, etc.), vagas de empregos, vagas de estágios, concursos públicos (e material de estudo), além de assuntos sobre tecnologia, dicas sobre a carreira, entre outros. O seu objetivo sempre foi informativo e não nos responsabilizamos pelas informações divulgadas. Atualmente, centralizo as postagens no LinkedIn.

(Archivoz) Considera que a função dos Arquivos, e consequentemente dos arquivistas tem mudado no transcurso do tempo?

(EM) Sim, acredito que a mudança é grande, assim como os novos desafíos. No início, estagiei e trabalhei em empresas com grande volume documental físico. Nossa, eu passava horas e horas fazendo arquivamento e desarquivamento manual em grandes arquivos deslizantes. Todo o volume de trabalho da empresa era medido pela quantidade de “papel impresso”. Hoje, tenho o dobro do trabalho em questão de quantidade, mas, agora faço tudo sentada em frente a um computador. O suporte mudou, mas o volume de trabalho não. Hoje temos de lidar com as novas tecnologias e sua obsolescência, grandes desafios, que mudam a cada dia.

(Archivoz) Que soluções acredita para melhorar a posição do Arquivista no Mercado de trabalho?

(EM) Acho que a principal solução é o aprendizado constante, não podemos parar no tempo, assim como qualquer profisisonal, temos de buscar atualização constante. Estudar outras línguas, aprender a utilizar as novas tecnologias e tambem soft skills. Além de fazer netwoorking com outros profissionais, visando a troca de informação e crescimento mútuo.

(Archivoz) A pandemia do novo COVID-19 tem sido um divisor de águas na história da humanidade, de que forma o arquivo vem sendo afetado?

(EM) Com o COVID-19, as empresas foram obrigadas a modificar as suas formas de trabalhar e os seus processos para conseguir sobreviver. Desse modo, os profissionais da informação estão sendo vistos como peças chaves para o sucesso do negócio, auxiliando na gestão do conhecimento e dos documentos. Ajudando com a digitalização dos processos e os desafios das mudanças ocasionadas pela alteração do suporte do documento físico para o digital.

(Archivoz) Você considera o Brasil referência em Arquivologia? Se não o que falta?

(EM) Considero sim o Brasil como referência na Arquivologia, nem tenho como contabilizar quantos ótimos profissionais temos tanto das áreas públicas quanto privadas. Temos espaço para todos trabalharem nas áreas que se identificarem. Na UFF tive a oportunidade de ter professores super dedicados e engajados em fortalecer a nossa área, tenho muito orgulho da nossa profissão. Mas é claro que nem tudo é perfeito, sinto falta de maior integração dos profissionais da área.

(Archivoz) Que consolo você dar para os colegas arquivistas neste momento de crise em todas as áreas?

(EM) Desejo que todos não percam a fé em si mesmos e no futuro. Essa fase irá passar e os que conseguirem continuar otimistas, atualizados e em busca de conhecimento terão retorno de sua dedicação. Respeito muito meus colegas e acredito que a união faz o sucesso de nossa profissão. Por isso, por mais que a rotina me tome muito tempo, ainda tento manter o #blogalunadearquivo nas redes, como o LinkedIn, visando a união dos profissionais.

 


Entrevista realizada por: Débora Vilar Melo

“No mercado de trabalho atual, vejo que há poucas vagas para Arquivista. E infelizmente, ainda nos deparamos com obstáculos como vagas de Arquivista sendo ofertada sem a exigência do nível superior ” Entrevista com Juliana Honorato

(Archivoz) Primeiramente gostaria de agradecer-te por ter aceitado nosso convite. Segundamente, gostaria de saber quem é a Arquivista Juliana? Como surgiu seu interesse em estudar Arquivologia? Onde você se formou? Como foi seu percurso de formação?

(JH) Como Arquivista, uma área que me desperta bastante interesse é sobre os sistemas que auxiliam na disponibilização e na recuperação da informação e dos documentos.

Meu primeiro contato com a Arquivologia foi em meu primeiro emprego, em 2012, como Auxiliar de Arquivo no Arquivo Judiciário da Justiça Federal. Na época, já aguardava a divulgação da nota do Enem, que havia feito no ano anterior, para escolher o curso de graduação que iria ingressar.

