“Os arquivos são os guardiães da memória, dos direitos dos cidadãos e geradoras de conhecimento.”: Entrevista com Élia Correia

Entrevistámos Élia Correia, Diretora do Arquivo Distrital de Bragança.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu trajeto profissional, académico e formativo até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Bragança, em 2014.

(Élia Correia) Toda a minha vida profissional tem sido dedicada na área dos Arquivos. Após conclusão do secundário, inscrevi-me nos tempos livres (Ocupação Temporária de Jovens/OTJ), tendo sido colocada no Arquivo Distrital de Bragança, entidade que até então desconhecia. Foi com o saudoso Cónego Dr. Belarmino Afonso e, que aqui aproveito para o homenagear, diretor à época, que dedicou toda a sua vida na recolha e preservação da memória desta região, que aprendi a gostar da área arquivística e a desenvolver um trabalho com espírito de missão e empenho.

Entrei para o Arquivo Distrital de Bragança como Técnica Profissional de BAD, depois Técnica Superior e, desde 2014 que assumi a direção.

Fiz todo o percurso académico sempre como trabalhadora-estudante, em Coimbra, obtive o Curso de Técnico Profissional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD), a Licenciatura na Universidade Aberta, na área de História e a Pós-graduação em Ciências Documentais – área de arquivo, no Instituto Superior de Línguas e Administração, em Bragança. Formadora. Formação em Gestão Pública (FORGEP).

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Diretora do Arquivo Distrital de Bragança desde 2014. Que balanço é que faz do exercício deste cargo?

(EC) O Arquivo Distrital de Bragança é um arquivo de âmbito regional, com natureza de Serviço dependente da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), serviço central da administração direta do Estado – integrado no Ministério da Cultura, nos termos do Decreto-lei n.º 103/2012 de 16 de maio e Portaria n.º 192/2012, de 19 de junho, tendo sido criado em 1916, pelo decreto n.º 2858, de 29 de novembro.

Nasceu da conjuntura do 1º quartel do século XX, indiferença ou política cultural duvidosa, esteve fechado no antigo Paço Episcopal de Bragança, entre 1935 e 1985. Os 50 anos de inatividade do Arquivo Distrital de Bragança, deram origem à desagregação de muitos fundos, pois, desarticular um arquivo se não é destruí-lo fisicamente, é-o intelectualmente e, foi necessário fazer a reconstituição da sua estrutura original.

Ao longos destes anos, tem-se vindo a organizar, descrever e disponibilizar de forma massiva, a documentação custodiada. Foram disponibilizados mais de 80 000 registos/descrições arquivísticas de documentos, e mais de 250 000 imagens/representações digitais dos mesmos.

Ao abrigo de um protocolo assinado em 2016, entre a Direção Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e a Diocese de Bragança-Miranda, os registos paroquiais da Diocese de Bragança-Miranda, encontram-se à guarda do Arquivo Distrital de Bragança, tendo sido também, da sua responsabilidade, a disponibilização da descrição e das representações digitais online.

Acresce ainda, a prestação de serviços de consulta presencial, informação, reprodução simples e/ou certificada.  A implementação e uniformização de procedimentos, desde 2018 – Balcão eletrónico – CRAV (Consulta Real em Ambiente Virtual) – contribuiu para a simplificação e eficácia na prestação dos serviços ao utilizador, resultando num aumento exponencial de solicitações de certificação de documentos para fins probatórios e obtenção de dupla nacionalidade, nomeadamente, do Brasil, devido à grande emigração deste território, nos finais do século XIX e início do século XX.

Foram asseguradas as incorporações previstas, nos termos da lei, e promoção de outras aquisições de património arquivístico de interesse.

O trabalho desenvolvido resulta do esforço de toda a equipa, pequena, mas coesa, que sempre demonstrou atitude pessoal, competência, responsabilidade e compromisso com o serviço público. Por tudo isto, o balanço é bastante positivo.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Bragança tem à sua responsabilidade um vasto e notável património arquivístico, nos mais variados tipos de suporte. Qual a dimensão do mesmo, que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa?

