Revista Archivoz

A importância das fontes primárias para a pesquisa histórica: o caso da Senzala da Fazenda da Lapa de Campinas (Brasil). Entrevista com a Professora Sílvia Zakia., Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo.

No ano de 2018, a Sociedade Hípica de Campinas/São Paulo/Brasil, em comemoração ao 70º Aniversário do clube, implantou o seu Centro de Memória. A Hípica, um clube poliesportivo, foi fundado em 27/10/1948 numa antiga fazenda de café – a Fazenda da Lapa. A Fazenda está sediada antiga na  sesmaria do Mato Dentro, um instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras destinadas à produção agrícola, destinado a particulares no período da colonização (em Portugal e no Brasil).

Ao identificar os documentos históricos do Clube para compor os acervos do Centro de Memória, os historiadores encontraram uma pesquisa sobre um dos edifícios da fazenda: a Senzala. No imaginário dos associados da Hípica, a escravidão na fazenda era “lenda”. Mas uma pesquisa da Professora Sílvia Zakia, Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, comprovou a existência de escravos na fazenda de café. Com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre essa história, a Archivoz entrevistou a Professora, para falarmos sobre a pesquisa que realizou sobre este edifício e sobre a importância das fontes primárias na comprovação de seus dados, que ainda de acordo com ela, foi fundamental no projeto de restauração do edifício no ano do cinquentenário da Hípica em 1998.

(ARCHIVOZ): Até a década de 1980, a ideia de patrimônio arquitetônico estava relacionada a bens de excepcional qualidade artística, conceito recentemente ampliado e abrangendo também os edifícios considerados testemunhos históricos da nossa memória coletiva. De lá para cá, o que mudou no conceito do patrimônio arquitetônico/histórico?

(S .Z.): Cumpre ressaltar, que no caso brasileiro, o primeiro órgão de preservação do patrimônio foi criado em 1937, SPHAN, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Grosso modo, num primeiro momento a noção de patrimônio arquitetônico esteve vinculada aos bens de excepcional valor artístico e estético. No entanto, o entendimento sobre patrimônio, foi ao longo do tempo, ampliado. A partir, das décadas de 1970 e 80, a noção de valor histórico invocando questões de representatividade e de exemplaridade foi incorporada à conceituação de preservação. Ademais, a criação de órgãos de preservação, estaduais e municipais vem também, nesse sentido, ampliar o escopo de atuação.

Ao lado do patrimônio barroco das igrejas mineiras encontram-se tombados, hoje, hospitais, escolas, palacetes ecléticos, vilas operárias, estações de trem, fábricas, estádios de futebol, enfim, uma variedade de edificações representativas de nossa história. Além das edificações, propriamente ditas, também passam a figurar como patrimônio, conjuntos arquitetônicos, como por exemplo, os bairros e também sítios históricos como fazendas, vilas, casarios, terreiros de candomblé, etc. Um patrimônio mais diversificado e plural, que espelha o conjunto da sociedade em seus vários momentos históricos.

(ARCHIVOZ): A senzala da Fazenda da Lapa de Campinas, onde hoje está sediada a Sociedade Hípica, é uma das únicas edificações remanescentes do conjunto original da fazenda, e também um dos poucos exemplares ainda existentes na região. Gostaria que a Professora falasse sobre este patrimônio, tão importante para a história da cidade.

(S.Z.): O conjunto da Fazenda da Lapa está inserido no recorte histórico que compreende a segunda metade do século XIX, período que contextualiza o surgimento e apogeu da fazenda enquanto produtora de café. Nesse sentido, é exemplar de uma tipologia própria da região campineira[1]. Sobre o patrimônio arquitetônico rural, no geral, encontramos maior número de remanescentes das sedes de fazenda de café e das casas-grandes dos engenhos. É mais difícil encontrar o conjunto completo de edificações destas propriedades rurais. Em Campinas, especificamente, temos duas situações distintas: engenhos de açúcar que foram transformados em fazendas de café e as fazendas de café propriamente ditas. No primeiro caso, tanto a casa senhorial como as instalações produtivas foram transformadas para atender às novas exigências produtivas e nesse sentido, as demolições e novas construções foram acrescidas aos novos complexos produtivos rurais.

