“Gosto de pensar nos museus a partir desse conceito que tenho tentado difundir e que transcrevo para a “Museologia Contemplativa”, a que não deixa de lado essa via pulchritudinis que tão importante é para a humanidade.”: Entrevista com Marco Daniel Duarte

Entrevistámos Marco Daniel Duarte, Diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos da mesma instituição religiosa, onde dirige o Arquivo e a Biblioteca. É ainda Diretor do Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional, até chegar às funções que desempenha atualmente, como diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos da mesma Instituição religiosa, onde dirige o Arquivo e a Biblioteca.

(Marco Daniel Duarte) Depois do percurso da escolaridade que faço na cidade da Covilhã, onde nasci, tive o gosto de estudar na Universidade de Coimbra, de onde tenho as mais gratas recordações pelo contacto que tive com grandes mestres na Faculdade de Letras, quando da frequência da licenciatura em História, variante de História da Arte. É essa mesma Faculdade que, depois de fazer uma brevíssima experiência como professor de História no ensino secundário, me acolhe como doutorando durante uns largos anos nesse tempo em que os doutoramentos eram tomados como a grande prova de carreira na vida académica de um investigador. O facto de ter estudado o Santuário de Fátima como lugar de produção artística habilitou-me a poder assumir a direção do seu Museu, primeiramente, em 2008, e, alguns anos depois, em 2013, a direção do seu Departamento de Estudos.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o Museu do Santuário de Fátima e as Secções de Arquivo e de Biblioteca do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, nomeadamente no que concerne à sua missão e os espólios à sua responsabilidade, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o melhor conhecimento dos mesmos. O que diferencia o Museu do Santuário de Fátima dos outros museus?

(MDD) O Museu do Santuário de Fátima, assim como a Biblioteca e o Arquivo desta grande instituição religiosa são sobretudo os lugares de memória de toda uma comunidade para a qual tem sentido interpretar a sua existência através da vivência dos valores do catolicismo. São assim três ramos de memória com um tronco comum e, por isso, têm forçosamente de dialogar, ainda que tenham práticas de tratamento da memória que se baseiem em normas específicas. É a dimensão global de um santuário como o de Fátima que justifica que já em 1955 o bispo de Leiria tenha tido estas preocupações referentes à história do lugar e tenha erigido canonicamente o que, na época, denominou, nessa tradição que poderíamos fazer remontar aos séculos XVII/XVIII, Museu-Biblioteca do Santuário de Fátima. Não aparecendo no título da carta de ereção a referência explícita ao Arquivo, este aparecia contemplado numa das partes daquele precioso documento, ainda hoje atual nos seus pontos fundamentais.

O Arquivo do Santuário de Fátima é sobretudo um arquivo institucional, que guarda a memória de uma organização, espelhando os seus ritmos de crescimento e a sua forma de se entender a ela própria (nos diferentes departamentos e serviços que  caracterizam a sua ação), custodiando a documentação que produz e também aquela que reúne a partir da prática devocional dos peregrinos de Fátima que são, afinal, parte da instituição (entre esta documentação encontra-se o chamado Correio de Nossa Senhora, isto é, as mensagens escritas que os devotos deixam à Virgem de Fátima e que são uma das preciosidades deste arquivo, ocupando cerca de 350 metros lineares, ocupados por mais de 2000 unidades de instalação, no que estimamos ultrapasse 7,5 milhões de mensagens). Integra o Arquivo do Santuário de Fátima também um núcleo de documentação audiovisual que documenta a vida do Santuário de Fátima e dos seus peregrinos e, bem assim, do culto relacionado com Fátima no mundo.

A Biblioteca do Santuário de Fátima segue a tradição inicial da sua organização, dividindo-se em Biblioteca de Fátima, em Biblioteca Mariana e em Biblioteca Geral, onde cabe também um fundo de livro antigo com bastante expressão relativamente à qualidade dos espécimes. Aquele núcleo da Biblioteca de Fátima é o que nos merece mais atenção, porquanto tem obrigação de integrar todas as publicações que, em Portugal e no mundo, respeitam ao fenómeno de Fátima. Contamos mais de 7300 peças sobre Fátima, na consciência de que estamos sempre aquém de conseguirmos alcançar este objetivo de forma cabal.

