“Considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada”: Entrevista com o Professor Armando Malheiro da Silva

Entrevistámos Armando Malheiro da Silva, Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Docente da Licenciatura em Ciência da Informação e do Programa Doutoral Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, de cuja Comissão Científica  é membro Coordenador do Grupo Cultura Digital do CITCEM

(Archivoz) Iniciou a sua carreira como historiador, nomeadamente em torno da figura de Sidónio Pais nos alvores do Republicanismo em Portugal. Quando se deu o ponto de viragem para a investigação científica em torno dos arquivos?

(Armando Malheiro) Em rigor, minha atividade profissional, enquanto ainda estudante universitário, iniciou-se em 1978, como professor do ensino secundário e, em 1982, concluído meu curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (simultaneamente concluíra as Licenciaturas em História e em Filosofia), fui Responsável da Biblioteca Municipal de Barcelos e, pouco tempo depois, convidado para Técnico Superior do Arquivo Distrital de Braga – Unidade Cultural da Universidade do Minho. Por vicissitudes burocráticas, acabei acumulando funções de arquivista e de docente universitário, o que me levou a desenvolver investigação em História, para efeitos de progressão na carreira académica e funções técnicas e de docência em Arquivística. Portanto, a minha experiência foi desde cedo algo “múltipla”, agindo como historiador/investigador e como arquivista, papéis conflitantes naquela época e ainda hoje não são facilmente harmoniosos e compatíveis.

(Archivoz) O “salto” de um paradigma custodial para um novo paradigma científico-informacional, ou seja, das ciências documentais para a ciência da Informação foi um marco que hoje constitui numa nova visão da disciplina e do perfil do profissional da informação. Pode aprofundar um pouco este tema?

(AM) A identificação e a formulação de paradigmas, na área profissional e disciplinar das denominadas Ciências Documentais (Arquivística, Biblioteconomia e Documentação), foram devedoras da minha experiência profissional e de vida e tornaram-se necessárias depois de dez anos em que lecionei Arquivologia com o meu colega e amigo Dr. Júlio Ramos, Técnico Superior,  aposentado do Arquivo Geral da Universidade de Coimbra, no antigo Curso de Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 1990 a 2000. O estágio que fiz, em 1990, na École National des Chartes (Sorbonne, Paris), foi também influente no processo de reflexão sobre os pressupostos filosóficos, modelos teóricos, conceitos operatórios e outros elementos que, por via da formação superior e especializada e por força da atividade in locu, moldaram a mentalidade, o modo de ver, de pensar e de agir dos arquivistas, bibliotecários e museólogos vindos desde, pelo menos, a segunda metade do séc. XIX. Ao refletir sobre isto e com o passar do tempo, já com os paradigmas (inicialmente dois: o custodial e o pós-custodial) fixados, ao reler a conferência de Umberto Eco A Biblioteca (1980) e ao recordar o enredo de O Nome da Rosa (1980), percebi que a genialidade do académico e escritor italiano tinham conseguido capturar a essência do paradigma custodial, que marcou a fase sincrética ou pré-Ciência da Informação dos profissionais das Bibliotecas, Arquivos e Museus.  Estas instituições culturais ou “lugares de memória”, como os designou Pierre Nora, foram uma invenção da Modernidade , desde o dealbar da Era Digital ou Era da Informação, estão a sofrer um impacto profundo da revolução tecnológica em curso, transversal a todas as dimensões da vida humana e social, e, por isso, a formação dos respetivos profissionais tinha de ser alterada, e vem sendo, só que, genericamente, em dois sentidos extremos e paradoxais, com consequências perversas: a adaptação à mudança sem abandonar a vertente mais tecnicista e culturalista do paradigma custodial (tendência visível em vários pontos geográficos, nomeadamente na América do Sul, em Itália, na Grécia, em países dos Balcãs, etc.); e, num sentido eminentemente tecnológico, derivado da Information Science norte-americana, surgida a partir dos inícios dos sessenta do séc. XX e que herdou lastro importante da Ciência da Documentação de Paul Otlet, transformado pelo potencial de automação eletrónica. O movimento atual das iSchools, já espalhado na Europa e na Ásia, representa claramente essa tendência. Ora, diante destes dois extremos, a via do ponto de equilíbrio só pode ser, em minha opinião, a da defesa e consolidação de uma Ciência da Informação trans e interdisciplinar, que resulta da integração das disciplinas documentais anteriores e se configure como uma ciência social aplicada, mantendo, ao mesmo tempo, uma vocação interdisciplinar, desde logo com as Ciências da Comunicação e, mais extensivamente, no âmbito das Ciências Sociais, e com outras disciplinas mais afastadas, saberes e tecnologias. Este perfil de CI é o que melhor se encaixa no paradigma emergente pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar. Mais recentemente, eu e a Professora Fernanda Ribeiro acrescentamos mais um paradigma detectável na formação, que vem sendo dada algo disperso em várias latitudes, embora o tenhamos identificado mais claramente em cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutoramento) do Brasil. Trata-se de um paradigma importado da Sociologia, que aí se designa de Dialético e abrange várias nuances, uma das quais é a Teoria Crítica, herdeira da Escola de Frankfurt, de forte inspiração marxista. Entre este paradigma e o pós-custodial há um profundo potencial de convergência e integração, limadas algumas arestas e melhor centrado o exercício crítico no método científico. Aliás, o grande contributo da passagem de um arquivista ou de um bibliotecário do paradigma custodial para o pós-custodial tem a ver com o ganho de formação realmente científico e da capacidade crítica de superar os ensinamentos normativos e práticos, orientando-os para uma compreensão desse fazer como um processo intencional de mediação que é preciso conhecer, sistematicamente, em todas as suas implicações.