A Fazenda da Lapa foi fundada, em 1849, é fruto de desmembramento do Engenho Mato Dentro. O conjunto arquitetônico original foi especificamente construído para atender ao processo produtivo cafeeiro, e constituiu importante exemplar da tipologia arquitetônica das fazendas de café da região de Campinas[2], região esta, que corresponde a do segundo período de expansão cafeeira.

As fazendas de café eram praticamente autossuficientes, seguindo o mesmo conceito dos engenhos, onde quase tudo era produzido ou criado “in loco”: moradia, alimentação, materiais de construção, vestiário, criação de animais etc. A organização da lavoura cafeeira, assim como a do açúcar, era baseada na monocultura exportadora e no trabalho escravo, posteriormente substituído pelo trabalho livre do imigrante. Como propriedade rural autossuficiente, o complexo arquitetônico edificado das fazendas de café tinha como objetivo atender todas as exigências necessárias ao seu pleno funcionamento.

As residências (do senhor e dos escravos), tulha, beneficiamento, escolha, terreiro e a área de serviços secundários à produção eram construções formuladas individualmente, mas com estreita relação ao novo personagem: o terreiro de secagem. Em síntese, as edificações que compõem o conglomerado “cafezista” eram as seguintes: Sede – moradia do grande proprietário rural; Terreiro – que se destinava à secagem do café; Tulha – grandes edifícios para armazenamento do café; Casa-de-máquinas – edifício específico para abrigar as máquinas destinadas ao beneficiamento do café; Capela; Muros de taipa – os limites do conglomerado eram demarcados por extensos muros de taipa de pilão; Senzalas – em geral, constituíam-se de um edifício alongado dividido em lanços sucessivos, coberto por um único telhado corrido de duas “águas”, que poderia ser em linha ou em quadra. Quando em quadra era designado de “curro” ou quadrado. Esta disposição em “curro” era própria de fazendas com grande número de escravos (caso da Fazenda da Lapa), pois este partido facilitava o controle da escravaria.

A sede da Fazenda da Lapa era um grande sobrado, de implantação à meia encosta, com paredes de taipa de pilão e divisórias de pau-a-pique. Um misto do sistema construtivo paulista e mineiro. Um “sobradão” com planta em “L” e telhado de quatro “águas”. No primeiro lanço ficavam as salas, no intermediário os dormitórios e alcovas, e no lanço posterior a grande varanda. No prolongamento que formava o “L”, estavam situadas a cozinha e dependências de serviço. Uma escada central à frente da sede fazia a ligação entre jardim e o nível da moradia, que se desenvolvia neste piso. O nível inferior possivelmente, utilizado como depósito. Uma construção lateral alinhada à sede se prolongava até o quadrado, possivelmente esta edificação teria sido a primitiva senzala da fazenda. Um grande quadrado de senzalas abrigaria posteriormente uma vasta escravaria: aproximadamente 155 escravos inventariados em 1868. Extensos muros de taipa fechavam o conjunto, restando hoje apenas um pequeno pedaço de muro contíguo à senzala. A tulha e casa-de-máquina ficavam num nível abaixo do terreiro. Acima deste conjunto agenciado em quadra, ficava outro terreiro provavelmente mais recente.

(ARCHIVOZ): Sílvia, como se deu o processo da sua investigação? Quais os documentos consultados e as informações levantadas, que sabemos, foram fundamentais para o processo de restauro do edifício da senzala em 1998, ano do cinquentenário da Sociedade Hípica de Campinas?

(S.Z.): O estudo sobre o conjunto edificado da Fazenda Lapa foi realizado a partir de fontes documentais primárias, da iconografia, dos relatos dos viajantes e principalmente a partir da consulta dos inventários de particulares que estão no Arquivo Histórico do Centro de Memória da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Estes materiais foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa e para a reconstituição hipotética do conjunto do edifício original. A partir das informações coletadas no inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, realizado em 1868, pudemos comprovar a existência de um contingente expressivo de escravos na Fazenda Lapa. Estavam registrados, no inventário, cento e cinquenta e cinco escravos, cujo montante total representava praticamente o dobro do valor das terras:

Benfeitorias e terras do sítio Mato Dentro de Baixo (Fazenda Lapa) correspondem a 94:300$000 mil réis;

155 escravos, no valor de 182:560$000 mil réis;

240 mil pés de café, no valor de 80:700$000 mil réis.

