Nelson Vaquinhas

Licenciado em História, frequentou a pós-graduação em História Regional e Local da Universidade de Lisboa, pós-graduado em Ciências Documentais (variante Arquivo) pela Universidade do Algarve, mestre em Arquivos, Bibliotecas e Ciência da Informação e doutorado em Ciências da Informação e da Documentação pela Universidade de Évora. É Chefe de Divisão na Câmara Municipal de Loulé e membro integrado do CIDEHUS/UÉ.

“Há muito ainda a explorar sobre os sistemas de informação pretéritos que nos ajudarão a conhecer e a compreender a documentação em fase definitiva”: Entrevista com Nelson Vaquinhas

Entrevistámos Nelson Vaquinhas, Chefe de Divisão na Câmara Municipal de Loulé e membro integrado do CIDEHUS.UÉ – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

(ARCHIVOZ)  Como nasceu o Arquivo Municipal de Loulé, onde se encontra, qual a sua missão e visão, quais os serviços que integra e qualquer outro aspeto que considere importante para o seu conhecimento.

(Nelson Vaquinhas) Agradeço antes de mais o convite que me foi dirigido pela equipa editorial da ARCHIVOZ para esta entrevista, em particular ao Doutor Paulo Batista.

A história do Arquivo Municipal de Loulé ainda se encontra por fazer, ancestral como a existência da Câmara Municipal.  De forma sucinta, foi instituído formalmente enquanto serviço em 1984, como Arquivo Histórico Municipal de Loulé, localizado no primeiro andar da Alcaidaria do Castelo. Em 2005, passa a designar-se Arquivo Municipal de Loulé. O edifício, onde atualmente se encontra sediado o Arquivo Municipal de Loulé, na rua Dr. Cândido Guerreiro, foi inaugurado no dia 4 de agosto de 2007.

A missão do Arquivo Municipal é gerir a informação produzida e recebida pela Câmara Municipal, no âmbito das suas atribuições e competências. Enquanto serviço certificado pelo Sistema de Qualidade, o Arquivo Municipal tem como visão a satisfação das partes interessadas através da melhoria contínua dos seus serviços.

O Arquivo Municipal está integrado na Divisão de Arquivo e Documentação criada no organograma da Câmara Municipal publicado no Regulamento da Organização e Estrutura dos Serviços Municipais, pelo Despacho n.º 4402/2019, de 29 de abril. Acrescento que o Arquivo Municipal de Loulé dispõe de vários serviços, tais como o de leitura e referência, reprodução documental, dinamização cultural e educativa, entre outros.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Municipal de Loulé é detentor de um antigo e valioso espólio. Quais são os principais fundos e coleções que o compõem e os instrumentos de descrição documental existentes, com vista à sua pesquisa e acesso?

(NV) Sim, o Arquivo Municipal de Loulé tem o privilégio de ter à sua guarda um espólio arquivístico riquíssimo que muito se deve à importância de Loulé no contexto histórico desde tempos remotos e, acima de tudo, teve a sorte de se ter conservado até aos nossos dias uma boa parte do que terá sido produzido e recebido no âmbito das suas funções administrativas. Tudo graças àqueles que nos antecederam, desde há muitos séculos, caso contrário não chegaria até nós um conjunto documental bastante significativo. É difícil destacar um fundo ou uma coleção em particular porque todo o seu espólio tem o seu valor arquivístico. No entanto, posso mencionar, pela sua antiguidade, raridade e pela riqueza do seu valor informativo a documentação contabilística datada desde 1375 e as atas de vereação desde 1384 pertencentes ao fundo da Câmara Municipal. Estas últimas, as que remontam ao período Medieval, estão classificadas como Tesouro Nacional. Acrescento ainda a este rol os documentos dos séculos XV e XVI relativos ao fundo dos órfãos de Loulé pelas particularidades da sua tipologia documental em comparação com o que existe em outros arquivos sobre esta temática. Quanto a coleções, refiro a dos fragmentos em pergaminho reutilizados para encadernação de livros, reveladores de outros documentos, alguns descritos arquivisticamente como sonoros com tipologias de livros como breviários, saltérios, antifonários e graduais e não sonoros como textos bíblicos e testamentos.  No que toca a instrumentos de descrição, o Arquivo Municipal de Loulé dispõe de um inventário.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram planeados para 2021 e o impacto que as iniciativas realizadas têm na comunidade local?

