(Archivoz) Conte-nos um pouco sobre você e sobre sua carreira profissional com enfoque nos seus trabalhos em instituições museais e universidades.

(AP) Iniciei minha trajetória profissional no mundo das artes nos primeiros anos da faculdade de História, então na Universidade de São Paulo, USP, quando fazia trabalhos voluntários no Museu de Arte de São Paulo, MASP. Nesse mesmo Museu, frequentei cursos de História da Arte por ele promovidos e fui bolsista de treinamento técnico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, no projeto “Desenvolvimento e disseminação de ferramentas de apoio à documentação da arte”, desenvolvido pela Biblioteca e Centro de Documentação, entre 2008 e 2009.

Ao longo da minha formação – graduação, mestrado e atualmente doutoramento – tenho estado vinculada à USP, à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, FFLCH, ao Museu de Arte Contemporânea, MAC, ao Grupo de Estudos em Arte Conceitual e Conceitualismos (GEACC) e ao Programa de Pós-Graduação em Estética e História da Arte, PGEHA. Foram muitos trabalhos realizados, dentre os quais destaco a minha atuação já como estagiária na Divisão de Crítica e Curadoria do Museu; depois como assistente de pesquisa junto ao “Projeto Escrituras Críticas – Walter Zanini”; como assistente de pesquisa e curadoria para as exposições: “A cidade e o estrangeiro. Isidoro Valcárcel Medina” (2012/2013) e “Hervé Fischer. Arte Sociológica e Conexões” (2012/2013); assistente de curadoria para a exposição “Por um museu público: tributo a Walter Zanini” (2014/2015). Destaco ainda sobre essa última exposição, a participação na organização do programa Ação-Passeio, que consistia em encontros com os integrantes GEACC e o público espontâneo no espaço expositivo da mostra. Também vale mencionar a Cristina Freire, professora titular e curadora da MAC, a quem tenho prestado a minha assistência a todos esses projetos expositivos.

Concomitante aos trabalhos desenvolvidos no MAC/USP, realizei tantos outros projetos junto a diferentes instituições culturais. Destaco a Pinacoteca do Estado de São Paulo, que em 2009, atuei no Setor Educativo, especificamente no Programa de Inclusão Sociocultural; e, desde 2014, atuo em colaboração com o setor de Pesquisa e Curadoria. Nessa instituição, passei pela posição de pesquisadora e atualmente faço a gestão dos cursos de História da arte da instituição.

Entre 2018 e 2020, participei como pesquisadora do Projeto de Pesquisa Leituras de Acervo junto ao Museu Afro Brasil (São Paulo). Desde 2019, ministro disciplinas para cursos de pós-graduação da Faculdade Belas Artes e a partir de 2020 também trabalho como professora de cursos livres no Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

Dentre algumas atividades mais pontuais, mas igualmente ricas, destaco a participação como educadora na Bienal de São Paulo, edições 29ª e 30ª (2010; 2012) e no Espaço Memória do Instituto Itaú Cultural (São Paulo), em 2012.

(Archivoz) Como o seu trabalho se iniciou e se desenvolveu junto aos acervos custodiados por museus?

(AP) Meu primeiro contato com acervos de museus foi junto à Biblioteca e Centro de Pesquisa do MASP, em 2005, quando frequentava a Escola do referido Museu e os trabalhos de conclusão dos cursos de artes levavam a consulta de material bibliográfico especializado em História da Arte e de catálogos de referência, os quais elencavam informações sobre o próprio Museu e sobre as peças de sua coleção museológica.

Em 2007, realizei um trabalho voluntário junto ao Setor de Acervo do MASP, que na época cuidava da coleção museológica da instituição. Então comecei a me aproximar mais do universo do manuseio técnico das obras de arte, da conservação e do restauro das peças, da logística de montagem de exposições e também da organização dos arquivos, onde estavam presentes documentos relativos às obras pertencentes ao Museu. Aqui emprego o termo “arquivo” de maneira a representar determinado setor dentro do Museu e ou conjunto de práticas de guarda e ordenamento de documentos que circundam o objeto artístico. Sendo aqui uma Revista de teor arquivístico, acho por bem ressaltar. O arquivo do Museu abrigava a documentação de procedência das obras de arte (como cartas; manuscritos; variados documentos produzidos pelo próprio artista ou por marchands ou críticos, dentre outros; transcrições de entrevistas; fotografias; recortes de jornais); a documentação museológica (como as fichas técnicas sobre os materiais utilizados na feitura de alguma obra artística; descritivos sobre o estado de conservação da obra, presença de inscrições, marcas, selos, etiquetas, entre outras características físicas da obra). Além de abrigar fundos arquivísticos, conjuntos de documentos produzidos e acumulados pelo artista.