As terras e benfeitorias representavam 26,3% do montante total; os pés de café correspondiam a 22,6% e o lote de escravos… 51% restantes. Portanto, os dados contidos nos inventários fornecem importantes subsídios para pesquisas em variados campos disciplinares. No caso em questão, conseguimos comprovar, de um lado, a relevância econômica do escravo para o proprietário, e por outro, que o contingente expressivo de cento e cinquenta e cinco pessoas exigia um abrigo de grandes proporções, ou seja, uma senzala de grandes dimensões configurada de maneira a assegurar o controle do precioso bem.

Muitos inventários particulares do século XIX já estão disponíveis para pesquisadores no acervo do Arquivo Histórico do Centro de Memória da Universidade de Campinas. Sua consulta, obviamente, requer cuidados especiais para manuseio. São documentos originais, raros, e por vezes, em estado delicado de conservação. Quando realizei a pesquisa, entre 1998 e 1999, os inventários estavam disponíveis, exclusivamente, para leitura. O pesquisador podia copiar a lápis os dados que lhe interessavam. Cada acervo possui suas regras passíveis de alterações.

Em suma, posso asseverar que os inventários são fontes primárias essenciais para pesquisadores, contêm dados precisos, que podem fornecer subsídios para inúmeras análises. Uma ligeira visada sobre as designações do registro dos escravos da Fazenda Lapa permite identificar: origem, sexo, atividade exercida, e seus respectivos valores:

Procedência: Francisco Mineiro (1:000$000); Luiz Congo (2:000$000); Manoel Congo (700:000$000); José Pernambucano (2:500$000); Alexandre Baiano (1:900$0000). Atividade: Carlos cozinheiro (2:000$000); Trajano Copeiro (1:900$000); José Pedreiro (2:100$000); Antônio Monjolo (400:000$000); José copeiro (1:800$000); Joaquim Monjolo (400:$000); Benedito Monjolo (500$000); Francisco Alfaiate (1:200$000); Faixa etária: Anna Velha (50$000); Violante Velha (200$000); Caetano Velho (200$000); João Velho (50$000); Sebastião Velho (1:800$000); Firmina 13 anos (1:600$000).

(ARCHIVOZ): Agradecemos a Professora Silvia pela entrevista, e por nos contar sobre a importância da pesquisa com fontes primárias, que teve como um dos seus objetivos principais comprovar, e até mesmo desmistificar assuntos e temas tão importantes para a história brasileira, como a escravidão.

(S.Z.): Eu é que agradeço a oportunidade, agradecida por poder colaborar com a Archivoz. Os inventários podem ser consultados pessoalmente, pois ainda não foram digitalizados. Segue o site: https://www.cmu.unicamp.br/: Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D. Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.

 

[1] A fotografia do complexo cafezista da Fazenda da Lapa, registrada pelo fotógrafo suiço Guilherme Gaesnly, foi apresentada na publicação Il Brasile e gli italiani, obra patrocinada pelo governo brasileiro que tinha como objetivo atrair imigrantes italianos. Do lado esquerdo da imagem, ao fundo, o “quadrado” da senzala. Crédito fotográfico: Guilherme Gaensly,  Fazenda da Lapa, 1902 ou 1903. Coleção  Cartões Postais de Antônio Miranda. Centro de Memória da Unicamp – CMU.

[2] 1º Ciclo – região do Vale do Paraíba- primeiro quartel até meados do século XIX.

2º ciclo – região de Campinas – Oeste paulista – meados do século XIX e princípio do XX;

3º ciclo – região de Ribeirão Preto – “Novo” Oeste paulista – até 1930.

 

Referências bibliográficas

  • GOMES, Geraldo. Engenho & Arquitetura. 2ª ed. Recife: Fundação Gilberto Freire, 1998.
  • Il Brasile e gli italiani. Firenze : Pubblicazione del Fanfulla, R. Bemporad e Figlio, 1906.
  • Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D.Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.
  • MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba, c. 1830-1860. An. mus. paul.,  São Paulo ,  v. 13, n. 2, p. 165-188,  Dec.  2005 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142005000200006&lng=en&nrm=iso>. access on  10  June  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-47142005000200006.

