Revista Archivoz

“A APOM, decidiu atribuir-me o título “Museólogo(a) do Ano 2021” […] É um orgulho receber tamanha distinção […].”: Entrevista com Isabel Victor

Entrevistámos Isabel Victor, Diretora do Museu Sporting

(Archivoz) Fale-nos um pouco do seu extraordinário percurso académico e profissional até chegar a diretora do Museu Sporting, em abril de 2017.

(Isabel Victor) Verdadeiramente extraordinário foi o que vivi e aprendi com as pessoas que se foram cruzando no meu caminho, em diferentes planos e etapas da vida.

Antes de tudo, no plano familiar porque sempre me foi inculcado o valor da liberdade como bem fundamental, o estudo, a busca do conhecimento, como a herança mais valiosa e a fraternidade como suporte de vida.

Considero-me uma pessoa bafejada pela sorte. Tentei sempre afastar as nuvens dos meus dias, trazer leveza à vida, à minha própria vida e à dos outros. Gosto de pessoas, dos seus enigmas e paixões, também das suas loucuras. Acredito que a beleza e a bondade são as únicas formas de mudar o mundo, interior e exterior.

Um dos filmes da minha vida, um dos que mais me emocionou, foi o que conta a história improvável e fascinante de Cheval e o seu Palácio ideal, a obra surreal a que dedicou mais de trinta anos da sua vida. O carteiro Joseph Ferdinand Cheval (1836-1924) que na sua caminhada diária de trinta quilómetros na comuna de Hauterives, França, para entregar correio, foi colecionando pedras e pedras, de todas as formas e feitios e que, com elas, construiu um sonho, o Palais ideal, um palácio inabitável, com vinte seis metros de comprimento e dez de altura, cheio de formas peculiares e desiguais, profusamente decorado com esculturas de animais, fadas e seres mitológicos. Um lugar mágico para contar estórias e sonhar, que em muito se assemelha à busca de um ideal-tipo (Weberiano) de museu, menos tecnicista, mais poético e transcendente, algo que não corresponde à realidade, mas que pode servir para a sua compreensão. Que parte de uma ideia livre de arquétipos, para ir ao encontro do próximo, específico e singular.

No plano académico, porque pude e continuo a ir podendo, verdadeiro privilégio, compor um puzzle de formação diversificado que, consciente  e/ou inconscientemente (porque nem todas as escolhas são imediatamente percetíveis), vai encaixando contributos de diferentes áreas disciplinares, perceções e interações, que  se vão concertando numa figuração poliédrica, complexa, que corresponde à imagem que tenho dos museus na contemporaneidade: múltiplos, diversos, por vezes paradoxais, mas sempre generosos.

Os museus são, talvez hoje, nas sociedades complexas, o único lugar onde se contratualiza e celebra o ato de dar, de doar – entregar a posse; fazendo lembrar as lógicas da Sociabilidade e da dádiva, fenómeno social total a que Marcel Mauss em “Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas” (1974), se refere, evocando as prestações e contraprestações, as práticas obrigatórias e livres (voluntárias) do potlatche, em que a palavra, a transitividade dos lugares e as múltiplas linguagem(s), são essenciais.

Também o Museu, melhor dizendo, o facto museal, na asserção de Waldisia Rússio Guarnieri, institui-se como o meta-lugar do compromisso social, do dito e do não dito, do que se vê e do que se intui. O facto museal enfatiza a importância da relação entre a pessoa, o objeto, o seu contexto e descodificação, assumindo que “(…) cabe ao museu possibilitar a leitura, não do símbolo, mas do elemento simbolizado, penetrando na raiz mesma do Humanismo.” A progressiva desmaterialização do conceito de museu, a crescente adoção de novas tecnologias para exposição de acervos oriundos bancos digitais, leva-nos a redefinir o lugar do objeto, a sua contingência física-temporal no mundo atual. O que é hoje o facto museal e/ou facto museológico e como se manifesta? Qual o posicionamento dos profissionais? E a noção de território. Diria, fazendo eco da ancestral sabedoria, que o território são as pessoas e que o resto é paisagem. Também os museus sem as pessoas se reduzem a uma inóspita paisagem.

A Museologia, é a ciência do museu e das suas relações com a sociedade. Campo interdisciplinar, ciência aplicada, que condensa em si práticas aparentemente distintas que aproveitam de várias áreas do conhecimento, com enfoque para as Ciências Sociais, Ciências da Linguagem, Economia e Gestão.  As artes performativas e as expressões artísticas são, ou deveriam ser, as linguagens privilegiadas dos museus – de todos os museus, independentemente da sua temática e/ ou vocação.

No plano profissional, tive o privilégio de ter sempre ao meu lado as melhores pessoas e aprender com as mais diversas experiências. Trabalhar  em projetos inovadores de educação artística e patrimonial, em contextos profundamente conectados com as comunidades e em museus com vocações e temáticas muito diversas: Arte (eminentemente sacra), pintura, escultura, ourivesaria, no Convento de Jesus (Setúbal), onde iniciei a minha carreira em museus (final dos anos 80 de 1900 até ao inicio do novo milénio)  com o eminente professor da Faculdade de Belas Artes, ex-presidente da APOM, na altura conservador do museu e  Fernando António Baptista Pereira. Foi um tempo em que se trabalhava com meios muito escassos. Tempos de pioneirismo, movidos pelo entusiasmo e pela urgência (era tudo tão novo … nós também éramos novos e era tudo urgente, até o amor!). Tempos em que se realizavam exposições completíssimas, grandes produções com pequenas equipas, mas com pessoas muito preparadas, a trabalhar de forma articulada incluindo carpinteiros, luminotécnicos, artistas plásticos, a partir de guiões bem delineados. Era um trabalho de artífices da palavra e do gesto que, na busca da perfeição, não poucas vezes, discernindo soluções no momento, porque as condições assim o exigiam, talhavam o fato em cima do pano, como o bom alfaiate, viam nascer o dia a montar a obra. Havia um frenesim.

Esse foi o meu tirocínio na prática complexa, intelectualmente exigente e muito desafiante, que é criar narrativas, realizar exposições, a partir de temas da história local e /ou universal, também sobre temas transversais, éticos e filosóficos (como a natureza e sentido da palavra “cuidar” num museu que antes tinha sido hospital, instalado num antigo convento) e fazer, fazendo. Passar da teoria à prática. No campo da Educação Patrimonial foi também um tempo em que não se parava, riquíssimo de experiência(s), envolvendo a comunidade, ao lado da minha colega e amiga, Ana Duarte, museóloga, com forte envolvente pedagógica, não formal, artística, que fazia do museu um lugar para brincar, com toda a carga emocional e liberdade que o termo brincar traz ao museu. Brincar é preciso e rir também. Os portugueses (eu diria, os museus) têm que se “desengravatar”, como dizia Vinícius,  o poetinha, carinhosamente, referindo-se ao povo português, numa memorável tertúlia, nos recônditos anos 70, em Casa da Amália.

Depois veio o Museu do Trabalho Michel Giacometti, antiga fábrica de conservas de peixe, também em Setúbal, junto ao rio, em que fui coautora do programa museológico e expositivo, mais uma vez com a Ana e o Fernando António, compagnons de route, participação de investigadores e mais tarde, coordenando uma equipa incrível que cresceu no museu, que se fez com o museu e que fez escola. Mais uma vez, museu-laboratório social da memória, museu- expedição no território, um novo olhar da Sociomuseologia , inspirado no olhar de Maria Inez Mantovani e no seu projeto para o Museu da cidade de São Paulo, repensando o conceito e a metodologia de museu de cidade (Tese de doutoramento em Museologia, 2009, publicada em “Cadernos de Sociomuseologia”, revistas.ulusofona.pt).

A coordenação da Rede Portuguesa de Museus e a Direcção do Departamento de Museus, do Instituto dos Museus e da Conservação, na transição da primeira década de 2000 para a segunda, foi um tempo breve, mas muito intenso, pelos melhores e piores motivos. Falando dos melhores porque os outros são pedras no caminho (também as há, porque todos nós somos feitos de ganhos e perdas), foram tempos extraordinários de varrimento de todo o país, de contacto com museus e equipas que eram e são, muitas delas ainda hoje, o pilar dos museus portugueses. Emociona-me ainda hoje falar do que vivi nessa altura. Dava outro capítulo. Fica o meu tributo a quem, comigo, no meu tempo, fez parte desta aventura: Ana Margarida Campos; Clara Mineiro; Claúdia Freire; Gabriela Carvalho; Maria Susete Magno; Miguel Crespo; Roberto Leite e, saudosamente, postumamente, António Manuel Marques Serras.

No sector privado, fui consultora convidada da MUSE- Museums & Expos, onde tive contacto com projetos e logicas de gestão empresarial que me ofereceram uma visão de serviços e mercados num campo ainda muito pouco explorado em Portugal.

Atualmente e desde Abril 2017, no Museu Sporting, integrando o quadro de profissionais do Sporting Clube de Portugal, como diretora do museu, na dependência institucional do clube, em que o museu é organicamente equiparado a departamento a par dos demais na mesma linha de report. Trata-se do desafio de uma vida e uma paixão, porque ao invés do ditado, diria que não há amor como o último.

Encaro esta fase com imenso entusiasmo, com enorme curiosidade pela novidade do tema, pela expectativa que o mesmo comporta e, sobretudo, pela oportunidade de poder contribuir para a formação de uma equipa profissional, multidisciplinar, comprometida com a missão, valores e visão do museu. O edifício humano é o intangível mais valioso do museu e o garante da sua sustentabilidade. A noção de património vinculada ao sentido de pertença, incorporando noções de cultura, identidade e memória, exige novos olhares e outras novas competências sociais e profissionais.

O Museu Sporting tem a responsabilidade e ambição de ser humanamente tão grande como o clube, em honra aos ideais progressistas dos seus fundadores que, no advento do séc.  XX, precisamente em 1906, ano da fundação, sob a batuta de José Alvalade, alinhado com os mais esclarecidos da época no que toca ao pensamento desportivo, higiene, regulação, mulheres desportista, espaço público e recintos apropriados, normas, preconizavam o desporto para todos, sem atender a género ou condição, defendendo a diversidade desportiva – o ecletismo e práticas saudáveis, em toda a sua asserção, física e mental.

Voltando ao plano académico, a licenciatura em Sociologia, no ISCTE  – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, na década de 80 do séc. passado, foi o maior esteio para o que vinha a seguir. Vivia-se a efervescência dos verdes anos. Abril de 74 escancarou as portas do liceu. Tudo seria diferente. O cavalo tomou Troia. O curso de Ciências do Trabalho, criado em 1972, foi transformado na licenciatura em Sociologia, a primeira do país.

Sempre curiosa relativamente às pessoas, movimentos e fenómenos sociais, encontrei no ISCTE de então, um ambiente universitário estimulante e excelentes professores. Mestres do pensamento crítico, da Antropologia Social, da Economia política e da História Contemporânea; sobretudo, pessoas inspiradoras, humanistas, de grande craveira intelectual, que marcaram indubitavelmente o meu percurso e a quem sempre agradeço: Mário Murteira; Jorge Correia Jesuíno; Joaquim Pais de Brito; João Moreira Freire; Filomena Mónica; Vítor Matias Ferreira; Juan Mozzicafreddo; Raul Iturra; Robert Rowland; Jose Manuel Paquete de Oliveira; Isabel Pimentel Guerra.

Pelo meio ficou a minha passagem pelo mestrado em Comunicação e Cultura, com a coordenação científica do emérito académico da UNL/FCSH, Adriano Duarte Rodrigues, que infelizmente não conclui, porque nem para tudo estamos preparados e eu não estava. O mestrado estava essencialmente virado para a Comunicação Social e esse não era, na altura, o meu foco, mas cito-o porque, apesar de não o concluir, fui colher nele importantes ensinamentos, sobretudo no domínio das Ciências da Linguagem e Semiologia, que mais tarde, nem eu sabia, me viriam a ser referenciais no domínio das estratégias discursivas dos museus, gramáticas, sociabilidades e interações.

No campo específico da formação em Museologia e seu aprofundamento, encontrei inspiração na Museologia nórdica e no pensamento de Per Uno Agren, saudoso amigo a quem presto póstuma homenagem. Com Per Uno, investigador e museólogo sueco, a viver na recôndita Umea, muito perto da Lapónia, mas cidadão do mundo, conhecedor de Portugal, amante do pensamento crítico e da Museologia, nasceu em 1991, o projeto de uma visita de estudo de quatro profissionais de museus portugueses a museus suecos, em que tive o privilégio de participar com a Ana Duarte, Clara Camacho e Jose Gameiro. A partir daí com o que colhi do exemplo dos museus suecos, dos seus profissionais, da sua profunda inserção nas comunidades, na contemporaneidade dos temas e problemas, alguns bem fraturantes,  que já nessa altura eram abordados, a forma e método de discernir e abrir a discussão,  a participação da comunidade cientifica, as estimulantes discussões com os profissionais, com os parceiros dos projetos, as inesquecíveis vivências em casa dos nossos colegas suecos, a sua afabilidade, que perdurou,  o consolidado sistema sueco de museus e  a enorme atenção dada à ação educativa, influenciaram para sempre o meu trabalho e a visão descomplexada dos museus. No meio da neve e das longas noites, os museus suecos que visitámos eram quentes, afetuosos, coloridos e muito luminosos. Cheios de crianças, música, expressão dramática, estórias, bolinhos, salas de estar, lugares para ler e conversar. Mais tarde, em 2000, quando começou a ser delineada a Rede Portuguesa de Museus, com a Clara Camacho à cabeça e segundo a própria afirma, em Informação ICOM.PT, serie II, número 2, ponto 13 – in memorian, Setembro- Novembro 2008,  muitas das recomendações vertidas nos relatórios de Per Uno, entre 1976-79, na sequência das visitas que realizou aos museus portugueses, especialmente museus locais, como os de Vila Franca e Setúbal, como consultor, no âmbito da missão UNESCO, de aconselhamento, a pedido do governo português, deram força à criação de uma rede de museus em Portugal. Per Uno Agren, realizou também em 1978, seminários em Guimarães, Ceia e Faro, onde segundo palavras da Maria João Vasconcelos, em Informação ICOM.PT, serie II, número 2, ponto 13 – in memorian, Setembro- Novembro 2008, a então diretora do Museu Nacional Soares dos Reis, inserida num grupo de trabalho que reunia no Museu de Arte antiga,  assessorou o consultor UNESCO e o acompanhou nesta fase, dizia que,  em sintonia com o pensamento de Georges Henri Rivière, indubitável referencia, Per Uno Agren mostrou preocupação com o desfasamento entre as coleções  dos museus locais e a vida concreta das pessoas, das comunidades, as suas referencias identitárias, memórias e culturas. Nos vários sítios por onde passou reforçou sempre a importância dos programas museológicos refletirem a realidade local e o papel dos mediadores nas equipas dos museus. Sobre este tema muita coisa se fez, mas também muito ainda está por fazer e há mesmo casos em que regrediram.

Concomitantemente e num contexto completamente diferente, mas em tudo complementar, a frequência e conclusão da primeira especialização em Museologia Social na Universidade Autónoma de Lisboa, Luis de Camões, em 1991, com a coordenação científica do professor Mario Moutinho, abriu portas a muitos profissionais, pioneiros da Nova Museologia em Portugal, em que, orgulhosamente, me incluo. Foi o início de um sobressalto crítico do “fazer museológico”, com assento na academia, teoricamente fundamentado, respaldado pela prática consumada, em Portugal e no estrangeiro, de maioria do corpo docente. Foi posta à prova a forma de pensar os museus, o seu papel na sociedade e abaladas muitas das certezas que imperavam junto dos profissionais. Esta especialização gerou oportunidades de mudança e influenciou projetos, sobretudo nos museus locais de tutela autárquica. Realidade ampliada pelos “Encontros Nacionais Museologia e Autarquias” (1990-2013), organizados pelo MINOM.PT e o departamento de Sociomuseologia da ULHT, em parceria com camaras, museus, coletividades e juntas de freguesia de todo o país. Até 2013, realizaram-se ao todo 17 encontros com o objetivo de aproximar a museologia local, os projetos municipais, o trinómio cultura/ património/ educação e o meio académico, possibilitando a troca de saberes, indutores de novas e melhores praticas.

Os últimos anos têm sido muito ricos na troca de ideias, no ensino da Museologia e esses novos ventos sopram fortes do outro lado do Atlântico. Por três vezes fui chamada a lecionar no Mestrado em Museologia na USP – Universidade de São Paulo, coordenação científica e pedagógica da professora Maria Cristina Oliveira Bruno, a quem deixo a minha homenagem, pela vasta bibliografia sobre o pensamento museológico brasileiro e sua qualidade teórica, sempre ao arredio das modas, mas profundamente atual.

Outras pessoas do panorama da museologia brasileira me marcaram positivamente, influenciaram o meu trabalho e com algumas, para sempre, estabeleci relações de amizade: Maria Inez Mantovani criadora da prestigiada Expomus e autora da tese de Phd Museologia – “Expedição São Paulo – bases para o programa de um Museu para a grande metrópole paulista”; Mário de Souza Chagas , diretor do Museu da Republica, Rio de Janeiro ( eloquente poeta – professor – museólogo);  Manuelina Maria Duarte Cândido  ( Professora de Museologia na Universidade de Liège, incansável investigadora e autora do livro “Gestão de Museus – Um desafio contemporâneo”. Com muitas outras pessoas, profissionais de museus brasileiros me cruzei e muitas mais admiro, como as que fundaram e atuam no SISEM – SP, Sistema Estadual de Museus de São Paulo. Igualmente guardo uma memoria fortíssima do Museu da Língua Portuguesa e da sua equipa, assim como da Pinacoteca de São Paulo, do seu diretor, da sua equipa e do Museu da Resistência que lhe é contiguo.

Em Portugal e Espanha, um bem-haja, à Mercedes Stoffel Fernandes, coautora do premiado Museu da Comunidade da Batalha, minha companheira dos da Museologia, da docência, da escrita e de tantas outras aventuras. Também a Encarna Lago, Rede Museística de Lugo, pioneira do MINOM em Espanha, pela bravura, obrigada. Ainda em Espanha, mas cidadão do mundo, sempre disponível e próximo, Juan Sandoval, Director- Conservador do Museo de Bellas Artes de Murcia, influencia e inspira o nosso caminho. A Aida Rechena , Directora do Museu Nacional da Resistência e Liberdade, Peniche, Phd em Museologia e docente na ULHT, pelo seu percurso , exemplar, batalhador , mas acima de tudo pela sua serenidade, faz-me sentir orgulho na profissão de museóloga.  Ao Filipe Trigo, designer no Metro de Lisboa, pela generosidade e talento, pela capacidade de transformar guiões meio aborrecidos em extraordinárias exposições, porque sem ele e a sua amizade, não era a mesma coisa, obrigada.

À Maria Miguel Cardoso, porque é uma museóloga de exceção a quem devo os melhores anos da minha vida em museus. Obrigada, Maria! Que me perdoem os restantes colegas e amigos, vou arrepender-me de ter começado esta lista, mas falar da importância das pessoas, do que gosto das pessoas, e não as nomear era como se não existissem para mim. Se fui ingrata, desculpem. A memoria é seletiva, todos sabemos. Tantas outras pessoas me ajudaram a fazer caminho, mas estas que nomeei e a minha família, fazem parte de mim própria – são eu! (o corretor ortográfico vai, certamente, censurar esta liberdade)

(Archivoz) Em 2005 concluiu com excelência, na ULHT – Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, o mestrado em Museologia, com a dissertação intitulada “A Qualidade em Museus – distinguir entre museus com qualidades e a qualidade em museus”, sob a orientação científica do professor doutor Mário Caneva Moutinho e a coorientação de António Ramos Pires, professor e autoridade em Portugal na área dos Sistemas da Qualidade. Quais os fundamentos e principais conclusões a que chegou na investigação que desenvolveu?

(Isabel Victor) A dissertação intitulada “Os Museus e a Qualidade – distinguir entre museus com qualidades e a qualidade em museus “, defendida em 2005 para obtenção do grau de mestre, está publicada nos “Cadernos de Sociomuseologia “, número 23, edição Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, 2009, Lisboa.

Este estudo debruça-se sobre o impacto dos museus na sociedade e a necessidade premente de avaliação, ferramentas e indicadores de desempenho, muito para além da mera contabilidade de públicos. O Museu enquanto prestador de serviços, espaço de criação e inovação, avaliado pelos resultados obtidos e pelo valor gerado para a sociedade.

Partiu de uma inquietação: como avaliar o impacto dos pequenos museus locais, em que os projetos se fundam numa rede colaborativa de parceiros, atores, e nem tanto em públicos e exposições? Pela via das lógicas dominantes, baseadas na contabilidade de públicos, mesmo que recorrendo a análises qualitativas, nunca estes museus poderiam ser considerados, porque esse não é o seu foco. Desta inquietação nasceu a busca de formas alternativas de avaliação, interna e externa, essencialmente centrada nos processos e nem tanto nos produtos finais _ uma museologia processual, orientada para os resultados.

Avaliação interna e externa, critica e pedagógica, que visa a melhoria continua dos processos e procedimentos, a transparência de gestão e satisfação dos cidadãos – clientes. Englobando nesta categoria os próprios colaboradores dos museus, transversalmente e em todos os patamares da cadeia operativa.

As ferramentas da Gestão da Qualidade trazem aos museus autonomia, maturidade, empoderamento das pessoas, compromisso, transparência  e uma cultura organizacional, rara nos serviços da cultura, baseada na corresponsabilização  e constante monitorização dos processos, que criam rotinas de funcionamento, estabilizam procedimentos e libertam os museus e as suas equipas, para a função primordial – dispor de qualidade de tempo para escutar e auscultar as pessoas,  envolver, envolver-se,  criar e gerar valor.

Relativamente á Qualidade em Museus é, no meu entender,  extremamente importante que se prossiga a investigação sobre o tema, cruzando fontes, a partir da experimentação , casos de estudo, em museus portugueses muito raramente, mas abundante em museus internacionais de referencia e se procurem definir as categorias de análise, variáveis e indicadores, inerentes aos museus e a serviços da cultura, de forma a avaliar, autoavaliar, medir, comparar resultados de desempenho e o enorme valor que estes geram para a sociedade, raramente evidenciado em relatórios técnicos.

Medir o desempenho dos museus pelos clássicos “Estudos de públicos” e suas grelhas de análise é, na minha opinião, reduzir o museu às exposições e à entourage, lojas e outros expedientes, deixando de fora a possibilidade de, medindo/comparando, plasmar em índices e números, o valor gerado pelos museus nos serviços que prestam (emprestam) à memoria, à gestão da informação e acesso ao conhecimento, sua produção e disseminação, importante ativo capaz de gerar benefício económico ou de outra natureza.

A inexistência de instrumentos de medida da qualidade total dos museus, enfraquece o diálogo com os outros parceiros e organizações (stackeholders), reduz a capacidade negocial, desvaloriza as profissões ligadas aos museus e seus os profissionais. A aplicação das ferramentas (frameworks ) importadas de outras áreas da sociedade visam colocar os museus a par das demais organizações no que toca ao seu desempenho – visam a reusabilidade e portabilidade das soluções, suas possibilidades e benefícios, também a sua sustentabilidade. Os museus nas organizações, públicas e/ou privadas, em que estão inseridas, mais do que um simples repositório e/ou a resposta a um target, constituem um ativo que reforça a identidade, empodera as pessoas e as marcas.

A Gestão da Qualidade em Museus corresponde a uma mudança de paradigma – significa passar do museus-produtos ao museu-resultados. Enveredar pela Museologia Processual.

(Archivoz) Como referido, é diretora do Museu Sporting, desde abril de 2017. Ao fim de cerca de 4 anos e meio nesse cargo, que balanço faz do exercício do mesmo?

(Isabel Victor) O balanço que faço é extremamente positivo. Pelas razões que evoco no início da entrevista, pela aprendizagem, as pessoas com que me vou cruzando, a elevada expectativa de quem nos visita, mas sobretudo pela possibilidade de contribuir para formar uma equipa profissional, multidisciplinar, com elevados padrões de qualidade e compromisso com a missão, valores e visão do museu, valeu a pena! Está a valer a pena ter sonhado o que sonhei, valeu a pena, como reza o conhecido fado do indefetível sportinguista Mário Moniz Pereira – o Senhor Atletismo.

Para além destes objetos, existem outros importantes documentos em suporte papel, fotografia, filmes. A estes juntam-se recentemente os registos vídeo e áudio de histórias de vida de atletas e testemunhos relevantes para a história do clube e a salvaguarda do riquíssimo património oral, imaterial. O valioso intangível que o Centro de Memórias do Museu Sporting se esforça em recolher, preservar digitalmente e tornar acessível, como fonte de conhecimento e estudo, mas também como um “Álbum de família “, que é sempre bom revisitar.

(Archivoz) O que nos pode dizer sobre a missão e a visão do Museu Sporting, mas também sobre os serviços que integra?

(Isabel Victor) As missões, como sabemos, não são estanques. Vão sendo discutidas e redefinidas de acordo com as necessidades e expectativas das comunidades em que se inserem. O importante é que estejam assimiladas e divulgadas, porque elas são o preâmbulo da nossa carta- compromisso.

O Museu Sporting, realça a centralidade da memória e adota, enfaticamente, como “missão: recolher e identificar os indicadores da memória do Sportinguismo no mundo, através de procedimentos museológicos de pesquisa, salvaguarda e comunicação, inserindo-os nos contextos interpretativos da História e Património(s) do Clube.”

(Archivoz) E sobre as coleções que integra, indicando, se possível, o número total aproximado de objetos existentes e a média de visitantes?

(Isabel Victor) As coleções são muito diversificadas, maioritariamente constituídas por largos milhares de troféus desportivos, mas também por insígnias e doações que constituem o que na gíria, a Memorabilia do Sporting Clube de Portugal – conjuntos de coisas e/ou acontecimentos memoráveis, que expressam a paixão e devoção ao ideal sportinguista.

Para além destes objetos, existem outros importantes documentos em suporte papel, fotografia, filmes. A estes juntam-se recentemente os registos vídeo e áudio de histórias de vida de atletas e testemunhos relevantes para a história do clube e a salvaguarda do riquíssimo património oral, imaterial. O valioso intangível que o Centro de Memórias do Museu Sporting se esforça em recolher, preservar digitalmente e tornar acessível, como fonte de conhecimento e estudo, mas também como um “Álbum de família “, que é sempre bom revisitar.

(Archivoz) Em 2019 o Museu Sporting foi distinguido com a Menção Honrosa, do Prémio Investigação, atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM). O que representou para o Museu Sporting , e para a equipa que coordena, a atribuição desta prestigiada distinção?

(Isabel Victor) Ser distinguido entre pares, pela APOM – Associação Portuguesa de Museologia, como aconteceu em 2019 e mais recentemente neste ano, é motivo de orgulho e um bom indicador do reconhecimento publico do trabalho que a equipa do Museu Sporting tem levado a cabo.

A primeira distinção premiou a investigação inédita que esteve na base da exposição “Viagem do Sporting Clube de Portugal à China, em 1978, e a importância do desporto na diplomacia”. Visava não só reconstituir a fantástica experiência que foi, no tempo da presidência de João Rocha, reunir uma delegação, de cerca de meias centena de pessoas, de todos os quadrantes da sociedade, mas também, objetivamente recolher materiais, fontes escritas e orais, que testemunham a importância desta viagem num momento crucial que precedeu a reabertura das relações diplomáticas entre Portugal e a China.

Este ano o Museu foi premiado pela mediação que fez na comunidade sportinguista, junto do grupo “Os cinquentenários “, sócios com meio século ou mais de filiação no clube, que aceitaram suportar integralmente o restauro têxtil do estandarte da fundação do clube, reza a história, bordado pelas irmãs de José Alvalade. O gesto exemplar foi premiado na categoria mecenato.

Também neste ano, a APOM, decidiu atribuir-me o título “Museólogo(a) do Ano, 2021”. Elevada honra que partilho inexoravelmente e sem hesitação, com toda a equipa de profissionais do museu e com o SCP. É um orgulho receber tamanha distinção, neste ano tão difícil de pandemia, e na qualidade de diretora do Museu Sporting. 

(Archivoz) Considerando o dinamismo que carateriza o Museu Sporting, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para 2022? Também gostaria que nos falasse sobre a exposição permanente e as temporárias do Museu Sporting?

(Isabel Victor) Os projetos centram-se essencialmente em aproximar o museu da comunidade de sportinguistas, em Portugal e no Mundo. Trabalhar os valores do desporto, o humanismo e a cultura desportiva.

Uma programação diversificada que promove a inclusão e participação dos mais novos e dos mais velhos. Visitas em família à descoberta das modalidades. Recurso às expressões artísticas, ao teatro, à música, à dança para trabalhar com os mais novos em projetos de educação não formal, como o “equipa-te” que recriam ambientes e proporcionam vivencias estimulantes, momentos lúdicos, que proporcionam múltiplas aprendizagens.

Projetos intergeracionais (conversas com … visitas de autor) em que o museu é o pretexto para encontros e para falar de momentos marcantes e vidas exemplares.

Pesquisa permanente de conteúdos que alimentam temas da História e Património SCP, rubricas nas redes sociais do clube e nos seus meios de comunicação, nomeadamente o “Jornal Sporting” e a Sporting TV, onde o museu tem uma rubrica de três minutos, um separador, designado “O Museu Conta”, onde, a partir de um objeto (ancora de memória) se agarram testemunhos únicos e emocionantes da vida de atletas, sócios e dirigentes.

(Archivoz) O que difere os museus dos clubes desportivos dos demais?

(Isabel Victor) Os museus de clubes, falando especificamente daquele onde trabalho, o Museu Sporting é para os sportinguistas, um lugar de culto (e culto) de uma exigência extrema, também de grande apelo, no que toca à emoção.

Cada museu tem a sua especificidade, mas, genericamente, os museus de clubes são   muito ritualizados, fortemente corporativos, museus onde tudo conta.

Museus-troféu, em si mesmos, com toda a carga, vibração e simbolismo, que o troféu contém. São, simultaneamente, momentâneos e perenes. Espera-se deles que estejam atualizados ao segundo, quando se proclama “Mais uma taça para o museu!” é como se já lá estivesse, mas ao mesmo tempo, espera-se que sejam uma espécie de Olimpo, o lugar sereno e abrigado do tempo, capaz de guardar para a eternidade a altura e grandeza das coisas. É nesta dualidade que também reside a sua beleza.

No que toca aos processos e procedimentos, à forma de fazer e realizar, programar, gerir, conservar, investigar, comunicar, são museus como os demais. Distinguem-se pelo compromisso e pela emoção. Recuso a ideia, ainda muito inculcada na nossa sociedade, de estratificar museus por categorias, em que os de desporto estão nas franjas da cultura cultivada (passo a redundância). O desporto é, inequivocamente, cultura, ponto! Tudo o que às pessoas diz respeito, diz-nos respeito, enquanto museólogos. Esta é a minha convicção. Aliás, parece-me importante sugerir ao ICOM internacional a criação de um comité específico de museus de desporto que inclua os museus de clubes. Terá, contudo, a meu ver, que ser uma entidade externa aos clubes e equidistante para conseguir esta agregação. O património desportivo teria, no meu entender, muito a ganhar, em conhecimento, visibilidade e salvaguarda, com a sua representação no ICOM. Os Clubes defrontam-se, são historicamente adversários e, respeitadas as regras, devem continuar a ser porque esse é o sal da competição desportiva, mas os museus dos clubes devem cooperar em prol da salvaguarda do património desportivo, mostrando abertamente e sem preconceitos o que os distingue, a sua identidade e até adversidade, recorrendo às ferramentas da Museologia , da História, Antropologia e demais ciências Sociais e do desporto, que contribuam para explicar o fenómeno e suscitar nas pessoas o respeito pela diversidade. Quanto mais estamos seguros de nós, da nossa identidade, melhor conseguimos dialogar com o outro (com os outros, no sentido antropológico do termo). Defendo as visitas técnicas entre museus de todas as naturezas, escalas e vocações, como meio de aprendizagem e reforço de uma rede colaborativa de profissionais, indispensável para o progresso dos museus e sua inserção na comunidade. Os museus não casas e coisas, são pensamento, edifico humano, além de tudo e sobretudo.

(Archivoz) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como diretora do Museu Sporting, quais foram os grandes desafios que enfrentou, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o impacto deste contexto tão negativo?

(Isabel Victor) A grande adversidade transformou-se também numa grande oportunidade. As ferramentas do digital ganharam primazia. Foi uma descoberta, mas também um sobressalto, relativamente ao qual ainda é cedo para tecer considerações. Dava outro capítulo

(Archivoz) Por último, quais pensa serem os grandes desafios que os profissionais da museologia em Portugal têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(Isabel Victor) Os grandes desafios que os profissionais da Museologia em Portugal têm de enfrentar, têm essencialmente a ver com preocupações sociais e capacidade, inteligência e vontade para orientar os museus para o que é fundamental: o bem-estar das pessoas, a sua felicidade e dignidade.

Os museus não podem ser estranhos às pessoas. Eles têm que ser lugares seguros, estimulantes e agregadores. Tem que ter tempo para as pessoas.

O tempo é um bem essencial para os museus.

Dai a importância da Museologia processual. Os processos são em si mesmos parte do museu. Quanto mais organizados e definidos estiverem mais tempo sobra para as pessoas e para o seu bem-estar. As novas tecnologias de comunicação e as ferramentas digitais serão, já são, importantes instrumentos que em crescente aceleração irão mudar, já estão a mudar, a paisagem museal. Os meios mudam e as mensagens também mudarão, mas nunca nos podemos esquecer que os museus são as pessoas. A obsolescência da tecnologia contrapõe-se à atualidade das pessoas. As pessoas envelhecem, mas nunca caem em desuso. É com as pessoas que temos que contar.

Neste desafio inclui-se, naturalmente a valorização dos profissionais dos museus e a sua estabilidade nas equipas. Um museu sem uma equipa estável, segura e, a todos os níveis bem preparada, não condições para cuidar seja do que for. A Museologia processual exige tempo, um tempo longo e em segurança. Cuidar exige cuidados.

Imagem cedida pelo entrevistado: Museu Sporting.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Numa cidade acordada, uma biblioteca sem sono” – um olhar sobre a Biblioteca Municipal de Beja José Saramago: Entrevista com Maria Paula Santos

Entrevistámos Maria Paula Santos, Bibliotecária Municipal da Biblioteca Municipal de Beja José Saramago.

(Archivoz) Fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional até chegar a Bibliotecária Municipal na Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, onde se encontra desde 1995.

(Maria Paula Santos) Sou licenciada em História pela Universidade de Évora, especializei-me em Ciências Documentais (Bibliotecas e Documentação) na Faculdade de Letras de Lisboa, e tenho um master em Documentação Digital pela Universidade de Pompeu Fabra de Barcelona.

Iniciei a minha vida profissional como técnica de inventário de coleções no ex IPPC (atual DGPC – Direção Geral do Património Cultural), depois fui durante 5 anos professora de história no ensino secundário e em 1991 iniciei a minha vida profissional enquanto bibliotecária na Biblioteca especializada do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão em Lisboa).

Tenho participado desde 1998 na minha associação profissional – BAD (Associação portuguesa de bibliotecários, arquivistas, profissionais de documentação e informação), como membro dos corpos socias da Delegação Sul, e entre 2011-2013, como presidente do Conselho Diretivo Nacional.

Sou presentemente a Bibliotecária Municipal da BMBEJA e entre a gestão do equipamento e dos serviços, sou a responsável pela programação dirigida aos adultos e de todos os projetos de literacia e também a mediadora no Clube de leitura.

Desde 2014 que me empenho em contribuir para aumentar a comunidade de leitores da obra de José Saramago, organizando em conjunto com o Diego Mesa (responsável pelo projeto Aula Saramago/Espanha) os Encontros Ibéricos de Leitores de Saramago, cuja realização alterna anualmente entre Portugal e Espanha, em 2019 criando, em conjunto com a Fundação José Saramago, a Rede de Bibliotecas José Saramago.

(Archivoz) Gostaria que nos apresentasse a Biblioteca Municipal de Beja José Saramago, no que respeita à sua missão e visão, quais os principais fundos e coleções que integra, e como se encontram organizados, com vista à comunicação dos mesmos, mas também no que se refere aos serviços que disponibiliza ao público, e tudo o mais que entender para o seu melhor conhecimento. O que a distingue de outras bibliotecas?

(Maria Paula Santos) A BMBEJA é um serviço da área cultural da Câmara Municipal de Beja.

A sua missão e visão sobre o seu papel na comunidade estão traduzidas na seguinte frase que se encontra no átrio de entrada da Biblioteca – “Numa cidade acordada, uma biblioteca sem sono”, da autoria de Joaquim Figueira Mestre. Na prossecução desta missão e visão a BMBEJA assume-se como o largo da comunidade, o portal regional de acesso à informação e a promotora de parcerias locais para promoção das diferentes “leituras” e literacias.

É uma das mais antigas instituições culturais da cidade, tendo sido fundada a 21 de Junho de 1874, dentro do espírito da época em que surgiram por todo o país um conjunto de bibliotecas de leitura pública, como consequência do movimento de renovação das mentalidades, que se seguiu às Guerras Liberais.

Reinaugurada a 30 de Abril de 1993 no âmbito da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, projeto tutelado pela Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), insere-se na tipologia das bibliotecas BM2 (tipologia para populações entre 20.000 e 50.000 habitantes) dos contratos programa de financiamento estabelecidos entre o Ministério da Cultura – Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e os municípios portugueses, neste caso com a Câmara Municipal de Beja.

No âmbito da sua missão enquanto promotora de parcerias e criadora de comunidades em torno de objetivos e interesses comuns:

  • Desde 12 de Maio de 2003 que faz parte da UNAL (UNESCO Network of Associated Libraries) – Rede de Bibliotecas Associadas da UNESCO. Rede de Bibliotecas Associadas da Comissão Nacional da UNESCO, desde 29 de Setembro de 2017, com a assinatura da Carta de Princípios desta rede.
  • Desde 25 de Fevereiro de 2013 faz parte do Grupo de trabalho das bibliotecas municipais da CIMBAL (Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo). RIBBA – Rede Intermunicipal de Bibliotecas do Baixo Alentejo, a partir de 8 de Novembro de 2018, com a assinatura do protocolo com a DGLAB (Direção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas)
  • Desde 21 de Agosto de 2015 faz parte da Rede de Bibliotecas Patrimoniais do Alentejo, promovida pela Universidade de Évora / CIDHEUS, com o objetivo de promover a preservação e divulgação do fundo documental de livro antigo
  • Desde 22 de março de 2019 é membro fundador da Rede de Bibliotecas José Saramago, que em conjunto com a Fundação José Saramago, reúne com o objetivo comum de promover a leitura da obra do Prémio Nobel da Literatura 1998, as bibliotecas municipais que tem o nome de José Saramago – Avis, Almada/Feijó, Loures, Odemira, a Biblioteca do Instituto Politécnico de Leiria e a Biblioteca Almeida Faria (Montemor o Novo).

No âmbito da sua missão enquanto largo da comunidade a BMBEJA coloca à disposição das pessoas da sua comunidade oportunidades diversas de conhecer, experienciar, refletir e agir nas seguintes áreas de intervenção:

Programa Rotas de Leitura – público-alvo: pais e filhos

Histórias de fazer tem-tem Pais e filhos entre os 10 meses e os 24 meses. Desenvolvimento da Linguagem| Leituras com sentidos| Primeiros passos; Patáti – Patáti. Pais e filhos entre os 24 meses e os 36 meses. Histórias cantadas. Histórias Lidas e Brincadas; Histórias de Déu em Déu. Pais e filhos entre os 3 e 5 anos. Pré-leituras | Literacia Emergente | Expressões. Brincar com as palavras, com o corpo e com os objetos; Barrigas cheias de Histórias. Para pais e filhos descobrirem outras maneiras de LER e encher olhos e barrigas; Clube dos Papa Livros. Pais e filhos a partir dos 6 anosLer em companhia do pai e da mãe, faz bem à filha, ao filho e aos pais também; Empresta-me as tuas orelhas. Pais e filhos a partir dos 3 anos. Contos e leituras partilhadas para pais e filhos

Programa Entre Páginas – público-alvo: escolas e outras comunidades

Programa Entre Portas – público-alvo: grupos de interesse na comunidade

Comemoração do Dia Mundial do Livro – 23 de Abril. Sob o nosso lema – “Numa cidade acordada uma biblioteca sem sono”; PALAVRAS ANDARILHAS – Encontro Nacional dos aprendizes do contar (bienal); Feira do Livro- Solstício das palavras (bienal); Comemoração do Dia Mundial da Poesia – 21 de março; Mil e uma noites Mil e uma história – Noites de contos na biblioteca. Momentos de divulgação da tradição oral local, nacional e internacional; Clube de leitura da Biblioteca Municipal de Beja – Clube de leitura para jovens adultos e adultos para partilha do prazer da leitura e as leituras do mundo; Conversas com B de Beja – Atividades de divulgação de autores de Beja ou que escreveram sobre Beja, assim como de projetos de desenvolvimento científico, cultural, educativo ou recreativo que decorrem em Beja ou sobre Beja; Universos da poesia – Projeto de sensibilização para a linguagem poética; Conversas à volta dos livros – conversas com os autores a propósito do lançamento ou apresentações de um novo livro; Vidas literárias – Atividades em torno de um autor específico a destacar; Autores ASSESTA – Destaque aos autores que pertencem a esta associação de escritores do Alentejo; Encontros ibéricos de Leitores de Saramago – Promoção da leitura da obra de José Saramago a partir da partilha dos seus leitores; Temas de ciência do ano – Ciclo anual de conferências de divulgação científica; Literacia da saúde – Ciclo anual de conferências sobre temas de saúde.

Programa “A Biblioteca Fora de Portas” – público-alvo: comunidades fora da biblioteca.

Biblioteca Andarilha – Programa de leitura em meio rural; A biblioteca perto de si: vamos, ouvimos e lemos – Projeto de promoção da leitura para idosos residentes em Lares; Para além das grades – Projeto de promoção da leitura em contexto prisional; Conversas Andarilhas – Projeto em torno da palavra contada, cantada a e lida, buscando nas memórias e histórias de vida a sua raiz; Um livro por dia, tão bem que lhe fazia – Campanha de sensibilização para novos leitores e utilizadores da biblioteca; Próximas leituras – Projeto de divulgação do fundo documental da biblioteca presencialmente nos diversos edifícios de serviços do Município; Cabine de leitura – disponibiliza livros num ambiente descontraído de responsabilidade cidadã: “Leve. Leia. Devolva”.

(Archivoz) Considerando a importância crucial da difusão da informação, diga-nos como é efetuada a disponibilização da informação à responsabilidade da Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, como é possível aceder a esta?

(Maria Paula Santos) A BMBEJA é uma biblioteca generalista e como tal em termos de documentação de informação disponibilizada abrange todas as áreas do conhecimento e disponibiliza todo o tipo de documentação e informação em qualquer suporte, que tem como documento orientador da sua ação o “Manifesto da IFLA/UNESCO sobre as Bibliotecas Públicas”:

“(…)Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social. Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores que, por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais correntes, como por exemplo minorias linguísticas, pessoas deficientes, hospitalizadas ou reclusas.

Todos os grupos etários devem encontrar documentos adequados às suas necessidades. As colecções e serviços devem incluir todos os tipos de suporte e tecnologias modernas apropriados assim como fundos tradicionais. É essencial que sejam de elevada qualidade e adequadas às necessidades e condições locais. As colecções devem reflectir as tendências actuais e a evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua imaginação.(…) “

À semelhança de todas as Bibliotecas que pertencem a esta matriz do projeto da criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, a BMBEJA está organizada por setores, onde nos mesmos se encontra segmentada a informação/documentação em função do perfil de serviço para cada um deles: Sector de adultos; Sector infantil; Sector audiovisual; Sector de periódicos. A esta matriz a BMBEJA acrescentou a Bebeteca (para bebés); Sector multimédia e internet (acesso a recursos tecnológicos e informação e documentação digital) e Centro do livro infantil (centro de documentação especializada em promoção do livro e da leitura).

Para nós a promoção do acesso faz-se a partir de duas componentes:

  1. Acesso presencial facilitado através de um alargado – 2ª a 6ª entre as 9h30 e as 22h00 e sábado entre as 14h30 e as 20h00
  2. Acesso online através do nosso catálogo bibliográfico, que para além de referências bibliográficas dos documentos físicos, contém inúmeros documentos digitais em texto integral, relacionados com a história e património de Beja.

Acesso online através do catálogo bibliográfico coletivo das Bibliotecas da RIBBA .

Acesso online através do Facebook da BMBEJA, onde divulgamos conteúdos mas sobretudo temos uma estratégia de comunicação que tem como objetivo aproximar as pessoas do universo da leitura através de conteúdos inspiradores e sugestivos.

(Archivoz) Foi assinado, em abril deste ano, na Casa dos Bicos, em Lisboa, o memorando de entendimento entre a Rede de Bibliotecas Saramago e a Fundação José Saramago, no contexto das comemorações do nascimento deste escritor (1922-1910). Qual a importância desta parceria e o que nos pode dizer sobre as iniciativas a desenvolver?

(Maria Paula Santos) Este memorando assinado em abril de 2020, é resultado do reconhecimento da Rede de Bibliotecas José Saramago, criada em 2019, como um parceiro natural nas comemorações do Centenário de José Saramago, já que as bibliotecas que compõem esta rede tem como objetivo “contribuir para a divulgação da obra, do pensamento e do legado cultural de José Saramago, mediante atividades articuladas, obedecendo ao propósito genérico de valorização da leitura, no quadro da missão assumida por cada uma das bibliotecas integrantes da Rede.”

No dia 16 de novembro de 2021, dia em que José Saramago faria 99 anos e será o dia de arranque destas comemorações, irão decorrer em simultâneo em todas as bibliotecas, diversas atividades em torno da pessoa/escritor, das suas obras ou do universo de pensamento ou causas públicas de José Saramago. E durante o ano de 2022 esta linha de celebração iniciada neste dia irá proporcionar as pessoas por todo o país, diversas oportunidades e formas de homenagear este grande homem, pensador irrequieto e escritor que é o nosso Prémio Nobel da Literatura.

(Archivoz) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como responsável pela Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(Maria Paula Santos) Neste contexto muito especial que temos vindo a viver desde março de 2019, tem havido dois grandes desafios: a gestão das consequências psicossociais da pandemia nas pessoas que fazem parte da equipa e a procura da reinvenção dos serviços da biblioteca ao longo das diversas fases da pandemia. Ambos os processos ainda se encontram em curso, pois quer as pessoas quer os serviços das bibliotecas continuam a procurar caminhos no meio deste “novo normal”.

(Archivoz) Como referido, encontra-se na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago desde 1995. Considerando os mais de 25 anos de experiência ao serviço desta biblioteca, uma parte significativa dos quais com funções de direção, que balanço faz dos mesmos?

(Maria Paula Santos) O mundo mudou muito e muito rápido desde esses longínquos anos de 1991 quando iniciei a minha vida profissional no mundo das bibliotecas e estas tem sabido corresponder a essa mudança sobretudo nos serviços que prestam às pessoas da sua comunidade. Na minha perspetiva as bibliotecas devem corresponder e devem desafiar as pessoas da sua comunidade tendo como base os serviços que prestam e a BMBEJA sempre esteve atenta de modo a manter esta atitude e ter um papel consequente sempre em conjunto com as pessoas da sua comunidade.

Para mim tem sido um privilégio poder trabalhar numa área profissional que faz parte integrante da minha vida e do meu crescimento como pessoa e ser humano, e neste percurso, que hoje é solitário, porque a BMBEJA chegou a ter uma equipa de 4 bibliotecários – os 4 fantásticos – ter a oportunidade de fazer parte dos agentes culturais desta comunidade que se assumem como facilitadores de oportunidades de crescimento e desenvolvimento cultural para as pessoas que vivem nesta comunidade que é o concelho de Beja, e mais recentemente com a participação na RIBBA, para as pessoas que vivem neste território que é o Baixo Alentejo.

(Archivoz) Foi presidente da BAD, na altura a Associação portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, agora Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação, no triénio de 2011-2013. Que balanço faz do exercício destas funções?

(Maria Paula Santos) Conheci a BAD desde o primeiro momento em que comecei a estudar Ciências Documentais e desde logo me identifiquei com o papel desta Associação Profissional e sobre a importância de ser um elemento ativo na mesma, pelo que desde cedo comecei a participar na Delegação do Sul e no triénio referido fui convidada pela Dr.ª Maria José Moura para constituir uma lista para o Conselho Diretivo Nacional.

Foi um privilégio ter feito parte dessa equipa que fez parte do CDN nesse período, pois foi uma época de muitas mudanças, renovação e atividade associativa. A grande dificuldade de pertencer aos corpos socias da BAD é de facto o seu carácter de voluntariado, que não ocorre em algumas congéneres europeias, beneficiando essas de um trabalho com mais persistência e de maior proximidade com os associados e os parceiros necessários à prossecução dos seus objetivos.

(Archivoz) Uma derradeira questão, considerando o seu trajeto nesta área, nomeadamente ao nível técnico, dirigente e associativo, como é que encara o futuro das bibliotecas em Portugal e quais é que considera serem os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(Maria Paula Santos) Mais do que problematizar ou resolver questões técnicas e profissionais consideramos que hoje em dia o mais importante é destacar aqui o tipo de abordagem que se adota ao desenvolver esse processo. É necessário refocalizar o processo nas bases que garantem os instrumentos para uma análise crítica consciente e consequente.

Neste sentido os grandes desafios em qualquer área quer seja a vida pessoal, quer seja da profissional, devem ter por base um tipo de abordagem positiva que permita perspetivar o presente e o futuro de forma saudável e construtiva, baseada em valores construtivos e essenciais para o ser humano que possam garantir uma convivência ética e saudável entre as pessoas que se relacionam numa comunidade (humanidade, compaixão, solidariedade, empatia, respeito, educação, humildade, justiça):

  • Observar, conhecer, compreender e transformar em conhecimento e em ação, estando sempre atento à evolução estrutural para além das conjunturas do momento
  • Corresponder às expectativas do momento mas ao mesmo tempo desafiar-se e desafiar os seus semelhantes para novas oportunidades e novas perspetivas sobre a forma como queremos viver.

Consideramos que se adotarmos este tipo de abordagem conseguimos perspetivar os desafios do presente e futuro dos serviços de biblioteca integrando-os na evolução natural da vida das pessoas e das comunidades no sentido de uma melhor qualidade de vida e de melhores níveis de felicidade.

Imagem cedida pelo entrevistado: Fachada da Biblioteca Municipal de Beja José Saramago.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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3.º Encontro Cidades, Arquitetura e Arquivos no Contexto Ibérico: Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura

A Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura, em Matosinhos, na zona metropolitana do Porto, acolheu, no dia 1 de outubro de 2021, o 3.º Encontro Cidades, Arquitetura e Urbanismo no Contexto Ibérico, organizado pela Casa da Arquitectura e o CIDEHUS.UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora. Pela primeira vez, este evento decorreu em modo híbrido, tendo sido transmitido em direto  através do Facebook da Casa da Arquitectura, com o objetivo de assegurar a maior difusão possível do mesmo, muito para além dos que puderam estar presentes nesta notável instituição.

Esta iniciativa, que nas edições anteriores se realizou na Universidade de Évora, em 2019, e no Centro de Informação Urbana de Lisboa – CIUL, em 2020, com a coordenação científica de Paulo Batista (CIDEHUS.UE) e Ricardo Costa Agarez (Dinâmia’CET-IUL / CIDEHUS.UE), contou com a presença de arquitetos, investigadores de arquitetura e arquivistas dos meios académicos e municipais/distrital.

O formato deste Encontro seguiu o modelo das edições anteriores, com quatro painéis, dois de arquitetura, da responsabilidade de Ricardo Agarez, e outros tantos sobre arquivos, coordenados por Paulo Batista, cada qual com duas conferências, num total de oito apresentações, cujos resumos, que apresentamos a seguir, foram disponibilizados pelos respetivos oradores.

Coube a Ana Filipe, Coordenadora do Departamento de Arquivo e Biblioteca da Casa da Arquitectura, a conferência de abertura, em que deu conta da missão e projetos desta notável instituição, criada em 2007, no âmbito da criação e desenvolvimento de conteúdos para a difusão e afirmação, muito para além de Portugal, da arquitetura junto da sociedade.

Painel I – As Cidades e os Campos: Territórios da Arquitetura e seus Arquivos

A primeira conferência deste painel, moderado por Ricardo Agarez, pertenceu a Ana Alves Costa, da Universidade do Porto, Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, e teve como título Rogério de Azevedo: A Construção de um Enredo, entre Arquivos, Fragmentos e Obras Construídas.

Segundo a autora, “O nosso testemunho tem como base o trabalho de investigação (recentemente publicado em livro) realizado em torno da figura de Rogério de Azevedo, arquitecto do Porto que viveu entre 1898 e 1983. A sua prática projetual, reflexo das diversas condições que, a vários níveis, a moldaram, dificilmente se categoriza. Beaux-arts e Art-déco, tradição clássica e modernismo são referências que nela convergem, manuseadas com liberdade e com sabedoria pelo seu autor.

A coerência na diversidade da obra deste arquitecto, que procuramos defender, implicou a reconstituição da vida deste autor e de uma obra arquitetónica cujos vestígios documentais fomos encontrando em diferentes suportes, dispersos por diversos arquivos e centros de documentação. O que restou do material de projecto de Rogério de Azevedo não era, de modo algum, um todo íntegro e coerente. Talvez desencantado ou pouco interessado em perpetuar a sua obra desenhada, pouco restou dos documentos originais. Assim, em cada arquivo visitado, onde a expectativa em cada aproximação foi sendo crescente, pelas suas especificidades, fomos descobrindo diferentes conteúdos ou fragmentos que, mesmo que parcelares, reunidos e cruzados, foram, ao longo dos tempos, peça a peça, formando o nosso enredo. Do Arquivo Histórico da Câmara Municipal do Porto ao Centro de Documentação da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), passando por muitos outros arquivos em diversas localizações do país, fomos reunindo as evidências que possibilitaram o entendimento e a compreensão sobre uma obra até então pouco divulgada.”

A conferência seguinte deste painel, de Filipa de Castro Guerreiro, da Universidade do Porto, Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, centrou-se Entre Tremocilho e Le Play: Arquitetura Adormecida nos Arquivos do Ministério da Agricultura.

Como a sua autora assinalou, “Em 2010, quando iniciei a investigação sobre as Colónias Agrícolas construídas pela Junta de Colonização Interna, era parco o conhecimento, no campo da arquitectura, sobre os projectos e obras realizadas por este organismo. O arquivo da secção de projectos dos serviços da Junta foi, em parte, destruído quando o espaço foi atingido por uma bomba, em 1977, e a documentação sobrevivente terá sido levada para um armazém que viria, posteriormente, a sofrer um incêndio.

Com a ausência de documentação específica sobre os projectos de arquitectura (com excepção da presente no espólio pessoal do arquitecto Celestino de Castro, no Centro de Documentação da FAUP), a investigação assentou na observação, análise, descrição e interpretação dos espaços construídos; numa longa viagem através de cerca de 440 documentos, do foro agrícola e económico-social, presentes na Biblioteca da Divisão de Planeamento, Documentação e Informática da DGADR (até 2012) e na da Secretaria-geral do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas; e na documentação relativa aos concursos de admissão e fichas de cadastro dos funcionários da Junta de Colonização Interna, depositados no Arquivo da Torre do Tombo.

Nos projectos de colonização agrícola da Junta, a arquitectura é apenas uma das componentes: apesar de expressa na casa, no assentamento e no desenho do território, e de, em determinados momentos, assumir destaque na imagem pública das acções da Junta, a arquitectura tem uma dimensão muito reduzida relativamente às componentes agrícola e económico-social. Neste contexto os documentos correspondem, na sua maioria, a estudos, projectos e relatórios, onde a questão arquitectónica é inexistente ou escassa. Talvez a necessidade desta viagem, de procura de desenhos e menções às construções em longos documentos centrados nas questões agrícolas e socioeconómicas, com referências e linguagem codificada que passei a conhecer, tenha constituído o percurso obrigatório para a compreensão do contexto do contributo dos arquitectos e das suas propostas.”

Painel II – As Cidades e os Campos: Territórios da Arquitetura e seus Arquivos

Cristiana Freitas, do Arquivo Municipal de Ponte de Lima, moderou este painel.

A primeira oradora foi Luísa Alvim, do Arquivo Municipal Alberto Sampaio, de Vila Nova de Famalicão, CIDEHUS.UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, e CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, que apresentou Os Paços do Concelho e Tribunal de V.N. Famalicão: o projeto de Januário Godinho.

Para a autora, “O presente trabalho é resultado da organização, classificação, inventariação levada a efeito pelo Arquivo Municipal Alberto Sampaio (V.N. de Famalicão) sobre o sistema documental O Projecto do Novo Edifício dos Paços de Concelho, Tribunal de Vila Nova de Famalicão do arquiteto Januário Godinho (JG/PNEPCT), datado de 1952 a 1974, que está inserido na série Obras Municipais. Esta é a série com maior quantidade de documentos e também a mais solicitada pelos utilizadores externos do arquivo. Assim, foi objetivo deste trabalho arquivístico autonomizar e destacar este projeto, porque constitui um testemunho notável da obra do arquiteto Januário Godinho, figura incontornável no âmbito da arquitetura portuguesa do século XX.

O JG/PNEPCT, pelo seu relevo, integra o inventário dos edifícios com valor cultural, a nível municipal. A preservação a longo prazo e o acesso contínuo à informação sobre este importante projeto arquitetónico levantou questões ao nível de tratamento arquivístico, dado que possui uma organicidade e relações com a instituição que o originou e acumulou, com implicações diretas no processo de classificação arquivística. Discute-se a questão da manutenção da classificação de origem da produção para o qual foi criado e uma outra opção que permitiu destacar este JG/PNEPCT e dar-lhe uma maior visibilidade, facilitando a consulta também fora do contexto da sua criação e uso. Apresenta-se uma proposta de tratamento arquivístico que permite o acesso e uso digital do projeto pelos investigadores e cidadãos em geral, contribuindo para a salvaguarda e comunicabilidade do património edificado.”

Este painel, e os trabalhos da manhã, encerraram com Julio Cerdá Díaz, do Archivo de la Ciudad en el Ayuntamiento de Arganda del Rey, en Madrid, Espanha, cuja apresentação, efetuada do país vizinho, via Zoom, deu conta de La transformación digital de los proyectos de obra. Estrategias, modelos y ejemplos de proyectos de digitalización.

Como destacou, “En los última década muchas organizaciones han abordado con mayor o menor éxito proyectos para digitalizar los documentos esenciales de sus administraciones, tanto para tramitar electrónicamente los que se producen en la actualidad, como los de aquellos documentos que proceden de la era predigital. Se trata de proyectos especialmente complejos que deben tener una estrategia muy definida, donde es necesario contar con un Sistema de Gestión de Documentos, una Política de Gestión de Documentos que especifique los distintos esquemas de metadatos y un Gestor Documental que nos permita aplicar técnicas masivas de identificación, descripción, enlazado y depuración de datos y documentos.”

Painel III – Os Arquivos e Nós: Reflexões em Redor da Investigação em Arquitetura

O terceiro painel foi moderado por Ana Aves Costa, cuja primeira oradora foi Susana Lobo, da Universidade de Coimbra, Departamento de Arquitetura, e Universidade de Lisboa, CiTUA – Centro em Território, Urbanismo e Arquitetura, com a comunicação Arquivos: “É Proibida a Entrada a Quem Não Andar Espantado de Existir”.

No resumo da sua apresentação, referiu que “Num artigo de opinião do Diário de Notícias de 1998, Ana Tostões apontava “7 razões para a criação do Museu Português de Arquitetura”. Entre elas, alertava para a urgência de “reunir espólios de arquitetos, acervos documentais, e material disperso referente à produção arquitetónica do nosso século (…) São desenhos, fotografias, escritos, correspondência, maquetas, que constituem um conjunto documental precioso e materialmente frágil em risco de dispersão ou mesmo extinção”. “Porque a preservação e valorização dos espólios documentais da arquitetura portuguesa (…) significa, também, promover, quer a qualidade dessa produção, quer a proteção da obra arquitetónica.

Passados mais de vinte anos, esta é a oportunidade para refletir sobre a importância dos arquivos no crescente reconhecimento patrimonial da arquitetura portuguesa do século XX. A classificação como Monumento Nacional da Fundação Calouste Gulbenkian e da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa (Decreto n.º 18/2010, 28 de Dezembro), da Casa de Chá da Boa Nova e das Piscinas de Marés, em Leça da Palmeira (Decreto n.º 16/2011, 25 de Maio), ou da Casa de Serralves, no Porto (Decreto n.º 31/2012, 31 de Dezembro), são disso testemunho e reflexo. À margem destas obras “maiores” da cultura arquitetónica portuguesa, muitas outras se vão revelando fruto do trabalho em arquivo. Percursos periféricos, esquecidos por uma historiografia disciplinar institucional. Também outras formas de expressão vão ganhando visibilidade, do planeamento urbano ao desenho de mobiliário, resultado de uma gradual expansão do próprio conceito de património. Um caminho feito de “descobertas”, “desvios”, por vezes, “desilusões”. É essa a “aventura” da investigação em arquivo. Continuemos, pois, sem medo!”

Por sua vez, Rui  Jorge Garcia Ramos, da Universidade do Porto, Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, apresentou Memória e Esquecimento: Arquivos e Investigação em Arquitetura.

Segundo esta “Pretende-se confrontar duas formas de construir conhecimento em redor de diferentes tipos de arquivo.

Por um lado, o arquivo pessoal com características autobiográficas, como elemento fundamental na organização do mundo das coisas que reclama uma latência própria, evolutiva e constituinte da personalidade. A sua organização é dirigida para construção de um conhecimento pessoal, diverso e subjetivo, mas, não menos rigoroso por isso, disponível a cruzamentos e descobertas imprevisíveis. Pretende preservar a memória, mas convive com o esquecimento.

Por outro lado, a investigação contemporânea em arquitetura exige o urgente regresso ao arquivo. Voltarmos a ver os seus documentos, considerando outras hipóteses, para questionar histórias face uma leitura dos desenhos, dos seus mistérios, numa necessidade de falar de arquitetura quando se fala de arquitetura. Este arquivo, tecnicamente organizado, talvez racional, precisa de dialogar com a necessidade de ser investigado. Assim, estabelecem-se dois lados do “balcão”, onde arquivistas e investigadores precisam de se conhecer e de dialogar sobre os seus objetivos e linguagens. Conhecer a estrutura e o funcionamento de um arquivo é um processo moroso, por vezes tão longo quanto a investigação. A experiência mostra ser uma relação complexa, difícil, porque o primeiro interesse de um não é o do outro. A lógica que levou à organização de um arquivo, não é da mesma utilidade para uma investigação. O que deve permitir refletir se o arquivo é um meio ou um fim em si mesmo. Como conviver com este problema? Uma das hipóteses experimentadas passa pela necessidade de estabelecer pontes entre os dois lados do “balcão”; ou seja, pela formação de um arquivo de investigação, que permitirá ao arquivo ter outras vidas, uma existência arquitectónica.

A investigação em arquitetura é fecundada por diferentes tipos de arquivos. É a partir desta multiplicidade de arquivos, rodeados por contextos plurais, que se poderão estudar as obras e tratar de as desmontar para saber como foram realizadas. Ou, dito de outra forma, como afirma Alfred Brendel, “o edifício da […] personalidade possui mais do que uma porta.”

Painel IV – Os arquivos de arquitetos e os arquivos de arquitetura: Dos métodos de investigação à valorização do património arquitetónico

O derradeiro painel teve a moderação de Daniela Teixeira Fernandes, do Arquivo Histórico Municipal do Porto.

Paulo Tormenta Pinto, do ISCTE-IUL, DINÂMIA’CET – IUL, Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território, foi o primeiro conferencista, com uma apresentação intitulada Investigação Cassiano Branco – hipótese método e crítica.

Como enfatizou, “Esta comunicação aborda os métodos de investigação em torno da obra arquitetónica de Cassiano Branco. O fundo documental do arquiteto e os processos de obra existentes no arquivo intermédio municipal de Lisboa, serão abordados como alicerce de uma meditação crítica, sobre a historiografia da arquitetura portuguesa do século XX.

A obra arquitetónica de Cassiano Branco, em conjunto com as fontes primárias e secundárias que a suportam, definem uma geografia, sobre a qual se traçam itinerários analíticos, onde o arquiteto é entendido como personagem, ora atuante, ora periférica, imersa num enredo complexo para onde convergem as controvérsias de um tempo marcado tanto pelo totalitarismo nacionalista, como pelo deslumbramento da vida moderna.”

A última conferência deste Encontro pertenceu a António Sousa, do Arquivo Distrital de Braga, Universidade do Minho, e Secção de Arquivos de Arquitetura do Conselho Internacional de Arquivos.

Com o título, Na paisagem construída, os “arquivos de arquitectura” não estão sós, “Esta comunicação pretende abordar dois tópicos relacionados com a importância e subsequente valorização do património arquivístico.

Assim, num primeiro momento, parte-se da constatação dos diversos fins em que podem ser valorizados os arquivos de Arquitetura e a informação que contêm. Esta abordagem inclui, também, a diversidade de outros arquivos não específicos da Arquitetura mas que incluem documentação dessa atividade.

Num segundo momento, pretende-se destacar a importância dos arquivos/informação de outras atividades que se relacionam com a Arquitetura. Trata-se de uma breve reflexão sobre a relevância dos arquivos de atividades presentes na conceção, construção e gestão dos ambientes construídos e a importância que têm na construção e preservação da memória coletiva e no desenvolvimento do conhecimento e da cidadania.”

Uma nota para assinalar o intenso, e muito produtivo, debate, que caraterizou a parte final de cada painel, envolvendo arquitetos, investigadores de arquitetura, arquivistas e público em geral, a que apenas o adiantado da hora pôs fim, ainda assim, muito para além da hora prevista para o final dos trabalhos, mostrando bem a importância desta iniciativa, com vista a uma melhor compreensão e comunicação entre os primeiros, os utilizadores dos serviços de informação arquivística, e os profissionais da informação.

As apresentações deste Encontro estão disponíveis em Casa da Arquitectura – 3º Encontro Cidades, Arquitetura e Arquivos no Contexto Ibérico – Direto | Facebook (período da manhã) e 3º Encontro Cidades, Arquitetura e Arquivos no Contexto Ibérico (facebook.com) (parte da tarde).

Este Encontro teve um segundo dia, a 2 de outubro, dedicado a visitar obras de arquitetura de referência, de Álvaro Siza Vieira, em Leça da Palmeira, bem perto de Matosinhos, nomeadamente, às icónicas Piscinas das Marés, Casa de Chá da Boa Nova e Quinta da Conceição, neste caso, para ver a respetiva e campo de ténis projetadas por este notável arquiteto.

Imagem: Cartaz do 3.º Encontro Cidades, Arquitetura e Urbanismo no Contexto Ibérico (autoria: Casa da Arquitectura)

“Faz falta à profissão um António Costa Silva, alguém de fora que nos ajude a refletir sobre o futuro…”: Entrevista com Paulo J. S. Barata

Entrevistámos Paulo J. S. Barata, Arquivista, atualmente a desempenhar as funções de Chefe de Divisão de Informação e Arquivo da Secretaria-Geral da Presidência da República.

(ARCHIVOZ) Como é que nasceu o seu interesse pelo mundo dos arquivos e o desejo de trabalhar nesta área?

(Paulo J. S. Barata) O meu interesse pelo mundo dos arquivos deu-se pouco depois de concluir a universidade com umas intervenções pontuais em arquivos de misericórdias (1988-1989), nas quais experiencei pela primeira vez o gosto e a vontade de trabalhar na área, ainda que o prazer pelos documentos manuscritos já existisse aquando da licenciatura em História (1984-1987), na qual sempre privilegiei o trabalho com fontes primárias. A partir daí, procurei adquirir formação especializada e ingressei no Curso de Especialização em Ciências Documentais – opção Arquivo (CECD) (1989), cujas entradas eram limitadas, sujeitas a severos numerus clausus, e difíceis para quem já não estivesse a trabalhar na área, uma vez que essa formação só existia nas Faculdades de Letras de Lisboa, Porto e Coimbra, entrando a cada ano, a nível nacional, 30 formandos em arquivo e 60 em biblioteca. Importa dizer que o meu percurso profissional se foi dividindo entre os arquivos e as bibliotecas, estendendo-se, posteriormente, a área editorial. Creio ter sido, aliás, após a bifurcação das áreas, um dos primeiros profissionais a concluir as duas especializações, Arquivo (1991) e Biblioteca e Documentação (1996). Por isso, tenho dificuldade em ver-me apenas como arquivista, ou apenas como bibliotecário, ou apenas como editor, a minha terceira valência. Aliás, quando tenho de indicar a profissão, vou optando por uma das três, consoante a dominante no momento. É comum quando me pedem para indicar a profissão ou para atualizar os dados nalgum local que também faça essa alteração, não deixando, sempre que isso acontece, de meditar nesse facto. Na verdade, vejo-me bastante mais como um polivalente com formação e/ou experiência nessas três áreas, uma espécie de três em um, do que apenas como arquivista. Mesmo nos arquivos e nas bibliotecas tive também a felicidade de não ter tido um percurso monolítico, único e afunilado, mas sim um percurso diversificado, uma vez que tive experiência com documentação antiga e com documentação recente, de arquivo e de biblioteca, e também com gestão de conteúdos, e de pessoas, o que claramente me enriqueceu como profissional.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso profissional até chegar a chefe de divisão de Informação e Arquivo da Secretaria-Geral da Presidência da República, cargo que ocupa desde setembro de 2020, e quais as funções que desempenhou.

(Paulo J. S. Barata) Restringindo o meu percurso profissional apenas à área dos arquivos e das bibliotecas, que é o que porventura interessará mais aos leitores da Archivoz. Em 1990, ingressei no Palácio Nacional de Mafra, onde, até 1992, desenvolvi atividade quer na área museológica quer na área biblioteconómica, ou seja, quer no Palácio, quer na riquíssima e singular Biblioteca do mesmo, onde tive os meus primeiros contactos com livro antigo. Em 1992, ingressei na Biblioteca Nacional, onde, até 2000, trabalhei na Área de Manuscritos da Divisão de Reservados, quer com manuscritos de biblioteca, quer com manuscritos de arquivo, quer com fundos e partes de fundos de arquivo. Neste último ano, trabalhei ainda alguns meses com livro antigo na então Divisão da PORBASE. Em 2001, e após uma experiência técnica acumulada com documentação antiga (manuscritos, arquivos e livro antigo), deu-se uma espécie de corte no meu percurso profissional. Por um lado deixei de lidar com documentação antiga e passei a lidar com documentação recente e por outro passei de técnico a dirigente. Embora já antes tivesse tido de lidar com bibliografia recente em funções de consultoria. Tive então uma nova e longa experiência, de mais de 12 anos (2001 a 2013), como dirigente (chefe de divisão), na Inspeção-Geral da Educação (IGE), em que lidei com documentação recente, quer de arquivo – coordenava as áreas de expediente e arquivo – quer de biblioteca – coordenava o centro de documentação especializado em inspeção de educação. Na IGE tive também responsabilidades na área editorial, pois era, primeiro o Gabinete de Planeamento, Documentação e Formação, e depois a Divisão de Comunicação e Documentação, que faziam a edição dos relatórios e dos roteiros inspetivos e geriam o site institucional, o que me deu experiência em gestão de conteúdos, redação, revisão de texto e edição. Daí surge a minha terceira valência profissional, a edição, que se junta ao arquivo e à biblioteca. É, aliás, o gosto pela edição que faz com que, quando, em 2013, regresso à BN, tenha sido para o Serviço de Atividades Culturais onde, entre outras, desempenhei as funções de editor, ou seja, fazia a edição dos livros que a BN editava por norma em parceria com centros de investigação das universidades. Importa referir que a BN, para além das funções técnicas e patrimoniais inerentes a uma biblioteca nacional, mantém uma atividade editorial regular sendo uma chancela com mais de 100 anos. Obviamente que nas edições da BN se contam também, para além de publicação de fontes e de estudos sobre os seus fundos, publicações técnicas e instrumentos de descrição dos seus acervos, inclusive catálogos e inventários de arquivo, pelo que também na função de editor não perdi a ligação aos arquivos e às bibliotecas. Aliás, deu-se até um caso curioso, pois, em 2019, vim a editar um «velho» catálogo de arquivo – a Correspondência dos diretores da Biblioteca Nacional (1797-1834) – feito por mim e por uma colega, onde na prática o profissional de edição editou o profissional de arquivo… As voltas que a vida tece…

(ARCHIVOZ) Integrou diversos grupos de trabalho, comissões, conselhos e júris, entre os quais a Comissão Editorial dos Cadernos BAD (desde 2002), e assegurou várias assessorias e consultorias técnicas. O que nos pode dizer sobre esta matéria?

(Paulo J. S. Barata) A participação em grupos de trabalho, comissões, conselhos e júris, entre os quais a Comissão Editorial dos Cadernos BAD, que realmente já integro há muitos anos, foi-me permitindo diversificar e alargar experiências, manter contactos profissionais e «forçar-me» à atualização profissional que provavelmente de outra forma não faria. Olhando para trás, percebo que todos me acrescentaram algo e me desafiaram. Nos primórdios do meu percurso profissional (1992-1994) recordo a participação no Grupo de Trabalho para os Arquivos de Família, Pessoais e Espólios, da BAD que, à época, procurou resgatar a questão dos arquivos de família, pessoais e espólios, na altura muito menorizados e esquecidos. Depois, o Grupo de Trabalho de Indexação de Reservados da Biblioteca Nacional (1993) que elaborou duas instruções ao Manual SIPORbase para a indexação de manuscritos e de livro antigo, num projeto pioneiro não só em Portugal. Mais tarde (2003), também o Grupo de Trabalho para o Sistema Integrado de Bibliotecas da Educação (SIBE), liderado pela Secretaria-Geral do ME, onde estava a minha colega e amiga Paula Ochoa, que assegurou a definição de uma política integrada de gestão da documentação do Ministério da Educação, a criação de um catálogo único e de uma plataforma partilhada de tratamento documental, bem como práticas normalizadas de tratamento e a padronização dos serviços prestados pelos vários núcleos documentais, e que integrava em representação da Inspeção-Geral da Educação. Ainda neste âmbito, e quase em simultâneo (2004), integrei o Grupo de Trabalho para o Sistema Integrado de Documentação e Informação do Ministério da Educação (SIDIME), que pretendia interligar, no âmbito da informação e da documentação dos órgãos e serviços do ME, as bibliotecas, os arquivos e os núcleos museológicos das escolas, bem como a informação para o exterior, através de um balcão virtual/contact center. Tive também uma experiência interessante na criação do Observatório da Profissão de Informação e Documentação (OPI-D) (2004) que pela primeira vez colocou em diálogo as associações profissionais portuguesas mais representativas, a INCITE (Associação para a Gestão de Informação), a APDIS (Associação Portuguesa de Documentação e Informação de Saúde), a LIBERPOLIS (Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Leitura Pública da Área Metropolitana de Lisboa) e a BAD. Mais tarde (2015) o Grupo Informal Bibliotecas da Administração Central do Estado – Pensar o futuro (GIBACE) que, sob a égide do INA – Direção-Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas, efetuou uma análise à situação das bibliotecas da Administração Central do Estado. Destaco ainda dois projetos interessantes, o tratamento e divulgação do espólio científico do Prof. Orlando Ribeiro, levado a cabo pelo Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, e que consistiu no tratamento da biblioteca daquele geógrafo e grande renovador da Geografia em Portugal (2001-2004) e a assessoria à Biblioteca da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (FPCE) que me permitiu contactar com a realidade de uma biblioteca universitária (2003-2004). Um pouco mais lateral mas entroncando quer com a minha «costela» editorial, quer com a experiência em biblioteca e arquivo, as perguntas a que vou respondendo, nas áreas da metodologia, descrição bibliográfica e edição, enquanto consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (desde 2010).

(ARCHIVOZ) É autor e/ou coautor de mais de 60 trabalhos técnicos, ente inventários, catálogos, artigos, comunicações e recensões críticas nas áreas biblioteconómica, arquivística e da história do livro e das bibliotecas. Fazendo uma retrospetiva dos trabalhos publicados, quais são os que gostaria de destacar e as razões dessa escolha?

(Paulo J. S. Barata) Bom, desse número de trabalhos que refere, há que dizer que a maioria são artigos, comunicações, recensões críticas e afins. Mas eu destacaria, por ordem cronológica, o Inventário do arquivo Mouzinho da Silveira (1994), por ter sido o meu primeiro trabalho a ser publicado. Recordo de forma vívida ter sido chamado ao gabinete da diretora da Biblioteca Nacional, pois havia a boa tradição de ser a diretora a entregar ao autor o primeiro exemplar saído das máquinas. Era um tempo em que a BN ainda tinha tipografia, a qual, além de efetuar a maior parte das publicações da casa, estacionário, etc., permitia ainda integração de pessoas com os mais diversos tipos de incapacidades. A seguir (2001) o Catálogo da Coleção de Códices da Biblioteca Nacional (COD. 851-1500), cujo trabalho de base me permitiu conhecer os primórdios de uma das mais importantes coleções de manuscritos da Biblioteca Nacional, a Coleção de Códices, muitos deles de arquivo, e perceber a sedimentação inerente à acumulação em bibliotecas patrimoniais, pois são muito visíveis os «núcleos» das primeiras proveniências. E, depois, o meu trabalho mais significativo, Os livros e o liberalismo: da biblioteca conventual à biblioteca pública – uma alteração de paradigma (2003), que veio também a vencer o Prémio Raúl Proença 2001, e no qual abordei o processo de arrecadação e o destino das livrarias monástico-conventuais portuguesas após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora de menor monta, por ser um artigo, ainda que extenso, também dou alguma ênfase ao trabalho As livrarias dos mosteiros e conventos femininos portugueses após a sua extinção: uma aproximação a uma história por fazer, publicado na Lusitania Sacra (2011), por ser uma abordagem ao processo homólogo mas em relação aos conventos femininos. Mais recentemente dado à estampa, se é a que expressão ainda é válida tratando-se de um e-book, e ainda que se trate de um trabalho antigo que por vicissitudes várias só há pouco foi publicado, o catálogo da Correspondência dos diretores da Biblioteca Nacional (1795-1834), em parceria com minha colega Lígia Martins (2019), e, por último, um outro e-book, Do Chiado ao Campo Grande: a transferência da Biblioteca Nacional de Lisboa (2019), que aborda o exemplar processo de transferência da Biblioteca Nacional do Convento de S. Francisco da Cidade, no Chiado, para o atual edifício construído de raiz para biblioteca nacional, no Campo Grande, por ocasião do cinquentenário do edifício da BN.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo um balanço desta nova realidade, que se fez sentir desde meados de março de 2020, pensa que os arquivos foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(Paulo J. S. Barata) Creio que sim, os arquivos fecharam-se à consulta presencial mas os profissionais passaram ao regime de teletrabalho parcial ou total. Na área da documentação histórica, selecionaram-se fundos e séries mais regulares e adequadas ao trabalho à distância e investiu-se na digitalização de documentos. A tecnologia, com a Internet, os computadores portáteis, as ligações VPN, permitiu uma rápida migração e adaptação dos profissionais e das organizações à nova realidade pandémica do teletrabalho. O tratamento documental continuou e os pedidos de informação continuaram a ser respondidos, com fornecimento de cópias digitais aos utilizadores. O que teve uma quebra, mas mais do lado do utilizador, foram os projetos de investigação de maior vulto e/ou que necessitavam de consulta extensiva de documentação, ou seja, da manipulação de grandes volumes de documentação. Na área da documentação corrente, a mudança ainda foi mais fácil, houve um continuum no que se refere aos documentos digitais, mudando apenas o local de trabalho, da organização para a casa do trabalhador. Os documentos em papel, tal como antes, continuaram a ser digitalizados e tratados, quase não havendo alterações nos fluxos de trabalho. Quanto às pessoas, umas até melhoraram a produtividade, por haver menos fatores de dispersão que por vezes existem nos open space das organizações ou em gabinetes partilhados. Pode ter havido alguma quebra na coesão das equipas em virtude de as pessoas não estarem ao mesmo tempo nas organizações, mas com o tempo as plataformas de videoconferência também permitiram suprir isso, ainda que para fomentar o espírito de equipa e a pertença identitária nada supere o contacto vis-à-vis, por toda a dimensão humana que o mesmo comporta. Por tudo isso, faço, pois, um balanço muito positivo da adaptação dos arquivos a este cenário completamente novo.

(ARCHIVOZ) Uma última questão, tendo em conta o seu notável e diversificado percurso nesta área, como é que vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(Paulo J. S. Barata) Bom, eu, com 56 anos andados, entrei já no último quarto da carreira. Poderei ter, em muitos aspetos, uma visão que alguns considerarão datada, mas tenho a vantagem de olhar para o futuro, conhecendo e tendo vivido passado. Não deixo, por isso, de me maravilhar com o profundo desenvolvimento que o mundo dos arquivos teve nas últimas três décadas, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista instrumental, ou seja, normas, recursos humanos, tecnológicos e infraestruturais. Há 30 e poucos anos, quando comecei a trabalhar na área, o órgão de coordenação era uma estrutura recente e débil, não havia sequer regras de descrição ou programas consolidados para o tratamento documental, tirando a experiência pioneira do ARQBASE, as estruturas de arquivo e os recursos humanos eram menos, não havia até uma coisa tão básica como uma adequada e proporcional representatividade dos arquivistas nas estruturas profissionais. Recordo-me de, na formação de listas para a BAD, se andar a procurar afanosamente alguns arquivistas para, digamos, compor o ramo… O que se evoluiu desde esses tempos foi imenso… Se é suficiente?!… Não, longe disso… Mas, depois deste curto e impressivo balanço do passado e respondendo diretamente à sua pergunta, um dos maiores desafios e simultaneamente oportunidade que se coloca aos profissionais da informação na atualidade é, sem sombra de dúvida, a preservação da informação digital que cresce, se altera e se torna obsoleta todo os dias, e há um défice dos arquivos no que se refere a esta realidade, parecendo estarem ainda demasiado acantonados no paradigma papel. Também me parece que, apesar dos esforços visíveis na criação de condições instrumentais, normas, regras, procedimentos, faltam, ao órgão coordenador, meios para chegar a toda a Administração, falta a definição e reivindicação do que devem ser os requisitos mínimos funcionais e humanos em matéria de arquivo em cada organização, que não existe, e falta depois fiscalização. E se esse é um esforço que ainda não chegou sequer cabalmente a todo o setor público, então o privado continua completamente de fora, o que se agrava num país de forte tendência estatista, em que o Estado geralmente dá o mote e é ele que, ademais nestas áreas, puxa pelos privados. Penso ainda que depois do fim das carreiras, com a perda de identidade e de visibilidade dos profissionais de biblioteca e de arquivo dentro das organizações, é crucial emergir da invisibilidade organizacional, recuperar o estatuto e a autoestima profissionais. Faz falta aquilo a que, por lastro, na BAD, se chamou durante muito tempo «intervenção político-social», e que pura e simplesmente se esfumou. O panorama associativo regrediu. Há associações que se extinguiram ou estão comatosas, a própria BAD, a instituição de referência na nossa área, debate-se há anos com uma luta pela sua própria sobrevivência material, sendo que esse esforço consome grande parte das energias daqueles que, dia-a-dia, a ela se dedicam denodamente. O número de associados tem regredido de forma continuada e, apesar de todos os esforços, e têm sido muitos, falta capacidade de atração. É assustador olhar para o diminuto número de associados da BAD com menos de 35 anos, talvez o limite para a idade madura, considerando ser essa a idade mínima para um cidadão se poder candidatar à presidência da República, e que se contam pelas pouquíssimas dezenas. Era comum até há década e meia qualquer organismo ter um centro de documentação e nele haver, no mínimo, um bibliotecário e um então chamado técnico-auxiliar ou técnico-adjunto. Os arquivos sempre foram estruturas mais débeis dentro das organizações mas muitas vezes os profissionais de biblioteca acumulavam a função do arquivo e/ou pressionavam a compra de serviços externos para a sua organização e preservação. Mas começava a ser comum haver uma autonomia funcional da área de biblioteca e arquivo. Havia estruturas fixas – divisões e mesmo direções de serviços – que o consagravam. Com a emergência do paradigma digital os centros de documentação especializados regrediram, e grande parte deles extinguiram-se, concentrando-se nas secretarias-gerais. Com o PRACE, o PREMAC e as reformas da Troika, resultantes da crise da dívida soberana, as estruturas autónomas de biblioteca e arquivo foram absorvidas pelos departamentos de informática ou de comunicação, sem vocação, conhecimento ou sensibilidade para estas áreas. Os profissionais foram subalternizados e passaram à invisibilidade organizacional. O fim da carreira foi a última machadada neste cenário, os profissionais perderam estatuto, referências identitárias, foram reintegrados na mole dos técnicos superiores generalistas, aculturados e/ou reconvertidos. Não deixa, aliás, de ser curioso que eu fui inicialmente Técnico Superior, depois de adquirida a formação especializada, fui reclassificado e ingressei na carreira de Técnico Superior de Biblioteca e Documentação, e após isso voltei ao ponto de partida, tendo sido novamente reintegrado, agora de forma administrativa, na carreira Técnica Superior, através de um decreto-lei que extinguiu mais de 1700 carreiras e categoria, num processo visto como de simplificação mas que na realidade destruiu uma filigrana de perfis e de equilíbrios relativos entre carreiras laboriosamente construído ao longo de décadas de emprego público e onde se meteu o que se devia e o que não se devia. Como facilmente se percebe por aquele número, brandido com orgulho e apresentado como sinal de se ter ido ao fundo na reforma das carreiras, não é sequer crível que existissem mais de 1700 carreiras e categorias passíveis de serem extintas. Houve muito pouca reação corporativa esta perda, quem o defendia era visto como velho de Restelo, avesso ou incapaz de percecionar a mudança e a modernidade, mas os efeitos práticos disso estão aí, são vários, um deles foi a ocupação de lugares BAD nas organizações por pessoas sem qualificações e outro foi exatamente o enfraquecimento das estruturas associativas. A adesão a uma associação não se faz nem pela oferta de serviços (formação, conteúdos, benefícios), nem por um alargamento descaracterizador de públicos que a torne numa espécie de albergue espanhol – caricaturo e carrego propositadamente nas cores –, faz-se pelo sentido de pertença a um grupo, por uma comunhão de interesses tangíveis e intangíveis, faz-se pelo espirito de corpo, por um sentimento até «tribal», faz-se pela pertença a um «povo», um pouco na senda da definição agostiniana de povo quando o definia como «uma multidão de seres racionais associados na comunhão concorde das coisas que amam» (cito de memória, pelo que os termos poderão não ser exatos). Falta – parece-me – uma estratégia de fundo para a profissão, um rumo claro, que terá de ser necessariamente fundado numa definição e caracterização clara do que deve ser a realidade arquivística nacional (qual a estrutura da rede, quantos arquivos, onde, de que tipo, com que perfis profissionais), na definição dos requisitos mínimos organizacionais em matéria de arquivo, na recuperação e no fortalecimento da identidade profissional. Às vezes penso que é capaz de fazer falta à profissão uma espécie de António Costa Silva, ou seja, alguém de fora que nos ajude a refletir sobre o futuro, a pensar e a traçar o caminho… Há hoje um défice claro de reflexão estratégica sobre e para a profissão, o que é visível até numa coisa tão basilar como as próprias designações profissionais, em que não há uniformidade: há quem, tendo as mesmas funções, se defina como bibliotecário, gestor de informação, profissional de informação, arquivista… O que acontece num tempo em que temos, como nunca aconteceu, alguma massa crítica, ou seja, um conjunto de doutorados na área e produção e reflexão teórica, resultante do grande alargamento formativo das últimas décadas (cursos de especialização, licenciaturas, mestrados e doutoramentos em Ciências da Informação), porém o enfoque da mesma parece-me ser mais na parte core, técnica e instrumental, e menos na parte «ontológica» e «epistemológica» da profissão…

 

 

Imagem: Site do Arquivo Histórico da Presidência da República.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Uma imensidão documental que conta a história do Património em Portugal durante o séc. 20.”: Entrevista a Ana Paula Figueiredo

Entrevistámos Ana Paula Figueiredo, Chefe de Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém (DADB/FS) da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu trajeto profissional e académico, até chegar a Chefe de Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém (DADB/FS) da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).

