“Qualquer espaço onde ocorre a atuação humana deveria contar com um arquivista a fim de implementar uma eficiente Gestão Documental”. Entrevista com Marcia Pessoa, arquivista do Centro de Memória da Escola SESC.

Marcia Rodrigues Pessoa – Arquivista (UFF – Universidade Federal Fluminense), especialista em Sistemas de Informação (UFF) e mestra em Gestão de documentos e arquivos (Unirio – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), atualmente é responsável técnica pelo centro de memória do Polo Educacional Sesc.

(ARCHIVOZ) Primeiramente gostaria de agradecer-te por ter aceitado nosso convite. Segundamente, gostaria de saber como nasceu seu interesse em ser arquivista e como foi seu percurso de formação? Você se considera uma apaixonada pela área?

(MP) É um prazer contribuir com ações que possam dar visibilidade à Arquivologia.
Meu interesse pela área surgiu no Ensino Médio, quando li uma matéria sobre o Arquivo Nacional em um jornal de grande circulação no Brasil. O interesse cresceu quando soube que uma das universidades que ofereciam o curso no estado do Rio de janeiro era a Universidade Federal Fluminense – UFF, perto da minha residência à época. Ao entrar para a faculdade eu tive certeza de que era o que eu queria como profissão, pois era muito mais do que eu havia lido na matéria do jornal anos atrás. Me deparei com um leque de possibilidades do fazer arquivístico, do planejamento à gestão as possibilidades de atuação são inúmeras. Concluí o curso no prazo previsto e também me apaixonei por História, pois a grade curricular de então mantinha diversas disciplinas de História. Cheguei a pedir reingresso, mas foi impossível conciliar o curso com o meu trabalho como arquivista na área de Gestão Documental. Tive a honra de iniciar minha carreira em uma instituição em que a gestora documental era um ícone da Arquivologia brasileira: Marilena Leite Paes. Foi com ela que compreendi o que significa ser um profissional de arquivo e o quanto a Gestão Documental é importante ferramenta de apoio à gestão corporativa e importante aliada para a Memória Institucional.

(ARCHIVOZ) Atualmente você colabora no Centro de Memória do Polo Educacional Sesc. Como foi seu percurso profissional até chegar ao Centro de Memória da ESEM?

(MP) Me orgulho muito de ter atuado em grandes empresas do setor privado e considero um grande desafio manter a empregabilidade como arquivista nesse setor. É desafiador na medida em que exige agregação de valor ao currículo profissional por meio de outros conhecimentos. Ao arquivista cabe a busca por atualizações acadêmica e profissional constantes. Cabem o inconformismo e a superação, considerando que não é possível dar como concluída uma formação cuja atuação profissional vive em constante transformação sobretudo quando relacionada às tecnologias da informação. No meu caso, percebi que o meu contexto passava pelo campo da Administração e decidi fazer minha primeira pós-graduação nessa área. Cursei uma pós-graduação Lato Sensu em administração com ênfase em gestão da qualidade. Algum tempo depois cursei um MBA em Administração e Sistemas de Informação. Essas duas qualificações foram fundamentais no aprimoramento dos conhecimentos adquiridos na universidade e na vida profissional. Mais tarde, com a criação do primeiro Mestrado em Arquivologia no Brasil, venci mais um desafio ingressando na primeira turma. Foi durante o Mestrado que decidi reconfigurar minha atuação profissional, acrescentado a Memória ao meu currículo que antes se baseava em Gestão Documental. A Memória é apaixonante, exige muita interlocução com outras áreas do conhecimento humano, como História e Filosofia, o que vem ao encontro do meu interesse pessoal sobretudo por História. Atuar no campo da Memória me traz diálogos com essas duas disciplinas e me permite perceber cada vez mais a relação destas com a Arquivologia e a importância de associá-las.

(ARCHIVOZ) As funções arquivísticas estão entrelaçadas, contudo, no seu trabalho, há uma função na qual você considera de maior prioridade?

(MP) Entendo que a maior prioridade é dar acesso aos acervos mantidos nos espaços documentais. Independente da configuração, da denominação, enfim, seja um arquivo ou um espaço de memória, viabilizar o acesso deve ser o grande objetivo do arquivista.

(ARCHIVOZ) Como você avalia o papel do arquivista em uma escola, e em um centro de memória? Qual a recepção dos usuários?

(MP) Qualquer espaço onde ocorre a atuação humana deveria contar com um arquivista a fim de implementar uma eficiente Gestão Documental. Não faço essa afirmação com a intenção de estabelecer uma reserva de mercado, mas é inegável a contribuição do arquivista na organização, disponibilização e preservação da informação. A atuação de um profissional arquivista em uma instituição escolar com certeza agrega muito valor quanto à eficiência administrativa, à tomada de decisão e ao atendimento a seus públicos. Quando uma instituição entende que preservar sua memória representa recontar e valorizar sua trajetória, evidencia que paralelamente entende que para reunir os objetos que contam sua história é necessário implementar políticas documentais que assegurem essa preservação. Isso não é comum; de modo geral as empresas criam centros de memória sem a preocupação com a necessária política que irá garantir a alimentação dos mesmos. Criam esses espaços para privilegiar determinadas memórias em detrimento de outras ou para comemorar datas. Entendo que ao arquivista cabe o desafio de apresentar a importante conexão entre uma eficiente política documental e a preservação dos elementos que representam a Memória Institucional. A perpetuação do centro de memória depende da implantação de uma política que assegure de fato a preservação dos elementos constitutivos da Memória pela qual foi criado. Quanto aos usuários, o perfil varia desde alunos interessados em entender um pouco mais o processo de criação da escola, professores que percebem o centro de memória como espaço de guarda e preservação da memória propriamente dita, gestores que percebem os usos da memória como estratégia de gestão, enfim, se trata de um público variado e com diversas expectativas. Todos, via de regra, com um olhar de ótima aceitação acerca do estabelecimento do lugar de preservação da Memória Institucional.

(ARCHIVOZ)Para finalizar fazendo um balanço da nova realidade com a pandemia do novo COVID19, pensa que os arquivos foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(MP) Ainda estamos vivendo e sobrevivendo a essa pandemia que nos trouxe, para além das tristezas e lutos que de alguma forma vivenciamos, algumas práticas antes inimagináveis. Por exemplo, tomar decisões a partir de uma reunião remota não seria a primeira opção antes da pandemia. Éramos muito apegados ao presencial, ao contato físico, às decisões ao redor de uma mesa, enfim, ao “antigo normal”. O “novo normal” de forma repentina não nos deixou alternativa e tivemos que adotar práticas que, fora do cenário de pandemia, talvez levassem anos para que naturalmente fossem implementadas.  Fazendo um recorte para as minhas atividades, a reinvenção imposta pela pandemia trouxe realizações que em uma rotina presencial talvez não tivessem fluído tão bem. A permanência de um Centro de Memória vai além da manutenção de um local de guarda onde os elementos de memória são arquivados de acordo com metodologias arquivísticas. É necessário dar visibilidade ao espaço por meio de ações. Romper barreiras, negociar, expor, usar. Tudo isso foi necessário para reinventar o Centro de Memória do Polo Educacional Sesc. Foram criadas estratégias a fim jogar luz ao fazer arquivístico no espaço, tais como palestras por lives sobre Memória, buscando evidenciar a importância da preservação, da valorização e do uso dos materiais representativos da Memória Institucional.

 

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