(Archivoz) Como se dá a pesquisa no ramo das artes junto às instituições de custódia de acervos, sobretudo em Museus e Arquivos?

(AP) Geralmente, os acervos em museus são separados: há uma seção dedicada ao acervo museológico e documentos de contexto dessas peças; outra seção dedicada aos assuntos administrativos e relativos a eventos desenvolvidos pelo e no museu, usualmente consiste em um acervo de documentos escritos, filmagens, fotografias etc.; e há a biblioteca, onde ficam concentrados os livros e catálogos. Dependendo da instituição, essa configuração de acervos pode ser diferente.

O agendamento prévio da pesquisa normalmente é necessário, e nele são solicitadas informações sobre o pesquisador e seus interesses de investigação. No dia da pesquisa, um funcionário da instituição acompanha o pesquisador, explica as regras da instituição e fornece o material como luvas e máscara.

(Archivoz) Gostaria que falasse das percepções que teve ao pesquisar objetos do acervo museológico e objetos do acervo arquivístico nos Museus pelos quais passou.

(AP) O acervo museológico é mais variado em termos de materialidade e, dependendo do objeto, a forma de manuseio será distinta. Conforme a complexidade de manuseio, em especial quando se trata de uma obra de grandes dimensões ou uma obra com complexidade de montagem, é necessário a presença de vários funcionários da instituição, o que nem sempre é possível pois muitas equipes técnicas usualmente são diminutas. Assim, a permissão de estudo in loco de tal acervo costuma ser mais complicada e burocrática. Essa dificuldade de acesso também ocorre porque os objetos museológicos possuem condições físicas muitas vezes delicadas e grande valor monetário. Então, o pesquisador precisa justificar muito bem o motivo da sua visita.

O acervo arquivístico é composto usualmente de documentos em papel, ou gravações e filmagens. Assim, o manuseio dos materiais durante a consulta é um pouco mais fácil e também o acesso é menos complicado.

(Archivoz) De modo geral, qual a situação dos acervos arquivísticos por onde passou?

(AP) Normalmente as instituições possuem poucas pessoas atuando com esses acervos e um grande volume trabalho. Em geral os documentos estão catalogados, higienizados e organizados em pastas e/ou caixas. No momento da pesquisa são fornecidas luvas para manuseio das peças e às vezes máscaras.

Já tive experiências com arquivos que estavam em processo de organização e foi mais complicado: os documentos estavam desordenados e a poeira era intensa. Mas, recebendo a orientação correta de manuseio, tudo foi possível, inclusive ajudar a própria equipe, que solicitava que fossem listados em uma planilha os documentos utilizados na pesquisa, para que eles pudessem mapear o que havia em cada caixa.

(Archivoz) Quais diálogos foram possíveis realizar entre o objeto museal e os documentos de arquivo? Qual a relevância dos documentos de arquivo para a compreensão do objeto artístico ou para a arte em geral?

(AP) Dentro da instituição museológica os diálogos em geral são instantâneos, pois os objetos museais e documentos de arquivo abrigam informações que se associam e se complementam. A documentação de arquivo relativa a um objeto museal, muitas vezes, revela informações de contexto de elaboração, de autoria, de trajetória e outros aspectos que nem sempre estão presentes na peça ou podem ser facilmente depreendidas a partir dela. A documentação de arquivo também pode fornecer informações sobre o tratamento dado pela instituição àquele objeto e ao seu autor, se houve algum incidente ou outro tipo de ocorrência com a obra, como está o estado de conservação, bem como instruções sobre montagem da obra, em especial se for uma obra de arte contemporânea.