(Ana Paula Figueiredo) O meu nome é Ana Paula Figueiredo e a minha ligação ao mundo da documentação e dos arquivos é muito recente.

A minha formação académica passa por uma licenciatura em História – variante História da Arte, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo feito especialização (Mestrado e Doutoramento) em Arte, Património e Restauro, no mesmo estabelecimento de ensino, onde tive oportunidade de aprofundar os meus conhecimentos na área da arquitetura religiosa.

Após alguns anos de docência, ingressei na Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), em março de 2000, onde desenvolvi trabalho na área de inventário de património arquitetónico, tendo sido um dos elementos que compunha a vasta equipa do projeto de Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA).

O SIPA é um sistema de informação e documentação sobre património arquitetónico, urbanístico e paisagístico português e de origem ou matriz portuguesas. A gestão e o desenvolvimento do SIPA orientam-se pelo princípio segundo o qual a produção e aquisição, a conservação, a divulgação e difusão de informação e documentação autêntica e de qualidade relacionadas com os diversos valores territoriais em presença — designadamente o património arquitetónico, urbanístico e paisagístico —, são atividades essenciais tendo em vista a identificação, o reconhecimento e a compreensão, assim como a gestão, a salvaguarda e a valorização dos referidos bens culturais.

Após uma passagem pelo IHRU (2007-2015), onde o SIPA esteve integrado, o projeto passou a ser tutelado pela DGPC, que vislumbrou a oportunidade de desenvolver uma política séria de arquivo, que permitisse cuidar dos acervos produzidos pelas entidades que a antecederam, na área da Cultura (IPA, IMC, IPPAR, IGESPAR), e das coleções documentais dos palácios e museus. Era a oportunidade de criar uma visão integrada dos vários acervos existentes, tirando partido da existência de um edifício e metodologias de trabalho estabilizadas na área da documentação relacionada com o património arquitetónico.

É neste contexto que, em fevereiro de 2020, é criada a divisão de Arquivo e Bibliotecas da DGPC, tendo-me tornado chefe desta divisão, não tanto pelos conhecimentos na área de arquivo, mas pela visão global que permite dar continuidade à associação de um arquivo a um projeto de inventário de património, disponibilizando ao investigador, de forma estruturada, documentação e informação sobre esta vasta temática.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer sobre a Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém, desde onde é que se encontra localizada, à sua missão, visão e competências, enquadramento orgânico, e tudo o mais que considere para a sua melhor compreensão?

(Ana Paula Figueiredo) A Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém (DADB/FS) foi criada em janeiro de 2020 (Despacho 414/2020) e integra a Direção dos Bens Culturais da DGPC. Encontra-se sediada no Forte de Sacavém, um edifício de origem militar, reabilitado no final do séc. 20, para acondicionar o arquivo da DGEMN.

No Forte estão instalados os arquivos da ex-DGEMN, vários espólios de arquitetos e artistas plásticos do séc. 20, alguns acervos do ex-IMC, o ADF (Arquivo de Fotografia), a Biblioteca SIPA (integra a biblioteca do ex-IGAPHE), a Biblioteca de Património e o sistema de Inventário. Além dos arquivos, a DADB/FS tutela algumas bibliotecas instaladas em outros serviços geridos pela DGPC, como a Biblioteca de Arqueologia (Palácio da Ajuda) e a Biblioteca de Conservação e Museus (Instituto José de Figueiredo).

A esta Divisão compete, no que aos arquivos diz respeito, manter os conjuntos documentais existentes no Forte e articular o tratamento arquivístico dos vários acervos dos serviços centrais e serviços dependentes (Museus e Palácios), promovendo a sua digitalização e disponibilização sistemática, dando origem a uma verdadeira política de arquivo no seio da DGPC.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos serviços de informação, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. De que modo é que neste período tão singular, difícil e exigente, a Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém foi capaz de uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas? Da organização do trabalho interno ao atendimento ao público e difusão da informação, o que mudou? Que estratégias foram, e estão a ser desenvolvidas nesse sentido, de forma a atenuar os seus efeitos?

(Ana Paula Figueiredo) O encerramento do atendimento ao público e o teletrabalho, foram, no contexto de atividades da DADB/FS, muitíssimo bem aproveitados, permitindo a preparação das bases de dados existentes para migração para um novo sistema de informação ou tratamento/correção dos existentes.

Este trabalho foi desenvolvido procurando dar resposta aos desafios do projeto ROSSIO, uma infraestrutura portuguesa de investigação de referência para as Ciências Sociais, Artes e Humanidade, integrada no Roteiro Nacional de Infraestruturas de Investigação de Interesse Estratégico para 2014 – 2020, coordenada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Nova e reunindo um consórcio composto por um número ímpar de prestigiadas entidades – a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, a Direção-Geral do Património Cultural, a Fundação Calouste Gulbenkian, o Município de Lisboa, e o Teatro Nacional D. Maria II.

O ROSSIO tem como objetivo principal a criação e alimentação de uma plataforma de divulgação de conteúdos digitais na área das Humanidades, de qualidade e de acesso aberto, com parâmetros definidos e transversais a todas as instituições, contribuindo para a excelência e a internacionalização da investigação.

Assim e durante este período, foi possível desenvolver uma série de instrumentos de pesquisa, associados aos arquivos, nos seus vários níveis hierárquicos, que permitam fiabilizá-las, facilitando a vida a um vasto universo de utilizadores. A experiência no atendimento ao público (presencial e à distância), foi fundamental para percebermos os tipos de pesquisa efetuados pelo investigador, pelo turista ou simplesmente pelo público interessado em património, e cremos que as ferramentas que estamos a criar irão dar resposta, de forma muito intuitiva, às necessidades de todo um universo de interessados e de investigadores do nosso atual e futuro website.

Este período constituiu, pois, para a DADB/FS o ponto de paragem que era necessário para levar a cabo a hercúlea tarefa de revisão das bases de dados.

A política de digitalização e disponibilização de informação permite satisfazer a maior parte das necessidades dos utilizadores do nosso arquivo, minimizando, cada vez mais, as consultas presenciais, pelo que houve, obviamente, algum impacto e atraso nas investigações em curso, mas nunca uma enorme lista de espera para consulta da documentação.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer dos arquivos pessoais e espólios na posse ou à guarda da Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém? Esses acervos encontram-se todos e integralmente disponíveis para consulta pública, presencialmente e/ou à distância? Os arquitetos, os arquitetos paisagistas, os gabinetes de arquitetura, sobretudo estes, mas também os artistas plásticos, os designers, os desenhadores, os investigadores, etc., estão preparados E são sensíveis à importância de doar e depositar os seus acervos, com vista à sua disponibilização ao público, ou seja, o acervo patrimonial original tem vindo a ser enriquecido com outras incorporações patrimoniais, científicas, artísticas, etc., relativas à arquitetura e urbanismo, e mesmo outras? Se sim, qual a dinâmica nesse sentido?

(Ana Paula Figueiredo) Os espólios que a DADB/FS tutela, integram nomes incontornáveis da arquitetura portuguesa do séc. 20. Alguns dos espólios encontram-se praticamente integrais, enquanto documentação produzida por um gabinete de arquitetura ou de um artista plástico, como os de Nuno Teotónio Pereira, de Vítor Figueiredo, de Raúl Chorão Ramalho, de Eduardo Nery, de Daciano da Costa ou, o primeiro a integrar o SIPA, do arquiteto Frederico George. Não podemos deixar de destacar a presença muito significativa dos principais nomes da primeira geração de Arquitetos Paisagistas em Portugal, como Francisco Caldeira Cabral, Viana Barreto ou Gonçalo Ribeiro Telles.

Toda a documentação que se encontra no Forte de Sacavém está consultável, presencialmente ou on-line no site www.monumento.gov.pt, onde se encontram disponíveis 193.536 desenhos, 719.167 fotografias e 12.504.736 páginas de documentação textual. A documentação não disponibilizada poderá ser alvo de consulta presencial, sempre mediante marcação.

Os produtores de documentação autêntica sobre património e arquitetura estão cientes da necessidade de divulgar e preservar os seus acervos, estando muito sensibilizados para a sua cedência a instituições onde essa prática já exista. O SIPA continua a receber solicitações de integração de espólios de arquitetura, tendo, durante o presente ano, recebido o do arquiteto José Correa Guedes e estando a aguardar a entrega do fundamental acervo do arquiteto paisagista Edgar Sampaio Fontes.

Obviamente, que a necessidade premente de tratar a documentação institucional dos organismos que antecederam a DGPC, informação essencial sobre património, irá condicionar um pouco esta tendência, mas nunca foi intenção deste organismo da Cultura terminar este ciclo de incorporações, que se irá manter, mas de forma mais seletiva.

(ARCHIVOZ) Qual a documentação mais consultada e a que origina mais pedidos de reprodução, por quem (qual o utilizador-tipo) e para que fins?

(Ana Paula Figueiredo) A documentação consultada varia muito, consoante as investigações e as tendências que estas seguem, ciclos expositivos, etc.

Contudo, poderemos afirmar que os documentos mais solicitados, são os espólios dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Vítor Figueiredo.

(ARCHIVOZ) Qual a diferença entre arquivos de arquitetos e arquivos de arquitetura, o que se entende, afinal, por documento de arquitetura?

(Ana Paula Figueiredo) No Forte de Sacavém, guardam-se arquivos produzidos por gabinetes de arquitetura – arquivos de arquitetos -, que documentam o percurso criativo da sua obra final.

Contudo, o Forte e o SIPA são muito mais do que isso. Trata-se de um sistema para o estudo do património, na sua versão mais lata, que soube, desde a sua génese, perceber que o documento não vive sem a obra e esta só é entendida plenamente à luz da documentação produzida durante o seu processo criativo, a sua construção ou a sua reabilitação.

É nesse sentido, que o SIPA é único, pois associa um determinado bem patrimonial a um registo de inventário e a um vasto acervo documental que permite recuperar as ações de criação, valorização, recuperação… levadas a cabo por vários agentes.

A preponderância do património arquitetónico vai desparecer com o novo sistema de informação, que vai permitir, numa única base, ligar documentação a registos de bens imóveis, móveis e imateriais, alargando o leque do que, até aqui, era consultável no website.

(ARCHIVOZ) Considerando a importância crucial da difusão da informação, no quadro das funções arquivísticas, diga-nos como é efetuada a disponibilização da informação à responsabilidade da Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém, como é possível aceder a esta e que outras atividades são desenvolvidas pela Divisão que dirige, por exemplo, ao nível de instrumentos de acesso à informação, como guias de fundos, catálogos, inventários, etc.?

(Ana Paula Figueiredo) A documentação, digitalizada ou não, é pesquisável no website referido supra, permitindo ao investigador selecionar, de imediato, o que pretende consultar. Caso persistam dúvidas, existe diariamente um serviço de apoio telefónico.

Quando um fundo é incorporado, procura-se elaborar um tratamento arquivístico elementar, que permita, numa primeira fase, organizar a informação de modo hierárquico.

A partir deste, é elaborada a descrição final e imediatamente disponibilizada na base de dados, mesmo que o fundo não tenha ainda sofrido qualquer tipo de digitalização.

Na DADB/FS, o catálogo encontra-se on-line.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano e de 2022 pela Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém?

(Ana Paula Figueiredo) O ano de 2022 revelar-se-á auspicioso para a DADB/FS.

No início do ano, teremos toda a documentação, inventário e bibliotecas disponíveis na plataforma ROSSIO, culminando um trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em gabinete, no que concerne a criar linguagens controladas, que integram um vasto Tesauro, também este a disponibilizar.

Pensamos que será também a data em que grande parte dos fundos dos organismos que antecederam a DGPC venham a transitar para o Forte e fiquem disponíveis para consulta pública. Falamos de documentação relativa a processos de classificação, licenciamentos de obra, teorias patrimoniais, pareceres…. Enfim! Uma imensidão documental que conta a história do Património em Portugal durante o séc. 20.

(ARCHIVOZ) Como encara o futuro dos arquivos de arquitetos e de arquitetura em Portugal, e quais é que pensa serem os grandes desafios que os profissionais dos arquivos têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e comunicação da memória desses espólios?

(Ana Paula Figueiredo) Creio que o trabalho realizado ao longo de mais de uma década, permitiu preparar o caminho futuro. Os produtores estão sensibilizados para a necessidade de preservação da documentação, os instrumentos de divulgação e descrição já existem em várias instituições especializadas, os investigadores estão atentos e ávidos de informação.

Penso, pois, que o maior desafio será saber aproveitar, de forma eficaz, esta dinâmica entre todos os agentes.

(ARCHIVOZ) Um assunto que, infelizmente, continua a marcar a atualidade é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que colocaram novos desafios aos serviços de informação arquivística (arquivos), fazendo com que os seus responsáveis e colaboradores tivessem de se adaptar a novas metodologias e formas de trabalhar. Procurando fazer uma análise desta nova realidade, que começou em meados de março de 2020, entende que, genericamente, as instituições portuguesas que têm à sua responsabilidade arquivos de arquitetos e de arquitetura, foram capazes de se adaptar e responder eficazmente aos desafios e oportunidades surgidas?

(Ana Paula Figueiredo) Penso que sim, pois as possibilidades de comunicação entre os vários arquivos multiplicaram-se, criando a oportunidade de uma troca saudável de experiências e metodologias, que, se não tivéssemos este desafio, provavelmente não teria ocorrido. Creio que, apesar de todas as vicissitudes, conseguimos estar todos muito próximos e solidários na forma de trabalhar

 

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“(…) a documentação detida pelo Arquivo Distrital da Guarda tem um valor inestimável e deverá, por isso, ser preservada e estar disponível para os cidadãos de hoje e do futuro.”: Entrevista com Levi Manuel Coelho

Entrevistámos Levi Manuel Coelho, Diretor do Arquivo Distrital da Guarda.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu trajeto profissional académico, destacando as duas principais publicações, até chegar a Diretor do Arquivo Distrital da Guarda, em 2008.

(Levi Manuel Coelho) Na vida, à semelhança dos sistemas de arquivo, há sempre uma “ordem original”. Por isso e como no meu caso o início do meu “trajeto” académico precedeu o meu percurso profissional começarei por este.

Fiz a maior parte do ensino básico, a então chamada “escola primária”, em Celorico da Beira, uma típica vila do Distrito da Guarda e da Beira Alta. Logo na escola, comecei a estudar com muito interesse tudo o que se relacionasse com a história.

Os estudos secundários foram feitos no Liceu da Guarda. Em 1984, concluídos estes, entrei na universidade em Lisboa, no curso da licenciatura em história.

Mas Lisboa, apesar de gostar da cidade, ficava muito longe de casa onde não podia vir com a regularidade desejada. Daí que terminado o primeiro ano pedi e consegui a transferência para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Ali vim a concluir a licenciatura, em história, em 1989.

Terminada a licenciatura, comecei a “dar aulas” no ano letivo de 1989/1990, de português e história. Fui professor, uma série de anos, mesmo já depois de trabalhar no Arquivo Distrital da Guarda, em diferentes graus de ensino. Tive uma ou outra experiência como docente no ensino pós-graduado, na área dos arquivos.

Creio que se outra carreira não tivesse tido, me teria realizado profissionalmente naquela. O desafio ganho de conseguir “agarrar” uma turma, como o Professor Mendes Atanásio, ilustre professor catedrático de História da Arte, em Lisboa, me “agarrou” a mim, que até ia às aulas dele em dobro, era uma compensação que não aparecia na folha do ordenado, mas que para mim tinha muito valor.

Foi precisamente durante a apresentação de uma candidatura a um concurso anual para professores contratados que vi um anúncio de recrutamento de técnicos superiores para executarem um projeto de “inventário do património cultural móvel”, em arquivos, para a área do Distrito da Guarda. Pareceu-me muito interessante. Candidatei-me, fui selecionado e foi assim que em março de 1992, iniciei um percurso profissional na área dos arquivos que me trouxe até aqui. Portanto, o meu ingresso na carreira técnica de arquivos deu-se por um acaso que depois se revelou feliz.

Até ao ano de 1995 ou 1996, calcorreei, praticamente, todos os arquivos de câmaras, misericórdias e algumas irmandades do Distrito da Guarda. Foi uma experiência profissional única e extremamente enriquecedora. Descobrir documentos cuja existência era desconhecida, até pelas entidades que os detinham era, para mim, como achar tesouros. Achei muitos.

Entretanto ganhei algum gosto pelo estudo da história da minha região. Nessa altura, matriculei-me e vim a concluir, com algum sucesso, uma pós-graduação em História Regional e Local, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde apresentei um trabalho final sobre expostos (1998).

Depois, em 2004, concluí uma Pós-graduação em Ciências Documentais, variante de Arquivo, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Foram anos de muita e intensa aprendizagem. Fiz muita formação, nas e fora das universidades em áreas diversas: na área da gestão, da gestão da informação, entre outras.

Desde então e até hoje a minha atividade profissional principal tem sido a de técnico superior/arquivista (desde 1992) e depois de dirigente no Arquivo Distrital da Guarda (desde dezembro de 2007).

Pelo meio, tive uma ou outra experiência profissional diferente: de assessoria na área de cultura e, depois, na área da gestão, como administrador de uma empresa municipal (2003-2004).

Entretanto, fui fazendo alguma investigação na área da história moderna e do antigo regime. O acesso privilegiado a “fontes” nunca exploradas facilitava a tarefa e fui publicando alguns artigos e um ou outro trabalho de investigação. Fiz ainda alguns trabalhos para a época do antigo regime que até hoje aguardam melhor ocasião para serem revistos e publicados.

Dou aqui, como pedido, nota de duas publicações minhas. Uma, em coautoria, intitulada “Recenseamento dos Arquivos Locais: Câmaras Municipais e Misericórdias”, Vol. 13 – Distrito da Guarda, Ministério da Cultura (1999).“ Esta publicação resultou do trabalho de vários anos a percorrer e a inventariar os arquivos daquelas entidades, por todo o Distrito da Guarda. A partir de então eu não tinha dúvidas que arquivista seria a minha profissão.

Uma outra, uma edição crítica com estudo codicológico sobre o foral dado pelo rei Dom Manuel I, à Vila de Celorico da Beira, em 1 de julho de 1512. Este trabalho foi publicado, em 2012, quando se comemoraram 500 anos sobre a outorga de tal foral. A realização de um trabalho como este, relativo a um dos forais da terra de várias gerações da minha família, nomeadamente das minhas filhas, foi para mim uma grande honra.

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Diretor do Arquivo Distrital da Guarda, desde 2012. Que balanço faz do exercício deste cargo?

(LMC) Dirijo, como acima referi, o ADGRD, ininterruptamente, desde 1 de dezembro de 2007. Completarei 14 anos como dirigente deste Arquivo em dezembro próximo.

Quando iniciei funções era dos dirigentes mais novos e menos experientes na direção dos distritais. Hoje integro o grupo dos que têm mais anos nestas funções.

Tenho ao longo destes anos feito frequentes e ponderadas autoavaliações do meu trabalho.

A tarefa de dirigir é indissociável da tarefa de avaliar: o nosso trabalho, o dos que trabalham connosco e do que em conjunto produzimos. Tenho frequentemente constatado que a avaliação que faço do meu trabalho é, quase sempre, mais severa do que a que é feita por outros.

Considero-me um desassossegado que procura quase sempre fazer melhor. E na maior parte das vezes tal é possível, o que não significa que sempre seja justificável. Gerir tem sempre a componente de tomarmos opções e de definirmos prioridades.

Apesar de muitos anos a dirigir este Arquivo Distrital, mas não só, uma das poucas certezas que tenho sobre a tarefa dos dirigentes é a de que um dirigente, por muita qualidade que tenha, nunca verá o seu trabalho ter (muito) sucesso se não tiver uma equipa motivada, empenhada, solidária (entre os seus elementos) e envolvida nos objetivos, hoje usa-se frequentemente uma expressão que não aprecio especialmente – “alinhada” com o serviço. Estes fatores são absolutamente críticos para o sucesso. Se a estes pudermos acrescentar a qualidade (técnica por exemplo), bons meios materiais e tecnológicos e a capacidade para inovar, aí temos todas as condições para atingir a excelência.

Produzir muito e bem com todas as condições, muitos o conseguem. Garantir produtividade e, pelo menos, alguma qualidade no que se produz, em condições de trabalho difíceis e com recursos escassos, não é para todos. Como nos sistemas de informação, o contexto explica muita coisa.

O trabalho feito nestes anos no ADGRD, partiu, desde logo, do muito trabalho feito pela dirigente que me antecedeu, a Dr.ª Cecília Falcão, cuja equipe técnica eu já integrava. Por isso, quando iniciei as minhas funções dirigentes no ADGRD, já conhecia muito bem “os cantos à casa” e tinha ideias muito precisas do que me propunha fazer.

A partir de 2012, passámos a dispor de novos meios tecnológicos que permitiram ao serviço ascender a um “patamar” mais elevado, em termos da gestão da informação e do acesso a esta por parte dos utentes. Os ficheiros, as fichas e os inventários (pastas com descrições arquivísticas impressas) foram dando lugar ao catálogo disponível em-linha e a pouco e pouco foram dispensados. Os microfilmes deram lugar às reproduções digitais. As fotocópias às reproduções digitais. Os pedidos apresentados por carta e depois por e-mail, deram lugar à submissão de pedidos num “balcão eletrónico” onde se faz a sua gestão e onde os utentes podem acompanhar, em tempo real, o tratamento dado a cada pedido.

O ADGRD, hoje tem no seu repositório mais de 180.000 descrições arquivísticas, que respeitam a 640 “fundos”/arquivos de outras tantas entidades. Cerca de 93% destas descrições foram feitas ao nível do documento simples ou composto – o que permite uma recuperação da informação bastante “fina”.

A partir de 2013, o ADGRD, iniciou a disponibilização de reproduções digitais de documentos que passaram a ser consultados e “descarregados” a partir do nosso repositório, livremente e sem custos.

Nesse ano, conseguimos logo, com grande satisfação, disponibilizar reproduções digitais de cerca de 900 documentos. Decorridos estes anos, atualmente, temos disponíveis “online” quase 380.000 reproduções digitais que respeitam a 17.852 documentos integralmente reproduzidos. Isto significa que em muitos casos ter acesso aos documentos já não implica uma deslocação ao ADGRD para os consultar.

Tudo isto foi feito com uma equipa que nunca ultrapassou os sete profissionais e que atualmente e nos últimos meses se reduziu a cinco, o menor número de trabalhadores no serviço desde que me lembro.

Não gosto de partilhar as minhas autoavaliações e também aqui não o farei. Ao fim destes anos os resultados alcançados e a avaliação que os utentes fazem permanentemente do nosso trabalho encarregam-se de responder por nós.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital da Guarda tem à sua responsabilidade um importante património arquivístico, nos mais variados tipos de suporte. Qual a dimensão do mesmo, que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(LMC) Em termos de dimensão física o ADGRD detém cerca de 2 km de documentos, na sua grande maioria manuscritos, sendo que toda a informação se encontra registada em suporte papel.

Tal documentação cobre um período cronológico que vai do século XVII ao século XX. Existe documentação mais antiga, mas indica-se aqui apenas as datas extremas que melhor caracterizam o acervo documental no seu todo.

A diversidade dos suportes importará muito menos do que a diversidade da informação naqueles registada.

Naturalmente, sendo o ADGRD um arquivo distrital, predomina a documentação cuja “incorporação” deve, por imperativo legal, aqui ser efetuada.

Assim, dos 640 fundos documentais, aqueles cuja dimensão é maior, em número de documentos e mesmo em dimensão física, são: os documentos paroquiais, os notariais e a documentação judicial. Além desta existe também uma diversidade informacional bastante grande que decorre da diversidade orgânica e funcional das entidades produtoras cuja documentação para aqui foi transferida. Muitas destas entidades foram já extintas há muitas décadas e até há séculos.

O carácter único dos documentos de arquivo, por si só, justifica a atribuição do valor que habitualmente lhe é atribuído, já para não referir que qualquer documento que é detido pelo ADGRD integra, nos termos da Lei, o património arquivístico nacional e, consequentemente, é documentação protegida e de conservação permanente.

Destacamos agora aqui, apenas, alguma da documentação de diversos organismos da administração distrital, como é o caso do Governo Civil, da Junta Geral do Distrito, a Comissão Distrital; a documentação dos diversos ofícios de tabeliães, de todo o Distrito, desde o sec. XVII-aos inícios do século XX; a documentação dos Juízos de Paz, da Direção de Obras Públicas do Distrito, onde existem numerosos documentos com peças desenhadas de edifícios, estradas, espaços públicos, etc., de todo o do Distrito da Guarda. Estes são alguns exemplos, mas o grande valor da documentação deste Arquivo, como já referi, reside na sua grande diversidade e no âmbito cronológico alargado desta.

A atribuição de valor a documentação, eu prefiro dizer informação, é, por vezes, um exercício extremamente subjetivo. Desde logo porque fazemos esta avaliação à luz dos nossos interesses e do nosso tempo. Mas a documentação detida pelo ADGRD é indispensável para conhecer a história, ou parte dela, da maior parte dos concelhos desta região e das comunidades que a integram, de muitas das suas instituições, da sua cultura e tradições, da história das famílias que aqui existem ou existiram ao longo dos séculos, etc. Portanto, independentemente das nossas necessidades, dos nossos valores e dos nossos interesses, a documentação detida pelo ADGRD tem um valor inestimável e deverá, por isso ser preservada e estar disponível para os cidadãos de hoje e do futuro.

(ARCHIVOZ) A difusão da informação é crucial em qualquer serviço de informação, para mais considerando o contexto de pandemia que tanto tem afetado o normal funcionamento dos mesmos. Pode dizer-nos o que tem sido feito nesse sentido no Arquivo Distrital da Guarda, desde que é seu diretor?

(LMC) A difusão da informação que refere pressupõe uma proatividade, por parte do ADGRD, na divulgação do património arquivístico que detém.

Do meu ponto de vista, a valorização do património arquivístico detido por qualquer arquivo está, sempre, relacionada com a facilidade de acesso à informação/documentação. Costumo dizer que um documento inacessível ou um documento a que não é possível ter acesso é (quase) um documento que não existe.

Ou seja, a importância dos documentos deste Arquivo e da informação neles registada ou, atrevo-me mesmo a dizer, de qualquer arquivo seja ele histórico como é o nosso caso ou de uma empresa por exemplo, decorre da importância e da utilidade de tal informação para as pessoas ou organizações sejam elas qual forem.

Uma das características, ou como melhor refere o Prof. Malheiro da Silva, das propriedades da informação, é ser sempre potencialmente dinâmica e, para usar um termo hoje muito em uso, reutilizável. Reutilizável por investigadores, pelos estudantes, pelas entidades produtoras (se ativas), pelos comuns cidadãos, etc.

Sendo o ADGRD um serviço público, tem obrigação de divulgar o património arquivístico que detém, junto do seu público-alvo. E este público-alvo, teve nos últimos anos um âmbito geográfico cada vez alargado e que ultrapassa as fronteiras do Distrito e até do país.

O Distrito da Guarda foi, desde os finais do século XIX, um alfobre de emigrantes e muitas centenas desses luso descendentes com origem neste Distrito, hoje espalhados pelo mundo, acedem ao nosso repositório em busca, por exemplo, de informação relacionada com a história da sua família.

Daí que, e especialmente nestes anos mais recentes, o ADGRD tenha investido muito na divulgação do seu património arquivístico, privilegiando os canais “web” – o seu sítio na “internet” e a sua página no “Facebook”. Tal divulgação assenta na seleção de documentos que se relacionam com factos históricos, manifestações culturais, eventos políticos, personalidades, curiosidades, etc., e damos-lhe destaque.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Arquivo Distrital da Guarda à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?

(LMC) Esta é, sem dúvida, uma área onde muito poderíamos melhorar.

O ADGRD, tem, ao longo dos anos, estado sempre disponível para a realização de eventos culturais, nomeadamente em parceria, uma vez que os recursos disponíveis, nomeadamente humanos, para que o ADGRD possa por si só desenvolver atividades desta natureza normalmente não existem.

Estes dois últimos anos, praticamente, pelas razões conhecidas relacionadas com a pandemia, a realização de ações de abertura à comunidade e o acolhimento de visitas, exposições, etc., ou a realização, por exemplo, de dias abertos em que o público poderá ter acesso ao que habitualmente se não vê, como os depósitos e a sua organização, as tarefas de digitalização, etc., com o objetivo de dar a conhecer “por dentro” a vida do arquivo foram, obviamente, comprometidas. Ilustra o que se referiu o facto inédito de pelo segundo ano consecutivo, não ter dado, até agora, entrada no ADGRD, qualquer pedido nem ter sido acolhida qualquer visita de estudo.

Cremos que nos tempos mais próximos ações da natureza que referi ou outras, possam vir a ser desenvolvidas e realizadas. Esperemos que assim seja.

(ARCHIVOZ) A 11 de setembro de 2019 a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), o Arquivo Distrital da Guarda (ADGRD) e a Diocese da Guarda assinaram um protocolo de colaboração, com vista à prestação de apoio técnico, por parte da DGLAB/ADGRD, na área da gestão de arquivos, à Diocese da Guarda. O que nos pode dizer sobre os objetivos deste protocolo e quais os resultados já alcançados? 

(LMC) Após a realização do protocolo que referiu, o ADGRD propôs à Diocese da Guarda, um plano de atividades para o ano de 2020, que identificava um conjunto de objetivos que se centravam em duas áreas principais: a avaliação da situação do arquivo diocesano e das condições existentes, a requalificação das descrições arquivísticas existentes, por forma a aumentar a sua conformidade com as normas nacionais e internacionais.

A grande prioridade, para nós e para a Diocese da Guarda era encontrar soluções para que o acesso à documentação histórica do Arquivo Diocesano pudesse ocorrer logo que possível.

Também neste caso a situação pandémica comprometeu muito os planos e os objetivos então propostos. Mas não os comprometeu totalmente.

Foi feito um trabalho de avaliação das condições existentes no Arquivo Diocesano, das intervenções de fundo que se impunham e que seriam indispensáveis à preservação do acervo e para que a abertura ao público deste arquivo pudesse ocorrer.

No ano em curso, até abril, as atividades relacionadas com a execução do protocolo subscrito no ano anterior e o apoio de apoio técnico não puderam deixar de estar condicionadas, uma vez que metade dos trabalhadores do ADGRD estiveram em teletrabalho. Mas, no entanto, não deixou de ser dada continuidade ao trabalho de requalificação de diversos instrumentos para recuperação da informação (catálogo), que respeitavam aos processos de ordenação (séc. XVI a inícios de XX), que habitualmente e erradamente diga-se, são conhecidos como processos “de genere”.

Também, nessa altura, foi preparado um contrato de depósito, que veio a ser subscrito no final de maio deste ano, pelo qual se acordou, a transferência faseada para o ADGRD, do núcleo documental mais antigo e que pelas suas características exige um maior esforço na sua preservação. Procurou-se também, por esta via, garantir que a disponibilização à consulta do referido núcleo documental, pudesse acontecer no curto prazo.

Neste momento, ocorreram já duas transferências de documentação, sendo que a maior das descrições arquivísticas e dos documentos a que estas respeitam já se encontram disponíveis para consulta, respetivamente, a partir do repositório e no serviço presencial de leitura do ADGRD.

Tudo faremos para que o número de documentos disponíveis para consulta, nomeadamente através do acesso a reproduções digitais e o número de descrições desta documentação venha ainda a aumentar até final do ano.

Para já, os resultados alcançados, isto é a disponibilização à consulta desde agosto passado, de um significativo número de documentos, já superou as nossas melhores expectativas.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano e de 2022 no Arquivo Distrital da Guarda?

(LMC) O projeto de tratamento arquivístico da documentação proveniente da Diocese da Guarda e a definição de um quadro de classificação orgânico funcional que será a base onde vão assentar todos os níveis descritivos mais “baixos” (séries e documentos), são um foco importante do nosso trabalho atual. Este implica a realização prévia de um trabalho de investigação institucional cuidado e de avaliação, inventariação e caracterização informacional de todas as séries documentais existentes ou pelo menos da maior parte delas. Ou seja, é um trabalho de alguma complexidade técnica.

Obviamente que as grandes prioridades são, pelo menos, o alcance de todos os objetivos operacionais do serviço, o que dadas as circunstâncias ocorridas no primeiro semestre deste ano, decorrentes da pandemia e as circunstâncias absolutamente imprevisíveis que ocorreram no semestre em curso relacionadas com a diminuição de recursos humanos existentes, tornam difícil este desiderato. Tanto mais que o ADGRD, desde maio tem tido um grande aumento na requisição de serviços presenciais e sobretudo não presenciais que tem exigido a alocação da totalidade dos poucos recursos humanos disponíveis a tais tarefas. Neste momento há trabalhos técnicos, desde a descrição arquivística à execução de reproduções digitais que se encontram completamente parados desde julho. As circunstâncias não permitem fazer grandes projetos. É a realidade

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde meados de março de 2020, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital da Guarda, de forma a enfrentar esta nova e difícil realidade, no que respeita à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na disseminação da informação?

(LMC) Em algumas áreas de trabalho, o impacto da pandemia foi “brutal”.

Houve áreas em que a execução das atividades ficou comprometida, mas não deixou de ser realizada. E houve atividades que pura e simplesmente deixaram de ser realizadas, porque não podiam sê-lo em teletrabalho e os trabalhadores presenciais eram em tão reduzido número que só podíamos dar resposta aos pedidos de informação e de reproduções certificadas que nos chegavam através dos serviços em-linha.

O serviço de leitura, em determinadas alturas pura e simplesmente fechou e quando reabriu, as condições de funcionamento eram algo limitadoras (limitações de lugares, obrigatoriedade de pré-agendamento, etc.).

A pandemia obrigou-nos a todos – trabalhadores e utentes, a adaptar-nos muito rapidamente a uma situação nova para todos.

Muita coisa teve de mudar: a articulação entre trabalhadores em teletrabalho e trabalhadores presenciais; a definição prévia e o planeamento do trabalho semanalmente; o acompanhamento do trabalho em execução por toda a equipa, feito com recurso a reuniões por “web conference” tornou-se uma rotina, por vezes diária; a comunicação entre trabalhadores e entre trabalhadores e dirigente passou a ser feita, quase exclusivamente, através de e-mail, telefone e WhatsApp; a gestão de pedidos passou a ser exclusivamente feita, e estamos a falar de centenas de pedidos por mês, através de um balcão eletrónico; o atendimento presencial passou a ser feito, durante muito tempo mediante pré-agendamento, etc., etc.

Os resultados, do meu ponto de vista foram muito melhores do que à partida se esperaria. De uma forma geral, trabalhadores e utentes adaptaram-se bem e depressa a estes novos procedimentos.

Seguramente, agora estamos aptos e, incomparavelmente, mais bem preparados para lidar com estas situações e com situações semelhantes que esperemos não voltem a acontecer nas nossas vidas profissionais e não só.

(ARCHIVOZ) Por último, gostaria que nos desse a sua opinião sobre o que pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os arquivos distritais se deparam na atualidade.

(LMC) Os arquivos distritais têm um conjunto de atribuições perfeitamente definidas.

Organicamente os arquivos distritais, são arquivos de âmbito regional dependentes da DGLAB, cuja área de atuação, no âmbito da gestão de arquivos, do apoio técnico a entidades públicas na gestão dos seus próprios sistemas de arquivo, entre outras, coincide com a área do Distrito, no nosso caso, da Guarda.

Hoje, no que respeita ao âmbito e às características da documentação detida, o Arquivo Distrital da Guarda continua e perspetiva-se que no futuro continuará a ser um arquivo regional, pois a documentação/informação e os sistemas de arquivo objeto do nosso trabalho são as entidades (produtoras) públicas ou privadas da nossa área geográfica/administrativa, seja ela, como até hoje, o Distrito ou outra que possa vir a ser definida no futuro num contexto de uma regionalização que há muito se fala.

Mas, o ADGRD, no que ao seu público respeita, deixou já de poder ser considerado um mero serviço local ou regional, focado especialmente nas comunidades onde está inserido. Atualmente, a maior parte dos serviços que presta dão, principalmente, resposta a pedidos apresentados por utentes de fora do Distrito da Guarda. São, atualmente, até identificados um número muito elevado de utentes que fazem os seus pedidos a partir do estrangeiro. Ou seja, o impacto da sua atuação extravasa, cada vez mais, a área do Distrito, até do país.

Só para dar uma ideia do que afirmo, no ano passado e relativamente ao ano de 2019, fizemos uma análise dos acessos ao nosso repositório DIGITARQ, que, como já se referiu, integra um “serviço” de referência e permite a consulta de reproduções digitais de documentos (em ambiente “web”). Verificámos então que durante o ano de 2019, mais de 20.000 de usuários tinham acedido/visualizado mais de meio milhão de páginas no repositório do ADGRD. A maioria destes acessos (ao DIGITARQ) foram feitos a partir da cidade de Lisboa (16,11%), São Paulo (7,82%), Porto (7,68%) e Rio de Janeiro (5,15%), só para referenciar as cidades a partir das quais ocorreram mais acessos (pesquisas, consultas de documentos, de descrições arquivísticas, etc.). Estas cidades superaram, em muito, a Guarda, a partir da qual apenas 2,6% de “usuários” acederam ao DIGITARQ.

Também temos constatado, cada vez mais, que o número de utentes/clientes presenciais tem descido de ano para ano e não estamos aqui a considerar os anos da pandemia. Simultaneamente os utentes não presenciais superam largamente os anteriores em número e em número de serviços prestados. Cada vez mais o acesso se faz remotamente.

Isto implicou a alteração da forma de trabalhar do ADGRD, bem como a forma como o serviço se passou a relacionar com os seus utentes. O trabalho em “backoffice” predomina em detrimento do “frontofficce” (atendimento presencial no ADGRD).

Por outro lado, a existência de um balcão de atendimento – balcão eletrónico, aberto 24 horas por dia e 365 dias por ano, fez disparar os pedidos de serviços de reprodução, entre outros, para números absolutamente impensáveis ainda há poucos anos. Tal tem obrigado a que para resposta aos pedidos apresentados se aloquem a estas tarefas, por vezes, a quase totalidade dos poucos recursos humanos disponíveis.

Isto comprova, indubitavelmente, que toda a informação que se encontra registada nos milhares de documentos detidos pelo Arquivo Distrital da Guarda, constitui um recurso extremamente precioso e necessário para os cidadãos e, também, para as entidades produtoras ainda ativas ou outras que deles necessitam para executar atividades suas (tribunais, notários, conservatórias, entre outras).

Retira-se daqui uma conclusão evidente, mas que, muitas vezes, os decisores não consideram, do nosso ponto de vista claro, devidamente: a informação que existe nos arquivos é um recurso valioso que deve estar acessível e ao serviço de todos os cidadãos, da comunidade e da administração pública.

Como se sabe, na esfera da administração pública existem centenas de quilómetros de documentos em “arquivo” absolutamente inacessíveis e em condições que não possibilitam a sua utilização. Muitos deles, se acessíveis, poderiam ser de grande utilidade administrativa, legal, etc. Outros deveriam, pelo valor da informação registada, ser conservados indefinidamente e integrar o património arquivístico nacional.

Este volume de documentação, cuja dimensão atual se desconhece, apenas constituiu um encargo para o Estado, pois, encontrando-se tais documentos absolutamente inacessíveis, nem as atuais entidades produtoras ou detentoras, nem os cidadãos os podem usar ou tirar partido da informação neles registada.

Transformar estes documentos ou se se quiser esta informação, num recurso que pode ser de grande utilidade para administração e para os cidadãos, dependerá, sempre, do tratamento técnico que lhe for dado e que permitirá: primeiro, tornar tal informação num ativo (conversão de um encargo num recurso); e depois, desencadear os procedimentos de avaliação adequados, para que apenas se invista na informação/documentação que justificadamente deva ser conservada.

Isto, é certo, carece de investimento, mas, também, será igualmente certo que dará origem à poupança de recursos, nomeadamente financeiros, muito significativos. Há estudos e informação suficiente que facilmente comprova o que aqui se afirma.

Nunca como hoje o acesso à informação foi tão valorizado. Exemplo disso é o facto de, atualmente, na economia mundial, algumas das empresas mais poderosas e lucrativas terem as suas áreas de negócio ligadas à informação ou à sua gestão.

Será uma pena que o atual Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) não preveja, tanto quanto sabemos, qualquer investimento para que os arquivos da AP, especialmente os arquivos ativos, possam vir a ser, no horizonte temporal da execução do referido plano, tratados e valorizados por forma a que a informação neles contida possa vir a ser utilizada ou reutilizada. Ou seja, para que haja um investimento que vise tornar tal informação/encargo num recurso/ativo ao serviço da administração e dos cidadãos.

Estes são, parecem-me, os grandes desafios relacionados com a gestão dos sistemas de arquivo do nosso tempo e no nosso país. Os profissionais da informação não podem deixar de ter aqui um papel ativo, na identificação dos problemas, na apresentação de respostas (para estes e outros problemas relacionados) e na apresentação de soluções.

Imagem cedida pelo entrevistado: Arquivo Distrital da Guarda.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“O que nos falta a nós enquanto classe profissional é reforçar esta mensagem: sem que a informação produzida pelas organizações exista e seja acessível, não há democracia.”: Entrevista com Sandra Patrício

Entrevistámos Sandra Patrício, responsável pelo Arquivo Municipal de Sines, membro do Grupo de Trabalho dos Arquivos Municipais da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Profissionais da Informação e Documentação.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional até chegar a responsável pelo Arquivo Municipal de Sines, onde coordena a organização do sistema de arquivos da Câmara Municipal de Sines, em 2005.

(Sandra Patrício) Comecei por estudar história durante a minha licenciatura na Universidade de Coimbra. Queria conhecer melhor a história do meu país e também da minha cidade, e partilhar esse conhecimento com os meus concidadãos. No meu terceiro ano descobri os arquivos, o início de todo o conhecimento histórico, como futura área profissional. Decidi então prosseguir os estudos na área das então chamadas ciências documentais, na sua especialização em arquivos. Rapidamente percebi que os históricos são apenas uma parte dessa grande galáxia que são os arquivos. Para que haja arquivo histórico é necessário que a produção exista, assim como a seleção e conservação, desde o primeiro momento, junto das administrações produtoras, sejam públicas ou privadas.

Felizmente a minha cidade natal, Sines, estava prestes a inaugurar um novo edifício onde se iria instalar, entre outras valências, o arquivo histórico.  Primeiro foi o choque com a realidade, tão diferente do que se aprende nos cursos superiores. Mas graças aos colegas arquivistas do Arquivo Distrital de Setúbal e dos arquivos municipais vizinhos, bem como dos colegas administrativos experientes da própria Câmara Municipal, foi possível começar a conhecer a complexidade de um sistema de informação local.  Digo começar a conhecer, porque um sistema de informação de uma câmara municipal é vasto e multifacetado, não apenas pela sua idade ou pelos diferentes suportes que a informação assume, mas especialmente pela sua característica de garantir o funcionamento de uma comunidade e garantir a possibilidade da sua memória, mesmo quando, como no caso de Sines, é multinucleado.

(ARCHIVOZ) No seu notável CV sobressai, no que respeita a publicações, a extensa obra sobre a história e o património de Sines. Gostaria que nos dissesse como é que nasceu o interesse em estudar esta bela cidade e que destacasse os principais trabalhos publicados nesse sentido.

(SP) O meu interesse começou bem cedo. Sou filha de migrantes que vieram do concelho vizinho de Odemira para Sines, que se desenvolvia como grande complexo industrial e portuário nos anos 80 do século XX. Portanto, eu própria sou fruto de um fenómeno histórico. A mudança, e a forma como podemos conhecê-la e nela participar, sempre me causou espanto e me interpelou.

Dar a conhecer a história e o património deste concelho é uma forma de dialogar com os meus concidadãos, mostrar-lhes que o que vivemos hoje não surgiu do nada e não é garantido. E sabemos isso porque temos vestígios que foram produzidos ao longo das gerações, que continuam a produzi-los incansavelmente. Se não tomamos conta deles, desses vestígios, se não formos solidários com as gerações passadas e as futuras, então perdemos o esteio da nossa identidade individual e coletiva. A história local pode ser um excelente veículo para demonstrar como a informação arquivística é fundamental para uma comunidade.

Neste sentido, destaco a monografia Sines, a Terra e o Mar, escrita em parceria com a arqueóloga Paula Pereira e fruto do conhecimento obtido através da investigação dos sistemas de informação locais e da sua relação com sistemas de informação centrais e regionais.

Outro trabalho que registo é a publicação, desde 2005, no boletim municipal, da rubrica Arquivo Aberto, sobre a documentação do Arquivo Municipal de Sines e o conhecimento que poderemos construir a partir dela.

(ARCHIVOZ) Um excelente exemplo desse interesse por Sines é a sua tese de doutoramento, defendida em 2018, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o título “Sistemas de informação das administrações civis no concelho de Sines (1655-1855”. Quais foram as principais conclusões a que chegou?

(SP) Em primeiro lugar, que existem sistemas, não um sistema. Num pequeno espaço geográfico como o do concelho de Sines, durante as épocas Moderna e Contemporânea, vários produtores existiram e se relacionaram, quer coexistentes no espaço geográfico do concelho, quer a nível regional e nacional. Além da câmara municipal, cujo fundo decorre da singularidade do município enquanto senhorio territorial e jurisdicional durante a Época Moderna, procurou-se estudar as relações estabelecidas com outras entidades a nível regional e nacional. O período cronológico corresponde ao início da existência de informação contínua produzida e preservada pela câmara municipal, mas também o advento do Liberalismo e as suas mudanças, que determinaram mesmo a extinção do concelho em 1855. Assim identificaram-se vários sistemas, que resultaram do funcionamento das várias jurisdições: câmara municipal, juízo geral, juízo dos órfãos, juízo dos órfãos, juízo das sisas e almotaçaria.

Com a revolução liberal, a divisão dos poderes e o fim da autonomia municipal como senhorio territorial e jurisdicional alteraram o funcionamento do poder local, e, consequentemente, os seus sistemas de informação. Os sistemas de informação locais são fruto de uma comunidade, mudam com a evolução do seu produtor e da sua comunidade.

Assim, os momentos de rutura foram dois. O primeiro quando vários produtores do Antigo Regime foram extintos e as suas funções transferidas para novas instituições. O segundo foi a extinção do concelho, quando o arquivo da câmara extinta acompanhou a transferência da jurisdição para Santiago do Cacém, sede do concelho alargado. O sistema fechou-se, deixou de produzir nova informação, desta feita produzida pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém. O conjunto informacional, hoje disponível no Arquivo Municipal de Sines, produzido entre 1512 e 1855, é de facto um sistema de informação definitivo, ainda que, dada a continuidade do seu produtor e de algumas das suas funções, mantenha relações temporais com o sistema atual. O mesmo, aliás, pode dizer-se do seu produtor. A Câmara Municipal e o concelho extintos em 1855 são os antecessores da Câmara Municipal e do concelho restaurados em 1914.

Mas na mudança houve continuidades. O acto administrativo e o acto escrito nem sempre foram simultâneos, e vários actos administrativos tiveram lugar de forma oral, sem qualquer materialização escrita. As mudanças do liberalismo não destruíram o registo de actos como a principal característica do sistema. A informação que persistiu foi aquela que foi inscrita num suporte e aquela que sobreviveu a actos de avaliação conscientes e a destruições resultantes do acaso. Por outro lado, os produtores materiais e as elites locais foram agentes relevantes para a constituição dos sistemas de informação.

(ARCHIVOZ) Quais os projetos e atividades científicas mais relevantes que coordenou, e que se encontra a desenvolver, na qualidade de responsável pelo Arquivo Municipal de Sines?

(SP) Um dos projetos ainda a decorrer, e que não é propriamente científico, é a aplicação da Lista Consolidada no município. Em primeiro lugar porque implica uma aprendizagem contínua, e ainda não terminada da organização e do próprio instrumento, sempre em coordenação com os serviços produtores. A pandemia interrompeu as ações de formação prestadas aos produtores materiais da informação, que são momentos de aprendizagem também para a Unidade de Gestão Documental e o Arquivo.

Dado que a portaria de gestão documental para as autarquias de acordo com a Lista Consolidada ainda não foi publicada, apesar de os arquivos municipais estarem envolvidos na elaboração do instrumento desde o início, os arquivos municipais defrontam-se com importantes problemas, no presente e a curto prazo. A informação produzida, entretanto, pela organização está num limbo no que se refere à avaliação: foi produzida num contexto diferente da portaria atualmente em vigor, logo esta não é aplicável; ainda não existe um instrumento que permita a sua avaliação, que, quando existir, só se aplicará a partir da sua publicação. Felizmente há já instrumentos, nomeadamente a Ficha Técnica n.º 11 publicada pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que tem como objeto a Elaboração de Relatórios de Avaliação Simplificados (https://arquivos.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/16/2021/03/FT11_RAS.pdf ). Por outro lado, este instrumento será imprescindível para a aplicação do Regulamento Geral de Proteção de Dados para as autarquias, ao definir regras claras para a avaliação e o acesso à informação.

Estes serão dos desafios mais relevantes e desafiantes num futuro próximo: avaliar a informação produzida no quadro da portaria que será revogada, aplicar a futura portaria de acordo com a Lista Consolidada e o Regulamento Geral de Proteção de Dados.

Outro projeto, mais ligado aos sistemas de informação pretéritos, diz respeito aos quadros de classificação dos fundos do Arquivo Municipal de Sines, que estão a ser revistos ou produzidos de acordo com o estudo orgânico-funcional e em comparação com a descrição e os quadros de classificação já produzidos por outros arquivos. Um dos grandes desafios é da coleção factícia Mosaico das Memórias, constituída quer por documentos doados por munícipes, quer por imagens de documentos emprestados e devolvidos aos munícipes.

(ARCHIVOZ) Na sequência da questão anterior, gostaria que destacasse a coordenação, de que é responsável, ao nível dos instrumentos de acesso à informação do Arquivo Municipal de Sines, acessíveis no sítio eletrónico da Câmara Municipal de Sines, e o Serviço Educativo do Arquivo Municipal, integrado no Centro de Artes de Sines.

(SP) A publicação dos instrumentos de descrição documental em linha no sítio eletrónico é imprescindível, dado que ainda não foi possível disponibilizar uma base de dados de descrição arquivística. Assim, a disponibilidade estes instrumentos é a porta de entrada para investigadores e cidadãos no Arquivo Municipal, mesmo que não se desloquem fisicamente ao local. Mesmo com uma base de dados em linha os instrumentos são úteis por dizerem respeito a unidades de informação organizadas por produtor, quando são inventários de fundos, ou para tornar claras as relações informativas entre subdivisões do mesmo fundo ou de vários fundos.

Tendo em conta estas opções, o Arquivo Municipal tem vido a publicar inventários de fundos (Administração do Concelho, por exemplo) e de partes de um fundo, nomeadamente um nível de descrição como a série (como a correspondência recebida pela Câmara Municipal de Sines durante o Estado Novo). Por outro lado, tem vindo a produzir instrumentos específicos decorrentes de projetos de salvaguarda de documentação arquivística como a produzida pelas comissões de moradores e cujos produtores são externos à Câmara Municipal e mantêm a propriedade da informação. Neste âmbito, muito trabalho de descrição e divulgação está ainda por fazer.

O trabalho da difusão é essencial e opera-se em colaboração com o Centro de Artes de Sines, no que respeita à formação de utilizadores e à divulgação do património arquivístico e da história local. Durante a pandemia recorreu-se às novas ferramentas tecnológicas, nomeadamente as redes sociais do município, para interagir com os utilizadores. Esperamos retomar as oficinas e as visitas presenciais em 2022

(ARCHIVOZ) Considerando a grande dinâmica que carateriza o Arquivo Municipal de Sines, quais os principais projetos em curso e os que estão planeados para 2022?

(SP) Além do trabalho fundamental já mencionado acima acerca da aplicação da Lista Consolidada e do tratamento de arquivos pretéritos, prosseguem as ações de inventário e salvaguarda da documentação das coletividades locais. Neste momento o Arquivo Municipal encontra-se a tratar os arquivos de duas coletividades locais. A primeira é o Vasco da Gama Atlético Clube, coletividade criada em 1966 a partir da união de dois clubes desportivos locais. A sua informação encontra-se no produtor, e o Arquivo Municipal está a apoiá-lo no inventário, preservação e comunicação do seu arquivo. Este é um projeto a longo prazo, que resultará num catálogo e numa exposição, embora não se conclua em 2022.

O segundo arquivo é o da Associação de Carnaval de Sines doado ao município recentemente. Constitui uma fonte direta para conhecer uma das manifestações culturais mais representativas do concelho, com ampla participação popular. O trabalho de registo, acondicionamento e limpeza, descrição e comunicação terá um momento importante em 2022, que resultará numa exposição conjunta com o Centro de Artes de Sines e na publicação de descrições.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 provocaram alterações profundas nos serviços de informação em Portugal, desde a organização do trabalho interno, ao atendimento aos utilizadores e à comunicação da informação. Como responsável pelo Arquivo Municipal de Sines, o que nos pode dizer da sua experiência neste período tão singular e difícil, que infelizmente ainda não terminou. Que desafios e oportunidades gostaria de destacar, desde meados de março de 2020 até ao presente?

(SP) O Arquivo Municipal foi considerado essencial durante estes tempos difíceis. Fechou ao público presencialmente durante curtos períodos de tempo, mas esteve sempre em funcionamento para a administração e os munícipes. Foi possível desenvolver e incrementar processos já em andamento, mas que ainda não eram centrais, nomeadamente a consulta remota e a digitalização.

Dado que o Arquivo ainda não dispõe de uma base de dados em linha, a interação manteve-se por outras vias: o sítio e o correio eletrónico, o telefone e até as redes sociais, estas últimas para divulgação de documentos e iniciativas. Aprendemos a contornar a fisicalidade do acesso à informação, encontrando outros mecanismos, que tornam o espaço um pormenor.

O fornecimento de documentos digitalizados foi fundamental para a continuidade do desempenho das funções da administração, dado que uma parte dos funcionários esteve em teletrabalho. Além desta vertente, as consultas telefónicas de actos e factos por parte dos serviços intensificou-se, assim como a sua utilização das aplicações de gestão documental e consequente apoio do Arquivo para a sua utilização e recuperação da informação. É certo que há riscos para as organizações neste ambiente remoto, especialmente porque a transição foi repentina e é possível que parte da tramitação, distribuída por caixas de correio eletrónico e aplicações de negócio, não tenha sido registada de forma eficaz e eficiente. Mais uma vez, a centralidade da gestão de informação numa organização evidenciou-se. A administração não pára, embora ande mais devagar, e os arquivos seguem os seus passos.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o seu percurso e experiência nesta área, como é que vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais é que pensa que são os grandes riscos, desafios e oportunidades para os seus profissionais?

(SP) Os arquivos estão numa encruzilhada. Se é verdade que cada vez mais há recursos humanos qualificados, a sociedade não os reconhece como gestores da informação arquivística. Têm que competir com informáticos e agora, mais recentemente, com os juristas da proteção de dados. No entanto, o seu papel inicial e fundamental, que é o de gerir a informação produzida por uma organização de forma a mantê-la sempre acessível e capaz de manter a organização em funcionamento, fazer prova e garantir a sua memória e a da comunidade, não mudou ao longo do tempo. O que mudou foram os contextos de produção e de acesso à informação, que exigem cada vez mais conhecimentos e competências diversificados, porém, específicos dos profissionais. Não chega saber história, não chega saber programação, não chega conhecer muito bem o ambiente regulador. São necessárias equipas multidisciplinares em que os arquivistas, pelo seu conhecimento e experiência, tal como os profissionais de outras áreas, possam trabalhar em conjunto. Isto sob pena de estamos a constituir grandes massas de informação eletrónica que não será preservada, não vai ser acessível e pode não ser de confiança. Mas os arquivistas têm que ser reconhecidos como profissionais da informação, não apenas como guardiães de arquivos históricos poeirentos e que são apenas consultados por velhos professores e curiosos. A informação custodiada pelos arquivos interessa a todos os cidadãos. Por consequência, cabe-nos a nós divulgar a informação que gerimos e demonstrar a sua necessidade. Cidadãos conscientes exigem das organizações um comportamento responsável no que concerne à informação. O que nos falta a nós enquanto classe profissional é reforçar esta mensagem: sem que a informação produzida pelas organizações exista e seja acessível, não há democracia.

Imagem cedida pelo entrevistado: Visita guiada à exposição do projeto Dizeres, em setembro de 2020.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“… servir a comunidade da forma mais eficiente e eficaz, procurar dar a informação certa no momento certo.”: Entrevista com Maria Clotilde Amaral

Entrevistámos Maria Clotilde Amaral, Diretora do Arquivo Distrital de Viana do Castelo.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu trajeto profissional, académico e formativo até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Viana do Castelo, em 2008.

(Maria Clotilde Amaral) Após a conclusão do ensino secundário iniciei os meus estudos em Direito, na Universidade Livre do Porto, muito sugestionada pela falta de oportunidades que um curso na área da História poderia oferecer. Desisti a meio do segundo ano, pois nessa altura, tornou-se claro para mim que deveria lutar por aquilo de que mais gostava. Ingressei então na licenciatura em Ciências Históricas, já na Universidade Portucalense, com ideia de seguir Museologia. Quando conclui a licenciatura, resolvi candidatar-me à pós-graduação em Ciências Documentais, opção de Arquivo, uma vez que a de Museologia da Faculdade de Letras do Porto não iria abrir nesse ano. Senti-me identificada com o curso e com quem o lecionava, e resolvi tentar a minha vida profissional na área. Ainda nos últimos meses de formação, mais precisamente em junho de 1993, fui recrutada pela então Diretora do Arquivo Distrital de Viana do Castelo (ADVCT), Dra. Maria Olinda Alves Pereira, que procurava alguém da área dos arquivos para o projeto do Inventário do Património Cultural Móvel. Aceitei de imediato o desafio e foi nessa altura que comecei a trabalhar no ADVCT, onde me mantive até hoje, não obstante me terem sido oferecidas outras propostas. Posso dizer que uma parte da minha formação acabou por ser adquirida e consolidada em contexto de trabalho, dado que tive o privilégio de trabalhar com a Dra. Maria Olinda Alves Pereira que, para além de ser referência no mundo dos arquivos, é alguém que fomenta a partilha do conhecimento adquirido e promove a discussão de ideias e conceitos. Os meus primeiros anos de trabalho também me proporcionaram um conhecimento aprofundado de diferentes arquivos, à medida que fui percorrendo as Câmaras Municipais e as Misericórdias do distrito, algo que considero francamente vantajoso para as funções que desempenho. Em outubro 2008, assumi a direção da unidade orgânica, com o objetivo de dar continuidade ao projeto iniciado pela minha antecessora e com o qual sempre me identifiquei e envolvi.

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Diretora do Arquivo Distrital de Viana do Castelo desde 2008. Que balanço faz do exercício deste cargo?

(Maria Clotilde Amaral) Em termos gerais, considero o balanço positivo, embora os quase 13 anos de exercício de funções tenham passado por fases muito distintas. Até 2010, a estratégia foi maioritariamente voltada para o exterior, designadamente para a consolidação da rede dos Arquivos Municipais do Alto Minho, através da manutenção de reuniões periódicas do Grupo de Trabalho, também abertas a alguns Municípios do distrito de Braga e ao Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Nestas reuniões, geralmente muito participadas e animadas, discutiam-se questões técnicas e procuravam-se soluções conjuntas para problemas comuns. Porém, em 2010 acabei por ser obrigada a centrar-me nos problemas internos do ADVCT, consequência do acréscimo de trabalho e da falta de recursos humanos para o desenvolver. Foram anos extremamente duros, em que se tentou “sobreviver” na adversidade, procurando não afetar a qualidade do serviço prestado e a relação com os utilizadores. Aliás, foi consequência desta falta de recursos, sobretudo humanos, (chegamos a estar apenas 3 trabalhadores no ativo para um distrito inteiro, durante mais de 1 ano) que se optou por recorrer a uma candidatura no âmbito de um projeto cofinanciado, sobre a qual me pronunciarei mais tarde. O objetivo é que se pudessem desenvolver outras tarefas que não apenas assegurar o regular funcionamento dos serviços. Felizmente que, a partir de dezembro de 2016, o mapa de pessoal do ADVCT começou a ser gradualmente reforçado, contando atualmente com 8 trabalhadores, todos eles muito dinâmicos, interessados e disponíveis para enfrentar desafios. De salientar também que, no ano de 2020, o edifício do ADVCT foi alvo de obras de conservação e reabilitação, proporcionando uma melhoria considerável no bem-estar de quem trabalha e frequenta os serviços. O ADVCT está agora no início de uma terceira fase em que se procurará uma maior abertura à comunidade, sem prejuízo do trabalho interno. Em suma, creio ser positivo o balanço destes anos, particularmente se considerar que o ADVCT vai consolidando a sua equipa e está aberto e atento a novos reptos que possam surgir.

De referir que, não obstante os períodos de crise vividos, o ADVCT disponibilizou durante estes anos cerca de 1.500.000 imagens online e conta atualmente com 95.586 registos descritivos consultáveis no DigitArq. Refira-se que estes números só foram possíveis por se ter embarcado no projeto de digitalização de livros paroquiais, do registo civil, de passaportes, de testamentos e de processos orfanológicos ao abrigo de um protocolo estabelecido entre a DGLAB e a Family Search. Para os mesmos números também contribui a recente candidatura ao projeto GEOARPAD.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Viana do Castelo tem à sua responsabilidade um vasto e notável património arquivístico, nos mais variados tipos de suporte. Qual a dimensão do mesmo, que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(Maria Clotilde Amaral) O ADVCT tem à sua guarda quase 4 quilómetros de documentação, estando identificados mais de 600 fundos e coleções. Não gosto muito de destacar um ou outro fundo por considerar que todos são importantes para a vida e para a memória dos cidadãos, dependendo obviamente das necessidades de informação de que cada um necessite. Dá-me um gozo particular que os documentos possam ajudar alguém a resolver os seus problemas, ou a suprir as necessidades geradas pela investigação ou simplesmente a satisfazer a curiosidade de quem questiona. Neste sentido, aquilo que poderia eventualmente salientar são os fundos que diariamente colmatam estas necessidades de informação, ou seja, os arquivos paroquiais e do registo civil, os notariais e os judiciais.

No que respeita aos instrumentos de acesso à informação, a maioria dos fundos estão descritos ao nível do catálogo, na sua maior parte informatizados e disponíveis na web. Existem ainda alguns catálogos em papel que podem ser consultados no ADVCT. Os utilizadores podem igualmente contar com índices informatizados da maioria dos processos judiciais. Também a documentação notarial possui índices cronológicos, feitos na origem e em suporte papel, que abarcam a maior parte das escrituras do século XX. Durante a pandemia, deu-se início à indexação e disponibilização online dos registos da Conservatórias do Registo Civil e de algumas paróquias, tendo a opção recaído sobre as mais requisitadas pelos utilizadores.

Há que ter em atenção que alguns registos, embora constantes da base de dados DigitArq, poderão não estar visíveis para o exterior por questões de confidencialidade. Por isso, é sempre aconselhável que se contactem os serviços técnicos do ADVCT para apurar sobre a existência de documentos que não sejam recuperados através da base de dados em linha.

(ARCHIVOZ) A comunicação da informação é crucial em qualquer serviço de informação, para mais considerando o contexto de pandemia que nos encontramos a viver. Pode dizer-nos o que tem sido feito nesse sentido no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, desde que é diretora do mesmo?

(Maria Clotilde Amaral) Em termos de comunicação da informação, o ADVCT tem vindo a apostar na descrição e disponibilização online de imagens dos fundos custodiados. São tarefas geralmente morosas, que implicam alguns procedimentos internos, nomeadamente o controlo de qualidade daquilo que fica disponível (seja das imagens, seja dos registos).

De uma forma geral, procura-se ir ao encontro àquilo que julgamos serem as necessidades dos nossos utilizadores, recorrendo, por um lado, à análise das estatísticas dos documentos requisitados e consultados, e, por outro, ao diálogo com os clientes que se deslocam presencialmente ao Arquivo ou que nos contactam telefonicamente.

A prioridade na colocação de registos e imagens em linha, bem como o nível de profundidade da descrição dependem, pois, da análise daqueles dois instrumentos de gestão. O objetivo é servir a comunidade da forma mais eficiente e eficaz, procurar dar a informação certa no momento certo.

Todavia, há que ter em conta que nem todos os utilizadores que se dirigem ao ADVCT têm o domínio das tecnologias da informação. Nesse sentido, toda a equipa está preparada para fazer atendimento presencial e telefónico de forma a ajudar qualquer pessoa a localizar a informação de que necessita. Desde sempre que os clientes são o foco do ADVCT.

(ARCHIVOZ) Relacionado com a questão anterior, gostaria que nos apresentasse o projeto GEOARPAD – “A memória transfronteiriça nos arquivos do Alto Minho” e a importância que teve para o Arquivo Distrital de Viana do Castelo, mas também para os dez arquivos municipais do Alto Minho, no que respeita à digitalização de documentos e respetiva descrição.

(Maria Clotilde Amaral) O projeto GEOARPAD foi uma oportunidade que surgiu num contexto difícil para o Arquivo Distrital de Viana do Castelo, pois foi na fase em que estavam apenas 3 trabalhadores no ativo, incluindo eu própria. Em novembro de 2015, o ADVCT foi contactado pela CIM Alto Minho e convidado a integrar uma candidatura conjunta a verbas europeias no âmbito do projeto GEOARPAD. Este projeto, enquadrado na 1ª convocação do programa operativo EP – INTERREG V A Espanha Portugal (POCTEP), sendo uma proposta de cooperação dentro da área Galiza-Norte de Portugal, tem como objetivo específico de Proteção e valorização do património cultural e natural, como suporte de base económica da região transfronteiriça, e da proteção, desenvolvimento e promoção dos ativos da cultura e património públicos.

Obviamente que o ADVCT tinha interesse em integrar esta candidatura, designadamente na Atividade 3 – Património documental da Euro-Região: Digitalização e difusão. Aceitou-se, pois, integrar a parceria embora cientes do esforço extra que tal opção iria implicar. Deram-se imediatamente início a reuniões com os arquivistas municipais e com os parceiros espanhóis de arquivos da Galiza para apurar a viabilidade da candidatura. Em conjunto com os 10 Municípios do distrito procurou-se identificar documentação relevante para a memória transfronteiriça à guarda de cada serviço de arquivo. As escolhas foram muito variadas, até porque os níveis de descrição e de digitalização de cada arquivo municipal são distintos. Foram descritos e digitalizados documentos como atas, testamentos, tombos, tratados dos limites entre Portugal e Espanha, mas também arquivos pessoais e de família. O Arquivo Distrital de Viana do Castelo optou pela disponibilização dos livros de notas de diversos tabeliães, sobretudo os mais antigos, nos quais se encontram exaradas muitas escrituras outorgadas por cidadãos do país vizinho. Com este projeto procurou-se preservar e difundir à comunidade nacional e internacional uma fonte de informação incontornável para o estudo das mentalidades e dos comportamentos sociais, da geografia e da toponímia, da história da arte ou da económica, entre outras áreas do saber. Teve ainda como objetivos promover a transparência administrativa e dar a conhecer o rico e vasto património documental à guarda dos Municípios do Alto Minho e do Arquivo Distrital de Viana do Castelo

A candidatura foi aprovada em maio de 2017 e o valor global das verbas atribuídas ao ADVCT foi de 77.324,13 euros.

Em termos de resultados, refira-se a descrição de 14.102 livros de notas de diferentes ofícios de tabelionado pertencentes aos 10 concelhos que compõem o distrito de Viana do Castelo. Descreveram-se os livros de todos os ofícios sedeados na cidade e nas vilas, sede de concelho até ao ano 1900. Alguns deles, até às atuais incorporações. Disponibilizaram-se ainda, via web, de 234.653 imagens (o objetivo da candidatura eram 227.500 imagens). Estas imagens correspondem a 872 livros dos acima enunciados.

Já no que se reporta aos 10 Arquivos Municipais foram colocadas em linha 223.041 imagens.

A solicitação da Junta da Galiza, contribuiu-se também para a realização de um e-book de divulgação do projeto e participou-se em reuniões técnicas que conduziram à elaboração de uma “Metodologia de Planificação e Execução de Projetos de Digitalização para Difusão”.

Por outro lado, em conjunto com a CIM realizaram-se dois webinares de divulgação do projeto e o ADVCT participou num documentário da responsabilidade daquela entidade.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Arquivo Distrital de Viana do Castelo à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?

(Maria Clotilde Amaral) Pelo que atrás expus, de 2010 a 2020, o ADVCT não teve um papel demasiado proactivo na abertura à comunidade, dado que esteve apenas centrado no regular funcionamento dos serviços. Não obstante, apostou na colocação online de registos e imagens de forma a satisfazer as necessidades de informação dos clientes. Também continuou a dar respostas a pedidos visitas de estudo de várias instituições e graus de ensino e organizou algumas pequenas mostras e workshops. Além disso, procurou manter o bom acolhimento e a atenção prestada aos utilizadores, o que sempre foi apanágio deste Serviço. Nesta medida qualquer membro que foi ingressando na equipa foi, desde o primeiro momento, chamado ao contacto e diálogo com o público, independentemente da via escolhida (presencial, telefónica ou por e-mail). Creio que só mediante a perceção das necessidades de quem procura o ADVCT é possível valorizar e tornar útil a informação custodiada. Caso contrário, cairíamos na tentação de ser meros depositários ou guardiães de um tesouro escondido e, consequentemente, inútil.

Em 2020, com a equipa finalmente reforçada e também na sequência das oportunidades geradas pela candidatura ao GEOARPAD atrás relatadas, a tendência finalmente inverteu-se e o ADVCT passou a ter uma atitude mais proactiva no sentido de ir ao encontro da comunidade.

Data deste ano a criação da página do ADVCT no Facebook e também o “reavivar” da página eletrónica do Serviço, que se encontrava um pouco descurada nos últimos anos.

Desde então também tem vindo a colaborar com a Santa Casa da Misericórdia de Viana do Castelo na organização de exposições e outras atividades destinadas à divulgação do acervo daquela entidade, que se encontra depositado no ADVCT.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano e de 2022 no Arquivo Distrital de Viana do Castelo?

(Maria Clotilde Amaral) Como atrás referi, o ADVCT pretende manter a parceria com a CIM Alto Minho e com os arquivos municipais e apostar em atividades de divulgação do património arquivístico do distrito. Os webinares fizeram perceber que a divulgação proactiva, com recurso às novas tecnologias, podia alcançar mais público do que os eventos meramente presenciais. A CIM Alto Minho tem mostrado bastante entusiasmo e interesse na área dos arquivos e tem colaborado e disponibilizado os recursos tecnológicos que faltam ao ADVCT.

Outro projeto que está em mente é o retomar as reuniões do Grupo de Arquivistas do Alto Minho. É essencial a troca de ideias e o diálogo para a resolução ou mesmo antecipação de problemas, sejam eles ou não comuns. Várias cabeças pensam certamente melhor do que uma! Neste âmbito, creio que se deve insistir na preservação digital, algo que me tem vindo a preocupar há já alguns anos.

No que respeita à digitalização e disponibilização online de documentos, o ADVCT irá continuar a investir na digitalização dos registos paroquiais mais antigos, cujos originais estão em muito mau estado de conservação. A maioria destes documentos tem de ser submetida a ações de conservação e pequenas intervenções de restauro antes de se efetuar a captura das imagens, o que leva sempre o seu tempo. Procuraremos igualmente dar continuidade à digitalização dos livros notariais e ao controlo de qualidade das imagens dos inventários orfanológicos provenientes de diversos tribunais. Está também na calha a digitalização dos processos da extinta Direção de Urbanização de Viana do Castelo, caso se consiga que este projeto venha a ser aprovado, pois o equipamento atualmente existente no ADVCT não permite a captura de documentos de grandes dimensões.

Finalmente, e acabadas as obras de conservação e beneficiação do edifício, prevê-se a realização de exposições, algumas delas em parceria com outras entidades com quem vamos mantendo contacto.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde meados de março de 2021, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, de forma a enfrentar esta nova e difícil realidade, no que respeita à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na disseminação da informação?

(Maria Clotilde Amaral) Ao contrário do inicialmente previsto, os períodos de confinamento obrigatório revelaram-se bastante produtivos no ADVCT, graças à excelente interação entre os membros da equipa e à vontade comum de manter o serviço operacional. Foi possível realizar mais trabalho de backoffice que, muitas vezes o atendimento presencial não permite. Neste sentido, durante este período foi possível continuar a executar tarefas de descrição a níveis mais aprofundados, recaindo estas sobre os registos da Conservatória do Registo Civil de Viana do Castelo, cujos registos de nascimento estão praticamente todos indexados, e também sobre os registos de batismo de algumas paróquias muito solicitadas pelos utilizadores. Para o efeito, consultavam-se as imagens já disponíveis através do DigitArq e, num momento inicial, os registos eram lançados em ficheiros Excel, sendo posteriormente migrados para aquela aplicação.

Foi igualmente possível efetuar o controlo de qualidade de imagens de inventários orfanológicos, previamente capturadas pela Family Search, e disponibilizá-las na web.

Felizmente que quando entrou o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, já os arquivos distritais dispunham de um balcão virtual para os pedidos externos, o que facilitou o relacionamento com os clientes, muitos deles já habituados às novas práticas.

Como os telefones foram reencaminhados para o telemóvel de serviço, também continuou a ser possível este tipo de atendimento, sobretudo dirigido para a ajuda na utilização do CRAV (Consulta Real em Ambiente Virtual). Excecionalmente, alguém se deslocava ao ADVCT e, com o apoio de quem permanecia à distância, despachava os pedidos considerados urgentes e inadiáveis.

Fizeram-se reuniões virtuais diariamente, com a presença de todos, pelo que foi possível manter a equipa ao corrente do que se passava no ADVCT e tomar decisões conjuntas para resolver os problemas da forma o mais adequada possível.

Assim sendo, a equipa permaneceu fisicamente em segurança, procurando simultaneamente minimizar, com todas as suas forças, os eventuais constrangimentos causados pela inexistência do atendimento presencial.

(ARCHIVOZ) Por último, gostaria que nos desse a sua opinião sobre o que pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os arquivos distritais se deparam na atualidade.

(Maria Clotilde Amaral) Creio que os grandes desafios dos arquivos distritais são os que decorrem da utilização das novas tecnologias. Se por um lado, tem de haver uma adaptação constante às novas aplicações e reformular os métodos de trabalho que a sua utilização gera, por outro poupa-se imenso trabalho em tarefas rotineiras e obtêm-se resultados de forma mais rápida. Contudo, é preciso redobrar a atenção relativamente às questões da preservação digital, que incluem necessariamente cibersegurança, sob pena de se poder vir a perder a memória destes últimos tempos. E falo não apenas dos arquivos correntes dos arquivos distritais, mas de todos os que poderão vir a ser alvo de incorporação ou de outros tipos de aquisições.

Claro que as tecnologias são uma oportunidade única para se alcançarem novos públicos e mesmo para estabelecer parcerias com entidades de outros países, ou seja, desenvolver atividades até aqui impossíveis devido à distância.

E tocando no ponto das parcerias, parecem-me ser uma excelente oportunidade para levar a bom porto a missão dos arquivos distritais. Nem sempre se dispõe dos recursos necessários para execução dos projetos que se concebem. No meu entender, a partilha de conhecimentos e de recursos gera riqueza de produtos, o que se tem vindo a provar ao longo da vida do ADVCT se atendermos à rede de Arquivos do distrito e mais recentemente com o desenvolvimento do projeto GEOARPAD.

A meu ver, a aposta tem de ser cada vez mais forte no trabalho colaborativo, seja ele interno ou externo. As áreas do saber são imensas e não nos podemos especializar em todas. Há que ter a humildade de reconhecer que não somos detentores de todo o conhecimento e saber recorrer a outros sempre que necessário. Ao mesmo tempo devemos saber partilhar a informação que possuímos, sempre que nos é solicitada, não apenas pelos utilizadores, mas por outros colegas e instituições congéneres e não só. A construção de pontes com outras entidades e o alimento e manutenção destas relações só beneficiam o bem público e contribuem para aumentar a qualidade do serviço que procuramos prestar.

Ainda no que se reporta a oportunidades de desenvolvimento para os arquivos distritais, tendo por base a experiência do GEOARPAD, julgo que as candidaturas a projetos cofinanciados são uma ferramenta a não descurar.

Na verdade, é um constante desafio o facto de os arquivos distritais viverem habitualmente com uma escassez de recursos humanos, materiais e equipamentos, se se tiver em conta aquilo que qualquer um almejaria deter para poder desenvolver projetos para além da regular manutenção dos seus serviços. Há, pois que estar atentos às oportunidades que possam surgir e ser criativos nas soluções apresentadas.

Imagem cedida pelo entrevistado: Fachada (fotografia: Susana Branco – Arquivo Distrital de Viana do Castelo).


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“os projetos expositivos desenvolvidos procuram ir ao encontro das preocupações contemporâneas das comunidades.”: Entrevista com David Felismino

Entrevistámos David Felismino, Diretor-adjunto do Museu de Lisboa (EGEAC).

(ARCHIVOZ) Não poderia deixar de começar por destacar o seu notável percurso como investigador e curador. Fale-nos um pouco do seu trajeto formativo e profissional, até chegar às funções que desempenha atualmente, como Diretor-adjunto do Museu de Lisboa, bem como os seus principais domínios científicos e interesses nesta área.

(David Felismino) Sou historiador de formação e iniciei o meu percurso profissional, em 2002, como investigador júnior associado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, dedicado a vários projetos que articulam a história social das elites com a história do antigo império português, e essas temáticas com a história institucional da monarquia portuguesa e com a história política da mesma. Todavia a partir de 2004, cada vez mais atento à cultura material e como os objetos têm um sentido histórico e documental, possibilitando novas leituras sobre as sociedades, o meu percurso orientou-se, naturalmente, para o mundo dos museus e das coleções, em particular, do património científico e técnico. De 2004 a 2009, trabalhei na Casa Fronteira e Alorna e no Museu Geológico de Lisboa. De 2009 a 2016, fui curador no Museu de História Natural e da Ciência, tendo-me dedicado à preservação e estudo de coleções associadas à prática e ao ensino das ciências em Lisboa entre os séculos XVI e XIX, nomeadamente da botânica, da física e da medicina. Em 2016, abracei o projeto do Museu da Saúde, tendo sido responsável pelo desenho do projeto museológico deste último. Desde 2020, sou Diretor-adjunto do Museu de Lisboa (EGEAC) e membro da atual direção da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM.

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Diretor-adjunto do Museu de Lisboa desde janeiro 2020. Que balanço faz do exercício deste cargo?

(DF) Integrei a equipa do Museu de Lisboa num momento muito peculiar, coincidente com o início da pandemia de Covid-19, o primeiro confinamento total em Portugal (março a maio 2020), o fecho do Museu e a obrigatoriedade do teletrabalho da equipa, o que veio aumentar ainda mais os desafios. Todavia, o balanço é positivo, tendo a direção do Museu, composta por Joana Sousa Monteiro e por mim, conseguido adaptar-se a esta nova realidade, no que diz respeito à programação expositiva, educativa e cultural, nomeadamente na esfera digital, à necessidade de captação e fidelização de novos públicos face à redução abrupta do turismo em Lisboa, bem como à criação de novas estratégias de gestão, organização e motivação da equipa, quer do ponto de vista organizacional, quer do ponto de vista humano.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o Museu de Lisboa, no que respeita aos núcleos que o compõem, à sua história, vocação e missão, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o seu melhor conhecimento.

(DF) O Museu de Lisboa é um museu de cidade polinucleado, formado por cinco espaços onde se pode descobrir Lisboa e as suas histórias em diferentes épocas. Com valências e objetivos complementares, são estes: o Palácio Pimenta – núcleo sede do Museu –, o Teatro Romano, o Santo António, o Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e o Torreão Poente da Praça do Comércio. Partilham uma identidade e uma missão: revelar Lisboa de diferentes formas, para dar a conhecer a riqueza de uma das cidades mais antigas da Europa. As Galerias Romanas da Rua da Prata também são geridas pelo Museu de Lisboa. Localizadas no subsolo da Baixa Pombalina, abrem habitualmente ao público duas vezes por ano.

A estrutura polinucleada e a designação de Museu de Lisboa surgiram em 2015, no âmbito da reformulação do antigo Museu da Cidade e da reorganização das próprias estruturas de gestão dos museus municipais de Lisboa, iniciada em 2010. Nessa altura, definiu-se a associação de vários espaços museológicos pré-existentes, atentos à sua vocação abrangente e à complementaridade dos patrimónios, móveis e imóveis, associados a cada núcleo. A mudança de nome preconizou um novo conceito. Se antes existia um museu de história, o museu passou a afirmar-se como sendo de cidade, ou seja, com maiores responsabilidades na representação do contexto geográfico, social, político e mental da cidade. Não se trata apenas da história da cidade, mas também do presente, dando pistas para o futuro. Em simultâneo, iniciou-se um profundo processo de renovação destes espaços museológicos.

O Museu da Cidade, constituído formalmente em 1909, estava instalado, desde 1979, no Palácio Pimenta, uma quinta de veraneio setecentista, adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa em 1962 para o efeito. Em 2021, depois de um período de quatro anos de renovação, reabriu a primeira parte da sua exposição de longa duração, Viagem ao Interior da Cidade. Esta exposição, apesar do espaço exíguo disponível nas pequenas salas do Palácio Pimenta, conta momentos da longa e fascinante história de Lisboa, desde a pré-história até perto dos nossos dias, assumindo que se trata de destaques da história da cidade, organizados de forma cronológica, desvendando diferentes etapas do desenvolvimento urbano e da ocupação do território, complementados por aspetos da vida quotidiana, importantes marcos arquitetónicos e testemunhos patrimoniais diversos. Em 2014, o Museu Antoniano (inaugurado em 1962) deu lugar ao Museu de Santo António, entretanto reprogramado e totalmente transformado, reabrindo ao público numa versão ampliada e modernizada. Em 2015, o Museu do Teatro Romano (aberto desde 2001), reabriu com uma exposição renovada, com alargamento das coleções expostas e novas soluções museográficas, para além da melhoria considerável das acessibilidades físicas. Também o sítio arqueológico foi objeto de valorização em termos da sua conservação e da abordagem ao público. Adicionalmente, entre 2013 e 2014, decorreram investimentos em outros dois espaços, que por razões diferentes se tornaram no quarto e no quinto núcleos do Museu de Lisboa: o Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e o Torreão Poente da Praça do Comércio. Localizado no piso térreo do edifício atualmente cedido à Fundação Saramago, o Núcleo Arqueológico, embora de pequena dimensão, apresenta elementos de particular relevância para os períodos romano e moderno da história de Lisboa. Por fim, o Torreão Poente da Praça do Comércio, cujos espaços tinham ficado devolutos após a saída dos serviços do Exército que lá estiveram instalados nas últimas décadas. Este espaço foi utilizado como área de exposições temporárias entre 2013 e 2020, quando fechou, durante um prazo sensivelmente de dois anos, para obras de renovação e adaptação.

(ARCHIVOZ) O Museu de Lisboa tem à sua responsabilidade um notável acervo. Quais são as principais coleções que integra e os instrumentos de acesso à informação, com vista à comunicação dos mesmos? O que o distingue dos outros museus?

