“Precisamos de ter essas competências e de ser capazes de as exercer num contexto tecnológico e organizacional que evolui constantemente”: Entrevista com António Sousa, diretor do Arquivo Distrital de Braga

Entrevistamos António Sousa, diretor do Arquivo Distrital de Braga e membro da Comissão Executiva da Seção de Arquivos de Arquitectura do Conselho Internacional de Arquivos, vamos conhecer o seu siginificativo percurso arquivístico, os seus projetos e a sua visão sobre os arquivos e os arquivistas.

(Archivoz) A sua vida profissional não andou só pelos arquivos?

(António Sousa) Não, foi variada e os arquivos aparecem a meio do meu percurso profissional. Fui professor no ensino preparatório, funcionário judicial, coordenador de edições de livros e técnico superior na área da gestão de ciência e tecnologia. Foi uma experiência diversificada que se tem revelado uma mais-valia não só na prática arquivística como também na direção, desde novembro de 2011, do Arquivo Distrital de Braga (ADB). Fiz a especialização em Ciências Documentais – Arquivo já com mais de uma década de experiência laboral. Entrei profissionalmente no mundo dos arquivos por uma pequena colaboração com Instituto Arquiteto José Marques da Silva (da Universidade do Porto, entre 1998 e 2004) e o início de funções como técnico superior no Arquivo Distrital do Porto, em Outubro de 2000, uns dias depois do congresso do ICA em Sevilha, onde participei na criação da Secção de Arquivos de Arquitectura (SAR).

(Archivoz) Como era o trabalho arquivístico quando iniciou a sua carreira?

(AS) Tenho alguma dificuldade em caracterizar a especificidade do trabalho arquivístico de então, digamos da passagem do milénio, quer pela diversidade de situações dos arquivos, nomeadamente quanto aos seus recursos tecnológicos, mas também pelos questionamentos teóricos que então emergiam e pela evolução tecnológica em curso. Trabalhava-se em papel ou com o apoio de computadores, criando bases de dados. Depois, consultavam-se localmente ou imprimiam-se instrumentos de pesquisa.

O grande desafio era colocar os instrumentos de pesquisa disponíveis online, como já fazia o ADB. Geralmente, disponibilizava-se o acesso remoto, em separado, a bases de dados não normalizadas ou organizadas com outros critérios (por exemplo da catalogação biblioteconómica).

Repare que é neste final de milénio que o ICA aprova as normas para a descrição arquivística (ISAD, ISAAR) e surge o Encoded Archival Desription (EAD), um “instrumento” de codificação alinhado com aquelas normas e tirando partido das linguagens SGML e XML. Isso permitia ter um instrumento de descrição/pesquisa e o acesso telemático ao mesmo.

Então, um dos desafios passava por criar e gerir uma base de dados única com milhares de descrições de fundos diversos e associar cada unidade dessa informação à respectiva reprodução digital. Uma coisa era ter um ficheiro mais ou menos extenso de texto “marcado”, por exemplo, de um arquivo pessoal, com umas dezenas ou centenas de imagens hiperligadas “manualmente”. Outra, completamente diferente, é ter milhares de descrições, de diversos fundos, estruturadas pelos níveis de descrição, associadas aos respectivos objetos digitais e interrogável no momento.

O grande desafio era não ficar apenas por uma página institucional e informação sobre o guia do Arquivo. Além da disponibilização de novas descrições e das digitalizações que se começavam a fazer, era necessário a normalização e migração da informação existente no papel e em suporte informático. Foi neste contexto que tive o privilégio de integrar a equipa do projeto Digitarq, do Arquivo Distrital do Porto. A Diretora do Arquivo, Maria João Pires de Lima, e os colegas Silvestre Lacerda e Francisco Barbedo tiveram a visão acertada para sua concepção e a capacidade de escolher a colaboração adequada do José Carlos Ramalho, professor da Universidade do Minho. O projecto foi muito relevante no panorama arquivístico nacional.

(Archivoz) E não ficou por aí?

(AS) Não, de facto. O reconhecimento deste projecto, em 2004, premiado numa das áreas do Prémio Fernandes Costa, do Instituto Informático do Ministério das Finanças, criou as condições para o projeto CRAV, visando a criação de um balcão virtual para a prestação de serviços sobre os documentos aos utilizadores, através da Internet. Estes projectos ultrapassaram, digamos assim, a área de influência do próprio Arquivo Distrital do Porto, criaram condições para a mudança nos arquivos portugueses e mereceram o interesse de colegas com responsabilidades institucionais mesmo de outros países. Tive o privilégio de ter integrado as equipas desses projetos e, naturalmente, isso dá-me, ainda hoje, muita satisfação.

(Archivoz) Tendo sido docente na pós-graduação em ciência da informação, como encara a formação dos profissionais nesta área?

(AS) Fui docente em cursos de especialização em ciências documentais, já lá vai mais de uma década, um modelo que está ultrapassado. Francamente, tenho dificuldade em me pronunciar, com rigor e justiça, sobre a formação existente.

Temos grande falta de formação intermédia desde que a BAD deixou de poder organizar os Cursos Profissionais de Arquivo e os de Biblioteca e Documentação. Praticamente não existe formação para nível intermédio, de assistente técnico e quando há, no meu ponto de vista, não tem a qualidade necessária. Raramente os professores têm a formação adequada.