Relatos de viajantes utilizados na pesquisa:

  • LAÈRNE, C.F. Val Delden. Le Brèsil et java. Rapport sur la culture du café en Amérique, Asie et Afrique. La Haye: martinus Nighoff, 1885.
  • MENDES, J.E. Teixeira. Lavoura cafeeira paulista (velhas fazendas do município de Campinas). Campinas: Instituto Agronômico do Estado, 1947.
  • RIBEYROLLES, Charles de. 1812-1860. Brasil Pitoresco: história, descrição, viagens, colonização, instituições. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.
  • TAUNAY, Affonso d’Escrangolle. A propagação da cultura cafeeira. São Paulo: Edição do Departamento Nacional do Café, 1934.
  • TSCHUDI, J.J. Von. Viagens às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976.
  • ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo: 1860-1861. São Paulo: Martins, 1976.

 

 

 

“O Arquivo Municipal terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho”: Entrevista a Salomé Eiras, responsável do Arquivo Municipal dos Arcos de Valdevez

O Arquivo Municipal dos Arcos de Veldevez terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho/ história de vida/ memórias para publicar no portal: Entrevista a Salomé Eiras, responsável do Arquivo Municipal dos Arcos de Valdevez e do projeto Portal da Memória Arcuense

(Archivoz) Como nasceu o arquivo municipal dos Arcos de Valdevez?

(SE) O Arquivo Municipal José Terra, de Arcos de Valdevez, inaugurado a 11 de Julho de 2013, surgiu no âmbito de uma candidatura ao QREN (Quadro de Referência Estratégica Nacional) em 2009, com a reconstrução das antigas instalações do jornal semanário “Notícias dos Arcos”, em plena Praça Municipal. Sob a dependência da Divisão do Desenvolvimento Sociocultural, o Arquivo Municipal é responsável pela gestão arquivística da documentação produzida e recebida pela Câmara Municipal; compete-lhe, portanto, a recolha, selecção, avaliação, tratamento, gestão e difusão da documentação proveniente dos órgãos e serviços da Câmara Municipal, nas fases de arquivo intermédio e histórico, bem como recolher e tratar tecnicamente os arquivos e conjuntos documentais pertencentes a outras entidades do concelho de Arcos de Valdevez, com interesse histórico, patrimonial, arquivístico e/ou informativo, sempre que solicitado para esse efeito.

Atualmente, o Arquivo Municipal de Arcos de Valdevez tem certificação de qualidade e integra a rede de arquivos municipais do distrito de Viana do Castelo.

(Archivoz) Como surgiu o projeto do portal da Memória Arcuense?

(SE) O Portal da Memória Arcuense surgiu da vontade do município em perpetuar a memória de um concelho tão rico em História e tradições como é Arcos de Valdevez, numa plataforma online, acessível a todos e ao mundo, reunindo testemunhos orais e escritos marcantes da história local e comunidade.

(Archivoz) Explique-nos a estrutura do Portal.

(SE) Numa primeira fase, procedeu-se à reunião e digitalização de toda a colecção de jornais concelhios, bem como das publicações apoiadas pela Câmara Municipal; as figuras relevantes na história e desenvolvimento do concelho não foram esquecidas, assim como as histórias de vida de quem as deseja partilhar, sublinhando deste modo, tradições que ainda persistem, ou se perderam no tempo. No entanto, com o avançar do trabalho, a pretensão foi mais longe, e decidiu-se alargar o projecto, focando o trabalho também nos conteúdos e monumentos arqueológicos existentes, passando pelos testemunhos das Guerras Mundiais, Estado-Novo, ou do Ultramar. Uma descrição de todas as freguesias, fundamentada na pesquisa dos registos existentes no Arquivo Distrital de Braga, será também possível de consultar, na segunda versão do Portal, ainda em conclusão, mas lançado muito em breve.

(Archivoz) Qual a importância da disponibilização da Hemeroteca Digital? Quais foram os critérios de escolha dos periódicos?