(DF) O Museu de Lisboa possui um acervo variado, heterogéneo e de apreciável dimensão, composto por cerca de 100.000 peças, organizado em perto de 50 coleções de distintas tipologias, em permanente atualização por via de incorporações regulares, por doação ou aquisição. É um acervo de referência para a história de Lisboa, que documenta as transformações urbanísticas e as muitas formas como diferentes olhares captaram a essência da cidade e os múltiplos aspetos da sua vivência.

De particular importância são os núcleos associados ao Terramoto de 1755, ao estatuto de Lisboa como cidade produtora de azulejaria barroca a nível mundial, ou às grandes transformações da cidade registadas entre os séculos XIX e XX. Assim, podemos destacar, entre muitas, três importantes coleções: os azulejos, as maquetas e a arqueologia, esta última fundadora do Museu.

O Museu detém a segunda mais importante coleção de azulejaria do país. Resulta, sobretudo, das alterações ao património edificado da cidade verificadas no século XX, e ilustra a importância de Lisboa como principal centro produtor de azulejaria da história de Portugal. A coleção percorre praticamente todos os períodos históricos, da azulejaria mudéjar de finais da Idade Média até aos revestimentos contemporâneos das últimas décadas.

Nas coleções do Museu de Lisboa, as maquetas são em número reduzido, mas representam um núcleo essencial para a história da cidade e do próprio museu. Para além da grande maqueta de Lisboa anterior ao terramoto de 1755, concebida pelo olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962), o museu integra reconstituições de emblemáticos edifícios de Lisboa (antigo Convento do Carmo, igreja de Santo António, ou Teatro Romano), uma maqueta inacabada da Baixa Pombalina – executada pelo bombeiro Luís Caetano de Carvalho (1863-1933) – e o núcleo de maquetas da Expo ’98.

O Museu de Lisboa integra ainda as coleções arqueológicas do Teatro Romano e da Casa dos Bicos, com testemunhos que recuam até à proto-História (séc. VI a.C.), além de parte das coleções do antigo Hospital Real de Todos-os-Santos (1504-1775), entre outras intervenções um pouco por toda a cidade. A nova exposição de longa duração do Museu de Lisboa, Viagem ao Interior da Cidade, ilustra a riqueza arqueológica de uma cidade que se construiu sobre outras cidades anteriores e o dinamismo próprio da arqueologia urbana em Lisboa.

Para além disso, inclui o mais rico acervo dedicado ao santo lisboeta de maior dimensão mundial e devoção popular: Santo António.

A coleção encontra-se inventariada no sistema de gestão de património cultural InPatrimonium da Sistemas do Futuro, obedecendo aos mais atualizados padrões internacionais de documentação e gestão de coleções. Nos últimos anos, o Serviço de Investigação e Inventário tem feito um trabalho colossal de revisão e aumento dos conteúdos do inventário do acervo. À data, cerca de 50% da coleção encontra-se devidamente estudada e inventariada. Perto de 7000 objetos encontram-se disponíveis para consulta do público, no módulo web do InPatrimonium, acessível a todos a partir do site do Museu. À margem do inventário, de destacar ainda a edição de catálogos e de monografias sobre coleções específicas do Museu, entre os quais, Testemunhos da Escravatura. A Memória Africana no Museu de Lisboa (de investigadores do Museu, 2017), O Couro Lavrado no Museu de Lisboa (de Luis Guerra e Franklin Pereira, 2018), Devoção e Fé – Registos em Azulejo na Cidade de Lisboa (Margarida Almeida Bastos e Fernando Peixoto Lopes, 2019).

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Museu de Lisboa à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?

(DF) Na área da mediação cultural, têm sido envidados esforços de atualização e intensificação de atividades, não só no sentido do aumento da oferta de eventos, mas antes com foco na relevância de conteúdos e de formatos, diversificando abordagens a diferentes públicos e privilegiando projetos de proximidade e continuidade com parceiros locais: associações, agrupamentos específicos de escolas, juntas de freguesia, entre muitos. De destacar, por exemplo, o projeto de reconstituição teatral, em parceria com o grupo de teatro “Nós por Todos”, com utentes da APPACDM que já leva quatro anos, ou ainda os projetos “Lisboa Revela-se”, desenvolvido em estreita colaboração entre o Serviço Educativo do Museu e a fisioterapeuta Graça Lucena, que associa a recuperação do parto à experiência patrimonial e cultural, e o  projeto “Marcar o Lugar”, desenvolvido com a Associação Alzheimer Portugal, que, tendo por base os acervos museológicos e os temas abordados nas exposições, pretende  reativar memórias através da construção de narrativas individuais e coletivas.

Outra forma de abertura à comunidade tem sido os projetos expositivos desenvolvidos, que procuram ir ao encontro das preocupações contemporâneas das comunidades com o intuito de intensificar os laços de pertença e de empatia entre os habitantes da cidade, o território urbano e o Museu. Nestes projetos, estão ainda presentes preocupações de relação interativa e de cocriação. Abrimos caminhos a tópicos tais como as migrações, a sustentabilidade, as hortas urbanas e a alimentação, de entre uma pluralidade de temas.  Destacam-se as exposições Convivência(s). Lisboa Plural (2019) que revelou o papel das minorias religiosas e dos residentes estrangeiros na construção da imagem de Lisboa, entre a Idade Média e a 1.ª República, e Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI (2020) que a partir dos desafios da soberania, segurança e sustentabilidade alimentar das cidades, perspetiva o futuro através das mais recentes técnicas à nossa disposição para construir e manter uma horta urbana, resiliente e sustentável. A construção desta exposição assentou ainda numa extensa pesquisa etnográfica que revela a diversidade atual de hortelãos da cidade, revelando ainda sentidos de pertença, práticas, narrativas e redes de entreajuda que refletem diferentes origens e percursos migratórios e sublinham a multiculturalidade secular de Lisboa

Finalmente, têm-se intensificado os percursos orientados e temáticos pela cidade para ajudar a compreender como esta foi construída e vivida, revelando novos territórios e novos aspetos do património arquitetónico, artístico e urbanístico das múltiplas “cidades” que habitam Lisboa, bem como abordando temas, tradicionalmente “invisíveis”, como a presença dos escravos, das comunidades judaicas e LGBTI na cidade, entre outros, procurando sublinhar o multiculturalismo e multiconfessionalismo que sempre caracterizaram as populações lisboetas.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Diretor-adjunto do Museu de Lisboa, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o impacto desta conjuntura tão adversa?

(DF) Além de todos os aspetos relacionados com o rigoroso cumprimento das regras sanitárias vigentes, em acordo com a legislação nacional em vigor, com consequências na gestão das equipas, na organização do trabalho, na disponibilização do património, seja em exposições, seja em atividades de mediação, na participação do público, o principal desafio tem sido a transição, eficaz e eficiente, para o digital.

O primeiro confinamento, com o fecho abrupto e inesperado do Museu e o consequente desaparecimento da dimensão física e presencial, compeliu-nos a transformar, súbito e radicalmente, a nossa atividade, adaptando-a para o mundo digital. O Museu de Lisboa apostou em visitas guiadas, palestras, minidocumentários, atividades educativas e jogos que disponibilizou diariamente através das suas redes sociais – Facebook, Instagram e canal de YouTube. Com este objetivo, todas as equipas do Museu foram mobilizadas (comunicação, historiadores, arqueólogos e outros investigadores, responsáveis pelo inventário e pela gestão de coleções, técnicos de conservação, técnicos de serviço educativo, entre outros) para a criação de uma programação online e sua comunicação com os públicos através das redes sociais, continuando a potenciar conhecimento sobre Lisboa e empatia com a mesma. Foi possível observar como as funções de investigação, curadoria e mediação cultural foram ressignificadas pelo digital, entrelaçando-se entre si.

Passado este momento de emergência, que se repetiu com o segundo confinamento, entre janeiro e abril 2021, o Museu assumiu, definitivamente, esta nova forma de comunicação e mediação. Não se trata apenas de ter uma página na web, de interagir com públicos nas redes sociais, ou de usar dispositivos tecnológicos nas exposições. Trata-se antes de pensar sobre como proporcionar e ativar experiências, com tecnologias digitais, que estejam incorporadas à rotina das pessoas, sendo por elas percebidas como relevantes. Trata-se de estimular novas formas de participação e de interlocução, de conseguir incorporar atores sociais diversos, com diversas vivências e realidades.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta a notável dinâmica que carateriza o Museu de Lisboa, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para 2022?

(DF) O planeamento das exposições e das atividades em 2022 parte do pressuposto de que a pandemia de COVID-19 já terá dado lugar ao retorno a uma vivência mais próxima dos padrões anteriores, sendo, no entanto, ainda conservadora em termos quantitativos. Estão planeadas várias novas exposições, entre as quais, uma dedicada aos lazeres em Lisboa (cinema, teatro, clubs, desporto, entre muitos) durante os Loucos Anos 20. Iremos ainda assinalar o bicentenário da morte do escultor setecentista Joaquim Machado de Castro. Estão ainda pensadas novas exposições temporárias no Santo António e no Teatro Romano, com o objetivo de dar a conhecer património pouco conhecido, associado a estes núcleos. Outro objetivo será intensificar a diversificação de conteúdos e de formatos das atividades educativas e culturais, bem como a intensificação dos projetos proximidade e continuidade com parceiros locais.

(ARCHIVOZ) Para terminar, quais é que pensa que são os grandes desafios que os museus portugueses, e os respetivos profissionais, têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(DF) Cada momento enfrenta o seu desafio e o contexto atual exige dos museus particular ambição e arrojo, convidando a pensar o futuro dos museus e o seu papel nas nossas sociedades. Creio que são quatro os principais grandes desafios, transversais a diferentes realidades, universais na sua atualidade: a transformação digital, a sustentabilidade, o ambiente e a implementação de novos modelos de gestão. Os últimos meses marcaram tudo e todos de forma indelével e mudanças que se insinuavam antes da pandemia, afirmaram-se definitivamente, designadamente o recurso a ferramentas digitais e a implementação de modelos de gestão mais bem preparados para lidar com situações inesperadas. Regressar à fruição individual, passiva, característica do museu oitocentista, requalificada através de uma versão tecnologicamente atualizada, mas ainda mais individual, não será a solução. Simultaneamente, estes mesmos desenvolvimentos propiciam o avolumar das desigualdades e exigem que sejam pensadas e implementadas estratégias para salvaguardar a herança cultural e natural. Enquanto motores de mudança, os museus devem ainda contribuir para promover o intercâmbio cultural, criando pontes e laços entre os povos. A sua capacidade de enfrentar desafios e servir a sociedade terá necessariamente de assentar no reforço de estratégias de interligação com as comunidades em que estão inseridos e na aposta de pertença a redes de dimensão e geografia variáveis.

Imagem cedida pelo entrevistado: Grande Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 – Museu de Lisboa – Exposição de longa duração Viagem ao Interior da Cidade (fotografia: José Avelar – Museu de Lisboa)


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Os arquivos são os guardiães da memória, dos direitos dos cidadãos e geradoras de conhecimento.”: Entrevista com Élia Correia

Entrevistámos Élia Correia, Diretora do Arquivo Distrital de Bragança.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu trajeto profissional, académico e formativo até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Bragança, em 2014.

(Élia Correia) Toda a minha vida profissional tem sido dedicada na área dos Arquivos. Após conclusão do secundário, inscrevi-me nos tempos livres (Ocupação Temporária de Jovens/OTJ), tendo sido colocada no Arquivo Distrital de Bragança, entidade que até então desconhecia. Foi com o saudoso Cónego Dr. Belarmino Afonso e, que aqui aproveito para o homenagear, diretor à época, que dedicou toda a sua vida na recolha e preservação da memória desta região, que aprendi a gostar da área arquivística e a desenvolver um trabalho com espírito de missão e empenho.

Entrei para o Arquivo Distrital de Bragança como Técnica Profissional de BAD, depois Técnica Superior e, desde 2014 que assumi a direção.

Fiz todo o percurso académico sempre como trabalhadora-estudante, em Coimbra, obtive o Curso de Técnico Profissional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD), a Licenciatura na Universidade Aberta, na área de História e a Pós-graduação em Ciências Documentais – área de arquivo, no Instituto Superior de Línguas e Administração, em Bragança. Formadora. Formação em Gestão Pública (FORGEP).

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Diretora do Arquivo Distrital de Bragança desde 2014. Que balanço é que faz do exercício deste cargo?

(EC) O Arquivo Distrital de Bragança é um arquivo de âmbito regional, com natureza de Serviço dependente da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), serviço central da administração direta do Estado – integrado no Ministério da Cultura, nos termos do Decreto-lei n.º 103/2012 de 16 de maio e Portaria n.º 192/2012, de 19 de junho, tendo sido criado em 1916, pelo decreto n.º 2858, de 29 de novembro.

Nasceu da conjuntura do 1º quartel do século XX, indiferença ou política cultural duvidosa, esteve fechado no antigo Paço Episcopal de Bragança, entre 1935 e 1985. Os 50 anos de inatividade do Arquivo Distrital de Bragança, deram origem à desagregação de muitos fundos, pois, desarticular um arquivo se não é destruí-lo fisicamente, é-o intelectualmente e, foi necessário fazer a reconstituição da sua estrutura original.

Ao longos destes anos, tem-se vindo a organizar, descrever e disponibilizar de forma massiva, a documentação custodiada. Foram disponibilizados mais de 80 000 registos/descrições arquivísticas de documentos, e mais de 250 000 imagens/representações digitais dos mesmos.

Ao abrigo de um protocolo assinado em 2016, entre a Direção Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e a Diocese de Bragança-Miranda, os registos paroquiais da Diocese de Bragança-Miranda, encontram-se à guarda do Arquivo Distrital de Bragança, tendo sido também, da sua responsabilidade, a disponibilização da descrição e das representações digitais online.

Acresce ainda, a prestação de serviços de consulta presencial, informação, reprodução simples e/ou certificada.  A implementação e uniformização de procedimentos, desde 2018 – Balcão eletrónico – CRAV (Consulta Real em Ambiente Virtual) – contribuiu para a simplificação e eficácia na prestação dos serviços ao utilizador, resultando num aumento exponencial de solicitações de certificação de documentos para fins probatórios e obtenção de dupla nacionalidade, nomeadamente, do Brasil, devido à grande emigração deste território, nos finais do século XIX e início do século XX.

Foram asseguradas as incorporações previstas, nos termos da lei, e promoção de outras aquisições de património arquivístico de interesse.

O trabalho desenvolvido resulta do esforço de toda a equipa, pequena, mas coesa, que sempre demonstrou atitude pessoal, competência, responsabilidade e compromisso com o serviço público. Por tudo isto, o balanço é bastante positivo.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Bragança tem à sua responsabilidade um vasto e notável património arquivístico, nos mais variados tipos de suporte. Qual a dimensão do mesmo, que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa?

(EC) O Arquivo Distrital de Bragança possui 512 fundos, entre Arquivos Públicos e Privados, constituído por 7 Km de documentação. Conserva e preserva um vasto e diversificado conjunto de fundos documentais. As datas extremas vão do século X ao século XX, embora a maioria da documentação seja posterior ao século XVIII. De realçar, o espólio bibliográfico, constituído por 4.000 volumes, encadernados em couro e gravados a ouro, dos séculos XVI a XVIII. Um valiosíssimo conjunto documental, constituído por cerca de 400 pergaminhos, referentes aos tempos medievais e alvorecer da modernidade deste distrito, que cronologicamente se situam entre o séc. X e XVI. Estes pergaminhos são de diversas proveniências, entre elas: Documentação régia; monástica; pontifícia; concelhia, etc.

A documentação mais consultada são os registos paroquiais (batismos, casamentos e óbitos). Constituem um dos conjuntos documentais mais frequentemente utilizados pelos investigadores dos arquivos distritais. A riqueza de informação que encerram torna-os preciosas fontes de informação nas mais diversas áreas do saber: genealogia, investigação demográfica, demografia histórica, antropologia das sociedades, estudo dos comportamentos e da vida quotidiana. De valor patrimonial histórico inesgotável, têm ainda caráter administrativo de grande importância, nomeadamente, por facultarem o esclarecimento de dúvidas que podem envolver questões de justiça e fins de cidadania.

Os fundos notariais e judiciais, documentação bastante consultada, não só para fins de investigação, mas também, para fins de registo de propriedades e judiciais.

É difícil destacar a importância de um determinado fundo documental em detrimento de outro, porque todos eles têm a sua importância, porém, correndo o risco de alguma “injustiça”, destaco o Arquivo de Família “Casa São Payo”. É constituído por documentação acumulada por esta família aristocrática ao longo de 18 gerações. Documentos pessoais dos vários membros da família e de diversas famílias, diplomas, certidões paroquiais, cartas de nomeação em diferentes cargos, documentação epistolar para a história social do quotidiano, relação dos monarcas com os seus donatários, coleção de pergaminhos, comendas, livros de inventários de Cartório e forais. O Arquivo Casa São Payo reúne um conjunto de especificidades que o revestem de muito interesse. Desde logo a sua dimensão (44,50 m.l.,) e coerência. A amplitude da informação nele contida, séc. X – XX, abrangendo diversas personalidades, famílias e regiões do país, que extravasam em muito a espinha dorsal da família São Payo e a região de Trás-os-Montes de onde esta família era proveniente.

O Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC) dispõe de um repositório próprio, através do qual são pesquisáveis mais de 350 000 registos/descrições arquivísticas de documentos, e mais de 600 000 imagens/representações digitais. Através da plataforma – DigitArq é possível aceder à descrição da documentação existente no Arquivo Distrital de Bragança, navegar e descarregar, gratuitamente. Este software tem, como objetivo, a simplificação e otimização do trabalho num Arquivo histórico (definitivo), enquadrado com a visão orientadora de um Governo Eletrónico e de uma Sociedade da Informação, onde, cada vez mais, as atividades e os processos de negócio dos organismos públicos são suportados por mecanismos eletrónicos, que agilizam e asseguram um serviço mais rápido, completo e transparente para o cidadão, em suma, com eficácia e eficiência.

O serviço de leitura, anteriormente presencial, ganhou uma extensão considerável – o ambiente web – CRAV (Consulta Real em ambiente virtual), a partir do qual é possível a prestação de serviços ao utilizador e a consulta através de representações digitais.

De realçar que a documentação relativa aos registos de passaporte, entre 1844 e 1927, encontra-se catalogada, disponível online, permitindo ao leitor/utilizador efetuar pesquisas pelo nome/sobrenome, naturalidade/residência, profissão, estado civil, e idade. Possibilita, ainda, a consulta e o download gratuito dos livros de registos de passaporte digitais, entre 1844 e 1969.

Dispõe ainda, de inventários e catálogos que podem ser consultados de forma presencial, na sala de referência do Arquivo Distrital de Bragança e remotamente

(ARCHIVOZ) A comunicação da informação é crucial em qualquer serviço de informação, para mais considerando o contexto de pandemia que ainda nos encontramos a viver. Pode dizer-nos o que tem sido feito nesse sentido no Arquivo Distrital de Bragança, desde que é diretora do mesmo?

(EC) É no quadro da divulgação do património arquivístico detido, principalmente, ao nível da acessibilidade dos cidadãos ao mesmo, que as maiores transformações se verificaram nos últimos tempos. Os novos recursos tecnológicos à disposição do Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), com sistemas de informação especializados que facilitam o acesso à informação, a tecnologia Web, a tecnologia digital e a combinação destes fatores tecnológicos, permitem valorizar, significativamente, o património arquivístico detido e torná-lo cada vez mais acessível ao cidadão. O Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), pela utilização das referidas tecnologias que são, hoje, ferramentas essenciais do nosso trabalho, deixou de ser, exclusivamente, um arquivo público regional e passou a ser, de facto, um Arquivo que detém e divulga património arquivístico, não só junto das comunidades locais, mas, também, e de forma crescente, junto do cidadão nacional e internacional, onde quer que se encontre. O sítio na internet do Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), assegura ao cidadão o fácil e cómodo acesso a um volume significativo de informação institucional, relativa ao funcionamento, às funções do serviço, às atividades em curso, e, ainda, aos instrumentos de recuperação da informação desenvolvidos, sem necessidade de utilizar outros meios de comunicação.

O Arquivo Distrital de Bragança tem a função de recolher, custodiar, preservar e organizar fundos documentais, para poder fornecer informações ao utilizador. No entanto, para além dessa competência que justifica e alimenta a sua criação e desenvolvimento, cumpre-lhe ainda uma atividade – a difusão cultural – que, embora sendo secundária, é aquela que melhor pode demonstrar os seus contornos sociais, trazendo-lhe a necessária dimensão cultural que reforça e mantém o seu objetivo primeiro. No âmbito desta dinamização e a título demonstrativo, cito os eventos mais representativos Comemorações do Centenário do Arquivo Distrital de Bragança; Seminário – Fronteiras do Preconceito”; II Seminário Internacional “Que Direitos Fundamentais para o Século XXI?”; Ciclo de Conferências – Novos Desafios à União Europeia, com a presença do Senhor Professor Doutor Adriano Moreira.(2018); Dia Internacional dos Arquivos “Governança, Memória e Herança” – vídeo disponível na página WEB.; Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja – Comunicação D. José Cordeiro Bispo da Diocese de Bragança-Miranda; Mostra Documental ” A Génese da Memória”; Da Paisagem aos Cenários Urbanos – Evento online; “O OLHAR INCLUSIVO” “

O Arquivo Distrital de Bragança tem vindo a adotar uma atitude de diálogo constante com a comunidade em geral para a salvaguarda e conservação do património documental, de forma que a administração desenvolva e cumpra a sua missão com celeridade e de excelência, tendo presente os direitos e deveres dos cidadãos na sua urbanidade.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Arquivo Distrital de Bragança à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?

(EC) O Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC) não é mais que a memória parcial e fragmentária, da vida de homens e mulheres, que queremos cada vez menos parcial, transformando-se num espaço público de liberdade, onde cada cidadão do mais humilde ao mais destacado, tem ali o seu nome inscrito, não para ser esquecido, mas para ser perpetuado e a sua história contada, pela memória vivaz.

Através da disponibilização de conteúdos em ambiente WEB, da realização de iniciativas, presenciais e online, temos vindo a promover a divulgação do património arquivístico do distrito de Bragança, contribuindo para uma maior visibilidade do Arquivo.

Por outro lado, é de realçar ainda, o contributo de estágios realizados pelos alunos do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), em que a pandemia nos obrigou adaptar o regulamento dos mesmos para o regime tele-estágio, de forma a sensibilizar e suscitar interesse na comunidade académica para a investigação e, em simultâneo, promover e divulgar o património arquivístico da região.

Os Arquivos são os guardiões da memória, dos direitos dos cidadãos e geradores de conhecimento. O Arquivo Distrital de Bragança é um lugar cultural por excelência, sendo também, um elemento único de identidade histórica e geocultural.  Pelo espaço onde se insere, pelos tesouros que guarda é em si próprio um documento e um monumento. Como instituição, como espaço físico e como edifício é uma marca viva do passado e um dos mais significativos e simbólicos monumentos da comunidade.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano e de 2022 no Arquivo Distrital de Bragança?

(EC) De acordo com os objetivos definidos para este Arquivo e em alinhamento com a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), vamos dar continuação à disponibilização de representações digitais/imagens e à disponibilização de registos descritivos, online, contribuindo para a divulgação e acesso ao património arquivístico desta região, facilitando, também, uma maior aproximação ao cidadão.

Alargar as parcerias de cooperação com as entidades do distrito, nomeadamente, na promoção, salvaguarda e difusão do património arquivístico de outros arquivos.

Através da Rede de Arquivos do distrito de Bragança (RAD-BGC), criada recentemente, o nosso grande objetivo, numa primeira fase, é a valorização dos arquivos deste distrito, como sistemas de informação essenciais às organizações. Promover a preservação, gestão e divulgação do património arquivístico regional, através da criação de projetos com qualidade técnico-científica no âmbito da arquivística, refletindo boas práticas, normalização e capacidade de concretização.

Para além das atividades correntes e que visam dar cumprimento às atribuições legais acometidas ao Serviço e aquelas que constituem atividades de suporte e ou administrativa, daremos prioridade à disponibilização massiva de objetos digitais e de descrições em ambiente web.

Beneficiando das vantagens das novas tecnologias da informação e da rede de internet, queremos chegar mais longe, divulgar as nossas atividades e serviços, numa interação com o utilizador, na melhoria continua da qualidade e promovendo as riquezas do património arquivístico.

(ARCHIVOZ)  Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde meados de março de 2021, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Bragança, de forma a fazer face a esta nova realidade, no que diz respeito à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na disseminação da informação?

(EC) O período de pandemia não foi fácil, contudo, trouxe-nos uma aprendizagem de novos desafios e também, a necessidade de procedermos à reorganização e readaptação dos postos trabalhos, em regime de teletrabalho, de forma a assegurar a prestação dos serviços solicitados, nomeadamente, a certificação de documentos, em suporte papel e/ou digital.

De acordo com o plano de contingência da Direção Geral do Livro dos Arquivos e das Bibliotecas/Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC) e as orientações da DGS, para além do cumprimento do plano, o atendimento do publico durante o confinamento foi sempre formalizado a partir do Balcão Virtual – CRAV, disponível em Digitarq em uso neste Arquivo, desde 2018.

Os trabalhos de descrição e disponibilização de objetos digitais realizados presencialmente nas instalações do Arquivo Distrital de Bragança (ADBGC), durante a pandemia continuaram a ser desenvolvidos, mas em regime de teletrabalho.

O teletrabalho incidiu, nomeadamente, na descrição de documentos ao nível do documento simples, de registos de passaporte, sendo que os objetos digitais já se encontram disponíveis online.

As atividades, tais como, recolha do correio e a realização de reproduções/digitalizações, de acordo com uma escala de serviço e cumpridas todas as normas de segurança, foi assegurada a prestação dos serviços mais urgentes.

A pandemia veio alterar o modo de realização de eventos,  contudo, não foi impeditiva, pois, continuamos a realizar atividades culturais online, através da pág. WEB do Arquivo do Facebook da Associação Amigos do Arquivo, disponibilizando vídeos e mostras documentais.

(ARCHIVOZ) Por último, gostaria que nos desse a sua opinião sobre o que pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os profissionais da informação e os serviços de informação arquivística se deparam na atualidade.

(EC) As tecnologias e a crescente utilização representam oportunidades e desafios. Oportunidades, porque através de um simples click, permitem chegar mais longe, em qualquer parte do mundo e promovem o acesso à informação e à utilização da mesma, tornando os arquivos acessíveis ao cidadão.

Os desafios colocam-se perante as próprias oportunidades. É necessário reforçar os Arquivos de um maior investimento tecnológico e mais recursos humanos adequados, para a salvaguarda de uma memória para os conteúdos nado-digitais. Estes documentos são a nova realidade, com caraterísticas diferentes das dos documentos em suporte papel e o maior desafio é o da preservação da informação digital mantendo as suas propriedades intrínsecas. Afinal, a memória coletiva é o nosso bem precioso, universal.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“No projeto VINCULUM a interdisciplinaridade entre a História e Arquivística / Ciência da Informação é fortíssima.”: Entrevista com Maria de Lurdes Rosa

Entrevistámos Maria de Lurdes Rosa, Professora Auxiliar com Agregação do Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, e Diretora do respetivo Instituto de Estudos Medievais (NOVA. FCSH; IEM-NOVA. FCSH; CEHR-UCP).

(ARCHIVOZ) Considerando o seu extraordinário percurso científico, como historiadora, tem estado, de há muitos anos para cá, bastante próxima do mundo dos arquivos. Pode dar-nos conta como é que foi o seu primeiro contacto com esta realidade, como se veio a refletir no percurso profissional que desenvolveu e a experiência que guarda como arquivista do Arquivo Português de Santo António, em Roma, entre 1990 e 1991?

(Maria de Lurdes Rosa) Precisarei de fazer um pouco de “ego-história”, mas que ganha interesse adicional por ser também a história de uma geração e de um movimento de renovação e arranque nos arquivos portugueses, penso eu. Procurarei que seja crítica!

A licenciatura em História, concluída em 1987, na Faculdade de Letras da U. de Lisboa, possibilitou-me, através de uma avaliação que valorizava muito o trabalho de investigação em “fontes históricas”, um contacto aprofundado com os arquivos, enquanto utilizadora. A  autonomia em que os docentes deixavam os alunos e, sobretudo, a ausência de explicação sobre o que eram os arquivos- que só  não chega a ser paradoxal, porque na altura os historiadores não achavam que fosse preciso explicar tal – , conduziu a que esse contacto fosse feito largamente “in situ”, com explicações dos funcionários da sala de referência e dos arquivistas da Sala de Leitura da Torre do Tombo, um universo de “profissionais”  a que os académicos, de resto, quase não reconheciam existência (incentivando os alunos a procurarem as informações na bibliografia histórica) e, muito menos,  autoridade. Também do lado dos arquivistas, verdade seja dita, nos anos ’80 estávamos a anos-luz de uma qualquer cultura institucional de relacionamento com os “leitores”, pelo que os jovens investigadores que, como eu, viam na ida ao arquivo o momento alto da sua visão romântica da História, acabavam por depender dos laços pessoais que iam criando. E quem vinha ser um frequentador assíduo, incluindo em férias, como eu também…,  acabava por se tornar “da casa”, e alcançar informações que não podia de outro modo obter, tal era a ausência de instrumentos formais de acesso (pelo menos normalizados e atuais), e tão forte a cultura da relação pessoal com investigadores (com os professores universitários, tingida de reverência, mas raramente atribuindo a qualquer um grau satisfatório de conhecimento sobre os arquivos). No Arquivo Nacional da Torre do Tombo, então nos seus últimos anos em S. Bento, esta experiência era ambientada numa sala de referência de pequenas dimensões, totalmente recheada de índices até ao teto, todos consultáveis num “acesso direto” avant la lettre, mas todos diferentes entre si, e sem qualquer explicação das lógicas internas – vasta parte, aliás, simples guias de remessa  das incorporações oitocentistas;  e numa sala de leitura onde o responsável pontificava num estrado bem  mais alto do que as mesas dos “leitores”, que eram aconselhados a dirigir-se a ele de forma respeitosa e apenas se indispensável. A incomodidade que tudo isto despertava em jovens que eram formados, na Universidade, nos ideais de revolta contra o positivismo e a erudição, através da saga da “Nouvelle Histoire, era compensada por uma sensação de realismo histórico, de contacto direto com os tempos passados. No meu caso, ainda por cima, de medievalista, acumulava com toda a carga de relação legitimadora com o arquivo de que esta área historiográfica sempre se orgulhou. Depois da transferência das instalações de S. Bento para as da Cidade Universitária, em que participei como estagiária, muitas vezes ouvi, que “no novo edifício da Torre do Tombo, é tudo muito moderno, mas não é a mesma coisa”. Mesmo sabendo que esta mudança se fazia após uma espera secular (!), e tendo considerado um privilégio poder participar num momento histórico de modernização, uma parte de mim concordava, permanecendo a nostalgia do que era afinal, em fins do século XX, quase um arquivo de “Ancien Régime”… mesmo se, paradoxalmente,  tivesse estado instalado no edifício que mais simbolizava a abolição daquela arcaica época.

Pouco tempo depois, alguns recém-licenciados em História, que naquele pitoresco modo tinham sido instruídos na sua relação com o arquivo, foram de repente “apanhados” no turbilhão do que nos era dito ser a “modernização radical dos arquivos em Portugal” – a ação do Instituto Português de Arquivos (IPA). Entre outras coisas que então não poderíamos conhecer, o IPA decidira começar a formar a “nova geração” de arquivistas em Portugal, recorrendo, como no final dos anos ’80 toda a sociedade portuguesa fazia, aos “cursos de formação do Fundo Social Europeu”. No caso, o curso foi organizado pela então poderosa Associação de Professores de História (APH), pujante graças aos milhares de membros que tinha, oriundos da abertura das universidades após a Revolução de Abril, e que além disso incluía professores universitários muito ativos e ligados ao Diretor do IPA, prof. José Mattoso. Colaborava no curso uma associação de que nunca tínhamos ouvido falar, nem a nossa relação com os arquivos nos tinha dado grande ideia que pudesse existir – a BAD, Associação Portuguesa de Arquivistas, Biblioteconomistas e Documentalistas. A APH entrara no processo por louváveis motivos programáticos, como a renovação dos arquivos em Portugal, mas também porque sabia que o mesmo fator do seu poder ameaçava a profissão – o esgotamento do emprego no ensino público –, e que era preciso “diversificar as saídas profissionais dos licenciados em História”. Os cursos de especialização em Ciências Documentais, que existiam apenas em algumas universidades públicas (na altura não na Faculdade de Ciências Sociais de Humanas da U. Nova de Lisboa) (FCSH), onde se ancorava a “revolução nos arquivos”, o que talvez diga alguma coisa sobre esta), eram pouco conhecidos, e quando o eram, vistos alternada, ou cumulativamente, como relíquias da bafienta universidade pré-revolução, ocupação de gente que tinha problemas de sociabilização, ou – na maior parte das vezes –    total enigma, sem interesse de maior. E, para quem tinha seguido a “via de investigação”, como eu, a frequentar mestrado – na altura com quatro anos! –  eram uma formação “de segunda”, nem sequer conferente de grau.

Na verdade, esse curso, que se desenrolou em duas fases, veio dar jovens formandos o acesso a um mundo diferente do que esperávamos. Não tanto a primeira fase, destinada a um grande número de alunos, e apenas com três meses – apesar de muito interessante, foi generalista e lecionada sobretudo por professores universitários de História. A diferença foi feita pela segunda fase, que admitiu por seleção uma pequeníssima parte dos anteriores alunos e teve a duração de nove meses, conferindo aos formandos a habilitação de “técnico médio de arquivo”. Foi lecionada por uma maioria de jovens arquivistas, e incluiu um longo estágio em arquivos. Aí ouvi pela primeira vez falar da arquivística como um “campo de estudos” em si, com métodos e problemáticas próprias; de arquivos “não históricos”; do problema do aumento exponencial da produção de documentos; de “arquivos digitais”; e dessa suprema heresia (para os professores de História) que era a avaliação e a eliminação documental. Se não foi apresentada uma formulação clara de “ciência”, em pelo menos uma parte dos arquivistas existia a clara consciência da importância do pensamento teórico sobre o seu saber e prática. Acredito, agora, que a reverência aos Historiadores – professores universitários, aliada à estreiteza teórica dos cursos de especialização de onde vinham, podem ter impedido formulações (ou mesmo tomadas de consciência…) mais assertivas. Seja como for, e apesar da forma limitada com que o fizeram, os cursos abriram para mim a porta a um olhar diferente sobre os arquivos, e incentivaram-me a procurar bibliografia sobre novos modos de os conceptualizar – algo muito difícil em Portugal, em inícios da década de ’90, mesmo se essa foi a altura em que “tudo estava a mudar” no seio das “profissões” de arquivista, bibliotecário e documentalista, ainda que a diferentes velocidades pelos vários países e tradições académicas.

As circunstâncias da minha formação académica e vida profissional levaram-me, nos dez anos que mediaram entre esta experiência e a minha estabilização profissional como docente do ensino superior público, a passar largos períodos no estrangeiro, por vezes em locais onde pude beneficiar de excelentes bibliotecas, onde aprofundei, sempre que pude – dado que estava formalmente a prosseguir o mestrado e depois o doutoramento em História medieval – o conhecimento na área. Continuei a trabalhar no campo dos arquivos, em regime de free lancer (condição que principiava então a ser “cada vez menos provisória”..) como investigadora / coordenadora  de projetos  de intervenção em arquivos históricos do património português no estrangeiro (Roma e Cochim, Índia) e, em Portugal, em trabalhos na área dos arquivos eclesiásticos, por ligação ao Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da U. Católica Portuguesa (que por essa altura começou o notável esforçado trabalho em arquivos de instituições religiosas que ainda hoje leva a cabo). Em todos estes contextos fui confrontada diretamente com cenários de organização de acervos, elaboração de IDD’s, comunicação, – nos quais, posso dizê-lo sem presunção – sempre alinhei muito mais do lado da “arquivística” do que da História, a que fui progressivamente reconhecendo a prejudicial postura de «usufrutuária colonialista» de arquivos. O pensamento arquivístico parecia-me correto e inteligente, propondo trabalhar a partir de conceitos universais e não para “usos” situados.

O Arquivo do Instituto Português de Santo António em Roma (AIPSAR) foi de facto o meu primeiro contacto a solo, e com responsabilidade própria, com um arquivo por tratar integralmente. Fui convidada para o posto pelo então diretor do IPA, prof. Aires do Nascimento, e não hesitei um minuto em aceitar! Estava no mestrado em História medieval, mas já na fase de preparação da tese. Meti toda a “papelada” desta em caixotes e parti para Roma. Em termos pessoais, foi uma extraordinária experiência – ir com vinte e cinco anos para uma cidade como Roma, com um trabalho desafiante à minha espera… Quando lá cheguei, foi o banho de realidade – o “arquivo” era um conjunto de livros e pacotes amontoados em velhas prateleiras, cheios de pó, sem quaisquer instrumentos de descrição. As primeiras duas semanas foram dedicadas a limpar e a reconhecer minimamente os materiais, tentando reconduzi-los a roteiros provisórios que tinha feito a partir de obras de eclesiásticos sobre a instituição, que tinham utilizado diretamente os documentos. Essa tarefa deixou o Reitor do Instituto feliz; mas ficou muito menos satisfeito quando me viu sentar-me à secretária, estudando longamente os livros de atas e os múltiplos estatutos que tinham sido aprovados ao longo dos séculos, ou ir para arquivos e bibliotecas, para completar a informação. Também aqui foi uma primeira lição do trabalho em arquivos: as organizações encaram-no sobretudo como uma arrumação e limpeza dos papéis velhos, e o resto é dificilmente compreendido. Bom, atalhando, estive alguns meses a aprofundar conhecimentos sobre o tipo de arquivo e a arquivística coeva, nas riquíssimas bibliotecas de Roma, passei por todos os arquivos onde poderia haver mais informação, e fiz organigramas da instituição desde a fundação (séc. XV) ao século XX; pelo meio estabeleci alguns contactos com o “Minsterio dei Beni culturali” italianos, quanto à hipótese de recuperar (gratuitamente!) documentos em muito mau estado – objetivo nunca concretizado pela falta de resposta dos parceiros portugueses-, e escrevi um longo texto preparatório da classificação dos materiais, que entretanto tinha descrito sumariamente. Esse texto constituiu a base do trabalho que depois publiquei, sobre a história institucional e do arquivo do AIPSAR . Nunca mais consegui trabalhar na tese de mestrado… Passados seis meses, decidi voltar, por um conjunto de motivos em que avultaram as difíceis relações com o Reitor, que interferia constantemente no trabalho, e a ausência quase total de resposta às minhas perguntas e sugestões, por parte da tutela portuguesa, o efémero Ministério da Cultura. O trabalho foi depois prosseguido por outras pessoas, anos mais tarde.

(ARCHIVOZ) Entre 1993 e 1995 foi a coordenadora científica do projeto de organização do Arquivo da Diocese de Cochim, na Índia, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Universidade Católica Portuguesa. O que gostaria de destacar no que respeita aos resultados alcançados com este projeto?

(MLR) Mais uma vez, foi uma extraordinária experiência em termos pessoais e profissionais. Já tinha, entretanto, defendido a tese de mestrado, e estava num certo impasse quanto ao melhor modo de prosseguir a carreira de investigação. O convite que me foi dirigido pela U. Católica honrou-me muito, e mais uma vez nem hesitei. Mas o choque cultural foi imenso – na primeira viagem à Índia, acho que só cheguei a Cochim por sorte, porque aconteceu de tudo durante a viagem, incluindo uma antecipação de voo! Por sorte estava a dormitar no aeroporto doméstico que me levaria à cidade, e consegui perceber a chamada… e mais uma parte gaga totalmente surreal – em Cochim havia dois bispados, um dos Cristãos de S. Tomé e outro dos Católicos romanos, e como devido à antecipação de voo, não estava ninguém à minha espera no aeroporto, apanhei um táxi e pedi para me levarem ao palácio episcopal. Levaram-me ao errado, onde ninguém sabia quem eu era! Por sorte tudo se resolveu, e tive direito, em diferido, à primeira das muitas cerimónias de boas-vindas, com flores, música e imprensa… Tudo isto depois de mais de 24h de voo… Na primeira ida estive um mês a reconhecer os materiais, guardados no sótão do palácio episcopal, sob um calor tórrido, que me fazia ter que parar de hora a hora e beber litros de água e de café (fraquíssimo, na Índia é uma bebida pouco comum)… e quase todos os fins de tarde e todos os fins de semana, era literalmente arrastada pelo Bispo para as suas obras de promoção social, nas quais participava, fazendo discursos ou mesmo distribuindo comida! No meio de calor, barulho sem fim no trânsito, elefantes e vacas nas estradas, mares de gente. A princípio pensei que nunca mais voltaria, que chegada a Lisboa me demitia e voltava à calma vida dos investigadores.

Mas fiquei, e foi a mais incrível experiência humana e profissional que tive. O Bispo, D. Joseph Kuereethara (1929- 1999) era uma figura extraordinária, um sobredotado – músico, grande desenhador, poliglota, organizador de tudo e mais alguma coisa -, gentil, engraçado… Foi um segundo pai para mim, um amigo que nunca esquecerei. E estava rodeado de uma equipa de jovens padres, com os quais a equipa portuguesa que foi comigo algum tempo depois, teceu laços fortes de amizade. Em termos de trabalho arquivístico, foi construir do zero um depósito, uma sala de leitura, ao expurgo in loco dos materiais, a limpeza dos mesmos, a arrumação, a descrição em ARQBASE (depois de um curso intensivo com o Miguel Infante, na Fundação Calouste Gulbenkian) (FCG). Foi também, graças à generosidade da Fundação, um trabalho prévio de recolha de materiais nos arquivos portugueses e romanos, que nos permitiu colmatar lacunas do arquivo episcopal, que tinha sobretudo documentos dos séculos XVIII e XIX. Todos estes materiais, cuja reprodução foi custeada pela FCG, ficaram no arquivo, organizados em pastas por episcopado, com cópias no CEHR.

Enfim, ao longo de dois anos, desloquei-me por cinco vezes a Cochim, e o trabalho ficou integralmente feito. Na mais longa estadia, de 3 meses, esteve a restante equipa de “arquivistas” (Adelaide Machado, João Luís Fontes, Sandra Lobo) e fizemos o grosso do trabalho. Voltei lá sozinha um ano depois, para preparar a inauguração, e estive c. um, mês a terminar tudo, sendo que dia sim, dia não (e mesmo na véspera da inauguração), o Bispo aparecia com documentos que “ia encontrando”, alguns deles – disse, creio que a gozar comigo, mas sem nunca desmentir – tinha localizado debaixo da sua cama! Mais uma vez aprendi que o contexto organizacional é algo a ter em conta quase de forma antropológica! A inauguração foi uma enorme festa, o inventário foi publicado, e as descrições detalhadas ficaram no Arquivo. A morte súbita de D. Joseph Kureethara, em 1999, foi uma machadada no progresso deste trabalho, que ele idealizava como um ponto de partida para uma instituição que teria a valência de centro de investigação internacional, e de Arquivo Histórico, dando continuidade a incorporações de acervos das estruturas diocesanas. O novo bispo tinha pouquíssima sensibilidade para questões arquivísticas, e aliás acabou por ser destituído, anos depois, por problemas internos. A equipa de jovens padres do Bispo Kureethara tinha-se, entretanto, dispersado. Um deles ainda veio para Roma e Portugal, realizando uma bela tese de doutoramento sobre historia institucional da diocese no séc. XIX, mas não houve continuidade possível. A última vez que estive em Cochim, em Dezembro de 2019, nem consegui visitar o arquivo. Dez anos antes, na visita antes dessa, conseguira tal, constatando, porém, que estava quase sempre fechado e que a sala de depósito funcionava como armazém de muitas coisas…

Tal como este – ou em muito pior estado, de forma geral – há muitos outros acervos e arquivos da presença portuguesa imperial e colonial, que seria fundamental recuperar, em conjunto com as autoridades arquivísticas e académicas dos atuais países.

(ARCHIVOZ) Entre 2009 e 2015 coordenou o curso de Mestrado em Ciência da Informação e da Documentação, e desde 2009 que é Coordenadora Especial de Arquivística Histórica no curso de Doutoramento em História, ministrados ela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa. Que balanço faz destes dois importantes cursos?

(MLR) Após o doutoramento, a minha ligação e o meu trabalho em arquivos levaram ao convite para a primeira inserção no mundo da formação universitária no que então já se chamava “Ciências Documentais”, na FCSH, no âmbito da Pós-Graduação / Curso de especialização mestrado (2005 em diante). A cocoordenação da área, depois coordenação, e a lecionação na mesma, durante vários anos, permitiram-me contactar com um panorama bem diferente do que tinha deixado, quando entrei como docente de história a tempo inteiro (1998, ano que noutro local era palco de dois marcos da implantação da Ciência da Informação (CI) em Portugal, que haviam sido quase totalmente ignorados nos meios historiográficos – a defesa da tese de Fernanda Ribeiro e a publicação de Arquivística. Teoria e prática de uma ciência da informação, por A. Malheiro da Silva, Fernanda Ribeiro, Manuel Real e Júlio Ramos).

O enriquecimento foi enorme, e foi ele que em boa parte me permitiu, anos mais tarde, propor um campo de trabalho que une as duas áreas, a Arquivística Histórica. Digo sem hesitação que aprendi muito mais com os colegas de CI do que em outros contextos. A estruturação do mestrado permitia a existência de dois estágios, e também com as instituições que aceitavam receber alunos, a relação de aprendizagem foi intensa. Por fim, relembro os alunos, tanto os que vinham já em desempenho de funções na área, como os recém-chegados, oriundos de vários campos disciplinares – foi um gosto conhecê-los, ensiná-los, coorientar os seus trabalhos finais de mestrado. Eram bastante diferentes dos alunos do mestrado em História, em geral jovens licenciados na área; retenho clara memória de muita gente que voltava a estudar, com sacrifício de tempo e de dinheiro, mas com o intuito de adquirir novas competência e qualificações. Em todos os seus relatórios, teses e projetos, aprendi sempre alguma coisa nova!

A relação direta com o ensino na área da CI terminou quando os critérios da A3E’s levaram a uma reconfiguração da formação de mestrado, entregando a direção deste a académicos da área da CI e impondo, além disso, regras para novas contratações de doutorados naquela. Concordei desde o início com o princípio, mesmo lamentando que a definição de área científica não possibilitasse um maior diálogo com as Ciências Sociais e Humanas que já há muito se encontram nas universidades portuguesas, em geral com tradição muito rica de formação e investigação; e que pense que o panorama internacional alargado, em que se jogam prestígio, sinergias e financiamentos, se orienta em direções alternativas e, sobretudo, plurais, quanto a modelos científicos, de investigação e de ensino.

A área de Arquivística Histórica do doutoramento em História inscreve-se nestas últimas linhas. A integração no doutoramento em História não teve qualquer objetivo de subalternizar a CI em relação à História –  foi uma opção administrativa, em função das exigências académicas. A área funcionou sempre, e continua a funcionar, em cruzamento disciplinar, incluindo ainda a Antropologias Histórica, particularmente importante para o estudo dos arquivos e das práticas arquivísticas das sociedades pré-Revolução Francesa (e, em diferentes casos, mesmo posteriores à rutura liberal). Funciona há doze anos, e conta neste momento com seis doutoramentos defendidos (dois deles em cotutela internacional e três com bolsa da Fundação para a Ciência e Tencologia) (FCT) e com oito em andamento (dois deles em cotutela internacional – com a École Nationale des Chartes –  e quatro com bolsa FCT). Destes catorze alunos, seis eram/ são arquivistas e/ou tinham formação em CI, sendo os restantes mestres em História.

A par da realização das teses, tenho incentivado que os alunos investiguem e publiquem, bem como participem em eventos científicos internacionais, e já contamos com dezenas de realizações neste enquadramento. A inserção internacional tem sido uma pedra de toque em todos os aspetos, e podemos orgulhar-nos, por exemplo, de ter participado no “Programme de recherche” ARCHIFAM – Les archives de famille en péninsule ibérique (fin XIIIe – début XVIIe siècle), sedeado na Casa de Velazquez, em Madrid, entre 2012 e 2015, com presença de todas as doutorandas em eventos, nomeadamente uma escola doutoral; na frequência, por duas alunas da Summer School “The new history of Archives. Early modern Europe and beyond”, organizada pela Herzog August Bibliotek (Wolfenbuttel, Alemanha, em Julho 2017); e na presença de outras duas no Seminário Noble houses and their archives in a comparative perspective (Portugal, Spain, France), 14th-19th centurie, organizado na School of Historical Studies – Institute for Advanced Study (Princeton, 13 Novembro 2015).  O financiamento para estas participações das doutorandas veio das unidades de investigação da FCSH ou, em todos os casos citados, das próprias instituições estrangeiras.

A produção científica pode ser consultada nas nossas duas “montras digitais” – a instância AtoM «Arquivística Histórica», dedicado às teses e contendo materiais delas resultantes (http://www.arquivisticahistorica.fcsh.unl.pt/ ) e o site «ARQFAM. Arquivos de família – Arquivos de comunidade(s). Arquivística, História, Herança cultural», mais específico das investigações sobre arquivos de família, e contendo todos os materiais delas resultantes (https://arqfam.fcsh.unl.pt/ ).

Em termos de formação discente, gostaria ainda de destacar o que chamo  de “Ações em Arquivística histórica”, que envolvem, com a colaboração ou orientação das doutorandas/ doutoradas em Arquivística Histórica, estudantes de licenciatura e mestrado desde 2016 – projetos sobre arquivos de família em que eles participam e depois resultam em artigos ou idas a congressos (já conseguimos duas participações em eventos internacionais, em Espanha e Reino Unido), estágios curriculares e académicos (os primeiros para licenciaturas, alcançando já duas dezenas de  alunos;  os segundos para mestrado, com nove alunos), opções livres de iniciação ao trabalho de investigação histórica e tratamento/ descrição arquivística. Este trabalho é muito importante, porque motiva os alunos desde o primeiro ano da Universidade, e mostra-lhes um mundo que em geral desconhecem; os estágios têm-se revelado especialmente importantes porque é uma forma direta de conhecerem os serviços de arquivo e de biblioteca como possível local de ocupação futura.  Por outro lado, os que enveredam pela via da investigação histórica ficam mais despertos para a importância de incluir a parte arquivística; neste momento temos quatro teses de mestrado que nasceram neste contexto, duas discutidas e duas em finalização, que nasceram neste contexto, tendo os dois alunos mais novos participado desde o 1º ano da licenciatura nas tais “ações de arquivística histórica”.

Por fim, no próximo ano letivo teremos uma pós-graduação em Arquivística Histórica na FCSH, que bateu records de inscrição, em especial quando conseguimos autorização para a transmitir em streaming, a par do ensino presencial, pós-laboral. Estão inscritos estudantes de todo o País.

(ARCHIVOZ) Em 2016 foi distinguida  pelo Conselho Europeu de Inverstigação (European Research Council, ERC) com a primeira bolsa Consolidator Grant na área da História atribuída pelo ERC a um investigador português. Pode falar-nos da investigação desenvolvida e das evidências deste notável projeto?

(MLR) O projeto surgiu na confluência de diferentes investigações que realizei desde a licenciatura, momento em comecei a estudar os vínculos, tema central do projeto financiado pelo Consolidator GrantVINCULUM. Entailing Perpetuity: Family, Power, Identity. The Social Agency of a Corporate Body (Southern Europe, 14th-17th Centuries) (ERC 819734). Na tese de mestrado foquei-me nos morgadios, na tese de doutoramento, nas capelas – estes são os dois tipos mais relevantes de vínculos existentes em Portugal, na P. Ibérica e em alguns outros locais do Ocidente europeu, entre os séculos XIV e XIX. Pelo meio, o estudo dos arquivos de família foi tanto propiciado pelo estudo do tema histórico, como o propiciou… este é um projeto onde a interdisciplinaridade entre História e Arquivística / Ciência da Informação é fortíssima. Na candidatura fiz dois estados-da-arte diferentes, cada uma para uma destas áreas disciplinares, e os projetos internos cruzam sempre as duas. Mais, as bases teóricas do levantamento documental devem muito à noção de “Informação”, que substituo a “fontes”, conceito hoje em dia muito questionado pelos próprios historiadores (mesmo se pouco recorrem ao pensamento da CI e da arquivística para o refazer). Esta permanente interdisciplinaridade foi muito apreciada pelos avaliadores, em especial no que dela resulta em termos de uma perspetiva de Histórica Antropológica dos Arquivos.

Para além destes aspetos científicos, é muito gratificante poder financiar, por períodos longos de tempo, durante cinco anos, um total de nove investigadores, com mais alguns pontuais;  trabalhar na vertente de comunicação de ciência, algo cada vez mais valorizado pelas agências financiadoras europeias; e ter alcançando uma bolsa para um projeto de tema histórico “antigo”, que tenho vindo a constatar estar a cair num quase total esquecimento, apesar de ter sido estruturante da sociedade portuguesa e ter deixado profundas marcas – algumas das quais demasiado fortes e constrangedoras (para o bem e para o mal), para deverem ser esquecidas. Neste sentido, quero deixar escrito que nunca é demais louvar o espírito que preside as estas bolsas do European Research Council (ERC): investigação aprofundada e condignamente financiada, do chamado «conhecimento (in)útil”, com quase total liberdade ao investigador (sem deixar de existir um conjunto vasto de regras de funcionamento e de auditorias, com as quais concordo a 100%, visto que o dinheiro é público). Acrescem as obrigações de usar software de open-source, e de disponibilizar todos os resultados da investigação em acesso aberto! Já quando recebi a bolsa do  «Institute for Advanced Study», em 2015,  beneficiara deste espirito, tendo podido ver in loco extraordinária  fertilidade intelectual que possibilita – num local onde, humildemente, contactei com a memória de gigantes da Ciência, foram-me dadas as melhores condições de vida, investigação, financiamento e liberdade, para um tema que nada tinha a ver com a história dos Estados Unidos da América, e cujos “resultados práticos” eram, no mínimo, indiretos (“Reconstructing noble family archives, remaking family histories (Medieval and Early modern Portugal”). Deve ficar claro, para a nossa geração e as futuras, o extraordinário privilégio que é poder usufruir, na União Europeia, de um ambiente assim, e como é importante reagirmos a ele de forma ativa, apresentando candidaturas e alcançando bolsas, colmatando o atraso em que nisto nos encontramos em relação ao Norte da Europa (mas não só), em especial no campo das Ciências Sociais e Humanas.  Apelo a todos os investigadores em CI, Arquivística, História, que se informem e apresentem candidaturas.

(ARCHIVOZ) Um dos livros que recentemente coordenou, neste caso com Rita Sampaio da Nóvoa, Alice Borges Gago e Maria João da Câmara, intitula-se Vozes recuperadas, perguntas recém-descobertas: arquivos familiares e pesquisas históricas, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra. O que nos pode dizer sobre este trabalho?

(MLR) O trabalho com os arquivos de família nasceu aquando da minha investigação de mestrado, no final dos anos 80. Dada o pequeno número deste tipo de arquivos que existia, ou estava descrito, nos arquivos públicos, praticamente toda a minha investigação se apoiava na documentação das duas grandes instituições que se tinham relacionado, a partir de fora, com essa entidade corporativa que eram os vínculos – a Coroa e a Igreja. Mas era como trabalhar com “a ponta do icebergue”… percebia-se claramente que tinham sido produzidos e conservados, pelas famílias, muito outros documentos, em quantidade e quantidade relevantes; e que, alem disso, eles transmitiam a “voz própria” dos produtores, neste caso as famílias e os seus indivíduos, ao passo que os arquivos eclesiásticos e régios transmitiam maioritariamente o “lado” destas instituições, no mínimo dando uma imagem parcial do fenómeno (sendo que muitos historiadores nem tal acusavam, de tal modo é ensinado um foco quase total nas “fontes que estão nos arquivos”). Pensar para alem do que está no arquivo público, fazer um caminho de história institucional, transmissão documental, produção informacional, é algo muito mais exigente, mas fundamental. E enriquece imenso a História!

As “vozes recuperadas” do título do livro reportam-se a esses documentos que fomos redescobrindo. Trabalhar com inventários de arquivos de família, nomeadamente, no projeto INVENT.ARQ, tornou claro como estes eram ricos, e como era errado ignorá-los, causando tanto por uma certa “preguiça heurística”, como pela “invisibilidade arquivística” a que a falta de tratamento os vota. Por fim, este trabalho veio encorajar os proprietários de arquivos privados a virem apresentá-los, dando a conhecer as riquezas que contém, mas também todos os problemas que enfrentam quando querem conservá-los e, até, quando querem que sejam alvo de investigação histórica. Através de diferentes teses, de doutoramento e de mestrado, já conseguimos dar a conhecer, e estudar, cinco arquivos de família, quatro dos quais em posse privada, e dois documentos muito ricos, um deles na casa da mesma família desde o início do século XVI (a Quinta da Foz, na Foz do Arelho), outro hoje em dia no Arquivo do Museu de Portimão. Da parte de uma e outra instituição recebemos o melhor acolhimento e as teses irão editar e estudar estes importantes documentos.

(ARCHIVOZ) Na sequência das primeiras questões, e considerando a muito relevante experiência que tem como investigadora responsável e coordenadora científica de projetos nacionais e internacionais, como é que vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais é que pensa que são os grandes desafios que se deparam aos profissionais da informação?

(MLR) A minha posição, neste momento pelo menos é, por um lado, de utente dos arquivos enquanto investigadora e orientadora de investigações e, por outro, de académica que pensa aspetos teóricos ligados à Arquivística e à Ciência da Informação.  No primeiro papel, bem como através do contacto que ele traz com os arquivistas trabalhando em arquivos públicos, sinto bastante apreensão, sobretudo pelo que vejo em termos de investimento nas novas gerações/ renovação dos quadros. Sei que os responsáveis pelos arquivos se contam entre os que mais lamentam o facto de não poder abrir concursos externos, mas do ponto de vista global e tendo em conta o futuro, é mais do que um problema de gestão interna, é uma limitação desastrosa. Para os arquivos, mas muito em especial, para os muitos jovens altamente qualificados e cheios de ideias novas que ficam de fora, vivendo de empregos precários.

Preocupa-me também em extremo o estado dos fundos arquivísticos antigos, em especial da Época Moderna, dado que anteriormente o uso mais generalizado do pergaminho permite uma sobrevivência mais longa dos documentos. Tenho constatado no projeto Vinculum que fundos inteiros de grandes instituições da administração, como as provedorias das comarcas, os tribunais, os hospitais, estão em mau estado de conservação e deviam ser alvo de trabalhos de recuperação. A miragem da digitalização como forma de resolver a disponibilização dos fundos fez esquecer que não se podem digitalizar documentos em mau estado.

Enfim, como professora de História, preocupo-me com o desaparecimento de áreas de saber essenciais para a compreensão dos arquivos antigos, a Paleografia e a História das instituições. Nunca foram verdadeiramente fortes em Portugal, em função da ausência de estudos superiores em Arquivística, durante décadas, mas hoje em dias estão de facto em perigo de extinção, sem que veja as universidades portuguesas tomarem medidas claras quanto a isto.

Como académica pensando a Arquivística e a CI, devo dizer que me preocupa a falta do diálogo entre o modelo de formação da denominada Escola do Porto, e os restantes locais de produção de saber universitário na área disciplinar. Em caso nenhum são bons os modelos homogéneos, e quando acumulam com poder normativo e avaliativo, podem tornar-se obstáculos, e não motores, de desenvolvimento e pensamento novo. Conheço e contacto com um mundo muito diferente, mais aberto, e plural, e com maior discussão teórica, no pensamento arquivístico internacional, seja na Archival Science, seja na Information Science, seja mesmo em locais tão consagrados e clássicos como a École Nationale des Chartes. Gostaria que iniciássemos um debate sério sobre isto, de igual para igual, e sem posições de poder.

Um último desejo diz respeito aos meus colegas de formação. Seria fundamental que os historiadores fizessem a sua «revolução coperniciana» quanto à heurística, isto é, encarassem os seus materiais de trabalho de forma teoricamente complexa, abandonando práticas oitocentistas de pesquisa, localização e interpretação dos mesmos. Se a História fez um extraordinário caminho de libertação dessas práticas ao longo do século XX, quanto a temas e problemas, não o fez ainda em relação às “fontes”, por razões que os estudiosos de epistemologia da História têm vindo a estudar, na última década. Os contributos da teorização da Informação, vindos de diferentes quadrantes da CI, bem como da «Archival Science» e outras configurações de pensamento teórico arquivístico, são também aqui fundamentais. Gostaria que pudéssemos trabalhar em conjunto num progresso da Ciência que seja plural e não prescritivo, baseado na paixão pela investigação e acreditando que esta, feita de forma ética, tem como fim último o bem coletivo e não a promoção na carreira académica ou o alcance de posições de poder.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo uma retrospetiva desta nova realidade, que se faz sentir desde meados de março de 2020, entende que, em linhas genéricas, os arquivos portugueses foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(MLR) Compreendendo os enormes constrangimentos a que as instituições de cultura foram sujeitas, como Investigadora Principal de um projeto europeu que tinha entre os principais objetivos um extenso levantamento arquivístico, posso dizer que situação foi no mínimo difícil. Passámos a viver das digitalizações, que são relativamente poucas, para os documentos mais antigos, em boa parte por causa do mau estado em que se encontram, da subalternização a que são votados, em função do maior interesse por História contemporânea, ou da dificuldade em organizá-los e descrevê-los (ou mesmo em lê-los, dado que cada vez mais escasseiam os conhecimentos paleográficos). Pagámos várias digitalizações e alguns restauros para posterior digitalização, mas estes também ficaram impossíveis de levar a cabo, quando os arquivos fecharam. Enfim, temos um atraso de c. seis meses devido a isto. E passámos o último mês de maior confinamento a ver os documentos digitalizados a escassearem dia a dia!

Não estou à frente de um serviço de arquivo, portanto não me fica bem dar lições a quem está, e aliás respeito muito todos os que estão; o que posso fazer é transmitir este testemunho e preocupações…  Da nossa parte, nas universidades, ficou bem clara a importância da disponibilidade digital dos materiais. Nunca achei que a digitalização em massa fosse um caminho a seguir, e continuo a constatar que infelizmente, muitos dos meus colegas nem se apercebem dos problemas que ela levanta. Esperemos que uma situação como a pandemia que atravessámos não se volte a repetir! Tomámos, porém, a decisão de, sempre que possível, investir mais em disponibilizar fundos para digitalizar documentos e livros que sejam fundamentais para as nossas investigações e para os alunos.

(ARCHIVOZ) Muito recentemente foi distinguida com três importantes distinções: o Prémio Santander de Internacionalização da Produção Científica da NOVA FCSH, Mulheres na Ciência e “Nova Science Day 2019 – certificado em reconhecimento ao Bolsa Consolidadora – ERC”, que evidenciam um significativo contributo para a ciência em Portugal. Caso seja possível, gostaria que nos desse conta dos seus projetos futuros, naturalmente indesligáveis dos arquivos, em termos de investigação.

(MLR) Os prémios são sempre gratificantes porque significam um reconhecimento do nosso trabalho, mas penso que o mais importante é darem visibilidade e potenciarem novas candidaturas… Os meus planos são, para já, levar a bom porto o projeto Vinculum, q tem mais 3,5 anos pela frente, e um ambicioso conjunto de metas e produtos para cumprir; conseguir, a partir dele e se possível ainda durante esses anos, alcançar um financiamento associado a estas bolsas, para potenciar a comunicação de ciência; eventualmente, na parte final do projeto, candidatar-me às bolsas mais elevadas do ERC.

Do ponto de vista académico, para mim é fundamental continuar a dar aulas, a orientar estágios e formações aprofundadas (mestrados e doutoramentos) – os alunos são uma fonte de prazer na profissão, criatividade, promessa de continuidade, gente interessada e capaz, que é preciso ajudar a crescer.

Quanto à esfera da Arquivística e da CI, quero continuar a trabalhar em arquivos de família, a aprender, ler e escrever sobre questões teóricas, a ensinar. No futuro, gostaria de desenvolver formações em colaboração internacional, com escolas tanto de CI como de «Archival Science» e ainda com locais mais tradicionais, mas com séculos de experiência, como a École National des Chartes, onde dar aulas, em 2018, foi uma das mais gratificantes experiência da minha carreira docente – e que de resto, tem áreas de inovação bem mais dinâmicas e abertas que muitos locais “modernos”. Preocupa-me muito a perda de saberes arquivísticos nas universidades, bem como a forma como a CI encara as outras Ciências Sociais e Humanas, e é por elas encarada, em geral…

Por fim, gostaria de vir a contribuir de forma mais ativa e pública para o desenvolvimento dos arquivos portugueses, e para a proteção do património arquivístico privado.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“É indiscutível a importância de recolher acervos de arquitetos e de os garantir para memória futura.”: Entrevista com Nuno Sampaio e Ana Filipe

Entrevistámos Nuno Sampaio, Diretor-Executivo da Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura, e Ana Filipe, Coordenadora do respetivo Departamento de Arquivo e Biblioteca.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos dessem conta do vosso percurso formativo e profissional até chegarem, respetivamente, a Diretor-Executivo da Casa da Arquitectura e Coordenadora do Departamento de Arquivo e Biblioteca desta instituição.

(Nuno Sampaio) Iniciei a minha atividade profissional como arquiteto no atelier “Nuno Sampaio – Arquitetos” em 2000. De 2008 a 2010, fui membro do Conselho Diretivo Nacional da Ordem dos Arquitectos, presidente da “Estratégia Urbana” e Vice-presidente da Associação Trienal de Arquitetura de Lisboa até 2021. Desde 2014, sou Diretor-executivo da Casa da Arquitectura.

(Ana Filipe) Iniciei a minha atividade profissional na área dos arquivos de arquitetura em 1999, na Direção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais – DGEMN, nomeadamente no Sistema de Informação para o Património Arquitetónico – SIPA. Em 2008, transitei para o IHRU, organismo à qual pertenço. Desde 2017, desempenho funções de coordenadora do Departamento de Arquivo e Biblioteca da Casa da Arquitectura, na modalidade de Cedência de Interesse Público

(ARCHIVOZ) Quando é que nasceu, e em que contexto, a Casa da Arquitectura? Relacionado com esta pergunta, onde é que esta se encontra localizada, qual a sua missão, visão, estrutura orgânica, e tudo o mais que considerem para a sua melhor compreensão

(NS) A Casa da Arquitectura – Centro Português de Arquitectura foi fundada em 2007 e pretendeu ir ao encontro da necessidade de existência em Portugal de uma instituição que para além de acolher, tratar e conservar acervos, espólios e coleções de arquitetura, também levasse a produção arquitetónica nacional e internacional ao conhecimento e entendimento do público em geral.

Desde a sua criação e até novembro de 2017, esteve instalada num edifício pertencente à família do arquiteto Álvaro Siza Vieira, adquirido pela Câmara Municipal de Matosinhos, na Rua Roberto Ivens, em Matosinhos.

Em 17 de novembro de 2017, mudou-se para o designado Quarteirão da Real Vinícola, um edifício industrial construído entre 1887 e 1901, adquirido pela Câmara Municipal de Matosinhos no final do século XX. Este edifício com uma área total de 8.122 m2, encontra-se localizado próximo do mar, em Matosinhos Sul.

A Casa da Arquitectura (CA) tem como principal missão, para além da salvaguarda e conservação de arquivos de arquitetura, a divulgação e valorização da produção arquitetónica nacional e internacional. As duas vocações da Casa – Arquivo e Programação – alimentam-se mutuamente: dos acervos são extraídos olhares que se traduzem em exposições e outras programações paralelas e as exposições enriquecem os acervos com novos conteúdos.

Anualmente, a Casa organiza e produz um vasto programa de atividades transversais no seu tema e perfil, pensado para alcançar o seu maior objetivo: promover, divulgar e levar a arquitetura a todos os públicos. Pretende-se que seja uma Casa aberta a toda a sociedade, objetivo que foi atingido desde o primeiro momento.

(ARCHIVOZ) Quais os serviços e atividades que a Casa da Arquitectura disponibiliza aos seus utilizadores?

(NS) A Casa da Arquitectura disponibiliza um vasto conjunto de atividades que vão desde a programação regular de exposições, conferências, debates, até outros eventos que se cruzam com áreas artísticas variadas como a música e a dança, por exemplo. Para além da programação regular, a Casa gere visitas a várias obras do chamado itinerário Siza de que fazem parte a Casa de Chá da Boa Nova, a Quinta da Conceição e a Piscina das Marés, entre outras. Através do seu Serviço Educativo, a CA promove várias atividades como oficinas, workshops e itinerários, que ocorrem, ora nos espaços da Casa da Arquitectura, ora no exterior, bem como eventos online, através de plataformas digitais. Estas atividades são orientadas por monitores especializados, sendo direcionadas e adaptadas aos mais variados públicos, atendendo às suas necessidades, características e propósitos. Todos os anos, a Casa organiza e promove o Open House Porto em parceria com as autarquias de Matosinhos, Maia, Porto e Vila Nova de Gaia. O objetivo maior é de tornar a arquitetura acessível a todos, aproximando-a do público e estabelecendo ligações entre os autores, as obras e ideias subjacentes. Desde crianças a adultos e idosos, dirigidas tanto a curiosos como a profissionais de arquitetura, as atividades do Serviço Educativo promovem a valorização da cultura, das artes da arquitetura tanto a nível nacional como internacional.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos serviços de informação, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. De que modo é que neste período tão difícil e singular a Casa da Arquitectura foi capaz de uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas? Da organização do trabalho interno ao atendimento ao público e difusão da informação, o que mudou? Que estratégias foram, e estão a ser, desenvolvidas, no sentido de mitigar os seus efeitos?

(AF) No que diz respeito à organização do trabalho, o período de confinamento imposto pela pandemia, coincidiu com o período de normalização, exportação e validação de conteúdos informacionais para a base de dados, tarefas que foram perfeitamente possíveis desenvolver em teletrabalho. O principal problema prendeu-se com o atendimento presencial, que ficou suspenso desde o início de março até junho. Durante este período continuaram a surgir pedidos aos quais tentámos responder sempre pela via digital.

No que diz respeito à difusão da informação, os constrangimentos de programação levaram à procura de novos desafios, e neste sentido as redes sociais foram uma mais valia, tendo registado um aumento significativo de interações. Foi também estabelecida uma parceria com a RTP para a produção e emissão de um conjunto de pequenos vídeos dedicados a obras de arquitetos cujo acervo se encontra ao cuidado do Arquivo da Casa. Os spots realizados pela CA foram para o ar durante as emissões da RTP1, RTP3 e RTP Internacional, dando uma visibilidade extraordinária ao Arquivo da Casa e à arquitetura portuguesa.

(ARCHIVOZ) O que nos podem dizer dos espólios documentais de Arquitetura ou artísticos que se encontram na posse ou à guarda da Casa da Arquitectura? Esses acervos encontram-se todos, e integralmente, disponíveis para consulta pública? Relacionado com este assunto, considerando o extraordinário prestígio, nacional e internacional, da Casa da Arquitectura, de que modo é que esta é procurada com a finalidade de receber incorporações patrimoniais, científicas, artísticas, etc., relativas à arquitetura e urbanismo? Estes acervos integram bibliotecas, objetos de arte, etc., para além da documentação arquitetónica propriamente dita?

(AF) Do ponto de vista curatorial, o Arquivo da Casa da Arquitectura apresenta três vertentes: acolhe acervos e espólios pessoais, recolhidos sempre que possível na íntegra; recebe projetos singulares de relevância histórica, artística ou territorial; e integra ainda coleções coletivas, de um dado território e/ou de um determinado período.

Desde fevereiro de 2018, data em que recebeu o primeiro acervo integral doado pelo arquiteto Pedro Ramalho, o Arquivo da Casa reuniu uma coleção de arquitetura brasileira, constituída por 76 projetos da autoria de vários arquitetos, que abarcam várias gerações e formalizou a doação ou depósito dos seguintes acervos integrais: Eduardo Souto de Moura, Gonçalo Byrne, João Luís Carrilho da Graça, Paulo Mendes da Rocha, António Fortunato Cabral, ARS – Arquitetos, Francisco Melo e Jorge Gigante, Metro do Porto, e ainda dois projetos de João Álvaro Rocha e a documentação relativa à participação oficial portuguesa na Bienal de Arquitetura de Veneza, cedida em depósito pela DGARTES.

Os acervos mencionados encontram-se totalmente disponíveis para consulta presencial, com exceção dos acervos dos arquitetos Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça, que devido aos constrangimentos provocados pela pandemia, ainda não foi possível recolher. No que diz respeito ao tratamento arquivístico, encontram-se integralmente tratados e catalogados na base de dados digital (a disponibilizar brevemente), o acervo do arquiteto Pedro Ramalho, constituído por 3 mil peças desenhadas, 1607 fotografias, 13 maquetes e 7 ml de documentação textual, os projetos do arquiteto João Álvaro Rocha e a Coleção de Arquitetura Brasileira. Os restantes acervos encontram-se inventariados e registados na base de dados até ao nível do projeto, estado atualmente em tratamento e digitalização os acervos dos arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Eduardo Souto de Moura.

Relativamente à tipologia documental, os acervos são compostos na sua maioria por peças desenhadas, documentação fotográfica, vídeos, textos, maquetes, publicações e, nalguns casos, obras de arte como esculturas e desenhos artísticos emoldurados.

(ARCHIVOZ) Nos espólios documentais de arquitetura à responsabilidade da Casa da Arquitectura é incontornável falar na Coleção Arquitetura Brasileira. O que nos podem dizer sobre esta e a Exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitetura Brasileira”?

(NS) A coleção de Arquitetura Brasileira foi a primeira coleção a ser concluída e apresentada pela Casa da Arquitectura e abrange um conjunto de 76 projetos de arquitetura e urbanismo, construídos em vários Estados do Brasil, representativos da produção arquitetónica brasileira desde o período moderno à contemporaneidade. Do ponto de vista curatorial, foi definido um arco temporal de 1927 a 2018, sendo o projeto mais antigo o da Casa Modernista da autoria de Gregori Warchavchik e o mais recente o Sesc Franca, da autoria dos gabinetes de arquitetura SIAA + APIACAS Arquitetos.

A nível documental, a coleção apresenta mais de 50 mil documentos, entre analógicos e digitais, desde peças desenhadas, documentação fotográfica e textual, maquetes, publicações e outras obras como um cavalete ou ladrilho hidráulico desenhado pelo arquiteto especialmente para aquela finalidade, para além de uma coleção de fotografias recentes da autoria dos fotógrafos de arquitetura brasileiros, Leonardo Finotti e Nelson Kon.

A Coleção conta com nomes como: Gregori Warchavchik, Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho, Lucio Costa, Luiz Nunes, Diógenes Rebouças, Adolf Franz Heep, David Libeskind, José Bina Fonyat, Acácio Gil Borsoi, João Batista Vilanova Artigas, Décio Tozzi e Luiz Carlos Ramos, Carlos Millan, Ruy Ohtake, Fábio Penteado, Alfredo Paesani, Teru Tamaki e Aldo Calvo, Abrahão Sanovicz, Jorge Wilheim e Miguel Juliano, Eduardo Longo, Pedro Paulo Saraiva, Sérgio Fischer e Henrique Cambiaghi Filho, Sergio Magalhães, Clóvis Barros, Silvia Pozzana e Ana Lúcia Petrik Magalhães, Éolo Maia e Jô Vasconcellos, Assis Reis, Marcos Acayaba e Helio Olga, Oswaldo Arthur Bratke, Gustavo Penna, Joan Villà, Usina CTAH, João Filgueiras Lima, Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza, Marcelo Suzuki, Rodrigo Cerviño, Mauro Munhoz, MGS + Associados, Brasil Arquitetura e Marcos Cartum, Mario Figueroa, Lucas Fehr e Carlos Dias, Marcos Boldarini, Biselli + Katchborian, MMBB Arquitetos, H F Arquitetos, Marcio Kogan, Irmãos Roberto, Álvaro Puntoni, Luciano Margotto, João Sodré e Jonathan Davies, Héctor Vigliecca, Angelo Bucci, Carla Juaçaba, Arquitetos Associados, Andrade Morettin, Triptyque, SIAA e Apiacás, Metro Arquitetos, Mapa BR, Claudio Libeskind e Sandra Llovet, Ciro Pirondi, Estúdio 41, Abrão Assad, Paulo Mendes da Rocha, Jorge Wilheim, Ernest Mange, Rosa Kliass e Cauduro Martino e Jorge Maria Jauregui.

Para a exposição foram selecionados 90 projetos, tendo nalguns casos a documentação utilizada sido cedida pelas respetivas entidades detentoras apenas para a exposição e catálogo.

A Exposição “Infinito Vão – 90 Anos de Arquitetura Brasileira” esteve patente ao público na Casa da Arquitectura entre setembro de 2018 e setembro de 2019 e teve curadoria de Fernando Serapião e Guilherme Wisnik.

Recebeu quase 18 mil visitantes durante o período em que esteve patente na CA. O Programa Paralelo da mostra produziu 24 atividades, tanto em Portugal com no Brasil, a que assistiram 21 330 participantes.

Foi a primeira exposição da CA a viajar para fora de Portugal. Esteve patente no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, Brasil, de novembro de 2020 até ao passado mês de junho.

Atualmente estão a ser constituídas outras coleções como por exemplo a de “Arquitetura Portuguesa” que inicialmente se pretendeu abarcar o período de 1974 a 1999, 25 anos de democracia, mas que se pretende alargar a 50 anos.

(ARCHIVOZ) Qual a documentação (arquivos e coleções) mais consultada(s) e a(s) que origina(m) mais pedidos de reprodução, por quem (qual o utilizador-tipo) e para que fins? Qual o número médio anual de utilizadores (antes e durante a fase de pandemia)?

(AF) Os acervos dos arquitetos Eduardo Souto Moura e Pedro Ramalho são sem dúvida os mais consultados, e desde setembro de 2020, o acervo do arquiteto Paulo Mendes da Rocha entrou também na lista das preferências. Os utilizadores são na maioria estudantes de arquitetura, de licenciatura ou mestrado e investigadores para publicações. O número médio de utilizadores por ano tem sido à volta de 150, tendo a pandemia reduzido o número para 12 investigadores presenciais, durante o primeiro semestre do ano.

Existe ainda um número considerável de pedidos de empréstimo para exposições nacionais e internacionais, essencialmente maquetes.

(ARCHIVOZ) Ainda a propósito da documentação, uma questão de nomenclatura, e mesmo conceptual, que julgo ser crucial fixar: qual a diferença entre arquivos de arquitetos e arquivos de arquitetura, o que se entende por documento de arquitetura, e o que é a arquitetura?

(NS) Como dizia Paulo Mendes da Rocha, “a arquitetura serve para evitar o desastre”. É a capacidade de construir e amparar a imprevisibilidade da vida desde os tempos das cavernas, em que os homens se abrigavam em locais naturais para se proteger da natureza. É a capacidade que o homem tem de moldar e construir o seu habitat para responder às necessidades do dia a dia, quer ao nível de espaços para habitar, como para aprender, trabalhar, divertir ou circular.

A arquitetura é também uma arte. A arte de construir de forma criativa e organizada, segundo um conjunto de princípios, normas e técnicas, sendo os documentos de arquitetura todos os documentos produzidos e acumulados durante este processo criativo, desde a fase mais embrionária até à conclusão da construção da obra, que é o fim último, sendo certo que muitos projetos não chegam a alcançar esta fase. Considero que o projeto é o ponto central da produção documental e deve agregar toda a informação.

(AF) Neste contexto, entendo que arquivos de arquitetos ou de ateliers de arquitetura são o reflexo de toda a atividade desenvolvida pelo arquiteto ou atelier, não esquecendo as publicações, que certamente influenciaram pensamentos ou tendências de projetar. São arquivos compostos por documentos de tipologia muito variada desde mapas, levantamentos topográficos, esquissos, desenhos técnicos, documentação fotográfica e textual, incluindo correspondência, fotolitos, maquetes, publicações gerais ou especializadas, filmes, áudios ou outros, como obras de arte, registados numa grande diversidade de suportes, técnicas e dimensões, que necessitam de espaços adequados para guardar, conservar e divulgar, e condições de acondicionamento e conservação também elas distintas entre si.

Em suma, arquivos de arquitetura fazem parte dos chamados “arquivos especiais” que necessitam de espaços com caraterísticas também especiais.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta a importância crucial da difusão da informação, como se efetua a disponibilização dos arquivos e coleções à responsabilidade da Casa da Arquitectura, como é possível aceder a esta? Para quando a disponibilização do Edifício Digital da Casa da Arquitectura e em que consiste o mesmo? Que outras atividades são desenvolvidas pela Casa da Arquitectura, por exemplo, ao nível de instrumentos de acesso à informação, como guias de fundos, catálogos, inventários, etc.?

(AF) Só partir de novembro de 2017, com a transferência para o renovado Quarteirão da Real Vinícola, onde passou a beneficiar de condições de excelência ao nível da conservação, preservação e divulgação, foi possível à Casa da Arquitectura iniciar o processo de recolha de acervos, tendo, como já foi referido, recebido o primeiro acervo integral no início de 2018, data a partir da qual se começaram a registar pedidos de acesso à documentação.

O ato de recolha dos acervos é sempre antecedido pela elaboração do inventário, que serve de instrumento de acesso à informação dos acervos ainda sem tratamento ou com tratamento em curso. O objetivo final é criar catálogo para cada acervo, que será disponibilizado à medida que for concluído o tratamento arquivístico.

Entre o final de outubro e o início de novembro desde ano, será disponibilizado na web o Arquivo Digital, de acesso universal. Será uma base de dados bilingue, que integra diferentes aplicações. Para além da informação relativa ao património documental à guarda da Casa da Arquitectura, é possível encontrar informação sobre os edifícios que foram construídos, incluindo georreferenciação e as publicações existentes nos acervos e na biblioteca. Atualmente, a plataforma conta com cerca de 11 mil registos com imagens digitais associadas, que poderão ser descarregadas a partir de qualquer parte do mundo.

A preservação, divulgação, bem como a valorização da arquitetura em geral, é um dos principais objetivos da Casa da Arquitetura.

É indiscutível a importância de recolher acervos de arquitetos e de os garantir para a memória futura. É igualmente indiscutível a importância de os dar a conhecer, quer seja através da disponibilização da informação para um público mais especializado, para produção de novo conhecimento, como através de exposições ou outros meios de divulgação para o público em geral.

As duas missões da Casa da Arquitetura, arquivo e programação, alimentam-se mutuamente: dos acervos são extraídos olhares que se traduzem em exposições e outras programações paralelas e das exposições resulta a produção de novos conteúdos que chegam a um maior número de pessoas e enriquecem os acervos. Esta dinâmica programática gerada em torno do património arquivístico, é sem dúvida uma das mais-valias da Casa da Arquitetura.

As exposições são desenhadas com o objetivo de divulgar a documentação em Arquivo e transmitir de forma fácil a arquitetura a todos os públicos.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos a desenvolver, ou em curso, no presente ano, e os que se encontram programados para 2022?

(AF) Ao nível do Arquivo, prevê-se disponibilizar a plataforma web, que virá reforçar a aposta na divulgação online, dar continuidade ao tratamento arquivístico dos acervos em curso, dos arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Souto Moura, e recolher o acervo do arquiteto João Luís Carrilho da Graça, que será objeto de uma exposição monográfica ainda este ano.

Dar-se-á ainda início à constituição de uma Coleção de Arquitetura Portuguesa, relativa ao período da democracia, que pretendemos expor na comemoração dos 50 anos do 25 de Abril.

(NS) Relativamente ao programa estrutural, a Casa continuará a centrar-se nas suas exposições e programas paralelos associados, visitas, workshops, oficinas, Open House Porto e Aniversário da Casa. Paralelamente, continuará a coorganizar e coproduzir, acolher e desenvolver outras ações por iniciativa própria, em parceria ou apenas em acolhimento.

(ARCHIVOZ) A internacionalização parece ser uma aposta clara da Casa da Arquitectura. O que nos podem revelar, o que podemos esperar da Casa da Arquitectura para os próximos anos, sobre esta matéria?

(NS) A dimensão internacional da Casa da Arquitectura tem sido uma constante desde a sua fundação, sendo hoje uma componente totalmente integrada na dinâmica da instituição.

Para além do potencial de promoção e divulgação da CA na ativação de novos públicos, o trabalho de internacionalização está vocacionado para a incorporação no Arquivo da CA de novos acervos e constituição de novas coleções internacionais.

A afirmação internacional foi muito conseguida graças aos acervos de arquitetos como Eduardo Souto de Moura, que sendo português tem uma dimensão internacional muito forte, da coleção de arquitetura brasileira e mais tarde com a integração do acervo do Arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Estes momentos foram marcantes para assumir uma notoriedade pública.

A CA inclui nas atividades e programação projetos de todo o mundo, sendo exemplo disso a exposição inaugural “Poder Arquitetura”, que reuniu uma centena de projetos de arquitetura construí­dos à volta do mundo, tendo sido convidada gente de todo o mundo para refletir e pensar arquitetura.

Imagem cedida pelos entrevistados: Vista geral do depósito de maquetes da Casa da Arquitectura (fotografia: Gilson Fernandes).


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Gosto de pensar nos museus a partir desse conceito que tenho tentado difundir e que transcrevo para a “Museologia Contemplativa”, a que não deixa de lado essa via pulchritudinis que tão importante é para a humanidade.”: Entrevista com Marco Daniel Duarte

Entrevistámos Marco Daniel Duarte, Diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos da mesma instituição religiosa, onde dirige o Arquivo e a Biblioteca. É ainda Diretor do Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso académico e profissional, até chegar às funções que desempenha atualmente, como diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos da mesma Instituição religiosa, onde dirige o Arquivo e a Biblioteca.