Por meio das pesquisas e dos cruzamentos de informações e impressões fornecidas pelas análises do objeto museal, da documentação arquivística e bibliográfica, é possível produzir diversas narrativas sobre a peça museal isoladamente ou sobre a arte em geral, mas também é possível refutar construções históricas outrora elaboradas ou reformulá-las.

(Archivoz) Sendo especialista em Arte Contemporânea, percebe alguma nuance ou característica particular na produção dessa arte que envolva propriamente os arquivos dos artistas?

(AP) Muitos artistas conceitualistas das décadas de 1960 e 1970 acabaram formando em suas casas complexos arquivos, especialmente por conta das redes de trocas de obras, como a de arte postal, por exemplo. Tomo a liberdade de citar a professora Cristina Freire que dedicou grande parte de sua carreira ao estudo desse tipo de produção artística:

“A arte postal foi uma atividade fundamental para a constituição de arquivos de artistas na América Latina e em outras partes do mundo. Arte postal, poesia visual e publicações de artista se misturavam nos anos 1960 e 1970. Muitas revistas derivadas desta rede eram organizadas por um artista ou um grupo de artistas; a tiragem era determinada pelo número de participantes que, após receberem uma carta-convite, enviavam seus trabalhos em formato e quantidade previamente estabelecidos. Como resultado, folhas soltas em envelopes, sacos de plástico ou mesmo grampeadas conferem o caráter de precariedade deste tipo de produção. […] a arte postal representava um processo de descentralização artística no qual mensagens podiam ser enviadas para qualquer canto do mundo, em contraste com os ‘corretos’ polos hegemônicos implantados depois da Segunda Guerra Mundial, quando um sistema de galerias, museus, críticos e curadores controlava um aparato restrito de marketing e prestígio. A arte postal surgiu na intenção da criação de novos processos de significação artística […]”(1).

Exemplo de Arte Postal do artista Edgardo-Antonio Vigo (Argentina). Vista parcial de vitrine da exposição “Vizinhos Distantes. Arte da América Latina no Acervo do MAC USP”. Curadoria Cristina Freire.  Junho/2015-Atual. Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Fotografia feita por Adriana Dolci Palma (2019).

Durante os trabalhos realizados junto ao MAC USP tive a oportunidade de acompanhar a descoberta de obras de arte postal que estavam junto ao arquivo institucional ou à documentação relativa aos artistas, pois o aspecto físico desses trabalhos às vezes assemelha-se muito ao de um documento arquivístico. Mas a análise em detalhes do conteúdo visual e textual revela uma potência poética enorme. Nesses trabalhos, os artistas manipulam a visualidade presente em carimbos, selos e demais elementos usuais no âmbito postal, porém inserindo ali elementos visuais distintos. Por exemplo, muitas dessas obras, faziam críticas e denúncias relativas aos governos ditatoriais da América Latina, e utilizavam-se do meio postal para burlar as censuras.

(Archivoz) Qual o papel que os documentos de arquivo cumprem em suas pesquisas, em suas atividades de educação e curadoria?

(AP) A experiência profissional que tive a oportunidade de vivenciar em museus e instituições culturais – junto às áreas de pesquisa, curadoria e educação – permitiu reflexões e atuações multidisciplinares. Acredito que esses campos combinados se retroalimentam e tornam-se mais produtivos tanto para mim enquanto profissional, quanto para meus interlocutores. A pesquisa se faz, entre outras coisas, por meio dos documentos, bibliografias, entrevistas, assim o arquivo é parte primordial nesse processo de produção de conteúdos e discussões. A constituição do conhecimento – função à qual se propõem as áreas da cultura e da educação – envolve ambientes e estruturas dialógicas e interdisciplinares, assim essa mescla de referenciais da minha carreira enriqueceu muito minhas experiências.

 

Referências:

(1) FREIRE, Cristina (Org.). Terra incógnita: conceitualismos da América Latina no acervo do MAC USP. São Paulo: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 2015. vol. 1. p. 27.

Imagem principal:

Vista parcial da exposição “Vizinhos Distantes. Arte da América Latina no Acervo do MAC USP”. Curadoria Cristina Freire.  Junho/2015-Atual. Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Fotografia feita por Adriana Dolci Palma (2019).


Entrevista realizada por: Simone Silva Fernandes

 

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