(EC) O Arquivo Distrital de Bragança possui 512 fundos, entre Arquivos Públicos e Privados, constituído por 7 Km de documentação. Conserva e preserva um vasto e diversificado conjunto de fundos documentais. As datas extremas vão do século X ao século XX, embora a maioria da documentação seja posterior ao século XVIII. De realçar, o espólio bibliográfico, constituído por 4.000 volumes, encadernados em couro e gravados a ouro, dos séculos XVI a XVIII. Um valiosíssimo conjunto documental, constituído por cerca de 400 pergaminhos, referentes aos tempos medievais e alvorecer da modernidade deste distrito, que cronologicamente se situam entre o séc. X e XVI. Estes pergaminhos são de diversas proveniências, entre elas: Documentação régia; monástica; pontifícia; concelhia, etc.

A documentação mais consultada são os registos paroquiais (batismos, casamentos e óbitos). Constituem um dos conjuntos documentais mais frequentemente utilizados pelos investigadores dos arquivos distritais. A riqueza de informação que encerram torna-os preciosas fontes de informação nas mais diversas áreas do saber: genealogia, investigação demográfica, demografia histórica, antropologia das sociedades, estudo dos comportamentos e da vida quotidiana. De valor patrimonial histórico inesgotável, têm ainda caráter administrativo de grande importância, nomeadamente, por facultarem o esclarecimento de dúvidas que podem envolver questões de justiça e fins de cidadania.

Os fundos notariais e judiciais, documentação bastante consultada, não só para fins de investigação, mas também, para fins de registo de propriedades e judiciais.

É difícil destacar a importância de um determinado fundo documental em detrimento de outro, porque todos eles têm a sua importância, porém, correndo o risco de alguma “injustiça”, destaco o Arquivo de Família “Casa São Payo”. É constituído por documentação acumulada por esta família aristocrática ao longo de 18 gerações. Documentos pessoais dos vários membros da família e de diversas famílias, diplomas, certidões paroquiais, cartas de nomeação em diferentes cargos, documentação epistolar para a história social do quotidiano, relação dos monarcas com os seus donatários, coleção de pergaminhos, comendas, livros de inventários de Cartório e forais. O Arquivo Casa São Payo reúne um conjunto de especificidades que o revestem de muito interesse. Desde logo a sua dimensão (44,50 m.l.,) e coerência. A amplitude da informação nele contida, séc. X – XX, abrangendo diversas personalidades, famílias e regiões do país, que extravasam em muito a espinha dorsal da família São Payo e a região de Trás-os-Montes de onde esta família era proveniente.

O Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC) dispõe de um repositório próprio, através do qual são pesquisáveis mais de 350 000 registos/descrições arquivísticas de documentos, e mais de 600 000 imagens/representações digitais. Através da plataforma – DigitArq é possível aceder à descrição da documentação existente no Arquivo Distrital de Bragança, navegar e descarregar, gratuitamente. Este software tem, como objetivo, a simplificação e otimização do trabalho num Arquivo histórico (definitivo), enquadrado com a visão orientadora de um Governo Eletrónico e de uma Sociedade da Informação, onde, cada vez mais, as atividades e os processos de negócio dos organismos públicos são suportados por mecanismos eletrónicos, que agilizam e asseguram um serviço mais rápido, completo e transparente para o cidadão, em suma, com eficácia e eficiência.

O serviço de leitura, anteriormente presencial, ganhou uma extensão considerável – o ambiente web – CRAV (Consulta Real em ambiente virtual), a partir do qual é possível a prestação de serviços ao utilizador e a consulta através de representações digitais.

De realçar que a documentação relativa aos registos de passaporte, entre 1844 e 1927, encontra-se catalogada, disponível online, permitindo ao leitor/utilizador efetuar pesquisas pelo nome/sobrenome, naturalidade/residência, profissão, estado civil, e idade. Possibilita, ainda, a consulta e o download gratuito dos livros de registos de passaporte digitais, entre 1844 e 1969.

Dispõe ainda, de inventários e catálogos que podem ser consultados de forma presencial, na sala de referência do Arquivo Distrital de Bragança e remotamente

(ARCHIVOZ) A comunicação da informação é crucial em qualquer serviço de informação, para mais considerando o contexto de pandemia que ainda nos encontramos a viver. Pode dizer-nos o que tem sido feito nesse sentido no Arquivo Distrital de Bragança, desde que é diretora do mesmo?