(Marco Daniel Duarte) Depois do percurso da escolaridade que faço na cidade da Covilhã, onde nasci, tive o gosto de estudar na Universidade de Coimbra, de onde tenho as mais gratas recordações pelo contacto que tive com grandes mestres na Faculdade de Letras, quando da frequência da licenciatura em História, variante de História da Arte. É essa mesma Faculdade que, depois de fazer uma brevíssima experiência como professor de História no ensino secundário, me acolhe como doutorando durante uns largos anos nesse tempo em que os doutoramentos eram tomados como a grande prova de carreira na vida académica de um investigador. O facto de ter estudado o Santuário de Fátima como lugar de produção artística habilitou-me a poder assumir a direção do seu Museu, primeiramente, em 2008, e, alguns anos depois, em 2013, a direção do seu Departamento de Estudos.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o Museu do Santuário de Fátima e as Secções de Arquivo e de Biblioteca do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, nomeadamente no que concerne à sua missão e os espólios à sua responsabilidade, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o melhor conhecimento dos mesmos. O que diferencia o Museu do Santuário de Fátima dos outros museus?

(MDD) O Museu do Santuário de Fátima, assim como a Biblioteca e o Arquivo desta grande instituição religiosa são sobretudo os lugares de memória de toda uma comunidade para a qual tem sentido interpretar a sua existência através da vivência dos valores do catolicismo. São assim três ramos de memória com um tronco comum e, por isso, têm forçosamente de dialogar, ainda que tenham práticas de tratamento da memória que se baseiem em normas específicas. É a dimensão global de um santuário como o de Fátima que justifica que já em 1955 o bispo de Leiria tenha tido estas preocupações referentes à história do lugar e tenha erigido canonicamente o que, na época, denominou, nessa tradição que poderíamos fazer remontar aos séculos XVII/XVIII, Museu-Biblioteca do Santuário de Fátima. Não aparecendo no título da carta de ereção a referência explícita ao Arquivo, este aparecia contemplado numa das partes daquele precioso documento, ainda hoje atual nos seus pontos fundamentais.

O Arquivo do Santuário de Fátima é sobretudo um arquivo institucional, que guarda a memória de uma organização, espelhando os seus ritmos de crescimento e a sua forma de se entender a ela própria (nos diferentes departamentos e serviços que  caracterizam a sua ação), custodiando a documentação que produz e também aquela que reúne a partir da prática devocional dos peregrinos de Fátima que são, afinal, parte da instituição (entre esta documentação encontra-se o chamado Correio de Nossa Senhora, isto é, as mensagens escritas que os devotos deixam à Virgem de Fátima e que são uma das preciosidades deste arquivo, ocupando cerca de 350 metros lineares, ocupados por mais de 2000 unidades de instalação, no que estimamos ultrapasse 7,5 milhões de mensagens). Integra o Arquivo do Santuário de Fátima também um núcleo de documentação audiovisual que documenta a vida do Santuário de Fátima e dos seus peregrinos e, bem assim, do culto relacionado com Fátima no mundo.

A Biblioteca do Santuário de Fátima segue a tradição inicial da sua organização, dividindo-se em Biblioteca de Fátima, em Biblioteca Mariana e em Biblioteca Geral, onde cabe também um fundo de livro antigo com bastante expressão relativamente à qualidade dos espécimes. Aquele núcleo da Biblioteca de Fátima é o que nos merece mais atenção, porquanto tem obrigação de integrar todas as publicações que, em Portugal e no mundo, respeitam ao fenómeno de Fátima. Contamos mais de 7300 peças sobre Fátima, na consciência de que estamos sempre aquém de conseguirmos alcançar este objetivo de forma cabal.

Não há dois museus iguais ou, pelo menos, não deve haver, pelo que o Museu do Santuário de Fátima é, necessariamente, diferente de qualquer outro museu, pois o acervo que tem é único e, ainda mais, muito ligado ao lugar cuja memória transporta, conserva, inventaria, estuda e expõe. Ainda que tenha no seu acervo peças de altíssimo valor artístico e material, a começar pela sua peça mais icónica que é a coroa preciosa de Nossa Senhora de Fátima, onde se encontra a bala que atingiu o papa João Paulo II no atentado de 13 de maio de 1981, costumo dizer que o grande valor das peças do museu é da ordem do intangível e, provavelmente, não inventariável. Aproximamo-nos dele, precisamente a partir dos testemunhos materiais que informam sobre esses valores, pois o culto — sempre assim foi, assim o continua a ser e assim continuará, estou certo — gera cultura. O Museu do Santuário de Fátima não tem edifício próprio para o desenvolvimento da sua missão — razão pela qual possa ser menos conhecido da comunidade académica, embora os seus espaços expositivos sejam dos mais visitados do país —, mas não entendemos essa falta como condição para não levarmos por diante a missão que nos está confiada. Nos últimos anos, temos levado a cabo múltiplas exposições a partir das grandes temáticas identitárias de Fátima e que são, mesmo que à primeira vista possa não parecer, as temáticas comuns às preocupações de todos os homens e mulheres de boa vontade.

(ARCHIVOZ) No seu extraordinário CV sobressai, no que respeita a publicações, a extensa obra sobre o Santuário de Fátima e o seu património. Gostaria que nos desse conta como e que nasceu o interesse em desenvolver investigação sobre esta temática e que destacasse as principais obras escritas que desenvolveu nesse sentido.

(MDD) O interesse por investigar Fátima talvez tenha iniciado quando escolhi o tema para doutoramento e percebi que, no que respeita à temática da arte sacra contemporânea, o lugar em que houve um maior desenvolvimento deste tipo de arte em Portugal estava, mercê de diferentes vicissitudes, a que não era alheio um preconceito académico, por estudar. Embora já o intuísse, estava longe de perceber o que mais tarde se revelou muito claro: Fátima é claramente uma amostra qualificada de humanidade e a configuração artística revela as tensões que existem quando se produz obra de arte. Daí por diante, vim a alargar as áreas de estudo sobre Fátima, perscrutando o pensamento humano, não apenas o pensamento religioso (mas também social, político, mental), a partir da documentação produzida no contexto do fenómeno de Fátima que está muito longe de poder ser simplificado e engavetado nos jargões úteis, mas quantas vezes falaciosos, que a historiografia tem usado.

Tenho a felicidade — verdadeiramente um privilégio — de trabalhar as diferentes áreas da memória (Arquivo, Biblioteca e Museu) no Santuário de Fátima; é um desafio constante e uma grande responsabilidade no sentido de que Fátima, pela sua escala, representa muitas coisas para a humanidade. Permite, porém, o acesso a um saber feito a partir do mais institucional dos documentos até ao, aparentemente, mais frágil dos documentos como é, por exemplo, um papelinho escrito por uma criança quando se dirige à Mãe de Deus que considera sua mãe. Esta escala de Fátima é verdadeiramente fascinante. É, afinal, a escala da humanidade. Com esta perceção vão aparecendo trabalhos diferenciados desde a análise às fontes primárias de Fátima até ao estudo dos objetos mais significativos que os peregrinos — mais anónimos ou mais conhecidos — deixam na Cova da Iria.

(ARCHIVOZ) Um excelente exemplo desse interesse pelo Santuário de Fátima, e do respetivo património, é a sua tese de doutoramento, defendida em 2013, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com o título Fátima e a criação artística (1917-2007): o Santuário e a Iconografia – a arte como cenário e como protagonista de uma específica mensagem. Quais foram as principais conclusões a que chegou?

(MDD) Talvez a grande tese que aí defendo seja essa que aparece plasmada no título: a arte — o que se pode aplicar ao Santuário de Fátima e a outros lugares que tenham sido construídos com os cuidados da arte — nunca é apenas cenário (embora os lugares fiquem cenicamente mais interessantes quando são artísticos), mas foi — e continua a ser — protagonista do lugar. A arte em Fátima nasce umbilicalmente ligada ao gesto dos peregrinos, à sua forma de viver e de celebrar a fé e isso faz configurar espaços que, também eles, fazem desenvolver novas gestualidades. Esta dialética é verdadeiramente impressionante em Fátima e leva à perceção de atitudes humanas que a arte potencia. O exemplo mais claro disto é o da projeção daquela enorme esplanada do Santuário de Fátima: seria possível a paisagem espiritual — e performativa — de Fátima (os milhares de velas acesas na noite escura) sem aquela esplanada traçada — uma das praças mais interessantes do urbanismo contemporâneo, plena de sinais semânticos quando cheia e quando vazia — nos inícios dos anos 50 do século passado?

(ARCHIVOZ) Uma das suas publicações mais recentes, neste caso em colaboração com a Professora Manuela Mendonça, é a obra Processo Histórico da Diocese de Leiria-Fátima. Congresso Evocativo do Centenário da Restauração, editada pela Diocese de Leiria-Fátima, em 2020. O que nos pode dizer sobre esta obra?

(MDD) Para além do trabalho no Santuário de Fátima, tenho o gosto de dirigir o Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima, organismo que foi chamado a dar corpo a parte das celebrações do centenário da restauração da Diocese de Leiria (1918-2018), daí resultando, em parceria com a Academia Portuguesa da História, a que tenho a honra de pertencer, um congresso e as atas que respeitam às intervenções dos investigadores. A obra conta com grandes especialistas nas áreas da História e da História da Arte e divide-se em cinco partes: “A criação de uma diocese: antecedentes e fundação”, “A Diocese de Leiria na Época Moderna”, “A diocese restaurada: aproximações à sua identidade”, “O primeiro século da diocese restaurada” e “Património artístico e identitário da Diocese de Leiria-Fátima”. Penso terem ficado abordados os aspetos mais significativos da História da Diocese de Leiria (a partir de 1984, denominada de Leiria-Fátima), mas o meu desejo seria o de que esta obra fosse a semente para uma história geral da diocese em sentido mais amplo que pudesse aprofundar ainda mais o que foi cada conjuntura histórica por que passou a comunidade cristã que neste território viveu.

(ARCHIVOZ) Quais os projetos mais relevantes que coordenou, na qualidade de diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos, e que balanço faz do exercício deste cargo?

(MDD) Trabalhar no Santuário de Fátima é um verdadeiro privilégio, desde logo pela própria matéria de trabalho que temos, mas também pela facilidade que a Instituição nos proporciona no que respeita a alcançarmos os objetivos traçados, sempre com muito rigor, é certo, mas também com uma grande confiança no que propomos. Quase não consigo destacar projetos específicos, desde as diferentes jornadas de estudo e de apresentação de resultados relativos aos trabalhos que realizamos e que podem ser úteis para outros profissionais que têm preocupações análogas à nossas (Jornadas do Museu do Santuário de Fátima; Jornadas de Arquivo e Biblioteca), desde as exposições que levámos a cabo, aos cursos de verão (já com seis edições realizadas) que pretendem atrair investigadores de diferentes escolas para Fátima e dar a conhecer dimensões de Fátima que carecem de análises académicas. Tudo isto é fruto de um trabalho muito árduo de equipas que, embora pequenas, são muito dedicadas e trabalham, de motu proprio, muito além do que é o exigível do ponto de vista contratual, pois sentem-se parte dos projetos e têm um brio muito grande no que apresentamos. Há projetos que nos marcam por serem sínteses do que defendemos ser importante na comunicação de Fátima através da linguagem contemporânea: lembro-me de obras de arte encomendadas pelo Santuário de Fátima, na esteira do que é a sua grande identidade mecenática ao longo de um século (tão pouco reconhecida, mas verdadeiramente única no nosso país); lembro-me dos oito números da revista “Fátima XXI”, que saíram nos anos da celebração do Centenário das Aparições, que mostrou uma dimensão de Fátima que a muitos surpreendeu pela pluridisciplinaridade das abordagens ao fenómeno de Fátima.

A forma científica como tratamos quer do património edificado quer do património móvel, a começar pela Imagem de Nossa Senhora de Fátima, um dos mais importantes ícones para os católicos do mundo inteiro, e que conta com o auxílio de muitos outros profissionais, inseridos em equipas interdisciplinares, é também uma das nossas preocupações. Como nos restantes projetos, tentamos sempre perseguir essa aliança entre fé e ciência, comunicando com os diferentes públicos, sem esquecermos os que têm uma relação devocional com Fátima, mas sem esquecermos, também, os públicos das academias e os intelectuais, sem descuidarmos o que os documentos da Igreja chamam de via pulchritudinis, essa via da beleza que tão importante é para o mundo contemporâneo. Nada do que descrevo corresponde ao trabalho de uma só pessoa, como é fácil de perceber, mas de um conjunto diversificado de profissionais superiormente dirigidos pelo Reitor da instituição.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Quais são os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o impacto deste contexto tão negativo?

(MDD) Gosto de pensar neste tempo que somos chamados a viver como um tempo desafiador, de chamada de atenção para o que somos e para o que queremos continuar a ser. É muito duro estarmos habituados a 300 mil visitantes numa exposição e passarmos a ter muito muito menos; é muito duro redefinirmos, inclusivamente, metodologias de trabalho, como aconteceu quando fomos obrigados ao isolamento uns dos outros, a fim de trabalharmos a partir de casa; é muito difícil demonstrarmos que nesse tempo de epidemia as áreas do saber relacionadas com a memória continuam a ser necessárias. Mas não poderemos definhar, sob pena de faltarmos ao compromisso que subjaz à nossa área de ação que é social e ao serviço da sociedade. O ser humano não pode viver sem memória, sob pena de se perder na cilada do Alzheimer que mata todo o corpo a partir da cognição. É por isso que as áreas de estudo das humanidades — não apenas estas, claro está — são tão essenciais (a palavra vem mesmo de essência e faz parte da composição dos perfumes que alguns dizem não serem necessários à vida, mas que a mais bela das poesias diz ser tão importante).

(ARCHIVOZ) Considerando o extraordinário dinamismo que define o Museu do Santuário de Fátima, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para o próximo ano?

(MDD) Para além das iniciativas ligadas aos espaços de exposição do acervo, designadamente à exposição temporária que se encontra patente ao público sobre “Os Rostos de Fátima: fisionomias de uma paisagem espiritual”, que levam a acrescentar diferentes valores (formativos, de fruição, etc.) relativamente ao que está exposto, estamos a trabalhar para que no próximo ano se possam dar à estampa algumas publicações sobre o património artístico musealizado do Santuário de Fátima. Assim estes tempos de incerteza não nos atraiçoem os projetos delineados.

(ARCHIVOZ) Para finalizar, na sua opinião, quais são os grandes desafios que os museus portugueses, e os respetivos profissionais, têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(MDD) Talvez não saiba responder bem à pergunta, porquanto ela é necessariamente complexa. Tentarei responder e, ao mesmo tempo, fugir dela, escudando-me num binómio que me parece poder estar em perigo: ciência e arte (e algum engenho… e já deixa de ser um binómio); ciência e arte têm de ser inseparáveis se queremos fazer parte de uma comunidade que, entre outros agentes, tem ao serviço dessa comunidade os arquivistas, os bibliotecários, os museólogos, os investigadores ou, se quisermos, o que costumo chamar de perscrutadores do pensamento humano. Sem a consciência do serviço não é possível levar a cabo a missão dos Arquivos, das Bibliotecas e dos Museus. Os discursos autocentrados não levam sempre aos típicos queixumes sobre as tutelas? por outro lado, precisam ainda as tutelas de que se lhes explique a importância destas áreas para a sobrevivência da humanidade? as liturgias dos museus, dos arquivos e das bibliotecas não são muitas vezes impeditivas de diálogos com a comunidade? as exposições temporárias de média e de longa duração e o aproveitamento de materiais e equipamentos não serão uma figura a equacionar num tempo em que todos sentimos já as consequências do grande desgaste do planeta que habitamos? a experiência museológica, com uma contextualização acertada, com recurso a uma boa e competente apresentação gráfica e tecnológica, sem, contudo, delírios gráficos e tecnológicos, não pode favorecer o visitante e apresentar o museu como lugar de aprendizagem, pois o visitante não pode ser o mesmo antes e depois da visita a um espaço museológico?

Longe da genialidade de José Mattoso quando cunhou a expressão “História Contemplativa”, gosto de pensar nos museus a partir desse conceito que tenho tentado difundir e que transcrevo para “Museologia Contemplativa”, a que não deixa de lado essa via pulchritudinis que tão importante é para a humanidade. Os museus — tenham os acervos que tiverem — têm necessariamente de trilhar este exigente caminho de verdade.

Imagem cedida pelo entrevistado: Núcleo da Exposição “Os rostos de Fátima” (fotografia: Arquivo do Santuário de Fátima)


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“… se é importante captar novos associados é também muito importante estar próximo daqueles que já o são”: Entrevista com Ana Alves Pereira

Entrevistámos Ana Alves Pereira, Presidente da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD).

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso formativo e profissional, e das funções que desempenha atualmente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa

(Ana Alves Pereira) Fiz a minha formação em Ciências Documentais nos anos 90, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, comecei a trabalhar em 1996 na Biblioteca da então Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Leiria e, em 2000, vim para a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, onde estou até hoje com um intervalo, entre 2016 e 2018, quando estive na Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Posso dizer que esse foi, certamente, o maior desafio profissional que tive até agora, foi um tempo de trabalho muito intenso e muito exigente, mas também muito gratificante pelos projetos desenvolvidos, pela equipa com que tive o privilégio de trabalhar e por todas as pessoas com quem interagi no âmbito dessas funções. Atualmente, coordeno a Divisão de Documentação e Cultura da FCT NOVA. Este serviço, além da Biblioteca, tem associado um espaço American Corner e um FabLab que resultam de uma parceria, já com 10 anos, com a Embaixada dos EUA em Lisboa. Para além destes dois projetos, a DDC da FCT NOVA caracteriza-se pela forma consistente como interage com a comunidade académica, através de um programa de formação de utilizadores em Literacia da Informação e, também, com a comunidade envolvente, através de um programa cultural que pode ser usufruído por qualquer pessoa que nos queira visitar. Acreditamos veementemente que a formação dos estudantes de ensino superior também passa pela fruição de atividades culturalmente desafiantes e é isso que procuramos fazer.

(ARCHIVOZ) Na sequência das eleições para os Órgãos Sociais da BAD, para o triénio 2021-2023, realizadas a 12 de dezembro de 2020, foi eleita a lista “Construir Juntos”, de que é Presidente do Conselho Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação (BAD). Pode dizer-nos quais os eixos estratégicos do plano de ação definido e como é que este será operacionalizado?

(AAP) Este triénio marca um momento de mudança para a Associação em resultado da revisão estatutária que aconteceu em 2019. Estes Estatutos permitem a integração de novos profissionais com um perfil mais alargado e o envolvimento de mais associados nos Órgãos Sociais da BAD.

Esta forma de funcionamento tem-se revelado muito interessante porque há uma participação mais equitativa dos membros dos Órgãos Sociais na tomada de decisão, na vida e nas atividades da Associação. Por outro lado, coloca desafios adicionais na gestão organizacional, na dinâmica e funcionamento da BAD porque são mais pessoas para envolver, para ouvir e conjugar agendas e não nos podemos esquecer que todo este trabalho é feito de forma absolutamente voluntária.

O Plano de Ação, para este triénio, foi construído com a colaboração de toda a equipa, à medida que esta se foi formando, delineado em torno do mote “Construir Juntos”. Representa uma ideia muito clara de que a BAD resulta de uma vontade coletiva e da necessidade de envolver mais os associados nas decisões da BAD e nas atividades que desenvolve. Procurou-se com este Plano de Ação dar expressão a diversas sensibilidades, visões e tendências emergentes na área da documentação e informação e apresenta-se em torno de cinco eixos estratégicos:

  • a reestruturação orgânica, o alargamento do âmbito profissional – mobilizando novos profissionais – e a atualização do âmbito de atuação da Associação obrigam à revisão das áreas de atuação a nível nacional e regional;
  • o processo de renovação digital na Associação é inevitável, impondo-se a adoção de estratégias de atualização e inovação;
  • a oferta formativa direcionada para a aquisição de novas competências e estímulo profissional abarcando novas áreas e novos públicos;
  • a dimensão nacional e regional, reforçando uma rede de trabalho e proximidade de profissionais e instituições, que inclui também uma dimensão internacional, alinhando estratégias com instituições congéneres, parceiras e outras;
  • uma ação pública que afirme e potencie o lugar dos profissionais da informação na sociedade, colaborando estrategicamente na elaboração de políticas públicas na área da informação e da documentação.

Estes eixos estratégicos estão a ser operacionalizados através das ações desenvolvidas pelo Conselho Nacional e pelas Delegações Regionais e os Grupos de Trabalho, que, como referido, têm uma expressão muito significativa na forma de funcionamento atual da BAD. De referir também, a ligação muito próxima com todos os associados e com os profissionais da área que, ainda não sendo associados, esperamos que o venham a ser muito em breve.

(ARCHIVOZ) Pode apresentar-nos a BAD, no que respeita aos seus fins e objetivos, e que balanço faz com vista à efetivação dos mesmos?

(AAP) Os fins e objetivos da BAD estão expressos de forma muito clara nos seus estatutos que, em linhas genéricas, são: defender e apoiar os interesses dos seus associados; sensibilizar para a importância da criação e desenvolvimento de serviços de Informação e Documentação; e, fazer progredir a área profissional e científica da Informação e Documentação.

Neste momento ainda é cedo para fazer um balanço da concretização dos nossos objetivos, em todo o caso satisfaz-nos o facto de a oferta formativa ter uma taxa de procura de quase 100%, o que é excelente e reflete a atualidade da oferta formativa disponibilizada, o trabalho da equipa e também a aposta na formação em e-learning. Estamos a trabalhar num Estudo sobre os Profissionais da Informação em Portugal, é um trabalho árduo que demora o seu tempo, mas que está a correr a bom ritmo e é fundamental porque só se nos conhecermos é que poderemos fazer propostas para melhorar políticas, para a defesa da profissão e a valorização dos profissionais da informação e documentação.

Tem sido muito positiva a presença dos associados e profissionais não associados nas várias atividades organizadas pelos Grupos de Trabalho e pelas Delegações Regionais, e foram muitas desde janeiro para cá.

Também destacaria a forte participação cívica da BAD pois desde que tomámos posse foram já várias as cartas abertas e tomadas de posição, quer a Associação por si ou em conjunto com outras associações: participámos na consulta pública ao Plano de Resolução e Resiliência (PRR) com o envio de propostas; estivemos numa audição parlamentar na Comissão Parlamentar Comissão de CulturaComunicaçãoJuventude e Desporto; reunimos com o grupo parlamentar do Partido Socialista. Em suma, tem sido um período muito dinâmico e a BAD tem procurado afirmar a sua posição e ser uma voz sempre ativa.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer sobre a forma como a BAD tem procurado intervir para a promoção da Sociedade da Informação e na defesa dos interesses dos profissionais da informação nos últimos anos?

(AAP)A dimensão interventiva da Associação tem estado no seu ADN desde a sua criação, por isso têm sido realizadas diversas ações, campanhas, eventos e tomadas de posição que refletem bem como ao longo dos anos a BAD tem feito a defesa e afirmação da profissão. Este é um trabalho em curso, o que significa que nunca está terminado. Relativamente à Sociedade da Informação, a BAD prossegue a sua ação pública sob dois eixos principais: a um nível macro, onde o objetivo é colaborar no desenvolvimento de políticas públicas na área da informação, nomeadamente através da ação dos seus Grupos de Trabalho e dos Órgãos Sociais; outro, é no dia a dia dos Associados.  Procuramos dar voz aos associados, criar espaços para o debate, para a partilha e para a aprendizagem. Isto faz-se com iniciativas como as Conversas entre Margens ou as Conversas com Norte, por exemplo, faz-se através da Newsletter, faz-se com programas de mobilidade, com a formação, com workshops e webinars, mas também com um trabalho de proximidade que são as respostas diárias a emails que nos chegam com dúvidas diversas dos associados. Queremos que os associados sintam que podem contar com a BAD, e, ao mesmo tempo, queremos contar com todos, com a sua capacidade transformadora em cada biblioteca, arquivo, centro de documentação e informação. Porque são as pequenas e grandes ações destes profissionais, que colocam em marcha a Sociedade da Informação e afirmam o papel social e a relevância da profissão transversalmente.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à cooperação e ligações institucionais?

(AAP) Neste campo a BAD tem uma margem grande para fazer trabalho, temos alguns parceiros com quem temos boas relações de colaboração, protocolos e projetos conjuntos. No entanto, a pandemia tem dificultado muito o contacto com estes e com novos parceiros. Temos a intenção de alargar mais o nosso campo de colaboração com outras entidades. A proximidade criada com a existência e atuação das Delegações Regionais da BAD, serão, certamente uma mais-valia na consolidação de alianças e de novas colaborações. A criação e reforço de parcerias de âmbito local, regional ou nacional com organismos e iniciativas de áreas afins são, como tal, objetivos essenciais a cumprir.

(ARCHIVOZ) Considerando o elevado número de profissionais da informação em Portugal, fica a sensação que a BAD não tem, até ao momento, conseguido captar um número significativo dos mesmos para que se tornem seus associados? Como inverter esta situação?

(AAP) É verdade, isso é uma realidade e uma preocupação para esta direção, de tal forma que uma das vogais tem como área de intervenção, os Associados.

Pessoalmente, penso que há um misto de razões que justificam o facto de não termos mais associados. Culturalmente, não somos tão participativos como deveríamos, nem sempre temos a confiança suficiente para participar, achamos que é preciso ter características ou talentos especiais para fazer parte de uma associação ou da sua direção e não é verdade, qualquer pessoa com mais ou menos disponibilidade pode dar o seu contributo e todos os contributos são muito válidos.

Acredito que se pode inverter esta situação de diferentes formas, como já referi, o Estudo sobre a Profissão é fundamental para termos linhas de ação mais realistas. Comunicar melhor e chegar melhor e a mais pessoas é outro caminho. Assim, estamos a renovar o site da BAD, que esperamos vá mais ao encontro das necessidades dos nossos associados, estreitando caminhos de comunicação; mantemos uma Newsletter mensal, onde é dada voz aos associados através de uma entrevista a um associado; estamos mais presentes nas redes sociais; e, o Notícia BAD é outro canal que permite manter uma atualização diária do que vai acontecendo.

Em relação às publicações, vamos procurar valorizar os Cadernos BAD através da integração de novos projetos editoriais, tentando manter uma periodicidade semestral, e que estejam mais próximos da academia e dos profissionais do espaço lusófono. Temos também a intenção de criar uma nova publicação – o Anuário BAD. Esta edição tem como objetivo publicar estudos anuais sobre a realidade nacional das instituições e dos seus profissionais e de reflexão sobre tendências no exercício da profissão. Este ano iremos dedicar-nos à definição da missão desta nova publicação e a conceber a estrutura do primeiro número, que se prevê seja publicado no início do próximo ano.

A área da formação tem tido um papel fundamental na captação de associados, com uma oferta atual seguindo as novas tendências na capacitação para novas competências. Os vários Grupos de Trabalhos, que estão abertos a qualquer profissional da área, seja associado ou não da BAD, são também uma excelente porta de entrada para a Associação e de possibilidade de colaboração muito próxima.

Pertencer a uma associação é uma experiência muito gratificante e enriquecedora, quer em termos profissionais quer pessoais. Penso que todos se deveriam dar uma oportunidade e experimentar as vantagens de pertencer a uma associação deste tipo. Mas, se é importante captar novos associados é também muito importante estar próximo daqueles que já o são, apoiando e valorizando as suas iniciativas e contributos. Estimamos muito aqueles que já são associados e procuramos dar conta disso.

Gostaria de deixar mais esta nota de forma a sermos cada vez mais e mais fortes, seria ótimo que cada associado se sentisse um embaixador da BAD junto dos profissionais que ainda não o são. Da minha parte fica desde já aqui o convite para que todos se associem, se envolvam e se sintam parte da equipa.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos serviços de informação, os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo uma retrospetiva desta nova realidade, que se faz sentir desde meados de março de 2020, entende que os serviços de informação portugueses foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(AAP) Eu acho que os serviços de informação em Portugal tiveram uma resposta excelente, foram muito rápidos a reagir e a encontrar soluções e, sobretudo, mantiveram sempre o foco na sua missão enquanto serviço público e do papel que têm na sociedade. Mostraram sempre toda a disponibilidade e criatividade para dar a melhor resposta possível e não deixar ninguém sem apoio. O facto de, após os confinamentos, terem sido dos primeiros serviços a abrir ao público, mostra bem a importância estratégica que têm na sociedade.

(ARCHIVOZ) O que nos pode adiantar sobre as iniciativas programadas pela BAD para o último trimestre deste ano e para 2022, desde logo, por exemplo, ao nível dos eventos a realizar?

(AAP) Este ano está a ser ainda fortemente marcado pela pandemia o que condiciona imenso as atividades da BAD. No entanto, este ano já estamos a ter alguma formação presencial, quer em Lisboa quer no Porto. Vamos relançar o prémio Raúl Proença que tem estado um pouco adormecido e lançar o Prémio BAD Maria José Moura. Este último, anunciado recentemente, tem como objetivo recordar e homenagear uma associada e profissional de excelência, que esteve presente na vida da Associação de forma muito marcante. Este prémio visa reconhecer os profissionais da área BAD, que se encontram no exercício das suas funções, em duas categorias: Jovem Profissional e Reconhecimento Profissional. Prevemos entregar ainda este ano, por altura do 48.º aniversário da BAD, o prémio aos primeiros premiados.

O aniversário da BAD, como qualquer aniversário, é um momento especial e pretendemos celebrá-lo de uma forma mais alargada envolvendo os associados. A BAD é de todos os associados e estes momentos de celebração devem ser partilhados com aqueles que são e fazem a Associação.

Alguns Grupos de Trabalho têm previstas iniciativas presenciais, nomeadamente o GT dos Aquivos Municipais, e algumas Delegações Regionais estão a avaliar a situação para perceberem se podem avançar com a realização de iniciativas presenciais ou se se mantêm online, na linha do que se tem realizado até aqui.

Em relação a 2022 a incerteza é ainda muito grande, por isso foi decidido adiar o congresso da BAD para 2023. Não foi uma decisão fácil, mas pareceu-nos ser a mais prudente. Em todo o caso, no próximo ano, serão organizadas várias iniciativas, expectavelmente presenciais, a cargo da Direção da BAD, das Delegações Regionais e dos Grupos de Trabalho, que serão excelentes oportunidades para retomamos o contacto com os colegas. Serão iniciativas com menos participantes do que teria o congresso, mas igualmente mobilizadoras dos associados e de outros profissionais.

(ARCHIVOZ) Uma última pergunta, como é que vê o futuro dos serviços de informação em Portugal e quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(AAP) Eu acho que os profissionais dos serviços de informação em Portugal estão atentos às dinâmicas que surgem à volta da nossa profissão, têm apostado imenso na sua formação e capacitação, o que os habilita a dar a melhor resposta a todos os desafios que surgem e que são ao mesmo tempo oportunidades. O desenvolvimento profissional tem sido um mote para a BAD, motivando a reflexão e a observação continuadas sobre a profissão. Nesse sentido há que otimizar, inspirar e aprimorar a prática profissional, assente em valores e ações impulsionadoras da nossa atuação, ao nível técnico, mas também pedagógico ou de relacionamento interpessoal. A atualização de competências passa necessariamente pela adaptação a ambientes de e-learning e por conteúdos que promovam novas competências, procurando abranger novas áreas e atingir novos públicos. Tudo passa por estarmos atentos aos sinais de mudança, não nos acomodarmos, conhecermo-nos, trabalharmos em rede.

Os profissionais de informação são atores em todo o ciclo da informação: desde a produção, tratamento e organização, até à curadoria e preservação, mas também com pessoas e para as pessoas. Todas as alterações sociais e tecnológicas que interfiram com este ciclo, podem alterar os processos e os procedimentos em termos de acesso ou disponibilização da informação. Tal constitui um enorme desafio, que é em si mesmo uma grande oportunidade. Por exemplo, a transição digital, a diversificação de públicos e as suas maiores exigências, ou as assimetrias regionais que impedem que todos tenhamos os mesmos recursos para desenvolver o nosso trabalho, são realidades muito atuais, que requerem atenção e preparação em diversas dimensões. Através de uma Associação forte, que promova interligações flexíveis, inovadoras e criativas, podemos potenciar o nosso papel na vida dos nossos utilizadores e de todos os cidadãos, que beneficiarão certamente do nosso investimento em sermos melhores profissionais.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“… tempo que quase não tem medida encurtadas que estão acessibilidades e distâncias pelos meios de comunicação e pela Internet.”: Entrevista com Maria Clara Fevereiro

Entrevistámos Maria Clara Fevereiro, Diretora do Arquivo Distrital de Castelo Branco.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu percurso profissional, académico e docente, até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Castelo Branco, em 2007.

(Maria Clara Fevereiro) Possuo como habilitação académica/literária a licenciatura em História (1986) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e o Curso de Especialização em Ciências Documentais/Opção Arquivo (1991), pela mesma Faculdade, complementada ao longo dos anos pela frequência de outros cursos dos quais destaco o Curso de Especialização em Gestão e Administração Pública,  o FORGEP – Programa de Formação em Gestão Pública, o  CADAP – Curso de Alta Direção em Administração Pública, Recursos Humanos e LVCR Igualdade de Oportunidades e de Género.

A minha iniciação no mundo laboral deu-se com a atividade docente, tendo de 1986-1988 lecionado em várias Escolas Secundárias; de 1989-1993 desempenhei funções no Arquivo Distrital de Castelo Branco; em 1994 ingressei, como técnica superior de arquivo no quadro da Câmara Municipal da Covilhã onde permaneci até 2000, ano em que regressei ao Arquivo Distrital integrando o seu quadro de pessoal como técnica superior de arquivo e desde 2007 assumi as funções de chefe de divisão.

Durante este percurso fui desenvolvendo outras atividades, para além das inerentes à carreira e ao cargo, tais como coordenadora Distrital – na área de Arquivo – no Projeto de Inventariação do Património Cultural Móvel,   orientadora de estágios curriculares e profissionais,  lecionei o módulo de “Arquivo” na E.T.E.P.A. – Castelo Branco e o módulo de “Direito para Arquivos” do curso de Ciências Documentais-variante Arquivo – no I.S.L.A. – Leiria, experiências que me enriqueceram pessoal e profissionalmente.

(ARCHIVOZ) Como mencionado, é Diretora do Arquivo Distrital de Castelo Branco, desde 2007. Que balanço faz do exercício deste cargo, considerando todos os desafios inerentes, desde logo o escasso número de colaboradores?

(MCFV) Atenta às difíceis condições pessoais em que assumi a direção do Arquivo, tem sido um desafio constante tentar manter os padrões de qualidade, de empenho, de profissionalismo dos que me antecederam no cargo, e honrar o legado de todos os que construíram o Nosso passado, esperando não os desrespeitar na forma como concretizamos o presente.

O aumento da disponibilidade e acesso à informação de arquivo, nomeadamente através da disponibilização de registos descritivos e imagens digitais da documentação à nossa guarda, impulsionados pelos meios tecnológicos/digitais que nos permitiram, através de novas ferramentas, chegar a um público mais diversificado e consequentemente mais exigente nas respostas expectáveis por parte do serviço.

O trabalho realizado tem privilegiado sobretudo o utilizador, e por isso o seu atendimento com qualidade; Uma qualidade que se pretende baseada num atendimento célere, produtivo e eficaz consubstanciado na resposta imediata, simplificada, completa, pelos profissionais do arquivo cuja forma e competência no servir tem proporcionado aos cidadãos que nos procuram um grau de satisfação frequentemente verbalizado ou escrito.

Os recursos humanos têm-se mantido estáveis ao longo deste período, a partilha de conhecimentos, a atualização e o desenvolvimento de competências em contexto de trabalho por parte dos funcionários tem permitido dar resposta aos desafios que os desenvolvimentos tecnológicos e sobretudo digitais nos têm trazido, com reflexo, quase imediato!, na reformulação/adaptação de procedimentos técnico-administrativos que possam contribuir para a desburocratização e desmaterialização de processos, a transparência e uma administração pública mais “verde”.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Castelo Branco é responsável por um vasto e rico acervo documental. Que fundos e coleções gostaria de destacar e quais os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(MCFV) Conforme refere, o Arquivo Distrital é detentor de um vasto acervo documental de tão diversificada natureza que não permite destacar uma em relação a outra.

A maioria da documentação em arquivo pertence – como aliás é natural num Arquivo Distrital! – aos grupos de arquivos: Judicial, Notarial e Paroquial, mas no nosso espólio também contamos com documentação proveniente do Governo Civil, da Assembleia Distrital, de Câmaras Municipais, de Administrações do Concelho, que chegaram até nós por via de incorporação, de protocolo, da figura do depósito, ou ainda, mercê do “silencioso” trabalho que envolve todos quantos se preocupam na salvaguarda do património documental.

O âmbito cronológico estende-se de meados do séc. XVI (1573-mais antigo documento em arquivo) até inícios do séc. XXI.

Poderei, no entanto, tendo por base a procura dos utilizadores, realçar os fundos paroquiais, notariais e judiciais pela importância que assumem junto do cidadão para a satisfação das suas necessidades legais, genealógicas, entre outras.

Salvaguardadas as restrições impostas legalmente ou por motivos de conservação das espécies documentais, o utilizador poderá aceder à informação remotamente através de pesquisa na base de dados de descrição arquivistica DigitArq https://digitarq.adctb.arquivos.pt/ ou de consulta na página eletrónica do Arquivo Distrital de Castelo Branco https://adctb.dglab.gov.pt/, onde será direcionado para a descrição do(s) fundo(s) na referida base de dados.

Optando pela consulta presencial (atualmente com as restrições derivadas da pandemia), na Sala de Leitura, o leitor terá acesso aos instrumentos de descrição em suporte papel e às obras existentes na biblioteca de apoio.

Todos os serviços de pesquisa, reprodução e acesso à documentação são efetuados através da plataforma CRAV – Consulta Real em Ambiente Virtual, que funciona como balcão eletrónico, mediante registo prévio do utilizador. Todos os procedimentos são efetuados dentro da plataforma, permitindo ao cidadão manter-se informado sobre o andamento do seu pedido.

(ARCHIVOZ) Em 2019 foi incorporado no espólio do Arquivo Distrital de Castelo Branco o manuscrito “Há de servir para em ele se lançarem as Receitas e Despesas da Fábrica Menor do Lugar de Alcongosta”. O que nos pode dizer sob este manuscrito e do interesse que tem gerado junto de investigadores?

(MCFV) Pertencente ao espólio da Biblioteca do Prof. Dr. José Hermano Saraiva; foi adquirido em 2018, em leilão, pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e entregue ao Arquivo em 29/03/2019.

Contém registos variados de receitas e despesas, de portarias e outros procedimentos eclesiásticos, de assentos das jóias em prata e ouro remetidas para o Seminário e para o Depósito Geral da Guarda, de emolumentos arrecadados na paróquia (de entre os quais donativos em dinheiro para as despesas do Exército Português) e enviados para o Depósito Geral do Fundão, e do inventário dos bens eclesiásticos que pertencem à igreja paroquial de Alcongosta.

Logo após a receção do manuscrito, este foi descrito arquivisticamente e juntamente com as suas imagens disponibilizado em linha ficando acessível ao público, não tivemos, até ao momento, retorno sobre o interesse gerado junto dos investigadores.

(ARCHIVOZ) Considerando a importância da difusão da informação, em qualquer serviço de informação arquivístico, particularmente tendo em conta o contexto de pandemia que nos encontramos a viver desde meados de março de 2020, pode dar-nos conta do que tem sido feito nessa matéria pelo Arquivo Distrital de Castelo Branco nos últimos anos?

(MCFV) Um dos principais objetivos do Arquivo é a difusão/divulgação da informação, só assim é possível que os utilizadores, estendendo-se por uma diáspora que não sendo apenas nacional tem por fronteiras o mundo em que vivemos, tenham conhecimento dos documentos que estão à nossa guarda, consciência do trabalho que realizamos e das iniciativas que promovemos e/ou participamos.

Para a concretização daquele objetivo tem sido essencial a disponibilização em linha dos registos descritivos e imagens digitais da documentação à nossa guarda.

Foi no ano de 2012 que iniciamos o processo de digitalização de documentação através do Projeto “Encontros e Desencontros: Movimentos Migratórios”, subsidiado pelo Programa ADAI (Apoyo al Desarrollo de Archivos Iberoamericanos), o projeto consistiu na higienização, acondicionamento, estudo orgânico-funcional, descrição (DigitArq), digitalização, integração e disponibilização em linha dos registos de passaportes e registos de vistos de passaportes do Fundo do Governo Civil de Castelo Branco; foi também durante este ano que se iniciou a digitalização e disponibilização em linha dos registos paroquiais existentes neste Arquivo realizada no âmbito do protocolo celebrado com a Family Search.

Como contributo para a iniciativa do Conselho Intergovernamental de Iberoarquivos que declarou “2019 – Ano Iberoamericano dos Arquivos para a Transparência e Memória”, durante os anos de 2019-2020 o Arquivo digitalizou e disponibilizou as imagens dos “Processos de Pedidos de Passaportes” do Fundo do Governo Civil de Castelo Branco.

Neste momento o Arquivo tem disponibilizadas cerca de 430.000 imagens de documentação pertencente a vários fundos, entre os quais: Paroquiais, Notariais, Governo Civil de Castelo Branco, Câmaras Municipais, Administrações do concelho.

A divulgação dos serviços tem também sido feita através de visitas de estudo; exposições nomeadamente no âmbito de iniciativas como: “Dia Aberto no Arquivo”, “Jornadas Europeias do Património”, “Dia Internacional dos Arquivos”, “Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja”; participação em colóquios, congressos, encontros; entre outras.

Temos também aproveitado as valências da nossa página eletrónica (https://adctb.dglab.gov.pt/) para noticiar informação sobre iniciativas do Arquivo, sobre fundos documentais e a publicação/divulgação periódica em “Documento em Destaque” de documentos relacionados com efemérides ou tão simplesmente pela curiosidade do seu conteúdo.

Do trabalho realizado temos obtido algum retorno, positivo!, dos nossos utilizadores, quer através das respostas aos inquéritos disponibilizados na página do Arquivo e presencialmente na Sala de Leitura quer no contacto pessoal.

Para o bem e para o mal! Todos estamos hoje a uma distância que deixou de se medir em quilómetros para o passar a ser em tempo; um tempo que quase não tem medida, encurtadas que estão acessibilidades e distâncias pelos meios de comunicação e pela internet.

Em tempos de pandemia não foi possível efetuar algumas destas atividades, no entanto através dos meios digitais foi sempre possível ao cidadão aceder à informação e obter respostas por parte do serviço durante os períodos em que a sua deslocação física ao Arquivo não era permitida.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde há mais de um ano, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Castelo Branco de forma a enfrentar esta nova realidade, no que respeita à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na difusão da informação?

(MCFV) A COVID-19 trouxe-nos desafios a vários níveis: saúde, social, pessoal, profissional, entre outros; Tudo diferente! distanciamento, confinamento e isolamento sociais; etiqueta respiratória; higienização pessoal e de espaços, máscaras, luvas, gel desinfetante; planos de contingência; encerramento dos serviços; teletrabalho; etc. De repente, fomos “obrigados” a olhar, a perspetivar e a vivenciar de formas totalmente diferentes a realidade até ali tão segura… mas! lá nos esforçámos e tentámos encarar da “melhor maneira” as alterações que nos eram exigidas, enfim! fazermos a nossa parte.

Houve a necessidade de reorganizar os serviços a vários níveis, seguindo as recomendações e/ou orientações superiores e da autoridade de saúde, definindo percursos de circulação, adaptando postos de trabalho, redimensionando a capacidade da Sala de Leitura, adotando novos métodos de trabalho interno e externo, tendo-se recorrido em alguns períodos ao teletrabalho e/ou ao agendamento prévio.

Durante este período foi possível, mesmo nas ocasiões em que estivemos em teletrabalho, através dos meios tecnológicos e ferramentas digitais que temos à disposição, realçando o Balcão eletrónico (CRAV), continuar a dar resposta aos pedidos dos utilizadores e garantir a execução de algumas tarefas por parte dos colaboradores.

Neste contexto de incerteza, que tem colocado à prova a nossa capacidade de criar novas e diferentes formas de olhar e vivenciar cada dia, quer a nível pessoal como profissional, sendo que os dois se entrelaçam, só a interajuda de todos os colaboradores do Arquivo e a compreensão e incentivo dos utilizadores tem permitido tornar mais “normal” toda esta “anormalidade”!

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados no decurso de 2021 no Arquivo Distrital de Castelo Branco?

(MCFV) Como serviço público, o nosso principal objetivo/projeto continuará a ser garantir um desempenho que satisfaça as exigências do cidadão que nos procura através da prestação de serviços com qualidade, responsabilização e acolhimento no serviço Público, do rigor e da transparência, da valorização pessoal, do trabalho em equipa e da competência, atendendo aos princípios da ética, da moral e da vontade própria/individual.

Derivando dos objetivos acordados superiormente para o Arquivo, que se prolongam no tempo, os projetos de descrição e digitalização que temos a decorrer têm como objetivo o aumento da disponibilidade e acesso à informação de arquivo, nomeadamente através da disponibilização em linha de registos descritivos e de imagens digitais da documentação à guarda do Arquivo.

Continuaremos a apostar no apoio técnico a entidades do distrito para a salvaguarda do património arquivístico e na implementação e/ou gestão de sistemas de arquivo e na cooperação com outros arquivos do distrito.

(ARCHIVOZ) Finalmente, quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os profissionais da informação e os serviços de informação arquivística se deparam na atualidade.

(MCFV) Os arquivos, em si mesmos, são orgânicos, refletindo por isso as diversas atividades e interações de instituições, de particulares e entre ambos; neste contexto, como tem acontecido ao longo dos séculos, aos profissionais de arquivo colocar-se-á o desafio de responder às “novas” formas de interagir, diretamente relacionadas com a exponencial proliferação de informação digitalizada (em substituição do papel) e/ou nado-digital, sendo que, na minha opinião esta resposta terá que ser multidisciplinar.

Continua a ser uma necessidade dotar as instituições de instalações, de equipamentos e de profissionais de arquivo no sentido de garantir condições para a melhor conservação, organização e gestão documental desde a produção ao destino final. Será também importante sensibilizar os cidadãos para a importância dos arquivos e torná-los parceiros neste processo. Só uma gestão profissional dos arquivos permitirá conservar o passado, preservar o presente e não comprometer o futuro.

Cabe por isso decidir o que pretendemos para os “nossos” arquivos!

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Os arquivistas devem, com olhos postos no presente e no futuro, lutar por consolidar de vez o passado”: Entrevista com Miguel Infante

Entrevistámos Miguel Infante, Diretor de Serviços de Documentação e Arquivo da Secretaria-Geral da Educação e Ciência.

(ARCHIVOZ) Desde 2012 que é Diretor de Serviços da Direção de Serviços de Documentação e de Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência. Fale-nos do seu percurso profissional até chegar às funções que desempenha atualmente, para além do Projeto SIIAMEI – Sistema Integrado de Informação Arquivística do Ministério da Economia, de que foi coordenador-geral entre 2009 e 2011.

(Miguel Infante) O meu percurso com o mundo dos arquivos aconteceu de uma forma inesperada e apaixonada. Estava no 3º ano do curso de história na Universidade Livre de Lisboa e, para fugir a uma opção de Paleografia II, inscrevi-me na disciplina de “Biblioteconomia e Arquivologia”, na altura ministrada pela Dr.ª Maria Teresa Cardoso da Inspeção-Geral de Bibliotecas e Arquivos. Foi paixão, ver a história por dentro, a realidade das fontes. No fim desse ano letivo fui convidado para trabalhar no extraordinário Arquivo da Família Sampayo, com o Professor Nuno Daupiás de Alcochete. Este foi o meu primeiro contacto com os arquivos. Deste trabalho passei a integrar a equipa que transferiu o chamado “Arquivo das Secretarias de Estado”, da Amora para a Biblioteca Nacional.

Durante este trabalho acabei a licenciatura em história na Universidade Autónoma de Lisboa e fiz a Pós-graduação em Ciências Documentais – variante de arquivo, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Ato continuo entrei para o Instituto Português de Arquivos, no ano da sua criação. Aqui entrei em contato com outra realidade apaixonante no mundo dos arquivos, a informatização. Trabalhei vários anos com a Dr.ª Ana Franqueira, onde iniciamos o processo de informatização dos arquivos históricos através do desenvolvimento do Arqbase. Foi uma altura fascinante, pois desde trabalhar com computadores de ecrã de fósforo e em modo DOS, acabamos por ver aparecer o Windows e a internet.

Do Instituto Português de Arquivos passei para o Arquivo Histórico Ultramarino, onde estive cerca de 15 anos. Desenvolvemos um trabalho de informatização e digitalização de fontes, bem como de recuperação do belo edifício do Palácio da Ega, onde o Arquivo está instalado.

Em 2005 fui para a Secretaria-Geral do Ministério da Economia como Chefe de Divisão de Arquivos, uma nova experiência, pois até aí sempre tinha trabalhado em arquivos históricos. Agora tinha de me preocupar com os arquivos correntes, com a gestão da informação arquivística e com o expediente, um novo desafio, onde aprendi muito.

Em 2012 fui convidado para ir trabalhar para Secretaria-Geral da Educação e Ciência, como diretor de serviços de documentação e de arquivo, cargo que detenho atualmente. Mais um desafio ao ter sob minha alçada os arquivos, mas também as bibliotecas e espólios museológicos.

Este percurso deu-me conhecimento das várias realidades dos arquivos e da arquivística portuguesa, bem como a minha passagem como professor das ex Pós-graduações da Faculdade de Letras de Lisboa e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e, a passagem por duas direções da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, deu-me uma imagem muito real do potencial, e dos defeitos, dos nossos profissionais.

Não querendo fugir à vossa questão, o SIIAMEI– Sistema Integrado de Informação Arquivística do Ministério da Economia, foi um projeto ambicioso que deu os seus frutos, pois permitiu dotar a Secretaria-Geral da Economia de um arquivo histórico, que não existia, e possibilitou o estabelecimento das bases para uma politica arquivista daquela área governativa.

Com o SIIAMEI foi criado um espaço físico de arquivo no MARL onde foram colocados cerca de 6.000 ml de documentação que estava espalhada por Lisboa, muita dela em condições muito pouco dignas. O arquivo criado era maioritariamente constituído por documentação em papel, mas incorporámos, em instalações próprias, o arquivo da Divisão para Pesquisa e Exploração do Petróleo, que tinha documentação em suporte magnético, bandas magnéticas com o registo de prospeções geológicas.

Com estas instalações começamos um trabalho de recolha e tratamento de documentação da Direções Regionais, o que permitiu preservar a documentação, libertar espaço físico nas várias instalações e começar a fornecer informação aos investigadores. Desenvolvemos uma politica de confiança. Todos os serviços sabiam que podiam contar com a Secretaria-Geral para recolher e tratar a documentação, mas também para lhes devolver os processos em caso de necessitarem, estamos a falar de processos de licenciamento na área da industria, comercio, termalismo, etc., processos que a qualquer momento poder ser reativados. Os serviços tinham a consciência que a documentação era sua, e nós, um veiculo para a tratar e preservar.

Esta movimentação da documentação era sempre feita a pedido das instituições, nunca imposto pela Secretaria-Geral. Tínhamos ótimas relações com as Direções Regionais e a Direção-Geral de Energia e Geologia (detentora de uma documentação fantástica).

Penso que o sucesso desta relação foi o fato de se ter baseado sempre em rostos. Desloquei-me a todas as instalações a ver as condições e a falar do projeto e das atividades que queríamos desenvolver. As pessoas viam rostos e não um nome institucional.

Com o SIIAMEI foi também feita a informatização do arquivo, utilizando o Archeevo, que foi disponibilizado no site da Secretaria-Geral, e começamos uma politica sistemática de digitalização.

Outra intervenção foi o trabalho desenvolvido no sentido de dotar os principais organismos de portarias de gestão documental.

Para o bom desenvolvimento do SIIAMEI contámos sempre com o apoio da DGLAB, que foi fundamental. Mas também não posso deixar de falar do papel do Secretário-Geral, Eng.º Mário Silva, que tinha uma perceção muito apurada para a importância do controlo da informação e dos arquivos, sabia que uma instituição, para ter sucesso, tinha de ter esta área bem controlada. Sem o seu apoio nunca teria sido possível existir um SIIAMEI.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer sobre o Sistema Integrado de Informação do Ministério da Educação e Ciência (SIIMEC) da Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência.

(MI) O SIIMEC é um sistema que vai sendo desenvolvido gradualmente. A designação surgiu por influência do trabalho que fiz na Economia, é uma designação temporal.

A realidade da Secretaria-Geral da Educação e Ciência é outra e por isso este “sistema de informação” tem de ser desenvolvido gradualmente, até porque englobará as áreas das bibliotecas e dos museus. Acresce que a realidade arquivística nacional sofreu evoluções, não está, e muito bem, ao nível de 2005.

Até agora conseguimos a elaboração de um Plano de Classificação Comum às áreas governativas da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, e da Educação, que mereceu despacho do Senhor Ministro da Educação e Ciência, Prof. Nuno Crato, no sentido de tornar obrigatória a sua aplicação.

Dentro de um trabalho interno desenvolvemos o PAMDA- Projeto de Avaliação de Massas Documentais Acumuladas, que permitiu o levantamento de todas as massas documentais existentes nos organismos a que a SGEC dá apoio, contribuindo para o desenvolvimento de várias ações como a elaboração de Relatórios de Avaliação, e para ter uma ideias de um universo espantoso de documentação que ultrapassa os 60 quilómetros e que necessita de tratamento e estabilização.

Desenvolvemos uma politica de modernização dos recursos informáticos existente, inclusive com a criação de uma rede de centros de informação, baseado no Retrievo, onde se pode consultar, em bloco ou individualmente, a informação da Secretaria-Geral (arquivos, bibliotecas e museus), do Arquivo da Ciência e Tecnologia (FCT), do Arquivo Ciência Viva (Centros Ciência Viva) e da biblioteca do CCCM (Centro Científico e Cultural de Macau). Esta rede está aberta à inclusão de mais organismos, assim eles informatizem a sua documentação.

Iniciámos uma politica de difusão da informação com a criação no site de duas áreas novas, uma ligada à publicação de Instrumentos de Acesso à Informação (que já conta com 26 produtos consultáveis) e outra de Extensão Cultural, onde se publicam textos, estudos, normas desenvolvidas pela Direção de Serviços, bem como o resultado de atividade publica desenvolvida como as conferências “Em redor da Memória” e as exposições feitas na entrada da nossa biblioteca.

Uma das preocupações é disponibilizar muito do belo trabalho já existente, nomeadamente exposições virtuais, não sou nada adepto da politica de terra queimada. Queremos dar acesso a toda a informação existente, inovando, e explorando novos caminhos.

Um dos pilares em que se baseia este “sistema integrado” reside na digitalização das fontes, para disponibilizar ao publico, e na divulgação de documentação inédita que está no nosso depósito e não foi objeto de tratamento. Por outro lado, damos sempre apoio às instituições que o solicitam quer na vertente informação histórica, quer na vertente da gestão da informação, temos neste momento uma colaboração sempre ativa e bidirecional, com o Liceu Camões, Parque Escolar, Escola Secundária Anselmo de Andrade, entre outros.

Quando se fala do sistema de informação da SGEC não podemos deixar de referir a criação da Pltaforma@LOGON que vai desmaterializar todas as relações de gestão arquivística com a SGEC. Esta plataforma está virada essencialmente para as instituições das áreas governativas a que damos apoio, e também, para o cidadão em geral, e será uma porta de ligação com a CLAV.

Todas as interações, desde simples pedidos de apoio técnico ou de empréstimo de peças, até à elaboração de autos de eliminação, proposta de novos processos de negócio, pedidos de transferência para o arquivo central, serão feitos por esta plataforma. Os fluxos estão desmaterializados e poderão ser acompanhados, passo a passo, pelos requerentes. Pretende-se agilidade e transparência absoluta. Esperamos ter tudo concluído até final de 2021.

Este é um projeto cofinanciado pelo SAMA que permitirá, ainda, a atualização do Plano de Classificação Comum e a elaboração de uma portaria transversal. Estamos também a trabalhar na realização de um Relatório de Avaliação para o ensino básico e secundário, que permitirá a avaliação completa da documentação que se acumula nas escolas, sentimos que era uma necessidade que urgia colmatar.

Para este sistema de informação as ideias não param e estamos a trabalhar para reforçar uma rede de bibliotecas históricas, completando o trabalho desenvolvido pela SGEC e a Parque Escolar na catalogação das bibliotecas das escolas intervencionadas durante 2009-2012, o chamado BAME, bem como queremos impulsionar uma rede de objetos museológicos das escolas.

Para encerrar este tema, refiro que a SGEC está a trabalhar, com afinco, para encontrar um espaço que permita criar as condições ótimas de arquivo do seu espólio, substituindo o “velhinho” depósito de Camarate. O problema é que estamos a falar em mais de 30.000 metros lineares de documentação. Aqui o apoio, que sempre tive, da Direção da Secretaria-Geral é fundamental e é ativo.

(ARCHIVOZ) Ainda sobre a Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência, gostaria que nos falasse do arquivo da Direção-Geral das Construções Escolares, que considero particularmente interessante por se tratar de um arquivo de arquitetura na Administração Pública Portuguesa.

(MI) O arquivo da DGCE é um arquivo importantíssimo pois agrega toda a documentação ligada à construção e manutenção do edificado escolar português, em todos os graus de ensino. Quer do ensino primário, com todos os projetos do chamado Plano de Centenário, quer do ensino secundário e mesmo o ensino superior. Inclusive das escolas portuguesas no estrangeiro.

A sua importância é tão grande que é dos mais solicitados, quer para investigação histórica, quer para a reabilitação do edificado. Por exemplo, hoje somos muito solicitados pelas Câmaras Municipais para consultarem os projetos de construção das escolas preparatórias e secundárias, isto por que a gestão desses espaços passou do Governo Central para a Administração Local.

Além de todos estes processos é aqui que está toda a documentação ligada ao mobiliário escolar, projetos tipo entre outra.

O fundo DGCE tem ainda um belo arquivo fotográfico que retrata o edificado (desde a construção à utilização em ambiente letivo) bem como as componentes letivas (aulas de ginástica, lavores, etc).

Engraçado é observar a sua biblioteca que, sendo datada, reflete a preocupação existente na DGCE em ter acesso ao conhecimento arquitetónico mais recente. É uma rica biblioteca que estamos agora a catalogar.

Não nos podemos esquecer que para esta Direção-Geral trabalharam dos melhores arquitetos portugueses e dos melhores fotógrafos.

Este é um fundo ao qual estamos a fazer um grande esforço de divulgação da documentação, com o seu tratamento sistemático e publicação de IDD’s. Colaboramos também com outros projetos, como o Atlas Escolar, desenvolvido pelo Instituto Superior Técnico, que permitiu a digitalização e divulgação de uma parte importante da documentação das principais escolas portuguesas.

É uma rápida imagem do que é a DGEC, pois confesso que só este arquivo merecia uma longa e documentada entrevista.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram grandes desafios aos arquivos, obrigando os seus dirigentes e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Como é que os Serviços da Direção de Serviços de Documentação e de Arquivo da Secretaria-Geral do Ministério da Educação e Ciência foram capazes de se adaptar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas com esta nova realidade?

(MI) A situação vivida com o SARS-CoV 2 apanhou em cheio a Direção de Serviços que já estava numa situação precária devido a uma obrigatória mudança de instalações que se arrastava no tempo.

Aproveitámos este tempo para fazermos uma serie de trabalhos importantíssimos e que vinham sendo adiados.

Assim, com os técnicos em teletrabalho, começámos um processo de informatização dos IDD’s existentes em suporte papel, primeiro com a passagem da informação para ficheiros Excel e depois com a sua exportação para a nossa base de dados. Por outro lado, aprofundámos os trabalhos de eliminação de ruido nas bases de dados, todas, bibliotecas, arquivos e museus.

Ainda neste período procedemos à elaboração e publicação de uma série de IDD’s.

Uma das nossas preocupações foi sempre dar resposta aos utilizadores internos e externos, o que sempre fizemos. Por exemplo os utilizadores continuaram a fazer pedidos, mas em vez de irem consultar a documentação à Sala de Leitura, nós próprios fazíamos as buscas, digitalizávamos a documentação encontrada e dávamos acessos através do nosso site. Conseguimos responder a 95% dos pedidos feitos, só não respondemos a pedidos que recaíram sobre documentação que se encontrava inacessível, não por causa do COVID-19, mas pela situação de mudança de instalações.

Tenho de salientar que a SGEC fez um esforço enorme, mas permitiu que quase todos os trabalhadores estivessem ligados aos seus postos de trabalho por VPN. Além disso, para não se perder o sentimento de equipa, criamos um grupo de trabalho no WhatsApp, onde todos os dias falamos e realizávamos reuniões setoriais via zoom.

Aproveitamos também as deslocações ao depósito de Camarate para os técnicos se encontrarem e discutirem assuntos em tratamento. Estes encontros eram feitos com muito pouca gente e só em caso de absoluta necessidade.

(ARCHIVOZ) Foi professor, desde 1992, no Curso de Especialização em Ciências Documentais, que evoluiu para o atual Mestrado em Ciências da Informação e Documentação, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para além de também estar ligado ao Curso de Especialização em Ciências da Informação e da Documentação, da Faculdade de Ciências Sociais e Humana da Universidade NOVA de Lisboa, que arrancou em 2004. Considerando a extraordinária experiência como docente em Ciência da Informação, como encara a formação dos profissionais nesta área?

(MI) Fui professor como disse, neste momento já não exerço nenhuma função docente. Estou afastado desse mundo.

Não tenho a menor duvida que temos um elevado grau de excelência na formação ministrada nesta área a nível nacional. Penso que o reconhecimento geral dessa qualidade é mais prejudicado pelas “lutas de egos” existentes e não pela sua inexistência.

Aliás, um dos problemas da arquivística nacional, e falo desta por ser a minha área, sempre foi o embate de “escolas” e de “egos”, mas a evolução tem sido constante e, muitas vezes, pioneira.

Há aspetos na formação que sempre me preocuparam, como por exemplo os mestrados no figurino de Bolonha. É completamente diferente quem faz um mestrado apresentando uma tese fruto de um trabalho de investigação e interrogando causas, do que a presentação de um relatório de um trabalho prático desenvolvido.

Não é menosprezar um em relação ao outro, mas tem a ver com o substrato. Isso é perfeitamente visível no dia a dia dos profissionais. Mas reconheço que este problema não é especifico da área das ciências da informação.

Penso que uma das grandes lacunas sentidas hoje é a não existência de formação de nível médio. Este ponto está associado à extinção das carreiras, que reflete uma forma de pensamento muito comum nos nossos decisores, mas isso era outra entrevista.

Outra coisa que me preocupa são as modas e as suas influências no ensino. Estamos numa área muito técnica, e cada vez mais técnica, o alargar de influências para áreas afins, mas que não correspondem às necessidades reais do sector, pode descaraterizar a formação dada e produzir profissionais menos preparados para atacar os problemas existentes, diários, e muitos deles que se acumulam por décadas de inação.

(ARCHIVOZ) Uma derradeira questão, considerando o seu extraordinário trajeto nesta área, nomeadamente ao nível técnico, dirigente, docente e associativo, em que nesta último foi vice-presidente da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, hoje Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação, como é que encara o futuro dos arquivos em Portugal e quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(MI) Essa é uma questão muito complicada, porque os arquivos em Portugal sempre foram subalternizados. Têm momentos de reconhecimento e investimento, mas rapidamente voltam a um limbo inexplicável. Ou melhor, perfeitamente explicável. Os arquivos são orgânicos, são uma necessidade básica das sociedades, e enformam o melhor e o pior que as sociedades têm, por isso tanto podem ser uma “fonte segura”, como a base de muitos incómodos.

Para mim os arquivos têm sempre futuro, porque eles trazem em si o próprio futuro, este não se escreve e não se defende sem o conhecimento do momento atual e do passado. O que é preciso é que os profissionais, e quem os representa, defendam que tratar os arquivos é manter um pilar que nos une como nação, é manter a nossa identidade, mesmo a nível micro, manter os arquivos é defender o reconhecimento institucional de cada organização.

É preciso ter a noção que a informação contida nos arquivos, e aqui estou a falar da informação pública, não é só do seu produtor, mas de todos, por isso tem de ser gerida, com as devidas regras, mas sempre defendendo um acesso igual e transparente a todos.

Já repararam que muitas das chamadas “noticias bombásticas” que aparecem na comunicação social tem a ver com uma má prática arquivística das instituições e a indefinição de muito conceitos?

Os problemas existentes estão ligados a uma tradicional falta de investimento de recursos monetários e humanos, mas também à tomada resoluções completamente descabidas e sem a mínima noção, como a deslocalização dos arquivos, ao embarcar-se em medidas de digitalização como forma de eliminação do papel, muitas delas sem os devidos cuidados e depois, nem digital, nem papel, e por aí fora.

Por exemplo, na área onde hoje me movo existe a figura do professor bibliotecário, essencial para a Rede de Bibliotecas Escolares, porque não existe a figura do professor arquivista, para garantir uma gestão rigorosa da informação das escolas?

A própria posição hierárquica do órgão coordenador é bem demonstrativa que se quer uma área a trabalhar, mas sossegadinha e não com muito poder.

Como disse, já pertenci à direção da Associação Profissional, à qual me encontro atualmente completamente afastado. Apesar de achar que a Associação tem feito um excelente trabalho nestes últimos anos, sendo mais interventiva, mais politica, continuam a embarcar em modas desviando-se das necessidades prementes da classe. A própria mudança do nome da Associação é disso bem exemplo.

Eu acho que os arquivistas, e a sua Associação, devem exigir do Estado um tratamento correto dos seus arquivos. Devem exigir a existência de arquivistas em todas as instituições e que as tomadas de decisão sobre gestão documental, e informacional, seja participada.

Deve ser exigido ao Estado um investimento no sentido de acabar de vez com a conversa de arquivos em sótãos e amontoados, conversa que ouço ainda hoje, passados 35 anos de atividade profissional.

Devem-se tomar decisões, complicadas com toda a certeza, mas necessárias, como a definição da tutela da documentação produzida por pessoas que ocupam cargos públicos; a classificação de interesse nacional, e por isso inalienável, de arquivos estratégicos do setor privado; o estabelecimento de regras de desmaterialização que tenham em vista a sua realização, e garantia de futuro, e não exercícios académicos de aplicação de normas, enfim um mundo sem fim.

Os arquivistas devem, com olhos postos no presente e no futuro, lutar por consolidar de vez o passado. Devem dar passos que tenham sempre continuidade, é muito mau, e descredibilizador, abrir várias frentes de combate e não dar sequência a nenhuma delas.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“A ignorância impede, aqui como em qualquer caso, a formulação de juízos isentos e objetivos”: Entrevista com António Ventura

Entrevistámos António Ventura, Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

(ARCHIVOZ) O que é a Maçonaria, quais os seus princípios e objetivos, e o que significa ser Maçon? Penso que esta clarificação é importante porque periodicamente surge na comunicação social, numa linguagem quase sempre sensacionalista, e pejorativa, a expressão sociedades, ou associações, secretas…

(António Ventura) A Maçonaria, como a conhecemos hoje, surge em Inglaterra no início do século XVIII, embora tenha uma genealogia confusa e contraditória anterior. Era um espaço de sociabilidade novo, num país dilacerado pelas guerras civis do século anterior, no qual podiam conviver pessoas com ideias políticas e crenças religiosas diferentes. Esse espírito de tolerância, aliado à prática da solidariedade, foi um dos seus pilares ao longo dos séculos. De uma forma muito sintética, o seu principal objectivo é o aperfeiçoamento individual dos seus membros, os quais podem e devem influenciar a sociedade de uma forma positiva. Naturalmente que existe uma visão distorcida e negativa da Maçonaria, alimentada por uma certa comunicação que explora o sensacionalismo e os aspectos menos positivos, a par de um enorme desconhecimento. A ignorância impede, aqui como em qualquer caso, a formulação de juízos isentos e objectivos.

(ARCHIVOZ) Quando é que nasceu o desejo, a vontade de desenvolver investigação sobre a maçonaria portuguesa e porque razão é que isso se verificou?

(AV) Essa apetência nasceu com o meu interesse pala História Contemporânea em geral e pela História do movimento republicano em Portugal. Tendo os maçons tido um papel importante na nossa História, existem escassos estudos sobre a Maçonaria, o que constituiu um incentivo.

(ARCHIVOZ) Quem quiser fazer investigação sobre a história da maçonaria ou, por exemplo, sobre uma determinada personalidade que foi maçom, onde é que deve dirigir-se, ou seja, onde é que se encontra esta documentação. Refiro-me a arquivos e bibliotecas, na posse da maçonaria, para além das respetivas lojas. Envolvendo esta questão do acesso às fontes, o que nos pode dizer sobre a escassez das mesmas, a sua perda e dispersão?

(AV) O estudo da Maçonaria em Portugal está condicionado pela falta de fontes, resultante da vida efémera das Lojas, com a produção de escassos documentos, mas também pela sua destruição deliberada, por razões de segurança, especialmente quando a Maçonaria foi perseguida. Muitas Lojas e Obediências – federações de Lojas – apareciam e desapareciam rapidamente, os respectivos arquivos não eram preservados. A situação só conhece uma melhoria a partir de 1869, com a criação do Grande Oriente Lusitano Unido, que publicava um boletim, e na década de noventa do século XIX, com a criação de registos centrais, que existem no Arquivo do Grémio Lusitano, mas apenas referentes a essa Obediência. A proibição da Maçonaria em 1935 provocou a dispersão dos arquivos centrais e das Lojas e a destruição de muitos, por razões de segurança.

(ARCHIVOZ) Voltando um pouco atrás, depois de nos ter falado dos arquivos maçónicos, onde se encontram fontes manuscritas para a história da maçonaria em Portugal, pode destacar agora bibliotecas, onde seja possível encontrar espólios documentais da maçonaria portuguesa?

(AV) Para além do Arquivo e da Biblioteca do Grémio Lusitano, existem núcleos documenteis importantes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Histórico Militar, Biblioteca Nacional, Arquivo Geral da Universidade de Coimbra, Fundação Mário Soares, Aquivo de Ponta Delgada, alguns arquivos municipais e, naturalmente, há muita documentação em mãos de particulares.

(ARCHIVOZ) Qualquer pessoa, que não maçon, pode aceder à documentação, por exemplo, no âmbito da investigação que se encontra a efetuar numa dissertação de mestrado ou numa tese de doutoramento, ou de um livro sobre a própria maçonaria portuguesa, existente nos arquivos na posse da maçonaria, nomeadamente, no Grande Oriente Lusitano?

No que concerne ao Arquivo do Grémio Lusitano, ele já tem sido consultado por investigadores nacionais e estrangeiros, e até já foram produzidos trabalhos académicos sobre a maçonaria.

(ARCHIVOZ) E em termos de arquivos pessoais de personalidades relevantes, não só para a maçonaria, mas da história contemporânea de Portugal, desde o mundo da política, à cultura, economia, etc., é possível encontrar espólios desta natureza nos arquivos maçónicos portugueses? Existe a tradição, entre os maçons portugueses, em vida ou no final desta, de legarem os seus arquivos à Maçonaria Portuguesa?

(AV) Houve e continua a haver casos de maçons que, por sua morte, determinaram que os documentos que possuíam fossem entregues ao Grande Oriente Lusitano, ou então os respectivos familiares tomaram essa decisão.

(ARCHIVOZ) Do conhecimento profundo que possui sobre esta documentação, existente nos arquivos da Maçonaria, qual é a mais procurada pelos utilizadores, por quem e para que fins? Relacionada com esta matéria, quais são, no seu entender, as “jóias da coroa” que se encontram nos arquivos maçónicos portugueses?

(AV) Há quem procure saber se familiares seus foram maçons. É a causa mais frequente de consulta. Em relação aos estudos, normalmente estes incidem sobre a Maçonaria numa determinada localidade ou região ou sobre uma personalidade concreta. A documentação mais interessante é muito diversa, vai dos processos de iniciação aos quadros de Loja, com a relação dos seus membros, a legislação produzida, as actas de sessões, os relatórios, etc.

(ARCHIVOZ) Finalmente, no que concerne à divulgação ou comunicação da documentação existente nos arquivos da Maçonaria da mesma, tem conhecimento de existirem instrumentos de acesso à informação (catálogos, guias de fundos, índices, inventários ou roteiros) nos mesmos, em Portugal? Pensa que no futuro será possível uma aposta na implementação e desenvolvimento de um serviço de arquivo, que aposte na digitalização e disponibilização de conteúdos ao público em geral?

(AV) Em alguns arquivos públicos já existem inventários. Na Fundação Mário Soares (Casa Comum), a documentação maçónica está toda disponível on-line. Quanto aos arquivos pertencentes a entidades privadas, o futuro será esse, dependente dos recursos, que são limitados, para tal concretização.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“é provável que o futuro dos museus passe pela consolidação da museologia centrada nos públicos”: Entrevista com Maria Isabel Roque

Entrevistámos Maria Isabel Roque, Professora na Universidade Europeia e na Universidade Católica Portuguesa, .investigadora no CIDEHUS-UÉ.

(ARCHIVOZ) Não poderia deixar de começar por destacar o seu extraordinário e diversificado currículo, ao nível académico, experiência docente no Ensino Superior, orientações, júri de grau académico, publicações, comunicações, comissariado de exposições, cargos de gestão académica, organização/coordenação de eventos, distinções recebidas, etc. Fale-nos do seu percurso formativo e profissional até chegar às funções que desempenha atualmente, como Professora Auxiliar na Universidade Europeia e na Universidade Católica Portuguesa.

(Maria Isabel Roque) O meu percurso académico e profissional foi disperso, mas transversalmente ligado à museologia e ao património. Na pós-graduação na Universidade Lusíada, tive a Prof. Natália Correia Guedes como docente, que foi uma pessoa determinante, tendo orientado a minha dissertação de Mestrado e a tese de Doutoramento e com quem trabalhei ao longo da década de 1990, nas exposições organizadas pela Conferência Episcopal Portuguesa e no Pavilhão da Santa Sé na Expo’98 e na elaboração da versão portuguesa do Thesaurus: Vocabulário de Objetos do Culto Católico. Em 2000, na Biblioteca Nacional, integrei a equipa que preparou e lançou a primeira fase da biblioteca nacional digital e, na sequência desta, trabalhei na edição digital de outras bibliotecas focadas sobretudo no livro antigo, até cerca de 2010. Entretanto, comecei a lecionar na Universidade Católica Portuguesa e, desde 2007, no curso de turismo, no antigo ISLA, atual Universidade Europeia. Estas circunstâncias levaram-me a fazer convergir os estudos ligados ao património artístico e religioso, aos estudos de museu, às humanidades digitais e ao turismo, sendo no cruzamento destas matérias que desenvolvo a investigação.

(ARCHIVOZ) Em 2006 doutorou-se em História da Arte, com 19 valores, com a tese Musealização do Sagrado: Práticas Museológicas em Torno de Objectos do Culto Católico. Quais foram as principais conclusões a que chegou na investigação que desenvolveu?

(MIR) A investigação pretendia analisar a forma como o sagrado, o total interdito, podia ser exposto no espaço profano e público do museu. O estudo restringiu-se ao universo dos objetos do culto católico, onde o conceito de sacralidade definitiva e permanente tem um caráter entitativo, exclusivo ao corpo de Cristo na hóstia consagrada. No âmbito do catolicismo, as alfaias litúrgicas que sejam modificadas ou desafetas ao culto, são implicitamente execradas e podem assumir outras funções, nomeadamente, de cariz museológico.

Os objetos litúrgicos e devocionais integram as coleções museológicas, desde a criação dos primeiros museus em finais do século XVIII, embora fossem apresentados como obras de arte, perdendo todas as referências ao significado original. Não obstante, os públicos conseguiam apreender o sentido dos objetos que faziam parte das suas vivências religiosas quotidianas. Mais recentemente e considerando a crescente iliteracia religiosa dos públicos, os significados intangíveis tornam-se cada vez mais opacos, reforçando os efeitos da descontextualização provocada pela transferência do objeto para o museu. Por esse motivo, os museus têm vindo a considerar a necessidade de contrariar a tendência da museologia da arte, que privilegia os valores materiais, patrimoniais e estéticos, para encontrar um modelo de museologia da religião, recuperando os dados relacionados com a função, significado e simbologia do objeto.

(ARCHIVOZ) É responsável, desde 2014, pela criação do blogue a.muse.arte, que se encontra disponível em https://amusearte.hypotheses.org/, há muito uma referência na área da museologia. O que nos pode apresentar sobre este notável projeto, que ainda bastante recentemente, em 2019, recebeu o prestigiado Prémio Comunicação Online?

(MIR) O blogue foi pensado como um espaço de opinião e análise crítica sobre temas de museologia e arte e procura contrariar o vazio deste tipo de publicações em Portugal. A designação a.muse.arte, integrando estes termos, é uma derivação da expressão amuse-bouche, apontando para uma escrita leve, com textos mais breves e despretensiosos daqueles que se exigem em artigos académicos. No entanto, procura efetuar uma análise rigorosa, baseada em métodos de investigação científica e fundamentada em referências bibliográficas. Privilegiando um modelo de observação independente, sem constrangimentos nem interesses subjacentes, a escolha dos temas e o ritmo das publicações obedece apenas ao gosto e à vontade de quem escreve e, sobretudo, às oportunidades que surgem em momentos de maior disponibilidade. Não pretendendo alcançar o estatuto de referência na área da museologia, tem o propósito de suscitar a reflexão e o questionamento em quem o lê e se interessa por estas temáticas.

(ARCHIVOZ) Ainda no domínio digital, é responsável pela página https://www.facebook.com/humanidadesdigitais e  pelo grupo https://www.facebook.com/groups/artemuseuspatrimonio, incontornáveis para todos os que se interessam e querem estar a par do que acontece no mundo das Humanidades Digitais, e da arte, museus e património. Pode apresentar-nos estes projetos e dar-nos conta dos seus objetivos e resultados alcançados, desde logo no público a que têm conseguido chegar?

(MIR) São dois projetos de âmbito e dimensão distintos, ambos criados e mantidos juntamente com Dália Guerreiro. A página Digital Humanities, Humanidades Digitais tem, como objetivo, divulgar eventos e publicações neste âmbito. Dirige-se a um público especializado e tem atualmente 1200 seguidores. Por seu turno, o Arte, Museus e Património é um grupo público, criado em 2018, e pretende funcionar como uma plataforma de informação nos domínios das artes visuais, dos museus e do património cultural, recolhendo notícias atualizadas, artigos de opinião, estudos científicos e de divulgação. Em maio de 2021, ultrapassou os 73.000 membros, dos quais cerca de 2/3 são membros ativos, com um ritmo regular de publicações. Embora inicialmente todos os membros do grupo pudessem publicar diretamente, o aumento de anúncios e de publicações inadequadas ou marginais aos temas do grupo, obrigou a que as publicações sejam sujeitas à aprovação por parte dos administradores. Este é um grupo destinado a um público generalista e os membros são, sobretudo, portugueses, do género feminino e situam-se maioritariamente nos grupos etários acima dos 45 anos.

(ARCHIVOZ) O seu mais recente trabalho publicado, no final de 2020, na Revista Lusófona de Estudos Culturais, intitula-se Descolonizar o museu: Exposição e mediação dos espólios africanos em museus europeus. O que nos pode dizer sobre esta questão, que se encontra na ordem do dia?

(MIR) Os primeiros museus públicos, criados no contexto ideológico da legitimação dos nacionalismos, constituíram-se como repositórios de identidades nacionais e funcionavam como um instrumento de propaganda das políticas imperialistas e coloniais, incorporando objetos de outras culturas. Tal como aconteceu com os objetos religiosos, também estes foram estetizados e perderam o seu sentido original.  Mantendo a mesma organização e sem que os discursos tenham sido substancialmente reformulados, os museus são espaços colonizados. A politização das questões relativas à descolonização do museu tende a ser muito redutora, restringindo-se à devolução dos objetos aos grupos culturais de origem. Este processo, aparentemente simplista, é de uma extraordinária complexidade, atendendo a todas as variáveis e condicionantes implicadas. Nalguns casos, será mesmo inviável, por já não ser possível identificar ou localizar as comunidades de origem. A descolonização deve ser mais ampla e profunda, envolvendo a análise e a discussão do fenómeno colonial, das suas circunstâncias, consequências e persistências na sociedade contemporânea. No museu, isto implica a elaboração de um novo discurso, baseado na investigação antropológica orientada para a recuperação do significado funcional, mágico ou religioso desses objetos, privilegiando os modelos de curadoria partilhada com as comunidades de origem, reconhecidas como fonte primária do conhecimento. A descolonização do museu implica, em primeiro lugar, as suas narrativas, eliminando as perspetivas eurocêntricas, evolucionistas e positivistas, substituindo-as por uma efetiva mediação dos seus significados originais. A análise do historial da musealização destes objetos contribuirá igualmente para a compreensão do fenómeno de colonização museal.

(ARCHIVOZ) Considerando a primeira questão, e o destacado trabalho que tem feito em prol da museologia, contribuindo decisivamente para que este chegue ao grande público, como é que encara o futuro desta área, particularmente em Portugal, e quais pensa serem os grandes desafios que os respetivos profissionais têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(MIR) O principal desafio prende-se, na minha perspetiva, com a gestão dos recursos que são, invariavelmente, escassos ou mal distribuídos. A gestão dos recursos financeiros e humanos tem um forte impacto na organização, preservação e divulgação dos acervos e é transversal aos museus sob tutela do Ministério da Cultura ou outros dependentes da administração central, dos governos regionais, da administração local, ou de privados. Por outro lado, a formação dos profissionais dos museus tem vindo a ser objeto de debate, revelando as fragilidades do setor: numa altura em que o acesso à informação é incrementado a níveis inusitados, mas o conhecimento especializado se torna mais restrito, quais os requisitos formativos para as diferentes profissões museais? Esta questão tende a circunscrever-se à dicotomia entre estudos de museu ou formação no domínio científico da coleção, mas deve alargar-se a outros campos, como a gestão e a comunicação, igualmente descurados na oferta formativa.

Apesar da dificuldade em efetuar prognósticos, é provável que o futuro dos museus passe pela consolidação da museologia centrada nos públicos, estimulando a sua participação ativa, enquanto sujeitos enunciadores do discurso, em projetos colaborativos e cocriativos. Preconiza-se uma vivência mais imersiva do espaço museológico, no âmbito das estratégias comunicacionais, favorecendo o conhecimento sem descurar o entretenimento. Prevê-se que, desta forma, os públicos se sintam mais envolvidos e comprometidos na preservação dos acervos e do conhecimento que lhes é inerente, tornando o museu numa zona de contacto e de conexões.

(ARCHIVOZ) Um assunto que, infelizmente, continua a marcar a atualidade é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que colocaram novos desafios aos museus, fazendo com que os seus responsáveis e colaboradores tivessem de se adaptar a novas metodologias e formas de trabalhar. Procurando fazer uma análise desta nova realidade, que começou em meados de março de 2020, entende que os museus portugueses foram capazes de se adaptar e responder eficazmente aos desafios e oportunidades surgidas?

(MIR) A resposta dos museus portugueses à crise pandémica não foi uniforme. Houve alguns museus que responderam de forma proficiente, enquanto outros foram mais passivos ou, mesmo, inativos. Além disso, foi possível identificar dois tipos de atuação: a transposição das atividades habituais no espaço físico do museu, como as visitas guiadas ou a explicação de alguns objetos, para o ambiente digital; a criação de conteúdos inéditos e de atividades dirigidas a uma audiência exclusivamente virtual. Provavelmente, o efeito mais acentuado terá sido a transformação digital. A maior parte dos museus já tinham aderido às tecnologias da informação e comunicação, mas divergiam na quantidade e qualidade dos conteúdos e, sobretudo, na importância que lhes atribuíam. Durante a pandemia, com o encerramento dos museus, os meios digitais constituíam a principal forma de comunicação disponível, eliminando os habituais constrangimentos em relação à representação virtual. Os museus portugueses adaptaram-se, responderam aos desafios e agarraram as oportunidades, aproveitando o potencial das tecnologias de informação e de comunicação na relação com audiências alargadas, bem como os benefícios da comunicação segmentada, utilizando os websites e as redes sociais para uma interação adaptada às diferentes audiências. Por outro lado, os tempos de pausa serviram para reformular discursos, para preparar novas exposições e experimentar modelos museográficos. O objeto exposto no museu mantém a aura de autenticidade e o museu garante os seus valores identitários. Foi, no entanto, possível confirmar que as estratégias de informação e comunicação digital, propiciando novas leituras, contribuem para o seu conhecimento e promovem a interação com públicos cada vez mais alargados, sejam reais ou virtuais.

Imagem cedida pelo entrevistado.
Público junto à parede retroiluminada com reproduções da obra Tacuinum sanitatis
Exposição “Hortas de Lisboa: Da Idade Média ao século XXI”
Lisboa, Museu de Lisboa, Palácio Pimenta


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“A crescente utilização dos meios digitais representa uma oportunidade e um desafio para os Arquivos Distritais e para os seus profissionais.”: Entrevista com Sandra Chaves

Entrevistámos Sandra Chaves, Diretora do Arquivo Distrital de Portalegre.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso académico, formativo e profissional, até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Portalegre.

(Sandra Chaves) O meu percurso profissional esteve desde muito cedo ligado aos arquivos, uma vez que, após a conclusão, em 1993, da licenciatura em Ciências Históricas, surgiu a oportunidade de trabalhar no Arquivo Distrital de Portalegre, no âmbito do Inventário do Património Cultural Móvel, tendo iniciado funções em fevereiro de 1994. Em 1995 ingressei na pós-graduação em Ciências Documentais – opção Arquivo, que conclui em 1997. Integrei o quadro de pessoal do Arquivo Distrital de Portalegre, em 1998, na carreira técnica superior de arquivo e em 2005 iniciei funções como chefe de divisão deste Arquivo. Em 2006 frequentei o FORGEP – Programa de Formação em Gestão Pública e em 2008 o CADAP – Curso de Alta Direção em Administração Pública.