Não há dois museus iguais ou, pelo menos, não deve haver, pelo que o Museu do Santuário de Fátima é, necessariamente, diferente de qualquer outro museu, pois o acervo que tem é único e, ainda mais, muito ligado ao lugar cuja memória transporta, conserva, inventaria, estuda e expõe. Ainda que tenha no seu acervo peças de altíssimo valor artístico e material, a começar pela sua peça mais icónica que é a coroa preciosa de Nossa Senhora de Fátima, onde se encontra a bala que atingiu o papa João Paulo II no atentado de 13 de maio de 1981, costumo dizer que o grande valor das peças do museu é da ordem do intangível e, provavelmente, não inventariável. Aproximamo-nos dele, precisamente a partir dos testemunhos materiais que informam sobre esses valores, pois o culto — sempre assim foi, assim o continua a ser e assim continuará, estou certo — gera cultura. O Museu do Santuário de Fátima não tem edifício próprio para o desenvolvimento da sua missão — razão pela qual possa ser menos conhecido da comunidade académica, embora os seus espaços expositivos sejam dos mais visitados do país —, mas não entendemos essa falta como condição para não levarmos por diante a missão que nos está confiada. Nos últimos anos, temos levado a cabo múltiplas exposições a partir das grandes temáticas identitárias de Fátima e que são, mesmo que à primeira vista possa não parecer, as temáticas comuns às preocupações de todos os homens e mulheres de boa vontade.

(ARCHIVOZ) No seu extraordinário CV sobressai, no que respeita a publicações, a extensa obra sobre o Santuário de Fátima e o seu património. Gostaria que nos desse conta como e que nasceu o interesse em desenvolver investigação sobre esta temática e que destacasse as principais obras escritas que desenvolveu nesse sentido.

(MDD) O interesse por investigar Fátima talvez tenha iniciado quando escolhi o tema para doutoramento e percebi que, no que respeita à temática da arte sacra contemporânea, o lugar em que houve um maior desenvolvimento deste tipo de arte em Portugal estava, mercê de diferentes vicissitudes, a que não era alheio um preconceito académico, por estudar. Embora já o intuísse, estava longe de perceber o que mais tarde se revelou muito claro: Fátima é claramente uma amostra qualificada de humanidade e a configuração artística revela as tensões que existem quando se produz obra de arte. Daí por diante, vim a alargar as áreas de estudo sobre Fátima, perscrutando o pensamento humano, não apenas o pensamento religioso (mas também social, político, mental), a partir da documentação produzida no contexto do fenómeno de Fátima que está muito longe de poder ser simplificado e engavetado nos jargões úteis, mas quantas vezes falaciosos, que a historiografia tem usado.

Tenho a felicidade — verdadeiramente um privilégio — de trabalhar as diferentes áreas da memória (Arquivo, Biblioteca e Museu) no Santuário de Fátima; é um desafio constante e uma grande responsabilidade no sentido de que Fátima, pela sua escala, representa muitas coisas para a humanidade. Permite, porém, o acesso a um saber feito a partir do mais institucional dos documentos até ao, aparentemente, mais frágil dos documentos como é, por exemplo, um papelinho escrito por uma criança quando se dirige à Mãe de Deus que considera sua mãe. Esta escala de Fátima é verdadeiramente fascinante. É, afinal, a escala da humanidade. Com esta perceção vão aparecendo trabalhos diferenciados desde a análise às fontes primárias de Fátima até ao estudo dos objetos mais significativos que os peregrinos — mais anónimos ou mais conhecidos — deixam na Cova da Iria.

(ARCHIVOZ) Um excelente exemplo desse interesse pelo Santuário de Fátima, e do respetivo património, é a sua tese de doutoramento, defendida em 2013, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com o título Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconografia – a arte como cenário e como protagonista de uma específica mensagem. Quais foram as principais conclusões a que chegou?

(MDD) Talvez a grande tese que aí defendo seja essa que aparece plasmada no título: a arte — o que se pode aplicar ao Santuário de Fátima e a outros lugares que tenham sido construídos com os cuidados da arte — nunca é apenas cenário (embora os lugares fiquem cenicamente mais interessantes quando são artísticos), mas foi — e continua a ser — protagonista do lugar. A arte em Fátima nasce umbilicalmente ligada ao gesto dos peregrinos, à sua forma de viver e de celebrar a fé e isso faz configurar espaços que, também eles, fazem desenvolver novas gestualidades. Esta dialética é verdadeiramente impressionante em Fátima e leva à perceção de atitudes humanas que a arte potencia. O exemplo mais claro disto é o da projeção daquela enorme esplanada do Santuário de Fátima: seria possível a paisagem espiritual — e performativa — de Fátima (os milhares de velas acesas na noite escura) sem aquela esplanada traçada — uma das praças mais interessantes do urbanismo contemporâneo, plena de sinais semânticos quando cheia e quando vazia — nos inícios dos anos 50 do século passado?