(EC) É no quadro da divulgação do património arquivístico detido, principalmente, ao nível da acessibilidade dos cidadãos ao mesmo, que as maiores transformações se verificaram nos últimos tempos. Os novos recursos tecnológicos à disposição do Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), com sistemas de informação especializados que facilitam o acesso à informação, a tecnologia Web, a tecnologia digital e a combinação destes fatores tecnológicos, permitem valorizar, significativamente, o património arquivístico detido e torná-lo cada vez mais acessível ao cidadão. O Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), pela utilização das referidas tecnologias que são, hoje, ferramentas essenciais do nosso trabalho, deixou de ser, exclusivamente, um arquivo público regional e passou a ser, de facto, um Arquivo que detém e divulga património arquivístico, não só junto das comunidades locais, mas, também, e de forma crescente, junto do cidadão nacional e internacional, onde quer que se encontre. O sítio na internet do Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), assegura ao cidadão o fácil e cómodo acesso a um volume significativo de informação institucional, relativa ao funcionamento, às funções do serviço, às atividades em curso, e, ainda, aos instrumentos de recuperação da informação desenvolvidos, sem necessidade de utilizar outros meios de comunicação.

O Arquivo Distrital de Bragança tem a função de recolher, custodiar, preservar e organizar fundos documentais, para poder fornecer informações ao utilizador. No entanto, para além dessa competência que justifica e alimenta a sua criação e desenvolvimento, cumpre-lhe ainda uma atividade – a difusão cultural – que, embora sendo secundária, é aquela que melhor pode demonstrar os seus contornos sociais, trazendo-lhe a necessária dimensão cultural que reforça e mantém o seu objetivo primeiro. No âmbito desta dinamização e a título demonstrativo, cito os eventos mais representativos Comemorações do Centenário do Arquivo Distrital de Bragança; Seminário – Fronteiras do Preconceito”; II Seminário Internacional “Que Direitos Fundamentais para o Século XXI?”; Ciclo de Conferências – Novos Desafios à União Europeia, com a presença do Senhor Professor Doutor Adriano Moreira.(2018); Dia Internacional dos Arquivos “Governança, Memória e Herança” – vídeo disponível na página WEB.; Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja – Comunicação D. José Cordeiro Bispo da Diocese de Bragança-Miranda; Mostra Documental ” A Génese da Memória”; Da Paisagem aos Cenários Urbanos – Evento online; “O OLHAR INCLUSIVO” “

O Arquivo Distrital de Bragança tem vindo a adotar uma atitude de diálogo constante com a comunidade em geral para a salvaguarda e conservação do património documental, de forma que a administração desenvolva e cumpra a sua missão com celeridade e de excelência, tendo presente os direitos e deveres dos cidadãos na sua urbanidade.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Arquivo Distrital de Bragança à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?

(EC) O Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC) não é mais que a memória parcial e fragmentária, da vida de homens e mulheres, que queremos cada vez menos parcial, transformando-se num espaço público de liberdade, onde cada cidadão do mais humilde ao mais destacado, tem ali o seu nome inscrito, não para ser esquecido, mas para ser perpetuado e a sua história contada, pela memória vivaz.

Através da disponibilização de conteúdos em ambiente WEB, da realização de iniciativas, presenciais e online, temos vindo a promover a divulgação do património arquivístico do distrito de Bragança, contribuindo para uma maior visibilidade do Arquivo.

Por outro lado, é de realçar ainda, o contributo de estágios realizados pelos alunos do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em que a pandemia nos obrigou adaptar o regulamento dos mesmos para o regime tele-estágio, de forma a sensibilizar e suscitar interesse na comunidade académica para a investigação e, em simultâneo, promover e divulgar o património arquivístico da região.

Os Arquivos são os guardiões da memória, dos direitos dos cidadãos e geradores de conhecimento. O Arquivo Distrital de Bragança é um lugar cultural por excelência, sendo também, um elemento único de identidade histórica e geocultural.  Pelo espaço onde se insere, pelos tesouros que guarda é em si próprio um documento e um monumento. Como instituição, como espaço físico e como edifício é uma marca viva do passado e um dos mais significativos e simbólicos monumentos da comunidade.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano e de 2022 no Arquivo Distrital de Bragança?