(SE) A hemeroteca digital, tal como foi acima referido, foi o ponto de partida para a elaboração do projecto, já que é uma documentação muito solicitada; funcionando como um espelho social e cultural, e como ferramenta de trabalho para muitos, tornou-se imperativo torna-la acessível a quem vive fora do concelho, e até do país. Assim, procedemos à digitalização de todas as publicações existentes na Biblioteca Municipal, iniciando o trabalho pelos mais antigos; neste processo deparamo-nos, infelizmente, com várias lacunas, pelo que convidamos os leitores que tenham este tipo de espólio consigo, a cederem-nos edições que se verifiquem em falta (em digital, ou em papel), de forma a enriquecer esta hemeroteca, que é de todos. De momento, temos online sete jornais, mas no novo Portal teremos 23; serão milhares de imagens acessíveis gratuitamente ao público, de 1886 até ao presente.

(Archivoz) Qual a interação entre o arquivo municipal e o portal da memória arcuense?

(SE) O Arquivo Municipal terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho/ história de vida/ memórias para publicar no portal, do anónimo ao “famoso”, toda a gente é bem-vinda a partilhar.

Está também encarregue da digitalização de toda a documentação inserida no Portal, bem como da pesquisa necessária nas diversas rubricas. Contudo, este projecto conta também com a cooperação da Biblioteca Municipal Tomás de Figueiredo.

 “Os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar de forma organizada a memória institucional”. Entrevista com Luísa Alvim, arquivista do Arquivo Municipal Alberto Sampaio – Vila Nova de Famalicão

(Archivoz) O que a levou das bibliotecas aos arquivos? Como uma bibliotecária se transformou numa arquivista?

(LA) Vim trabalhar para o Arquivo Municipal Alberto Sampaio, no município Vila Nova de Famalicão (Portugal), em junho de 2014. Tenho formação na área das Ciências Documentais, na variante de bibliotecas, tendo sido sempre profissional de informação nas instituições deste tipo, há mais de 26 anos. Quando fui convidada a ingressar no arquivo municipal, para trabalhar os fundos mais antigos, foi um grande desafio!

(Archivoz) E como encarou esse desafio?

(LA) Comecei por observar o que outros arquivistas fazem a nível profissional, a inteirar-me de procedimentos, técnicas, normas, etc. Foi um tempo de aprendizagem ainda em processo! Aprendi muito através de conversas, consulta de bibliografia, ações de formação e em 2015 já tinha disponibilizado online muita informação no portal Archeevo do Arquivo Municipal.

(Archivoz) conte-nos um pouco de todo esse processo de tratamento arquivístico

(LA) Comecei os meus trabalhos arquivísticos com a disponibilização da descrição arquivística do Fundo da Administração do Concelho de V.N. Famalicão. Primeiro, construí o Plano de classificação para este fundo, datado de 1856 a 1930 e fiz a sua descrição arquivística até ao nível de unidades de instalação. Esta documentação reflete as funções da Administração de natureza policial e de controlo de diversas atividades, desde o recenseamento e recrutamento militar ao registo de passaportes, passando pela tutela das contas de juntas de paróquia e confrarias. No âmbito da administração local de referir ainda documentos provenientes da antiga Câmara do Couto de Landim e várias Juntas de Paróquia e Juntas de Freguesia, sem esquecer os antigos Julgados de Paz, a Junta Escolar e a Comissão Municipal de Assistência.

(Archivoz) quer destacar alguns dos fundos que tratou?

(LA) Avancei, posteriormente, para trabalhar o arquivo pessoal do patrono do arquivo – Alberto Sampaio (1841-1908). Esta personalidade estudou na Universidade de Coimbra, concluindo o bacharelato em 1863, onde conviveu com algumas figuras notáveis da sua geração, entre as quais Antero de Quental, José Falcão, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, António de Azevedo Castelo Branco e Alberto Teles. Regressou ao Minho, à Quinta de Boamense, propriedade dos seus pais, situada na freguesia de Cabeçudos, concelho de Vila Nova de Famalicão. O seu nome está também ligado à fundação da Sociedade Martins Sarmento. Considerado, no seu tempo, um profundo conhecedor do mundo rural, especialmente no domínio da vitivinicultura, área em que a excelência dos vinhos verdes produzidos em Boamense foram internacionalmente premiados. Foi o autor de As Vilas do Norte de Portugal e, mais tarde, As Póvoas Marítimas, duas obras-primas, das quais a última, sobre as origens da nossa aventura marítima.

(Archivoz) Quais foram as etapas do tratamento do arquivo pessoal de Alberto Sampaio?