(Archivoz) Na atualidade, a formação em Ciência da Informação é completamente diferente da formação arquivística. Porquê?

(AM) Não é fácil, numa entrevista, responder com o necessário desenvolvimento a uma pergunta como esta, por isso terei de me limitar a alguns tópicos substanciais e começo por recomendar a consulta dos trabalhos da minha colega Fernanda Ribeiro, precisamente sobre os modelos de formação nesta área. O primeiro ponto que explica toda a diferença tem a ver com a alteração do tipo de formação que até 2001, ano em que começou a ser lecionada a Licenciatura em Ciência da Informação, uma parceria de duas faculdades da Universidade do Porto – a de Letras e a de Engenharia-, era de nível especializado, nem sequer de pós-graduação (Mestrado), com duas saídas separadas ou ramos específicos – Arquivo e Biblioteca. Era um curso de dois anos, feito após uma licenciatura em qualquer área, no entanto a maioria dos ingressos vinham da História, Línguas e Literatura e Filosofia. Os Cursos de Especialização em Ciências Documentais sucederam, em 1982, ao “velho” curso de Bibliotecário-Arquivista, com origens no final do séc. XIX e que foi lecionado ininterruptamente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra,  desde 1935, com duração de dois anos, exigia uma licenciatura como formação prévia. Eu e minha colega Fernanda Ribeiro fizemos esse curso pouco antes de ele ser extinto. A segunda diferença importante concerne à incorporação no plano de estudos da licenciatura de disciplinas tecnológicas, em qualidade e quantidade que nem dá para comparar com os residuais conteúdos de informática ministrados nos CECD’s. A terceira diferença, com impacto no mercado de trabalho e na resposta às necessidades sentidas, já não pelas instituições culturais da Modernidade, ampliadas com a oferta em nível municipal (Bibliotecas Municipais e Arquivos Históricos), mas pelas mais diversas organizações públicas e privadas carentes de gestores de informação capazes de dialogar com os informáticos.