Como estava em dúvidas sobre em qual curso ingressar, pois já trabalhava e tinha em mente escolher um curso no qual pudesse me dedicar, e que não fosse necessário deixar de trabalhar – nem por conta do horário ou da distância -, conversei com meu primo Diogo, na época também universitário, e que estava cursando Arquivologia, na Unirio.

Através da busca por informações sobre o curso, somado à conversa com Diogo e pelo fato de eu já estar a trabalhar na área, decidi me matricular também no curso de Arquivologia, que iniciei em 2012, na Unirio. Conclui o curso em 2019, pois próximo ao final do curso precisei trancá-lo por alguns períodos, por conta do trabalho.

(Archivoz) Sabendo da importância da Educação continuada, tem alguma leitura que você recomenda? Ou práticas para renovar novos saberes?

(JH) Atualmente, tenho lido a literatura de Arquivologia voltada para concursos. O título que recomendo e estou lendo no momento é “Arquivo: Teoria e Prática”, de Marilena Leite Paes.

(Archivoz) Como você vê a formação atual em Arquivologia no Brasil? Você passou por alguma dificuldade trabalhando e cogitou que a formação acadêmica poderia ter preenchido aquela falta?

(JH) Apesar de estar fora do ambiente de formação desde quando terminei a graduação, já à época em que estava concluindo o curso pude perceber que cada vez mais já havia uma integração maior com temas da Arquivologia relacionadas à tecnologia.

A dificuldade que encontrei foi quando estava próximo de encerrar o curso, fazendo a transição de estagiária para uma possível vaga de emprego. Na época, percebi que havia uma escassez de vagas para a área de Arquivologia no mercado de trabalho. E também percebi uma dificuldade de ser contratada por conta de na maioria das empresas em que atuei ter sido em cargo de estagiária, o que para algumas empresas não conta efetivamente como experiência no currículo.

(Archivoz) Que balanço você faz do Mercado de trabalho? Te parece favorável ao Arquivista?

(JH) No mercado de trabalho atual, vejo que há poucas vagas de Arquivista. E infelizmente, ainda nos deparamos com obstáculos como vagas para Arquivista sendo ofertada sem a exigência do nível superior (sendo exigido apenas o ensino médio, por exemplo) e bem abaixo do piso salarial que deveria ser pago para o profissional.

(Archivoz) Para finalizar fazendo um balanço da nova realidade, com a pandemia do novo COVID19, pensa que os arquivos foram capazes de se reinventar?

(JH) Com a pandemia do novo coronavírus, acredito que os arquivos que já vinham caminhando ao lado dos novos recursos tecnológicos, essa relação tenha se estreitando mais, e beneficiado cada vez mais os arquivos. Com muitos dos serviços, tanto públicos quanto privados, fechados por conta da pandemia, a tecnologia se faz aliada nesse momento para atender às demandas relacionadas aos arquivos.

“… se é importante captar novos associados é também muito importante estar próximo daqueles que já o são”: Entrevista com Ana Alves Pereira

Entrevistámos Ana Alves Pereira, Presidente da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD).

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso formativo e profissional, e das funções que desempenha atualmente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa

(Ana Alves Pereira) Fiz a minha formação em Ciências Documentais nos anos 90, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, comecei a trabalhar em 1996 na Biblioteca da então Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Leiria e, em 2000, vim para a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, onde estou até hoje com um intervalo, entre 2016 e 2018, quando estive na Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Posso dizer que esse foi, certamente, o maior desafio profissional que tive até agora, foi um tempo de trabalho muito intenso e muito exigente, mas também muito gratificante pelos projetos desenvolvidos, pela equipa com que tive o privilégio de trabalhar e por todas as pessoas com quem interagi no âmbito dessas funções. Atualmente, coordeno a Divisão de Documentação e Cultura da FCT NOVA. Este serviço, além da Biblioteca, tem associado um espaço American Corner e um FabLab que resultam de uma parceria, já com 10 anos, com a Embaixada dos EUA em Lisboa. Para além destes dois projetos, a DDC da FCT NOVA caracteriza-se pela forma consistente como interage com a comunidade académica, através de um programa de formação de utilizadores em Literacia da Informação e, também, com a comunidade envolvente, através de um programa cultural que pode ser usufruído por qualquer pessoa que nos queira visitar. Acreditamos veementemente que a formação dos estudantes de ensino superior também passa pela fruição de atividades culturalmente desafiantes e é isso que procuramos fazer.