(ARCHIVOZ) Como referido, é Diretora do Arquivo Distrital de Portalegre desde 2005. Tendo em conta os anos que leva à frente deste serviço de informação, que balanço faz do exercício do mesmo, considerando todos os desafios inerentes, desde logo o reduzido número de colaboradores?

(SC) O grande desafio foi o de dar continuidade ao excelente trabalho que vinha sendo desenvolvido anteriormente, ao qual procurei dar continuidade com o mesmo rigor, competência e motivação. O facto de me encontrar a trabalhar no Arquivo facilitou a integração nas novas funções.

Nestes quase 16 anos em que me encontro como chefe de divisão do Arquivo Distrital de Portalegre, houve uma evolução enorme nos meios tecnológicos/digitais que nos permitiram ter melhores ferramentas ao nível da descrição, digitalização e preservação digital, facilitando a disponibilização da informação, chegando cada vez mais a um público mais abrangente, mas ao mesmo tempo mais exigente e expectante nas respostas por parte do serviço.

Progressivamente os utilizadores esperam resultados mais eficazes e respostas mais céleres, pelo que tem sido uma preocupação deste Arquivo aumentar o número de descrições, por forma a ser possível recuperar e aceder mais facilmente à informação.

Paralelamente à descrição temo-nos empenhado na digitalização, aumentando assim os documentos disponíveis em linha.

A utilização de novos meios, nomeadamente a disponibilização em linha de registos e imagens, proporcionaram que o arquivo se tornasse cada vez mais visível e   acessível aos cidadãos, pois quer a consulta da documentação que se encontra em linha quer o pedido de serviços, como a reprodução e a certificação de documentos está, hoje, mais facilitada.

Em termos de recursos humanos, estes mantiveram-se praticamente inalteráveis desde 2005 até 2020. A resposta às exigências do serviço só é possível devido à polivalência dos colaboradores, à sua motivação e à boa colaboração entre todos.

Há um grande empenho, um enorme compromisso com o serviço e uma constante atualização por parte dos colaboradores por forma a acompanhar o desenvolvimento tecnológico e as novas exigências do digital, garantindo a prestação de um serviço de qualidade.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Portalegre é responsável por um vasto e rico acervo documental. Que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(SC) Não me é possível colocar em destaque qualquer fundo documental, o acervo documental do Arquivo Distrital de Portalegre é muito diversificado e toda a documentação tem a sua importância.

Em termos dos instrumentos de recuperação e acesso à informação o utilizador tem a possibilidade de pesquisar na base de dados Digitarq, em https://digitarq.adptg.arquivos.pt/ou de consultar no sítio Web do Arquivo Distrital de Portalegre em https://adptg.dglab.gov.pt/, onde, através de uma estrutura organizada é direcionado para a descrição do fundo que pretende consultar na referida base de dados Digitarq.

Na sala de leitura continuamos a ter à disposição dos nossos leitores os instrumentos de pesquisa em formato analógico, nomeadamente guias, inventários e índices, que podem ser consultados em alternativa aos meios digitais.

Os pedidos de consulta e reprodução (certificada ou simples) de documentos são efetuados através no balcão eletrónico CRAV (Consulta Real em Ambiente Virtual), sendo apenas necessário o registo prévio do utilizador. A tramitação do pedido é efetuada na referida plataforma, permitindo assim que o utilizador tenha sempre conhecimento do estado em que se encontra o pedido e agilizando todo o processo de orçamentação, pagamento e envio de reproduções.

(ARCHIVOZ) Sem qualquer desvalorização das demais funções arquivísticas, a difusão da informação é crucial em qualquer serviço de informação, para mais considerando o contexto de pandemia que nos encontramos a viver, que só recentemente abrandou de forma significativa. Pode dizer-nos o que tem sido feito nesse sentido no Arquivo Distrital de Portalegre, nos últimos anos?

(SC) A difusão da informação é uma das competências do Arquivo Distrital de Portalegre no sentido de dar a conhecer o importante espólio à sua guarda e no sentido de divulgar o trabalho e iniciativas desenvolvidas.

O aumento de documentação disponível em linha, em muito tem contribuído para facilitar o acesso à informação como também para a sua divulgação, por essa razão tem sido fundamental a disponibilização da informação, registos descritivos e objetos digitais.

Em 2009 iniciamos o projeto de digitalização com os fundos Paroquiais, realizado através de protocolo celebrado com a Family Search (FS). Em 2012 estavam já em linha todos os livros paroquiais, mesmo os que se encontram no Arquivo Histórico Municipal de Elvas, que, ao abrigo de um protocolo com a Câmara Municipal de Elvas, podemos disponibilizar.

Os projetos de digitalização sucederam-se e, neste momento, o Arquivo Distrital de Portalegre tem mais de um milhão e meio de imagens em linha, imagens essas pertencentes a fundos muito diversos dos quais destacamos: paroquiais, notariais, registo civil, administração de concelhos, conventos e provedorias de comarca.

Temos dinamizado o sítio Web do Arquivo Distrital no sentido de facultar informação sobre os fundos documentais, noticiar atividades desenvolvidas e dar a conhecer alguns documentos através da Rubrica “Documento em destaque”, onde mensalmente destacamos documentos que podem estar associados ou relacionados a um dia comemorativo, a um evento ou a uma simples curiosidade.

A difusão da informação é também efetuada através das exposições realizadas, pelo Arquivo e/ou em parceria com outras entidades.

A título de exemplo menciono uma exposição realizada em conjunto com o Arquivo Digital e Imaterial da Comenda onde destacamos documentação existente no Arquivo Distrital de Portalegre relacionada com o espólio fotográfico daquele Arquivo Digital. A realização da exposição e a disponibilização em linha das descrições e documentos fotográficos do Arquivo Digital e Imaterial da Comenda contribuiu, de forma muito significativa, para o aumento de documentos daquele arquivo (documentos cedidos pela população) e para a sensibilização da importância dos arquivos para a história local.

Nos anos de 2020 e 2021, devido às restrições impostas pela pandemia não foi possível realizar este tipo de atividade.

Todo o trabalho realizado ao nível da descrição, digitalização e consequente disponibilização da informação, assim como a utilização do balcão eletrónico (CRAV) permitiu que, em tempos de pandemia, houvesse uma melhor capacidade de resposta dos serviços e facilitou o acesso à informação num contexto em que as pessoas não se podiam deslocar ao Arquivo.

(ARCHIVOZ) E no que respeita a uma maior proximidade do Arquivo Distrital de Portalegre à respetiva comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo e o que pensa ainda não ter sido atingido?

(SC) O Arquivo Distrital de Portalegre tem realizado diversas iniciativas de divulgação do património arquivístico, nomeadamente através de visitas guiadas e exposições dando a conhecer a documentação e o trabalho realizado, valorizando um património que é de todos.

Por outro lado, temos colaborado com algumas instituições no sentido de dar a conhecer outros arquivos, valorizando assim o património arquivístico do distrito.

Exemplo disto é a colaboração com o Arquivo Digital e Imaterial da Comenda, no qual o Arquivo de Portalegre desempenha um papel importante de disponibilização dos registos descritos e respetivas imagens. Outro caso é o protocolo de colaboração com a Autarquia de Elvas em que o Arquivo Distrital se encontra a descrever e a disponibilizar documentação daquele Arquivo Municipal.

Para além das iniciativas mencionadas a disponibilização de informação em ambiente digital muito tem contribuído para o aumento de acessos e consultas e consequentemente de uma maior visibilidade do Arquivo.

Na minha perceção ainda não há uma plena consciência da comunidade em relação ao património à guarda do Arquivo Distrital de Portalegre e ao papel que este desempenha na identificação, preservação e conservação do seu acervo documental.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano no Arquivo Distrital de Portalegre?

(SC) Os projetos que temos em curso prendem-se com os objetivos definidos para este Arquivo e são a continuação da descrição documental e a disponibilização dos registos descritivos, facilitando a pesquisa e a consulta, bem como a digitalização da documentação e a disponibilização de imagens digitais em linha.

Temos em curso o projeto de digitalização dos fundos dos Cartórios Notariais e a disponibilização da série de processos de casamento da extinta Diocese de Elvas, registos descritivos e objetos digitais, no âmbito de um protocolo estabelecido com a Autarquia de Elvas.

Pretendemos alargar a cooperação interinstitucional visando a promoção, salvaguarda e difusão do património arquivístico local e da região.

Temos o objetivo de incrementar a divulgação do património arquivístico e das atividades e eventos realizados através das redes sociais, aproximando o Arquivo dos cidadãos.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde há mais de um ano, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Portalegre, de forma a enfrentar esta realidade tão difícil e singular, no que concerne à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na difusão da informação?

(SC) A pandemia trouxe-nos novos desafios e uma necessidade imediata de adaptação a uma realidade, até agora, desconhecida por nós.

Foi necessário proceder à organização dos postos de trabalho de forma a garantir o distanciamento recomendado e foi preciso adotar novos métodos de trabalho nomeadamente no regime de teletrabalho.

O atendimento ao público foi sempre realizado, na fase de confinamento através dos meios digitais e agora que é possível o regresso à sala de leitura, funcionamos com marcação prévia, cumprindo as orientações da Direção-Geral de Saúde e o Plano de Contingência da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas.

Apesar das adaptações que foram necessárias realizar, a situação de pandemia veio reforçar a utilização dos meios de atendimento remoto, através do Balcão Eletrónico (CRAV) já em uso no Arquivo Distrital de Portalegre.

Não obstante todas as alterações mencionadas o Arquivo Distrital de Portalegre deu continuidade aos trabalhos em curso nomeadamente com a disponibilização de documentos. As atividades de descrição e integração e disponibilização de imagens nunca foram interrompidas mesmo nas alturas em que os colaboradores se encontravam em teletrabalho.

(ARCHIVOZ) Finalmente, gostaria que nos desse conta do que pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os arquivos distritais em Portugal se deparam na atualidade.

(SC) A crescente utilização dos meios digitais representa uma oportunidade e um desafio para os Arquivos Distritais e para os seus profissionais.

Oportunidade de tornar os serviços mais interativos com os utilizadores, facilitando quer o acesso à informação quer a prestação de outros serviços, tornando os arquivos acessíveis a todos.

Desafio, pois, torna-se necessário dotar os Arquivos de políticas e recursos adequados e de profissionais com formação orientada às novas realidades, nomeadamente as relacionadas com a salvaguarda da informação nado-digital.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Manter a agregação da informação dispersa em diferentes formatos, tipologias e canais, é um dos desafios atuais mais prementes”: Entrevista com Ana Rigueiro

Entrevistámos Ana Rigueiro, Diretora do Departamento de Arquivo, Documentação e Publicações dos Serviços Centrais da Universidade de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso formativo e das organizações em que desempenhou funções, antes de chegar aos Serviços Centrais da Universidade de Lisboa, onde se encontra desde dezembro de 2013.

(Ana Rigueiro) Iniciei o meu percurso profissional em 1991, numa época em que nos era possível escolher de entre diversas opções de trabalho. A escolha foi fácil, na medida em que a motivação de trabalhar na Universidade, ao Serviço Público, é algo que me está impresso desde menina. Tive a honra de iniciar o percurso profissional no Instituto Superior Técnico, ou Técnico – marca pela qual é também conhecido. Sendo uma instituição de ensino superior de referência o Técnico compreende um conjunto muito alargado de saberes e de competências, pelo que é uma instituição de referência para estudar e também para trabalhar. De 1991 a 2013 tive a oportunidade de desenvolver funções no Gabinete de Apoio à Pós-Graduação, na Contabilidade e de ser convidada para fundar o Núcleo de Arquivo do Instituto Superior Técnico, em 2006. Simultaneamente, fui vogal do Conselho de Gestão, membro da Assembleia de Representantes, do Conselho de Escola e da Assembleia Estatutária – numa época em que as Universidades vertiam em estatutos as novas disposições do RJIES e na qual também se discutiu a fusão das Universidades de Lisboa (UL) e da Universidade Técnica de Lisboa (UTL). Todas estas funções, e nenhuma em particular, foram muito gratificantes do ponto de vista pessoal e profissional, sobretudo porque permitiram “olhar” o Técnico e a Universidade do ponto de vista macro. E é tal como “olho” para a gestão da informação. Precisamos de a perceber no contexto em que se insere e precisamos de a entender do ponto de vista da estratégia, da tática, do operacional, das normas e dos recursos que existem e que temos ao nosso dispor. E precisamos de compreender a liderança, a cultura organizacional no coletivo e das pessoas em particular – dos profissionais, porque é este o recurso que lhe dá a vida e que a move – e dos clientes, a quem se destina o produto do nosso trabalho e que, no fim, a justifica.

A paixão pela gestão da informação nasceu já no final da licenciatura. Quando iniciei os meus estudos superiores não tinha uma área de interesse em particular, tinha muitas. Na medida em que me era difícil escolher, depois de uma breve experiência pelo direito e pelas relações internacionais, acabei por optar por uma formação de base que me permitiria obter um pouco do muito que gostava. Designada por assessoria de direção, do Instituto Superior de Línguas e Administração, esta licenciatura ofereceu competências em diversos domínios do saber, entre outras, letras, direito, economia e gestão. A paixão pelos arquivos, bibliotecas e museus, então despertado, conheceu a sua sequência no curso de especialização em ciências da informação e documentação, ministrado pela Universidade Nova de Lisboa. Com um curriculum e um calendário exigente esta formação de dois anos permitiu ter um contacto profundo com a gestão da informação. Tenho muito boas recordações desta fase, dos excelentes professores(as) e dos colegas com quem tive a honra de privar e que possibilitaram crescer profissionalmente. Mais tarde optei por complementar a minha formação em gestão estratégica e comercial e arquitetura organizacional de sistemas de informação – unidades do mestrado em engenharia informática, e um curso de especialização em gestão de projetos informáticos do Instituto Superior Técnico. Uma das vantagens do Processo de Bolonha é a construção personalizada do curriculum, através do qual a formação ao longo da vida pode ser personalizada e ir ao encontro de atualizar e desenvolver competências de que vamos sentindo necessidade.

Tive ainda a oportunidade de voltar ao Instituto Superior de Línguas e Administração para exercer funções de docente convidada na pós-graduação de ciências da informação e documentação e na licenciatura de secretariado e comunicação empresarial. Recentemente, a convite do Diretor-Geral da Direção-Geral dos Arquivos, dos Livros e Bibliotecas, tive a honra de participar como membro da Comissão Nacional de Avaliação IberArquivos para Portugal.

(ARCHIVOZ) Neste momento, desenvolve funções de direção no Departamento de Arquivo, Documentação e Publicações dos Serviços Centrais da Universidade de Lisboa. Como carateriza o seu trabalho neste cargo?

(AR) O trabalho tem sido desafiante. Iniciei funções na Universidade de Lisboa (ULisboa) após a fusão das antecessoras Universidade de Lisboa (UL) e Técnica de Lisboa (UTL), em 2013. O Departamento de Arquivo, Documentação e Publicações dos Serviços Centrais tem por competência o estabelecimento de critérios e instrumentos de gestão integrada dos Arquivos e Bibliotecas da Universidade, a gestão documental e bibliográfica dos Serviços Centrais, e o apoio à Editora e à Revista da Universidade.  Compreende o Serviço de Expediente, o Núcleo de Arquivo e o Centro de Documentação dos Serviços Centrais, a Editora e a Revista da Universidade de Lisboa. Tem, por isso, um duplo posicionamento: nos Serviços Centrais e na Universidade de Lisboa.

Do ponto de vista da Universidade existiam duas instituições com práticas e sistemas tecnológicos distintos, formatos de catalogação e normas não comunicantes, como no caso das Bibliotecas, ou infraestruturas, sistemas tecnológicos ou normas inexistentes, como no caso dos arquivos, e para os quais era necessário criar uma identidade própria – a da ULisboa, única e heterogénea, salvaguardando a identidade das suas escolas. Importava, sobretudo, criar um sistema de Arquivos e de Bibliotecas em rede, integrando todas as suas 18 escolas, capaz de oferecer um ponto de acesso único à sua comunidade académica e ao cidadão. Da perspetiva dos Serviços Centrais da Universidade, a necessidade de organizar um conjunto muito significativo de documentos acumulados herdados, cerca de 20.000 m.l., dispersos em 15 edifícios e armazéns no conselho de Lisboa. Iniciámos um projeto de identificação, transferência e de reorganização. Fora, entretanto, constituído um grupo de trabalho, para se elaborar um regulamento para todas as universidades e institutos politécnicos do país – o Regulamento de Avaliação de Documentação Acumulada para as Instituições de Ensino Superior (RADA-IES), que o Reitor da ULisboa apresentou ao Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, que o aprovou, e, em sequência, à Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas que em 2016, lhe conferiu o estatuto de instrumento legal. A aplicação-piloto deste regulamento permitiu testar o instrumento em ambiente real, de que resultou o RADA-ULisboa, específico para a documentação da Universidade. Também o investimento na implementação de infraestruturas foi determinante para garantir a guarda e a preservação da informação – tanto para os documentos em suporte físico – com a implementação de 13.500 m.l. de depósitos normalizados -, como para os servidores que alojam os documentos digitalizados e nado-digitais.  O desafio tem sido esta construção.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer dos principais fundos e coleções que se encontram no Departamento de Arquivo, Documentação e Publicações dos Serviços Centrais da Universidade de Lisboa, e dos instrumentos de acesso à informação, com vista à comunicação dos mesmos? O que distingue este arquivo dos demais?

(AR) O património documental da ULisboa está compreendido pelo universo dos Serviços Centrais, dos Serviços de Ação Social e das suas 18 Escolas. Os Serviços Centrais da Universidade compreendem a documentação produzida e recebida pela ULisboa e na qual se integra o Arquivo da Reitoria, do Estádio Universitário e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Compreende ainda a herança do património documental do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT); Instituto Bacteriológico Câmara Pestana (IBCP); Universidade de Lisboa (UL); Universidade Técnica de Lisboa (UTL); Fundação da Universidade de Lisboa (FUL); Gabinete de Apoio da Universidade Técnica de Lisboa (GAUTL); Serviços de Administração e Ação Social da Universidade Técnica de Lisboa (SAASUTL). Este património data desde o séc. XIX e contém publicações, documentação e informação produzida, recebida ou herdada de interesse científico, cultural, administrativo, probatório ou legal – a memória coletiva das instituições que antecederam a ULisboa, da sua organização, das suas atividades e das pessoas que nela trabalharam ou estudaram. Incluem, entre muitos outros, relatórios e planos de atividades e contas; atas e decisões de órgãos de gestão; processos individuais; coleções de tirocínios; programas de cadeiras; livros de termos; recortes de imprensa; coleções de fotografias e diapositivos; documentos audiovisuais; documentos áudios; plantas de arquitetura e mapas.

Hoje, a Universidade de Lisboa dispõe de um sistema integrado de gestão de bibliotecas e de um sistema de gestão de arquivos – já implementado nos Serviços Centrais, que agora se estenderá a todas as escolas da Universidade. Ambos os sistemas apresentam as bibliotecas e os arquivos da ULisboa em rede, estão disponíveis em ambiente web, conferindo a oferta de pontos de acesso únicos para o património documental da ULisboa, direcionados à comunidade académica e ao cidadão

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, ainda continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Diretora do Departamento de Arquivo, Documentação e Publicações dos Serviços Centrais da Universidade de Lisboa, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(AR) O maior desafio foi o tempo e a gestão das pessoas – sobretudo gerir o sentimento de incerteza face à pandemia e ao tempo que a estaríamos a viver. No momento do primeiro estado de emergência, com a entrada obrigatória do teletrabalho, o Serviço de Expediente dos Serviços Centrais manteve-se sempre no terreno – fundamental para garantir que a documentação em suporte de papel era recebida, encaminhada e expedida. (Re)organizámos as atividades e os serviços para um ambiente eminentemente virtual. Formamos pessoas e mantivemos um acompanhamento com recurso a ambiente misto (presencial e virtual). Através da VPN foi possível aceder ao ambiente de trabalho. E tivemos de o fazer num espaço de dias. Implementámos o serviço de expediente digital para os Serviços Centrais e para a Universidade de Lisboa, através da digitalização da documentação entrada e saída e toda a documentação produzida foi objeto de assinatura digital qualificada, por forma a conferir valor probatório. As Bibliotecas da ULisboa contavam com um Serviço de Pesquisa Bibliográfico implementado em 2017 – uma ferramenta que permite a pesquisa de todos os recursos bibliográficos da ULisboa e das suas Escolas incluindo, entre outros, os recursos da B-on, repositório, catálogos da ULisboa – recursos importantes para apoiar as atividades de ensino e investigação -, e para o qual foram desenvolvidos manuais direcionados a reforçar a divulgação e a sua utilização junto da comunidade académica.

(ARCHIVOZ) É coautora do livro “Universidade de Lisboa: Museus, Coleções e Património”, publicado em 2016, pela Imprensa da Universidade de Lisboa. O que nos pode referir sobre o seu contributo para esta obra, coordenada por Marta Lourenço?

(AR) O livro “Universidade de Lisboa: Museus, Coleções e Património” é uma obra editada com uma ilustração rica e cuidada. Dá conta do notável património científico, histórico, artístico e arquitetónico da Universidade de Lisboa, incluindo os seus museus, coleções, bibliotecas e fundos documentais históricos, jardins botânicos, observatórios astronómicos e edifícios de arquitetura singular. O meu contributo assentou num capítulo “Livros e Manuscritos” no qual se dá conta do património arquivístico e bibliográfico da Universidade de Lisboa, desde o séc. XIV. Complementarmente ao Levantamento do Património Cultural da Universidade de Lisboa, realizado em 2015, cujos resultados se apresentam na seção “diretório”, desenvolve-se uma reflexão em torno do seu património bibliográfico e arquivístico, sobretudo aquele que possui uma dimensão cultural e cuja importância histórica, científica ou artística tem um interesse mais vasto do que a própria Universidade, na qual importa propor uma ação de futuro, que compreenda a preservação, tratamento e divulgação do património cultural da Universidade, produzido e colecionado ontem, hoje e amanhã.

(ARCHIVOZ) Finalmente, gostaria de lhe perguntar como vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais pensa serem os grandes riscos, desafios e oportunidades para os seus profissionais?

(AR) Os arquivos em Portugal têm ainda um longo caminho por percorrer. Se pegar no exemplo da Universidade de Lisboa, cujo património data de 1892 e vê o seu primeiro serviço de arquivo formalmente constituído em 2006, temos uma perceção do contexto em que se encontram os Arquivos nas Universidades e no País. Do ponto de vista dos arquivos universitários, a par do tratamento documental e da divulgação dos arquivos administrativos, existe um outro desafio – o de recuperar os arquivos de ensino e investigação produzidos ou acumulados por centros de investigação que tradicionalmente detinham e detêm a sua autonomia. Costumo dizer que muita da história da Universidade está ainda por escrever, porque os documentos que a contam não foram ainda encontrados ou divulgados.

Não há produção, transmissão ou divulgação do conhecimento sem informação. Este recurso encontra-se hoje disponível sobre diferentes formatos (papel, digitalizado, nado-digital ou eletrónico), em diferentes tipologias (relatórios e planos de atividades; prestação de contas; atas de órgãos de gestão; processos individuais; fotografias e diapositivos; documentos áudio, audiovisuais; plantas de arquitetura e mapas) dispersos em múltiplos canais ou infraestruturas (sistemas tecnológicos de informação, e-mail, computador pessoal, na rede das instituições, na página web, no canal de youtube). Manter a agregação da informação dispersa em diferentes formatos, tipologias e canais, é um dos desafios atuais mais prementes. Este desafio conduz-nos necessariamente à oportunidade de esclarecer a “informação” e de a consolidar, na medida em que esta assenta e resulta da Instituição, das suas atividades, das normas e regulamentos, e do contexto sociocultural, estratégico e político onde está inserida.

Quem se apaixona pela ciência da informação sabe-o. Trata-se de um domínio de múltiplos saberes que encontrará sempre desafios, na medida em que o desenvolvimento sociocultural, tecnológico e das formas de comunicação não cessará de conhecer novas abordagens e novos impulsos.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Considero fundamental a adaptação da Arquivística ao forte processo de transformação digital”: Entrevista com José Paulo da Costa Rêgo

Chefe da Divisão dos Sistemas de Informação da Câmara Municipal de Abrantes, José Paulo da Costa Rêgo conta-nos sobre a introdução dos meios tecnológicos no processo de gestão e tratamento da informação administrativa, baseada numa visão focada na interoperabilidade do mundo físico com o digital.

 

(Archivoz) Primeiramente, conte-nos um pouco da sua trajetória na área de Arquivos: formação, início de carreira na área e sua perceção a respeito dos arquivos públicos e da arquivística enquanto campo de atuação.

(José Paulo da Costa Rêgo) Licenciado em eng. Informática, desde 1997 que integro equipas de trabalho relacionadas com Arquivos e Bibliotecas. Iniciei os meus primeiros trabalhos com a produção de sistemas tecnológicos relacionados com a história local, mantendo-me ligado à área através da implementação do sistema de descrição arquivística utilizado pelo Município de Abrantes. Recentemente, após assumir a direção da Divisão de Sistemas de Informação, tornei-me também responsável por conduzir o Serviço de Arquivo, onde lhe tenho tentado oferecer uma perspetiva mais contemporânea sem o descaracterizar. A introdução de meios tecnológicos no processo de gestão e tratamento da informação administrativa, alicerçada numa visão focada na interoperabilidade do mundo físico com o digital, tem-nos permitido alavancar o processo de desmaterialização, ao mesmo tempo que aumentamos a eficiência e eficácia na recuperação da informação. Seguimos a mesma estratégia na componente histórica, onde a disponibilização de conhecimento culturalmente relevante para o Concelho leva em consideração a manutenção e a abordagem dos conjuntos documentais por meio de processos especializados de restauro, digitalização e tratamento técnico da informação, para posteriormente serem disponibilizados no repositório público da Autarquia. Considero ainda fundamental a adaptação da Arquivística ao forte processo de transformação digital a que todos assistimos, considerando-a como um dos fatores críticos para a implementação de estratégias de sucesso neste domínio.

(Archivoz) O Arquivo Municipal Eduardo Campos, criado em 1983, possui uma vasta documentação que percorre séculos. Como tem sido gerenciar documentos do século XIII ao século XXI?

(JPR) Um enorme desafio e uma enorme responsabilidade. É importante adotarmos estratégias de gestão inteligentes. Fundos e tipologias documentais diferentes não podem ser tratados da mesma forma. Desde logo é sentida a importância do espaço físico onde se encontra toda a documentação de valor administrativo ou histórico. A capacidade protetora do edifício do arquivo, construído de raiz, garante todas as condições técnicas e ambientais para a sua salvaguarda. Paralelamente, decorre um conjunto de medidas de conservação preventiva e reparadora que visam tanto retardar a degradação quanto melhorar o seu estado físico. Temos seguido uma política de conservação e restauro assertiva, tentando a todo o custo preservar a memória e o enorme conhecimento que conservam. Por exemplo, no processo de restauro, para além do trabalho de reversão dos danos físicos, é efetuada a digitalização para os formatos de preservação recomendados, e que em simultâneo nos permite disponibilizar os conteúdos sem a necessidade de manuseamento do suporte físico, limitando o acesso apenas quando estritamente necessário e para efeitos de investigação. A informação produzida no século XXI traz consigo uma cultura digital que obriga a uma mudança radical nas formas de tratamento, armazenamento, difusão de conhecimento e, simultaneamente, nas competências e postura dos profissionais de arquivo. Para dar resposta a estes desafios foi criada uma equipa multidisciplinar de Gestão de Informação integrada na Divisão de Sistemas de Informação. Essa equipa tem a responsabilidade de fazer coabitar informação de suporte físico (papel), com a informação nato digital (processos digitais). Toda a informação produzida hoje no Município de Abrantes é gerida no seu ecossistema aplicacional, que procura cumprir com padrões de normalização, formatos abertos e recomendados para preservação digital. A criação de um Serviço desta natureza é fundamental para a transformação digital de qualquer organização, no entanto para as Câmaras Municipais ainda se torna mais relevante, pois os processos de mudança são tendencialmente mais lentos e o apego ao papel faz parte de uma cultura organizacional clássica.

(Archivoz) Com o processo de desmaterialização iniciado em 2011, o Município de Abrantes passou a ter um novo desafio, o de juntar os processos nato digitais a processos que antes eram produzidos em suporte papel (ex. licenciamento de obras particulares). Quais medidas foram tomadas para a gestão documental?

(JPR)Um dos fatores críticos de sucesso esteve e continuará a estar na integração de uma equipa de Desenvolvimento Aplicacional interna, que nos tem permitido ligar sistemas tecnológicos e, ao mesmo tempo, fazer desenvolvimentos à medida das necessidades da nossa organização. Foi implementado um Sistema de Gestão de Processos nato digitais baseado em fluxos BPM (Business Process Model), que integra diretamente o Sistema de Descrição Arquivística. Ambos os sistemas administram a informação no repositório do Município. A respeito do exemplo dos processos de obras particulares, desde 2011 que criámos condições para que toda a documentação entrasse em formato digital, tendo sido decisiva a utilização da assinatura digital qualificada, que se estendeu praticamente a todos os trabalhadores. Hoje, já é igualmente uma prática dos nossos munícipes que utilizam os serviços online. Para alcançarmos sucesso neste processo, foi determinante ter estratégias operacionais para ligar todo o tipo de informação, desde as recentemente produzidas e em trâmite até as que já se encontravam arquivadas. O facto de termos um repositório transversal a todo o ecossistema aplicacional, permitiu-nos desenvolver um sistema que recupera qualquer tipo de processo e que nos possibilita gerir, preservar e disponibilizar toda a informação produzida pela organização.

(Archivoz) O projeto vem se estendendo a conjuntos documentais históricos da Instituição? (você comentou a respeito na seguinte matéria: https://omirante.pt/sociedade/2020-06-09-Arquivo-Municipal-de-Abrantes-trabalha-para-o-século-XXI-mas-continua-a-olhar-para-a-história). Se sim, pode nos contar um pouco do projeto.

(JPR) Sim, com o processo de desmaterialização em fase avançada, decidimos iniciar um projeto de restauro e digitalização de documentos históricos. A preservação desse tipo de documento, para além do elevado valor patrimonial, concede-nos uma memória e um conhecimento estruturante sobre a identidade e história do nosso Concelho. Mais do que uma obrigação, a sua preservação é um ato de gestão responsável.
Como estamos a falar de documentos com muitos anos, o seu manuseamento tem de ser cuidadoso e restrito. No entanto, o facto das ações de conservação e restauro serem acompanhadas de um processo de digitalização, aumentou significativamente a sua capacidade de difusão, especialmente através do nosso repositório público (em breve acessível para todos).

(Archivoz) Digitalizando uma documentação que possui valor permanente (deverá ser preservada a longo prazo), quais as medidas que estão sendo tomadas para a preservação e a segurança da informação, ao mesmo tempo que a Instituição oferece o acesso? Como combinar preservação, segurança da informação e acesso público?

(JPR) Em Abrantes, implementámos um repositório digital seguindo os padrões para repositórios confiáveis e os requisitos recomendados, para que tanto a disseminação quanto a preservação e o acesso continuado da informação sejam garantidos. O Município de Abrantes fez um investimento significativo em termos de infraestrutura tecnológica, perspetivando um repositório seguro e confiável. Os vários níveis de acesso de que dispomos e o controlo independente dos administradores de sistemas, garantem-nos a fiabilidade necessária e a flexibilidade que se impõe na forma como se acede à informação. A maneira que encontrámos para combinar a preservação, a segurança e o acesso à informação foi através da digitalização e do tratamento documental (que em algumas situações já se processa de forma automatizada). É um trabalho árduo que estamos a complementar com o desenvolvimento de um Plano de Preservação Digital.

(Archivoz) Existe alguma diferença no planeamento entre um projeto de gestão eletrónica para arquivos de idade corrente e um para arquivos permanentes?

(JPR) Um dos maiores erros que se comete quando se tenta abordar um processo de transformação digital, como o que estamos a experimentar, é tentar replicar o mundo físico no digital. Se entendermos que a gestão de informação digital é significativamente diferente da gestão física, e que os desafios são diferentes, então a resposta, é que depende do ecossistema tecnológico. No nosso caso (Abrantes), com mais de 10 anos de experiência na gestão digital, podemos dizer que, do ponto de vista tecnológico, não necessitamos de um planeamento necessariamente diferente, embora, tenhamos em determinados domínios, como no acesso, na preservação e na segurança, tratamentos específicos para cada um.

(Archivoz) Gostaria que comentasse os percalços e os sucessos ao longo desses 10 anos de projeto de desmaterialização e os impactos que os utentes e os pesquisadores vêm já  sentindo na consulta e acesso à documentação.

(JPR) A implementação estratégica de um processo de desmaterialização transversal a todo o Município foi de certeza um dos maiores fatores de sucesso. Outro, o facto de termos uma equipa de Desenvolvimento Aplicacional interna que, para além de programadores, tinha também profissionais na área da gestão de informação, com uma visão mais moderna do que é gerir informação nos dias de hoje, em oposição à visão mais clássica e de grande apego aos suportes físicos como o papel. Não foi imediata a perceção de que a digitalização da informação seria uma mais valia para aqueles que dela necessitam. No entanto, com o tempo, apresentou-se como uma forma consistente de democratizar o acesso ao conhecimento. Um dos principais pontos que deve merecer particular atenção é o mapeamento dos fluxos físicos e digitais de informação. Essa consideração é fundamental para que se atinja um nível de eficácia e eficiência significativo. Devem-se fazer ainda reengenharias de processos em conjunto com os demais serviços, não só para garantir a assertividade correta, mas também para haver um completo envolvimento do negócio. Transformar mentalidades é o grande desafio, pois a tecnologia não pode ser o único pilar da mudança de paradigma da gestão de informação.

Imagem cedida pelo entrevistado.

Entrevista realizada por: Simone Fernandes

“Visitar a Casa dos Patudos é como entrar num espaço e vivê-lo por dentro, não como espetador, mas como parte integrante dessa história.”: Entrevista com Nuno Prates

Entrevistámos Nuno Prates, Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso académico, formativo e profissional, até chegar às funções que desempenha atualmente, como Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça.

(Nuno Prates) Iniciei o meu percurso académico, em 1994, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, aqui licenciei-me em História (Variante de Arqueologia), fazendo também o Ramo Educacional desta Licenciatura. Mais tarde frequentei a Licenciatura em História da Arte, na mesma Universidade. No ano de 2001, na Universidade de Évora, fiz estudos pós-graduados em Museologia, e ao longo dos últimos anos tenho realizado vários cursos e formações na área do património dos quais destaco o curso de Inventário do Património Cultural Imaterial, na Universidade Aberta de Lisboa.

Profissionalmente após a conclusão da licenciatura comecei a dar aulas no 3º Ciclo do Ensino Básico e Secundário, onde estive treze anos e onde lecionei, entre outras, a disciplina de História a vários níveis de ensino e desempenhei ainda os cargos de Coordenador Pedagógico e Diretor de Turma. Ainda ligado ao Ensino da História, sou formador na área e domínio da Didática da História, pela Universidade do Minho.

Sempre ligado à História Local e Regional e à Museologia, após a Especialização nesta área realizei um Estágio no Museu Agrícola de Riachos (Torres Novas).

Em 2011 assumo as funções de Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, como natural de Alpiarça, desde cedo tive contato com este espaço mágico que comecei a estudar muito jovem, com catorze anos de idade.

Em 1993 participei, na Casa dos Patudos, no Projeto Jovens Voluntários para a Solidariedade e foi uma excelente oportunidade de conhecer toda a casa e a coleção.

Atualmente sou mestrando em Gestão e Valorização do Património Cultural – especialidade Património Artístico e História da Arte, estando na fase de conclusão da dissertação.

(ARCHIVOZ) O que nos pode dizer obre a importância arquitetónica e artística da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, destacando a personalidade de José Relvas e o papel de Raul Lino na realização desta obra, mas também sobre as potencialidades deste notável edifício, no âmbito do turismo cultural?

(NP) José de Mascarenhas Relvas (1858-1929) é uma personalidade marcante do século XX português, nas na Golegã e em 1889 vem viver para Alpiarça.

Casou em 5 de fevereiro de 1882 com D. Eugénia Antónia de Loureiro da Silva Mendes (1865-1951), filha dos Viscondes de Loureiro, de Viseu, e sua segunda prima, com quem ficou a viver na Quinta do Outeiro, na Golegã. Após a morte de D. Margarida, mãe de José Relvas, este herda a Quinta dos Patudos, em Alpiarça onde fixam residência em 1889. O casal teve três filhos, nenhum dos quais sobreviveu aos progenitores: Maria Luísa de Loureiro Relvas (1883 – 1896), Carlos de Loureiro Relvas (1884 – 1919) e João Pedro de Loureiro Relvas (1887-1899). Maria Luísa e João Pedro morrem de febre tifoide e Carlos suicida-se na Casa dos Patudos, com 35 anos de idade, no dia 14 de dezembro de 1919.

José Relvas apresentava-se na vida pública como Agricultor de Alpiarça. A agricultura era a sua maior fonte de rendimento e a produção vinícola a mais significativa. Contudo nas suas propriedades José Relvas fazia também produzir cereais, cortiça e azeite e obtinha dividendos da criação de gado.

A partir de 1907 estabeleceu uma assumida ligação ao Partido Republicano Português, participando em manifestações, comícios e reuniões políticas, um pouco por todo o país. Depois da Proclamação da República, José Relvas assumiu as funções de Ministro das Finanças do Governo Provisório (1910-1911), embaixador de Portugal em Espanha, até 1914. Afastado da política ativa desde 1915, concorreu para Presidente da República em 1918 e, não sendo eleito, assumiu posteriormente as funções de presidente do Conselho de Ministros e de Ministro do Interior por um período de dois meses (27 de janeiro a 30 de março de 1919). Para além de agricultor e político, foi também músico amador (tocava violino) e um grande colecionador de arte.

José Relvas mandou edificar a Casa dos Patudos para dar uma morada condigna à sua coleção de arte e todas as artes tiveram o seu espaço nesta casa. A construção das novas salas iniciou-se me 1905, com projeto de Raul Lino de 1904. O Senhor dos Patudos participou nas decisões do arquiteto, discutiu pormenores e deu as suas diretrizes. As salas amplas, o salão com acústica para concertos, as galerias exteriores que permitem admirar a lezíria, foram concebidas por um arquiteto moderno para um cliente exigente.

Mas o arquiteto não se limitou a desenhar uma grande residência, esmerou-se em pormenores da decoração interior e enalteceu as artes portuguesas, usando os azulejos, os ferros, as cantarias e até o mobiliário de fabrico português. A Casa foi mais tarde ampliada, em pelo menos duas fases de obra, sempre com projeto de Raul Lino.

A Casa dos Patudos foi local de romagem de artistas, políticos, escritores e poetas.

No que diz respeito ao Turismo Cultural a divulgação nacional e internacional da Casa dos Patudos já é articulada com outras ofertas turísticas na região e no concelho. Conhecida a vontade do patrono e trabalhando para cumpri-la, contribuímos para a preservação de um património que inclui o registo memorial e documental de um ilustre republicano, a Casa tem sido um elo de ligação entre outros polos de interesse para o concelho e região, nomeadamente nas ligações entre a produção vitivinícola; espaços de lazer (Albufeira, Parque de Campismo, Piscinas e Núcleos Desportivos) e ainda a criação de um Espaço de Reserva Ambiental – Reserva do Cavalo Sorraia. A abertura de novos espaços museológicos em 2011 (Aposentos) e 2013 (Cozinha) possibilitou um atrativo para quem já conhecia o projeto, manifestando-se por um aumento de visitantes. Esta Casa constitui uma referência cultural regional e também nacional, para estudiosos e público, em geral, assim como para algumas instituições internacionais que começam a despertar para a qualidade rara do acervo. Este ano vamos abrir uma nova sala ao público, a Sala Império, com a nossa coleção de leques.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, no que respeita ao seu extraordinário acervo, nomeadamente as suas coleções de pintura, escultura, mobiliário, têxteis, etc., e o respetivo percurso expositivos, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o melhor conhecimento das mesmas. O que distingue a Casa dos Patudos dos outros museus?

(NP) A Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça é um espaço único, ela própria uma obra de arte saída do eclético traço de Raul Lino

A coleção é de variadas épocas e tipologias, desde os finais do século XV até aos inícios do Séc. XX. A Casa dos Patudos pode ser encarada em três vertentes museológicas: A Casa em si, de Raul Lino; a coleção eclética e a memória do seu fundador, José Relvas. Na Casa podemos encontrar uma vasta coleção de obras de arte, composta por pintura, escultura e artes decorativas. Na pintura portuguesa destacam‐se: Silva Porto, José Malhoa, Columbano Bordalo Pinheiro e Constantino Fernandes, além de notáveis artistas de escolas estrangeiras. Podem, ainda, ser apreciadas porcelanas de Sèvres e de Saxe, azulejaria, peças da Companhia das Índias, cerâmicas da Fábrica das Caldas da Rainha (Rafael Bordalo Pinheiro), Rato, Bica do Sapato e Vista Alegre e ainda bronzes de Chapu, de Mercié e de Frémiet. A coleção é composta por cerca de 8.000 obras de arte das quais destacava como as mais importantes o Retrato de Domenico Scarlatti, óleo sobre tela, atribuído a Domingo António Velasco, do Século XVIII; a Jarra Beethoven, Faiança da Fábrica das Caldas da Rainha, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro, datada de 1903 e um Tapete de Arraiolos em seda sobre linho, datado de 1761.

Destaco também o Arquivo Histórico composto por 50.000 documentos e 5.000 fotografias.

O percurso expositivo faz-se ao longo de três andares, das 101 divisões da casa, diria que o espaço se mantém, tanto quanto possível, como residência à espera do proprietário, cuja memória é preservada nos seus objetos pessoais, livros e documentos.

Na visita à Casa dos patudos ficamos a conhecer o acervo artístico de excelência, mas também a vida da família Relvas.

A Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça distingue-se dos outros museus pelos aspetos diferenciadores deste espaço museológico é o facto de ser uma Casa-Museu, com Histórias e estórias, pode-se dizer que tem uma alma própria de um espaço vivido. Não é só um museu, existe uma narrativa história que ajuda a perceber quem foi a família Relvas, do que gostavam, o que faziam, como era a sua vida, com eram passados os serões. Visitar a Casa dos Patudos é como entrar num espaço e vivê-lo por dentro, não como espectador, mas como parte integrante dessa história.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo, desde logo através do respetivo Serviço Educativo?

(NP) O Serviço Educativo da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, desenvolve atividades para os mais variados públicos, relacionando-o com o espaço em que está inserido, promovendo a sua imagem junto das instituições e potenciais interessados na sua visita (escolas, universidades, espaços turísticos e comunidade local).

A mudança de novos paradigmas permitiu criar na Casa dos Patudos mudanças nas vertentes culturais, científica, educativa e social o que faz com que as nossas portas estejam abertos a todos, criando uma aproximação entre os públicos e as nossas coleções.

O Serviço Educativo da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça funciona como um recurso, para melhorar o seu nível de comunicação na área da educação, através da dinamização de atividades, oficinas, ateliers e criação de materiais pedagógicos, mantendo também formas de colaboração e de articulação com o sistema de ensino. Estes recursos pedagógicos proporcionam aos participantes das atividades vivenciar um maior número de conhecimentos e de experiências como a imaginação, a criatividade, construindo o seu conhecimento e ao mesmo tempo apropriando-se do conceito de património.

(ARCHIVOZ) Como salientado, é Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça desde 2011. Que balanço faz do exercício deste cargo?

(NP) Sim, sou Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça desde 2011, foi mais um desafio que aceitei isto porque gosto muito da terra onde nasci: Alpiarça e em particular deste espaço, que é único.

O balanço que faço do exercício deste cargo, encaro-o como a minha missão ao serviço da Casa dos Patudos como potenciador da valorização deste património, divulgá-lo e torná-lo acessível a todos, cumprindo as funções museológicas (Investigação, Documentação, Conservação, Exposição/Interpretação/Difusão e Educação). A abertura de novos espaços que temos em perspetiva virão dar novas leituras à Casa.

Deste modo estou certo que deixarei a minha marca e o meu legado na história da Instituição.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2020, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Conservador da Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o diminuir o impacto deste contexto tão negativo?

(NP) Sem sombra de dúvida a COVID 19 veio alterar a vida de todos e a cultura e os espaços culturais tiveram que lidar com esta pandemia, encontrando estratégias para chegar aos vários públicos, nomeadamente através das plataformas digitais, reinventando-se, para que os nossos públicos pudessem sempre estar próximos da Casa dos Patudos e acompanhando as nossas atividades. No que diz respeito ao trabalho interno foi um momento em que se organizaram espaços e se realização algumas intervenções ao nível da Conservação Preventiva. Continuamos sempre a trabalhar para elevar a memória de José Relvas e garantir o cumprimento da salvaguarda deste legado. No que diz respeito ao atendimento ao público e nas visitas guiadas, cumprindo todas as regras e normas de higiene e segurança vamos realizando as visitas, em pequenos grupos, num percurso menor e num único sentido, por forma a não haver contactos entre os vários visitantes. Conseguimos sempre desenvolver estratégias para chegar ao público, neste contexto as redes sociais foram fundamentais.

(ARCHIVOZ) Considerando o dinamismo que carateriza a Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para 2022?

(NP) A Casa dos Patudos foi inaugurada, como Museu, em 15 de Maio de 1960 e ao longo destes 61 anos foram vários os prémios e distinções que recebeu, destacamos alguns: Prémios SOS Azulejo 2011, foi atribuída a Menção Honrosa Intervenção e Restauro’ pelo Estudo e intervenção / recolocação de painel de azulejos intitulado “Cenas agrícolas da Quinta dos Patudos conforme plano e edifício originais. Louvor Público atribuído pela Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico, pelo trabalho desenvolvido na valorização e reabilitação da Casa dos Patudos. Prémios APOM 2014 (Associação Portuguesa de Museologia), Prémio Projeto Internacional – Menção Honrosa – Casa dos Patudos – Museu de Alpiarça, no âmbito do projeto Animals in arts and nature, do programa Comenius.

Medalha de Ouro atribuída pela Associação Portuguesa dos Municípios com Centros Históricos (APMCH) em 2016 e o Prémio de Melhor Projeto Público de 2015 e 2017 da Entidade Regional de Turismo Alentejo e Ribatejo.

Queremos continuar a desenvolver um trabalho de excelência e a ter uma programação cultural que faz deste espaço uma referência na região. Uma das nossas apostas é a abertura de um novo espaço ao público, a Sala Império com a nossa coleção de leques, muito diversificada e de grande esplendor artístico.  Destacava também em setembro (de 24 a 26) a realização do 3º Colóquio Saudade Perpétua, onde serão abordadas temáticas ligadas à arte, cultura e património do período Romântico. Em outubro, nos dias 7, 8 e 9 irá realizar-se o Simpósio, ICTM – Grupo de Estudos de Iconografia e Artes Performativas. Este é um evento a nível mundial, numa organização conjunta do CESEM/Universidade Nova de Lisboa e Câmara Municipal de Alpiarça/Casa dos Patudos-Museu de Alpiarça. O Simpósio tem como temática principal: Objetos e Imagens de Música em Museus Públicos e Privados.

Outro grande desafio é o Projeto de Valorização Patrimonial do concelho de Alpiarça, voltado numa primeira fase para o património arqueológico. A Arqueologia pode ser um excelente exemplo de desenvolvimento dentro de um potencial turístico que precisa ser mais explorado.

Em 2022 é nossa intensão continuar a realizar iniciativas para todos os públicos, mas destacando a realização do II Seminário Nacional José Relvas: Arte, Cultura e República, que se realizou pela primeira vez em 2019.

(ARCHIVOZ) Parta terminar, quais é que pensa que são os grandes desafios que os museus portugueses e os respetivos profissionais têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?

(NP) Os desafios são muitos e cada vez maiores, quer para os museus, quer para os seus profissionais. Não descurando a conservação e preservação dos acervos, penso que cada vez mais há a necessidade de divulga-los convenientemente, fazendo com que se tornem acessíveis a todos, trabalhando, por exemplo, em rede.

Usando ferramentas digitais que possam estar mais próximos de públicos mais jovens. Só desta forma, e com a ajuda de todos, o património pode ser transmitido às novas gerações. Só assim poderemos dizer que estamos a preservar a memória e que esta é a gratidão no coração.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“a Ciência da Informação apesar de ter um âmbito específico de trabalho e investigação, denota, cada vez mais ser uma área interdisciplinar, abrangendo áreas distintas do conhecimento”: Entrevista com Teresa Costa

Entrevistámos Teresa Costa, Chefe de Divisão na Biblioteca da NOVA Medical School, e Professora Auxiliar convidada no Mestrado em Ciências da Documentação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu extraordinário percurso formativo e profissional até chegar a Chefe de Divisão na Biblioteca da NOVA Medical School.

(Teresa Costa) Iniciei o meu percurso profissional como Professora de História, porém a instabilidade da carreira docente levou-me ao Curso de Especialização em Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 2003. Foi nesse ano que comecei a trabalhar enquanto bibliotecária no Museu Nacional de Arqueologia, onde fiquei até 2005. Nesse ano assumi funções na b-on, Biblioteca do Conhecimento Online, enquanto bibliotecária e mais tarde como gestora da b-on. Entretanto fui ganhando novas competências e em 2008 concluí o meu Mestrado em Ciências da Documentação e Informação também na FLUL e em 2015 terminei o Doutoramento Ciências da Informação e Documentação pela Universidade de Évora.

Em 2020 assumi um novo desafio profissional enquanto Chefe de Divisão de Biblioteca e Documentação na NOVA Medical School, onde me encontro presentemente a exercer funções. Estou muito grata por esta oportunidade, pois após 15 ano na b-on senti que era altura de mudar, pois sentia falta das pessoas, dos utilizadores.

Entretanto, também sou docente no Mestrado em Ciências da Documentação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa desde 2009, que é algo de que também gosto muito de fazer.

(ARCHIVOZ) Em 2015 doutorou-se em Ciências da Informação e da Documentação, na Universidade de Évora, com a tese O impacto da biblioteca do conhecimento online (B-on) sobre a utilização e a produção científica portuguesas (2000-2010). Quais foram as principais conclusões a que chegou na investigação que desenvolveu?

(TC) O rápido crescimento da informação e dos periódicos científicos eletrónicos em conjugação com a política de aumento de preços por parte dos editores para este tipo de assinaturas e os novos modelos de licenciamento (big deal) favoreceram a constituição de consórcios de bibliotecas e Portugal não foi exceção. Em 2004, com o surgimento da b-on, a comunidade académica e de investigação nacional passou a dispor de uma ferramenta fantástica de acesso à informação de qualidade. A b-on trouxe também a democratização desse acesso, pois independentemente da localização geográfica, dimensão ou histórico da instituição todos passaram a ter acesso aos mesmos conteúdos “à distância de um clique”. Ora, tal teve consequências não só no acesso e utilização dos recursos, mas também na produção científica nacional que tem verificado um aumento significativo nos últimos anos.

(ARCHIVOZ) A Biblioteca da NOVA Medical School possui um vasto acervo. Quais são os principais fundos e coleções que integra, e como se encontram organizados?

(TC) Sendo uma Faculdade de Medicina, o fundo caracteriza-se sobretudo por integrar recursos no âmbito das Ciências Medicas, Biomedicina e Ciências da Nutrição. Todos os anos procuramos dar resposta aos programas e bibliografias das várias unidades curriculares, adquirindo monografias recomendadas pelos docentes.  Além disso temos assinaturas de algumas revistas quer em papel que em formato eletrónico. Temos ainda acesso à b-on e assinamos plataformas e bases de dados específicas de apoio ao ensino médico com ebooks, casos clínicos, vídeos de anatomia, testes de conhecimento, entre outros. Sendo uma instituição de ensino superior, há ainda lugar na nossa coleção, para as teses e dissertações apresentadas pelos alunos. Em 2020 estes recursos passaram a ser exclusivamente em formato eletrónico, contudo continuam a ser registados no catálogo e depositados no repositório institucional.

Para além disso é frequente a oferta e ou doação de espólios por parte de antigos docentes e antigos alunos. Posso destacar as doações dos Professores Celestino da Costa (pai e filho), Professor Jacinto Simões e Professor António Saragoça. As monografias estão classificadas com base na classificação da National Library Medicine (NLM) e a indexação feita com recurso ao Medical Subject Headings (MeSH). O acesso às mesmas é livre estando a sala de leitura organizada pelas grandes áreas/categorias da Medicina.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Chefe de Divisão na Biblioteca da NOVA Medical School, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(TC) Tem sido de facto um desafio, sobretudo ao nível da gestão dos espaços. A sala de leitura tem capacidade para 120 utilizadores e de momento apenas temos disponível 56. Porém, convertemos outros espaços, como a sala multimédia que habitualmente tem 16 computadores, convertemo-la em espaço de estudo acomodando assim mais utilizadores.

O horário de funcionamento é das 9h às 19h30, porém com interrupção das 13h às 14h para higienização dos espaços.

Quanto há equipa, no total são 10 colaboradores que foram distribuídos por duas equipas espelho que asseguram o funcionamento da biblioteca até às 17h30. A partir dessa hora temos o apoio de um conjunto de 12 alunos colaboradores que nos ajudam no alargamento do horário.

O acesso à biblioteca, neste momento, é exclusivo aos membros da comunidade NMS|FCM (não estão autorizados utilizadores externos), sendo necessária marcação prévia que pode ser feita por email ou formulário disponível no site da biblioteca.

Passámos a fazer mais formação online, via zoom, e tem corrido bem.

Também o facto da biblioteca disponibilizar o acesso a várias fontes de informação online tem permitido aos utilizadores continuarem a aceder aos recursos de forma remota. Aliás, a utilização dos mesmos aumentou significativamente no último ano.

(ARCHIVOZ) Um dos últimos artigos que publicou, neste caso em colaboração com Maria Margarida Vargues, na Revista Ibero-Americana de Ciência da Informação, intitula-se Tendências da investigação científica nas ciências da informação e documentação em Portugal: 2003-2018.  Tendo em conta o mesmo, a que se junta a sua notável experiência docente no Mestrado em Ciências da Documentação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quais pensa serem as tendências atuais de investigação em Ciência da Informação em Portugal e as que urge desenvolver?

(TC) No artigo que fiz com a Margarida tivemos como principal fonte de informação o RCAAP – Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal (www.rcaap.pt) e os vários repositórios das instituições com formação na área da ciência da informação, ou seja, analisámos os trabalhos dos cursos com formação exclusiva na área da Ciência da Informação, mas também de outras instituições que apesar de não terem formação em Ciência da Informação ofereciam cursos que se “apropriaram” de objetos de estudo no âmbito desta Ciência, e em cuja denominação incluísse um dos seguintes termos: Arquivística, Arquivo(s), Biblioteca(s), Biblioteconomia, Documentação e Informação. Foi um trabalho muito interessante e permitiu destacar temas como a Literacia da Informação, a Gestão do Conhecimento, a Organização da Informação e mais recentemente as questões das Tecnologias da Informação e dos Repositórios e Acesso Aberto. Como alguns dos trabalhos eram de cursos no âmbito da Educação e Bibliotecas Escolares, a questão da Promoção da Leitura também nos mereceu algum destaque. Porém, ficou igualmente claro que a Ciência da Informação apesar de ter um âmbito específico de trabalho e investigação,  denota, cada vez mais ser  uma área interdisciplinar, abrangendo áreas distintas do conhecimento  que se cruzam como a Linguística, a Educação, a Sociologia, a Psicologia, o Jornalismo, a Comunicação, a Informática, entre outras.

(ARCHIVOZ) Por último, no seu entender, quais são os principais desafios e oportunidades que se colocam aos profissionais da informação na atualidade?

(TC) Os desafios são muitos, sobretudo ao nível das tecnologias de informação e comunicação que assumiram um papel irreversível e incontornável na forma de agir, de perceber e lidar com a informação, não só no seu acesso, mas também no seu tratamento e conservação/preservação. Além disso, a situação da pandemia obrigou-nos a adaptamo-nos e a assumirmos o online e o remoto como essenciais, pelo que a formação/qualificação dos profissionais da informação ao longo da vida assume-se como fundamental, pois importa manter competências base, mas é igualmente importante a nossa capacidade de adaptação e de aprendizagem aos desafios da atualidade.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“A Rede de Arquivos do Algarve espelha o trabalho, as necessidades e as aspirações dos profissionais de Arquivo do Algarve.”: Entrevista com Isabel Dias Salvado e Madalena Guerreiro, da Rede de Arquivos do Algarve

Entrevistámos Isabel Dias Salvado e Madalena Guerreiro, da Rede de Arquivos do Algarve.

(ARCHIVOZ) Quando, e em que contexto, é que nasceu a ideia de criar a Rede de Arquivos do Algarve? Qual a sua carta de princípios, missão e visão?

(Rede de Arquivos do Algarve) A ideia de criar a Rede de Arquivos do Algarve surgiu (de um sonho) e da visão do Dr. João Sabóia, na altura diretor do Arquivo Distrital de Faro, ao ver que no Algarve alguns municípios começavam a contratar arquivistas para constituir e organizar os seus arquivos. A adesão de alguns municípios, nomeadamente Lagoa, Loulé, Silves, Tavira, Vila do Bispo e Vila Real de Santo António ao Programa de Apoio à Rede de Arquivos Municipais (PARAM) permitiu não só a criação e reabilitação de instalações para acolher os Arquivos, mas também o fim de um período em que ele foi o único arquivista no Algarve, dado que o PARAM previa a contratação de arquivistas ou Técnicos Superiores de Arquivo. Ainda que mitigada pelo acréscimo destes profissionais, a sua presença nas instituições públicas continuava a ser reduzida. A colaboração existia, mas de uma maneira mais informal. A necessidade de partilha e troca de experiências fomentou a realização de reuniões de trabalho que aconteciam no Arquivo Distrital de Faro e mediante uma convocatória do seu diretor. O mais curioso é que, pouco depois, com o ingresso de mais arquivistas em instituições públicas algarvias, alguns dos quais frequentaram o primeiro curso de técnicos superiores de arquivo da Universidade do Algarve, e, portanto, também alunos do Dr. João Sabóia, bem como de outras universidades fora da região do Algarve, como Évora ou Coimbra, sentiram a necessidade de criar uma estrutura que se tornasse um espaço de partilha, de debate e de enriquecimento. Com estas expetativas, surgiu ao Diretor do Arquivo Distrital de Faro a oportunidade que ele tanto esperava. E foi assim que, após algumas reuniões preparatórias, se constituiu a Rede de Arquivos do Algarve em 2011.

O Arquivo Distrital de Faro, na pessoa do seu diretor, teve, portanto, um papel agregador dos profissionais de Arquivo no Algarve. Na carta de princípios da RAalg encontra-se plasmada a intenção que presidiu à sua criação: “tendo por intuito a dinamização do diálogo e a cooperação técnica entre os arquivistas”.

Sem o apoio do diretor do Arquivo Distrital de Faro, teria sido muito difícil a Rede dar os seus primeiros passos. A sua ação permitiu a consolidação do reconhecimento dos arquivistas nas entidades públicas, que passaram a estar integradas num projeto regional, tendo estes profissionais em sua representação. As primeiras convocatórias eram feitas pelo próprio Dr. João Sabóia, que também coordenava as reuniões. A partir destas reuniões surgiram vários contributos que levaram à criação de uma estrutura informal, embora com uma organização partilhada, sempre com a preocupação de construir os alicerces de uma Rede para o futuro.

O progresso e as exigências do trabalho desenvolvido nos Arquivos levaram posteriormente a alterações na organização e dinâmicas da Rede de Arquivos do Algarve (RAalg), fruto também do crescimento e evolução da própria Rede, mas também das entidades e profissionais que a integram e dos desafios a que se propõem.

Sendo uma Rede de Arquivos, é natural que a sua missão, que também está espelhada na Carta de Princípios, seja a valorização desses serviços enquanto sistemas de informação essenciais às organizações, à promoção da preservação, gestão e divulgação do património arquivístico algarvio.

Neste documento encontram-se também os 5 princípios que devem guiar todos os membros aderentes e que norteiam a atividade da RAalg.

  • Proteger, conservar e difundir o património documental, mediante ações que impulsionam atividades de sensibilização, salvaguarda e recuperação de arquivos e documentos.
  • Propor equipas transdisciplinares para o desenvolvimento e implementação de sistemas de gestão integrada da informação.
  • Estimular o ensino e a profissionalização da arquivística.
  • Publicar e divulgar documentação técnico-científica da área.
  • Promover o intercâmbio e parcerias com organizações congéneres, nacionais e internacionais
(ARCHIVOZ) Quais os arquivos e outras entidades aderentes à Rede de Arquivos do Algarve e quais são os Grupos de Trabalho que a compõem? Relacionado com esta questão, como se processa a adesão à Rede de Arquivos do Algarve?

(RAalg) A RAalg é composta por uma variedade de tipologias de Arquivos. Na sua maioria estão representados os Arquivos municipais do Algarve com exceção de 2 municípios, seguidos de Arquivos da administração descentralizada (localizados em Faro), uma empresa municipal, uma associação (como membro aderente, devido à situação peculiar de guarda da documentação de um arquivo municipal) e, claro, o Arquivo Distrital de Faro, num total de 17 membros.

Os grupos de trabalho foram sendo constituídos à medida que as necessidades iam surgindo. O primeiro grupo de trabalho, que é o maior, é o da Macroestrutura Funcional (MEF), que além de ter prestado contributos à Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas na fase em que foi elaborado o Plano de Classificação da Informação Arquivística das Autarquias, tem por objectivo o esclarecimento de dúvidas e consolidação de conhecimentos sobre a tarefa de classificação em Arquivo.

Existe também o grupo de trabalho das exposições, que concebeu a exposição itinerante “ A identidade do Algarve: Forais, Alvarás e Cartas Régias”. Esta exposição percorreu todos os municípios aderentes. Para memória ficou o catálogo da exposição.

Destacamos ainda o grupo de trabalho do AtoM (Access to Memory), que deu um impulso à utilização desta ferramenta de livre acesso de gestão de informação arquivística, tendo-se realizado um seminário e ações de formação dirigidas aos arquivistas.

Existem outros grupos de trabalho, com atividade temporariamente suspensa, como o grupo dos Arquivos Digitais, da Avaliação, Arquivos Históricos, Formação, com exceção do grupo dos serviços educativos, retomado recentemente. Como se pode perceber, a constituição de grupos de trabalho com 17 membros não permite que se mantenha uma dinâmica constante, também pelas exigências das restantes tarefas nos Arquivos. Desta forma, a atividade destes grupos é regida em função das necessidades e oportunidades que vão surgindo.

Os grupos trabalham a par das reuniões gerais, partilhando o seu trabalho nessas reuniões e recolhendo também nessas ocasiões a opinião e apreciação de todos os membros.

O grupo neste momento que se encontra mais ativo é o dos Serviços Educativos. Este tem sido importante para o desenvolvimento de atividades com custos reduzidos e formatos diferentes, neste contexto de pandemia em que também os Arquivos se estão a adaptar e reinventar. Por exemplo, este grupo está a coordenar uma iniciativa online com a colaboração de todos os arquivos da Rede para o Dia Internacional dos Arquivos, no dia 9 de junho.

Com frequência mensal ou bimestral, efetua-se uma reunião geral, onde são debatidos os assuntos que carecem de aprovação de todos os membros. Muitas vezes os seus contributos que são debatidos e discutidos, revelam ser a melhor forma de encontrar consensos, tornando-se bastante importantes para o enriquecimento de todos.

Regra geral, a adesão à RAalg é feita por iniciativa dos arquivistas. As entidades são propostas para integrar a Rede, tendo como condição a aceitação da Carta de Princípios, que é aprovada e assinada pelo responsável máximo da entidade proponente. As entidades que não têm arquivista também podem aderir. Nestes casos, o representante deve desempenhar funções e integrar a equipa do Arquivo. A adesão pode ser feita via internet mediante a consulta da página da RAalg em https://rededearquivosdoalgarve.wordpress.com/

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV2) e a COVID-19 que, desde meados de março de 2020, alteraram profundamente a vida dos serviços de informação arquivísticos, o que podem dizer sobre a forma como os arquivos  e outras entidades aderentes à Rede de Arquivos do Algarve conseguiram fazer face a esta nova realidade, no que respeita à organização do trabalho interno, dos atendimento aos utilizadores e à difusão da informação?

(RAalg) A primeira e última reunião presencial que a Rede teve desde o início da pandemia aconteceu em janeiro de 2020. O primeiro confinamento trouxe uma componente de novidade e de aprendizagem para todos, quer em contexto laboral, quer em contexto pessoal. A realidade dos membros é distinta e as decisões, no que diz respeito às medidas de prevenção no contexto da pandemia, também foram e são diferenciadas. Os representantes, também trabalham a ritmos e com condições diferentes. Houve um período de adaptação e ajuste às novas condições e ferramentas de trabalho. o que também se estendeu ao trabalho desenvolvido pela RAalg.

As reuniões periódicas apenas foram retomadas em outubro do mesmo ano por meio de videoconferência. Nem sempre se consegue a presença de todos os colegas, quer por razões de trabalho interno nas suas instituições, quer por questões técnicas. À semelhança do que acontece com outros profissionais, também os arquivistas recorrem a meios técnicos pessoais, para participar em videoconferências. Estas questões técnicas podem parecer de somenos importância, mas podem ditar a presença e a participação, ou não, de todos os colegas no período que atravessamos.

De uma forma geral todos os Arquivos já tinham implementado soluções e metodologias para a execução das suas tarefas. Na larga maioria dos casos havia um número muito reduzido de pessoas presentes nos serviços ou em períodos alternados. Esta presença é necessária uma vez que a documentação em suporte digital ainda é reduzida comparativamente ao papel. Para evitar o manuseamento e circulação do papel, optou-se sempre que possível pela digitalização dos documentos.

O atendimento ao público passou a ser feito por correio eletrónico. Por decisão das entidades e/ou dos serviços e em função também da sua capacidade técnica, a atividade cultural e educativa foi reformulada para o formato digital.

Quando o país entrou em desconfinamento, os Arquivos já tinham as suas rotinas organizadas em função das medidas de prevenção, ainda que tivessem de ajustar alguns aspetos. O atendimento ao público voltou a poder ser feito presencialmente, com a reorganização dos espaços e estabelecimento de regras no que diz respeito ao número de pessoas e permanência nos espaços de frequência do público. De uma forma geral, o atendimento à distância que já existia acabou por se intensificar.

Também houve necessidade de se adotarem medidas no que toca aos documentos que circulam pelos serviços internos ou que são manuseados pelo público, nomeadamente a quarentena. Nem todos os documentos podem ser digitalizados – quer por motivos técnicos e/ou humanos, devido ao estado de conservação dos documentos, ou ainda porque as questões legais que determinam a utilização do suporte original. Este aspeto é importante na medida em que devemos proteger tanto os profissionais dos Arquivos, os restantes serviços e o público, mas também os documentos, garantindo a sua preservação e integridade.

(ARCHIVOZ) Quais as principais atividades desenvolvidas pela Rede de Arquivos do Algarve e as que se encontram planeadas no decurso deste ano?

(RAalg) A atividade da RAalg é antes de mais a que já foi descrita acima, em termos de colaboração entre os diversos Arquivos na realização das suas atividades diárias.

A Rede de Arquivos também realiza atividades viradas para o público, como a exposição que já foi mencionada e o Encontro de Arquivos do Algarve. Este ano e devido à pandemia, iremos optar pelo formato digital. Atualmente está-se a delinear o programa, que poderá ser consultado brevemente na página da RAalg. https://rededearquivosdoalgarve.wordpress.com/

Como já foi dito, através do grupo dos Serviços Educativos, a Rede irá assinalar o Dia Internacional dos Arquivos com um vídeo colaborativo, que será divulgado no canal de Youtube do Município de Albufeira e nos restantes meios de comunicação. Este ano a Rede aposta também na difusão das atividades que cada Arquivo realiza por si, não só através do seu blogue, mas também na página no Facebook. Por força das circunstâncias impostas pela pandemia, a Rede de Arquivos do Algarve aderiu ainda ao Instagram e ao Twitter.

(ARCHIVOZ) Finalmente, gostaria que dessem a vossa opinião sobre o que pensam ser os grandes desafios e oportunidades com que os profissionais da informação se deparam na atualidade.

(RAalg) O principal desafio continua a ser o reconhecimento do papel e da missão dos Arquivos e dos Arquivistas dentro e fora das suas instituições. Já se percorreu um caminho importante, mas os Arquivos ainda vivem um pouco na sombra. Há um desconhecimento acerca do seu papel e do trabalho que fazem os seus profissionais. A face mais visível são sem dúvida os “Arquivos Históricos”, que correspondem à perspetiva mais romântica com documentos em pergaminho. Neste campo, verifica-se uma afirmação crescente com os Arquivos a terem uma oferta cultural e educativa muito forte junto das comunidades. Os Arquivos, enquanto sistemas de gestão de informação são a parte menos conhecida e talvez menos valorizada. O papel dos Arquivos enquanto serviços de apoio aos órgãos decisores, dando provas e garantias de uma atuação transparente e adequada, nem sempre é conhecido e reconhecido. Não existe uma visão clara do Arquivo enquanto gestor de todo o percurso da informação dentro das instituições.

Quanto a oportunidades, a pandemia pode ser encarada como uma oportunidade para os Arquivos se reinventarem também no sentido de chegar a novos públicos, mas também no que diz respeito à gestão, metodologia e procedimentos dos nossos serviços.

Imagem cedida pela Rede de Arquivos do Algarve.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Fazer acontecer Biblioteca Pública que seja Próxima, Humana e principalmente Útil para as Pessoas!”: Entrevista com Nuno Marçal

Entrevistámos Nuno Marçal, responsável pela Bibliomóvel da Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova.

(ARCHIVOZ) Nuno, vamos começar pelo princípio, quando e em que circunstâncias é que chegas a Proença-a-Nova e começas a trabalhar na respetiva Bibliomóvel, Biblioteca Itinerante, a  26 de junho de 2006? Relacionada com esta questão, em que contexto é que nasceu a Bibliomóvel, a que te encontras ligado desde o início, nessa mesma data?

(Nuno Marçal) Chego a Proença-a-Nova em 2001, com a pós-graduação em Ciências Documentais terminada, iniciei a “via sacra” de envio de currículos e o Município de Proença-a-Nova acolheu-me.

O concelho de Proença-a-Nova foi praticamente devastado por grandes incêndios florestais em 2003 e o município candidatou-se a um programa de apoio as zonas mais atingidas com dois projetos de proximidade e mobilidade de serviços de apoio as populações que tinha sido mais afetadas. Esses projetos, a Bibliomóvel e a Unidade Móvel de Saúde vieram aprovadas e iniciaram os seus trajetos em 2006.

(ARCHIVOZ) Conta-nos como foi o teu primeiro dia de trabalho, como é que as populações dos locais, a que chegas com a Bibliomóvel, começaram por reagir a esta e ao serviço prestado, para mais considerando que uma parte significativa desse “público-alvo” não sabe ler nem escrever?

(NM) 26 de junho 2006, uma tarde muito quente a viajem até a primeira paragem foi cheia de dúvidas sobre aquilo que iria acontecer e poucas certezas do que iria fazer. A chegada da Bibliomóvel naquele largo do Alvito da Beira foi feita, estacionei o veículo, apresentei-me, apresentei os serviços que iríamos prestar. A incredulidade e algum pessimismo daqueles que por ali estavam, manifestado por algumas palavras que não auguravam nada de bom sobre o futuro daquele projeto naquelas paragens, foram um estímulo extra e contribuíram e muito para alterar radicalmente a minha forma de pensar e fazer acontecer Biblioteca.

“O senhor aqui vai ter pouca sorte com o negócio!!”, esta frase que foi um autêntico murro no estômago nas minhas expetativas, levou-me quase imediatamente a mudar de agulhas funcionais, da promoção do livro e da leitura passei para a escuta das histórias de vidas sentidas e sofridas, algumas delas bastante intensas.

Este trocar de foco para as Pessoas, todas as Pessoas, as que sabem e gostam de ler as que não sabem ou não sabem ler foi talvez o grande salto funcional que aconteceu no fazer acontecer uma Biblioteca pública sobre rodas e não estou nada arrependido.

(ARCHIVOZ) É sabido que a Bibliomóvel vai bastante além dos serviços tradicionais de empréstimo domiciliário e consulta de documentos, possibilitando aos seus utilizadores o acesso à Internet, impressão de documentos, mas também o pagamento de serviços, como a água, luz, etc., através de um terminal multibanco que possui, o carregamento do telemóvel, e que por vezes te fazes acompanhar de um técnico da Unidade Móvel de Saúde, para a realização de rastreios. O que nos podes dizer sobre este e outros exemplos de proximidade verdadeiramente útil às pessoas, de serviço público, a que chegas com a Bibliomóvel?

(NM) As Bibliotecas mudaram, a isso são e foram obrigadas. A sua sobrevivência pode passar muito por essa mudança de “templos sagrados” abertos exclusivamente a alguns e tendo como foco exclusivo da promoção do livro e da leitura têm de passar a ser Casas de Liberdade, Fraternidade e Igualdade de acesso à informação, conhecimento e serviços para Todos, uma vez que as Bibliotecas Públicas são efetivamente e afetivamente feitas para todos.

Esta diversidade e tipologias de serviços prestados em nada belisca as normas que regem o seu funcionamento, pelo contrário vão de facto ao encontro dessa ideia da Biblioteca ser um espaço livre para novas aprendizagens, um espaço de partilha e encontro de pessoas com pessoas, um espaço de acesso a informação fidedigna e verificada. Um espaço que quer ser importante na sociedade, relevante na comunidade, mas principalmente útil para as pessoas, todas as pessoas.

(ARCHIVOZ) A quantas aldeias e lugares, a quantas freguesias e a quantos percursos quinzenais é que chegas com a Bibliomóvel, qual o raio, aproximado, de km em que desenvolves o teu trabalho? Como é feito esse trabalho? Chegas a um local central de cada uma dessas aldeias e lugares, em que as pessoas sabem que lá vais estar, a uma determinada hora, avisas previamente, é um serviço porta-a-porta, ou ambos?

(NM) Em 2006 a Bibliomóvel visitava 26 aldeias, 4 escolas primárias e 4 Jardins de Infância, com o encerramento destes últimos virei agulhas exclusivamente para as aldeias e lugares do concelho de Proença-a-Nova. Neste momento são 45 aldeias e lugares onde a Bibliomóvel passa, estaciona nas suas ruas, largos ou mesmo com serviço porta-a-porta, todos os quinze dias, sensivelmente à mesma hora e no lugar de sempre.

O tempo de permanência é muito elástico e varia consoante o interesse e presença dos nossos utilizadores. Existe claro algum limite para não atrasar as próximas paragens, a experiência destes quase quinze anos vai-nos dizendo quem falta vir, se vem, caso não esteja podemos sempre perguntar ou mesmo telefonar para saber se está tudo bem.

(ARCHIVOZ) Quem são os teus utilizadores, quantos são e que autores, portugueses e estrangeiros, livros, ou géneros literários, e que temas é que mais gostam de ler? Envolvendo esta questão, recebes muitos pedidos dos teus utilizadores para a compra do livro, revista “x” ou “y”? Que tipo de livro ou revista é que te costumam pedir que a Bibliomóvel passe a disponibilizar e como é feita a articulação nesse sentido com o Município de Proença-a-Nova? Aprovam os pedidos que transmites dos utilizadores?

(NM) A Bibliomóvel tem realmente alguns utilizadores/Amigos que não sabem ler nem escrever mas existem também alguns Grandes leitores e simplesmente leitores de clínica geral que gostam de ler pelo prazer de ler.

A escolha dos títulos é feita por mim, tendo em conta os interesses dos nossos utilizadores mais generalistas e andam muito em torno de obras de escritores conhecidos na televisão, romances, biografias, culinária e agricultura. Os Grandes leitores socorro-me do acervo de clássicos da Biblioteca Municipal. Todas estas aquisições são apresentadas para aprovação ao Município de Proença-a-Nova que nunca negou a sua aquisição

(ARCHIVOZ) Infelizmente, continua a ser incontornável falar da pandemia. De que modo é que, tendo em conta as condicionantes impostas pela Direção-Geral de Saúde, esta afetou o trabalho da Bibliomóvel? Que grandes dificuldade, desafios e estratégias é que esta te colocou?

(NM) O 16 de Março de 2020 com a aplicação do estado de emergência em todo o território e consecutivo encerramento das Bibliotecas, houve que alterar rotinas e procedimentos que podem ser encaradas como dificuldades ou oportunidades. Optei pela segunda!

Como funcionário do município de Proença-a-Nova integrei as equipas de apoio às populações que se deslocavam aos supermercados, farmácias, lojas de rações para animais aviávamos as listas de compras e íamos entregar a casa das pessoas que haviam solicitado esse serviço, maioritariamente pessoas idosas e doentes.

O facto de ser bibliotecário levou-me invariavelmente a incluir nessa lista de serviços, o máximo de conteúdos e funcionalidades da Bibliomóvel que conseguisse levar num veículo diferente e mais pequeno. Um caixote com livros, revistas, um pc portátil, o ATM para pagar contas, a companhia. Tentei levar o máximo que conseguia e conciliar ao máximo as rotas deste serviço de apoio com as rotas da Bibliomóvel, esta ginástica levou-me a conhecer pessoas novas, aldeias que ainda não conhecia e que hoje fazem parte das rotas da Bibliomóvel.

Uma das nossas funções mais importantes que ficou decidido continuar foi a parceria com a Unidade Móvel de Saúde do Município de Proença-a-Nova. O técnico de saúde responsável formou equipa comigo e nas paragens feitas eram realizados rastreios (colesterol, tensão arterial e diabetes) assim como entrega de folhetos explicativos e conversas demonstrativas de normas de segurança e comportamentos para agir durante a pandemia.

(ARCHIVOZ) Entretanto, no começo deste ano, foi tornado público que a Bibliomóvel, Biblioteca Itinerante de Proença-a-Nova, que este ano celebra 15 anos, foi a vencedora da sexta edição do Prémio Boas Práticas em Bibliotecas Públicas Municipais 2019, promovido pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que tem como objetivo premiar anualmente serviços ou projetos inovadores e de forte impacto na comunidade, desenvolvidos por bibliotecas públicas municipais portuguesas, que contribuam também para uma melhor e mais eficiente gestão dos recursos disponíveis e que ultrapassem a atividade tradicional das bibliotecas. Que significado tem este reconhecimento para ti, para a Bibliomóvel e para o Município de Proença-a-Nova?

(NM) O Município de Proença-a-Nova creio que ficou muito contente pois foi o corolário de todo um investimento efetuado desde 2006 num projeto que é reconhecido por outras instituições e principalmente pelas populações que serve. Pessoalmente fiquei feliz por fazer parte desse projeto e de ter dado o melhor mim em prol das Pessoas, saber que houve alguém que achou esse trabalho merecedor de um prémio é gratificante. Todos os dias no cumprir desse fazer acontecer Biblioteca Pública sou e sinto-me gratificado pela receção e reação sempre calorosa das Pessoas que ajudamos, das quais dependemos isso sim são os grandes e satisfatórios prémios.

(ARCHIVOZ) É inegável, e os importantes reconhecimentos nacionais atestam-no bem, para além da tua presença em congressos e distinções internacionais que recebeste, que a Bibliomóvel tem um impacto muito grande nas populações que serve. Qual é a razão do sucesso da Bibliomóvel? Acredito que para além da excelência e utilidade do serviço comunitário que prestas, também seja muito importante a confiança e amizade que foste construindo com as pessoas onde a Bibliomóvel chega…

(NM) A confiança adquirida. A Amizade conquistada e o Amor pelas Bibliotecas e pelas Pessoas com que é feita!

É simples! É isto e apenas isto.

(ARCHIVOZ) Para quando a criação de uma rede de bibliotecas itinerantes e, eventualmente, uma associação específica para os seus profissionais? Tens ideia de quantas bibliotecas itinerantes existem em Portugal e onde se encontram maioritariamente?

(NM) Em Portugal existe já a Rede Nacional de Biblioteca Pública que importa valorizar e melhorar o seu funcionamento, uma vez que 99,9% das Bibliotecas Itinerantes a circular em Portugal são municipais e públicas creio que não faz muito sentido a criação de uma rede paralela.

Estes tempos de distância social veio potenciar a criação de redes informais que através das redes sociais e outros meios virtuais de comunicação foram-se encontrando, discutindo, falando e partilhando ideias, ideais, sensações e emoções em torno do fazer acontecer Biblioteca Pública sobre rodas.

Estes espaços de encontro foram e são fundamentais na criação desse espírito de grupo, onde profissionais que fazem o mesmo e sentem o mesmo encontram-se para planear, idealizar e resolver projetos, ideias e problemas comuns.

Existe um diretório criado e dinamizado por um colega nosso chamado João Henriques onde se tenta compilar toda a informação disponível sobre a localização e serviços prestados pelas cerca de 60 (a crescer) Bibliotecas Itinerantes que existem e funcionam pelas estradas, terras e Pessoas de Portugal.

O diretório chama-se Nave Voadora e pode ser visitado aqui: http://anavevoadora.wikifoundry.com/ ou aqui:  https://www.facebook.com/anavevoadorabibliotecasitinerantesportugal

(ARCHIVOZ) Para terminar, como é que imaginas a Bibliomóvel daqui a 20 anos, o que é que esperas, ou gostarias que ele se tornasse?

(NM) Quero muito regressar e quero muito tentar fazer acontecer uma Biblioteca Pública sobre rodas que seja realmente útil, próxima e humana. Tudo farei para que assim seja!

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Um museu contemporâneo, logo na sua génese, deve as mais das vezes considerar a existência de (pelo menos) um “Centro de Documentação” que será, de facto, o Arquivo correspondente aos acervos do Museu”: Entrevista com Sérgio Lira

Doutorado em Museum Studies pela University of Leicester (U.K.) reconhecido com grau de “Doutor” pela Universidade do Porto. Foi Professor Associado na Universidade Fernando Pessoa tendo deixado de leccionar em 2013. É sócio fundador, membro da direcção e investigador responsável no Green Lines Instituto para o Desenvolvimento Sustentável. É Investigador Integrado do CLEPUL e membro da coordenação do pólo do Porto daquele centro de investigação. Hoje entrevistamos o Professor Sérgio Lira que nos dará uma visão integrada de Museus e Arquivos.

(Archivoz) Podemos afirmar que o seu percurso académico começou nos confins da Idade Média, como deu o salto para a museologia?

(Sérgio Lira) O meu percurso académico começou com uma licenciatura em História (na FLUP). Dos 4 anos que compunham essa licenciatura, aquele em que o conjunto dos Docentes se destacou pela qualidade, empenho, organização e presença foi, sem a menor dúvida, o 2º ano – História Medieval. Dessa forma, abandonei a “menina dos meus olhos” até à data – a Cultura Clássica e a História Antiga – e decidi-me a um Mestrado em História Medieval. Isso implicou realizar uma cadeira “a mais” (Paleografia e Diplomática – que não tinha feito, por ter escolhido Epigrafia e Numismática) e (finalmente!) aprender algum Latim… depois de cumprido o Serviço Militar obrigatório, que se entrepôs entre a Licenciatura e o Mestrado, iniciei esse grau. À época, os mestrados constavam de 4 anos – 2 lectivos e 2 de Dissertação. Sob a preciosa orientação do saudoso Professor Doutor José Marques – para nós será sempre “Padre Marques” – decidi compulsar, transcrever, estudar e publicar toda a colecção documental que fosse possível identificar do Mosteiro de S. Simão da Junqueira, desde o mais antigo documento até ao século XIII. Foi um trabalho exigente, quer do ponto de vista paleográfico que do rigor que trabalhar com tal tipo de documentação implica. Resultou numa peça de investigação com a publicação de mais de 300 documentos (seguindo as regras de publicação do Pe Avelino de Jesus da Costa) e do estudo correspondente, tendo eu optado por nele incluir tanto os documentos relativos à Instituição como os particulares que nesses fundos estavam (estão) guardados.

De posse do grau de Mestre – que à época não era tão vulgar quanto hoje – retomei a leccionação ao nível do Ensino Superior (onde já tinha feito uma experiência, ainda como licenciado, mas de curta duração, tendo depois labutado nos ensinos preparatório e secundário). Aí colocou-se um novo desafio: leccionar num Curso de Antropologia onde havia duas cadeiras de Museologia. Optei então pela realização de um PhD em Inglaterra, na Universidade de Leicester que tinha (e tem) um dos maiores e mais prestigiados departamento de Museum Studies do mundo. O ingresso e o início do percurso nesse novo universo não foi isento de dificuldades: estava a entrar num espaço conceptual diferente do “meu”, tinha que usar uma língua que não era a minha, havia inúmera bibliografia que me era completamente estranha e que era preciso “devorar” a um ritmo significativo – a isso juntava-se a leccionação a tempo integral na Universidade e a vida familiar… esses primeiros tempos implicaram viver entre Leicester e o Porto, foram um desafio e um esforço que só se faz uma vez na vida, e em certas idades. Mas vencidos os escolhos, conclui a Tese com sucesso e antes do tempo limite previsto. Nesse processo, e uma vez que usei muita documentação dos arquivos dos museus, a prática anterior, o rigor e a exigência que a investigação de tempos medievos haviam exigido foi especialmente útil. A partir desse momento, a Museologia tem estado muito mais presente na minha vida académica e profissional do que a Idade Média, mas não nego que um “saltinho” (de quando em vez) a esse Mundo pretérito e querido me não tenta – e, por isso, lá regresso por vezes.

(Archivoz) Como investigador / historiador como encara a evolução dos arquivos?