(LA) O arquivo privado que aqui refiro é somente a uma parte daquilo que seria o todo da produção de informação desta personalidade. Optou-se por uma organização em Sistema de Informação, pretendeu-se reconstituir o contexto orgânico-funcional e temporal de produção e receção da informação. O modelo sistémico adotado reconstruiu a documentação no contexto orgânico-funcional originário e refletiu a estrutura organizada naturalmente por objetivos atingidos através de funções e atribuições, ações e tarefas de Alberto Sampaio. O arquivo foi completamente digitalizado e disponibilizado juntamente com a descrição arquivística no portal do Arquivo Municipal.

(Archivoz) E outros desafios arquivísticos, quer partilhar connosco?

(LA) Um grande desafio foi trabalhar o fundo da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Famalicão (1890 – 2004), que chegou ao Arquivo Municipal por doação em condições físicas muito más. Neste caso, as minhas tarefas foram desde a limpeza ao acondicionamento, passando pela construção de um plano de classificação, descrição e disponibilização online no portal das imagens dos documentos e respetiva descrição. Este trabalho teve impacto na comunidade local e fui convidada a organizar uma exposição sobre esta Corporação de Bombeiros com base no seu arquivo.

(Archivoz) então esta experiência, ao ter impacto na comunidade local, abriu as portas para novos trabalho?

(LA) Após estes trabalhos, iniciei uma fase de tratamento de espólios familiares de personalidades locais, nomeadamente o fundo de José de Azevedo e Menezes (1849-1938), que foi um erudito que colaborou em variadíssimos jornais: Novidades, O Primeiro de Janeiro, Nova Alvorada, Correio do Minho, Progresso Católico e A Palavra, do Porto, de que foi um dos fundadores. Publicou Ninharias (1911); foi um dos inspiradores da reconstrução da casa de São Miguel de Seide, destruída pelo incêndio de 1915, e que é hoje a Casa-Museu de Camilo. Também todo o seu arquivo já está online no portal.

Atualmente, encontro-me a realizar o tratamento do Arquivo da Casa de Pindela. Aqui também me cabem todas as tarefas arquivísticas: (só não faço a digitalização porque tenho a trabalhar comigo uma colaboradora) acondicionamento e limpeza do fundo de documentos, inventariação, descrição arquivística dos documentos individuais, criação de um Sistema de Informação, carregamento do fundo no software Archeevo. Este fundo tem dimensões enormes, abarca 15 gerações de família do morgadio de Pindela (V.N. de Famalicão) e outos 6 subfundos de famílias que se cruzam com a Casa de Pindela, documentos desde séc. XVI ao século XX. Foi minha opção, trabalhar, no ano 2018 a 2020, a descrição da 14ª geração onde se destacam personagens importantes para a história do concelho e a nível nacional, nomeadamente o Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, e o seu irmão 2º Visconde de Pindela, Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada, e as respetivas famílias e outros relacionamentos profissionais e políticos.

Sempre que possível, trabalho pequenos arquivos de instituições locais e de espólio do município: Rotary Club de Famalicão, o arquivo do Museu da Guerra Colonial, o Projeto do Novo Edifício dos Paços de Concelho, Tribunal, etc. do arquiteto Januário Godinho (1952-1961).

(Archivoz) E perspetivas de futuro? Sente que necessita de uma equipa?

(LA) É com enorme paixão que me dedico a estes trabalhos arquivísticos, não sendo arquivista de formação inicial, penso que me adaptei, estudei e trabalhei para exercer com qualidade as funções que me foram solicitadas neste Arquivo Municipal. Este arquivo tem uma equipa de colaboradores, mas que têm funções só no arquivo administrativo corrente. Tenho pena de não ter uma equipa de trabalho neste departamento dos fundos históricos, exceto a colaboradora especialista na digitalização, que me ajudaria a crescer profissionalmente e a produzir melhores trabalhos.

(Archivoz) Para Finalizar uma última pergunta, Falou diversas vezes em digitalizações. Considera que os arquivos acompanham as novas tecnologias e os arquivistas terão futuro?