(NV) Face aos dados epidemiológicos que vamos acompanhando, posso adiantar, de momento, que continuaremos a investir em projetos de divulgação online através do site e da página do Facebook com as iniciativas de extensão cultural e educativa. Daremos continuidade às iniciativas “No Depósito do Arquivo Municipal”, “Loulé no Arquivo Nacional da Torre do Tombo” e “Dedo no ar”. O impacto destas três iniciativas tem sido muito positivo junto da comunidade local, pela promoção da história local e pela divulgação do património arquivístico sobre Loulé que tanto agrada e corresponde às expectativas dos nossos seguidores cibernautas. As curiosidades lançadas no “Dedo no ar”, dirigidas aos mais pequenos, também têm sido bem acolhidas.

Para além destes projetos, estamos a trabalhar noutros, cujos conteúdos também serão divulgados na internet, na digitalização, no restauro de documentos históricos, no portal de pesquisa e na edição de alguns trabalhos de investigação sobre a história de Loulé.

(ARCHIVOZ) Fale-nos agora sobre o seu percurso no Arquivo Municipal de Loulé, onde iniciou funções em 2010 e é chefe de divisão desde 2019.

(NV) Sim, iniciei funções como técnico superior no Arquivo Municipal de Loulé em junho de 2010, após quase dois anos no Arquivo Histórico de Albufeira. Entretanto, durante esse percurso assumi a coordenação de área do Arquivo Municipal e também estive algum tempo fora, em Lisboa, como bolseiro da FCT, regressei a Loulé em 2016 e três anos depois fui nomeado chefe da Divisão de Arquivo e Documentação.

(ARCHIVOZ) Um tema que desde março tem marcado a atualidade é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Como chefe de Divisão do Arquivo Municipal de Loulé, conte-nos a sua experiência na gestão deste serviço de informação, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e difusão da informação, situação agravada por nos encontrarmos numa segunda fase desta pandemia.

(NV) Com a ativação do Plano de Contingência – COVID-19 do Município de Loulé, em março, alinhado com as orientações do Governo e os diversos diplomas legais sobre a temática epidemiológica, a Divisão de Arquivo e Documentação, à semelhança das outras unidades orgânicas, regulou-se pelas orientações que eram emanadas superiormente. Os espaços de atendimento ao público foram encerrados em março e a reabertura do Arquivo Municipal foi a 1 de julho. Encarámos a pandemia como um desafio e uma oportunidade para a valorização do nosso trabalho. Reconheço, que no início não foi fácil pela falta de preparação, inexperiência, para desenvolver uma grande parte das nossas tarefas, em contexto de teletrabalho. No Expediente, por exemplo, conseguimos dar uma breve explicação às trabalhadoras acerca dos procedimentos a seguir e sobre o acesso à aplicação informática de gestão documental nos computadores portáteis. Fomos avaliando diariamente a metodologia de trabalho, afinando a eficiência e a eficácia da mesma. Chegámos, inclusive, a alterar algumas instruções até definirmos o melhor método de trabalho, criando uma verdadeira linha de montagem de forma a distribuir as várias tarefas que passavam por várias trabalhadoras. Conseguimos assegurar, na sua totalidade, a receção e o registo diário do correio físico e eletrónico, dos faxes para os encaminhar, por sua vez, às respetivas unidades orgânicas.