(ARCHIVOZ) Na sequência das eleições para os Órgãos Sociais da BAD, para o triénio 2021-2023, realizadas a 12 de dezembro de 2020, foi eleita a lista “Construir Juntos”, de que é Presidente do Conselho Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD). Pode dizer-nos quais os eixos estratégicos do plano de ação definido e como é que este será operacionalizado?

(AAP) Este triénio marca um momento de mudança para a Associação em resultado da revisão estatutária que aconteceu em 2019. Estes Estatutos permitem a integração de novos profissionais com um perfil mais alargado e o envolvimento de mais associados nos Órgãos Sociais da BAD.

Esta forma de funcionamento tem-se revelado muito interessante porque há uma participação mais equitativa dos membros dos Órgãos Sociais na tomada de decisão, na vida e nas atividades da Associação. Por outro lado, coloca desafios adicionais na gestão organizacional, na dinâmica e funcionamento da BAD porque são mais pessoas para envolver, para ouvir e conjugar agendas e não nos podemos esquecer que todo este trabalho é feito de forma absolutamente voluntária.

O Plano de Ação, para este triénio, foi construído com a colaboração de toda a equipa, à medida que esta se foi formando, delineado em torno do mote “Construir Juntos”. Representa uma ideia muito clara de que a BAD resulta de uma vontade coletiva e da necessidade de envolver mais os associados nas decisões da BAD e nas atividades que desenvolve. Procurou-se com este Plano de Ação dar expressão a diversas sensibilidades, visões e tendências emergentes na área da documentação e informação e apresenta-se em torno de cinco eixos estratégicos:

  • a reestruturação orgânica, o alargamento do âmbito profissional – mobilizando novos profissionais – e a atualização do âmbito de atuação da Associação obrigam à revisão das áreas de atuação a nível nacional e regional;
  • o processo de renovação digital na Associação é inevitável, impondo-se a adoção de estratégias de atualização e inovação;
  • a oferta formativa direcionada para a aquisição de novas competências e estímulo profissional abarcando novas áreas e novos públicos;
  • a dimensão nacional e regional, reforçando uma rede de trabalho e proximidade de profissionais e instituições, que inclui também uma dimensão internacional, alinhando estratégias com instituições congéneres, parceiras e outras;
  • uma ação pública que afirme e potencie o lugar dos profissionais da informação na sociedade, colaborando estrategicamente na elaboração de políticas públicas na área da informação e da documentação.

Estes eixos estratégicos estão a ser operacionalizados através das ações desenvolvidas pelo Conselho Nacional e pelas Delegações Regionais e os Grupos de Trabalho, que, como referido, têm uma expressão muito significativa na forma de funcionamento atual da BAD. De referir também, a ligação muito próxima com todos os associados e com os profissionais da área que, ainda não sendo associados, esperamos que o venham a ser muito em breve.

(ARCHIVOZ) Pode apresentar-nos a BAD, no que respeita aos seus fins e objetivos, e que balanço faz com vista à efetivação dos mesmos?

(AAP) Os fins e objetivos da BAD estão expressos de forma muito clara nos seus estatutos que, em linhas genéricas, são: defender e apoiar os interesses dos seus associados; sensibilizar para a importância da criação e desenvolvimento de serviços de Informação e Documentação; e, fazer progredir a área profissional e científica da Informação e Documentação.

Neste momento ainda é cedo para fazer um balanço da concretização dos nossos objetivos, em todo o caso satisfaz-nos o facto de a oferta formativa ter uma taxa de procura de quase 100%, o que é excelente e reflete a atualidade da oferta formativa disponibilizada, o trabalho da equipa e também a aposta na formação em e-learning. Estamos a trabalhar num Estudo sobre os Profissionais da Informação em Portugal, é um trabalho árduo que demora o seu tempo, mas que está a correr a bom ritmo e é fundamental porque só se nos conhecermos é que poderemos fazer propostas para melhorar políticas, para a defesa da profissão e a valorização dos profissionais da informação e documentação.

Tem sido muito positiva a presença dos associados e profissionais não associados nas várias atividades organizadas pelos Grupos de Trabalho e pelas Delegações Regionais, e foram muitas desde janeiro para cá.