(LA) Em geral, os arquivistas precisam se esforçar mais em conhecer e explorar a tecnologia a favor da sua rotina profissional, tanto as novas soluções associadas à digitalização como às tarefas do processo arquivístico. Quanto ao futuro, acredito que os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar, consolidar e armazenar de forma organizada a memória institucional tanto de entidades individuais como coletivas, empresas, associações etc. Cada vez mais a informação tem valor acrescido e a consciência do poder da informação tratada e organizada tem um grande valor estratégico para a tomada de decisão das instituições.

Formar quadros: profissionais e profissão na preservação audiovisual

Em 1995, Ray Edmondson lançava em um artigo[1] a seguinte indagação: Is Film Archivng a Profession?[2]. Evocando a pergunta no próprio título do artigo, o autor elenca ao longo do trabalho os elementos que considerava essenciais e que faltariam à arquivística audiovisual para sua consolidação e reconhecimento como profissão. Edmondson parte da própria definição do termo “profissão”, descrevendo-o como:

(…) um campo de trabalho remunerado que envolve preparação e treinamento a nível universitário (…) envolve habilidades e experiência diversas, visão global, padrões e ética. Implica desenvolvimento contínuo de sua base de conhecimento definidora e de seus praticantes individuais.[3]

Ainda neste texto, Edmondson faz uma primeira definição do campo da arquivística audiovisual, problematizando a documentação que a área abrangeria e distanciando-se de uma noção que consideraria esta como um segmento da arquivística/arquivologia[4]. Para o autor, esta delimitação da área de atuação dos arquivistas audiovisuais é importante para que a imagem pública da profissão ganhe maior clareza, assegurando que estes profissionais tenham seus direitos devidamente garantidos.

Atualmente, Edmondson é um dos profissionais mais respeitados da área e sua obra Filosofia e princípios da arquivística audiovisual a principal referência no assunto – que vêm ganhando relevância crescente na medida em que a fragilidade e necessidade de preservação dos suportes audiovisuais tornam-se cada vez mais evidentes.

Para refletir estas questões foram entrevistados profissionais de sete instituições que possuem acervos de natureza audiovisual, procurando, nas respostas, relatos de experiências e narrativas que trouxessem o aprendizado individual de cada profissional e permitisse o enriquecimento desta perspectiva global que pretendia dar sobre o assunto.

O resultado final desta pesquisa foi o reconhecimento de três blocos temáticos principais: “Aprendizados”; “Desafios” e “Perspectivas”. Estes refletem, de certo modo, a trajetória média do profissional da preservação audiovisual, compondo assim, cada um com as questões que lhes dizem respeito, um perfil geral desses profissionais. Aqui tratarei brevemente das percepções apreendidas nestes três eixos e o impacto de cada um nas atividades da área da arquivística audiovisual.

Profissão e Profissional

O surgimento da preservação dos documentos audiovisuais está intrinsicamente associada à história de sua produção, remetendo suas origens desde os anos de 1930, quando instituições começaram a armazenar filmes, que originalmente eram distribuídos comercialmente, para garantir seu legado artístico e cultural. O tema ganha relevância no âmbito internacional principalmente a partir das Recomendações da UNESCO, em 1980, que passa a reconhecer a importância dos acervos audiovisuais como patrimônio para a herança cultural global. Com a tomada de consciência de que os arquivos audiovisuais do século XX corriam risco de desaparecer, é trazida à ordem do dia a demanda do capacitamento profissional para este trabalho[5].

Neste cenário instituições como a FIAF, FIAT, IASA, ICA e a IFLA principiam a promover eventos e seminários com o objetivo de disseminar os conhecimentos acumulados nas últimas décadas e surgem organizações com o objetivo de atender as necessidades profissionais e individuais desta força de trabalho, como a AMIA (Association of Moving Image Archivists), fundada em 1991, e a SEAPAVAA (South Asia Pacific Audio Visual Archives Association), fundada em 1996, consolidando o processo.

Em 1995, quando lança a provocação, Edmonson escreve em um cenário no que a arquivística audiovisual já é compreendida como um campo que abarca todos os aspectos da guarda e recuperação de documentos audiovisuais, bem como a administração dos locais de sua guarda e das organizações responsáveis pela execução dessas tarefas.