(SL) Ao longo do meu percurso de investigação conheci já muitos arquivos, dos mais pequenos aos centrais – ainda do tempo da licenciatura, por exemplo documentação dos antigos arquivos paroquiais, até aos arquivos centrais que foram o cerne dos fundos compulsados para a Dissertação de Mestrado. Mesmo para a Tese de doutoramento entrei noutros tipos de arquivos (aqueles que guardam muita documentação dos próprios museus). Nos Idus de 1980/90 havia práticas que (presumo!) entretanto arredadas (como seja permitir-se a fotocópia de pergaminhos, ou manipulação de papéis sem qualquer espécie de protecção, entre outras). Mas já então tal não era transversal: havia arquivos que tinham já implementado boas-práticas (recordo, por exemplo, o acesso ao arquivo fotográfico da Fundação Calouste Gulbenkian onde se podia aceder ao que ainda não estava digitalizado, mas apenas em sala própria e usando luvas/máscara apropriadas o que não era comum em muitos outros arquivos). Acresce que os processos de digitalização eram ainda inexistentes ou estavam em fase embrionária, pelo que a maior parte das vezes utilizávamos os originais – fica bem aqui dizer “eu ainda sou do tempo dos microfilmes”, o que provavelmente deixará de fazer sentido para a maior parte dos utilizadores muito em breve. Quando naveguei pelos arquivos dos museus, onde respiguei a maior parte da documentação que empreguei na Tese de doutoramento, encontrei de tudo: desde documentação ordenada e organizada até documentação a esmo, sem qualquer espécie de (sequer) registo digno do nome. Hoje pugno como e quando posso, por Arquivos que preservem a documentação e a deem a conhecer, a façam acessível sem perigar os originais. Para isso muito contribuem os modernos sistema de inventariação e acesso, tendo a minha actividade académica e profissional passado também por aí.

(Archivoz) No seu trabalho recorre frequentemente a documentos de arquivo? A Museologia pode viver sem arquivos?

(SL) Não, não pode! o objecto museológico é mudo: não fala connosco de moto-próprio… aquilo a que em museologia se chama vulgarmente “informação associada” é fundamental para a interpretação das peças – e uma peça não-interpretada, é uma peça museologicamente inútil. Quando muito, poderá ser esteticamente interessante – mas isso será uma galeria de arte (ou similar), não um museu. Desse ponto de vista os anglo-saxónicos distinguem, e muito bem “Museums” e “Galleries”. Aliás, um museu contemporâneo, logo na sua génese, deve as mais das vezes considerar a existência de (pelo menos) um “Centro de Documentação” que será, de facto, o Arquivo correspondente aos acervos do Museu. Falamos, naturalmente, de arquivos que podem conter documentos de muito tipo (escritos, imagens, filmes, áudio…). Para além desses centros de documentação que devem fazer parte dos museus, é também normal que os museólogos recorram aos arquivos na busca de outras informações, dados, confirmações, sempre no sentido de interpretar as peças que colocam em exposição, ou de conhecer aquelas que integram as reservas do museu.

(Archivoz) Como definiria a proliferação de arquivos difundidos online em Portugal?

(SL) Será uma tendência natural… a manipulação dos originais deve ser de todo em todo evitada; peças digitalizadas tanto podem ser consultadas local como remotamente – ora, havendo essa possibilidade, não fará muito sentido ter que me deslocar ao Arquivo para me sentar numa sala com o meu computador ligado à rede e consultar, ali, o que poderia consultar em casa. Essa proliferação corresponde a uma maior facilidade em digitalizar as peças e, concomitantemente, ao facto de existirem ligações de rede eficazes e com velocidades apreciáveis. A evolução a este nível tem sido vertiginosa: quando comecei a visitar a “Torre do Tombo” era proibido (sim, interdito, vedado, impedido, impossível) entrar com um computador portátil… e eu não sou “tão” velho assim! A outra face desta moeda poderá vir a ser uma certa “banalização” do acesso, mas os eventuais males que daí possam advir não se comparam com os benefícios que se colhem, quer em termos de preservação dos originais quer de democratização do acesso.

(Archivoz)  Também é especialista em informática qual a sua perspetiva em torno do open-source e do software proprietário?

(SL) Eu não sou “especialista” em informática. Longe disso… a minha actividade académica, lectiva e profissional tem-me obrigado a utilizar sistemas diversos, aplicações várias e, por natureza, não gosto de usar o que não compreendo. Quando comecei a utilizar computadores, ainda nos anos 1980/90, o sistema operativo era o DOS, e sobre ele corríamos aplicações como o “WordStar”, o “DBaseIII” ou o “Quattro”……. as primeiras ligações à internet eram feitas por FTP e não havia “motores de busca”….. daí para cá a evolução tem sido alucinante, mesmo do ponto de vista do utilizador. Nessa qualidade, tenho procurado soluções open-source não-proprietárias, quer por uma questão de opção política, quer por uma questão pragmática: esse tipo de aplicações dispõe, normalmente, de uma comunidade de suporte muito significativa e colaborante, que ajuda na maior parte das circunstâncias. Sou, de há já muitos anos, utilizador de distros de Linux para máquinas pessoais: nos meus computadores já usei Ubuntu, Gentoo e Mint (é esta actualmente a distro do meu posto fixo), correndo neste momento um Arch no meu portátil de trabalho diário. Qualquer pessoa que tenha já experimentado sabe bem a diferença de desempenho da mesma máquina com um sistema operativo destes ou com um outro, proprietário – já para não falar dos níveis de segurança especialmente na utilização em rede. A nível profissional tenho também sempre advogado esse tipo de solução: é mais barato para os clientes, a manutenção é assegurada, a fiabilidade dos sistemas é das mais elevadas que se podem encontrar e o desempenho optimizado. Apenas em raríssimas circunstâncias me tenho deparado com a necessidade incontornável de empregar aplicações proprietárias embora, obviamente, elas ocorram de quando em vez.

(Archivoz) Está ligado a uma aplicação integrada de Arquivo, Museu e Biblioteca o “INDEX RERUM”. Como a descreve? Poderá ser uma boa solução para arquivos com poucos recursos financeiros?

(SL) O Index Rerum nasceu de um projecto académico, que juntou um professor de informática e bases de dados e um museólogo, para produzir um sistema que satisfizesse as necessidades de um museu que se estava a criar (um museu industrial) quando não havia no mercado nenhum produto que satisfizesse. À época, participámos activamente nos inícios de formalização do CRM do CIDOC, tendo sido membros dos seus grupos de trabalho até à sua transformação em norma ISO [211127]. O IR foi sempre pensado com uma solução que não exigisse muitos recurso de parte das instituições, quer do ponto de vista financeiro, quer do ponto de vista dos recursos informáticos internos: sabíamos, como sabemos, que muitas instituições (nacionais e não apenas, porque temos o IR instalado já fora das nossas fronteiras) não dispõem dos recursos necessários a soluções financeiramente exigentes – e que, verdadeiramente, não são necessárias para cumprir de forma eficaz, segura e profissional, o que cumpre a um Museu, Arquivo ou Biblioteca – por exemplo, o IR não exige máquinas “potentes” para funcionar: qualquer computador, mesmo “velhinho”, ligado à internet e com um browser actualizado o usa sem nenhum problema. O IR, quando foi transformado em produto comercial, manteve exactamente esses princípios. Utiliza, por exemplo, por defeito, uma base de dados (PostgreSQL) das mais seguras, fiáveis e robustas actualmente existentes – e sem custos associados. Obviamente já tivemos clientes que nos pediram que usássemos outras (por exemplo da Oracle) o que para nós não representa nenhum problema. O IR é actualmente comercializado como um pacote a instalar no servidor da instituição (versão “aquisição”) ou como um serviço de software (SaaS), instalado nos servidores da empresa (FCo) que o comercializa e que assegura toda a manutenção e os backups regulares dos dados ficando a instituição que o usa liberta de todas essas preocupações – esta solução é especialmente interessante para pequenas/médias instituições que desejam dispor de um produto sofisticado e completo por um valor anual relativamente baixo, sem nenhuma preocupação técnica associada – muitas vezes essas instituições não dispõem de pessoal técnico de informática.

O IR é um sistema neste momento muito completo mas que poderia ser descrito, nas suas características principais, da seguinte forma:

–> tem 3 secções (interligadas ou independentes): Museu, Arquivo e Biblioteca
–> MUSEUS: respeita o CRM do CIDOC e toda a legislação portuguesa aplicável
–> ARQUIVO: respeita o ISAD-G (ou qualquer outra norma)
–> BIBLIOTECA: respeita o UNIMARC (ou qualquer outra norma)

–> tem uma interface profissional (destinada a trabalho) e uma interface mais amigável (destinada ao público)
–> é capaz de inventariar e fazer a gestão de colecções de qualquer espécie de património, móvel ou imóvel, tangível ou intangível
–> permite escolher o que deve ser visível e invisível para o “exterior” da Instituição (fichas completas ou campos específicos)
–> as fichas são todas parametrizáveis conforme as colecções a inventariar
–> é, de raiz, um sistema web-based (cliente-servidor)
–> não implica nenhuma instalação nas máquinas-Cliente
–> funciona, do lado do Cliente, em qualquer MSWindows, iOS, Linux, Android, etc. desde que tenha um browser actualizado
–> permite um número ilimitado de utilizadores com login (profissioinais) sem exigir pagamentos de licenças adicionais
–> implementa um nível de segurança que satisfaz instituições como o Banco de Portugal ou o Banco de Cabo Verde, por exemplo (onde está em funcionamento)
–> tem, em instalações típicas, 3 níveis de acessos (consulta, inventariação, administração); mas permite qualquer parametrização e quaisquer níveis de permissões
–> recebe e exporta dados nos principais formatos standard
–> comunica com outros sistemas que usem formatos standard
–> pode funcionar em multi-instituição com individualização de colecções
–> existe na versão “aquisição” e na versão “SaaS” (Software as a Service)

(Archivoz) Abordamos os arquivos digitais e os museus, o seu futuro será um futuro essencialmente virtual?

(SL) De forma alguma!

Os Arquivos, por maioria de razão, preservam documentos, originais, que mantêm nas melhores condições pelo mais longo período de tempo possível. Sabemos que todas peças são perecíveis, mas a função do arquivo (entre outras) é contrariar essa inevitabilidade. Do ponto de vista das peças, o arquivo nunca será “virtual” porque os documentos são materiais – se bem que actualmente estejamos a produzir documentação exclusivamente digital, e que isso venha a lançar novos desafios conceptuais aos arquivos. De qualquer forma, os documentos materiais vão sempre exigir preservação. Outra questão é a do acesso – e aí, sim, creio que a tendência será sempre a da “virtualização” por questões de conforto dos leitores e de preservação dos originais. De qualquer forma, para alguns casos específicos, o regresso à materialidade será inevitável em certas circunstâncias – concordaremos que essas diminuíram (e eventualmente ainda diminuirão mais), mas manter-se-ão sempre.

Os Museus são o reino das peças autênticas – the real thing na expressão consagrada por Susan Pearce, que nos dizia isso, sempre e repetidamente em cada seminário que leccionava ou em cada conferência (convidámo-la, uma vez, para keynote speaker num congresso internacional sobre património intangível, que organizámos em 2009 nos Açores, e abriu a sua alocução afirmando “Não há património intangível: tudo tem, inevitavelmente, materialidade!”). Os museus podem adoptar soluções sofisticadas (ecrãs transparentes, óculos de realidade virtual, ecrãs touch, realidade aumentada, virtualização de peças e do seu “interior”, entre tantas outras) mas nunca se desligarão da materialidade das suas peças: nada substituiu o objecto autêntico, a peça verdadeira – quer em “peso simbólico” quer em atractividade para o público. A pedra lunar (um simples e vulgar calhau de basalto, para um leigo muito semelhante ao que se poderia apanhar em tantos locais terrestres) em exposição provocava longas filas, apenas para se poder estar na presença do “objecto verdadeiro”. Se para os arquivos a leitura remota pode ser uma solução confortável, barata e (quase) sem contra-indicações, para os museus é a presença física dos visitantes que faz sentido: não há museus sem colecções (era o paradigma do século XIX e de boa parte do XX), mas também não há museus sem visitantes (é o paradigma actual).


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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“Os primeiros 10 anos foram muito importantes para o estabelecimento enquanto instituição patrimonial e enquanto espaço de estudo e investigação”: Entrevista com Rita Costa

Entrevistámos Rita Costa, Coordenadora do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica.

(ARCHIVOZ) Quando é que nasceu a ideia de criar o Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, quando é que este entrou, de facto, em funções, e qual a sua missão, visão e competências, para além do enquadramento orgânico na estrutura do Benfica?

(RC) A ideia de criar o Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica surgiu em 2009 decorrente de duas necessidades: a primeira, ter documentação e informação histórica facilmente acessível para utilização do canal de televisão do Clube, a Benfica TV (hoje BTV), que tinha iniciado as suas emissões regulares a 10 de dezembro de 2008; e a segunda, como base para a construção do futuro Museu do Clube, uma das iniciativas anunciadas por Luís Filipe Vieira na sua recandidatura à presidência do Sport Lisboa e Benfica, em junho de 2009.

O CDI começou a ser estruturado no segundo semestre de 2009 e entrou em funções em fevereiro de 2010, com a constituição da equipa de profissionais de Ciências da Documentação e Informação e o início das tarefas de tratamento do acervo documental. Foi oficialmente inaugurado pelo Presidente do Sport Lisboa e Benfica em 2 de novembro de 2010.

O departamento faz parte da Direção de Património Cultural, em que se incluem também o Departamento de Reserva, Conservação e Restauro, a Curadoria, o Serviço de Mediação e Educação e a Produção. De uma forma integrada e através de equipas plurifuncionais, os departamentos asseguram a prossecução da missão da Direção de Património Cultural, que é garantir a preservação, a valorização e a difusão da memória e do património histórico e cultural do Sport Lisboa e Benfica e cuja ferramenta de divulgação principal, mas não exclusiva, é o Museu Benfica – Cosme Damião. Concorrendo para os objetivos do Património Cultural, o Centro de Documentação e Informação tem por missão preservar, valorizar e divulgar o acervo documental do Sport Lisboa e Benfica e tem como competências a gestão da documentação, a gestão de informação desportiva, o estudo e investigação da história do Sport Lisboa e Benfica e a comunicação da história do Benfica e do acervo documental.

(ARCHIVOZ) Por quantos elementos é constituída a equipa do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, quais as categorias profissionais e qual a respetiva formação de cada elemento, na área de arquivo?

(RC) A equipa do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica é atualmente constituída por 17 profissionais: 1 coordenador, 10 profissionais da área das Ciências da Documentação e Informação, 5 investigadores históricos, com formação na área de História, e 1 gestor de recursos culturais, com formação em História de Arte e Museologia. Os profissionais da área das Ciências da Documentação e Informação são especializados na área de Biblioteconomia ou na área de Arquivo e desempenham preferencialmente tarefas da área da sua especialização, apesar de ser promovida a intercomunicação entre as duas áreas e uma abordagem eclética na divulgação do acervo.

(ARCHIVOZ) O Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica encontra-se aberto ao público ou está acessível apenas aos utilizadores internos do Benfica? Imagino que, por exemplo, exista uma relação muito próxima do Centro de Documentação e Informação com a Direção de Património Cultural do Benfica, em que se destaca o Museu Benfica – Cosme Damião. Fale-nos um pouco do trabalho efetuado nesse sentido e das dinâmicas criadas, referindo, ainda, as atividades de carácter pedagógico, cultural, científico ou social desenvolvidas ou se estas são responsabilidade de outras áreas da Direção de Património Cultural do Benfica?

(RC) O Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica não está aberto ao público em geral. Em casos pontuais, analisados individualmente e mediante fundamentação, é permitido o acesso a elementos externos, nomeadamente estudantes universitários ou investigadores que estejam a desenvolver os seus projetos na área da história do desporto.

O Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica serve fundamentalmente os utilizadores internos do Grupo Benfica.

Enquanto departamento integrante da Direção de Património Cultural, o Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica é o departamento responsável pela produção e gestão dos conteúdos da exposição permanente do Museu Benfica – Cosme Damião e das exposições temporárias desenvolvidas pelo Património Cultural. É também da sua competência a gestão da página semanal no jornal O Benfica e do site do Museu Benfica – Cosme Damião. O departamento disponibiliza ainda documentação e informação sempre que solicitado pelos restantes departamentos da Direção do Património Cultural para o desenvolvimento dos seus projetos, como por exemplo para a criação de guiões de visitas ou atividades lúdico-pedagógicas, para a comunicação do Museu Benfica nas redes sociais ou para a divulgação do acervo de bens culturais. Apesar de grande parte das atividades de programação serem desenvolvidas pelo Serviço de Mediação e Educação, é responsabilidade do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica o desenvolvimento de atividades específicas de divulgação do acervo documental e do trabalho desenvolvido pelo departamento, como visitas especializadas ou a publicação de papers.

O Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica é um recurso que está disponível para todos os departamentos do Grupo Benfica. Mantém uma relação muito próxima e consistente em especial com a Direção Comercial e Marketing, a Direção de Comunicação e a área Digital. Destas, destacamos o trabalho desenvolvido na área de Merchandising, que inclui o fornecimento de documentação e informação para o desenvolvimento de produtos de carácter histórico/retro e a validação de informação histórica presente em produtos editoriais licenciados (produto oficial Benfica desenvolvido por empresas parceiras).

(ARCHIVOZ) Que documentação é que se encontra no Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, quais as datas extremas e quantos metros lineares possui (em fase corrente e definitiva)? Considerando que diariamente são publicadas, sobretudo na imprensa escrita, notícias sobre o Sport Lisboa e Benfica, a que razão cresce, aproximadamente, esta documentação por ano, em termos de metros lineares? E qual é a documentação mais consultada e a que origina mais pedidos de reprodução, por quem e para que fins?

(RC) O acervo documental gerido pelo Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica inclui documentação de biblioteca (livros, revistas, documentos áudio e audiovisuais, num total de mais de 85 mil registos), documentação de arquivo (199 metros lineares) e fotografia (mais de 130 mil), com datas extremas entre 1896 e 2021. Toda a documentação está exclusivamente em fase definitiva, uma vez que o arquivo do Clube é gerido por outro departamento, a Secretaria Geral.

Na gestão da informação diária publicada sobre o Clube, optamos pela desmaterialização. Apenas arquivamos fisicamente as publicações propriedade do Benfica, sobre as quais temos responsabilidade de preservação. No caso das publicações que não são propriedade do Benfica, a sua preservação física é responsabilidade das entidades proprietárias e dos organismos públicos com essa competência, e, como para o Benfica a sua função é meramente informativa, não arquivamos a documentação física, mas apenas uma cópia digital.

A documentação mais consultada e que origina mais pedidos de reprodução são as fotografias. No caso da Direção de Património Cultural, é utilizada para exposições, para atividades de programação e para a divulgação através de meios de comunicação tradicionais ou redes sociais. Para os restantes departamentos do Grupo Benfica, estes pedidos são essencialmente para fins de divulgação ou de desenvolvimento de produtos, quer para fins internos quer para fins comerciais. São também frequentes as solicitações por parte de instituições culturais, como museus e arquivos, e por parte de escritores e jornalistas, nacionais e internacionais.

(ARCHIVOZ) Como é feito o tratamento da documentação do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, quer a relativa à imprensa diária, quer a que se encontra em fase definitiva?

(RC) Adquirimos os jornais diários e semanários nacionais, sejam desportivos, generalistas ou financeiros, que são alvo de uma seleção: apenas arquivamos os artigos relacionados com o Benfica ou com o desporto. Fazemos a digitalização dos artigos selecionados e eliminamos o original, que é reciclado. Através de uma plataforma de clipping, temos também acesso às notícias de televisão e rádio nacionais. Todo este material em formato digital é gerido através de uma aplicação de catalogação.

Relativamente à restante documentação, efetuamos a sua organização, higienização e acondicionamento, sendo de seguida catalogada (no caso de documentação de biblioteca) ou classificada e descrita (no caso de documentação de arquivo). Esta documentação é igualmente digitalizada e disponibilizada através das aplicações de gestão documental. A documentação é arquivada no espaço de arquivo, que tem condições ambiente (temperatura e humidade) controladas e permite a sua preservação.

(ARCHIVOZ) Fale-nos agora um pouco da documentação noutros suportes, que não papel, existente no Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, desde os processos fotográficos, à que diariamente passa nas televisões, em suporte digital, etc.

(RC) Como já referido, as notícias nacionais de televisão e rádio são-nos fornecidas por uma empresa de clipping, em formato digital através de uma plataforma web, e são integradas no catálogo.

Do acervo documental faz parte um volume significativo de fotografias, mais de 130 mil fotogramas estimados, sendo que cerca de 80 mil correspondem a negativos, pertencentes ao fundo Roland Oliveira, fotógrafo do Benfica entre os anos 50 e os anos 2000. Esta tipologia documental, pelas suas características, necessita de atenção especial. O suporte do negativo, em plástico, degrada-se com o tempo e, no caso dos negativos mais antigos, já começamos a detetar sinais dessa degradação. Por isso, estamos atualmente a desenvolver um projeto de conservação deste acervo, que prevê a limpeza, a planificação quando necessária, o acondicionamento individualizado de negativos em material de conservação (acid free) e o seu congelamento, que permitirá parar o processo de degradação. Para que seja assegurado o acesso à informação, antes da congelação todos os negativos serão digitalizados e descritos.

Quanto à documentação nativa digital, estamos cada vez mais conscientes da necessidade de adaptar os métodos tradicionais de arquivo à realidade digital e planeamos implementar formas de gestão mais eficazes de arquivo. Um caso paradigmático é o arquivo fotográfico digital, com o qual já lidamos diariamente.

(ARCHIVOZ) Existe um projeto de digitalização no Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica? Se sim, quais os equipamentos existentes nesse sentido, qual o software utilizado para a desmaterialização da informação e quais os formatos de consulta e de conservação das imagens? Que tipologias documentais são objeto de digitalização?

(RC) Existe desde o primeiro dia um projeto de digitalização, que nos permite cumprir dois objetivos que parecem à partida antagónicos: preservar a documentação e dar acesso à informação nela contida. Através do processo de digitalização e de disponibilização das imagens digitais como meio preferencial de acesso, reduzimos o manuseamento da documentação e os processos de degradação a ele associados. O Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica dispõe de dois scanners planetários BookEye e de um scanner de negativos. A digitalização é feita em formato TIF, não comprimido, 24 bits, 300 dpi (mínimo), a cores. Este formato é exclusivamente de preservação. Para consulta, é produzida a partir da matriz TIF uma cópia em JPG, com uma compressão ajustada para cada tipo de digitalização, que permita o melhor compromisso entre a qualidade e a rapidez de acesso. As imagens digitais são armazenadas nos servidores do Clube, que asseguram as necessárias redundâncias e backups. O acesso dos profissionais e utilizadores é feito a partir das aplicações de gestão documental, que foram desenvolvidas pela equipa de Sistemas de Informação do Sport Lisboa e Benfica, respeitando as normas internacionais da área.

Todas as tipologias documentais são alvo de digitalização, sendo identificadas em cada época desportiva quais as séries documentais prioritárias para digitalização.

(ARCHIVOZ) Considerando a importância crucial da difusão da informação, diga-nos como é efetuada a disponibilização da informação à responsabilidade do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, como é possível aceder a esta e que outras atividades são desenvolvidas, por exemplo, ao nível dos instrumentos de acesso à informação?

(RC) A documentação de biblioteca está disponível para consulta interna, através de uma aplicação de consulta criada para o efeito. Quanto à documentação de arquivo, apenas está acessível aos profissionais do Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica, mas estamos a trabalhar para garantir o acesso interno, a partir de um sistema que permita a gestão dos diferentes níveis de acesso. A equipa de Documentação trabalha diariamente para a otimização dos instrumentos de informação, estando neste momento a desenvolver o Guia Geral de Fundos e Coleções.

A nível externo, e uma vez que o Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica não está aberto ao público em geral, o acesso é avaliado caso a caso, sempre que surgem solicitações. Faz parte dos objetivos a médio prazo da Direção de Património Cultural a disponibilização de partes selecionadas do seu acervo ao público através do site do Museu Benfica.

(ARCHIVOZ) Para terminar, como é que imagina o Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica daqui a 20 anos, o que é que espera que ele se torne?

(RC) Espero que o Centro de Documentação e Informação do Sport Lisboa e Benfica tenha a possibilidade de continuar a crescer, a melhorar e a expandir a sua ação. Os primeiros 10 anos foram muito importantes para o seu estabelecimento, para encontrar o seu espaço enquanto instituição patrimonial, enquanto espaço de estudo e investigação e enquanto suporte do Museu Benfica – Cosme Damião. Foram também anos de consolidação da sua posição dentro do Grupo Benfica, do Clube e da estrutura empresarial. Os próximos passos de crescimento serão na aproximação ao público e na potenciação da sua voz no estudo e investigação da história do desporto. Imagino que, daqui a 20 anos, esta posição se tenha consolidado e que o CDI possa ser simultaneamente uma referência na comunidade e uma instituição ao serviço da comunidade.

Imagem cedida pelo entrevistado, da autoria do fotógrafo João Freitas, de que o Sport Lisboa e Benfica é detentora:
Álbum fotográfico da inauguração do estádio do Sport Lisboa e Benfica ( em cima) e diário das atividades desportivas e associativas do Benfica (em baixo).


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Os arquivos são determinantes na democratização do acesso ao conhecimento”: Entrevista com Anita Tinoco

Entrevistámos Anita Tinoco, Diretora do Arquivo Distrital de Beja.

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso profissional e académico, até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Beja, em 2014.

(Anita Tinoco) Os últimos 15 anos da minha vida profissional têm sido dedicados à área dos arquivos. Depois de concluir a pós-graduação em Ciências Documentais (variante de Arquivo) na Universidade Portucalense no Porto assumi o papel de responsável pelo arquivo municipal de uma autarquia local onde tive a oportunidade de estudar, definir e implementar procedimentos que visavam a organização dos circuitos documentais do Município. Este trabalho contribuiu para o reforço da minha visão dos arquivos enquanto elemento estruturante de qualquer organização e consequentemente para a importância da sua correta gestão. O gosto pela área da gestão (da informação) levou-me à frequência do Mestrado em Ciências da Informação da Universidade de Évora que viria a concluir em 2011 com a defesa da dissertação sobre preservação de documentos digitais nos arquivos municipais portugueses. Nesse mesmo ano, assumi a responsabilidade de coordenar a equipa da Modernização Administrativa do Município, destinada à implementação do balcão eletrónico e do licenciamento zero. Em 2014 assumi um novo desafio profissional, a direção do Arquivo Distrital de Beja, onde me encontro presentemente a exercer funções.

(ARCHIVOZ) Como referido, é Diretora do Arquivo Distrital de Beja, desde 2014. Que balanço faz do exercício deste cargo ao fim de sete anos?

(AT) Em regra, o exercício das funções de dirigente é muito exigente e seu exercício no contexto de um Arquivo Distrital, uma unidade orgânica flexível da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que é o órgão coordenador e executor da política arquivística nacional, representa uma responsabilidade e desafio acrescidos. Ao Arquivo Distrital de Beja compete aplicar as políticas arquivísticas que são emanadas pela DGLAB e nessa medida tem a responsabilidade de garantir a salvaguarda do património arquivístico da região e dos direitos dos cidadãos que se encontram consubstanciados nos documentos que estão à sua guarda bem como apoiar tecnicamente a organização e qualificação dos arquivos do distrito.

Nos últimos anos, o Arquivo Distrital de Beja tem vindo a organizar, descrever e disponibilizar de forma sistemática e contínua o património arquivístico de que é detentor com o intuito de satisfazer as crescentes necessidades informacionais dos utilizadores. Neste âmbito, entre 2014 e 2020, foram disponibilizados mais de 90.000 registos descritivos e mais de 1 milhão e 500 mil representações digitais da documentação que se encontram disponíveis para consulta e visualização gratuita na base de dados do Arquivo (https://digitarq.adbja.arquivos.pt/), relativos aos fundos documentais mais solicitados para consulta pelos utilizadores.

Acresce ainda o trabalho desenvolvido no âmbito da prestação de serviços de consulta, pesquisa, informação e reprodução (simples ou certificada). A este respeito, de referir a implementação em 2018 do balcão eletrónico CRAV (Consulta Real em Ambiente Virtual) que uniformizou os procedimentos inerentes à prestação destes serviços e contribuiu para a sua simplificação e modernização, o que conduziu ao aumento de serviços prestados na íntegra em suporte digital e à diminuição do tempo de resposta.

O trabalho realizado pelo Arquivo Distrital de Beja resulta do esforço conjunto de todos os trabalhadores que diariamente se empenham e dedicam à missão que é assegurar que a documentação é tratada de acordo com as normas em vigor e de que está disponível para ser consultada, divulgada e disseminada, dando origem à produção de conhecimento. Por tudo isto, o balanço que faço é bastante positivo, pois é bastante gratificante e encorajador saber que o nosso trabalho teve/tem um impacto na valorização do património da região.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Beja tem à sua responsabilidade um património arquivístico bastante diversificado, nos mais variados tipos de suporte. Qual a dimensão do mesmo, que fundos e coleções gostaria de destacar e quais são os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(AT) O património arquivístico que se encontra à guarda do Arquivo Distrital de Beja é bastante rico e diversificado. Ele é constituído por cerca de 500 fundos documentais, produzidos por entidades de natureza diversa, pública ou privada, organizações (coletivas ou singulares) e que corresponde a cerca de 3,5Km de documentação.

Entre a documentação mais solicitada para consulta destacam-se os livros paroquiais (registos de batismo, casamento e óbito) e do Registo Civil utilizados para fins de investigação genealógica mas também para fins probatórios. Destaca-se também a documentação notarial e a judicial muito procurada por advogados e solicitadores no âmbito da instrução de processos administrativos e judiciais. Há ainda a destacar a documentação do Governo Civil de Beja, da Câmara Eclesiástica de Beja, da Câmara Municipal de Beja e da Santa Casa da Misericórdia de Beja. Merece ainda destaque o acervo das ordens monásticas/conventuais do Baixo Alentejo referente a 20 conventos do Baixo Alentejo.

Como referi anteriormente, o Arquivo Distrital de Beja tem vindo a trabalhar no sentido de disponibilizar em formato digital a documentação que tem à sua guarda, daí que os livros paroquiais de registo de nascimentos, casamentos e óbitos já se encontrem descritos e mais de 95% se encontrem digitalizados e disponíveis para consulta e visualização na web, sem encargos para o utilizador. Com a documentação monástica/conventual sucede o mesmo bem como com a documentação notarial do fundo da Câmara Eclesiástica de Beja.

A pesquisa e acesso a esses documentos pode ser efetuada através da base de dados do Digitarq na qual o utilizador pode definir os critérios de pesquisa consoante as suas necessidades e efetuar a pesquisa sem depender de terceiros. Este facto confere ao utilizador uma maior flexibilidade na organização do seu trabalho, na medida em que tem a documentação disponível para consulta a qualquer hora e em qualquer lugar.

Além disso, como resultado do trabalho de organização e descrição arquivística, o Arquivo Distrital dispõe de inventários e catálogos da documentação que podem ser consultados de forma presencial na sala de referência do Arquivo e/ou remotamente no site oficial.

(ARCHIVOZ) Sem qualquer desvalorização das demais funções arquivísticas, a difusão da informação é crucial em qualquer serviço de informação, para mais considerando o contexto de pandemia que nos encontramos a viver. Pode dizer-nos o que tem sido feito nesse sentido, nos últimos anos, no Arquivo Distrital de Beja?

(AT) Todas as funções desempenhadas pelos profissionais de arquivo são de extrema importância para assegurar a continuidade e uso da documentação. A difusão é uma das muitas funções arquivísticas, mas que só será bem sucedida se as demais funções forem executadas de forma eficiente.

Partindo deste pressuposto, tem sido prática deste Arquivo proceder à realização de iniciativas de promoção e divulgação do património arquivístico após a conclusão dos trabalhos de descrição e digitalização. A título de exemplo, saliento a exposição documental “Identidade e memória – V séculos de registo civil” realizada em parceria com 8 municípios do distrito que levou à população daqueles concelhos documentos que contam a história da evolução do registo paroquial ao registo civil entre 1554 e 1911. Outra iniciativa realizada consistiu numa conferência e exposição documental subordinada ao tema “A atividade notarial e os valores dos documentos notariais” que visou destacar a importância da documentação produzida pelos tabeliães e notários do distrito de Beja ao longo de mais de quatro séculos, enquanto prova dos direitos e deveres dos cidadãos e enquanto fonte de investigação histórica.

Outras iniciativas de difusão e promoção do património arquivístico foram realizadas, no entanto, e para não ser exaustiva, destaco ainda a exposição virtual “Movimentos Migratórios – passaportes do distrito de Beja”, bem como diversas mostras documentais alusivas a acontecimentos e/ou personalidades notáveis do distrito.

(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Arquivo Distrital de Beja à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?

(AT) O Arquivo Distrital de Beja através da realização de iniciativas de promoção e de divulgação do património arquivístico tem procurado aproximar o Arquivo da comunidade em que se encontra inserido dando a conhecer a documentação existente e procurando contrariar a ideia de que os arquivos são espaços fechados aos quais apenas uma elite pode aceder.

Os arquivos são determinantes na democratização do acesso ao conhecimento e, nessa medida, o Arquivo Distrital de Beja tem desempenhado o papel de agente facilitador, na medida em que através do tratamento técnico dos documentos, torna-os acessíveis para todos e potencia, assim, a sua utilização e consequentemente a geração de conhecimento sobre os mesmos. Fruto deste trabalho, e num espírito de colaboração mútua foram estabelecidas várias parcerias com entidades do distrito que contribuíram para a valorização património arquivístico do distrito.

Além disso, a disponibilização de conteúdos arquivísticos em ambiente web tem contribuído para o aumento da visibilidade do património do Arquivo Distrital de Beja, uma vez que passou a estar disponível para todos, à distância de um simples click.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados ao longo deste ano no Arquivo Distrital de Beja?

(AT) À semelhança dos anos anteriores, o Arquivo Distrital continuará a dar primazia às tarefas de identificação, organização, descrição e desmaterialização do seu acervo documental. Neste âmbito, está prevista a organização da documentação do Governo Civil de Beja com cerca de 200m/l e da documentação do Tribunal Judicial da Comarca de Cuba. Será também dada continuidade ao plano de digitalização dos documentos que foram descritos e à sua disponibilização.

Está ainda previsto continuar a cumprir os compromissos assumidos através dos protocolos celebrados com as diversas entidades do distrito destinados à salvaguarda e promoção da memória coletiva e dos direitos dos cidadãos.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que desde março de 2020 alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Beja tem sido feito, de forma fazer face a esta nova realidade, no que diz respeito à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na disseminação da informação?

(AT) De facto, o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 obrigou a repensar as práticas existentes levando à necessidade de adotar novas metodologias de trabalho, nomeadamente o recurso ao regime de teletrabalho. O Arquivo Distrital de Beja não foi exceção! Todavia, a atividade desenvolvida pelo Arquivo Distrital de Beja não sofreu alterações significativas, uma vez que antes da pandemia a prestação de serviços era efetuada essencialmente de forma remota, com o recurso à via digital. A pandemia apenas veio reforçar essa tendência.

A prestação de serviços de consulta presencial foi o serviço que sofreu alterações mais significativas, na medida em que passou ser obrigatório o agendamento prévio deste serviço através da submissão de pedido antecipado de consulta no balcão eletrónico https://digitarq.adbja.arquivos.pt/oservices. De modo a dar cumprimento às orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS) e ao Plano de Contingência da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas/Arquivo Distrital de Beja foram repensados os circuitos e reduzido o número de utilizadores presenciais no Arquivo.  A promoção e divulgação do património arquivístico passou a ser efetuada exclusivamente com o recurso ao ambiente digital.

O Arquivo Distrital de Beja adaptou-se a esta nova realidade, assegurando o normal funcionamento do serviço e apostando na contínua e crescente disponibilização de conteúdos de arquivo (descrições arquivísticas e representações digitais) em suporte digital para deste modo permitir que os utilizadores pudessem continuar os seus trabalhos de investigação e/ou dar continuidade a processos legais em curso.

(ARCHIVOZ) Por último, gostaria que nos desse a sua opinião sobre o que pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os profissionais da informação, em geral, e os serviços de informação arquivística, se deparam na atualidade.

(AT) A pandemia acelerou a procura de conteúdos e serviços suportados na totalidade pelo uso da tecnologia e, na minha opinião, essa tendência manter-se-á e será o “novo normal”.

A crescente procura de conteúdos de arquivo em ambiente web representa simultaneamente uma oportunidade e um desafio para os profissionais da área de arquivo. Perante esta realidade há a necessidade de qualificar os recursos humanos para serem capazes de responder de forma assertiva às alterações decorrentes da transformação digital que a sociedade, em geral, e a Administração Pública, em particular, estão a ser alvo.

Decorre deste contexto, outro dos desafios que se colocam aos profissionais da informação: a preservação digital. Há que dotar os recursos humanos dos serviços de informação de competências que garantam gestão eficiente da informação desde o momento da sua produção até ao seu armazenamento pelo tempo necessário e em condições de acesso e uso no futuro, garantindo a sua integridade, fidedignidade e autenticidade.

Para terminar, realço a necessidade de os profissionais adotarem estratégias que de promoção dos serviços oferecidos pelos arquivos, mas sobretudo para a necessidade de levar o arquivo até aos utilizadores, recorrendo para isso, as potencialidades oferecidas pela tecnologia.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Uma história universitariamente interrogativa e uma pesquisa inconformista e radiográfica em Arquivos e Bibliotecas permite a criação de ciência nova”: Entrevista com Paula André

Entrevistámos Paula André, Professora do Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE-IUL, coordenadora da Área Científica de Teoria e História da Arquitectura e Urbanismo, e membro da Comissão Científica e investigadora integrada do DINÂMIA’CET-Iscte.

(ARCHIVOZ) Não poderia deixar de começar por destacar o seu extraordinário e diversificado currículo, mensurável no seu percurso académico, experiência docente, orientações, publicações, conferências/workshops e comunicações, projetos de investigação, cargos de gestão académica, organização/coordenação de eventos, etc. Fale-nos do seu percurso formativo e profissional até chegar a Professora Auxiliar do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do ISCTE-IUL.

(Paula André) Em 1984 realizei o Curso de Formação Plástica (pintura e desenho de modelo) na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, e entre 1986-1988 dirigi a Galeria de Arte “Atelier 2” no Atelier de Serigrafia do António Inverno.

Entre 1993 e 1999 foi Professora de História da Arte no Curso de Formação de Bailarinos da Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, dirigida pelos Professores Graça Bessa e António Rodrigues, pelos quais nutro uma profunda admiração ética e profissional.

Concluí o Mestrado em História da Arte (FCSH-UNL) em 1999 com a dissertação “Os Cemitérios de Lisboa no Século XIX: Pensar e Construir o Novo Palco da Memória”, orientada pela Professora Margarida Acciaiuoli da qual herdei o sentido de rigor na investigação, o vicio de habitar os Arquivos e as Bibliotecas e que procuro incutir nos alunos.

Em 2010 concluí o Doutoramento em Arquitectura (“Arquitectura Moderna e Portuguesa: Lisboa 1938-1948”) no Iscte-IUL onde em 1999 iniciei a docência ainda na Licenciatura em Arquitectura e no Mestrado Desenho Urbano, prosseguindo no Mestrado Integrado em Arquitectura, no Mestrado em Museologia e depois Gestão e Estudos da Cultura e no Doutoramento em Arquitectura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos.

Em Parceria com a Câmara Municipal de Lisboa em particular com o Arquivo Municipal e agregando um conjunto de professores nomeadamente contigo e com o Ricardo Agarez em 2020 submeti no Iscte a proposta de criação de um Curso de Especialização e de um Curso de Mestrado em “Arquitectura e Cultura Visual em Lisboa”, suportados nas fontes dos arquivos de arquitectura, que assumem um papel particularmente importante no âmbito da actividade profissional e científica na área da arquitectura e áreas afins, e investindo num processo de produção de conhecimento integrado (privilegiando o acesso aos arquivos, o contacto directo com espólios dos arquitectos e com processos de obra, assim como o contacto in-situ na cidade). O Arquivo Municipal de Lisboa, base científica e documental, detém espólios de um conjunto de arquitectos com considerável obra em Lisboa (José Luís Monteiro; Cassiano Branco; Keil do Amaral; Ruy Jervis de Athouguia; Alberto Souza Oliveira e brevemente o espólio de João Bento d’Almeida) assim como o acervo dos processos de obras particulares, cruciais enquanto fontes primárias da investigação a desenvolver e que permitem garantir a prossecução de estudos monográficos dos arquitectos e da arquitectura em Lisboa. O contacto com os espólios permite obter informação sobre a formação dos arquitectos, as suas viagens do olhar, a sua produção critica e teórica, os seus ateliers, as encomendas e concursos, os projectos não realizados que no conjunto constitui parte do universo da cultura arquitectónica e da cultura visual

(ARCHIVOZ) Tendo em conta a sua notável experiência docente no ISCTE-IUL, que referiu na resposta anterior, e de Membro da Comissão Científica do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território – DINÂMIA’CET-IUL, em que é Investigadora Integrada, encontra-se, de há muitos anos para cá, bastante próxima do mundo dos arquivos. O que recorda das primeiras experiências com estes serviços de informação, que retrato é que nos consegue transmitir dos mesmos nessa altura?

(PA) Uma história universitariamente interrogativa e uma pesquisa inconformista e radiográfica em Arquivos e Bibliotecas permite a criação de ciência nova, a permanente revisão historiográfica, o desvendar de vícios e discursos hegemónicos, e a abertura a novas perspectivas de entendimento do hipertexto da arquitectura. A pesquisa em Arquivos permite montar atlas e constelações de relações, sempre como ponto de partida e não de chegada. O número crescente de Arquivos de Arquitectura (Câmara Municipal de Lisboa, Ordem dos Arquitectos, Fundação Calouste Gulbenkian, Forte de Sacavém, Fundação Serralves, Casa da Arquitectura, Fundação Marques da Silva entre outros) tem vindo a potenciar investigações monográficas e interpretações sintéticas.

A investigação para a dissertação de mestrado centrada no séc. XIX foi realizada maioritariamente no Arquivo Municipal de Lisboa: Arco do Cego, onde passei longos meses mergulhada nos processos dos Jazigos e estabeleci laços de afecto com as magníficas funcionárias, mas também em outros Arquivos e Bibliotecas nacionais (Arquivo Fotográfico, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Histórico de Obras Públicas, Biblioteca Nacional de Portugal) e internacionais (Bibliothèque Nationale de France, Biblioteca Nacional de España).

A investigação para a tese de doutoramento centrada no séc. XX foi realizada em Arquivos e Bibliotecas nacionais (Arquivo Municipal: Bairro da Liberdade, Gabinete de Estudos Olisiponenses, Arquivo Fotográfico, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal, Arquivo do Forte de Sacavém, os Espólios de Arquitectos e o Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian).

No âmbito do projecto “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)” a investigação foi realizada em Arquivos e Bibliotecas nacionais (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Biblioteca Nacional de Portugal, Hemeroteca Municipal de Lisboa, Arquivo Municipal de Lisboa: Arco do Cego, Fotográfico, Arquivo Fílmico e Videográfico da Cinemateca Portuguesa, Biblioteca da Ordem dos Arquitectos) e internacionais (Biblioteca Nacional de España, Biblioteca do Colegio Oficial dos Arquitectos de Madrid).

(ARCHIVOZ) Entre 2017 e 2019 coordenou a Linha Temática “Imagens das Realizações Materiais” do Projeto da Fundação para a Ciência e a Tecnologia “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)”, uma parceria do DINAMIA’CET-IUL e a FCSH-UNL. Quais foram os principais resultados e evidências produzidas nesse sentido?

(PA) Em 2016 fui convidada pela Professora Filomena Serra a integrar a equipa do projecto “Fotografia Impressa. Imagem e Propaganda em Portugal (1934-1974)”. Na sequência da investigação desenvolvida pela equipa em Bibliotecas e Arquivos editamos revistas, livros, produzimos exposições, organizamos colóquios, seminários, cursos de verão, workshops, entre outros encontros científicos (https://printedphotography-pt.weebly.com/). Coordenei a Linha Temática “Imagens das Realizações Materiais” que incluiu as temporalidades e as escalas das imagens arquitectónicas e urbanas; da cultura popular e da paisagem; do património e do restauro de monumentos; do turismo e do cinema. O estudo procurou desvendar os mecanismos de comunicação visual e os significados da exibição de Portugal. A fotografia revelou-se instrumento documental, meio discursivo, dispositivo operativo e ferramenta matricial da imagem e da propaganda de Portugal no período do Estado Novo (1934-1974). No âmbito da investigação devo destacar em particular a pesquisa desenvolvida no Arquivo do Secretariado da Propaganda Nacional/Secretariado Nacional da Informação no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no Arquivo Fílmico e Videográfico da Cinemateca Portuguesa e na Biblioteca Nacional de Portugal onde tínhamos o privilégio de ter um gabinete.

(ARCHIVOZ) Em 2020 publicou o livro “Construir com imagens: fotogenias da arquitetura”, editado pela Direção Regional da Cultura do Alentejo. O que nos pode dizer sobre esta obra?

(PA) Em 2019 fui desafiada pela Professora Sofia Aleixo a reunir numa exposição parte da minha colecção de publicações dos anos 30 a 70 do século XX (livros, revistas, jornais, catálogos, folhetos…) adquirida ao longo do tempo em Alfarrabistas. A Exposição realizou-se na Direcção Regional da Cultura do Alentejo com a colaboração do arquitecto Luís Marino e da Doutora Ana Borges e o catálogo contou com a colaboração da doutoranda Margarida Marino.

Entre 1933 e 1974, a construção da imagem de Portugal foi sendo concretizada através de fotografias editadas que constituíram o ensaio fotográfico da designada Política do Espirito. Essa narrativa visual, publicada em múltiplos suportes (jornais, revistas, guias, livros, catálogos, folhetos…) e encenada em espaços expositivos vários (pavilhões, museus, feiras…), foi realizada através do trabalho desenvolvido por um colectivo de caçadores e editores de imagens. Esse colectivo era constituído por fotógrafos, arquitectos, pintores, desenhadores, designers gráficos e pela equipa de decoradores do Secretariado da Propaganda Nacional/Secretariado Nacional da Informação, que se revelariam orquestradores de um Portugal gráfico fixado na mise en page de publicações nacionais e internacionais.

A exposição “Construir com Imagens: fotogenias da arquitectura” procurou revelar a politização e a estetização das imagens fotográficas, descortinando os mecanismos e significados da engenharia visual de um Portugal editado. Para o realizar seleccionei um conjunto de publicações (O Século, Diário da Manhã, O Noticias Ilustrado, O Século Ilustrado, Panorama. Revista Portuguesa de Arte e Turismo, Revista Municipal, Revista Ocidente, Arquitectura. Revista de Arte e Construção, A Arquitectura Portuguesa e Cerâmica e Edificação (reunidas), Portugal País de Turismo, Lisboa no Passado e no Presente, Lisbon and its charm, Visite Lisboa, SNI um instrumento de Governo, Guia da Exposição de Obras Públicas, Estradas de Portugal, Casas Económicas, 30 anos de Estado Novo…) que exibiam nas suas páginas e por meio de dispositivos híbridos de visualização (fotografias, fotomontagens, gráficos, tipografias), a fotogenia da arquitectura, da paisagem, dos monumentos, das obras públicas e da cultura popular, assumindo-as como campos discursivos da meta-imagem de Portugal.

(ARCHIVOZ) Coordena o “Laboratório Colaborativo Dinâmicas Urbanas, Património, Artes. Seminário de Investigação, Ensino e Difusão”, é membro da Asociación de Historiadores de la Arquitectura y el Urbanismo (AhAU) e desenvolve investigação no grupo “Cidades e Territórios” do DINÂMIA’CET-IUL centrada nas áreas: Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo; Dinâmicas Urbanas. Que informações é que, tanto quanto possível, nos pode adiantar sobre os projetos em que se encontra envolvida, naturalmente indesligáveis dos arquivos, em termos de investigação?

(PA) O “Laboratório Colaborativo: Dinâmicas Urbanas, Património, Artes. Seminário de Investigação, Ensino, Difusão”, iniciado em 2017 e contando já com seis edições, é coordenado por mim em parceria com os Profs Paulo Simões Rodrigues e Sofia Aleixo (Universidade de Évora/CHAIA), com a Profª Margarida Brito Alves (Universidade Nova de Lisboa/IHA), com o Prof Miguel Reimão Costa (Universidade do Algarve/CEAACP), com a Profª Ana Esteban Maluenda (Universidad Politecnica de Madrid), com as Profªs Maria Leonor Botelho e Maria Lúcia Rosas (Universidade do Porto/CITCEM), com as Profªs Maria Teresa Perez Cano e Blanca del Espino Hidalgo (Universidade de Sevilla/HUM700/IAPH), com o Prof Rodrigo de Faria (Universidade de Brasília/GPHUC), com o Prof Sérgio Proença (Universidade de Lisboa/CIAUD), com o Prof Alexandre Pais (Museu Nacional do Azulejo) e com o Arq João Branco Pedro (Laboratório Nacional de Engenharia Civil). O Laboratório procura promover e animar a capacidade das instituições universitárias e unidades de investigação para colaborarem entre si e com múltiplos agentes, promovendo ambientes criativos e de reunião de massa crítica.

Nos Seminários de Investigação, Ensino, Difusão do Laboratório são apresentadas investigações (Dissertações de Mestrado e Teses Doutoramentos em curso ou terminadas) das Universidades, Departamentos e Centros de Investigação envolvidos e centradas nas áreas das dinâmicas urbanas (que engloba o campo alargado do urbanismo), do património (que engloba o campo alargado da arquitectura) e das artes (que engloba o campo alargado da história da arte). Através da partilha do conhecimento pretende-se instigar a socialização de dúvidas e estimular novas reflexões, sendo incentivado o respectivo debate alargado ao público em geral. Nos dias 21 e 22 de Outubro de 2021 irá realizar-se em Sevilha no Instituto Andaluz del Patrimonio Histórico (IAPH) a 7ª edição do Laboratório Colaborativo.

Neste momento e naturalmente indesligável da pesquisa em Arquivos e Bibliotecas estou a organizar o Colóquio “Compromissos com o Meio Ambiente. 50 anos da Conferência de Estocolmo (1972-2022)” a realizar dia 3 de Junho de 2022 no Iscte-IUL.

(ARCHIVOZ) Considerando a primeira questão, a par da participação em projetos, na qualidade de Investigadora, como é que encara o futuro dos arquivos de arquitetos e de arquitetura em Portugal, e quais é que pensa serem os grandes desafios que os profissionais dos arquivos têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e comunicação da memória desses espólios?

(PA) No âmbito dos Arquivos e Bibliotecas entendo que a preservação deveria ser assumida como campo expandido, assumindo a dimensão de recolha, de tratamento e de disponibilização em acesso aberto, com múltiplas possibilidades de navegação, visualização e interacção, embora esteja consciente das limitações do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.

Parece-me absolutamente pertinente a proposta (1970) do arquitecto Pedro Vieira de Almeida de criação de um núcleo de estudo de problemas arquitectónicos, no qual se aprofundaria um melhor entendimento do fenómeno da arquitectura em termos ecológicos, se elaboraria um arquivo de desenhos e projectos dispersos em casas de familiares, com particular interesse para projectos não realizados, assim como também se constituiria um arquivo fotográfico documental com particular relevância para obras condenadas a desaparecer.

(ARCHIVOZ) Um assunto que, infelizmente, continua a marcar a atualidade é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que colocaram novos desafios aos serviços de informação arquivística, fazendo com que os seus responsáveis e colaboradores tivessem de se adaptar a novas metodologias e formas de trabalhar. Procurando fazer uma análise desta nova realidade, que começou em meados de março de 2020, entende que, genericamente, as instituições portuguesas que têm à sua responsabilidade arquivos de arquitetos e de arquitetura, foram capazes de se adaptar e responder eficazmente aos desafios e oportunidades surgidas?

(PA) No actual contexto as fragilidades já existentes foram naturalmente agravadas. Procuro que os alunos realizem as suas investigações com enfoques e metodologias no contacto directo com as fontes e fundos documentais, mas muitas vezes é difícil conciliar os tempos de resposta aos pedidos e as condicionantes de consulta dos Arquivos com o calendário escolar. Parece-me crucial investir numa digitalização que permita criar acessos abertos e mapas de relações e de conexões.

Imagem cedida pelo entrevistado:
Cristino da Silva, “Perspetiva de um Bairro Jardim a Edificar em Lisboa” (pormenor), P. 1933 (não construído), in, FCC, coleções digitalizadas, Espólio Cristino da Silva


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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Os lugares de memória em tempos de incertezas

Tem sido recorrente por parte das instituições culturais a realização de projetos e ou campanhas de aquisição de objetos que estão sendo produzidos nesse momento de crise pandêmica(1). Na maioria das vezes são coletados documentos de particulares, testemunhos escritos, fotográficos e orais, os quais formarão coleções dentro das instituições arquivísticas. Ainda que positivas essas ações, devemos refletir a respeito para que no futuro tenhamos um acervo representativo de um período, infelizmente, catastrófico de nossa história.

Segundo Nora (1993, p.21-2), podemos compreender as instituições culturais como ‘lugares de memória’, cujas práticas de colecionismo, preservação e difusão estão imbuídas de significados que não são somente técnicos, mas sim culturais, sociais e políticos (2). O sujeito tem a chance de voltar para um lugar que tem a sabedoria recolhida e de resgatar vozes do passado no ato da consulta aos documentos (Manguel, 1998. p.76) (3).

A crítica realizada de como se chega a essa valoração de que um artefato é um exemplar que remete ao passado pode lançar luz à forma como documentos são alçados a “relíquias” (Lowenthal, 1995) e ou a “monumentos históricos” (Choay, 2000). Igualmente possibilitar a reflexão a respeito das políticas de aquisição de acervo e difusão cultural praticadas por instituições arquivísticas. Existe um elo estreito entre o que escolhemos para preservar e o que escolhemos para tornar público e evidente.

Enquanto “relíquias” (4), o autor Lowenthal (1995) salienta que nenhum objeto e ou vestígio físico são guias autônomos para épocas remotas. Na verdade, esses objetos só fazem sentido quando repensados dentro de um conjunto de informações contextuais e residuais que temos a respeito deles. Por outro lado, esta operação de seleção de um vestígio faz parecer que todo o ‘resto’ – o que não foi selecionado – não tenha vínculo com o passado, com o presente e com o futuro.

Paradoxalmente pode ocorrer também que os artefatos eleitos como “relíquia”  percam esse atributo com a ação do próprio tempo presente, o que o autor chamou de “convivência cotidiana com estes artefatos” (LOWENTHAL, 1995. p.238. trad. livre). Ou seja, as relíquias sucumbem ao desgaste de significados como também de importância para a comunidade.

A operação refletida por Lowenthal (5) lança luz à maneira como os profissionais pertencentes a área de patrimônio e cultura elegem dentre as fontes disponíveis o material a ser moldado para transmitir o conhecimento sobre o passado. Ainda que busque rigor metodológico, não existe a possibilidade de eleger objetos representativos de um passado sem que introduzamos pensamentos e valores do presente. As fontes deixadas e ou tornadas relíquias por políticas de grupos, assim como o próprio discurso histórico, podem também estar atreladas a certos interesses.

Enquanto “monumento”, Choay (2000) distingue duas naturezas desse tipo de artefato, o monumento (6) e o monumento histórico. Detendo-nos sobre o monumento histórico, este é oriundo de práticas de valorização e conservação de bens que já existem espalhados pela comunidade, os quais devem ter alguns requisitos para que recebam a categorização de monumento. Neste último caso, a autora diz que todo objeto do passado pode ser convertido em testemunho histórico sem ter tido por isso na sua origem destino memorial, ou seja, todo artefato deliberadamente pode ser investido de função de memória. Igualmente qualquer objeto do passado, ainda que convertido, pode ser destruído também.

Portanto, partindo desses prismas teóricos, ainda que pouco explorados neste ensaio, quando as instituições arquivísticas, e assim também  bibliotecas e museus, se reconhecem como participantes do processo de definição da memória social, passam a compreender que seu trabalho não é somente “técnico” ou calcado numa única área de saber, mas é também político e multidisciplinar. Para tanto, se faz necessário compreender os condicionantes sociais e culturais que levam à produção e à acumulação de uma infinita gama de registros e ao questionamento sobre o que se preservar e o que se deve difundir.

Trazendo para a atual crise pandêmica, não ter em conta os processos acima descritos podem levar a uma escolha aleatória de um conjunto de objetos sem os seus devidos contextos, ou a escolha deliberada de um conjunto de objetos que marcam perspectivas pouco amadurecidas da própria instituição da relação destes para com o presente e mais adiante para com um passado que se forjará. É também necessário refletir sobre os objetos que não são escolhidos para serem preservados e ou expostos à audiência pública, pois suas ausências constroem também um discurso desse presente que se tornará passado.

As atuais ações emergenciais dos arquivos (bibliotecas e museus) não devem esquecer o paradigma do “lugar de memória”. As obras e testemunhos do presente que estão sendo incorporados ao acervo das instituições passarão a ser exemplares daquilo que se quer dizer a respeito de alguma coisa (Poulot, 2014). Portanto, a construção do patrimônio, seja ele arquivístico, biblioteconômico ou museal, perpassa tanto pelo devir histórico da sociedade, pelo interesse de diferentes grupos sociais na construção da memória social, quanto pelos interesses e metodologias da Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia e de outras áreas do conhecimento. Não podemos esquecer disso.

Referências bibliográficas:
  • CHOAY, Françoise. A Alegoria do Património. Lisboa, Ed. 70, 2000. ISBN 9789724412740
  • LE GOFF, Jacques. Memória. Memória/História. Enciclopedia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987.p.33-47
  • LOWENTHAL, David. The past is a foreign country. Cambridge, Cambridge University Press, 1995. p.231-40. ISBN 9781139024884
  • MANGUEL, Alberto. O livro da Memória. In: História da Leitura. Lisboa, Editorial Presença, 1998. pp.68-77. ISBN 9789722323390
  • NORA, Pierre. Entre memória e história. In: A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo: PUC, n. 10, p. 7-28, dez. 1993. ISSN 2176-2767
  • POULOT, Dominique. Introduction. In: Patrimoine et musées: L’institution de la culture. Paris: Hachette Éducation, 2014. pp.3-8. ISBN 978-2011403391
Notas:

(1) A ideia do ensaio surgiu por conta da crise pandêmica iniciada em meados de dezembro de 2019 na China (Wuhan) e que espraiou para os demais continentes ao longo do ano de 2020 e 2021. Gerou perdas humanas e impactos na sociedade em níveis catastróficos.
(2) Os lugares são aqueles onde a memória se refugia e se cristaliza, são também os restos, são também as próprias unidades documentais, os fundos arquivísticos, as coleções de livros e de objetos. São lugares que convergem três dinâmicas: material, simbólica e funcional. Diz o autor, o arquivo, a biblioteca e o museu – seja a instituição, seja o acervo mais imediato -, são uma reminiscência material revestida de uma aura simbólica e que cumpre uma função social, de cristalização da lembrança e sua transmissão.
(3) O autor refletirá sobre o ato da leitura de livros, contudo tal percepção do ato de ler pode ser aplicada a leitura de qualquer objeto social.
(4) O autor não conceitua o termo relíquia. Originalmente é entendido como um objeto de veneração religiosa. A origem da palavra é do latim reliquiae que significa sobrevivente, resto. Contudo os dicionários de língua portuguesa, de Portugal e Brasil, tomam o termo em seu sentido genérico, coisa considerada de grande valor por ser rara ou antiga. In: Disponível em https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/reliquia/, e https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/rel%C3%ADquia. Acessados em 08 mai 2020.
(5) A análise do autor é a respeito da escrita da História, contudo achamos pertinente também no que tange à questão do patrimônio. Segundo o autor, erroneamente pensava-se que era possível garantir uma história isenta de subjetividades e de interesses de grupo. O ato de registrar os fatos, como os cronistas faziam no século XII ao XV, de criar documentos e de cuidadosamente conservá-los para que a posteridade viesse a conhecer o passado; ou ainda que o ato de descrever o passado tal qual ele era, a partir dessas fontes deixadas, como os Iluministas assim pensavam, não deixou de ter a interferência de seus posicionamentos objetivos e subjetivos.
(6) Na primeira natureza, o monumento é construído a partir de parâmetros de arte e beleza arquitetônicas e possui fim utilitário de fazer lembrar acontecimentos; e, nesse caso, o passado a ser representado pelo bem edificado foi selecionado para fins vitais da comunidade, “na medida em que pode diretamente contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade, étnica ou religiosa, nacional, (…)”(CHOAY, 2000. p.16).


Editorial
realizado por: Simone Fernandes

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“Devíamos proceder à avaliação das atuais políticas públicas de arquivo, bem como à sua redefinição, através de um processo colaborativo”: Entrevista com Pedro Penteado

Entrevistámos Pedro Penteado, Diretor de Serviços de Arquivística e Normalização da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

(ARCHIVOZ) Como é que nasceu o seu interesse pelo mundo dos arquivos e o desejo de trabalhar nesta área?

(Pedro Penteado) Faço parte de uma geração que chegou maioritariamente aos arquivos proveniente do campo da História e fascinada pela possibilidade de trabalhar em arquivos históricos. Depois da licenciatura, fiz o curso de formação profissional BAD promovido pela Associação de Professores de História. O meu primeiro local de estágio viria a ser o Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), onde tive o privilégio de ser orientado pela Dra. Maria José Leal, que aqui gostaria de homenagear. Gostaram do meu trabalho e convidaram-me para coordenar uma das equipas que viriam a preparar a transferência do ANTT de S. Bento para o Campo Grande. Mais tarde, tirei o Curso de Ciências Documentais na Faculdade de Letras de Lisboa, que terminei já depois de ali ter concluído o Mestrado de História Moderna. Nessa fase, trabalhei no tratamento documental e na implementação do serviço de referência do ANTT, baseado num projeto que tinha apresentado superiormente.

Em 1996, após ter participado no Estágio Técnico Internacional de Arquivos, em França, tive uma primeira estadia no Canadá, na Université de Montréal, que contribuiu decisivamente para a afirmação da minha perspetiva integrada dos arquivos. Creio que fui o primeiro autor a escrever um artigo sobre o tema em Portugal, tendo apoiado a implementação desta abordagem no IAN/TT e no país, promovendo a tradução de “Os fundamentos da disciplina arquivística”, de Rousseau e Couture e a vinda deste último autor a Lisboa, para dar formação aos profissionais portugueses.

(ARCHIVOZ) Atualmente é Diretor de Serviços de Arquivística e Normalização da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), funções que exerce desde agosto de 2004. Pode destacar-nos os principais projetos que coordenou e esteve envolvido nesse contexto, nomeadamente das políticas públicas de arquivo?

(PP) As minhas funções como diretor de serviços do órgão de coordenação da política nacional de arquivos têm constituído uma experiência enriquecedora e muito gratificante. Logo no início, deram-me a a possibilidade de propor e implementar algumas das ideias que trouxe com as minhas viagens pelo estrangeiro e os processos de investigação em que participei.

Posso destacar alguns projetos, começando logo em 2005 pelo “TT Online” (fiz parte da equipa coordenadora), que disponibilizou pela primeira vez na Internet milhares de descrições normalizadas e imagens digitais de documentos do Arquivo Nacional.

Em 2006, coordenei o primeiro de muitos documentos técnicos – as “Orientações para a gestão de documentos de arquivo no contexto de uma reestruturação da Administração Central do Estado”, que antecipou a preparação da mudança introduzida pelo PRACE. Foram atualizadas em 2012, com o PREMAC.

Ao nível da supervisão arquivística, em 2008, criei de raiz o programa de auditorias a arquivos do Estado, que coordeno e foi objeto de um estudo que realizei para a Universidad de Alcalá.

Tenho estado envolvido na coordenação de projetos de gestão da informação associados à modernização administrativa e à transformação digital, com destaque para o desenvolvimento do Programa Administração Eletrónica e Interoperabilidade Semântica, a produção de uma Macroestrutura Funcional (MEF) para classificar transversalmente a documentação da AP e, mais recentemente, a plataforma CLAV, com a Universidade do Minho. Trata-se de uma plataforma que, disponibiliza a MEF / Lista Consolidada, referencial usado no processo de organização e avaliação arquivística, elaborado a partir de um processo participativo envolvendo centenas de entidades, A CLAV, inicialmente associada a um projeto Simplex +, vem facilitar a construção dos planos de classificação funcionais e das tabelas de seleção da Administração Pública e as interações desta com a DGLAB, no âmbito do controlo da eliminação da informação pública.

Coordenei também os diagnósticos à situação arquivística do Estado no âmbito da Resolução do Conselho de Ministros (RCM) n.º 12/2012, em articulação com a AMA – Agência para a Modernização Administrativa, que permitiram apurar a existência de mais de 1200 km de documentos em papel na Administração Central, muita dela por avaliar. É um problema que continua por resolver e que agora está de novo na ordem do dia com a legislação que pretende deslocalizar muitos destes arquivos de Lisboa para o interior do país, projeto em que acabo de ser envolvido.

Ao nível das políticas públicas de arquivo, desde há mais de uma década, coordenei estudos que identificaram as lacunas do nosso sistema arquivístico e da legislação que o suporta. Em 2012, num grupo de trabalho com a AMA, participei numa proposta de valorização da informação pública, que infelizmente não teve desenvolvimento. Nos últimos tempos, tenho estado envolvido na proposta de um novo Regime Jurídico de Classificação e Avaliação da Informação Arquivística (RJCAIA), associado ao Projeto da plataforma CLAV. Considero que o RJCAIA pode ajudar a mudar o panorama arquivístico português, atendendo a que além de obrigar as entidades públicas a controlar, organizar e avaliar a informação, se assume como essencial para a desmaterialização e a transformação digital na Administração, indicando o modo de garantir a autenticidade dos documentos após substituição de suporte e em contexto de preservação digital.

(ARCHIVOZ) A sua experiência profissional alarga-se, também, à organização, descrição, informatização e disponibilização de arquivos na internet de arquivos públicos, tendo coordenado serviços e projetos neste domínio em entidades privadas ligadas à Igreja Católica. O que nos pode dizer sobre estas iniciativas?

(PP) Na área pública, além do “TT Online”, como Diretor de Serviços do IAN/TT, estive também envolvido na coordenação dos trabalhos que permitiram a conclusão dos guias de arquivo da Torre do Tombo em 2006  e a disponibilização de conteúdos na Internet. Integrei ainda equipas de projetos estruturantes, como as “Orientações para a Descrição Arquivística” e a produção dos documentos de suporte à criação da Rede Portuguesa de Arquivos e ao Portal Português de Arquivos.

Quanto à minha colaboração com as entidades privadas, ela foi mais relevante num período anterior a este. Estive ligado ao projeto de instalação do Arquivo Histórico do Santuário da Nazaré e fui consultor do Arquivo do Santuário de Fátima. Estive ainda em projetos pioneiros de identificação de documentação acumulada em misericórdias e confrarias. Integrei também as comissões científicas da “Portugaliae Monumenta Histórica” e da “Documentação Crítica de Fátima”. Elaborei ainda uma proposta de política e estratégia de gestão de arquivos para a Igreja portuguesa e cheguei a representar a Conferência Episcopal Portuguesa no Conselho Nacional de Cultura – Secção Arquivos.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo um balanço desta nova realidade, que se faz sentir desde março de 2020, pensa que os arquivos foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(PP) Faltam-nos estudos de avaliação. Temos uma visão inicial proveniente sobretudo de testemunhos de colegas e do acompanhamento profissional que fazemos de instituições públicas representadas em redes de arquivos regionais.  A hipótese com que trabalho é que o nível de resposta dos serviços de arquivo foi diferenciado, consoante a situação de base que já dispunham. Numa boa parte dos organismos, acentuou-se a tendência para a digitalização de conteúdos para satisfazer a procura de informação por parte de utilizadores internos e externos. Mas importa averiguar até que ponto se tratou de uma mudança sustentada, assente numa verdadeira reengenharia de processos. Muitas organizações públicas dificilmente conseguiram contornar a falta de recursos humanos e de equipamentos.

O que não há dúvida é que a situação reforçou a necessidade de desmaterialização e de acelerar o processo de transformação digital. Acentuou-se também o imperativo do país dispor de legislação e de orientações para garantir o caráter probatório dos documentos digitalizados.

Esta conjuntura serviu ainda para intensificar a disponibilização de conteúdos dos arquivos históricos na web, constituindo uma oportunidade para dar maior visibilidade ao trabalho dos seus profissionais. Alguns destes arquivos avançaram com soluções e serviços inovadores, mas ainda é possível abrir novas vias, como por exemplo garantir a recolha de testemunhos documentais da pandemia, sugerida pela Unesco.

(ARCHIVOZ) Possui uma extraordinária experiência como docente em Ciência da Informação, nomeadamente como assistente convidado na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), no Instituto Superior de Línguas e Administração de Lisboa (ISLA) e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), a que acresce a de formador do Curso de Técnicos Profissionais de Arquivo da BAD, na área da Gestão da informação em arquivo. Neste momento é assistente convidado do Mestrado em Curadoria e Gestão da Informação da Universidade Nova de Lisboa, para além de formador da Direção Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas – INA, desde 2003. Considerando o seu trajeto, como vê a formação dos profissionais nesta área?

(PP) No que diz respeito à formação superior, a sua qualidade tem vindo a melhorar e o país dispõe de uma oferta, na área da Ciência da Informação, abrangendo os 3 ciclos de ensino, o que permitiu um primeiro acréscimo da investigação realizada neste âmbito. Prevejo que este cenário vá melhorar ainda mais nos próximos anos.

Tenho estado mais ligado à oferta de formação de 2.º ciclo da UNL, inovadora, que procura preparar os estudantes para um novo perfil de profissionais, os gestores e curadores da informação, que têm de estar devidamente habilitados para enfrentar os desafios da transformação digital. Daí a necessidade de um perfil de atuação alargado, muito orientado para garantir o tratamento, a preservação e o acesso continuado aos dados e à informação digital a longo prazo, num novo contexto (big data, cloud, dados abertos, linked open data, inteligência artificial, reutilização da informação, combate à desinformação, etc). É uma formação que os prepara também para o papel que devem assumir na definição, implementação e avaliação de políticas públicas e na governança da informação, uma clara necessidade de todos os profissionais da informação.

Sobre o tema deixo ainda uma última ideia: o país tem de reforçar a formação a nível técnico-profissional e necessita também de qualificar os trabalhadores que na Administração Pública lidam com a informação. A transformação digital na AP não se faz sem profissionais formados e orientados para os novos desafios da gestão da informação. O RJCAIA, por exemplo, prevê pela primeira vez a obrigatoriedade dos organismos da Administração terem um gestor de informação com formação superior ou, provisoriamente, com uma formação especializada nesta área.

(ARCHIVOZ) Entre artigos, monografias e revisões científicas de traduções para português, é autor de uma vasta obra, no domínio da Arquivística e da História. Fazendo uma retrospetiva dos trabalhos publicados, quais são os que gostaria de destacar e as razões dessa escolha?

(PP) No campo historiográfico, saliento os trabalhos publicados sobre os santuários e o movimento confraternal do país, como a obra “Peregrinos da memória” e outros estudos publicados principalmente pela Universidade Católica Portuguesa e pelo Círculo de Leitores na História e no Dicionário de História Religiosa Portuguesa.

No campo arquivístico, creio que ajudámos a marcar uma nova fase com a tradução de “Os fundamentos da disciplina arquivística”, e a introdução da nova perspetiva da Arquivística integrada no contexto nacional, a que já aludi.

Mais recentemente, o investimento tem sido sobretudo em publicações sobre políticas de arquivos na Administração Central, o estado dos arquivos portugueses, a interoperabilidade semântica e, em colaboração, a proposta metodológica da DGLAB para a avaliação suprainstitucional e o modelo ontológico que lhe está associado.

(ARCHIVOZ) Em junho de 2002 criou o blog “Notas soltas de Pedro Penteado”, que é, não só, o primeiro da área de arquivo em Portugal, como o que se encontra há mais tempo em atividade. O que o levou a desenvolver este projeto pioneiro em Portugal e qual e como é que tem sido a adaptação, o crescimento do mesmo, em plena Era Digital?

(PP) O blogue tem essa marca pioneira mas atualmente não é o meu principal veículo de participação nas redes sociais. Faço-o sobretudo através do Facebook, que é uma das formas que utilizo diariamente para estar atualizado, partilhar conteúdos relevantes para os profissionais da informação e dialogar com eles.

(ARCHIVOZ) Uma derradeira questão, tendo em conta o seu notável e diversificado percurso nesta área, como vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais pensa serem são os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(PP) Há vários cenários possíveis para o futuro dos arquivos, consoante as decisões que agora tomarmos. Para prepararmos o futuro, devíamos proceder à avaliação das atuais políticas públicas de arquivo, bem como à sua redefinição, através de um processo colaborativo. Essa é a base de um projeto de investigação que estou a desenvolver na Universidade de Coimbra.

Os arquivos têm de ser incluídos nas prioridades estratégicas da transformação digital. Por outro lado, há que apostar na disponibilização de meios para implementar as orientações políticas e estratégicas definidas. Necessitamos de renovar as infraestruturas, a começar pelo Arquivo Nacional, que tem um espaço de armazenamento já muito limitado. Não se compreende como o país não investe o suficiente nos seus principais arquivos, ao contrário do que sucede noutros países, como por exemplo em França.

Também ao nível do património digital, é importante decidir o modelo de preservação digital que se pretende para o país e garantir os meios necessários para este efeito. Quer esse futuro passe pela criação de um arquivo nacional digital ou por um modelo de preservação mais distribuído, nunca houve a coragem de alocar meios suficientes para esta finalidade. Não se pode continuar a empurrar o assunto com a barriga para a frente. A obsolescência tecnológica não espera.

Depois há um conjunto de questões que não podemos deixar de colocar: Que papel queremos para o arquivo nacional? E para as secretarias gerais? E para os outros organismos da Administração central? E para os arquivos regionais e locais? Conseguimos avaliar as centenas de quilómetros de documentação acumulada e colocar a informação útil em formatos abertos, para ser acessível e reutilizada? Como garantir a salvaguarda do património arquivístico privado? Como aumentar, renovar e qualificar os recursos humanos necessários para todos estes desafios? São perguntas que davam para outra conversa.

Quanto aos profissionais da informação, parece-me que devem estar sensíveis a estas questões e reclamar um papel ativo na definição deste futuro e na sua concretização. Já se viu que não podem deixar de reforçar, permanentemente, as suas competências para conseguirem responder aos desafios tecnológicos e informacionais do nosso tempo.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“O Prémio APOM de Museu do Ano 2020, representou para o MFM-AV uma honra e um orgulho imenso”: Entrevista com Filipe Bettencourt

Entrevistámos Filipe Bettencourt, Diretor do Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s.

(ARCHIVOZ) Fale-nos de como foi criado  o Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s, da importância de Vicente Gomes da Silva para a fotografia em Portugal, e do fim da sua atividade, à passagem de um estúdio fotográfico a museu, o mais antigo do país, onde é que se encontra localizado, o seu enquadramento orgânico, missão, visão e tudo o mais que considere para a sua melhor compreensão.

(Filipe Bettencourt) O Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s, foi criado como entidade museológica a 22 de março de 1982, então como “Photographia – Museu “Vicentes”, após a compra do espólio do atelier “Photographia Vicente” a 13 de junho de 1979, pelo Governo Regional da Madeira, à então proprietária do mesmo, a jornalista Maria Mendonça.

A importância de Vicente Gomes da Silva para a fotografia em Portugal, deve-se ao facto de ter sido um dos pioneiros desta nova arte no país e dos primeiros, senão o primeiro, fotógrafo português nascido fora do retângulo continental e por ser dos poucos fotógrafos a nível nacional, e quem sabe, a nível mundial, que criou uma dinastia de fotógrafos que mantiveram a casa fotográfica na família por mais de cem anos.

A casa fotográfica “Photographia Vicente”, muito devido a dificuldades económicas, foi alugada e vendido o todo o seu espólio a uma empresa detida pela jornalista Maria Mendonça, a 15 de março de 1972. A 13 de junho de 1979, esse mesmo foi vendido ao Governo Regional da Madeira, que continuou a alugar o prédio até o adquirir a 3 de agosto de 2004.

O Photographia – Museu “Vicentes” esteve então aberto de 1982 a 2014, apesar de alguma intermitência na sua abertura ao público, tendo sido encerrado a 4 de maio de 2014, reabrindo, já completamente restaurado, como Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s a 29 de julho de 2019.

O Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente`s é tutelado pela Direção Regional da Cultura, da Secretaria Regional de Turismo e Cultura, da Região Autónoma da Madeira. Localizado no Funchal, o edifício onde o museu está atualmente instalado é composto pela antiga residência e estúdio fotográfico de Vicente Gomes da Silva.

O Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s tem por missão o estudo, preservação, conservação, valorização e divulgação da Fotografia na Madeira.

Localizado na Rua da Carreira, nº 43, Avenida Zarco, nº 21m, 9001–904 Funchal, possui o email mfm.avicentes@madeira.gov.pt e encontra-se acessível no Instagram (@museufotografiamadeira) e no Facebook (facebook.com/mfmvicentes).

(ARCHIVOZ) O Museu de Fotografia da Madeira esteve encerrado ao público, durante 5 anos, para trabalhos de requalificação, segundo li na imprensa, no valor de 1,7 milhões de euros, tendo reaberto ao público em julho de 2019. Pode dizer-nos em que consistiram essas obras? Relacionado com esta questão, penso que estas também devem ser entendidas no âmbito do objetivo de fazer do Museu de Fotografia da Madeira, não só uma referência nacional, mas que contribua para a projeção internacional da Madeira na área museológica. O que nos pode dizer sobre isto?

(FB) As obras consistiram numa total recuperação do edifício, procurando sempre manter o traçado original do mesmo, assim como preservar o atelier fotográfico datado de 1887, aproveitando o resto do edifício, que antes estava vedado ao público, para a abertura de salas de exposição, tanto temporária, como permanente, assim como a criação de uma pequena biblioteca.

As obras de requalificação e todo o projeto museológico idealizado pela Dra. Emília Tavares e a sua equipa foram no sentido de transformar este Museu, caso quase único no panorama dos Museus em Portugal e um antigo atelier fotográfico, fundado há mais de cem anos, numa das referências do estudo e divulgação da fotografia, com especial enfoque no Arquipélago da Madeira.

Também a realização de um Congresso Internacional Bienal sobre Fotografia, organizado sob a égide do Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s, como já aconteceu no ano de abertura do mesmo em 2019 e que terá outra edição em finais de 2021, ajuda à projeção internacional que se pretende para esta instituição.

(ARCHIVOZ) O Museu de Fotografia da Madeira foi distinguido com o Prémio Museu do Ano 2020, atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia (APOM). O que representa para o Museu de Fotografia da Madeira a atribuição deste prémio e de que modo é que este alterou a perceção e que impacto é que teve junto do público, mesmo considerando os constrangimentos da pandemia?

(FB) O Prémio APOM de Museu do Ano 2020, representou para o MFM-AV uma honra e um orgulho imenso, trazendo uma responsabilidade acrescida, mas por outro lado motivou-nos para tentar fazer ainda melhor.

Em relação ao impacto que teve junto ao público, foi algum, embora devido à pandemia em curso ainda não se possa avaliar com total certeza o peso que este prémio teve junto ao público em geral, pois apesar de um aumento na entrada de público local, falta-nos ainda comprovar qual o impacto que teve no público de Portugal continental.

(ARCHIVOZ) De que forma é que a pandemia afetou, entre meados de março de 2019 e a atualidade, o normal funcionamento do Museu de Fotografia da Madeira? Que estratégias foram, e estão a ser, desenvolvidas nesse sentido, com o obetivo de mitigar os seus efeitos?

(FB) A pandemia afetou-nos, como penso que em todos os espaços museológicos, de forma dura, pois a frequência de público diminuiu imenso, só para lhe dar uma ideia, passamos de uma frequência de 1500 entradas no mês de fevereiro de 2020, para uma média de 100 pessoas a partir de junho de 2020, com alguns picos, principalmente no verão de 2020, mas sempre com tendência para as poucas centenas de visitantes, para além do encerramento a que fomos sujeitos entre março e maio de 2020.

Felizmente não encerramos como em Portugal continental durante este segundo confinamento, o que nos permitiu manter sempre uma atividade regular.

De qualquer forma, para nos mantermos sempre ligados ao nosso público, delineamos uma estratégia, em conjunto com a tutela, que passou e passa, por uma forte presença nas redes socias, quer no Facebook, quer no Instagram, com publicações diárias com fotografias do nosso espólio, assim como algumas atividades que podem ser realizadas online, através do nosso Serviço Educativo, bem como a divulgação das atividades que têm lugar no Museu, como espaço físico.

(ARCHIVOZ) Qual o acervo, fotográfico e com ele relacionado, que se encontra neste Museu, e outros núcleos e materiais aqui depositados, mas também para além da fotografia?

(FB) Atualmente, e devido a uma programada política de aquisições com base na compra e em diversas doações, o museu tem um extenso e valioso espólio, proveniente não só da coleção Vicente, como também de outros fotógrafos profissionais e amadores, como: João António Bianchi (Visconde Vale Paraíso) (1862-1928); Major Charles Courtnay Shaw (1878-1971); Gino Romoli (1906-1982); Aluízio César Bettencourt (1838-1895); João Francisco Camacho (1833-1898); Perestrellos Photographos (1890-1998); Augusto João Soares (1885-1970); Francisco João Barreto (1877-1934); Álvaro Crawford Nascimento Figueira (1885-1967); Alexander Lamont Henderson (1838-1907); Joaquim Augusto de Sousa (1853-1905); João Anacleto Rodrigues (1869-1948); Foto Figueiras (1930-1989); Foto Arte (1948-?); Foto Joaquim Figueira (1946-1992); Russel Manners Gordon (3.º Visconde e 1.º Conde Torre Bela) (1829-1906); Artur Campos (1943-2020); Carlos Fotógrafo (1957-2002); Alberto Camacho Brandão (1884-1945); Foto Sol (1951-1980); João António Filipe Pestana (1929-2017); José Raphael Basto Machado (1900-1966).

Possui também um núcleo de cinema, baseado essencialmente em filmes documentais produzidos por fotógrafos presentes no espólio e no fundo da Delegação de Turismo da Madeira

(ARCHIVOZ) Acervo que, para além do espólio original, tem vindo a ser enriquecido com outras aquisições e doações de coleções de fotógrafos profissionais e de amadores. O que nos pode revelar sobre esta questão?

(FB) Desde a nossa abertura como Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente´s, a 29 de julho de 2019, que nos têm procurado para proceder a doações. Basicamente, são doações de material fotográfico, onde se incluem máquina fotográficas, projetores, tanto de diapositivos, como de cinema, material de laboratório, entre outros, mas também de algumas provas fotográficas, tanto de amadores, como de algumas antigas casas fotográficas.

(ARCHIVOZ) Qual a documentação mais consultada e a que origina mais pedidos de reprodução? Por quem e para que fins? Qual o número médio anual de utilizadores (antes e durante a fase de pandemia)?

(FB) Infelizmente não posso responder a essa pergunta, pois como o espólio fotográfico do Museu se encontra em depósito no Arquivo Regional da Madeira, são eles quem se encarregam dessas funções.

Considerando a importância crucial da difusão da informação, diga-nos como é efetuada a disponibilização da informação à responsabilidade do Museu de Fotografia da Madeira, como é que é possível aceder a esta, presencialmente e à distância

(ARCHIVOZ) Considerando a importância crucial da difusão da informação, diga-nos como é efetuada a disponibilização da informação à responsabilidade do Museu de Fotografia da Madeira, como é possível aceder a esta, presencialmente e à distância?

(FB) Em relação à informação que é da responsabilidade do MFM-AV, a mesma é efetuada através, como já havia referido, das nossas redes sociais.

Em relação às fotografias pertencentes ao acervo, uma vez que o mesmo se encontra em depósito no Arquivo Regional, são eles quem disponibilizam as mesmas, sempre em coordenação com este Museu, através do seguinte site: Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira – Archeevo.

(ARCHIVOZ) Para terminar, como é que imagina o Museu de Fotografia da Madeira daqui a 20 anos, o que espera, ou gostaria que ele se tornasse?

O que espero que o Museu se torne daqui a 20 anos?

Sinceramente, na maior referência nacional do estudo e divulgação da fotografia analógica e, modéstia à parte, no Museu mais visitado da Madeira.

Que seja um Museu que consiga atrair cada vez mais estudiosos e entusiastas da fotografia.

E penso que, com perseverança e foco naquilo que nos distingue e caracteriza, iremos alcançar esse desiderato ainda antes de completar esses 20 anos.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Os arquivos continuarão a representar um importante património enquanto repositório da história e identidade de todos e cada um de nós”: Entrevista com Olegário Pereira

Entrevistámos Olegário Pereira, Historiador e investigador na área da História Ambiental , professor universitário, sobre a sua experiência em arquivos de Portugal e do Brasil.

(ARCHIVOZ) Qual foi a sua primeira experiência de pesquisa em arquivos?

(Olegário Pereira) As primeiras experiências em arquivos, enquanto visitante ou frequentador, surgiram quando já cursava a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Recordo-me particularmente de duas. A primeira, aquando de uma visita ao Arquivo Distrital do Porto, realizada numa unidade curricular de História Medieval e conduzida, se não me falha a memória, por Luís Carlos Amaral e Paula Pinto Costa, docentes da referida Faculdade. Durante a mesma visita, para além de tomarmos contacto com o espaço do arquivo em si e com o seu funcionamento, tivemos a oportunidade de ver alguns documentos, o que, para quem se interessa pela pesquisa em História, é muito estimulante! A segunda tratou-se de uma experiência bastante interessante, na qual tive a sorte de participar enquanto aluno na unidade curricular “Judeus e Cristãos Novos na Cultura Portuguesa”, lecionada por Elvira Mea. Uma das atividades consistiu numa visita à Sinagoga da cidade do Porto. Estávamos então a estudar a história do capitão Artur Barros Basto, o seu fundador, e da sua atuação para converter ao judaísmo oficial os criptojudeus (marranos) das regiões de Trás-os-Montes e Beiras. Recordo-me que um dos objetivos era desenvolvermos um estudo para avaliação na unidade curricular, utilizando alguma da documentação que se encontrava acondicionada num dos espaços da Sinagoga. Para o efeito, coligimo-la e realizámos um breve inventário. Posteriormente, essa documentação foi temporariamente transferida para o arquivo da biblioteca da Faculdade de Letras, onde, amiúde, juntamente com alguns colegas, me dirigi para a analisar. Por fim, redigimos um breve estudo relacionado com o instituto teológico israelita do Porto, que funcionava naquele espaço religioso. Recordo-me do fascínio de manusear documentos vários, como, por exemplo, a correspondência entre o instituto e os pais dos estudantes, membros ou beneméritos da comunidade, alguns documentos relativos a entidades oficiais, exames, avaliações e cadernos dos alunos e, ainda, vários números do jornal “Ha-Lapid” publicado pela comunidade israelita do Porto.

