Arquitectura

“Toda a nossa actividade se faz para o ser humano, que deve ser a nossa preocupação fundamental”: Entrevista com Carlos Alberto Carvalho Dias.

Entrevistamos Carlos Alberto Carvalho Dias, membro honorário da Ordem dos Arquitetos, da Associação dos Urbanistas Portugueses e da Associacion Española de Tecnicos Urbanistas.

(ARCHIVOZ) Com um percurso tão diversificado, quais foram as suas principais preocupações para preservar os seus documentos?

(Carlos Carvalho Dias) Desde sempre senti necessidade de guardar e organizar documentação, que achava importante para mim e para os outros. Para mim todos os documentos, escritos ou desenhados, retratam um momento ou ilustram um acontecimento importante, que, como tal, devemos preservar para memória futura.

A principal preocupação em preservar e guardar documentos, é conseguir ilustrar e documentar factos e acontecimentos, nunca esquecendo que toda a nossa actividade se faz para o ser humano, que deve ser a nossa preocupação fundamental.

(ARCHIVOZ) Acha importante existirem entidades capazes de receber Arquivos de Arquitectura? Porque sentiu necessidade de doar o seu espólio?

(CCD) Muito importante, porque normalmente o que designamos por arquivos de arquitectura corresponde a um conjunto de documentos escritos e desenhados. No meu caso específico, também está presente uma grande biblioteca com livros, revistas e periódicos, muito importante para um percurso, quer profissional quer pessoal.

Não posso deixar de referir que a minha relação com os livros e as coleções nasceu muito precocemente, o meu pai era dono de uma Livraria em Viana do Castelo, tendo incutido em mim o gosto pela leitura e também pelo colecionismo.

Senti necessidade de doar o meu espólio, neste caso à Fundação Marques da Silva, que tem boas condições e vocação para tanto. E porque as minhas filhas, não sendo da área, não iriam conseguir preservar e disponibilizar a informação à comunidade. Como tal, senti que a forma de contribuir para o conhecimento e a preservação da memória, seria doar a uma instituição credível, que tem por uma das missões disponibilizar e preservar acervos de arquitetura.

(ARCHIVOZ) Quais as suas maiores expectativas, relativamente ao impacto que o seu arquivo poderá ter na comunidade?

(CCD) O meu arquivo, pela sua especificidade, quer em termos nacionais quer internacionais, tem muito valor. Não posso deixar de referir o papel que tive no Inquérito a Arquitectura Regional Portuguesa, mais concretamente na Zona 2 de Trás os Montes e Alto Douro, juntamente com os colegas Octávio Lixa Filgueiras e Arnaldo Araújo. Foi publicado em 1961 pelo Sindicato Nacional dos Arquitetos e encontra-se já em 4ª edição, da actual Ordem dos Arquitectos.

Em 1973 fui convidado, pelos Profs. Percy Johnson-Marshall, da Universidade de Edimburgo e Manuel da Costa Lobo, do Instituto Superior Técnico, para coordenar, no Porto, a equipa que elaboraria o Plano da Região do Porto, o qual foi concluído e oficialmente apesentado em 1975. Este trabalho propiciou-me um óptimo contacto com colegas das mais diversas nacionalidades, que eram docentes ou discentes naquelas universidades.

O papel que assumi na organização do Congresso Internacional dos Urbanistas em Portugal em 1984, em Braga, permitiu-me guardar certa quantidade de documentação diversa, que considero deveras valiosa para os urbanistas.

O Profº Joaquim Pinto Machado foi nomeado Governador de Macau em 1986, tendo-me convidado para integrar o seu Governo com a pasta do Equipamento Social. Para além de toda a normal actividade inerente ao cargo, a minha acção foi determinante para a conclusão do Plano de Urbanização do Território, como para a apresentação da candidatura de Macau a Património Cultural Mundial.

Neste ponto não posso deixar de referir o papel importante que também tive para a atribuição do Centro Histórico do Porto à lista dos sítios classificados como Património Cultural Mundial em 1996, como Vogal da Delegação Portuguesa do “ICOMOS” (International Council on Monuments and Sites), em que a minha posição foi determinante.

Não posso também deixar de referir o facto de ter sido consultor da Fundação Oriente entre 1989 e 1997, para a área do Património, onde exerci importante actividade nesta área, nomeadamente em Goa.

(ARCHIVOZ) O seu percurso internacional permitiu-lhe experienciar diferentes ligações com documentação e acervos, independentemente da geografia, qual a importância a dar ao tratamento e disponibilização da informação?

(CCD) O tratamento e a disponibilização da informação em qualquer geografia, são determinantes na construção da memória e da identidade de cada povo. No meu caso específico, assinalo a criação do Museu Marítimo de Macau, preservando nesta área tanto a cultura Portuguesa como a Chinesa, e ao mesmo tempo construir a identidade de Macau, pois é certo ser mantida esta presença para além da soberania do Estado Português, dado o interesse partilhado pela comunidade chinesa.

(ARCHIVOZ) Enquanto consultor da Fundação Oriente qual foi o momento mais interessante e/ou determinante para a preservação do património cultural mundial?

(CCD) Considero a construção do Museu Naval de Macau, por minha decisão, mas projeto do arquiteto Carlos Moreno.

Neste ponto também devo referir o parecer que emiti para a recuperação da presença portuguesa em Malaca, incluindo a porta da fortaleza, chamada “Formosa” e a igreja a nível superior, a qual albergara o primeiro túmulo de S. Francisco Xavier. Tratou-se de um projeto notável do arquiteto Viana de Lima, por encomenda da Fundação Gulbenkian.

(ARCHIVOZ) Como docente, conseguiu incentivar a pesquisa documental, como fundamental para a preservação do património. No caso da arquitetura, através de peças desenhadas e peças escritas, bem como fontes bibliográficas, como livros, revistas e periódicos?

(CCD) Tentei sempre transmitir aos meus alunos os valores e os procedimentos que praticava, enquanto arquiteto. Não me passava pela cabeça iniciar um trabalho sem antes pesquisar sobre o local e as pessoas. Para tal, procurava cartografia, peças desenhadas, documentos escritos, periódicos e bibliografia de referência sobre o local. E informações sobre as pessoas que iriam utilizar ou submeter-se ao meu trabalho.

Todos os meus alunos se recordam das intermináveis listas de bibliografia bem como os pedidos de cartografia do local de intervenção. Para se projetar para o futuro, temos de conhecer o passado e o presente de cada local, bem como a sua população, os hábitos, costumes e tradições.

A memória futura constrói-se a partir do respeito pelo passado.

(ARCHIVOZ) A sua capacidade de organizar, descrever e guardar informação é muito interessante e pouco usual entre arquitetos, o que acha da profissão de um arquivista?

(CCD) Sim, reconheço a minha capacidade de guardar informação. No entanto, considero que a profissão de arquivista é determinante e imprescindível para a organização, descrição e utilização correcta de um arquivo.

A aplicação de métodos, de linguagem técnica de descrição é importante para possibilitar a pesquisa em qualquer ponto do mundo. Tal como a indexação utilizada nas bibliotecas, nos permite aceder a um assunto de um modo mais eficaz e rápido.

(ARCHIVOZ) Muito obrigada por este precioso contributo para a Archivoz Magazine.

(CCD) Eu também agradeço, pois foi sobremodo agradável conversar sobre este assunto.


Entrevista realizada por: Alexandra Saraiva