(EC) De acordo com os objetivos definidos para este Arquivo e em alinhamento com a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), vamos dar continuação à disponibilização de representações digitais/imagens e à disponibilização de registos descritivos, online, contribuindo para a divulgação e acesso ao património arquivístico desta região, facilitando, também, uma maior aproximação ao cidadão.

Alargar as parcerias de cooperação com as entidades do distrito, nomeadamente, na promoção, salvaguarda e difusão do património arquivístico de outros arquivos.

Através da Rede de Arquivos do distrito de Bragança (RAD-BGC), criada recentemente, o nosso grande objetivo, numa primeira fase, é a valorização dos arquivos deste distrito, como sistemas de informação essenciais às organizações. Promover a preservação, gestão e divulgação do património arquivístico regional, através da criação de projetos com qualidade técnico-científica no âmbito da arquivística, refletindo boas práticas, normalização e capacidade de concretização.

Para além das atividades correntes e que visam dar cumprimento às atribuições legais acometidas ao Serviço e aquelas que constituem atividades de suporte e ou administrativa, daremos prioridade à disponibilização massiva de objetos digitais e de descrições em ambiente web.

Beneficiando das vantagens das novas tecnologias da informação e da rede de internet, queremos chegar mais longe, divulgar as nossas atividades e serviços, numa interação com o utilizador, na melhoria continua da qualidade e promovendo as riquezas do património arquivístico.

(ARCHIVOZ)  Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde meados de março de 2021, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Bragança, de forma a fazer face a esta nova realidade, no que diz respeito à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na disseminação da informação?

(EC) O período de pandemia não foi fácil, contudo, trouxe-nos uma aprendizagem de novos desafios e também, a necessidade de procedermos à reorganização e readaptação dos postos trabalhos, em regime de teletrabalho, de forma a assegurar a prestação dos serviços solicitados, nomeadamente, a certificação de documentos, em suporte papel e/ou digital.

De acordo com o plano de contingência da Direção Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas/Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC) e as orientações da DGS, para além do cumprimento do plano, o atendimento do publico durante o confinamento foi sempre formalizado a partir do Balcão Virtual – CRAV, disponível em Digitarq em uso neste Arquivo, desde 2018.

Os trabalhos de descrição e disponibilização de objetos digitais realizados presencialmente nas instalações do Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), durante a pandemia continuaram a ser desenvolvidos, mas em regime de teletrabalho.

O teletrabalho incidiu, nomeadamente, na descrição de documentos ao nível do documento simples, de registos de passaporte, sendo que os objetos digitais já se encontram disponíveis online.

As atividades, tais como, recolha do correio e a realização de reproduções/digitalizações, de acordo com uma escala de serviço e cumpridas todas as normas de segurança, foi assegurada a prestação dos serviços mais urgentes.

A pandemia veio alterar o modo de realização de eventos,  contudo, não foi impeditiva, pois, continuamos a realizar atividades culturais online, através da pág. WEB do Arquivo do Facebook da Associação Amigos do Arquivo, disponibilizando vídeos e mostras documentais.

(ARCHIVOZ) Por último, gostaria que nos desse a sua opinião sobre o que pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os profissionais da informação e os serviços de informação arquivística se deparam na atualidade.

(EC) As tecnologias e a crescente utilização representam oportunidades e desafios. Oportunidades, porque através de um simples click, permitem chegar mais longe, em qualquer parte do mundo e promovem o acesso à informação e à utilização da mesma, tornando os arquivos acessíveis ao cidadão.

Os desafios colocam-se perante as próprias oportunidades. É necessário reforçar os Arquivos de um maior investimento tecnológico e mais recursos humanos adequados, para a salvaguarda de uma memória para os conteúdos nado-digitais. Estes documentos são a nova realidade, com caraterísticas diferentes das dos documentos em suporte papel e o maior desafio é o da preservação da informação digital mantendo as suas propriedades intrínsecas. Afinal, a memória coletiva é o nosso bem precioso, universal.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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