(ARCHIVOZ) Quando é que se apercebeu do potencial da informação arquivística para a sua área de investigação, a História Ambiental?

(OP) Quando realizei o mestrado em História Medieval, a minha primeira ideia foi abordar a questão da floresta na Idade Média. Na altura, o sistema de ensino superior encontrava-se na fase de transição para o chamado “processo de Bolonha”. O tempo para a realização desse ciclo de estudos diminuiu para dois anos e apenas no segundo ano nos era possível a dedicação integral à pesquisa e redação da dissertação. Para além de me encontrar a realizar o mestrado, trabalhava na indústria têxtil, o que não me permitia dedicar-me tanto quanto desejaria ao desenvolvimento da pesquisa. Tais contingências levaram-me a alterar o objeto de estudo, aliás, aconselhado pelo meu orientador, Luís Carlos Amaral, que me propôs trabalhar o tema da atividade piscatória no litoral norte de Portugal ao longo dos séculos XIV e XV, recorrendo, sobretudo, a fontes publicadas. Assim o fiz!

Na altura, não tinha a ambição de analisar assuntos relacionados com a História Ambiental, embora (e hoje tenho mais noção disso) a análise da pesca seja na realidade a pesquisa de um tipo de interação entre o ser humano e o ambiente. No decorrer da investigação, foi-me forçoso recorrer a estudos de cariz interdisciplinar quando verifiquei que a área de estudo selecionada, nomeadamente o litoral compreendido entre as desembocaduras do rio Minho e do rio Mondego, tinha uma configuração muito diferente da atual. Como facilmente se entende, para melhor analisar os dados que havia coligido na documentação compulsada, nomeadamente os relacionados com as localidades piscatórias, com as espécies de peixe e com as tipologias das artes de pesca e das embarcações, era imprescindível localizar a linha de costa de antanho. Em todos os casos mencionados, interessava compreender se as afinidades eram marítimas e litorais. Através dos estudos de autores como Alberto Souto, Amorim Girão, Inês Amorim, João Alveirinho Dias, Maria Rosário Bastos, Miguel de Oliveira, entre outros, constatei a potencialidade da documentação histórica para nos dar resposta a questões nem sempre abordadas pela historiografia. Neste caso em particular, os dados históricos possibilitavam informações relativamente à evolução costeira e às influências humanas nesse processo. Posso dizer que, de certa forma, fui compelido a sair da minha área de conforto e abeirar-me de assuntos estudados por outras disciplinas cujos conceitos e metodologias de análise são diferentes, pelo que, me foi necessário aprender algumas noções. De repente via-me a tentar perceber em que consistia a deriva litoral, o carreamento sedimentar, as taxas de migração, processos de erosão e acreção sedimentar, enfim, conceitos que me eram distantes enquanto aprendiz de historiador.

Mais tarde, tive a oportunidade de participar no III encontro da Rede BrasPor realizado na vila de Ponte de Lima, no qual, aliás, a Alexandra Vidal integrava a organização. Essa experiência proporcionou-me o contacto com vários investigadores que trabalhavam o litoral através de abordagens interdisciplinares, tanto no caso de Portugal, quanto no caso do Brasil, tais como, por exemplo, João Alveirinho Dias, Maria Antonieta Rodrigues, Luís Cancela da Fonseca, Maria Rosário Bastos, Joana Gaspar de Freitas, Sílvia Dias Pereira, entre outros. Os aportes que cada um trazia da sua respetiva área científica, entre os quais os provenientes da História, e a conjugação de todos aqueles saberes tão diversos, mas complementares, aplicados no estudo da interação entre o Homem e o Meio, logo me cativaram! Julgo que se a semente já estava plantada, foi nesse momento que germinou! A partir de então, ao tratar de questões relacionadas com a pesca, com a ocupação do litoral, com a salicultura, com o clima, com os problemas de erosão costeira, ou outros temas que tenho procurado analisar no meu curtíssimo percurso académico, constato a enorme potencialidade da informação arquivística. Considero que há muito terreno a desbravar no que se refere à informação arquivística de interesse para a História Ambiental, como, aliás, a crescente produção científica portuguesa neste campo de estudos tem demonstrado. Repare-se que muitas coisas não são propriamente novas, ou seja, por vezes, a releitura da documentação é que é efetuada sob prismas diferentes. De certo modo, o corpus documental é o mesmo, mas tenta-se compreender a historicidade dos sistemas naturais onde se desenvolvem os processos históricos por forma a um mais profícuo entendimento das relações entre a sociedade humana e a natureza. Aliás, a possibilidade de se questionar um documento não se esgota, antes se esgota, eventualmente, a capacidade do historiador fazê-lo, pois cabe somente a cada um procurar as respostas para as distintas perguntas possíveis de se elencarem, fruto de diferentes abordagens, metodologias, ou mesmo dos próprios interesses por certos temas em detrimento de outros.

(ARCHIVOZ) No seu percurso, a sua experiência em arquivos brasileiros foi certamente muito enriquecedora. Pode descrever um pouco esse caminho pelos arquivos brasileiros?

(OP) Entre os anos de 2015 e 2019 realizei o Doutoramento em Ciências Ambientais no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente (PPG-MA) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, após ser selecionado num processo de atribuição de bolsa de doutorado da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Trata-se de um programa doutoral interdisciplinar, que apesar de relativamente recente, uma vez que somente foi criado em finais de 2004, tem um corpo docente altamente qualificado, cujo principal objetivo é formar membros da sociedade capazes de pensar os problemas ambientais sob uma ótica sistêmica e interdisciplinar. A minha proposta consistiu em desenvolver um estudo sob o viés da História Ambiental que permitisse analisar comparativamente dois socio-ecossistemas lagunares costeiros, a laguna de Aveiro, em Portugal, e a laguna de Araruama, no Brasil. Procurei entender quais os processos de ocupação, exploração e alteração antrópica perpetrados nesses ambientes e como tais processos originaram vulnerabilidades socio-ambientais e a necessidade da adaptação humana. De certo modo, o que hoje designamos como História Ambiental, já vem sendo praticado faz muito tempo, designadamente em Portugal. Por exemplo, alguns dos autores que citei anteriormente, tendo formação de base que não a História, fizeram-no. Refiro-me ao Alberto Souto e ao Amorim Girão, que na primeira metade do século XX abordaram a questão da formação da laguna de Aveiro numa perspetiva interdisciplinar, recorrendo a documentação arquivística e, de certo modo, integrando métodos historiográficos. Aliás, podemos recuar para o século XIX e mencionar autores como Constantino Botelho de Lacerda Lobo com os seus trabalhos relacionados com a pesca e a salicultura ou José Bonifácio de Andrada e Silva com o seu estudo sobre o plantio de bosques no litoral. Lembro um interessante artigo sobre a questão do recente desenvolvimento da área da História Ambiental em Portugal, da autoria de Paulo Guimarães e Inês Amorim, que demonstra uma forte tradição da geografia histórica na análise das questões ambientais, enquanto só muito recentemente, a Historiografia portuguesa o assumiu. Assim, embora com uma certa tradição, a História Ambiental enquanto ramo historiográfico pode ser considerado muito recente em Portugal. Por tais motivos, decidi que seria uma mais-valia diversificar o meu percurso académico, mais ainda, num país onde a História Ambiental despontou há mais tempo. Por outro lado, a incorporação de uma abordagem interdisciplinar, tal como proposta pelo programa de doutoramento, era muito importante para desenvolver a pesquisa a que me propus. Fui orientado por três destacados investigadores de áreas científicas distintas: Elza Neffa Vieira de Castro, investigadora dedicada ao estudo de questões ambientais e docente do PPG-MA, Rosário Bastos, historiadora e docente da Universidade Aberta de Portugal e Luís Cancela da Fonseca, biólogo e docente da Universidade do Algarve, o que me permitiu realizar, tanto quanto possível, um estudo interdisciplinar. Feita esta contextualização, posso dizer que a experiência em arquivos brasileiros foi, sem dúvida, muito enriquecedora. Dada a temática da investigação, embora muita da informação tenha sido alocada no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, recorri a alguns dos principais arquivos e bibliotecas do Rio de Janeiro. Parte da pesquisa bibliográfica, da consulta a crónicas dos viajantes e a periódicos, foi realizada na Biblioteca Nacional, situada no coração da cidade, junto ao belíssimo teatro municipal do Rio de Janeiro. Aí, também pude coligir muita informação em fontes publicadas, nomeadamente numa coleção intitulada “Documentos Históricos”, editada por essa instituição desde o ano de 1928 e que já constitui um corpus de cerca de 110 volumes de documentos publicados, nos quais me foi possível encontrar dados para a região de Cabo Frio, onde se situa a laguna de Araruama. Outras bibliotecas a que amiúde me desloquei foi à Biblioteca Parque, situada junto da interface ferro-rodoviária “Central do Brasil” e, embora menos vezes, ao Real Gabinete Português da Leitura. No que respeita aos arquivos, realizei pesquisa no Arquivo Nacional do Brasil, onde estudei sobretudo contratos de sesmaria concedidos na região de Araruama, uma tipologia documental através da qual foi possível coligir dados acerca do uso e ocupação desse território, em especial entre os séculos XVII inícios de XIX. Ainda nessa vertente, também estudei os “livros de Registros Paroquiais de Terras”, nomeadamente das freguesias de Cabo Frio, de Saquarema e de Araruama, os quais se encontram no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Já numa vertente de documentos que, em parte, se encontram disponibilizados em formato digital, analisei sobretudo os livros de emprazamento de Cabo Frio, os quais se encontram no arquivo municipal dessa localidade e os livros de casamento, batismo e óbito que se encontram no Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Niterói. Como referi, parte dos dados foi coligida no Arquivo Histórico Ultramarino, nomeadamente nos fundos documentais relativos ao Rio de Janeiro, onde pesquisei, mais particularmente, a documentação atinente à antiga circunscrição administrativa de Cabo Frio. Neste caso particular, chamo a atenção para o excelente contributo no que se refere à disponibilização em linha do acervo relacionado com as capitanias do Brasil em suporte digital, através do qual me foi possível dar continuidade à consulta dos fundos de documentação avulsa do Rio de Janeiro, dos contratos do sal, entre outros, quando já me encontrava no Brasil. A documentação encontra-se microfilmada e digitalizada em formato CD-Rom, através do “Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Grande”, e também disponibilizada em linha pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o que me permitiu proceder à transcrição de cerca de uma centena de documentos que posteriormente disponibilizei no segundo volume da tese.

(ARCHIVOZ) Denota algumas diferenças de disponibilização da informação em relação aos arquivos portugueses?

(OP) Quanto a este assunto não me parece que possa responder com propriedade. Talvez que a grande diferença se encontre na disponibilização dos acervos em linha na internet. Como referi anteriormente, há muita informação que se encontra acessível através de plataformas digitais, no entanto, notei que há uma grande dispersão devido à multiplicidade de iniciativas perpassando entidades particulares, de ensino, militares, religiosas e administrativas de diferentes instituições locais, estaduais e federativas. Embora tais iniciativas sejam de louvar, parece-me que seria interessante uma congregação de esforços no sentido de reunir as distintas unidades orgânicas a exemplo daquilo que, por exemplo, verificamos em Portugal, com o caso da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). Julgo que o Diretório Brasil de Arquivos (DIBRARQ), ferramenta que considero bastante importante no que se refere à localização de fundos e coleções documentais, seria fundamental para a prossecução desse objetivo, uma vez que permitiria, por um lado, reunir as diversas instituições que guardam e promovem o acesso aos documentos custodiados e, por outro lado, o acesso através da integração da multiplicidade de repositórios disponíveis. Obviamente que as dimensões dos países e a produção arquivística forçosamente exigem uma capacidade de resposta diferente. De qualquer modo, o processo de digitalização dos acervos documentais e a sua disponibilização são tarefas extraordinariamente importantes e às quais os respetivos governos não se devem furtar. Tem-se verificado que, embora haja cada vez mais uma aposta nesse sentido, nem sempre o suporte orçamentário o viabiliza, o que é penalizador não só para os profissionais, mas ainda para a população em geral que, embora muitas das vezes não tenha noção, não prescinde desse serviço.

(ARCHIVOZ) Agora falemos em termos concretos. A nível de busca, recuperação da informação foi possível ter acesso aos termos específicos que utilizo para a sua investigação? Quais foram os resultados?

(OP) Através da História Ambiental, abordamos temas ou objetos de estudo que, por norma, não nos oferecem fundos documentais específicos. Ou seja, habitualmente é-nos forçoso recorrer a fundos ou coleções documentais diversificados e que à partida não se atêm, ao nível descritivo, aos objetivos da pesquisa. Essa questão é mais usual quanto mais a pesquisa recua em termos cronológicos. Por exemplo, se o objetivo é entender a configuração do litoral numa dada região durante a Idade Média, em princípio, não existirá nos arquivos um fundo documental que responda a essa questão! Forçosamente ter-se-á de pesquisar documentos relacionados com as instituições detentoras dos territórios a analisar, onde, em diplomas referentes a outras questões, que nada têm que ver com a informação que se pretende pesquisar, lá se encontra uma ou outra evidência que nos ajuda a estudar a questão. A existência de bases de dados nos arquivos e principalmente a digitalização e acesso aos documentos através da internet veio em muito facilitar essa questão. Através desses recursos, quando disponíveis, tornou-se possível recuperar mais celeremente a informação através da utilização de termos específicos relacionados ao âmbito da pesquisa. A título de exemplo, tanto no caso da DIBRARQ quanto da DGLAB, a que atrás me referi, foi-me possível localizar vários fundos que interessavam à pesquisa. Já, por exemplo, nos recursos em linha disponibilizados pelas bibliotecas nacionais de Portugal e do Brasil, através da utilização de descritores, ou termos de pesquisa, tive resultados muito favoráveis no que se refere à pesquisa bibliográfica. Também no Arquivo Nacional do Brasil, a busca e recuperação da informação através de termos específicos, nomeadamente na pesquisa dos contratos de sesmaria, foi de uma enorme mais-valia, uma vez a avultada quantidade desse tipo de documentação. Por outro lado, a ferramenta de pesquisa disponibilizada no caso da documentação atinente à capitania do Rio de Janeiro e que se encontra no Arquivo Histórico Ultramarino, também ajudou bastante a circunscrever a documentação que interessava para o desenvolvimento da pesquisa. Atualmente colaboro no Projeto SIARL (Sistema de Administração do Recurso Litoral), gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente e executado pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. O objetivo desse projeto consiste na recolha, tratamento e carregamento de dados para ampliar o conhecimento costeiro e apoiar as estratégias de adaptação costeira para os riscos instalados e em cenários de alterações climáticas. No módulo de ocorrências históricas, aquele que coordeno, a busca e consequente recuperação da informação através de termos específicos tem sido uma mais-valia uma vez que, por um lado, a extensão territorial abrangida pelo projeto é bastante acentuada – todo o litoral continental português – e por outro lado, existe uma ampla proliferação da documentação e dispersão das informações que interessam aos objetivos delineados.

(ARCHIVOZ) Para finalizarmos, sentiu alguma vez que a falta de acesso à informação afetou a sua investigação ou foi o contrário, teve surpresas nas suas buscas?

(OP) Como historiador essa questão, à partida, não se me coloca nem pode colocar-se! Antes de encetar qualquer trabalho científico ou académico, a primeira tarefa a realizar é averiguar quais as fontes (em qualidade e quantidade) disponíveis, sejam diretas ou indiretas, inéditas ou publicadas, para aferir se é possível levar a investigação a bom porto. Sem fontes (ou proxies, como se costumam apelidar nas chamadas Ciências Naturais) não há a capacidade de produção científica. Por absurdo: podemos querer estudar a exploração de sal marinho em Coimbra, ao longo do período histórico. Mas como Coimbra nunca esteve na interface mar/litoral não iremos encontrar fontes para o nosso estudo (e aqui, como é óbvio, não me refiro às localidades próximas onde se explorava esse produto, como na zona da foz do Mondego, nem à exploração de sal-gema). Podemos e devemos fazer uma análise do “estado da arte” face à temática que nos propomos, aliás, primeiro momento da investigação. Se tudo se mostrar despiciendo ou pouco fecundo, o melhor é abandonar a questão, ou, quem sabe, abordá-la de outra forma. Outra coisa diferente é sabermos que existe informação, mas ela não é acessível. Aí há que, sempre que possível, fazer todos os esforços para a ela aceder. Por exemplo, durante o confinamento total resultante das medidas tomadas para fazer face à pandemia de COVID 19, muitos documentos que não se encontram digitalizados e apresentados em linha, estiveram, na prática, inacessíveis. Face a essa situação, duas hipóteses se colocam: ou temos capacidade/oportunidade para esperar, ou reconfiguramos o foco dos trabalhos em curso.

(ARCHIVOZ) No seu entender, o acesso aos documentos de arquivo online exclui uma visita presencial? Como encara os arquivos num futuro próximo?

(OP) Como já referi, entendo que a disponibilização e o concomitante acesso aos documentos de arquivo em linha é, por diversas razões, uma aposta com futuro. Para começar, julgo que essa disponibilização dos arquivos digitais traduz-se num movimento de democratização da ciência, mais ainda, nos momentos em que se enfrentam ciclos sociopolíticos conturbados e consequentemente com reflexos negativos no que respeita às conjunturas económicas. Normalmente em tais situações, tendem-se a reduzir os apoios à ciência e mais particularmente a áreas científicas muitas das vezes consideradas menos relevantes… Em tais situações, mesmo que se observe o corte de verbas, o profissional que trabalhe com informação arquivística, e não me refiro somente ao historiador, terá no acesso em linha uma forma de suprir a impossibilidade de, por exemplo, se deslocar pessoalmente ao arquivo. Muitas das vezes, grande parte das vezes, diria, a informação encontra-se polarizada por diversos arquivos, os registos descritivos nem sempre suprem as pesquisas, os horários de funcionamento das instituições inviabilizam pesquisas mais aprofundadas. Tudo isto acaba por ser debelado através da pesquisa em linha, não sendo necessário ao pesquisador deslocar-se fisicamente à unidade arquivística, podendo antes estabelecer o horário de realização das suas pesquisas. Por outro lado, a digitalização, para além de facilitar a pesquisa e o acesso às informações arquivísticas, minimiza os riscos relacionados ao acervo, seja no que se refere à deterioração do documento pelo sucessivo transporte e manuseamento dos originais ou de eventuais danos, furtos ou outro tipo de situação que eventualmente ocorra e possa colocar em risco a documentação. Dito isto, embora as potencialidades desse tipo de disponibilização, não me parece que tal signifique a exclusão de uma visita presencial. Por exemplo, havendo a necessidade de se proceder a uma crítica interna e externa ao documento, implicará necessariamente a consulta ao original físico. Por outro lado, casos em que há dificuldades na leitura do exemplar digitalizado, seja por baixa resolução da imagem, seja por outros motivos como o original se encontrar em mau estado de conservação ou a tinta se encontrar repassada, tem-se de recorrer a uma visita presencial. De todo o modo, hajam as alterações que houverem, da arquivística dependerá sempre a produção, a organização, a preservação, e em último caso, a utilização e o acesso aos arquivos. Como tal, a arquivística será sempre um ramo fundamental não só para os estudos históricos, mas também para outros, como a Genealogia, a Diplomática, a Sigilografia, e enfim, para um amplo espectro da sociedade. Portanto, os arquivos continuarão a representar um importante património enquanto repositório da história e identidade de todos e cada um de nós.


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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“Através da sua biblioteca, o Arquivo possibilita o acesso, num único espaço, a outros recursos, complementares às suas fontes, que podem auxiliar a investigação ali desenvolvida”: Entrevista com Marta Gomes

Entrevistámos Marta Gomes, Coordenadora da Biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Atualmente, entre outras funções que desempenha no Arquivo Municipal de Lisboa, é coordenadora da biblioteca deste serviço de informação de referência em Portugal. Fale-nos um pouco do seu percurso profissional, académico e formativo.

(Marta Gomes) Interessei-me pelo mundo das bibliotecas no último ano da licenciatura em História, em 1995, quando frequentei o seminário de biblioteconomia e realizei um curto estágio na Biblioteca Municipal Marquesa de Cadaval, em Almeirim. Mais tarde, em 1998, concluí na Universidade Autónoma de Lisboa a pós-graduação em Ciências Documentais e iniciei a minha atividade profissional nesta área, no centro de documentação da antiga Direção Geral de Transportes Terrestres. Após uma breve passagem pela Refer, ingressei na Câmara Municipal de Lisboa onde, desde 2001, sou responsável pela biblioteca do Arquivo Municipal.

(ARCHIVOZ) A sua dissertação de mestrado em Ciências Documentais, que apresentou à Universidade de Évora, tem o título “Implementação de políticas de indexação e metodologia para construção de tesauros: estudo de caso sobre o Arquivo Municipal de Lisboa” Quais foram as principais conclusões da investigação que desenvolveu?

(MG) Esta dissertação, e o seu tema, surgiram no momento certo. Estava a frequentar o mestrado em Évora quando o Arquivo Municipal de Lisboa deu início ao ambicioso projeto de construção de uma linguagem documental para a indexação da sua documentação, para o qual fui nomeada responsável. Abandonei, assim, o tema inicialmente escolhido para a dissertação e decidi especializar-me nesta área. Tinha a certeza de que a minha investigação acrescentaria valor ao projeto. Durante este percurso compreendi a importância da criação de uma política de indexação nos serviços de informação, através da qual se estabelecem os procedimentos que garantem a qualidade da indexação e, consequentemente, a eficácia da recuperação da informação. Confirmei que o tesauro é a linguagem documental que apresenta uma forma de construção e de acesso adequados às exigências da indexação de documentos de arquivo. Esta investigação obrigou a um conhecimento detalhado sobre a organização dos documentos do Arquivo Municipal de Lisboa, as suas características particulares e, consequentemente, a tomadas de decisão sobre como indexá-los. Este percurso continuou após a dissertação, com novas conclusões decorrentes da implementação da política de indexação no Arquivo Municipal de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Ainda no Arquivo Municipal de Lisboa, é coordenadora editorial e membro do Conselho Editorial da revista científica Cadernos do Arquivo Municipal. O que nos pode dizer sobre esta publicação, e os seus principais objetivos, que progressivamente tem conquistado o seu espaço entre as revistas científicas publicadas em Portugal?

(MG) Os Cadernos do Arquivo Municipal, http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/investigacao/cadernos-do-arquivo-municipal/2-serie/), revista científica da Câmara Municipal de Lisboa, de acesso aberto e periodicidade semestral, são a forma bem-sucedida de aproximar o Arquivo Municipal de Lisboa à comunidade académica nacional e internacional. Têm como principal objetivo divulgar a documentação à guarda do Arquivo, promovendo o seu acesso e revelando a sua importância para a investigação científica. Embora a revista publique artigos que não fazem referência à documentação do Arquivo, a equipa assegura a sua divulgação em cada número através da Documenta, ou de textos de divulgação publicados na Varia. Neste momento acessível em diversos indexadores internacionais, os Cadernos do Arquivo Municipal têm obtido uma interessante projeção nacional, e em países como Espanha e Brasil.

(ARCHIVOZ) Apresente-nos a biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa, nomeadamente no que respeita à sua principal função, áreas temáticas e serviços prestados.

(MG) A biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa reúne o conjunto de características que define uma biblioteca especializada, ou seja, disponibiliza um acervo bibliográfico centrado em determinados temas, relacionado com a entidade a que presta serviço, tentando responder às necessidades de informação de um público específico. Através da sua biblioteca, o Arquivo possibilita o acesso, num único espaço, a outros recursos, complementares às suas fontes, que podem auxiliar a investigação ali desenvolvida. Esta biblioteca está dividida em dois locais distintos, encontrando-se parte do acervo na sede do Arquivo em Campolide, e a outra parte no Arquivo Fotográfico, na rua da Palma. A área temática nuclear da primeira é a cidade de Lisboa, nomeadamente a sua história, arte, arquitetura ou urbanismo. Disponibilizam-se outras áreas, marginais, igualmente relevantes para o estudo da cidade. De entre a documentação disponibilizada, saliento a coleção de recursos visuais, constituída por materiais de divulgação (cartazes, folhetos, brochuras, entre outros), produzidos pela Câmara Municipal de Lisboa no exercício da sua atividade, que adquirem agora, ao fim de alguns anos, um valor informativo e documental. E ainda os dois espólios, o do jornalista José Neves Águas (constituído sobretudo por cartazes políticos produzidos entre as décadas de 70 e 80 do século XX) e o do espólio da ONU (cerca de 300 cartazes de campanhas promovidas por este organismo no mundo inteiro) que o Arquivo recebeu em 2003 após o encerramento do gabinete em Portugal. No Arquivo Fotográfico o tema central é a fotografia (história, técnicas fotográficas, fotografia de autor, catálogos coletivos, entre outros). A biblioteca do Arquivo disponibiliza o seu catálogo online (https://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/), a partir do sítio web do Arquivo Municipal de Lisboa. Grande parte dos recursos visuais encontram-se digitalizados e podem ser visualizados neste catálogo. A biblioteca presta um serviço de referência e realiza pesquisas a pedido, quer no seu catálogo, quer em outros serviços de informação. Nos últimos anos tem vindo a divulgar as suas coleções através da organização de mostras bibliográficas e da colaboração em exposições.

(ARCHIVOZ) Quais são os utilizadores da biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa e as suas principais necessidades de informação?

(MG) Os utilizadores da biblioteca são, sobretudo, os utilizadores do Arquivo Municipal de Lisboa, portanto, investigadores que procuram o Arquivo para a consulta de fontes e para o desenvolvimento de investigação sobre a cidade de Lisboa. Para além destes, a biblioteca tem sido muito procurada nos últimos anos para acesso aos recursos visuais anteriormente referidos. Neste caso, os contactos são feitos quer por investigadores, quer por outras entidades que recorrem ao acervo para variados fins (exposições, edições, divulgação, entre outros).

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 tiveram impactos profundos nos serviços de informação em Portugal. Como coordenadora da biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa quais têm sido, desde março de 2020, os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(MG) O ano de 2020 foi de mudança para a biblioteca, e só em parte devido à pandemia pelo SARS-CoV 2. Por um lado, a equipa perdeu dois elementos, por mobilidade e aposentação, tendo como consequência a reorganização do serviço e uma redistribuição de tarefas. O reforço da equipa, com a entrada de dois novos elementos já este ano, pode trazer um novo impulso a este serviço, uma vez que estão a ser pensadas outras formas de divulgação e de maior aproximação do público. Por outro lado, o atendimento do público foi interrompido durante algum tempo, assim como a organização das mostras bibliográficas promovidas bimestralmente e que ainda não foram retomadas. Mas o tratamento do acervo manteve-se com os funcionários em regime de teletrabalho.

Por vezes, em momentos como estes, surgem oportunidades. De modo a que o Arquivo Municipal de Lisboa pudesse assegurar o atendimento, com segurança e cumprindo as orientações da Direção-Geral da Saúde, ao maior número possível de leitores, a sala da biblioteca em Campolide, até aí sem receber público (que se concentrava na sala de leitura geral do Arquivo), foi reorganizada para poder passar a acolher investigadores. Esta alteração do espaço possibilitou a criação de uma área aprazível de acolhimento, assim como um acesso mais direto ao acervo bibliográfico e um atendimento ainda mais personalizado.

(ARCHIVOZ) Quais é que pensa que são os principais desafios e oportunidades que se colocam aos profissionais da informação na atualidade, particularmente aos que desenvolvem a sua atividade em bibliotecas?

(MG) Os profissionais da informação deparam-se com constantes e variados desafios. No caso das bibliotecas especializadas, talvez o reconhecimento da sua importância enquanto serviços de organização da informação e do conhecimento, em época de constante mudança organizacional, tecnológica e informacional, seja dos mais notórios. Muitas vezes penalizadas por constrangimentos orçamentais, estas bibliotecas encontram-se quase sempre no “fim da linha” das tomadas de decisão, nomeadamente no que diz respeito ao investimento nas suas coleções, na formação das suas equipas e, por vezes, nos seus espaços e equipamentos. Não obstante, compete aos profissionais da informação reformular, reinventar, enfim, encontrar novas soluções, meios e ferramentas que demonstrem a importância das bibliotecas especializadas e o papel ativo que podem e devem assumir nas organizações.

Imagem cedida pelo entrevistado:
Exposição de cartazes “O Arquivo Saiu à Rua”. Arquivo Municipal de Lisboa, 2014.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Chegou o momento de colaborarmos na afirmação de um novo arquipélago de conhecimento, ao serviço de todos!”: Entrevista com João Miguel Henriques

Entrevistámos João Miguel Henriques, Chefe da Divisão de Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico da Câmara Municipal de Cascais.

 

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso profissional até chegar a Chefe da Divisão de Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico da Câmara Municipal de Cascais, cargo que ocupa desde 2016, e quais os serviços de que é responsável pela respetiva gestão.

(João Miguel Henriques) Iniciei a minha atividade em 1999, no Arquivo Histórico Municipal de Cascais, que passei a coordenar no ano de 2005. Em 2013 fui nomeado coordenador do Gabinete de Arquivos Municipais e, no ano seguinte, chefe da Divisão de Arquivos Municipais.  Tenho o privilégio de gerir desde 2015 a Divisão de Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico da Câmara Municipal de Cascais.

Esta unidade orgânica é constituída por 12 serviços: Arquivo Geral Corrente, Arquivo Intermédio Municipal, Arquivo Técnico de Urbanismo, Arquivo Histórico Municipal, Biblioteca Municipal de Cascais, Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana, Biblioteca Infantil e Juvenil de Cascais, Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares, Serviço de Bibliografia e Gestão de Coleções, Livraria Municipal, Serviço de Gestão de Animação Cultural e Núcleo de Património Histórico e Cultural, que incluiu diversos sítios arqueológicos. A multiplicidade de assuntos a cargo dos 80 extraordinários colegas que integram esta Divisão, marcada pela dispersão geográfica dos equipamentos, constitui um desafio absorvente, mas muitíssimo estimulante!

(ARCHIVOZ) No seu extraordinário CV sobressai, no que respeita a publicações, a extensa obra relativa à história e património de Cascais, temáticas sobre as quais comissariou inúmeras exposições, para além da coordenação de encontros, seminários, cursos e visitas guiadas. Gostaria que nos dissesse como é que nasceu o interesse em desenvolver investigação sobre esta lindíssima vila e que destacasse as principais obras escritas publicadas nesse sentido.

(JMH) O meu interesse nasceu do gosto pelas viagens… no tempo, levado pelo desejo de desvendar a forma como o território de Cascais foi sendo formatado até alcançar a feição atual. Queria perceber como uma terra de agricultores, canteiros e pescadores se transformou num dos concelhos mais densamente povoados do país, sob a égide do turismo. Foi essa questão que me levou a estudar alguns dos períodos considerados de transição, como sucederia durante o mestrado, quando me dediquei à história de Cascais entre 1908 e 1914, recolhendo novas fontes para o estudo do movimento republicano e a dissipação da ideia de que a fuga da Família Real afetara o desenvolvimento do concelho.

A investigação transformar-me-ia num utilizador regular do Arquivo Histórico Municipal de Cascais, a cuja equipa teria depois a sorte de me juntar. Já a trabalhar neste serviço pude (co)coordenar diversas obras destinadas a valorizar as preciosas fontes documentais que se aqui se preservam, muitas das quais se materializariam igualmente em exposições, entre as quais destaco Cascais: Do final da monarquia ao alvorecer da República (2001); S. João do Estoril e os Banhos da Poça (2003); Cascais: Aqui nasceu o futebol em Portugal (2004); História da freguesia de Cascais: 1870-1908 (2004); Cascais em 1755: Do terramoto à reconstrução (2005); História da vela em Cascais (2007); D. Carlos de Bragança: Instantes da vida de um rei em Cascais (2008); O passado nunca passa: Coleção José Santos Fernandes (2010); Cem anos a ensinar: Colégio da Bafureira, 1910-2010 (2010); O Estoril e as origens do turismo em Portugal (2011), Da Riviera Portuguesa à Costa do Sol: Fundação, desenvolvimento e afirmação de uma estância turística, 1870-1930 (2011); Branquinho da Fonseca: Um escritor na biblioteca, (2012); História(s) do(s) mercado(s) de Cascais (2014); Cascais: Território, história, memória (2014); 500 anos do foral manuelino de Cascais (2016); 1914-1918: Cascais durante a I Guerra Mundial (2017); Cascais: Associações com história (2018); Grupo Recreativo e Dramático 1.º de Maio de Tires: 100 anos de história (2019) e Cascais: Museu da Vila (2020). Para além de estabelecer ligações com outros arquivos, a maioria destas edições permitiu identificar novos fundos e coleções que viriam a ser integrados no Arquivo Histórico Municipal, onde foram organizados, descritos, parcialmente digitalizados e disponibilizados para consulta pública, alargando, assim, a informação existente acerca da história de Cascais e das suas gentes.

(ARCHIVOZ) Um excelente exemplo desse interesse por Cascais é a sua tese de doutoramento, defendida em 2009, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o título “Da Riviera portuguesa à Costa do Sol: fundação, desenvolvimento e afirmação de uma estância turística: (Cascais, 1850-1930)”. Quais foram as principais conclusões a que chegou?

(JMH) Nesta obra, que resulta de cerca de seis anos de investigação em diversos arquivos e bibliotecas, estudei a história do concelho de Cascais entre os anos de 1850 e 1930. Apesar de a assunção da vila enquanto praia da moda remontar a 1870, com a adaptação de parte da Cidadela a Paço Real, para apoio aos banhos de mar praticados pela Família Real, a necessidade de sociabilização sazonal em novos palcos sociais já conduzia os lisboetas até à região desde meados do século XIX. Esta evolução estendeu-se, depois, a todo o concelho, com particular destaque para o litoral de Carcavelos a Cascais.

O estudo avalia a dinâmica do município no contexto da Regeneração e dos períodos subsequentes, que se caraterizou por um crescimento exponencial até à sua definitiva imposição enquanto destino turístico de primeira ordem, em 1930, na sequência da inauguração do Palace Hotel e da transformação do Estoril na derradeira paragem do Sud Express. A Riviera de Portugal cedeu, assim, lugar à Costa do Sol, que se transformou desde então num dos mais ambicionados locais para estada e residência em Portugal. Desta forma, durante e depois da II Guerra Mundial registar-se-ia a passagem pela região de um elevado número de estrangeiros, aí se fixando, em 1946, os Condes de Barcelona e Humberto II de Itália, e, no ano seguinte, Carol II da Roménia. O velho ditado «A Cascais, uma vez, para nunca mais» fora definitivamente trocado por «A Cascais, uma vez, para muitas mais»…

(ARCHIVOZ) Quais os projetos mais relevantes que coordenou, na qualidade de dirigente do município de Cascais?

(JMH) Entre os projetos mais relevantes que tive o prazer de coordenar destacaria, ao nível dos Arquivos, a reinstalação do Arquivo Histórico Municipal na Casa Sommer, a reformulação do sistema de gestão do Arquivo Técnico de Urbanismo e a criação do Arquivo Intermédio Municipal. A nossa equipa tem também particular orgulho no PRADIM – Programa de Recuperação de Arquivos e Documentos de Interesse Municipal, no âmbito do qual já foi possível acolher, organizar e passar a comunicar 104 arquivos e coleções, muitos dos quais em risco de perda ou desintegração. Este projeto, mercê da generosidade da DGLAB e da CPCCRD, tem-nos permitido colaborar no grupo de trabalho para a constituição de um guia de boas práticas para os arquivos das associações de cultura, recreio e desporto.

Realço igualmente o processo de informatização e desmaterialização dos Arquivos Municipais, que esteve na base do Arquivo Histórico Digital de Cascais e da nova pesquisa integrada das bases dos Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico Municipal que neste momento já faculta mais de 215 000 registos para consulta pública. Para além das exposições e edições sobre história e património do concelho salientaria, ainda, a edição anual do Guia Digital do Arquivo Histórico Municipal de Cascais.

No domínio das Bibliotecas destaco o reforço das atividades de promoção do livro e da leitura, como a abertura diária ao público até às 24h00 enquanto salas de estudo, a aposta na Biblioteca Digital de Cascais e a reorganização da Livraria Municipal. Já no que concerne ao Património Histórico realçaria a inauguração do Museu da Vila, nos Paços do Concelho; a concretização da recuperação da villa romana de Freiria e das cetárias de Cascais; o apoio prestado para a reabertura do Forte de Santo António da Barra e a criação das Rotas online do Património de Cascais.

(ARCHIVOZ) Na sequência da questão anterior, o Arquivo Histórico Digital de Cascais e o RIDC – Repositório de Informação Digital de Cascais (interface para sistemas de informação dos Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico e Cultural municipais) são dois excelentes exemplos da grande aposta no digital, claramente ganha, e na disponibilização dos conteúdos por esta via, que tem sido feita pelo município de Cascais. O que nos pode dizer sobre estas magníficas iniciativas do serviço que dirige?

(JMH) Em 2008, tendo por base o X-Arq, os Arquivos Municipais iniciaram um projeto de informatização, que dois anos depois permitiria o lançamento do Arquivo Histórico Digital de Cascais, disponível em https://arquivodigital.cascais.pt/xarqweb/. A aplicação já possibilita a consulta de quase 100 000 descrições validadas de documentos conservados nos Arquivos Técnico de Urbanismo e Histórico – que se compõe de 131 fundos ou coleções fundamentais para o estudo do passado do concelho – e noutros importantes núcleos arquivísticos municipais, como a Casa Reynaldo dos Santos | Irene Quilhó dos Santos e o Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria. Através desta funcionalidade, diariamente atualizada, passaram a estar acessíveis à distância de um clique descrições e digitalizações de todas as tipologias documentais, entre as quais importa destacar as das requisitadíssimas coleções iconográficas, que comportam milhares de fotografias e de bilhetes-postais ilustrados desde o último quartel do século XIX.

O RIDC – Repositório de Informação Digital de Cascais, interface para sistemas de informação dos Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico e Cultural municipais, foi apresentado em 2019, por ocasião do XIII Encontro de Arquivos Municipais, organizado pela BAD, que tivemos o privilégio de acolher em Cascais. Esta pesquisa consolidada, disponível em https://cultura.cascais.pt/iframe/pesquisa-integrada, tem por objetivo a agregação, no mesmo portal, de toda a informação gerida por estas áreas, a bem da sua difusão, centralizando recursos dispersos sem macular as bases de origem. Trata-se de um serviço desenvolvido para utilizadores externos, que nos permitiu também refletir internamente acerca das muitas ligações que teremos de gizar de forma a potenciar a informação que gerimos, eliminando erros e redundâncias, aproximando linguagens e até desenvolvendo novos serviços. Está, por isso, em constante (re)construção, mas já disponibiliza cerca de 215 000 registos para consulta online.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 provocaram alterações profundas nos serviços de informação em Portugal, desde a organização do trabalho interno, ao atendimento aos utilizadores e à comunicação da informação. Como responsável por uma divisão com cerca de 80 colaboradores, inúmeros equipamentos e iniciativas sempre a acontecer, o que nos pode dizer da sua experiência neste período tão singular e difícil, que infelizmente ainda não terminou. Que desafios e oportunidades gostaria de destacar, desde meados de março de 2020 até ao presente?

(JMH) A partir de 13 de março de 2020, a gestão da Divisão de Arquivos, Bibliotecas e Património Histórico teve de se adaptar às medidas de confinamento impostas devido à pandemia de COVID-19. A suspensão do atendimento presencial e o surgimento do teletrabalho implicou a alteração das prioridades da maioria das equipas, optando-se, então, pelo reforço do atendimento digital, mas assegurando serviços mínimos presenciais, que se revelaram fundamentais para o fornecimento de informações, realização de pesquisas, requisição de documentação, preparação de processos para digitalização e fornecimento de cópias. Parte substancial dos funcionários passou, assim, a dedicar-se a projetos adaptados às restrições, investindo-se sobretudo na revisão e enriquecimento das bases informáticas e na apresentação de novas ofertas de serviços digitais. Foi este o nosso desafio e oportunidade!

Entre os resultados alcançados mais representativos no domínio dos Arquivos destaca-se a manutenção dos tempos de resposta aos utilizadores internos e externos por parte do Arquivo Geral Corrente e do Arquivo Técnico de Urbanismo. Já o Arquivo Intermédio Municipal concluiu a reorganização digital dos seus depósitos, assegurando, depois, a transferência de novas remessas de documentação e a definitiva separação da documentação de conservação permanente, que transitou para o Arquivo Histórico Municipal.

A aposta no enriquecimento da base de dados traduziu-se num aumento de 49% de novos registos disponibilizados no Arquivo Histórico Digital de Cascais, face a 2019, que integram as 216 736 operações concretizadas em 2020, a intensificar este ano. Incentivando-se sobretudo a reorganização e tratamento de documentação física ao nível do catálogo, promoveu-se também o primeiro Curso Breve de História de Cascais online, que garantiu um elevadíssimo número de participantes, por não ser necessário restringir a audiência à lotação dos auditórios. Neste âmbito procedeu-se igualmente ao lançamento da plataforma digital Nós Casca(l)enses, em que se catalogam e relacionam todos os registos de batismo, casamento e óbito das paróquias do concelho de Cascais entre 1589 a 1911, que conta com 86 781 assentos.

(ARCHIVOZ) Considerando a extraordinária dinâmica que carateriza a Divisão que dirige, quais os principais projetos que se encontram a decorrer e os que estão planeados no decurso deste ano?

(JMH) Ainda com a pandemia a afetar fortemente a capacidade de programação a curto e médio prazo, estamos a proceder ao reforço da nossa comunicação digital, tendo por base uma nova conta de Facebook da Câmara Municipal de Cascais consagrada à Cultura, em que os Arquivos, as Bibliotecas e o Património Histórico são mais destacados, bem como ao desenvolvimento de eventos online, como as Horas do Conto ou os Cursos Breves de História de Cascais, que estão a cativar o(s) nosso(s) público(s).

No domínio dos Arquivos e das Bibliotecas prosseguiremos também o projeto de enriquecimento e cruzamento das bases, desmaterializando ainda mais documentação. Estamos, contudo, ansiosos para voltar a abrir as portas dos equipamentos, todos os dias, nos horários antigos, para reencontrar os nossos utilizadores e regressar aos “números” de 2019, ano em que as Bibliotecas Municipais acolheram 282 822 visitantes, o Arquivo Histórico Municipal aumentou 70% o número de utentes e promovemos mais de 220 iniciativas… De forma a fortalecer a ligação entre Arquivos e Bibliotecas encontramo-nos também a desenvolver um projeto que resultará num novo equipamento cultural, a anunciar em breve!

Já ao nível do Património Histórico, este será o ano do início de importantes obras que culminarão na requalificação dos mais significativos sítios arqueológicos do concelho: as Grutas do Poço Velho e de Alapraia e as Villae romanas de Casais Velhos e do Alto do Cidreira, bem como do Casal Saloio de Outeiro de Polima. Os projetos gizados durante o confinamento vão, pois, materializar-se, em prol do usufruto do nosso património coletivo.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o seu notável percurso e experiência nesta área, como vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais é que pensa que são os grandes riscos, desafios e oportunidades para os seus profissionais?

(JMH) Muitas organizações compreenderam finalmente que uma tomada de decisão informada depende da eficiência dos seus arquivos e que um projeto de desmaterialização tem de ser mais uma mudança do paradigma de administração do que um processo de transferência de suporte. Esta é, em minha opinião, uma grande oportunidade para os profissionais da informação que pretendam colaborar de forma ativa na qualificação das instituições a que pertencem, com vista à concretização do ambicionado e-Government, que a aposta no teletrabalho continuará a estimular.

O nosso maior desafio será, assim, colaborar sabiamente na implementação desta mudança, quando muitos dos problemas colocados pela gestão de processos híbridos ou apenas em papel ainda estão por resolver. Os profissionais da informação, aos quais se voltará a exigir grande flexibilidade, necessitarão de estar devidamente informados e de conseguir integrar-se nos processos de discussão e decisão, assumindo-se como dinamizadores dos processos de modernização administrativa.

O reforço da interoperabilidade dos sistemas de informação de Arquivos, Bibliotecas e Museus constitui outro importante desafio. Urge derrubar definitivamente as barreiras que dificultam o acesso e a partilha da informação gerida, em prol da melhoria da resposta fornecida aos utilizadores internos e externos. Para o efeito há que consolidar a partilha de saberes e experiências entre os profissionais da informação, na certeza de que este não é o tempo de nos afirmarmos como ilhas perdidas em mares de pequenos saberes. Chegou o momento de colaborarmos na afirmação de um novo arquipélago de conhecimento, ao serviço de todos!

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“[Em arquitetura] a obra construída necessita de um arquivo de memória, para que seja viva e para que cumpra na plenitude o seu papel e o seu compromisso público.”: Entrevista com Paulo Tormenta Pinto

Entrevistámos Paulo Tormenta Pinto, Professor Catedrático do ISCTE e Investigador Integrado do Dinâmia/CET, exercendo atualmente as funções de Diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do ISCTE.

 

(ARCHIVOZ) O seu CV é notável e bastante diversificado, do ponto de vista académico, que culminou no doutoramento em Teoria e História da Arquitetura, na Universitat Politecnica de Catalunya – Escola Tecnica Superior de Arquitetura de Barcelona, em Espanha, à sua experiência docente no Ensino Superior, mas também no trabalho que tem desenvolvido em inúmeros projetos, à vasta obra que tem publicada e à sua atividade como arquiteto, em que tem projetos distinguidos e premiados. Fale-nos um pouco do seu percurso formativo e profissional até chegar a Diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do ISCTE-IUL.

(Paulo Tormenta Pinto) Concluí o curso em 1993, nessa altura estávamos a dar os primeiros passos no processo de adesão à União Europeia era um tempo de mudança com muitas oportunidades em aberto. A sociedade portuguesa estava num processo de consolidação do processo democrático. Logo em 1994, tive a oportunidade de integrar, o Departamento de Construção de Habitação da Câmara Municipal de Lisboa. Este organismo era herdeiro do GTH (Gabinete de Construção de Habitação), serviço criado na década de 1960, com o objetivo de produzir os projetos de expansão da cidade para oriente, nomeadamente os bairros dos Olivais norte e sul e Chelas. Na época em que entrei para o Gabinete, estava a iniciar-se o PER – Plano de Especial de Realojamento. A decisão da Câmara, na altura presidida por Jorge Sampaio e depois por João Soares, passava pela produção interna da maioria dos projetos que iriam erradicar as zonas de barracas que existiam na cidade. Ainda com pouca experiência, tive oportunidade de desenvolver e construir dois projetos de grande dimensão – o conjunto Rego zona C, com 84 fogos, na Rua Soeiro Pereira Gomes e o Bairro da Travessa Sargento Abílio, com 91 fogos no Calhariz de Benfica, este último distinguido com prémio INH 2002. Na mesma altura em que produzia estas obras, iniciava o périplo em Barcelona, realizando o Master La Cultura de La Metropolis e depois o Doutoramento. O Master foi um processo decisivo na minha formação. Tratava-se de um programa coordenado por Ignasi de Solà-Morales, cujas aulas eram concentradas em dois anos, entre os meses de maio e julho. A organização do curso, permitiu-me rumar a Espanha em 1995 e 1996, dispondo de licenças de curta duração, sem perder o vínculo com a CML. Em Barcelona fazia-se o debate crítico sobre as transformações da cidade na sequência dos Jogos Olímpicos. O curso promovia debates cruzados entre os campos da arquitetura e da arte, tendo a episteme da contemporaneidade como pano de fundo. Terminado o Master, comecei a dar aulas em 1997 na Universidade Lusíada, iniciando também alguns projetos no meu próprio escritório, a Central Rodoviária de Rio Maior é desse tempo. Em 2001, rumei de novo a Barcelona, para fazer o Doutoramento. Nessa altura interrompi tudo o que estava a fazer em Portugal, foram 4 anos muito intensos, a viver maioritariamente em Barcelona. A minha tese de doutoramento foi antes de tudo uma oportunidade para produzir uma espécie de historiografia crítica da arquitetura portuguesa do século XX, através da figura ímpar de Cassiano Branco. Defendi a tese em dezembro de 2004, retomando a atividade docente. A CML ficou para trás, deixando grandes recordações. Em 2006 respondi a um concurso para professor no ISCTE e cabei por entrar. Era um tempo de refundação da área de arquitetura, que se estava a consolidar no contexto daquela instituição referenciada pelas ciências sociais. Acabei por ser eleito Presidente do Departamento, cargo que ocupei entre 2007 e 2010. Em 2011, fundei o curso de doutoramento Arquitetura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos, programa que dirigi até 2017. Em 2019 fui novamente eleito Diretor o Departamento de Arquitetura, cargo que ocupo atualmente.  Pelo meio de tudo isto mantive uma produção constante de projetos de arquitetura, realizando, nomeadamente a reabilitação do Bairro do Lagarteiro no Porto, inserido na Iniciativa Bairros Críticos, projeto que foi distinguido com o Prémios IHRU 2012 e com o Prémio Nuno Teotónio Pereira 2016 (Menção Honrosa).

(ARCHIVOZ) Considerando o seu extraordinário percurso científico, sendo na atualidade Professor Catedrático do ISCTE e Investigador Integrado do Dinâmia/CET, tem estado, de há longos anos para cá, muito próximo do mundo dos arquivos. Como é que foi o seu primeiro contacto com esta mundo, que imagem é que nos pode apresentar, em jeito de retrospetiva, dos mesmos nessa altura?

(PTP) O meu contacto com os arquivos foi intenso no período em que estava a fazer o doutoramento, testemunhando as grandes diferenças que se colocavam entre a situação em Barcelona e a situação de em Lisboa. No caso de Barcelona, havia uma organização incrível dos arquivos de arquitetura, com grande facilidade de acesso e com grande qualidade arquivística. Situação que contrastava com o que se passava em Lisboa. Na época o Arquivo Municipal estava nas caves dos edifícios habitacionais do Alto Eira, muito vulnerável e pouco acessível. No período em que mais precisava do arquivo, este acabou por fechar devido a uma praga que atacou espólio da Câmara de Lisboa. Acabei por usar o Arquivo do Arco do Cago, que tinha grande parte do material que necessitava microfilmado. Esta lacuna da Câmara de Lisboa, contrastava, apesar de tudo com os arquivos da Gulbenkian, da Biblioteca Nacional e da Torre do Tombo, os quais usei bastante nesse período. Posteriormente o Arquivo Municipal passou para o Bairro da Liberdade, com um serviço mais qualificado, mas ainda assim distante do potencial e da importância que devia ter. Durante um período consultei também o arquivo do Forte de Sacavém, atualmente na esfera da DGPC, testemunhando o potencial que técnico e logístico que detém, nem sempre tão acessível como seria desejável. Esta situação é particularmente sensível no caso da preservação dos espólios de arquitetos, lacunas que são contrabalançadas o papel relevante de instituições como a Casa da Arquitetura ou a Fundação Marques da Silva, no Porto, têm vindo a adquirir.

(ARCHIVOZ) Por vezes ainda parecem existir alguns equívocos sobre o que é a arquitetura, um arquivo de arquitetura e um documento de arquitetura. Pode clarificar-nos, do ponto de vista conceptual, apresentando exemplos, esta questão, indicando-nos, também, qual o objetivo dos arquivos de arquitetura e quem são os produtores dos documentos de arquitetura?

(PTP) A arquitetura contém ambiguidades na circunscrição exata dos limites desses 3 conceitos. A obra construída é o produto fundamental da produção arquitetónica.

Sem colocar de parte o valor e a importância patrimonial e cadastral subjacente à edificação, é importante valorizar a relevância da fecundidade teórica da arquitetura. Este fator está diretamente relacionado com o debate crítico em torno dos documentos que servem de base à edificação – desenhos, esquissos, maquetas, textos, etc. Tudo isto alimenta um discurso, eu diria inesgotável e resiliente, desta disciplina milenar que reflete ao longo do tempo a consciência e a composição da sociedade, a inovação tecnológica e a transformação da paisagem. Ou seja, a obra construída necessita de um arquivo de memória, para que seja viva e para que cumpra na plenitude o seu papel e o seu compromisso público. Se a tríade – obra, documento, arquivo – não se alimentar mutuamente temos um empobrecimento que se vai refletir na própria consciência social sobre o valor do território que habitamos, situação que naturalmente se espelhará de seguida na própria economia.

(ARCHIVOZ) Coordenou no ISCTE o projeto de investigação “O Lugar do Discurso” dedicado à investigação sobre as publicações portuguesas especializadas em arquitetura ao longo do século XX. O que nos pode divulgar sobre os principais resultados e evidências deste projeto?

(PTP) O Lugar do Discurso permitiu tomar consciência da construção da crítica de arquitetura no século XX em Portugal. No início do século, ecoava o debate sobre a “Casa Portuguesa” em contraponto com as novas materialidades e figurinos internacionais, visíveis nas duas edições de referência de Nunes Colares – Construção Moderna e Arquitetura Portuguesa.  Depois, passámos para um tempo em que os industriais da cerâmica tomam as rédeas do debate, no final da década de 1930 – Júlio Martins e Tomás Colaço, na Arquitetura Portuguesa e Cerâmica e Edificação Reunidas, dão corpo a um discurso conservador, menos erudito, que se mistura com posições ideológicas face ao regime estadonovista. Posteriormente a consolidação de um corpo crítico na década de1950, na revista Arquitetura, com figuras como Nuno Portas e Carlos Duarte, ou na Binário protagonizada por Manuel Tainha. É interessante depois perceber os conflitos pós-modernistas, até aos incontornáveis números do JA – Jornal dos Arquitetos onde, nomeadamente, a direção de Manuel Graça Dias vai marcar toda uma linhagem de erudição e ligação do discurso às áreas da literatura e da cultura.

(ARCHIVOZ) É Investigador Responsável do projeto “Grandes Trabalhos – Transformações Arquitetónicas e Urbanísticas depois da Exposição Mundial de Lisboa de 1998”, financiando pela FCT. Pode dar-nos conta do ponto em que se encontra este projeto?

(PTP) Este projeto de investigação encontra-se em curso, e tem estado a funcionar como um poderoso instrumento de análise das transformações urbanas que ocorreram nos últimos 20 anos, após o “laboratório” da Expo98. Estudamos 3 escalas, a nacional a a regional e a local. A escala nacional, é estudada através dos programas POLIS em 28 cidades, intervencionadas com a interferência estratégica da Parque Expo – um programa de grande abrangência, bem-sucedido na maioria dos casos, que catalisou mudanças significativas em cidades como Leiria, Bragança, Viseu, Castelo Branco, etc. A nível local e regional a situação é mais complexa, verificando-se uma transformação significativa da cidade Lisboa, que foi expandindo, sobretudo na faixa ribeirinha, os mesmos conceitos urbanos do recinto da exposição, através de operações de espaço público e obras de arquitetura de referência. Esta situação contrasta com as incertezas associadas à área metropolitana, onde se verificam, vários territórios expectantes designadamente junto ao estuário do Tejo. Se por um lado um sentimento de progresso e cosmopolitismo granjeado pela Expo98 parece permanecer no ideário de alguns decisores públicos e investidores privados, como valor simbólico de progresso, o que é certo é que as demandas contemporâneas nos colocam novos cenários. Os valores ambientais e ecossistémicos emergem de modo incontornável, impondo toda uma nova consciência sobre o valor intrínseco destas áreas pós-industriais.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta a pergunta inicial, e a vasta currículo como Investigador Responsável e Coordenadora Científico de projetos nacionais, como é que vê o futuro dos arquivos de arquitetos e de arquitetura em Portugal, e quais é que entender serem os grandes desafios que os profissionais da informação (arquivistas) têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e comunicação da memória desses acervos?

(PTP) Os arquivos são no mundo contemporâneo instituições de grande importância e muito valorizadas. Numa altura em que as a revolução digital nos traz novos desafios e uma aceleração muito grande do tempo e espaço, assistimos também à guerra pela informação. O arquivo é em certa medida a base da própria revolução digital, associada à chamada economia 4.0, que está a promover todo um processo de organização social, fortemente acorado na relevância dos arquivos.

Esta situação, que por um lado pode comportar contornos negativos e perversos, por outro deve ser vista como uma forma democrática de resiliência em relação a narrativas pré-estabelecidas ou tratadas de forma superficial. No campo da arquitetura, há muito a fazer, há muito a estudar, há muito a comunicar.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos serviços de informação arquivística (arquivos), fazendo com que os seus responsáveis e colaboradores tivessem de se adaptar a novas metodologias e formas de trabalhar. Procurando fazer uma análise desta nova realidade, que começou em meados de março de 2020, pensa que, grosso modo, as instituições portuguesas que têm à sua responsabilidade arquivos de arquitetos e de arquitetura, foram capazes de se adaptar e responder eficazmente aos desafios e oportunidades surgidas?

(PTP) A crise sanitária colocou em evidência as lacunas que já existiam anteriormente. As dificuldades de funcionamento impostas pela pandemia tornaram-se menos possíveis de assimilar, expondo as instituições a dificuldades que antes podiam ser contornadas sem as limitações do confinamento. Por outro lado, deve também mencionar-se que a crise pandémica, evidenciou a uma grande capacidade de adaptação da sociedade, que na sua esfera privada, encontrou mecanismos para manter as instituições e as empresas em funcionamento – o que evidenciou o compromisso cívico por parte das pessoas em relação a valores coletivos.

Os problemas que se verificam, são em última análise estruturais. Temos capacidade técnica e recursos humanos disponíveis. Neste sentido, esperamos que o Plano de Recuperação e Resiliência, venha a colmatar as deficiências logísticas e de funcionamento dos arquivos, criando condições para investimentos estruturantes nesta área que como tentei explicitar, deve ser vista com importância no desenvolvimento de economia nacional.

(ARCHIVOZ) Finalmente, tanto quanto possível, gostaria que nos informasse sobre os seus projetos futuros, naturalmente indesligáveis dos arquivos, em termos de investigação, e do Dinâmia/CET, de que é Investigador Integrado.

(PTP) Neste momento aguardo os resultados de financiamento de dois projetos de investigação submetidos à FCT, que pretendem prolongar a investigação relacionada com o projeto dos “Grandes Trabalhos” que estamos a concluir. No campo dos projetos de arquitetura é, no entanto onde se verificam mais expectativas sobre o papel dos arquivos, visto que temos dois projetos em curso no centro histórico do Porto, considerado pela UNESCO como património da humanidade. Tem sido muito interessante descobrir todas as camadas de história inerentes aos locais de intervenção e ao edificado envolvente. Uma das intervenções em Miragaia, corresponde a parcela onde se descobriram vestígios do período romano, percebendo-se o acerto urbanístico do acerto da cidade decorrente do plano Almadino. A outra intervenção está integrada na cintura da antiga judiaria do Olival, próxima do Convento de São Bento da Vitória, também aqui se verifica um palimpsesto de várias camadas de tempo. Estes projetos, para além da sua dimensão arquitetónica e disciplinar, permitem percecionar os temas associados às políticas municipais de habitação, uma vez que se inscrevem nos programas de renda acessível desencadeados pela autarquia, também com o objetivo de controlar a crescente gentrificação que antes da pandemia, consumia sobretudo o centro da cidade.

Imagem cedida pelo entrevistado:
BALCK, Georges, (1813). Planta Redonda da cidade do Porto. Porto: Arquivo Municipal do Porto


Entrevista
realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Os novos desafios (dos arquivos) colocam maior pressão nos responsáveis e obrigatoriamente maior responsabilidade na tutela.”: Entrevista com Hermínia Vasconcelos Vilar

Entrevistámos Hermínia Vasconcelos Vilar, Professora Associada com agregação no Departamento de História da Universidade de Évora e Diretora do CIDEHUS – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora.

 

(ARCHIVOZ) Considerando o seu notável percurso científico, como historiadora, tem estado, de há muitos anos para cá, bastante próxima do mundo dos arquivos. Como é que foi o seu primeiro contacto com esta realidade, que retrato faz, em jeito de retrospetiva, dos mesmos nessa altura?

(Hermínia Vasconcelos Vilar)  Tal como refere desde cedo que a minha opção pela História Medieval me conduziu a recorrer a diferentes arquivos de norte a sul do país, dada a escassez de documentação publicada- situação que se mantêm ainda na atualidade – e a inexistência, nos primeiros tempos do meu percurso, de documentação disponível online. Essa experiência permitiu-me contactar com diferentes experiências arquivísticas ou melhor dizendo com arquivos em diferentes fases de organização e com diferentes modelos de acesso.

Devo dizer que tive boas e surpreendentes experiências em alguns arquivos locais que, já nas décadas de 80 e de 90 do século passado, tinham políticas de cuidadosa preservação e inventariação da documentação, em particular, da documentação medieval, já que é essa a que melhor conheço. Apesar das dificuldades e, muitas vezes, dos limites orçamentais e da escassez de funcionários com competências técnicas especificas com que esses arquivos se defrontavam e continuam a defrontar.

Situação que nem sempre se repetiu em alguns arquivos privados que tive oportunidade de consultar. Mas também a este nível têm sido realizados assinaláveis progressos, à medida que tem sido dada uma maior atenção por parte dos responsáveis pelos arquivos privados às políticas de inventariação e de conservação, e por parte dos investigadores e das próprias instituições públicas tem havido uma maior sensibilidade à necessidade de assegurarem a continuidade de muitos arquivos não incluídos, à partida, na órbita pública.

No entanto, muito há ainda a fazer neste campo.

(ARCHIVOZ) Na investigação que fez, subordinado ao tema “A vivência da morte na Estremadura portuguesa (1300 – 1500)”, no Mestrado de História Medieval da Universidade Nova de Lisboa, refere que, apesar do tema se ter revelado, “desde a primeira hora, atrativo e apaixonante, várias foram as dificuldades com que nos deparamos, ao longo da sua elaboração, e, muito especialmente, na sua fase inicial.” Importa-se de especificar a que dificuldades é que se refere, no que respeita ao universo documental existente, e as soluções que teve de desenvolver nesse sentido?

(HV) O levantamento de documentação para aquela que viria a ser a minha dissertação de mestrado iniciou-se na segunda metade dos anos 80 do século XX. Ou seja, há já mais de três décadas. De lá para cá muito mudou, em particular, como já referi na disponibilização de documentação online, tanto portuguesa como estrangeira, na organização arquivística bem como na publicação de documentos.

Devo, contudo, referir que muitas das dificuldades com que me deparei se mantêm e em alguns casos, devo confessar que se agravaram. E explico porque acho que se agravaram.

A minha recolha documental teve como base testamentos redigidos entre os séculos XIV e XV em localidades previamente escolhidas e tendo como base os arquivos de diferentes instituições religiosas preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Tinha na base um questionário então diretamente influenciado pela historiografia francesa e pela temática das atitudes perante a morte. O recurso aos testamentos como fonte base não era novidade na historiografia europeia dos anos 80, embora fosse questionada por muitos nas ilações que permitia, mas era uma relativa novidade em Portugal. Mas essa recolha implicou o manuseio de uma documentação numerosa e dispersa por vários maços, no interior dos quais eu procurava os testamentos, já que nem sempre a documentação oriunda das diferentes instituições religiosas estava inventariada até ao nível do documento.

Tenho dúvidas se uma heurística desta amplitude seria hoje possível em tempo útil. E não falo apenas das inevitáveis restrições que a pandemia implicou na maior parte dos arquivos, mas das dificuldades que rodeiam hoje o acesso à documentação. Dificuldades inerentes aos problemas de preservação da documentação por parte de arquivos cujos orçamentos nem sempre têm acompanhado as crescentes necessidades de conservação de uma documentação numerosa, diversificada nos seus suportes e logo nos cuidados que implica e que não cessa de crescer, colocando novos desafios às instituições.

(ARCHIVOZ) Entre o final de 2010 e 2012 foi a coordenadora científica do projeto financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, “O arquivo Histórico do Cabido da Sé de Évora: salvaguarda e difusão da informação”, no âmbito do programa de apoio a projetos de recuperação, tratamento e organização de acervos documentais. Este projeto teve como finalidade o levantamento, inventariação e seriação do acervo documental preservado no arquivo do Cabido da Sé de Évora. Pode dizer-nos quais foram os principais resultados e evidências deste projeto?

(HV) O Arquivo Histórico do Cabido da Sé de Évora é, sem dúvida, um dos mais importantes arquivos diocesanos portugueses em especial no que se refere ao período medieval. Alguns dos seus elementos são, sem dúvida, ímpares e permitem refletir sobre aspetos tão dispares como o processo de constituição das instituições diocesanas, o seu património, a composição sociológica do cabido, mas também sobre as preocupações com a preservação da memória documental de uma instituição como era o cabido de Évora.

Preservado no espaço, belíssimo e sempre impressionante, da Catedral de Évora, este arquivo foi objeto de inventariação, em particular, pelo Padre Carlos da Silva Tarouca que inventariou e publicou o resultado do seu labor.

No âmbito do concurso para Projectos de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais,  promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, foi candidatado e aprovado o projeto, intitulado Arquivo Histórico do Cabido da Sé de Évora: Salvaguarda e Difusão de Informação, apresentado pelo Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora (CIDEHUS-UÉ), em parceria com o Cabido da Sé de Évora e que contou com a participação de Fátima Farrica e Francisco Segurado sob a minha coordenação e contou ainda , na fase final, com os contributos de Lígia Duarte, Ana Caeiro e Liliana Silva.

Falamos de um universo documental que cobre um período cronológico que vai desde o século XII até meados do século XX e que compreende centenas de livros e várias dezenas de milhar de avulsos.

Entre outros resultados cabe realçar que este conjunto documental foi reorganizado tendo em linha de conta a identificação de fundos e subfundos documentais distintos, foram criados   quadros de classificação específicos para cada fundo, ou subfundo, identificado, foi elaborado um sistema único de cotação de todo o acervo e acondicionaram-se todas as peças em caixas de cartão acid-free. Foi elaborado um inventário geral bem como uma tabela de correspondência entre a classificação feita pelo Padre Carlos Tarouca e a atual.

Penso que o balanço dos resultados deste projeto é muito positivo.

(ARCHIVOZ) Há cerca de ano e meio que foi eleita diretora do CIDEHUS, Centro que inclui não apenas um grupo importante de arquivistas entre os seus investigadores como tem manifestado uma atenção especial ao mundo dos arquivos e contribuído para o desenvolvimento de instrumentos de busca e disseminação da informação. Qual pensa que poderá ser o papel do CIDEHUS neste campo?

(HV) O CIDEHUS assumiu, desde cedo, a área da arquivística e da Ciência da Informação como áreas prioritárias de trabalho e de investigação. É verdade que o fim da fileira de formação em Ciência da Informação na Universidade de Évora ditada pela A3es colocou novos desafios à sobrevivência desta área na Universidade e no CIDEHUS. Contudo, demonstrou-se que esta não se encontrava dependente da fileira de formação, mas tinha autonomia própria.

Da mesma forma, o CIDEHUS investiu desde cedo em desenvolver elementos de apoio à inventariação da documentação disponível em diferentes arquivos e na disponibilização desses mesmo inventários. A Fundis é um bom exemplo dessa política.

Também o CIDEHUSDIGITAL, (http://www.cidehusdigital.uevora.pt) enquanto portal agregador de dados é um exemplo prático desse mesmo interesse que a equipa de investigadores do CIDEHUS tem prosseguido.

Mais recentemente, o conjunto de entrevistas que Paulo Batista, investigador do CIDEHUS, tem levado a efeito com responsáveis de diferentes arquivos é também um exemplo da importância e do dinamismo deste grupo de investigadores e profissionais que integram o Centro. Penso que os próximos tempos trarão novidades a este nível, tanto ao nível de eventos como de desenvolvimento de novos projetos.

Cabe realçar que esta é uma área na qual o CIDEHUS pretende continuar a investir e a colocar no centro do seu programa científico.

(ARCHIVOZ) Na sequência da primeira questão, e considerando a extraordinária experiência que tem como investigadora responsável e coordenadora científica de projetos nacionais, além de ter integrado e coordenado projetos internacionais, como vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais pensa serem os grandes desafios que se deparam aos profissionais da informação?

(HV) Penso que os problemas que se colocam hoje aos profissionais da informação são, em alguns casos, aparentemente contínuos. Mas a estes juntam-se novos desafios, não apenas dependentes da conjuntura mais recente e marcada pela pandemia, mas ligados à velocidade e amplitude dos processos de circulação e apreensão da informação.

Um dos problemas está inevitavelmente ligado à suborçamentação, elemento comum a muitos dos arquivos públicos. Ligados ao Ministério da Cultura, sem dúvida que os arquivos não são os únicos “parentes pobres” de uma política com claros constrangimentos ao nível do financiamento da cultura e dos organismos que a ela estão ligados.

Mas a verdade é que os novos desafios que se colocam a estas instituições na preservação de um acervo crescente em dimensão e cada vez mais variado no que respeita aos materiais de suporte, na organização e na divulgação desse mesmo acervo, em articulação com as exigências colocadas ao nível europeu e por algumas plataformas de âmbito europeu, na necessidade de assegurar o rejuvenescimento dos recursos humanos disponíveis, colocam maior pressão nos responsáveis e obrigatoriamente maior responsabilidade na tutela.

Adicionalmente parece-me também crucial existir uma preocupação clara com a formação dos profissionais da informação. Formação que deve articular, como aliás tem vindo a ser feito, as universidades com as instituições e os profissionais “no terreno”.

Num período em que se desenha o novo programa quadro europeu: Horizonte Europa e, ao nível nacional, se discute o Plano de Recuperação e Resiliência, os arquivos e os seus profissionais não podem ser esquecidos. A importância dada à cultura e ao património bem como à formação no quadro europeu podem ser uma boa oportunidade.

Enquanto utilizadora, e é a esse nível que me coloco, penso que os próximos anos poderão trazer novas oportunidades. Mas para tal é necessário que haja participação e interesse das várias partes em presença.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo um balanço desta nova realidade, que se faz sentir desde meados de março de 2020, entende que, em linhas genéricas, os arquivos portugueses foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(HV) Sem dúvida que, tal como outras instituições, os arquivos tentaram adaptar-se assegurando o seu funcionamento e o contacto com o público quando possível.

No quadro dos dois confinamentos que já conhecemos a disponibilização da informação por via digital tornou-se ainda mais importante e imprescindível para que o trabalho de muitos investigadores não fosse interrompido e o cumprimento de datas de entregas de provas académicas não fosse, por completo, posto em causa.

(ARCHIVOZ) Por último, caso seja possível, gostaria que nos desse conta dos seus projetos futuros, naturalmente indesligáveis dos arquivos, em termos de investigação, e do CIDEHUS.UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, de que é diretora.

(HV) Na sequência do que já realcei acima é objetivo do CIDEHUS apoiar e reforçar a investigação e os profissionais desta área que integram o Centro. Penso que os próximos tempos poderão trazer alguns desenvolvimentos nesta área.

A título individual tenho um conjunto de investigações em curso e que passam pela recolha e análise de fontes documentais, base imprescindível para a investigação em História. Entre esses projetos destaco a publicação da documentação medieval do Arquivo Histórico Municipal de Évora que gostaria de realizar em conjunto com outros investigadores e com o apoio e a concordância do Arquivo Distrital de Évora, onde esta documentação se encontra, e da Câmara Municipal de Évora. Estas duas instituições e o Dr. Jorge Janeiro, diretor do Arquivo Distrital em particular, têm sido incansáveis defensores da qualidade deste arquivo.

Por último permitam-me um desabafo de alguém que tem a História como objeto de trabalho há mais de 30 anos.

Mais do que nunca o trabalho e a investigação histórica são importantes, embora nem sempre a sociedade e os responsáveis políticos o reconheçam. Em particular num quadro de emergência imediata como é este tempo em que vivemos, no quadro do qual os problemas tanto ao nível sanitário como económico tomam proporções inimagináveis apenas há alguns meses atrás.

Mas de novo ou talvez de forma contínua, vemos a História ser chamada a legitimar posições, a fundamentar opiniões, a reforçar o politicamente correto ou tão só discursos de manipulação política. Vemos a História ser mudada ou reescrita, condicionada pelo poder político em diferentes partes do mundo.

Mais do nunca o percurso da investigação, da análise e do discurso histórico é estreito e sinuoso.

Mas mais do nunca ele é necessário, mesmo que nem sempre bem-vindo, porque critico e reflexivo.

E na construção dessa reflexão fundamentada os arquivos assumem um papel central.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“Ensinar pelo exemplo e gerir responsavelmente o que é ‘de todos/as e para todos/as’, agregando valor e conquistando novos espaços para a Ciência da Informação”: Entrevista com Cristina Freitas

Entrevistámos Cristina Freitas, Professora Auxiliar do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Universidade de Coimbra, que atualmente é Diretora do Arquivo da Universidade de Coimbra e do respetivo Mestrado em Ciência da Informação.

 

(ARCHIVOZ) O seu CV é extraordinário e muito heterogéneo, quer do ponto de vista académico, que culminou no doutoramento em Biblioteconomia e Documentação, pela Universidade de Salamanca, em Espanha, à sua experiência de docência no Ensino Superior, mas também no trabalho que tem desenvolvido em inúmeros projetos e à vasta obra que tem publicada. Fale-nos um pouco do seu percurso formativo e profissional até chegar a Diretora do 2º Ciclo em Ciência da Informação, e subdiretora do respetivo Doutoramento, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e a Diretora do Arquivo desta mesma Universidade, cargos que desempenha na atualidade.

(Cristina Freitas) Agradecendo, naturalmente, a apreciação muito positiva que faz do meu CV, pondero que o meu percurso profissional foi visionado sempre numa perspetiva de tentar realizar uma leitura correta do contexto e de aproveitar as oportunidades que me iam surgindo. Foi, por isso, construído com muito trabalho e com o sentido assente no dever de colaboração com colegas e pares, visando o crescimento mútuo.

Quanto ao meu perfil eclético, devo dizer, primeiramente, que já no “Ginásio” eu demonstrava um claro interesse por três áreas aparentemente diferentes do conhecimento: História, Biologia e Matemática. No ensino superior, iria concretizar a Graduação em História, área com a qual trabalhei, diretamente, durante 10 anos, no Ensino Politécnico Federal Brasileiro, e a partir da qual pude erguer e sustentar, inclusivamente do ponto de vista financeiro, todos os meus percursos e projetos posteriores de formação. Desde então, os meus interesses permaneceram diversificados. Eu sempre tive uma muito boa capacidade para integrar a informação e a História contribuiu para o incremento dessa minha competência. Os cursos que escolhi e concluí vieram de uma necessidade de melhorar continuamente os conhecimentos que eu detinha, com vista a solidificar a minha posição e o meu papel como a profissional da área que, na minha visão de futuro, eu pretendia ser. Em segundo lugar, devo dizer que eu sempre gostei de estudar. Se entrevistasse os professores e as professoras que influenciaram a minha vida, desde a Escola Primária, a quem eu inclusivamente dediquei a minha tese de doutoramento, creio que a meu favor diriam que eu sempre fui muito estudiosa. De facto, eu sempre gostei de estudar e de aprender, fosse o que fosse. O mestrado e o doutoramento vieram, é verdade, da necessidade de um posicionamento na carreira, mas esta não foi a razão pela qual eu iniciei e concluí, com muitos constrangimentos e sacrifícios pessoais e profissionais, ambos os percursos. O verdadeiro leitmotiv foi aprofundar-me nos assuntos que realmente me interessavam (e que ainda interessam!).

A minha chegada à Universidade de Coimbra, para lecionar num curso que me acolheu, em 2010, pelas mãos de pessoas que acreditaram e que apostaram na minha contratação, tendo sido eu a segunda doutorada da área da Ciência da Informação a assumir a lecionação e a orientação de estudantes, naquele momento (a primeira, naturalmente, foi a Prof. Doutora Maria Manuel Borges, que me fez o convite para integrar o grupo), representou o início do culminar de várias situações na minha carreira e na minha vida. Certamente, por isso, vejo com muita humildade e com muita gratidão o facto de ter sido indigitada para os cargos e para as funções que assumi recentemente, e que serão, como tudo, momentâneos e passageiros. O seu exercício diário apenas reforça em mim o sentido do dever a cumprir e a consciência da necessidade de ensinar pelo exemplo e de gerir o que é “de todos/as e para todos/as” com parcimónia e com responsabilidade, agregando valor e conquistando novos espaços de interlocução para a de Ciência da Informação. Por isso, quando fui chamada para o exercício dessas funções, ponderei, mas não hesitei. Adiei alguns dos projetos profissionais individuais que possuía e decidi sair, uma vez mais, da minha zona de conforto. Talvez, por isso, o que espero obter no fim desses percursos seja uma pergunta inevitável. Para além de fazer alguma diferença, espero, muito sinceramente, que ao deixar os lugares que ocupei, possa retornar ao meu “habitat original” e desempenhar as funções que me forem confiadas, com a mesma alegria e sentido de missão com que procurarei responder ao que me estiver, no futuro, ainda reservado.

(ARCHIVOZ) O Arquivo da Universidade de Coimbra possui um notável acervo. Quais são os principais fundos e coleções que o compõem e os instrumentos de acesso à informação, com vista à comunicação dos mesmos? O que o distingue dos outros arquivos?

(CF) Eu diria que, “grosso modo”, o Arquivo da Universidade de Coimbra possui aproximadamente 10 Km de documentação, distribuídos por mais de meio milhar de fundos, com dimensões e suportes diferenciados e, ainda, com uma componente distintiva, que penso não ser do conhecimento geral: somos, ao mesmo tempo, um Arquivo Universitário e um Arquivo Distrital. Recorrendo a uma linguagem clássica e “jenkinsoniana”, ambas as valências nos foram conferidas – mas não só – graças à proveniência dos fundos e das coleções que custodiamos ao longo dos tempos. Evidentemente, e a meu parecer, o nosso fundo mais relevante e marcante será o que se constitui em torno da documentação produzida e acumulada pela própria Universidade de Coimbra, no decorrer dos seus muito bem cumpridos 731 anos de vida e de história. No exercício desta sua valência universitária, o Arquivo da Universidade recebe uma muito boa média de solicitações internas e externas, diárias e semanais, bem como de pedidos de reprodução de partes do seu riquíssimo acervo, para fins diversos. No que respeita à valência distrital, toda a documentação proveniente das Paróquias, dos Cartórios e dos Notários, que ao fim de certa “idade”, por invocar um termo schellenberguiano”, vai sendo incorporada nos depósitos do Arquivo da Universidade, é de grande relevância para as pessoas que sistematicamente recorrem aos nossos serviços, no exercício dos seus direitos e/ou no cumprimento das suas obrigações cidadãs para com o Estado português.

Relativamente aos nossos instrumentos de pesquisa de informação, a meu parecer, refletem a própria história e constituição do Arquivo da Universidade, e o labor minucioso dos/das seus/suas profissionais, pelo menos em dois momentos.

Num primeiro momento, deu-se na sua fase convencional, ou seja, antes do advento das ferramentas tecnológicas. Desta primeira fase, herdamos, sobretudo, mas não só, os índices que se encontram redigidos ou datilografados em fichas que na altura foram consideradas apropriadas para o efeito. Para além destes instrumentos, o Arquivo também possui um guia dos seus fundos e diversos outros inventários e/ou catálogos, totais ou parciais, produzidos em suporte papel e disponíveis à consulta interna na Sala do Catálogo e/ou na Sala de Leitura. Presentemente, dada a oportunidade oferecida pela organização das tarefas em teletrabalho, alguns desses instrumentos estão a ser objeto de conversão para o meio digital.

Num segundo momento, o Arquivo da Universidade passou a investir na aquisição de ferramentas tecnológicas, daí resultando a constituição do seu catálogo online, no qual são registadas e publicadas constantemente as representações normalizadas dos seus fundos e respetivos subníveis hierárquicos de informação, aos quais se associam as imagens digitais dos documentos representados. Uma das nossas linhas de ação passa inegavelmente pelo incremento e pela melhoria desse processo, com a divulgação em bloco de novas descrições associadas às imagens digitais que lhes correspondam, para, deste modo, atingir a partilha do conhecimento e o acesso à informação, contribuindo, pela nossa parte, com a democratização da ciência e com o acesso aberto. Eu espero, sinceramente, que, no futuro, todo este nosso esforço seja devidamente reconhecido.

(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Diretora do Arquivo da Universidade de Coimbra, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(CF) No Arquivo da Universidade, pesem os constrangimentos, temos procurado responder com eficácia aos correntes desafios. Diante de nós, desenhou-se um cenário turbulento, que obrigou a uma constante reengenharia de processos, alterando os procedimentos e a oferta de serviços, num curto ou curtíssimo espaço de tempo (em alguns casos, de 24 horas ou menos). Tudo isso, num primeiro momento, fez-me recordar os cenários que descortinei, na minha tese de doutoramento, que tinham como processo social básico a “mudança” ou o seu contrário: a resistência (à mudança). Recordei-me, por exemplo, dos depoimentos que recolhi da literatura científica, que revelavam o modo como os/as profissionais de arquivo reagiram quando foram surpreendidos pelos documentos eletrónicos… sobre como se sentiram ameaçados pelo caráter inevitável e irreversível das mudanças que se avizinhavam, ou sobre como, e quando, deixaram de oferecer resistência e assimilaram a mudança, encarando-a como um meio para atingir um fim: continuar a desempenhar, com eficácia e eficiência, o seu papel na sociedade. Resguardadas as diferenças, neste novo cenário distópico, provocado pela aventura de um vírus, que se desloca silenciosamente entre nós, obrigando-nos ao confinamento como meio de proteção e de prevenção, urgia encarar o momento como uma oportunidade, não como uma ameaça. No Arquivo da Universidade, procuramos encetar ações concretas no sentido de: a) proteger as pessoas (utilizadores/as e colaboradores/as) e garantir o seu acesso aos meios e aos recursos que lhes permitissem prosseguir, dentro e fora do espaço físico do Arquivo, com o seu trabalho diário; b) manter a ligação entre o corpo técnico e a direção, consolidando rotinas e processos de trabalho, no período de confinamento, valendo-nos, nesse intento, das ferramentas tecnológicas disponíveis; c) prosseguir, tanto quanto possível, com os serviços de informação e de atendimento dos/as utilizadores/as, concentrando os esforços nas plataformas online e privilegiando as formas virtuais de contacto, em detrimento das formas presenciais, que tiveram de ser interrompidas ou limitadas em diversos e prolongados momentos; d)  reforçar os meios de comunicação/divulgação virtual.

Volvidos 11 meses, devo dizer que todo esse esforço adaptativo foi sendo conquistado pelo Arquivo da Universidade, graças ao apoio e ao empenhamento inegável dos seus trabalhadores e trabalhadoras, que dada a gravidade do momento, não hesitaram em colaborar, para que as dificuldades fossem ultrapassadas e os trabalhos fossem realizados, mitigando os impactos negativos das medidas adotadas. Os relatos que tenho tido a oportunidade de conhecer de outros casos e realidades, revelam que esse esforço exemplar terá ocorrido um pouco por todo o lado, nas instituições congêneres, não sendo, pois, um ato isolado do Arquivo da Universidade.

(ARCHIVOZ) Considerando a sua significativa experiência como docente em Ciência da Informação (CI), sendo que é Professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leciona disciplinas do currículo dos três ciclos de estudos em CI, a que se junta a orientação e arguição de inúmeras dissertações de mestrado, teses de doutoramento e estágios extracurriculares, quais pensa serem as tendências atuais de investigação em CI em Portugal e as que importa desenvolver?

(CF) Seguindo por uma linha de continuidade com a questão anterior, e por força dos constrangimentos mundiais que todos/as conhecemos, a meu parecer, uma das fortes tendências de investigação, atualmente, é a COVID-19 e os seus impactos nas instituições de informação, como sejam: arquivos, bibliotecas, museus, etc. Creio que este ainda será um tema que permanecerá na ordem do dia por algum tempo, até porque, ainda nos encontramos sob a influência e o curso desses fenómenos, o que dificulta a realização de análises mais completas, que terão de ser realizadas a posteriori. De igual modo, verificamos a persistência de temas já conhecidos da agenda da Ciência da Informação, nos últimos 30 anos, e que continuarão a estar presentes, julgo eu, nos próximos anos. Refiro-me, por exemplo, às questões que mais recentemente atendem pelos termos transição digital ou transformação digital e que, no passado, identificavam-se com a modernização tecnológica e com a emergência e o papel do profissional da informação nesse âmbito. Também vejo como certa a ampliação dos debates em torno da sustentabilidade da profissão e dos novos papeis a assumir pelos profissionais de informação, homens e mulheres, no âmbito da pós-verdade, das fake news, da infodemia e das novas realidades distópicas à volta das supostas sociedades da informação e do conhecimento. Qual é o papel a desempenhar por cada um de nós nesses novos e caóticos universos informacionais? Ainda, num outro nível de granularidade, creio que assistiremos o aprofundar dos estudos em torno dos sistemas e das estruturas de organização do conhecimento – com um evidente destaque para as ontologias e as taxonomias aplicáveis aos conteúdos disponibilizados online – , bem como as questões que envolvem a utilização e a reutilização dos dados, com a sua consequente divulgação na comunidade, algo que de momento se nos afigura como fundamental para a construção e a democratização da ciência. Naturalmente, não é – e não creio que será – de menosprezar, o papel que a Ciência da Informação e que os/as profissionais de informação terão de desempenhar nesses entornos.