Também destacaria a forte participação cívica da BAD pois desde que tomámos posse foram já várias as cartas abertas e tomadas de posição, quer a Associação por si ou em conjunto com outras associações: participámos na consulta pública ao Plano de Resolução e Resiliência (PRR) com o envio de propostas; estivemos numa audição parlamentar na Comissão Parlamentar Comissão de CulturaComunicaçãoJuventude e Desporto; reunimos com o grupo parlamentar do Partido Socialista. Em suma, tem sido um período muito dinâmico e a BAD tem procurado afirmar a sua posição e ser uma voz sempre ativa.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer sobre a forma como a BAD tem procurado intervir para a promoção da Sociedade da Informação e na defesa dos interesses dos profissionais da informação nos últimos anos?

(AAP)A dimensão interventiva da Associação tem estado no seu ADN desde a sua criação, por isso têm sido realizadas diversas ações, campanhas, eventos e tomadas de posição que refletem bem como ao longo dos anos a BAD tem feito a defesa e afirmação da profissão. Este é um trabalho em curso, o que significa que nunca está terminado. Relativamente à Sociedade da Informação, a BAD prossegue a sua ação pública sob dois eixos principais: a um nível macro, onde o objetivo é colaborar no desenvolvimento de políticas públicas na área da informação, nomeadamente através da ação dos seus Grupos de Trabalho e dos Órgãos Sociais; outro, é no dia a dia dos Associados.  Procuramos dar voz aos associados, criar espaços para o debate, para a partilha e para a aprendizagem. Isto faz-se com iniciativas como as Conversas entre Margens ou as Conversas com Norte, por exemplo, faz-se através da Newsletter, faz-se com programas de mobilidade, com a formação, com workshops e webinars, mas também com um trabalho de proximidade que são as respostas diárias a emails que nos chegam com dúvidas diversas dos associados. Queremos que os associados sintam que podem contar com a BAD, e, ao mesmo tempo, queremos contar com todos, com a sua capacidade transformadora em cada biblioteca, arquivo, centro de documentação e informação. Porque são as pequenas e grandes ações destes profissionais, que colocam em marcha a Sociedade da Informação e afirmam o papel social e a relevância da profissão transversalmente.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à cooperação e ligações institucionais?

(AAP) Neste campo a BAD tem uma margem grande para fazer trabalho, temos alguns parceiros com quem temos boas relações de colaboração, protocolos e projetos conjuntos. No entanto, a pandemia tem dificultado muito o contacto com estes e com novos parceiros. Temos a intenção de alargar mais o nosso campo de colaboração com outras entidades. A proximidade criada com a existência e atuação das Delegações Regionais da BAD, serão, certamente uma mais-valia na consolidação de alianças e de novas colaborações. A criação e reforço de parcerias de âmbito local, regional ou nacional com organismos e iniciativas de áreas afins são, como tal, objetivos essenciais a cumprir.

(ARCHIVOZ) Considerando o elevado número de profissionais da informação em Portugal, fica a sensação que a BAD não tem, até ao momento, conseguido captar um número significativo dos mesmos para que se tornem seus associados? Como inverter esta situação?

(AAP) É verdade, isso é uma realidade e uma preocupação para esta direção, de tal forma que uma das vogais tem como área de intervenção, os Associados.

Pessoalmente, penso que há um misto de razões que justificam o facto de não termos mais associados. Culturalmente, não somos tão participativos como deveríamos, nem sempre temos a confiança suficiente para participar, achamos que é preciso ter características ou talentos especiais para fazer parte de uma associação ou da sua direção e não é verdade, qualquer pessoa com mais ou menos disponibilidade pode dar o seu contributo e todos os contributos são muito válidos.

Acredito que se pode inverter esta situação de diferentes formas, como já referi, o Estudo sobre a Profissão é fundamental para termos linhas de ação mais realistas. Comunicar melhor e chegar melhor e a mais pessoas é outro caminho. Assim, estamos a renovar o site da BAD, que esperamos vá mais ao encontro das necessidades dos nossos associados, estreitando caminhos de comunicação; mantemos uma Newsletter mensal, onde é dada voz aos associados através de uma entrevista a um associado; estamos mais presentes nas redes sociais; e, o Notícia BAD é outro canal que permite manter uma atualização diária do que vai acontecendo.