(ARCHIVOZ) Uma das suas publicações mais recentes, neste caso em colaboração com a Professora Manuela Mendonça, é a obra Processo Histórico da Diocese de Leiria-Fátima. Congresso Evocativo do Centenário da Restauração, editada pela Diocese de Leiria-Fátima, em 2020. O que nos pode dizer sobre esta obra?

(MDD) Para além do trabalho no Santuário de Fátima, tenho o gosto de dirigir o Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima, organismo que foi chamado a dar corpo a parte das celebrações do centenário da restauração da Diocese de Leiria (1918-2018), daí resultando, em parceria com a Academia Portuguesa da História, a que tenho a honra de pertencer, um congresso e as atas que respeitam às intervenções dos investigadores. A obra conta com grandes especialistas nas áreas da História e da História da Arte e divide-se em cinco partes: “A criação de uma diocese: antecedentes e fundação”, “A Diocese de Leiria na Época Moderna”, “A diocese restaurada: aproximações à sua identidade”, “O primeiro século da diocese restaurada” e “Património artístico e identitário da Diocese de Leiria-Fátima”. Penso terem ficado abordados os aspetos mais significativos da História da Diocese de Leiria (a partir de 1984, denominada de Leiria-Fátima), mas o meu desejo seria o de que esta obra fosse a semente para uma história geral da diocese em sentido mais amplo que pudesse aprofundar ainda mais o que foi cada conjuntura histórica por que passou a comunidade cristã que neste território viveu.

(ARCHIVOZ) Quais os projetos mais relevantes que coordenou, na qualidade de diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos, e que balanço faz do exercício deste cargo?

(MDD) Trabalhar no Santuário de Fátima é um verdadeiro privilégio, desde logo pela própria matéria de trabalho que temos, mas também pela facilidade que a Instituição nos proporciona no que respeita a alcançarmos os objetivos traçados, sempre com muito rigor, é certo, mas também com uma grande confiança no que propomos. Quase não consigo destacar projetos específicos, desde as diferentes jornadas de estudo e de apresentação de resultados relativos aos trabalhos que realizamos e que podem ser úteis para outros profissionais que têm preocupações análogas à nossas (Jornadas do Museu do Santuário de Fátima; Jornadas de Arquivo e Biblioteca), desde as exposições que levámos a cabo, aos cursos de verão (já com seis edições realizadas) que pretendem atrair investigadores de diferentes escolas para Fátima e dar a conhecer dimensões de Fátima que carecem de análises académicas. Tudo isto é fruto de um trabalho muito árduo de equipas que, embora pequenas, são muito dedicadas e trabalham, de motu proprio, muito além do que é o exigível do ponto de vista contratual, pois sentem-se parte dos projetos e têm um brio muito grande no que apresentamos. Há projetos que nos marcam por serem sínteses do que defendemos ser importante na comunicação de Fátima através da linguagem contemporânea: lembro-me de obras de arte encomendadas pelo Santuário de Fátima, na esteira do que é a sua grande identidade mecenática ao longo de um século (tão pouco reconhecida, mas verdadeiramente única no nosso país); lembro-me dos oito números da revista “Fátima XXI”, que saíram nos anos da celebração do Centenário das Aparições, que mostrou uma dimensão de Fátima que a muitos surpreendeu pela pluridisciplinaridade das abordagens ao fenómeno de Fátima.

A forma científica como tratamos quer do património edificado quer do património móvel, a começar pela Imagem de Nossa Senhora de Fátima, um dos mais importantes ícones para os católicos do mundo inteiro, e que conta com o auxílio de muitos outros profissionais, inseridos em equipas interdisciplinares, é também uma das nossas preocupações. Como nos restantes projetos, tentamos sempre perseguir essa aliança entre fé e ciência, comunicando com os diferentes públicos, sem esquecermos os que têm uma relação devocional com Fátima, mas sem esquecermos, também, os públicos das academias e os intelectuais, sem descuidarmos o que os documentos da Igreja chamam de via pulchritudinis, essa via da beleza que tão importante é para o mundo contemporâneo. Nada do que descrevo corresponde ao trabalho de uma só pessoa, como é fácil de perceber, mas de um conjunto diversificado de profissionais superiormente dirigidos pelo Reitor da instituição.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Quais são os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o impacto deste contexto tão negativo?