(ARCHIVOZ) Desde 2014, que se encontra ligada ao Projeto que visa a produção de um plano de classificação da informação arquivística comum para as Instituições de Ensino Superior Portuguesas, conforme à Macroestrutura Funcional, desenvolvido em colaboração com a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. O que nos pode dizer dos objetivos, resultados e intento futuro deste projeto?

(CF) Este, para mim, foi um dos projetos mais interessantes de que participei. Poderia estar aqui a descrever, em muito mais do que uma página, um pouco de toda a riquíssima experiência adquirida na minha relação com este projeto e com as pessoas nele envolvidas, mas creio que mesmo que fosse bem-sucedida a relatar os factos, não faria a devida justiça a todo o processo construtivo e coletivo experienciado ao nível dos Grupos de Trabalho constituídos. O projeto, na verdade, desdobrava-se em duas vertentes: por um lado, visava encontrar soluções comuns para o passivo documental acumulado pelas instituições cooperantes e que deveria ser objeto de decisões de avaliação com incidência retrospetiva; por outro, pretendia-se olhar para o presente e para o futuro da documentação produzida e acumulada diariamente nestas mesmas instituições cooperantes, com vista a encontrar, coletivamente, soluções prospetivas e que resultassem benéficas para a sua classificação e avaliação. O resultado mais visível do projeto foi a produção, por um lado, de um Relatório de Avaliação da Documentação Acumulada (RADA), em vigor e em aplicação pelas diversas entidades do país, desde 2016; por outro lado, espera-se, para este ano de 2021, a aprovação e a consequente publicação do Regime Jurídico da Classificação e Avaliação da Informação Arquivística (RJCAIA), dispositivo que irá sintetizar e consolidar, na prática, todo o esforço coletivo de anos de trabalho e de conhecimento incorporado e partilhado pelos diversos GT envolvidos na sua construção e diretamente coordenados pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB). Trata-se, pois, de ferramentas técnicas conectadas com uma realidade permeada pela necessidade de obter uma necessária interoperabilidade, ao nível semântico e de sistemas, com uma evidente importância para a comunidade arquivística, por um lado, e para a administração pública portuguesa, por outro, com a clara vantagem de que foram conquistadas por um coletivo, dentro de um espírito de partilha de informação e de conhecimento, o que as legitima.

(ARCHIVOZ) É membro doutorado integrado do Centro de Investigação CEIS20 (Universidade de Coimbra), do Grupo ARBIDOC (Universidad de León) e do Grupo Teresa Andrés (Universidad de Salamanca). O que nos pode dizer, tanto quanto possível, dos projetos em que se encontra envolvida?

(CF) O CEIS20 é o meu centro de investigação principal. Toda a minha produção científica, bem como a produção científica de vários dos doutorandos e doutorandas do Curso de Doutoramento em Ciência da Informação da Universidade de Coimbra, naturalmente, contabilizam a favor deste Centro. Para além disso, anualmente, são organizadas atividades de investigação (e.g., Summer Schools, Jornadas dos Estudantes de Doutoramento em Ciência da Informação) das quais tenho participado e com as quais tenho colaborado. Pelo mesmo motivo, procuro participar dos encontros científicos promovidos pelo próprio CEIS20, para dar a conhecer a investigação e os investigadores e investigadoras do Centro, bem como os seus potenciais interesses de investigação. Quanto aos projetos, no passado recente, submetemos duas propostas na área da organização da informação em arquivos, à FCT, sem, contudo, termos obtido um parecer favorável ao seu financiamento. Outros projetos sem a participação de agências de fomento têm sido alvo de consultorias nossas. O meu envolvimento no CEIS20 é, pois, sensivelmente, na qualidade de membro integrado e ativo, e é dentro deste enquadramento que tenho procurado levar o bom nome do Centro, quer nos vários encontros científicos de que participo, quer nas publicações que assino.

O meu envolvimento com o grupo ARBIDOC, sediado na Universidade de León, vem de uma excelente parceria que eu e a minha colega e amiga, a Prof. Doutora Maria da Graça Simões, firmamos, desde o nosso doutoramento, com a Prof. Doutora Blanca Rodríguez Bravo, e que resultaram em algumas publicações em colaboração, e também da minha especialidade no estudo de temas que são do interesse desse grupo, nomeadamente, no âmbito da Organização de Conteúdos Digitais. Mais recentemente, fui convidada a integrar o Grupo Teresa Andrés, da Universidade de Salamanca, pelo Prof. Doutor José António Frías, dada a minha estreita afinidade e, sobretudo, ao meu percurso de investigação naquela Universidade, onde concluí, há 11 anos, o meu doutoramento. Neste último caso, devo dizer que a minha participação não tem sido tão efetiva.

(ARCHIVOZ) Por último, quais são os principais desafios e oportunidades que se colocam aos profissionais da informação na atualidade?

(CF) Nós temos muitos desafios e muitas oportunidades à nossa frente. As tecnologias de informação e comunicação seguirão o seu processo irreversível e incontornável de mudar as diferentes formas de agir, de pensar e de perceber a sociedade. Por isso, teremos de prosseguir com a nossas atitudes proativas (no sentido de não reativas) e pós-custodiais (no sentido genuíno do termo, ou seja, transpor, sem negar, as medidas custodiais), na busca por alternativas que nos façam ultrapassar as ameaças e os constrangimentos do momento, transformando-os em oportunidades produtivas. Terá sido assim no passado recente e creio que será esse o desafio a enfrentar, num futuro próximo. Aprender pela observação e pela experimentação foi, e será, muito importante nos contextos que se desenham hoje e que provavelmente desenhar-se-ão no futuro.

Diante de um tal panorama, creio que uma possível resposta passará pela formação e pela qualificação constante desses/dessas profissionais de informação. Uma sociedade que se pretende realmente como do conhecimento não pode ignorar o papel que a boa e correta leitura do contexto desempenha na produção e na partilha do próprio conhecimento. A meu parecer, o desenvolvimento de habilidades e de competências consideradas transversais será também algo a não perder de vista no exercício da nossa profissão. Presentemente, e graças aos nossos avanços no terreno normativo, dialogamos mais e melhor com outras áreas do conhecimento, e julgo que será preciso manter esta vocação multi-inter-disciplinar da Ciência da Informação, no futuro, pelo que  lançar mão de competências que nos habilitem à leitura correta do contexto, que incrementem a nossa capacidade de integração e de interpretação da informação, aliadas a posturas profissionais conectadas com a aprendizagem ao longo da vida e com atitudes sistemáticas e proativas que facilitem a assimilação da mudança, preservando o  conhecimento acumulado e os valores e as posturas essenciais que enformam a profissão, parecem-me ser cruciais para a nossa sustentabilidade e dos nossos serviços, no futuro.

Terminarei, com um conselho que ofereço frequentemente aos/às estudantes e que procuro aplicar na minha vida profissional: teremos de ser suficientemente generalistas, para perceber globalmente o meio em que nos inserimos, e adequadamente especialistas, para pensar e agir localmente, nos ecossistemas informacionais, buscando e encontrando novas soluções, ainda que sejam para resolver velhos problemas. Vejo esta como uma atitude ecológica.

Na viragem do atual milénio, ao analisar a “animalidade” e a “humanidade do conhecimento”, Edgar Morin, um pensador que eu admiro, não tanto pela longevidade, mas, principalmente, pela assertividade e atualidade das suas ideias, nos falava de um Ser Humano que computa o suficiente para compreender o meio e que cogita ao máximo para solucionar os problemas que identifica nesse meio. Analiso o futuro da profissão a partir desta relação entre o computar e o cogitar, permeada por uma outra relação de igual importância, que é a que se estabelece entre informação e conhecimento… onde uma (a informação) termina, o outro (o conhecimento) principia. Julgo que será interessante ver como essas forças irão mover-se e mover-nos daqui por diante.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“A experiência mostrou que devemos incluir questões emergentes do setor privado em relação aos seus arquivos”: Entrevista com Cecília Machado Coordenadora do Curso Técnico em Museologia da ETEC Parque da Juventude

Entrevistamos a Historiadora e Museóloga Cecília de Lourdes Machado Fernandes que nos conta sobre a sua trajetória e participação na institucionalização do Curso Técnico em Arquivo, que pela primeira vez é oferecido como um dos cursos de ensino profissional público e gratuito, nas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) do Centro Paula Souza (CPS) em São Paulo (Brasil). 

(Archivoz) Uma breve apresentação da sua trajetória.

(Cecília Machado) Sou Historiadora formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, e Museóloga pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, FESP-SP. Trabalhei como profissional em diversas instituições públicas e privadas e tive oportunidade de atuar tanto em museus quanto em arquivos. Destaco do meu percurso o período em que me dediquei à Gestão de Museus do Interior do Estado de São Paulo, entre 1994 e 1998, pelo Departamento de Museus e Arquivo da Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo. Implantei instituições museológicas ao longo da minha trajetória e coordeno o Curso Técnico de Museologia do Centro Paula Souza desde 2007. Fui diretora do Sistema Estadual de Museus entre 2008 e 2013, período em que foi reestruturada a Secretaria de Estado de Cultura e junto ao Instituto Brasileiro de Museus colaboramos para a institucionalização da política Nacional de Museus, que até hoje é responsável pelas políticas públicas nacionais para a área. Atualmente, opero no desenvolvimento de Gestão de Museus e Centros de Memória, elaboro e acompanho o desenvolvimento de Planos Museológicos, predominantemente no Estado de São Paulo, mas com algumas ocorrências em outros Estados e países.

Desde o início da minha carreira a ação junto aos arquivos históricos foi muito intensa. Trabalhei no Arquivo Público do Estado de São Paulo, AESP-SP, onde fiz parte da equipe que recebeu a custódia permanente dos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, DEOPS-SP, os quais revelam a repressão política imposta pela ditadura militar no Brasil (1964-1985), e fui também responsável pela área de eventos e exposições. Desde 2012, tenho trabalhado diretamente com a implantação de Centros de Memória e na formação de equipes multidisciplinares compostas por arquivistas, museólogos e bibliotecários, no sentido de tornar tais instituições com fins de preservação, pesquisa e difusão de patrimônio, espaços híbridos e multidisciplinares. Sempre vi nos arquivos espaços e acervos a serviço da pesquisa e, portanto, com grande potencial de difusão e transformação social por meio de seus conteúdos. A vocação principal dos museus, bibliotecas e arquivos para mim é a sua inequívoca potencialidade como mediador de inclusão e reflexão social. Trabalho sempre com essa perspectiva.

(Archivoz) Como se deu o projeto do Curso Técnico em Arquivos?

(CM) Desde 2008, uma equipe formada por mim, pela minha então coordenadora pedagógica, a arquiteta Fernanda Martins, pela museóloga Juliana Monteiro e pelo historiador e arquivista Gabriel Moore, imaginava ter na Escola Técnica “Parque da Juventude”, em São Paulo, um núcleo de cursos formadores de profissionais técnicos para as “Três Marias” [termo comumente utilizado para designar as áreas de Arquivologia, Biblioteconomia e Museologia]. Demos início a esse projeto e chamamos a Profa. Dra. Ana Maria Camargo (Universidade de São Paulo) e a Profa. Dra. Telma Campanha (Universidade Estadual de São Paulo), dentre outros, para estruturarmos tais cursos técnicos. O Curso Técnico de Museologia se efetivou, mas os outros dois foram adiados e retomados posteriormente. Em 2017, o Arquivo Público do Estado de São Paulo, AESP, sabendo da existência do projeto formatado para a instalação de um curso técnico em arquivo, incentivou a recobrada de estudos sobre a questão e a formação de um grupo que o reestruturasse.

Formou-se uma equipe com membros representantes do AESP, do Centro Paula Souza, que no caso era representado por dois profissionais sensíveis em relação aos arquivos [eu e Juliana Monteiro] e mais duas pessoas da gerência administrativa, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e do Instituto do Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. O Curso foi formatado principalmente por agentes do Arquivo Público do Estado que acabaram por imprimir no plano de ensino características e necessidades da administração pública para com seus arquivos. Fato que nesse momento vimos tentando alterar com uma proposta de reestruturação do Curso, tendo em conta as atuais demandas do mercado e as aspirações do aluno.

(Archivoz) Como foram as experiências com as primeiras turmas?

(CM) Como dito anteriormente, o Curso foi muito mais desenhado para atender às demandas do setor público. Acabou por não agradar a nós profissionais educadores e envolvidos com a sua realização de maneira mais direta, uma vez que sendo um curso técnico almejávamos que esse estudante se inserisse no mercado de trabalho de maneira mais imediata. Acabou por não agradar aos alunos, pois também era sentida por parte deles a falta de oferta de vagas de trabalho. Via-se que com a formação que estava sendo dada, poucos conseguiam atuar em instituições híbridas – como são os centros de memória, que possuem coleções e fundos – em arquivos de empresas, pessoais ou com acervos especiais. Hoje já pensamos diferente e buscamos agir de maneira rápida nesses dois anos do Curso. A experiência mostrou que devemos incluir questões emergentes do setor privado em relação aos seus arquivos, tanto quanto discutir aspectos de acervos especiais e híbridos.

(Archivoz) Quais os resultados alcançados apesar das dificuldades apresentadas?

(CM) Estamos em 2021 e o Curso foi implantando em 2018. Acredito que em dois anos completos os resultados já são bastante sensíveis. Sentimos efeitos na vivência desse professor e desse aluno. Destaco que em relação ao professor, sendo o primeiro Curso Técnico em Arquivo, esse profissional que estava acostumado a trabalhar diretamente com os arquivos ou dar aulas para alunos de curso superior teve que adaptar ou desenvolver uma didática apropriada para um jovem de ensino médio, ainda que as turmas sejam bem heterogêneas em termos de perfil e idade. Igualmente, fez com que esse professor refletisse sobre as necessidades do mercado privado e sobre a teorização da Arquivologia no Brasil, que ainda é muito baseada nas experiências do setor público. Esse professor logrou buscar literatura que se respaldasse na aplicação de princípios e conceitos da Arquivologia a conjuntos documentais de natureza privada, pessoal e especial.

Todos nós profissionais da área de patrimônio devemos atuar de forma conjunta e respeitosa para resistirmos aos temporais que nos afligem. Click To Tweet

Por outro lado, os egressos do Curso Técnico em Arquivo têm sido mais bem preparados para serem assimilados pelo mercado à medida que surgem vagas. Muitas instituições já reconhecem o Curso como pioneiro e exemplar, ainda que enfrentemos questões de evasão, de disputas de interesses em torno do Curso e relativas a falta de parcerias institucionais.

(Archivoz) O que percebe de mudança quando o aluno entra e saí do curso?

(CM) Os alunos falam por si e adaptam o que aprendem às suas realidades. Com isso muitos passam a atuar com perspectivas mais amplas do que aquelas de quando ingressaram no Curso. Penso que devemos fazer em um futuro próximo um levantamento mais aprofundado em relação ao aluno egresso, o que responderia a inúmeras perguntas que ainda fazemos em relação à atual formação, lembrando que o Curso tem apenas 2 anos e formamos três turmas. Acredito que o aluno deve continuar a sua formação e suas reflexões em relação às matrizes oferecidas.

(Archivoz) Tendo atuado na área de museus, quais experiências levou para a dinâmica do curso de técnico de arquivos?

(CM) Como já expus anteriormente, o patrimônio para mim é um campo de ação multidisciplinar e, portanto, museólogos, historiadores, arquitetos, arquivistas, filósofos, antropólogos, sociólogos, bibliotecários, artistas plásticos e gestores atuam cada qual dentro de suas competências de maneira a salvaguardar, pesquisar e difundir isso que, para nós no Brasil, é tão caro e tão desprestigiado que é a nossa memória material e imaterial. Todos nós profissionais da área de patrimônio devemos atuar de forma conjunta e respeitosa para resistirmos aos temporais que nos afligem.


Entrevista
realizada por: Simone Fernandes

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“Considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada”: Entrevista com o Professor Armando Malheiro da Silva

Entrevistámos Armando Malheiro da Silva, Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Docente da Licenciatura em Ciência da Informação e do Programa Doutoral Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, de cuja Comissão Científica  é membro Coordenador do Grupo Cultura Digital do CITCEM

(Archivoz) Iniciou a sua carreira como historiador, nomeadamente em torno da figura de Sidónio Pais nos alvores do Republicanismo em Portugal. Quando se deu o ponto de viragem para a investigação científica em torno dos arquivos?

(Armando Malheiro) Em rigor, minha atividade profissional, enquanto ainda estudante universitário, iniciou-se em 1978, como professor do ensino secundário e, em 1982, concluído meu curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (simultaneamente concluíra as Licenciaturas em História e em Filosofia), fui Responsável da Biblioteca Municipal de Barcelos e, pouco tempo depois, convidado para Técnico Superior do Arquivo Distrital de Braga – Unidade Cultural da Universidade do Minho. Por vicissitudes burocráticas, acabei acumulando funções de arquivista e de docente universitário, o que me levou a desenvolver investigação em História, para efeitos de progressão na carreira académica e funções técnicas e de docência em Arquivística. Portanto, a minha experiência foi desde cedo algo “múltipla”, agindo como historiador/investigador e como arquivista, papéis conflitantes naquela época e ainda hoje não são facilmente harmoniosos e compatíveis.

(Archivoz) O “salto” de um paradigma custodial para um novo paradigma científico-informacional, ou seja, das ciências documentais para a ciência da Informação foi um marco que hoje constitui numa nova visão da disciplina e do perfil do profissional da informação. Pode aprofundar um pouco este tema?

(AM) A identificação e a formulação de paradigmas, na área profissional e disciplinar das denominadas Ciências Documentais (Arquivística, Biblioteconomia e Documentação), foram devedoras da minha experiência profissional e de vida e tornaram-se necessárias depois de dez anos em que lecionei Arquivologia com o meu colega e amigo Dr. Júlio Ramos, Técnico Superior,  aposentado do Arquivo Geral da Universidade de Coimbra, no antigo Curso de Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 1990 a 2000. O estágio que fiz, em 1990, na École National des Chartes (Sorbonne, Paris), foi também influente no processo de reflexão sobre os pressupostos filosóficos, modelos teóricos, conceitos operatórios e outros elementos que, por via da formação superior e especializada e por força da atividade in locu, moldaram a mentalidade, o modo de ver, de pensar e de agir dos arquivistas, bibliotecários e museólogos vindos desde, pelo menos, a segunda metade do séc. XIX. Ao refletir sobre isto e com o passar do tempo, já com os paradigmas (inicialmente dois: o custodial e o pós-custodial) fixados, ao reler a conferência de Umberto Eco A Biblioteca (1980) e ao recordar o enredo de O Nome da Rosa (1980), percebi que a genialidade do académico e escritor italiano tinham conseguido capturar a essência do paradigma custodial, que marcou a fase sincrética ou pré-Ciência da Informação dos profissionais das Bibliotecas, Arquivos e Museus.  Estas instituições culturais ou “lugares de memória”, como os designou Pierre Nora, foram uma invenção da Modernidade , desde o dealbar da Era Digital ou Era da Informação, estão a sofrer um impacto profundo da revolução tecnológica em curso, transversal a todas as dimensões da vida humana e social, e, por isso, a formação dos respetivos profissionais tinha de ser alterada, e vem sendo, só que, genericamente, em dois sentidos extremos e paradoxais, com consequências perversas: a adaptação à mudança sem abandonar a vertente mais tecnicista e culturalista do paradigma custodial (tendência visível em vários pontos geográficos, nomeadamente na América do Sul, em Itália, na Grécia, em países dos Balcãs, etc.); e, num sentido eminentemente tecnológico, derivado da Information Science norte-americana, surgida a partir dos inícios dos sessenta do séc. XX e que herdou lastro importante da Ciência da Documentação de Paul Otlet, transformado pelo potencial de automação eletrónica. O movimento atual das iSchools, já espalhado na Europa e na Ásia, representa claramente essa tendência. Ora, diante destes dois extremos, a via do ponto de equilíbrio só pode ser, em minha opinião, a da defesa e consolidação de uma Ciência da Informação trans e interdisciplinar, que resulta da integração das disciplinas documentais anteriores e se configure como uma ciência social aplicada, mantendo, ao mesmo tempo, uma vocação interdisciplinar, desde logo com as Ciências da Comunicação e, mais extensivamente, no âmbito das Ciências Sociais, e com outras disciplinas mais afastadas, saberes e tecnologias. Este perfil de CI é o que melhor se encaixa no paradigma emergente pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar. Mais recentemente, eu e a Professora Fernanda Ribeiro acrescentamos mais um paradigma detectável na formação, que vem sendo dada algo disperso em várias latitudes, embora o tenhamos identificado mais claramente em cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutoramento) do Brasil. Trata-se de um paradigma importado da Sociologia, que aí se designa de Dialético e abrange várias nuances, uma das quais é a Teoria Crítica, herdeira da Escola de Frankfurt, de forte inspiração marxista. Entre este paradigma e o pós-custodial há um profundo potencial de convergência e integração, limadas algumas arestas e melhor centrado o exercício crítico no método científico. Aliás, o grande contributo da passagem de um arquivista ou de um bibliotecário do paradigma custodial para o pós-custodial tem a ver com o ganho de formação realmente científico e da capacidade crítica de superar os ensinamentos normativos e práticos, orientando-os para uma compreensão desse fazer como um processo intencional de mediação que é preciso conhecer, sistematicamente, em todas as suas implicações.

(Archivoz) Na atualidade, a formação em Ciência da Informação é completamente diferente da formação arquivística. Porquê?

(AM) Não é fácil, numa entrevista, responder com o necessário desenvolvimento a uma pergunta como esta, por isso terei de me limitar a alguns tópicos substanciais e começo por recomendar a consulta dos trabalhos da minha colega Fernanda Ribeiro, precisamente sobre os modelos de formação nesta área. O primeiro ponto que explica toda a diferença tem a ver com a alteração do tipo de formação que até 2001, ano em que começou a ser lecionada a Licenciatura em Ciência da Informação, uma parceria de duas faculdades da Universidade do Porto – a de Letras e a de Engenharia-, era de nível especializado, nem sequer de pós-graduação (Mestrado), com duas saídas separadas ou ramos específicos – Arquivo e Biblioteca. Era um curso de dois anos, feito após uma licenciatura em qualquer área, no entanto a maioria dos ingressos vinham da História, Línguas e Literatura e Filosofia. Os Cursos de Especialização em Ciências Documentais sucederam, em 1982, ao “velho” curso de Bibliotecário-Arquivista, com origens no final do séc. XIX e que foi lecionado ininterruptamente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra,  desde 1935, com duração de dois anos, exigia uma licenciatura como formação prévia. Eu e minha colega Fernanda Ribeiro fizemos esse curso pouco antes de ele ser extinto. A segunda diferença importante concerne à incorporação no plano de estudos da licenciatura de disciplinas tecnológicas, em qualidade e quantidade que nem dá para comparar com os residuais conteúdos de informática ministrados nos CECD’s. A terceira diferença, com impacto no mercado de trabalho e na resposta às necessidades sentidas, já não pelas instituições culturais da Modernidade, ampliadas com a oferta em nível municipal (Bibliotecas Municipais e Arquivos Históricos), mas pelas mais diversas organizações públicas e privadas carentes de gestores de informação capazes de dialogar com os informáticos.

(Archivoz) A arquivística, como ramo da Ciência da Informação, tem futuro ou a tendência será absorvida pela primeira?

(AM) Pergunta pertinente e que, em países como o Brasil, traduz um estado de espírito de resistência e de desconfiança em relação à Ciência da Informação. Ora, para atalhar dúvidas e equívocos, convém insistir na distinção, para mim claríssima, entre Information Science (norte-americana) e a Ciência da Informação trans e interdisciplinar, ensinada na Universidade do Porto. Aquela não pode absorver a Arquivística, porque é uma disciplina essencialmente tecnológica, em que falta a base humanista e sociológica, indispensável para que possamos deparar uma ciência social aplicada.  Este estatuto epistemológico só está ao alcance da segunda e, graças ao contributo de todas as disciplinas (inclusa a Information Science), interligam-se e constituem uma ciência nova com o melhor e mais substancial de todas elas. Neste novo campo disciplinar, a Arquivística está presente pelo legado que aportou, e o profissional formado por esta ciência nova – o gestor da informação – será, no contexto específico em que exercer funções, um “arquivista-gestor de informação”, um profissional mais polivalente, melhor dotado, que o mero arquivista de formação antiga, de competências tecnológicas e essencialmente versátil.

(Archivoz) Existe em Portugal uma grande discussão entre designar um arquivo como um Fundo ou como um Sistema de Informação. Afinal, é apenas um preciosismo de nomenclaturas ou é muito mais do que isso?

(AM) Posso começar por frisar que não se trata de um preciosismo ou, pelo menos, eu e meus colegas de CI do Porto não usamos o conceito operatório de Sistema de Informação como um mero preciosismo ou uma designação “moderna” para significar o mesmo que Fundo. No livro “Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação”, ficou escalpelizada a origem e evolução do conceito de Fundo, um conceito instrumental usado pelos arquivistas em detrimento do conceito de coleção, deixado para uso de bibliotecários e museólogos e conotado com a acumulação aleatória e diletante (sem necessidade orgânica ou funcional) de livros e objetos. E aí foi também introduzido o conceito de Sistema de Informação, com características que viriam a ser melhor trabalhadas posteriormente. A transição para o uso de SI significava, desde logo, não apenas um conjunto de documentos marcados pela mesma proveniência, mas muito mais que documentos de um produtor, também organizados e recuperados por esse mesmo produtor e ainda articulados com outro tipo de documentos (não exclusivamente jurídico-administrativos, político-administrativos ou técnicos), como os livros e objetos tridimensionais musealizados ou musealizáveis. Por definição, sistema não é um mero somatório de partes, mas uma unidade de partes diferentes e interdependentes, ou seja, unidade na diversidade. E por aqui se vê quão redutoras são as noções de fundo e de coleção e que a abordagem correta, a que melhor serve ao potencial utilizador da informação, é a que integra as partes que nasceram, contextualmente, interrelacionadas. O conceito de SI não pertence ao paradigma custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, mas claramente ao paradigma pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar.

(Archivoz) Num mundo cada vez mais digital, as disciplinas de paleografia e diplomática praticamente desapareceram dos programas de estudo, pois os alunos aprendem hoje linguagens de programação e gestão de processos de negócio (construção de fluxos de informação e etc.). Como serão tratados os arquivos históricos num futuro próximo?

(AM) É verdade que, por exemplo, na Licenciatura em Ciência da Informação da Universidade do Porto, hoje a Paleografia e Diplomática, é residual e eventual, e os alunos preferem, no que toca a opcionais, outro tipo de disciplinas. No entanto, considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada, porque os documentos anteriores ao séc. XIX precisam ser lidos e transcritos mesmo que sejam, e cada vez serão mais, digitalizados. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pela escola que teve, mestres de proa como o Professor Cónego Avelino Jesus da Costa, devem pensar em escalar estrategicamente a formação nestas competências específicas, porque não deixará nunca de haver mercado.”


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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“Não podemos construir o futuro sem conhecermos o nosso passado coletivo”: Entrevista com Adelino Cunha

Entrevistámos Adelino Cunha, Professor Associado da Universidade Europeia e Investigador Integrado do Instituto de História Contemporânea da Universidade NOVA de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Quando é que nasceu, e em que contexto, a vontade de desenvolver investigação no âmbito dos arquivos políticos?

(Adelino Cunha) Diria que se tratou de um percurso que teve tanto de natural como de imprevisível. Natural porque (na juventude) comecei por escrever textos de ficção como primeiros exercícios de carácter literário, tendo depois iniciado uma carreira como jornalista, que se prolongou por mais de 20 anos, e preservando sempre o gosto pela escrita. Acabei por me especializar em temas políticos e a imprevisibilidade resulta dessas circunstâncias: o facto de ter feito uma reportagem sobre uma tomada de poder num partido acabou por se transformar numa investigação historiográfica para um livro, aliás, na sequência de um desafio do historiador recentemente falecido José Freire Antunes. É assim que publico o meu primeiro livro: o gosto pela escrita e o estímulo pela investigação.

(ARCHIVOZ) Considerando que em Portugal, tal como normalmente se verifica em termos internacionais, os partidos políticos são, por natureza, organizações fechadas sobre si mesmas, pouco abertos à mudança, não divulgando a documentação constantes dos seus arquivos, como é que tem sido efetuar investigação, nomeadamente no que respeita às fontes documentais destes partidos, existentes nos respetivos arquivos? Pode falar-nos desta questão, crucial, do acesso às fontes, na eventual escassez, perda e dispersão das mesmas?

(AC) É uma questão que terá de ser superada com celeridade, na medida em que se trata manifestamente de um obstáculo à investigação profissional. Por um lado, os partidos políticos tratam muito mal as suas memórias coletivas, desde documentos dispersos (perdidos!) pelas estruturas locais e regionais, até material de outro tipo (iconográfico, por exemplo) que fica para trás na voragem dos ciclos políticos. Por outro lado, o acesso aos arquivos (os poucos que existem ainda têm deficiências organizativas resultantes do não envolvimento de profissionais arquivistas) depende da boa vontade dos titulares provisórios dos cargos partidários. Não existe uma política previsível de acesso às fontes porque não existem sensibilidade para esta dimensão da vida pública dos partidos, sendo que se trata de acesso ao conhecimento que viabiliza partes importantes da construção da memória coletiva das sociedades.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta as dificuldades que referiu, no que respeita ao acesso às fontes primárias dos partidos políticos, quem quiser fazer investigação sobre a história, a ação de um partido político, ou, por exemplo, relativa a determinada personalidade política, tal como se tem sido o seu caso, onde é que deve dirigir-se, ou seja, para além dos arquivos na posse desses partidos políticos? Que arquivos, bibliotecas, públicos e privados, é que deve considerar nesse sentido? Existe esta tradição, entre os políticos portugueses, em vida ou no final desta, de legarem os seus arquivos aos respetivos partidos?

(AC) Diria que o processo de investigação deve começar pelos arquivos nacionais, tendo por base um roteiro de pesquisa que envolva depois os arquivos regionais/distritais e os arquivos públicos de vocação temática (recortes cronológicos concretos, temas especializados, etc.), por exemplo. Esse quadro-geral permite ao investigador avaliar as fontes que existem e as lacunas que necessita de preencher. É aqui que entram tanto os arquivos dos partidos como os arquivos de organizações de carácter privado e, creio que esta questão merece ser olha com crescente atenção, os arquivos privados (sejam de carácter público ou restrito). Não é fácil preparar um plano de investigação que identifique previamente todas as fontes suscetíveis de serem mobilizadas devido a esta dispersão. O que decorre da ausência de uma política pública integrada para todo os arquivos e pelo envolvimento fundamental de profissionais arquivistas no tratamento e organização da informação (mesmo em arquivos privados).

(ARCHIVOZ) Na introdução da sua obra Álvaro Cunhal: Retrato Pessoal e Íntimo, publicada, pela primeira vez, em 2010, e reeditada em 2020, pela Editora Desassossego, refere na Introdução as dificuldades que sentiu em chegar, vou citá-lo, ao “homem por trás do mito?”. Sabendo que as fontes nem sempre são neutras e que, intencionalmente, nos podem induzir em erro, por via dos seus objetivos apologéticos e laudatórios, de criar uma determinada narrativa, como é que conseguiu fazê-lo?

(AC) Não estou seguro de que tenha conseguido fazê-lo porque o historiador será sempre parte ativa no processo da construção do conhecimento (o que resulta na inevitável subjetividade do seu trabalho), mas estou seguro de que se trata de um trabalho transparente e honesto. Todas as fontes estão devidamente identificadas e algumas delas, principalmente as fontes orais, foram disponibilizadas ao público. É uma biografia que se encontra no Plano Nacional de Leitura e essa valorização corresponde também à responsabilidade do investigador tanto pelo rigor dos factos como da narratibilidade, na medida em que se mobilizam testemunhos únicos e originais dos familiares mais próximos de Álvaro Cunhal e alguns dos companheiros do seu núcleo restrito, que o acompanharam em momentos fundamentais da história do PCP e do combate do Estado Novo em Portugal.

(ARCHIVOZ) Mencionou a importância das fontes orais. É fácil chegar a estas pessoas e recolher o seu testemunho? Como é que estas reagem, particularmente as pessoas mais próximas, desde logo os familiares?

(AC) Elaborar uma biografia exige desconstruir políticas inexplícitas de esquecimento, mas também superar os obstáculos que resultam da própria reconstrução do biografado enquanto sujeito histórico complexo, da mobilização de fontes escassas e dispersas, e ainda da domesticação dos recortes cronológicos. Não existem linhas temporais metrificadas e totalizantes, isto é, mundos harmoniosos onde as peças se encaixam numa matriz narrativa que fornece todas as explicações. Aliás, como se pode medir o tempo na biografia se o ritmo dos acontecimentos passados em nada se compara com o fluir do tempo na contemporaneidade?  Se esses ciclos naturais do tempo não existem, qualquer exercício biográfico enquanto caminho de vida, isto é, um conjunto de factos orientados que constituem um todo, fracassará invariavelmente. A biografia não é uma história de vida, nem um caminho linear que se volta a percorrer de forma coerente e orientada. Não é uma demonstração geométrica de um saber revelado. Esta armadilha do tempo transitório tem estimulado a imaginação alguns autores e levá-los a aventurarem-se pelas «projeções presentistas» da história narrativa do pós-modernismo, ou seja, a assumirem uma espécie de ficção de autor sem quaisquer fronteiras. São narrativas que escapam aos critérios da História. Importam mais pela «compreensão» da sua força dinâmica do que pela verificação da veracidade dos factos. Por tudo isto, as fontes orais também um valor imenso. O valor final da investigação decorre da consistência e da boa vigilância da metodologia, baseada em processos rigorosos de ativação de fontes e  citações e referências bibliográficas. É nesse  escrutínio das fontes que se atesta a qualidade da investigação e a capacidade do investigador.

(ARCHIVOZ) No seu livro, com o título, António Guterres: Os Segredos do Poder, publicado em 2013, pela Alêtheia Editores, para além, naturalmente, de constituir uma investigação baseada em documentos e fontes orais, destaco o facto de António Guterres ter participado como fonte, caso único nas biografias que publicou. Com base na sua experiência, as figuras políticas, e mesmo os partidos políticos, estão recetivos a ser estudado, com vista a um melhor conhecimento da sua vida e obra?

(AC) Está na natureza humana uma certa apropriação da interpretação individual dos factos e dos acontecimentos de conhecimento direto. Nestas circunstâncias, existem, parece-me, duas alternativas: o biografado (o sujeito histórico) escreve a sua autobiografia e assume a interpretação monopolista; ou o biografado assume-se como fonte da sua própria biografia sujeitando-se evidentemente à interpretação do historiador, que mobiliza um vasto conjunto de outras fontes. No caso concreto de António Guterres, a sua mobilização como fonte revelou-se fundamental nos aspetos da sua vida privada, na medida em que, havendo ligação com a sua dimensão pública e política, existia também um limite ético autoimposto pelo investigador. Neste caso, a colaboração revelou-se muito importante pelo rigor na narrativização dos acontecimentos, mas também pela dimensão emocional em causa.

(ARCHIVOZ) Por sua vez, na obra A Ascensão ao Poder de Cavaco Silva / 1979-1985, publicado em 2005, pela Edeline, teve acesso às fontes do respetivo partido do político do biografado, apresentando-nos uma imagem deste muito diferente da que se encontra na autobiografia publicada pelo mesmo, ou seja, da versão “oficial”…

(AC) Trata-se do livro que citei no início desta conversa. Em primeiro lugar, existia a circunstância do biografado ter escrito a sua versão dos acontecimentos e de se encontrar em atividade política ativa, o que se traduziu numa natural relutância em colaborar com perspetivas diferentes da sua versão. O que aconteceu. O livro assume um recorte cronológico muito concreto e utiliza dois tipos de fontes fundamentais: as fontes orais, ou seja, os protagonistas dos próprios acontecimentos; e as gravações das reuniões partidárias, tornadas públicas pela primeira vez. Mesmo havendo interpretações divergentes entre os livros, não significa que a autobiografia tenha erros ou inverdades, o que existe, evidentemente, são interpretações diferentes que resultam da mobilização de fontes diferentes. Dir-se-á que em situações concretas essas interpretações excluem-se mutuamente, nesse caso, caberá aos leitores verificarem as fontes que sustentam as diferentes perspetivas, e terem conta as motivações dos autores, isto é, o político e o historiador.

(ARCHIVOZ) Já no seu livro, intitulado Júlio de Melo Fogaça, publicado em 2018, pela Editora Desassossego, menciona na Introdução as dificuldades que sentiu ao escrever esta biografia, o que lhe exigiu, passo a citá-lo,  “desconstruir políticas inexplícitas de esquecimentos, mas também superar os obstáculos que resultam da própria reconstrução de Júlio Fogaça enquanto sujeito histórico complexo, da mobilização de fontes escassas e dispersas, e ainda da domesticação dos recortes cronológicos”, fim de citação. Considerando as suas palavras, no que respeita e este contexto particularmente adverso para escrever a biografia desta personalidade, a que fontes recorreu para investigar e escrever a mesma?

(AC) Este livro tem sobre si (também) a responsabilidade de estar incluir no Plano Nacional de Leitura. Num certo sentido, penso (por isso) que se trata do reconhecimento de um dos mais importantes dirigentes comunistas do século XX, um rival de Álvaro Cunhal, que acabou por ser apagado tanto da História do PCP como do movimento comunista internacional. O que resultou desde logo numa acentuada limitação de fontes. Existiam (e existem, claro) fontes importantíssimas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e o espólio pessoal de Júlio de Melo Fogaça depositado na Academia de Ciências de Lisboa, mas, uma vez mais, as fontes orais foram de enorme importância e, acima de tudo, um arquivo pessoal que permitiu dar uma ampla dimensão à biografia, por exemplo, cartas pessoais, fotografias, documento familiares, etc. Sem todas estas múltiplas fontes teria sido impossível biografar Júlio de Melo Fogaça.

(ARCHIVOZ) Para terminar, como é que imagina que no futuro será o acesso à documentação dos arquivos políticos portugueses? Acredita que será possível um acesso muito mais alargado, por parte do público em geral, do que agora se verifica? Pensa que será possível uma aposta, por parte dos partidos políticos, na implementação e desenvolvimento de um serviço de arquivo, que aposte na digitalização e disponibilização sistemática de conteúdos, em livre acesso?

(AC) Há uma questão que me parece central: a urgência do envolvimento dos arquivistas profissionais na organização das fontes. Mesmo que casos em que os voluntários e os entusiastas organizam aquilo que consideram arquivos, é fundamental garantir a profissionalização no tratamento das fontes. O facto de a democracia portuguesa ser recente deve também ser considerada nestas circunstâncias, mas o caminho terá de ser feito com profissionais.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“É o momento para o reconhecimento do investimento realizado nesta área e uma oportunidade para o seu incremento”: Entrevista com Alexandra Lourenço

Entrevistámos Alexandra Lourenço, Diretora de Serviços de Apoio Especializado, Recursos Documentais e Relações Públicas da Secretaria–Geral do Ministério da Justiça.

 

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso e das organizações em que desempenhou funções técnicas e de dirigente de nível intermédio, antes de chegar à Secretaria-Geral do Ministério da Justiça, onde se encontra desde o início deste ano.

(Alexandra Lourenço) Anteriormente, durante mais de uma década fui Chefe de Divisão de Arquivo na Direção-Geral do Tribunal de Contas e também mais de uma década Chefe de Divisão de Normalização e Apoio à Administração na Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. Em ambos os casos o exercício dos cargos pautou-se pela inovação, por trazer valor acrescentado à instituição e no caso da DGLAB ao sistema arquivístico da Administração Pública.

(ARCHIVOZ) Atualmente é Diretora de Serviços de Apoio Especializado, Recursos Documentais e Relações Públicas na Secretaria-Geral do Ministério da Justiça. Como carateriza a sua função neste cargo?

(AL) É uma função abrangente, envolve a gestão dos recursos documentais e informacionais, nas suas várias perspetivas, arquivo, biblioteca, espólio museológico, numa atuação integradora e dinâmica, contemplando as vertentes institucional e ministerial, conjugadas com uma componente social ativa.

(ARCHIVOZ) Ao longo da sua carreira tem orientado inúmeros projetos, de grande envergadura, com destaque, nos últimos anos, para a MEF (Macroestrutura funcional) e o ASIA (Avaliação Suprainstitucional da Informação Arquivística), no âmbito das funções que desempenhou como Chefe de Divisão de Normalização e Apoio à Administração na Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. Fale-nos um pouco dos principais objetivos e benefícios para a Administração Pública destas iniciativas.

(AL) Estes projetos colaborativos, que contaram a participação de quase duas centenas de interlocutores da Administração Local, Central e do Setor Público Empresarial, manifestam que é possível refletir, construir e evoluir em conjunto na área da gestão da informação.

Visaram a construção de uma linguagem comum para as entidades com funções de natureza pública e a determinação de prazos de conservação e destinos para a informação produzida no âmbito desses processos de negócio, numa abordagem de topo e suprainstitucional para a criação da memória do Estado, numa perspetiva de co-responsabilização dos intervenientes nos processos transversais, em que o dono do processo se responsabiliza pela conservação dos documentos constituintes, podendo os participantes eliminar os documentos resultantes da sua intervenção, findo os prazos de conservação, associados aos direitos e deveres resultantes do processo.

Estes projetos deram origem ao desenvolvimento de três componentes: 1/ a documental, consubstanciada na “Lista Consolidada para a classificação e avaliação da informação pública”, referencial que serve de base à elaboração de planos de classificação e tabelas de seleção; 2/ a tecnológica, materializada na plataforma CLAV – Classificação e Avaliação da Informação Pública, que disponibiliza orientações e ferramentas para a normalização das práticas de classificação e avaliação, para a interação entre a Administração Pública e o órgão de coordenação do sistema arquivístico nacional e ainda para a melhoria do conhecimento do cidadão sobre o Estado, 3/ a legislativa, corporizada na proposta de diploma legal “Regime jurídico para a classificação e avaliação da informação arquivística”.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo uma retrospetiva desta nova realidade, que se faz sentir desde meados de março de 2020, como é que acha que os arquivos foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(AL) A sociedade adaptou-se e reinventou-se para responder aos efeitos da pandemia causada pelo novo coronavírus.

Ao nível da gestão da informação, esta adaptação veio demonstrar a inevitabilidade do caminho da desmaterialização, a digitalização da sociedade. A interação dos intervenientes nos processos passou a realizar-se por formas menos convencionais, recorrendo maioritariamente ao correio eletrónico, quando as transações informacionais não se verificam em plataformas orientadas ao negócio.

Um dos grandes desafios para os profissionais da informação passa pela institucionalização destas formas de interação, transformando estes atos em documentos oficias, associados à metainformação que os permitirá gerir em contexto institucional, de forma a garantir os direitos e deveres associados, bem como a sua preservação no médio e longo prazo.

A gestão dos sistemas de informação numa visão universalista são o desafio que se impõe a estes profissionais.

Na perspetiva dos arquivos históricos, este contexto veio igualmente acentuar a importância do estar em linha, à distância de um clique para obter a resposta na hora. É o momento para o reconhecimento do investimento realizado nesta área e uma oportunidade para o seu incremento.

De uma forma genérica, demonstrou-se que a resposta ao cidadão, às empresas, à entidade onde se trabalha é tanto melhor quanto o tratamento da sua informação e dados for efetuado com qualidade. Esta pode ser a ocasião para se reivindicar o reforço do papel do profissional de informação.

(ARCHIVOZ) Tem uma notável experiência como docente em Ciência da Informação, nomeadamente como assistente convidada, desde 2004 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na Universidade Autónoma de Lisboa, entre 1999 e 2009, e no Instituto Superior de Línguas e Administração, entre 2001 e 2004, para além de ter sido monitora em cursos técnico-profissionais de arquivo e em ações de formação da BAD. Considerando este percurso, como encara a formação dos profissionais nesta área?

(AL) A formação nesta área exige uma renovação permanente, acompanhando a evolução tecnológica e societal, que aportam novas formas de produção informacional e a necessidade de novas formas de tratamento e disponibilização da informação e dos dados.

No contexto atual, por muitos denominado da pós-verdade, é ainda indispensável que a formação dos profissionais de informação os dote das ferramentas que lhes permitam atuar aquando da conceptualização dos sistemas da produção documental e informacional, assegurando que, na criação dos documentos e informação intrínseca, estes se encontram dotados dos elementos que certificam a sua autenticidade, fidedignidade, integridade, mas também acessibilidade no momento da criação e ao longo dos tempos.

(ARCHIVOZ) Entre 2014 e o final de 2020 foi Presidente do Conselho Diretivo da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação. Que balanço faz do exercício destas funções?

(AL) Em termos de Associação, desenvolveu-se uma profunda alteração das suas bases internas e de gestão. A BAD encontra-se dotada de novos Estatutos, que proporcionam uma visão mais inclusiva, integradora e representativa dos associados; novas instalações, mais dignas, amplas e adaptadas às suas funções; novas formas de comunicação, como o site Eventos BAD.

Em termos de impacto na sociedade, a BAD foi trazida para a rua, é importante comunicar entre parceiros, mas é igualmente importante que os outros, a sociedade, nos conheçam e percebam o que fazemos.

Em defesa dos associados, dos profissionais de informação e dos serviços de informação e documentação, foi igualmente incrementada uma vertente de reivindicação, com uma componente de atuação política junto dos grupos parlamentares e dos membros do governo e com a participação em movimentos cívicos e cooperativistas, como a Plataforma Cultura em Luta, o Unidxs pelo presente e futuro da cultura em Portugal ou o PP-CULT Plataforma pelo Património Cultural.

É ainda de realçar alguns projetos com impacto na comunidade de profissionais de informação, como o Projeto Bibliotecas para o Desenvolvimento e a Agenda 2020 – financiado pela IFLA  – e o projeto de divulgação do papel dos profissionais de informação no âmbito do Regulamento Geral de Proteção de Dados.

(ARCHIVOZ) Uma última pergunta, tendo em conta o seu extraordinário trajeto nesta área, nomeadamente ao nível técnico, dirigente, docente e associativo, como é que vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais é que pensa que são os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(AL) Os profissionais de informação, independentemente do nome que tomaram – arquivistas, documentalistas, gestores de informação… – foram essenciais ao longo dos tempos quer no papel de garantes da custódia documental, quer no de mediadores da informação.

Na vertente técnica, hoje, impõe-se uma permanente adaptação ao contexto tecnológico de produção informacional, já não é suficiente liderar a conceptualização e gestão dos sistemas de gestão documental, é indispensável intervir de raiz nos sistemas de informação orientados ao negócio.

Na vertente societal, em plena era da pós-verdade, perante o problema de notícias falsas nas redes sociais, na internet em geral, bem como na comunicação social, é imprescindível tornar acessível a informação administrativa e científica, incorporar a mediação informacional no quotidiano e atuar na promoção da literacia informacional e digital.

O grande desafio e oportunidade será sempre a capacidade para promover uma maior interação entre profissionais, porque é em conjunto, ajudando-nos, complementando-nos, que crescemos e que obtemos reconhecimento.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“A história não é apenas ação dos grandes homens, mas sim de todos os homens que operam cotidianamente para a realização de ações que resultam em movimentos dessa mesma história”: Entrevista com Américo Baptista Villela

Américo Baptista Villela é Professor da Escola Técnica Bento Quirino, curador do Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” * na mesma instituição, e historiador do Museu da Cidade de Campinas, São Paulo. A Escola Técnica Bento Quirino é fruto do legado testamentário de Bento Quirino dos Santos, que foi um comerciante próspero e homem engajado na política e sociedade do seu tempo. Criada em 1915 como instituição particular masculina, a “Associação Instituto Profissional Bento Quirino” foi projetada pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo e edificada na região central da cidade de Campinas no ano de 1917.

A expansão das escolas profissionais no Brasil esteve, inicialmente, diretamente vinculada ao processo de urbanização e industrialização do país, mas também à necessidade de oferecer uma opção para os filhos dos homens brancos pobres e livres que viviam nas cidades, e aos órfãos e desprovidos de fortuna. Um dos principais objetivos era transformar os indivíduos em cidadãos e qualificá-los para o trabalho através da educação. Em 1927 a Escola foi incorporada pelo Governo de São Paulo, ano em que também passou a ser uma escola mista com a criação da Seção Feminina. No ano de 1967 deixa o seu edifício original e transfere suas atividades para o endereço onde está localizada até os dias de hoje, na Avenida Orosimbo Maia nº 2600.

(ARCHIVOZ) Prezado Professor, no ano de 2020 o Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” comemora 20 anos de existência. Gostaria que você comentasse como surgiu a ideia de constituição do Centro, assim como sua participação e dos alunos neste projeto.

(Américo Baptista Villela) Bom dia. Inicialmente, gostaria de agradecer a possibilidade de divulgar esse importante instrumento de ensino e pesquisa que é o Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” da Etec Bento Quirino de Campinas. Isto posto, vou tentar reconstruir a trajetória que resultou na construção do mesmo.

Em 1992, a escola passa por muitas modificações preparando-a para ser incorporada pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, autarquia do governo do Estado de São Paulo, e para tanto há a mudança na direção da escola, bem como a chegada de um grupo de professores recém-formados no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas. A direção é assumida pela professora Orleide, posteriormente homenageada como patrona do Centro de Memórias, entre os professores estavam presentes eu, Ronaldo Finelli – in memoriam, Claudia Bevilacqua Denardi, Sandra Regina de Almeida Moratto.

Esse grupo, ao chegar a escola, encontrou uma rica documentação espalhada por diversas dependências do prédio e correndo risco de deterioração. Em um primeiro momento, a escola convida um grupo técnico do Centro de Memória da Universidade de Campinas para visitar a escola e conhecer a documentação em questão. Esse grupo composto por  Fernando Antônio Abrahão, diretor da área de arquivos históricos, Cássia Denise Gonçalves, arquivista – responsável pelo setor de fotografias, Maria Alves de Paula Ravaschio, diretora da biblioteca, após a visita,  reforçou a percepção original do grupo de professores sobre a importância do acervo e fez algumas recomendações sobre como proceder para garantir a preservação do mesmo, mas, naquela conjuntura, marcada pela transição que a escola vivia, essas recomendações não puderam ser atendidas.

Realizada a transição em 1995, os professores retomam o tratamento do acervo e em 1997, durante a comemoração dos oitenta anos da construção da primeira sede da escola, há a montagem de uma exposição sobre a história e desenvolvimento da mesma. Na construção desta exposição, o engajamento e participação dos alunos foi muito grande e demonstrou novamente a importância e riqueza do acervo. Em 1998, há aproximação com a equipe do Centro de Memória da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, que estava realizando uma parceria com o Centro Paula Souza e que contribuiu para viabilizar o sonho esboçado em 1992, de que a escola viesse a ter o seu próprio Centro de Memórias.

(ARCHIVOZ) Sobre a participação da Etec Bento Quirino no Projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais”, uma parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e o Centro Paula Souza, qual foi a maior contribuição deste projeto para a Escola, além claro, da criação do Centro?

(AV): Sem sombra de dúvidas, o protagonismo se deu em função do envolvimento de toda a comunidade escolar em torno do tema. Professores, alunos, funcionários e todos os órgãos auxiliares da escola como a Associação de Pais e Mestres e o Grêmio Estudantil se envolveram na transformação de um sonho em realidade. Além disso, a capacitação técnica oferecida pela equipe do Centro de Memória da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, bem como a capacidade do referido Centro em mobilizar o apoio de outras instituições da referida universidade como o Instituto de Estudos Brasileiros (USP), o Museu de Arte Contemporânea, etc. e também de instituições como o Arquivo do Estado de São Paulo para qualificar os professores envolvidos foi determinante.

Ainda, foram determinantes o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, que ofereceu bolsas de estudos para os professores e recursos para a aquisição de materiais de consumo e equipamentos e da Associação de Pais e Mestres da escola, que auxiliou na reforma do espaço e recebeu a documentação. Difícil dimensionar qual foi a maior contribuição, mas eu acredito que foi a articulação entre ensino e pesquisa que o projeto não só permitiu como incentivou e que se mantém até hoje.

Ações foram desencadeadas pelos alunos para reconstruir o conhecimento sobre a história da escola e surgiram iniciativas de conservação e restauro de antigos documentos que incentivaram práticas transdisciplinares, como o atual restauro de um torno da década de 1940 ou a montagem do laboratório fotográfico para reprodução dos documentos iconográficos.  Além disso, aponto a forma como os alunos passaram a ver não apenas o patrimônio histórico cultural, mas o próprio patrimônio da escola como propriedade de cada um dos membros da comunidade escolar e portanto objeto de carinho, cuidado e guarda de todos, o que fez com que o patrimônio escolar deixasse de ser alvo de vandalismo.

(ARCHIVOZ) Para realizar a constituição do Centro de Memórias da Etec Bento Quirino foram realizadas capacitações para a equipe técnica-administrativa e professores da escola. Como se deu a incorporação dos alunos neste projeto que foi intitulado “Introdução ao Tratamento do Documento Museal” e quais as principais atividades realizadas?

(AV) O curso “Introdução ao Tratamento do Documento Museal” foi uma estratégia para socializar os conhecimentos adquiridos pelos professores participantes do projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais” durante as capacitações realizadas. Abriu-se inscrição para os alunos interessados através do Grêmio estudantil e o mesmo realizou a seleção para a participação, pois não foi possível atender a todos.

As atividades do curso, apostilado, ocorreram no período das férias de julho de 1998 e consistiram em 20 horas aulas, organizadas em 5 dias, com duas horas iniciais de discussão teórica seguidas de duas horas de atividades práticas. Em cada um dos dias de curso foi tratado um dos assuntos a serem aplicados pelos alunos: arquivística, teoria das três idades, iconografia, diferentes suportes de informação, tratamento de documento tridimensional, procedimentos museológicos, etc.

Após o curso, os alunos participantes passaram a socializar com os colegas que atuavam voluntariamente, para inventariar, catalogar, higienizar e embalar os acervos em seus diferentes suportes e formatos. Além disso, alguns alunos com habilidades em informática desenvolveram sistemas para controlar e disponibilizar o acervo ao público, o que levaria a inauguração do Centro de Memórias no ano de 2000.

(ARCHIVOZ): A professora Orleide, analisando os trabalhos que resultaram na construção do Centro de Memórias Bento Quirino avaliou que ao mobilizar a comunidade para higienizar, embalar e organizar os documentos, ficou evidente que o gerenciamento da coisa pública é responsabilidade de todos. Gostaria que você comentasse sobre essa experiência coletiva.

(AV) Como apontado anteriormente, os alunos passaram a ver não apenas o patrimônio histórico cultural, mas o próprio patrimônio da escola como propriedade de cada um dos membros da comunidade escolar, portanto objeto de carinho, cuidado e guarda de todos. Isso fez que o patrimônio escolar deixasse de ser alvo de vandalismo. Isto porque, acredito eu, foi transferida para eles a responsabilidade pelas ações que garantiriam a preservação dos documentos, e eles próprios passaram a se perceber como partes constituintes e agentes da história da escola. Sendo assim, cada um deles pretendia deixar um legado e compreenderam que carteiras, máquinas, enfim, objetos que hoje estavam ali em função de seu valor de uso, amanhã poderiam estar no Centro de Memórias pelo seu valor cultural.

Nas comemorações dos cem anos da escola em 2017, muitos retornaram para a cerimônia de abertura da Cápsula do Tempo. Nesta cápsula foram depositados bilhetes para a posteridade durante as comemorações dos oitenta anos da escola em 1997.  Em 2017 uma nova capsula foi lacrada, para que em 2037 seja reaberta com as recordações e objetos depositados pelos alunos.

(ARCHIVOZ) Você utilizou para a realização do seu projeto de Mestrado* * na Unicamp a documentação do Centro de Memórias.Por ter participado da constituição desse acervo, como se deu a seleção e análise dos documentos na elaboração da sua dissertação?

(AV) A bem da verdade, durante a realização do projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais”, algo me incomodava: era a percepção de que muitos acreditavam que o nosso papel era apenas o de garantir a conservação, preservação e disponibilização das fontes documentais para os pesquisadores e para a posteridade, o que, acredito eu, por si só, já seria uma meta louvável.

No entanto, eu entendia que o nosso papel como professores era maior. Era necessário não apenas garantir a conservação, preservação e disponibilização das fontes documentais para os pesquisadores e para a posteridade, mas também oferecer aos nossos alunos a possibilidade de se utilizarem dessas fontes para reconstruir o seu próprio conhecimento do passado e foi essa percepção que nos motivou a deixar que a exposição inaugural fosse construída por eles.

Para minha grata surpresa eles optaram por dividir a exposição em dois módulos: no primeiro, a partir dos instrumentos de trabalho que eles haviam utilizado (trinchas, estiletes, material para confecções de embalagens e jaquetas para as fotos, etc.) e imagens, eles reconstruíram a trajetória de criação do Centro de Memórias. Pensei comigo, muito bom, eles estão “dessacralizando” os objetos museológicos e percebendo que a história não é apenas ação dos grandes homens, mas sim de todos os homens que operam cotidianamente para a realização de ações que resultam em movimentos dessa mesma história. O Centro de Memórias não é criação dos professores ou da direção escolar, mas de toda a comunidade.

No segundo módulo, eles se propuseram a recontar os anos iniciais da escola a partir do acervo e, nesse ponto surge o embrião da minha dissertação. Ao reconstruir a história da escola eles romperam com a visão tradicional e consagrada pela memória oficial de ver a escola como uma ação de mera filantropia do patrono. Eles perceberam a criação da escola como resultado de uma cidade que via surgir a industrialização em uma economia agroexportadora baseada na cultura cafeeira, e em que o próprio benemérito havia se envolvido com o setor de serviços. Para tanto, eles se utilizaram de um quadro de 1914 oferecido pela Cia. Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação para homenagear o patrono por ter sido presidente da mesma, destacando a importância do patrono para a criação da Cia. Campineira de Águas e Esgoto em 1889.

Mais do que isso, os alunos perceberam que os cursos oferecidos estavam diretamente relacionados com as fábricas que estavam se instalando na cidade. Foi a partir dessa exposição que comecei a pensar minha futura dissertação. A seleção e análise da documentação se realizou a partir das pesquisas realizada por alunos da própria ETEc e do suporte oferecido a outros pesquisadores que realizaram seus trabalhos sobre o acervo, pois me obrigaram a conhecer quantitativa e qualitativamente a documentação e, nesse sentido, as atividades oferecidas pela Faculdade de Educação da UNICAMP permitiram e contribuíram para um maior rigor e aprimoramento teórico metodológico da minha pesquisa.

(ARCHIVOZ) Hoje, como o acervo está organizado, quais os principais tipos documentais, tamanho do acervo, e quais as condições de consulta e acesso aos documentos? E perante às mudanças ocorridas na Escola e no Centro de Memórias, quais as possibilidades de retomada deste trabalho, esperança e perspectivas de futuro?

(AV) Hoje, o acervo que havia sido organizado em um espaço único composto por: uma sala de exposição, uma área grande para reserva técnica, duas salas para tratamento da documentação (sendo uma para o tratamento físico de higienização e embalagem para exposição ou guarda e outra para catalogar e alimentar banco de dados e página na internet), uma sala na qual foi instalado o laboratório fotográfico… novamente voltou a estar espalhado pela escola.

Documentos que exigem guarda em função de seu valor probatório, tais como prontuários de professores e ou de alunos estão sob gestão dos respectivos setores que os geram, a saber, respectivamente, Diretoria de Serviços e Diretoria Acadêmica. Os documentos que foram preservados em função de seu valor cultural, como imagens, livros ou objetos estão sob guarda do Centro de Memórias em uma pequena sala com uma exposição permanente.

O Centro tem apostado na utilização de técnicas museológicas para garantir a manutenção e ressignificação de objetos e espaços da escola. Assim, por exemplo, um antigo torno que seria leiloado foi restaurado por um grupo de alunos e musealizados na oficina da escola, e as placas que nomeiam algumas salas seguem acompanhadas de textos que explicam os motivos da menção. O objetivo é que no longo prazo a escola volte a perceber o potencial do Centro de Memórias como um importante instrumento de ensino e pesquisa, mas também como um espaço de cidadania.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos desenvolvidos durante estes 20 anos por pesquisadores externos no Centro de Memórias? E internos? Quais você destacaria? De que forma a documentação/fontes utilizadas fundamentou os projetos desenvolvidos?

(AV) Difícil definir quais os principais, todos eles tem sua importância. Gostei muito da exposição inaugural, bem como da exposição organizada pelo Grêmio Estudantil em 2001, mas delas não restaram muitos registros, sendo assim, vou me pautar pela longevidade e possibilidades de trabalhos futuros, sendo assim destaco:

Entre os pesquisadores externos apontaria a dissertação de Lúcia Pedroso da Cruz “Bento Quirino e Cotuca: os passos do Ensino Profissional em Campinas”, tendo como orientadora Maria Helena Salgado Bagnato em 2008, e o seu Doutorado “A trajetória de um dispensário de puericultura em Campinas nas décadas de 1930 e 1940”, (2014) ambos defendidos na Faculdade de Educação da UNICAMP.

Entre os pesquisadores internos, cito os trabalhos dos alunos Jonathan Doro sobre relações étnicos raciais, que enfatiza a manutenção da discriminação racial no acesso à educação, e da aluna Sophia Carvalho Tosi sobre os cursos femininos, no qual ela analisa os impactos da revolução sexual dos anos 1960, sobre a forma como os trabalhos das meninas eram exibidos, ambos apresentados como banners no VI – Encontro de Memórias e Histórias da Educação Profissional  Concepções, Rupturas e Permanências, realizado pelo Centro Paula Souza em 2018.

Em todos esses trabalhos a documentação foi utilizada como indícios de um passado a ser conhecido e reelaborado a partir de uma análise crítica da mesma.

(ARCHIVOZ) Sobre a sua afirmação “pretendo que os documentos não apenas reafirmem e complementem as lembranças, mas que também possam gerar novas formas de reviver o passado…”. Queria que você falasse um pouco mais sobre essa questão: sobre como é possível, através do resgate do passado fazer novas reflexões sobre a história, o tempo presente, os acontecimentos,  e assim “estar preparado para mudar de ideia e reconstruir o processo histórico”.

(AV) Retomando o exemplo da exposição inaugural e o quadro mencionado ofertado pela Cia. Mogiana de Estradas Ferros e Navegação. O quadro foi entregue a escola para reforçar uma memória da ação do patrono, como filantropia, porém os alunos ao recontextualizar a vida do patrono, e da própria cidade, atribuíram a ele um outro significado que não apenas o da filantropia.

Mais do que isso, a exposição inaugural ocorreu em uma conjuntura marcada por um forte embate entre o movimento estudantil e o governo federal e estadual, tendo em vista o decreto 2208\97 que havia instituído o desvinculo entre o ensino técnico e médio, depois do projeto de lei 1603/96 não conseguir ser aprovado, o que forçou o governo a se utilizar de um expediente autoritário.

Isso fez com que os alunos inserissem lágrimas nos olhos da imagem do patrono na expografia. Na monitoria, eles explicavam para os visitantes que o patrono, caso vivo, estaria triste com as mudanças que estavam sendo impostas à escola, o que representaria uma redução da qualidade de ensino mais ampla almejada pelos republicanos do início do século XX. Assim, penso eu, a história deixa de ser pensada como algo pronto e acabado, mas sim em algo que está em constante reelaboração.

(ARCHIVOZ) Prezado professor, agradecemos a sua entrevista e disponibilidade. E desejamos sucesso na continuidade dos trabalhos no Centro de Memórias.
  • A Professora de história Orleide Aparecida Alves Ferreira, que dá nome ao Centro de Memórias, foi diretora da Escola Técnica Bento Quirino entre 1992 e 2004, ano em que retornou à sala de aula.
* * “O instituto profissional masculino Bento Quirino: uma visão social ideológica, maçônica, industrial e republicana” de 2011.
Crédito Fotográfico: Imagem cedida por Américo Baptista Villela.

Entrevista realizada por: Isabela Cristina Salgado

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A importância das fontes primárias para a pesquisa histórica: o caso da Senzala da Fazenda da Lapa de Campinas (Brasil). Entrevista com a Professora Sílvia Zakia., Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo.

No ano de 2018, a Sociedade Hípica de Campinas/São Paulo/Brasil, em comemoração ao 70º Aniversário do clube, implantou o seu Centro de Memória. A Hípica, um clube poliesportivo, foi fundado em 27/10/1948 numa antiga fazenda de café – a Fazenda da Lapa. A Fazenda está sediada antiga na  sesmaria do Mato Dentro, um instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras destinadas à produção agrícola, destinado a particulares no período da colonização (em Portugal e no Brasil).

Ao identificar os documentos históricos do Clube para compor os acervos do Centro de Memória, os historiadores encontraram uma pesquisa sobre um dos edifícios da fazenda: a Senzala. No imaginário dos associados da Hípica, a escravidão na fazenda era “lenda”. Mas uma pesquisa da Professora Sílvia Zakia, Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, comprovou a existência de escravos na fazenda de café. Com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre essa história, a Archivoz entrevistou a Professora, para falarmos sobre a pesquisa que realizou sobre este edifício e sobre a importância das fontes primárias na comprovação de seus dados, que ainda de acordo com ela, foi fundamental no projeto de restauração do edifício no ano do cinquentenário da Hípica em 1998.

(ARCHIVOZ): Até a década de 1980, a ideia de patrimônio arquitetônico estava relacionada a bens de excepcional qualidade artística, conceito recentemente ampliado e abrangendo também os edifícios considerados testemunhos históricos da nossa memória coletiva. De lá para cá, o que mudou no conceito do patrimônio arquitetônico/histórico?

(S .Z.): Cumpre ressaltar, que no caso brasileiro, o primeiro órgão de preservação do patrimônio foi criado em 1937, SPHAN, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Grosso modo, num primeiro momento a noção de patrimônio arquitetônico esteve vinculada aos bens de excepcional valor artístico e estético. No entanto, o entendimento sobre patrimônio, foi ao longo do tempo, ampliado. A partir, das décadas de 1970 e 80, a noção de valor histórico invocando questões de representatividade e de exemplaridade foi incorporada à conceituação de preservação. Ademais, a criação de órgãos de preservação, estaduais e municipais vem também, nesse sentido, ampliar o escopo de atuação.

Ao lado do patrimônio barroco das igrejas mineiras encontram-se tombados, hoje, hospitais, escolas, palacetes ecléticos, vilas operárias, estações de trem, fábricas, estádios de futebol, enfim, uma variedade de edificações representativas de nossa história. Além das edificações, propriamente ditas, também passam a figurar como patrimônio, conjuntos arquitetônicos, como por exemplo, os bairros e também sítios históricos como fazendas, vilas, casarios, terreiros de candomblé, etc. Um patrimônio mais diversificado e plural, que espelha o conjunto da sociedade em seus vários momentos históricos.

(ARCHIVOZ): A senzala da Fazenda da Lapa de Campinas, onde hoje está sediada a Sociedade Hípica, é uma das únicas edificações remanescentes do conjunto original da fazenda, e também um dos poucos exemplares ainda existentes na região. Gostaria que a Professora falasse sobre este patrimônio, tão importante para a história da cidade.

(S.Z.): O conjunto da Fazenda da Lapa está inserido no recorte histórico que compreende a segunda metade do século XIX, período que contextualiza o surgimento e apogeu da fazenda enquanto produtora de café. Nesse sentido, é exemplar de uma tipologia própria da região campineira[1]. Sobre o patrimônio arquitetônico rural, no geral, encontramos maior número de remanescentes das sedes de fazenda de café e das casas-grandes dos engenhos. É mais difícil encontrar o conjunto completo de edificações destas propriedades rurais. Em Campinas, especificamente, temos duas situações distintas: engenhos de açúcar que foram transformados em fazendas de café e as fazendas de café propriamente ditas. No primeiro caso, tanto a casa senhorial como as instalações produtivas foram transformadas para atender às novas exigências produtivas e nesse sentido, as demolições e novas construções foram acrescidas aos novos complexos produtivos rurais.

A Fazenda da Lapa foi fundada, em 1849, é fruto de desmembramento do Engenho Mato Dentro. O conjunto arquitetônico original foi especificamente construído para atender ao processo produtivo cafeeiro, e constituiu importante exemplar da tipologia arquitetônica das fazendas de café da região de Campinas[2], região esta, que corresponde a do segundo período de expansão cafeeira.

As fazendas de café eram praticamente autossuficientes, seguindo o mesmo conceito dos engenhos, onde quase tudo era produzido ou criado “in loco”: moradia, alimentação, materiais de construção, vestiário, criação de animais etc. A organização da lavoura cafeeira, assim como a do açúcar, era baseada na monocultura exportadora e no trabalho escravo, posteriormente substituído pelo trabalho livre do imigrante. Como propriedade rural autossuficiente, o complexo arquitetônico edificado das fazendas de café tinha como objetivo atender todas as exigências necessárias ao seu pleno funcionamento.

As residências (do senhor e dos escravos), tulha, beneficiamento, escolha, terreiro e a área de serviços secundários à produção eram construções formuladas individualmente, mas com estreita relação ao novo personagem: o terreiro de secagem. Em síntese, as edificações que compõem o conglomerado “cafezista” eram as seguintes: Sede – moradia do grande proprietário rural; Terreiro – que se destinava à secagem do café; Tulha – grandes edifícios para armazenamento do café; Casa-de-máquinas – edifício específico para abrigar as máquinas destinadas ao beneficiamento do café; Capela; Muros de taipa – os limites do conglomerado eram demarcados por extensos muros de taipa de pilão; Senzalas – em geral, constituíam-se de um edifício alongado dividido em lanços sucessivos, coberto por um único telhado corrido de duas “águas”, que poderia ser em linha ou em quadra. Quando em quadra era designado de “curro” ou quadrado. Esta disposição em “curro” era própria de fazendas com grande número de escravos (caso da Fazenda da Lapa), pois este partido facilitava o controle da escravaria.

A sede da Fazenda da Lapa era um grande sobrado, de implantação à meia encosta, com paredes de taipa de pilão e divisórias de pau-a-pique. Um misto do sistema construtivo paulista e mineiro. Um “sobradão” com planta em “L” e telhado de quatro “águas”. No primeiro lanço ficavam as salas, no intermediário os dormitórios e alcovas, e no lanço posterior a grande varanda. No prolongamento que formava o “L”, estavam situadas a cozinha e dependências de serviço. Uma escada central à frente da sede fazia a ligação entre jardim e o nível da moradia, que se desenvolvia neste piso. O nível inferior possivelmente, utilizado como depósito. Uma construção lateral alinhada à sede se prolongava até o quadrado, possivelmente esta edificação teria sido a primitiva senzala da fazenda. Um grande quadrado de senzalas abrigaria posteriormente uma vasta escravaria: aproximadamente 155 escravos inventariados em 1868. Extensos muros de taipa fechavam o conjunto, restando hoje apenas um pequeno pedaço de muro contíguo à senzala. A tulha e casa-de-máquina ficavam num nível abaixo do terreiro. Acima deste conjunto agenciado em quadra, ficava outro terreiro provavelmente mais recente.

(ARCHIVOZ): Sílvia, como se deu o processo da sua investigação? Quais os documentos consultados e as informações levantadas, que sabemos, foram fundamentais para o processo de restauro do edifício da senzala em 1998, ano do cinquentenário da Sociedade Hípica de Campinas?

(S.Z.): O estudo sobre o conjunto edificado da Fazenda Lapa foi realizado a partir de fontes documentais primárias, da iconografia, dos relatos dos viajantes e principalmente a partir da consulta dos inventários de particulares que estão no Arquivo Histórico do Centro de Memória da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Estes materiais foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa e para a reconstituição hipotética do conjunto do edifício original. A partir das informações coletadas no inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, realizado em 1868, pudemos comprovar a existência de um contingente expressivo de escravos na Fazenda Lapa. Estavam registrados, no inventário, cento e cinquenta e cinco escravos, cujo montante total representava praticamente o dobro do valor das terras:

Benfeitorias e terras do sítio Mato Dentro de Baixo (Fazenda Lapa) correspondem a 94:300$000 mil réis;

155 escravos, no valor de 182:560$000 mil réis;

240 mil pés de café, no valor de 80:700$000 mil réis.

As terras e benfeitorias representavam 26,3% do montante total; os pés de café correspondiam a 22,6% e o lote de escravos… 51% restantes. Portanto, os dados contidos nos inventários fornecem importantes subsídios para pesquisas em variados campos disciplinares. No caso em questão, conseguimos comprovar, de um lado, a relevância econômica do escravo para o proprietário, e por outro, que o contingente expressivo de cento e cinquenta e cinco pessoas exigia um abrigo de grandes proporções, ou seja, uma senzala de grandes dimensões configurada de maneira a assegurar o controle do precioso bem.

Muitos inventários particulares do século XIX já estão disponíveis para pesquisadores no acervo do Arquivo Histórico do Centro de Memória da Universidade de Campinas. Sua consulta, obviamente, requer cuidados especiais para manuseio. São documentos originais, raros, e por vezes, em estado delicado de conservação. Quando realizei a pesquisa, entre 1998 e 1999, os inventários estavam disponíveis, exclusivamente, para leitura. O pesquisador podia copiar a lápis os dados que lhe interessavam. Cada acervo possui suas regras passíveis de alterações.

Em suma, posso asseverar que os inventários são fontes primárias essenciais para pesquisadores, contêm dados precisos, que podem fornecer subsídios para inúmeras análises. Uma ligeira visada sobre as designações do registro dos escravos da Fazenda Lapa permite identificar: origem, sexo, atividade exercida, e seus respectivos valores:

Procedência: Francisco Mineiro (1:000$000); Luiz Congo (2:000$000); Manoel Congo (700:000$000); José Pernambucano (2:500$000); Alexandre Baiano (1:900$0000). Atividade: Carlos cozinheiro (2:000$000); Trajano Copeiro (1:900$000); José Pedreiro (2:100$000); Antônio Monjolo (400:000$000); José copeiro (1:800$000); Joaquim Monjolo (400:$000); Benedito Monjolo (500$000); Francisco Alfaiate (1:200$000); Faixa etária: Anna Velha (50$000); Violante Velha (200$000); Caetano Velho (200$000); João Velho (50$000); Sebastião Velho (1:800$000); Firmina 13 anos (1:600$000).

(ARCHIVOZ): Agradecemos a Professora Silvia pela entrevista, e por nos contar sobre a importância da pesquisa com fontes primárias, que teve como um dos seus objetivos principais comprovar, e até mesmo desmistificar assuntos e temas tão importantes para a história brasileira, como a escravidão.

(S.Z.): Eu é que agradeço a oportunidade, agradecida por poder colaborar com a Archivoz. Os inventários podem ser consultados pessoalmente, pois ainda não foram digitalizados. Segue o site: https://www.cmu.unicamp.br/: Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D. Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.

 

[1] A fotografia do complexo cafezista da Fazenda da Lapa, registrada pelo fotógrafo suiço Guilherme Gaesnly, foi apresentada na publicação Il Brasile e gli italiani, obra patrocinada pelo governo brasileiro que tinha como objetivo atrair imigrantes italianos. Do lado esquerdo da imagem, ao fundo, o “quadrado” da senzala. Crédito fotográfico: Guilherme Gaensly,  Fazenda da Lapa, 1902 ou 1903. Coleção  Cartões Postais de Antônio Miranda. Centro de Memória da Unicamp – CMU.

[2] 1º Ciclo – região do Vale do Paraíba- primeiro quartel até meados do século XIX.

2º ciclo – região de Campinas – Oeste paulista – meados do século XIX e princípio do XX;

3º ciclo – região de Ribeirão Preto – “Novo” Oeste paulista – até 1930.

 

Referências bibliográficas

  • GOMES, Geraldo. Engenho & Arquitetura. 2ª ed. Recife: Fundação Gilberto Freire, 1998.
  • Il Brasile e gli italiani. Firenze : Pubblicazione del Fanfulla, R. Bemporad e Figlio, 1906.
  • Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D.Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.
  • MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba, c. 1830-1860. An. mus. paul.,  São Paulo ,  v. 13, n. 2, p. 165-188,  Dec.  2005 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142005000200006&lng=en&nrm=iso>. access on  10  June  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-47142005000200006.

Relatos de viajantes utilizados na pesquisa:

  • LAÈRNE, C.F. Val Delden. Le Brèsil et java. Rapport sur la culture du café en Amérique, Asie et Afrique. La Haye: martinus Nighoff, 1885.
  • MENDES, J.E. Teixeira. Lavoura cafeeira paulista (velhas fazendas do município de Campinas). Campinas: Instituto Agronômico do Estado, 1947.
  • RIBEYROLLES, Charles de. 1812-1860. Brasil Pitoresco: história, descrição, viagens, colonização, instituições. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.
  • TAUNAY, Affonso d’Escrangolle. A propagação da cultura cafeeira. São Paulo: Edição do Departamento Nacional do Café, 1934.
  • TSCHUDI, J.J. Von. Viagens às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976.
  • ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo: 1860-1861. São Paulo: Martins, 1976.

 

 

 

“O Arquivo Municipal terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho”: Entrevista a Salomé Eiras, responsável do Arquivo Municipal dos Arcos de Valdevez

O Arquivo Municipal dos Arcos de Veldevez terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho/ história de vida/ memórias para publicar no portal: Entrevista a Salomé Eiras, responsável do Arquivo Municipal dos Arcos de Valdevez e do projeto Portal da Memória Arcuense

(Archivoz) Como nasceu o arquivo municipal dos Arcos de Valdevez?

(SE) O Arquivo Municipal José Terra, de Arcos de Valdevez, inaugurado a 11 de Julho de 2013, surgiu no âmbito de uma candidatura ao QREN (Quadro de Referência Estratégica Nacional) em 2009, com a reconstrução das antigas instalações do jornal semanário “Notícias dos Arcos”, em plena Praça Municipal. Sob a dependência da Divisão do Desenvolvimento Sociocultural, o Arquivo Municipal é responsável pela gestão arquivística da documentação produzida e recebida pela Câmara Municipal; compete-lhe, portanto, a recolha, selecção, avaliação, tratamento, gestão e difusão da documentação proveniente dos órgãos e serviços da Câmara Municipal, nas fases de arquivo intermédio e histórico, bem como recolher e tratar tecnicamente os arquivos e conjuntos documentais pertencentes a outras entidades do concelho de Arcos de Valdevez, com interesse histórico, patrimonial, arquivístico e/ou informativo, sempre que solicitado para esse efeito.

Atualmente, o Arquivo Municipal de Arcos de Valdevez tem certificação de qualidade e integra a rede de arquivos municipais do distrito de Viana do Castelo.

(Archivoz) Como surgiu o projeto do portal da Memória Arcuense?

(SE) O Portal da Memória Arcuense surgiu da vontade do município em perpetuar a memória de um concelho tão rico em História e tradições como é Arcos de Valdevez, numa plataforma online, acessível a todos e ao mundo, reunindo testemunhos orais e escritos marcantes da história local e comunidade.

(Archivoz) Explique-nos a estrutura do Portal.

(SE) Numa primeira fase, procedeu-se à reunião e digitalização de toda a colecção de jornais concelhios, bem como das publicações apoiadas pela Câmara Municipal; as figuras relevantes na história e desenvolvimento do concelho não foram esquecidas, assim como as histórias de vida de quem as deseja partilhar, sublinhando deste modo, tradições que ainda persistem, ou se perderam no tempo. No entanto, com o avançar do trabalho, a pretensão foi mais longe, e decidiu-se alargar o projecto, focando o trabalho também nos conteúdos e monumentos arqueológicos existentes, passando pelos testemunhos das Guerras Mundiais, Estado-Novo, ou do Ultramar. Uma descrição de todas as freguesias, fundamentada na pesquisa dos registos existentes no Arquivo Distrital de Braga, será também possível de consultar, na segunda versão do Portal, ainda em conclusão, mas lançado muito em breve.

(Archivoz) Qual a importância da disponibilização da Hemeroteca Digital? Quais foram os critérios de escolha dos periódicos?

(SE) A hemeroteca digital, tal como foi acima referido, foi o ponto de partida para a elaboração do projecto, já que é uma documentação muito solicitada; funcionando como um espelho social e cultural, e como ferramenta de trabalho para muitos, tornou-se imperativo torna-la acessível a quem vive fora do concelho, e até do país. Assim, procedemos à digitalização de todas as publicações existentes na Biblioteca Municipal, iniciando o trabalho pelos mais antigos; neste processo deparamo-nos, infelizmente, com várias lacunas, pelo que convidamos os leitores que tenham este tipo de espólio consigo, a cederem-nos edições que se verifiquem em falta (em digital, ou em papel), de forma a enriquecer esta hemeroteca, que é de todos. De momento, temos online sete jornais, mas no novo Portal teremos 23; serão milhares de imagens acessíveis gratuitamente ao público, de 1886 até ao presente.

(Archivoz) Qual a interação entre o arquivo municipal e o portal da memória arcuense?

(SE) O Arquivo Municipal terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho/ história de vida/ memórias para publicar no portal, do anónimo ao “famoso”, toda a gente é bem-vinda a partilhar.

Está também encarregue da digitalização de toda a documentação inserida no Portal, bem como da pesquisa necessária nas diversas rubricas. Contudo, este projecto conta também com a cooperação da Biblioteca Municipal Tomás de Figueiredo.

 “Os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar de forma organizada a memória institucional”. Entrevista com Luísa Alvim, arquivista do Arquivo Municipal Alberto Sampaio – Vila Nova de Famalicão

(Archivoz) O que a levou das bibliotecas aos arquivos? Como uma bibliotecária se transformou numa arquivista?

(LA) Vim trabalhar para o Arquivo Municipal Alberto Sampaio, no município Vila Nova de Famalicão (Portugal), em junho de 2014. Tenho formação na área das Ciências Documentais, na variante de bibliotecas, tendo sido sempre profissional de informação nas instituições deste tipo, há mais de 26 anos. Quando fui convidada a ingressar no arquivo municipal, para trabalhar os fundos mais antigos, foi um grande desafio!

(Archivoz) E como encarou esse desafio?

(LA) Comecei por observar o que outros arquivistas fazem a nível profissional, a inteirar-me de procedimentos, técnicas, normas, etc. Foi um tempo de aprendizagem ainda em processo! Aprendi muito através de conversas, consulta de bibliografia, ações de formação e em 2015 já tinha disponibilizado online muita informação no portal Archeevo do Arquivo Municipal.

(Archivoz) conte-nos um pouco de todo esse processo de tratamento arquivístico

(LA) Comecei os meus trabalhos arquivísticos com a disponibilização da descrição arquivística do Fundo da Administração do Concelho de V.N. Famalicão. Primeiro, construí o Plano de classificação para este fundo, datado de 1856 a 1930 e fiz a sua descrição arquivística até ao nível de unidades de instalação. Esta documentação reflete as funções da Administração de natureza policial e de controlo de diversas atividades, desde o recenseamento e recrutamento militar ao registo de passaportes, passando pela tutela das contas de juntas de paróquia e confrarias. No âmbito da administração local de referir ainda documentos provenientes da antiga Câmara do Couto de Landim e várias Juntas de Paróquia e Juntas de Freguesia, sem esquecer os antigos Julgados de Paz, a Junta Escolar e a Comissão Municipal de Assistência.

(Archivoz) quer destacar alguns dos fundos que tratou?

(LA) Avancei, posteriormente, para trabalhar o arquivo pessoal do patrono do arquivo – Alberto Sampaio (1841-1908). Esta personalidade estudou na Universidade de Coimbra, concluindo o bacharelato em 1863, onde conviveu com algumas figuras notáveis da sua geração, entre as quais Antero de Quental, José Falcão, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, António de Azevedo Castelo Branco e Alberto Teles. Regressou ao Minho, à Quinta de Boamense, propriedade dos seus pais, situada na freguesia de Cabeçudos, concelho de Vila Nova de Famalicão. O seu nome está também ligado à fundação da Sociedade Martins Sarmento. Considerado, no seu tempo, um profundo conhecedor do mundo rural, especialmente no domínio da vitivinicultura, área em que a excelência dos vinhos verdes produzidos em Boamense foram internacionalmente premiados. Foi o autor de As Vilas do Norte de Portugal e, mais tarde, As Póvoas Marítimas, duas obras-primas, das quais a última, sobre as origens da nossa aventura marítima.

(Archivoz) Quais foram as etapas do tratamento do arquivo pessoal de Alberto Sampaio?

(LA) O arquivo privado que aqui refiro é somente a uma parte daquilo que seria o todo da produção de informação desta personalidade. Optou-se por uma organização em Sistema de Informação, pretendeu-se reconstituir o contexto orgânico-funcional e temporal de produção e receção da informação. O modelo sistémico adotado reconstruiu a documentação no contexto orgânico-funcional originário e refletiu a estrutura organizada naturalmente por objetivos atingidos através de funções e atribuições, ações e tarefas de Alberto Sampaio. O arquivo foi completamente digitalizado e disponibilizado juntamente com a descrição arquivística no portal do Arquivo Municipal.

(Archivoz) E outros desafios arquivísticos, quer partilhar connosco?

(LA) Um grande desafio foi trabalhar o fundo da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Famalicão (1890 – 2004), que chegou ao Arquivo Municipal por doação em condições físicas muito más. Neste caso, as minhas tarefas foram desde a limpeza ao acondicionamento, passando pela construção de um plano de classificação, descrição e disponibilização online no portal das imagens dos documentos e respetiva descrição. Este trabalho teve impacto na comunidade local e fui convidada a organizar uma exposição sobre esta Corporação de Bombeiros com base no seu arquivo.

(Archivoz) então esta experiência, ao ter impacto na comunidade local, abriu as portas para novos trabalho?

(LA) Após estes trabalhos, iniciei uma fase de tratamento de espólios familiares de personalidades locais, nomeadamente o fundo de José de Azevedo e Men