Em relação às publicações, vamos procurar valorizar os Cadernos BAD através da integração de novos projetos editoriais, tentando manter uma periodicidade semestral, e que estejam mais próximos da academia e dos profissionais do espaço lusófono. Temos também a intenção de criar uma nova publicação – o Anuário BAD. Esta edição tem como objetivo publicar estudos anuais sobre a realidade nacional das instituições e dos seus profissionais e de reflexão sobre tendências no exercício da profissão. Este ano iremos dedicar-nos à definição da missão desta nova publicação e a conceber a estrutura do primeiro número, que se prevê seja publicado no início do próximo ano.

A área da formação tem tido um papel fundamental na captação de associados, com uma oferta atual seguindo as novas tendências na capacitação para novas competências. Os vários Grupos de Trabalhos, que estão abertos a qualquer profissional da área, seja associado ou não da BAD, são também uma excelente porta de entrada para a Associação e de possibilidade de colaboração muito próxima.

Pertencer a uma associação é uma experiência muito gratificante e enriquecedora, quer em termos profissionais quer pessoais. Penso que todos se deveriam dar uma oportunidade e experimentar as vantagens de pertencer a uma associação deste tipo. Mas, se é importante captar novos associados é também muito importante estar próximo daqueles que já o são, apoiando e valorizando as suas iniciativas e contributos. Estimamos muito aqueles que já são associados e procuramos dar conta disso.

Gostaria de deixar mais esta nota de forma a sermos cada vez mais e mais fortes, seria ótimo que cada associado se sentisse um embaixador da BAD junto dos profissionais que ainda não o são. Da minha parte fica desde já aqui o convite para que todos se associem, se envolvam e se sintam parte da equipa.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos serviços de informação, os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo uma retrospetiva desta nova realidade, que se faz sentir desde meados de março de 2020, entende que os serviços de informação portugueses foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(AAP) Eu acho que os serviços de informação em Portugal tiveram uma resposta excelente, foram muito rápidos a reagir e a encontrar soluções e, sobretudo, mantiveram sempre o foco na sua missão enquanto serviço público e do papel que têm na sociedade. Mostraram sempre toda a disponibilidade e criatividade para dar a melhor resposta possível e não deixar ninguém sem apoio. O facto de, após os confinamentos, terem sido dos primeiros serviços a abrir ao público, mostra bem a importância estratégica que têm na sociedade.

(ARCHIVOZ) O que nos pode adiantar sobre as iniciativas programadas pela BAD para o último trimestre deste ano e para 2022, desde logo, por exemplo, ao nível dos eventos a realizar?

(AAP) Este ano está a ser ainda fortemente marcado pela pandemia o que condiciona imenso as atividades da BAD. No entanto, este ano já estamos a ter alguma formação presencial, quer em Lisboa quer no Porto. Vamos relançar o prémio Raúl Proença que tem estado um pouco adormecido e lançar o Prémio BAD Maria José Moura. Este último, anunciado recentemente, tem como objetivo recordar e homenagear uma associada e profissional de excelência, que esteve presente na vida da Associação de forma muito marcante. Este prémio visa reconhecer os profissionais da área BAD, que se encontram no exercício das suas funções, em duas categorias: Jovem Profissional e Reconhecimento Profissional. Prevemos entregar ainda este ano, por altura do 48.º aniversário da BAD, o prémio aos primeiros premiados.

O aniversário da BAD, como qualquer aniversário, é um momento especial e pretendemos celebrá-lo de uma forma mais alargada envolvendo os associados. A BAD é de todos os associados e estes momentos de celebração devem ser partilhados com aqueles que são e fazem a Associação.

Alguns Grupos de Trabalho têm previstas iniciativas presenciais, nomeadamente o GT dos Aquivos Municipais, e algumas Delegações Regionais estão a avaliar a situação para perceberem se podem avançar com a realização de iniciativas presenciais ou se se mantêm online, na linha do que se tem realizado até aqui.

Em relação a 2022 a incerteza é ainda muito grande, por isso foi decidido adiar o congresso da BAD para 2023. Não foi uma decisão fácil, mas pareceu-nos ser a mais prudente. Em todo o caso, no próximo ano, serão organizadas várias iniciativas, expectavelmente presenciais, a cargo da Direção da BAD, das Delegações Regionais e dos Grupos de Trabalho, que serão excelentes oportunidades para retomamos o contacto com os colegas. Serão iniciativas com menos participantes do que teria o congresso, mas igualmente mobilizadoras dos associados e de outros profissionais.