(MDD) Gosto de pensar neste tempo que somos chamados a viver como um tempo desafiador, de chamada de atenção para o que somos e para o que queremos continuar a ser. É muito duro estarmos habituados a 300 mil visitantes numa exposição e passarmos a ter muito muito menos; é muito duro redefinirmos, inclusivamente, metodologias de trabalho, como aconteceu quando fomos obrigados ao isolamento uns dos outros, a fim de trabalharmos a partir de casa; é muito difícil demonstrarmos que nesse tempo de epidemia as áreas do saber relacionadas com a memória continuam a ser necessárias. Mas não poderemos definhar, sob pena de faltarmos ao compromisso que subjaz à nossa área de ação que é social e ao serviço da sociedade. O ser humano não pode viver sem memória, sob pena de se perder na cilada do Alzheimer que mata todo o corpo a partir da cognição. É por isso que as áreas de estudo das humanidades — não apenas estas, claro está — são tão essenciais (a palavra vem mesmo de essência e faz parte da composição dos perfumes que alguns dizem não serem necessários à vida, mas que a mais bela das poesias diz ser tão importante).

(ARCHIVOZ) Considerando o extraordinário dinamismo que define o Museu do Santuário de Fátima, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para o próximo ano?

(MDD) Para além das iniciativas ligadas aos espaços de exposição do acervo, designadamente à exposição temporária que se encontra patente ao público sobre “Os Rostos de Fátima: fisionomias de uma paisagem espiritual”, que levam a acrescentar diferentes valores (formativos, de fruição, etc.) relativamente ao que está exposto, estamos a trabalhar para que no próximo ano se possam dar à estampa algumas publicações sobre o património artístico musealizado do Santuário de Fátima. Assim estes tempos de incerteza não nos atraiçoem os projetos delineados.

(ARCHIVOZ) Para finalizar, na sua opinião, quais são os grandes desafios que os museus portugueses, e os respetivos profissionais, têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(MDD) Talvez não saiba responder bem à pergunta, porquanto ela é necessariamente complexa. Tentarei responder e, ao mesmo tempo, fugir dela, escudando-me num binómio que me parece poder estar em perigo: ciência e arte (e algum engenho… e já deixa de ser um binómio); ciência e arte têm de ser inseparáveis se queremos fazer parte de uma comunidade que, entre outros agentes, tem ao serviço dessa comunidade os arquivistas, os bibliotecários, os museólogos, os investigadores ou, se quisermos, o que costumo chamar de perscrutadores do pensamento humano. Sem a consciência do serviço não é possível levar a cabo a missão dos Arquivos, das Bibliotecas e dos Museus. Os discursos autocentrados não levam sempre aos típicos queixumes sobre as tutelas? por outro lado, precisam ainda as tutelas de que se lhes explique a importância destas áreas para a sobrevivência da humanidade? as liturgias dos museus, dos arquivos e das bibliotecas não são muitas vezes impeditivas de diálogos com a comunidade? as exposições temporárias de média e de longa duração e o aproveitamento de materiais e equipamentos não serão uma figura a equacionar num tempo em que todos sentimos já as consequências do grande desgaste do planeta que habitamos? a experiência museológica, com uma contextualização acertada, com recurso a uma boa e competente apresentação gráfica e tecnológica, sem, contudo, delírios gráficos e tecnológicos, não pode favorecer o visitante e apresentar o museu como lugar de aprendizagem, pois o visitante não pode ser o mesmo antes e depois da visita a um espaço museológico?

Longe da genialidade de José Mattoso quando cunhou a expressão “História Contemplativa”, gosto de pensar nos museus a partir desse conceito que tenho tentado difundir e que transcrevo para “Museologia Contemplativa”, a que não deixa de lado essa via pulchritudinis que tão importante é para a humanidade. Os museus — tenham os acervos que tiverem — têm necessariamente de trilhar este exigente caminho de verdade.

Imagem cedida pelo entrevistado: Núcleo da Exposição “Os rostos de Fátima” (fotografia: Arquivo do Santuário de Fátima)


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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