(Archivoz) A arquivística, como ramo da Ciência da Informação, tem futuro ou a tendência será absorvida pela primeira?

(AM) Pergunta pertinente e que, em países como o Brasil, traduz um estado de espírito de resistência e de desconfiança em relação à Ciência da Informação. Ora, para atalhar dúvidas e equívocos, convém insistir na distinção, para mim claríssima, entre Information Science (norte-americana) e a Ciência da Informação trans e interdisciplinar, ensinada na Universidade do Porto. Aquela não pode absorver a Arquivística, porque é uma disciplina essencialmente tecnológica, em que falta a base humanista e sociológica, indispensável para que possamos deparar uma ciência social aplicada.  Este estatuto epistemológico só está ao alcance da segunda e, graças ao contributo de todas as disciplinas (inclusa a Information Science), interligam-se e constituem uma ciência nova com o melhor e mais substancial de todas elas. Neste novo campo disciplinar, a Arquivística está presente pelo legado que aportou, e o profissional formado por esta ciência nova – o gestor da informação – será, no contexto específico em que exercer funções, um “arquivista-gestor de informação”, um profissional mais polivalente, melhor dotado, que o mero arquivista de formação antiga, de competências tecnológicas e essencialmente versátil.

(Archivoz) Existe em Portugal uma grande discussão entre designar um arquivo como um Fundo ou como um Sistema de Informação. Afinal, é apenas um preciosismo de nomenclaturas ou é muito mais do que isso?

(AM) Posso começar por frisar que não se trata de um preciosismo ou, pelo menos, eu e meus colegas de CI do Porto não usamos o conceito operatório de Sistema de Informação como um mero preciosismo ou uma designação “moderna” para significar o mesmo que Fundo. No livro “Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação”, ficou escalpelizada a origem e evolução do conceito de Fundo, um conceito instrumental usado pelos arquivistas em detrimento do conceito de coleção, deixado para uso de bibliotecários e museólogos e conotado com a acumulação aleatória e diletante (sem necessidade orgânica ou funcional) de livros e objetos. E aí foi também introduzido o conceito de Sistema de Informação, com características que viriam a ser melhor trabalhadas posteriormente. A transição para o uso de SI significava, desde logo, não apenas um conjunto de documentos marcados pela mesma proveniência, mas muito mais que documentos de um produtor, também organizados e recuperados por esse mesmo produtor e ainda articulados com outro tipo de documentos (não exclusivamente jurídico-administrativos, político-administrativos ou técnicos), como os livros e objetos tridimensionais musealizados ou musealizáveis. Por definição, sistema não é um mero somatório de partes, mas uma unidade de partes diferentes e interdependentes, ou seja, unidade na diversidade. E por aqui se vê quão redutoras são as noções de fundo e de coleção e que a abordagem correta, a que melhor serve ao potencial utilizador da informação, é a que integra as partes que nasceram, contextualmente, interrelacionadas. O conceito de SI não pertence ao paradigma custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, mas claramente ao paradigma pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar.

(Archivoz) Num mundo cada vez mais digital, as disciplinas de paleografia e diplomática praticamente desapareceram dos programas de estudo, pois os alunos aprendem hoje linguagens de programação e gestão de processos de negócio (construção de fluxos de informação e etc.). Como serão tratados os arquivos históricos num futuro próximo?

(AM) É verdade que, por exemplo, na Licenciatura em Ciência da Informação da Universidade do Porto, hoje a Paleografia e Diplomática, é residual e eventual, e os alunos preferem, no que toca a opcionais, outro tipo de disciplinas. No entanto, considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada, porque os documentos anteriores ao séc. XIX precisam ser lidos e transcritos mesmo que sejam, e cada vez serão mais, digitalizados. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pela escola que teve, mestres de proa como o Professor Cónego Avelino Jesus da Costa, devem pensar em escalar estrategicamente a formação nestas competências específicas, porque não deixará nunca de haver mercado.”


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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