(ARCHIVOZ) Uma última pergunta, como é que vê o futuro dos serviços de informação em Portugal e quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(AAP) Eu acho que os profissionais dos serviços de informação em Portugal estão atentos às dinâmicas que surgem à volta da nossa profissão, têm apostado imenso na sua formação e capacitação, o que os habilita a dar a melhor resposta a todos os desafios que surgem e que são ao mesmo tempo oportunidades. O desenvolvimento profissional tem sido um mote para a BAD, motivando a reflexão e a observação continuadas sobre a profissão. Nesse sentido há que otimizar, inspirar e aprimorar a prática profissional, assente em valores e ações impulsionadoras da nossa atuação, ao nível técnico, mas também pedagógico ou de relacionamento interpessoal. A atualização de competências passa necessariamente pela adaptação a ambientes de e-learning e por conteúdos que promovam novas competências, procurando abranger novas áreas e atingir novos públicos. Tudo passa por estarmos atentos aos sinais de mudança, não nos acomodarmos, conhecermo-nos, trabalharmos em rede.

Os profissionais de informação são atores em todo o ciclo da informação: desde a produção, tratamento e organização, até à curadoria e preservação, mas também com pessoas e para as pessoas. Todas as alterações sociais e tecnológicas que interfiram com este ciclo, podem alterar os processos e os procedimentos em termos de acesso ou disponibilização da informação. Tal constitui um enorme desafio, que é em si mesmo uma grande oportunidade. Por exemplo, a transição digital, a diversificação de públicos e as suas maiores exigências, ou as assimetrias regionais que impedem que todos tenhamos os mesmos recursos para desenvolver o nosso trabalho, são realidades muito atuais, que requerem atenção e preparação em diversas dimensões. Através de uma Associação forte, que promova interligações flexíveis, inovadoras e criativas, podemos potenciar o nosso papel na vida dos nossos utilizadores e de todos os cidadãos, que beneficiarão certamente do nosso investimento em sermos melhores profissionais.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

Banner portugués

“As mudanças na arquivologia são visíveis e exigem uma mudança de paradigma”: entrevista com Clara Kurtz, consultora na área de arquivos

A arquivologia brasileira se firma no final da década de 1970 a partir de duas cidades brasileiras: Rio de Janeiro e Santa Maria/RS. Nesta entrevista conversamos com Clara Kurtz que fez parte da primeira turma de graduados em Arquivologia do Brasil, em Santa Maria. Ativista da área, acompanhou as mudanças que ocorreram na ciência com a chegada dos documentos digitais.

(Archivoz) Você faz parte da turma dos pioneiros da arquivologia brasileira. Nos conte um pouco sobre o início da arquivologia. Era Rio e Santa Maria (RS) os pólos de estudo no Brasil, como foi desbravar esta nova ciência no Brasil do século passado?

(Clara Kurtz) Meu interesse pela área de arquivos ocorreu quando trabalhei como secretária de Escola no Colégio Maneco, em Santa Maria. Em 1977, ingressei na primeira turma do Curso de Arquivologia da UFSM, numa época em que arquivista era identificado com o “você trabalha na biblioteca?”.

A Arquivologia em Santa Maria nasceu do idealismo da Profª Darcila de La Canal Castelan que não mediu esforços para o desenvolvimento do curso e da área e, apesar da reduzida produção científica da época (Marilena Leite Paes, Schellenberg, Arquivos Públicos do Canadá).

Formou na década de 70 e 80, profissionais competentes e conhecidos no Brasil. Logo depois da aprovação da Lei n°6.546/78, sempre estivemos presentes em eventos e atividades que mostrassem qual o papel do arquivista, como profissional graduado em curso superior, na preservação da história e memória da sociedade.

(Archivoz) O que mudou para melhor e o que ficou pior na arquivologia na última década?

(CK) As mudanças na arquivologia, nas últimas décadas são visíveis e, cada vez mais exigem do profissional uma mudança de paradigma. O advento da tecnologia nas organizações exigiu que a formação buscasse a inclusão dos recursos da TI no ensino da arquivística.

Os desafios e as oportunidades a que os profissionais estão sujeitos obrigam a uma mudança radical da função arquivística e, a não aceitação desses câmbios poderá levar a profissão do arquivista a desaparecer.