A formação para técnicos superiores é agora muito diversificada. É certo que no fim de uma licenciatura não se fica habilitado automaticamente a ser um profissional completo mas, no contacto com alguns colegas com formação mais recente, nomeadamente em entrevistas, encontro, com alguma frequência, uma visão muito generalizada da gestão da informação, alguma dificuldade em contextualizar ou perceber as especificidades inerentes à produção da informação de arquivo e um conhecimento muito vago, muito genérico de instrumentos como as ISAD(G). Provavelmente terão mais competências para a gestão de sistemas de informação de arquivo em ambiente digital…

(Archivoz) No seu entender, quais os principais desafios atuais do profissional da informação?

(AS) No ambiente atual de produção de informação de arquivo as exigências são muito diferentes de há uma ou duas décadas atrás.

Não gosto da expressão “profissional de informação”. Prefiro usar o termo arquivista, acho-o mais adequado para o profissional que gere a informação de arquivo, a informação que é recebida e produzida por uma entidade no âmbito das suas funções e que evidencia e prova a sua atividade.

Os suportes e formatos de informação são hoje diferentes e, em consequência, temos outros profissionais a intervir na área da gestão de informação de arquivo: arquivistas, gestores de sistemas de informação, informáticos e provavelmente outras. Acho que, pelo menos em Portugal, cada uma destas áreas olha para o seu umbigo e julga-se autossuficiente. É inacreditável, mas ainda há muita gente com formação superior e responsabilidades de gestão em organizações, públicas e privadas, a entender que o que está em papel é para ser gerido por arquivistas (quando for arquivo morto, claro) e o que está em suporte digital será gerido por outros profissionais.

Os principais desafios situam-se a partir deste contexto. Tenho dúvidas de que a maior parte dos profissionais de qualquer uma das áreas referidas tenham a abertura e a capacidade de trabalhar, no que é fundamental, uns com os outros. Muitas vezes é uma questão semântica, dos conceitos associados aos termos que utilizamos. Mas é mais do que isso. É necessário que estejam disponíveis para aceitar a nossa intervenção e compreender a sua importância. Precisamos de ser capazes de explicitar aos outros profissionais a relevância das nossas competências na gestão da informação e dos documentos, desde a sua produção à preservação a longo prazo. Precisamos de ter essas competências e de ser capazes de as exercer num contexto tecnológico e organizacional que evolui constantemente. Não se trata apenas de uma questão de concorrência entre perfis profissionais de diferentes áreas. Ao colocar de lado a arquivística na gestão dos sistemas de informação é como “deitar fora com a água do banho, o menino”, como diz o ditado.

(Archivoz) Atualmente é diretor do Arquivo Distrital de Braga. Como caracterizaria esta sua função?

(AS) Trata-se de dirigir um arquivo de carácter regional e que formalmente é uma Unidade Cultural da Universidade do Minho (UMinho). Insere-se, assim, fortemente nesta comunidade académica e é uma interface desta com a sociedade com características muito específicas. As competências e funções de arquivo distrital são mais vastas do que a dimensão cultural, digamos, no sentido erudito deste termo. A garantia de direitos de pessoas e organizações, marcam muito a atividade dos arquivos desta natureza. É uma função primordial. Foi para isso que a informação foi registada e se produziram os documentos. E é a partir daí que se lhes acresce o valor cultural gerando outras atividades e dinâmicas enriquecedores da sociedade e da sua memória colectiva.

(Archivoz)  Quais os maiores desafios que enfrenta no ADB?

(AS) Há três anos o Arquivo Distrital de Braga teve novas instalações, adequadas às suas funções. Temos, naturalmente, desafios importantes na renovação e incremento dos seus recursos, o que é muito comum aos arquivos, tanto mais que tem recebido acervos muito relevantes que importa tratar e disponibilizar ao público, nomeadamente a doação da documentação da Companhia de Diamantes de Angola ou o depósito do Workgroup 2.1 Algoritmi Languages and Calculi, da International Federation for Information Processing (IFIP). É importante continuar a atrair novas doações e depósitos de arquivos.

Temos dois desafios a curto prazo: finalizar a conversão e migração para a interface de pesquisa das últimas bases de dados não normalizadas e de acesso local; e finalizar a disponibilização das reproduções digitais de todos os arquivos paroquiais.

Mas temos outros desafios que se situam na oferta de novos serviços aos utilizadores e na afirmação do ADB como uma unidade técnica na área arquivística e áreas relacionadas. O Arquivo é muito reconhecido, mesmo a nível internacional, pelo valor do património arquivístico que custodia, mas precisa de ser reconhecido também por outras competências que tem de obter e disponibilizar aos atuais e a novos grupos de utilizadores. São desafios de inovação tecnológica e de serviços para um Arquivo centenário, entre os primeiros que, em Portugal, a dispôs de uma página na Internet e de acesso remoto a algumas bases de dados, fruto da colaboração iniciada em 1987 pelo professor José Nuno Oliveira, do Departamento de Informática da UMinho.

(Archivoz)  E projetos futuros? Podemos saber alguma novidade?

(AS) Temos em curso uma série de projetos internos que já referi e que têm absorvido os recursos de que dispomos. Não são propriamente novidades, mas queremos, no futuro, oferecer aos nossos utilizadores as funcionalidades de balcão virtual para os seus pedidos e criar o laboratório de conservação e restauro. Continuaremos a descobrir e a fazer pequenas coisas que inovarão o nosso quotidiano e o dos diversificados grupos de utilizadores.

(Archivoz) Muito obrigada por este precioso contributo para a Archivoz Magazine.

 

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