No Arquivo foi mais fácil conciliar o trabalho, embora faltassem algumas ferramentas e os documentos ditos históricos, materialmente falando. Foi possível responder às solicitações dos utentes externos através do correio eletrónico. E reinventamos alguma dinâmica, criando algumas iniciativas com o apoio de diversos investigadores e retomando alguns trabalhos que estavam em segundo plano e que foram finalizados e disponibilizados online. Foram criadas as rubricas “No Depósito do Arquivo Municipal”, “Loulé no Arquivo Nacional da Torre do Tombo” e “O Arquivo peça a peça”. Estas atividades tiveram o objetivo de divulgar o espólio documental do Arquivo Municipal e do Arquivo Nacional da Torre do Tombo que versasse sobre Loulé ou louletanos através de textos produzidos por vários investigadores e de puzzles com 4 graus de dificuldade dirigidos à comunidade como um desafio. Para além destes conteúdos, o Arquivo disponibilizou os inventários atualizados do Arquivo Municipal e das paróquias do concelho.

O coronavírus colocou-nos à prova, pondo em evidência potencialidades e formas de adaptação profissionais que desconhecíamos. Foi uma verdadeira aprendizagem individual e coletiva. A pandemia não exigiu apenas uma nova forma de trabalho, mas também uma gestão de emoções, receios e incertezas, no plano pessoal, familiar e profissional. Saímos reforçados enquanto equipa, em que a distância ditada pelo teletrabalho nos aproximou com a consciência que estivemos à altura de um desafio a uma dimensão incalculável e permanentemente indefinida.

(ARCHIVOZ) Passando agora para o seu percurso académico, na área da Ciência da Informação, a sua investigação tem incidido no estudo do Santo Ofício, a que dedicou a sua dissertação de mestrado, nomeadamente no Algarve, entre 1700 e 1750, e também na sua tese de doutoramento, que alargou à Mesa da Consciência e Ordens. Pode dar-nos conta das principais conclusões e de como é que esta investigação tem contribuído para o seu trabalho como chefe de Divisão do Arquivo Municipal de Loulé, nomeadamente ao nível da documentação em fase definitiva.

(NV) Os trabalhos de investigação referidos debruçam-se sobre instituições do período Moderno que tinham uma política de enorme restrição de acessos aos seus arquivos, legitimada pelo valor da informação e do poder que esta representava. Dada a natureza da documentação, principalmente as inquirições sobre pureza de sangue, havia um extremo cuidado com a acessibilidade e a confidencialidade no Santo Ofício e na Mesa da Consciência e Ordens. Apenas tinha acesso à informação, nestes tribunais da Administração Central, quem estava autorizado pelos respetivos diplomas normativos.

Ao nível do meu trabalho, estes dois estudos têm sido essenciais para o conhecimento das tipologias e circuitos documentais, das fórmulas retóricas usadas na época, da interação entre a administração central e a periferia. O que era praticado nessas instituições era também, em algumas situações, reproduzido na documentação de âmbito local. É interessante analisar esta transversalidade e proximidade entre práticas de escrita e de gestão de informação. Também de destacar que estes estudos demonstram que são antigas as necessidades de organizar, conservar e recuperar a informação. Guardavam-se os documentos para provar direitos, reivindicar privilégios, exigir o cumprimento de obrigações e conduzir as atividades e as tomadas de decisão. Há muito ainda a explorar sobre os sistemas de informação pretéritos que nos ajudarão a conhecer e a compreender a documentação em fase definitiva. Contudo, os estudos desta natureza estão a ganhar uma crescente atenção por parte dos investigadores.

(ARCHIVOZ) Por último, tendo em conta a sua experiência no mundo dos arquivos, quais é que considera que são os principais desafios dos profissionais da informação?

(NV) Considero que existem vários desafios, o campo de ação é imenso e cada vez mais exigente. No entanto, o maior desafio dos profissionais da informação, na atualidade, é o tratamento e a preservação da informação digital. Dominam, nos nossos dias, os documentos eletrónicos produzidos em formato digital ou digitalizados. Vivemos na era digital, cujas mudanças se fazem sentir nas formas de produção, acesso e difusão da informação em sistemas informatizados e em dispositivos móveis.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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