Considero que esses desafios proporcionaram uma visibilidade maior aos arquivos e aos profissionais, haja vista o grande número de concursos realizados nos últimos anos e que eram raros até final dos anos 90. Não considero que estas mudanças tenham trazido prejuízo para a área, mas é urgente que as administrações dos arquivos estabeleçam com a chefia das organizações programas de preservação das informações produzidas em meio eletrônico.

(Archivoz) Durante muito tempo fostes presidente da Associação dos Arquivistas do Rio Grande do Sul, quais as dificuldades do associativismo na arquivologia? Por que a categoria é tão desunida?

(CK) Considero que a falta de participação dos profissionais nas Associações é resultado em parte, da condição do ser humano, de querer sempre se beneficiar antes de participar/colaborar e parte, por achar que, não sendo associado, não é responsável pela definição de políticas para o reconhecimento da profissão de arquivista e pela divulgação e implementação de políticas públicas estabelecidas pelo CONARQ, desde 1991.

Estudos realizados no RS – Censo dos Arquivos Municipais – 2006 e uma pesquisa realizada por Francisco Weliton Souza – UFRGS, 2014, mostram que os municípios conhecem as leis dos arquivos e dos arquivistas, mas nada fazem para mudar a realidade. Um trabalho de conscientização deve ser empreendido para que os arquivos sejam gerenciados por arquivistas, contando com o apoio dos gestores municipais, recursos financeiros, humanos e de materiais e com autonomia e autoridade próprios dos arquivo.

Essa ação deve ser implementada pelas Associações profissionais com o respaldo de seus associados.

(Archivoz) Como foi o momento em que você viu que não tinha mais volta a questão do digital? Demorou para a área ver isso?

(CK) Antes do ano 2000, já comentava em sala de aula, que muito breve veríamos estudantes, em sala de aula sem utilizar lápis e caderno e, alguns alunos viam como impossível isso ocorrer. Muitos profissionais de minha idade, não admitem essa realidade, mas mesmo não tendo acompanhado toda a evolução que houve, não podemos mais admitir que os arquivos continuem na era dos “fichários e arquivos de aço”.

Penso que a área e os professores dos cursos de formação são responsáveis por essa mudança de mentalidade; por outro lado, são os administradores e profissionais de TI que não conseguem ver esse elo entre ao tecnologia e os registros com os profissionais de arquivo.

(Archivoz) O advento do digital trouxe novos desafios, como você enxergou esta mudança na sua atuação e na atuação dos novos arquivistas?

(CK) Na verdade, não consegui acompanhar esses desafios. Depois de aposentada, me dediquei a desenvolver projetos de organização de arquivos municipais. Ministrei cursos para responsáveis por arquivos municipais e sempre mostrei a importância da tecnologia para eficiência das atividades da administração municipal, salientando que essa implementação exige, além da gestão documental, a criação de um Sistema Informatizado de Gestão Arquivística de Documentos- SIGADs, que constitui-se o grande desafio na atuação dos arquivistas, e que, hoje, algumas administrações começam a reconhecer essa necessidade.

(Archivoz) Por que não tem arquivistas donos de empresas de gestão de documentos?

(CK) Poucos são os arquivistas que se arriscam nesta área, sim. Conheço mais a realidade do Rio Grande do Sul e creio que nas primeiras turmas formadas por Santa Maria e Porto Alegre havia mais esse espírito empreendedor, podemos citar Anna Rocha, Maria Osmari , Rejane Tonetto e Charlley Luz, que continuam no mercado em todo o Brasil. Talvez, pela possibilidade de concursos públicos, os profissionais lutem mais por uma vaga com estabilidade do que estar na linha de frente na proposição de sistemas de gestão de documentos.

(Archivoz) Qual o recado para a nova geração que começa agora e que daqui a 10 anos estará no mercado de trabalho?

(CK) Os arquivistas precisam ser mais proativos, neste mundo digital, em que o excesso de informação gera, muitas vezes, desinformação. Conhecedor da teoria arquivística e dos câmbios produzidos pela globalização, o arquivista deve buscar a cooperação e a boas práticas com os demais produtores dos processos tecnológicos informacionais, nos seus locais de trabalho.

(Archivoz) Para fechar, qual sua visão sobre a arquivologia daqui pra diante?

(CK) O conceito de arquivo adquire novos significados: os arquivos são parte do “presente” que desaparecem em pouco tempo, para surgirem logo depois como “novos” arquivos, em vista da desenfreada evolução da tecnologia.