No Brasil, a implementação de medidas em prol da conservação de acervo, nestas instituições, acontece de maneira mais sistemática somente a partir de meados dos anos 1970, com a Cinemateca Brasileira em São Paulo e a Filmoteca do MAM-RJ como figuras chave deste processo. O movimento toma corpo de forma ativa nos Anos 2000, momento a partir do qual os profissionais que atuam na área começam a se mobilizar e incentivar, sobretudo, as iniciativas de ampliação da produção teórica e técnica[6]. Em 2006 nasce a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, festival no qual ocorre em paralelo o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que reúne anualmente os representantes de dezenas de instituições responsáveis pela preservação do patrimônio audiovisual nacional. Ao final de cada Encontro é elaborada uma carta, disponibilizada no site do evento. As Cartas de Ouro Preto funcionam como um registro do que é deliberado no evento, as considerações, propostas, resoluções, encaminhamentos e demandas que são identificadas e formuladas.

Desdobramento direto dos debates das primeiras edições, durante o terceiro Encontro de Ouro Preto em 2008, é criada a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) com a missão de “estimular a conscientização e promover o interesse público pela salvaguarda e acesso ao patrimônio audiovisual brasileiro como fonte histórica, cultural artística, educativa e econômica[7]”. A partir de sua criação, a ABPA passa a ter o Encontro sob a sua responsabilidade, ampliando e aprofundando as discussões técnicas e buscando promover maior aproximação do setor de preservação audiovisual com o Estado, estabelecendo, assim, avanços na criação de políticas públicas nacionais para o setor.

Aprendizados

Ao longo do trabalho, cada nova visita deixava mais claro como os conhecimentos exigidos a esse profissional extrapolavam a sua formação original. Assim, ficou evidente a diversidade de formação dos profissionais envolvidos com a preservação dos acervos nas instituições. Essa pluralidade traz à tona duas considerações importantes: não há uma formação específica para a área e a lacuna deixada pela ausência formativa torna-se uma oportunidade profissional para mão de obra oriunda de outras áreas[8].

Muitos começam suas trajetórias na área como estagiários durante a graduação ou como mão de obra temporária, contratados para projetos específicos e aprendem sobre a documentação na prática. A aprendizagem e formação são relacionadas, porém, estão dissociadas na prática da profissão da arquivística audiovisual no Brasil. A falta de cursos não forma quadros para substituir os profissionais que se aposentam, na mesma medida é preciso tempo para treinar os novos contratados que chegam às instituições ainda “crus” e vindos de formações diversificadas. Este tempo hábil para a adaptação e treinamento dos profissionais nem sempre acaba sendo viável.

Outro ponto chave aqui é a rápida obsolescência da bibliografia especializada, que não é capaz de acompanhar a incessante renovação tecnológica com a qual o arquivista audiovisual deve lidar cotidianamente. Muitas vezes esta bibliografia não dá conta de responder às questões que surgem, ou por estar desatualizada, ou por ser específica demais, como no caso de manuais técnicos produzidos pelas próprias instituições: nem sempre o que funciona para uma, pode servir para a outra. O intercâmbio de experiências entre instituições e profissionais acaba sendo o principal recurso informativo para os trabalhadores da preservação audiovisual. Nesse sentido, o surgimento de novos espaços para o debate especializado sobre o tema e ações como a publicação do Plano Nacional de Preservação Audiovisual pela APBA em 2016[9] são fundamentais na instrumentalização plena das atividades do arquivista audiovisual no Brasil.

Desafios

No cotidiano, o trabalho diário depende, em grande medida, da instituição na qual o profissional atua. Fatores como disponibilidade de recursos e equipamentos, infraestrutura de armazenamento, manutenção da equipe e, principalmente, capacidade de planejamento em longo prazo são diretamente afetados pela cultura organizacional e a natureza da instituição.

O principal desafio, no entanto, é a questão tecnológica. Ligada de maneira intrínseca ao desenvolvimento das tecnologias, a preservação audiovisual tem que adaptar-se constantemente e repensar suas estratégias e técnicas, frente às mudanças de suporte, armazenamento e reprodução. Para Edmondson, essa urgência da atuação do arquivista audiovisual foi um dos fatores responsáveis pelo atraso em determinar questões filosóficas, teóricas e de reconhecimento profissional para a área. Problemáticas essas que acabaram por ficar em segundo plano de prioridades, frente às dificuldades diárias que a profissão demanda.[10]

Cada mudança tecnológica tem impacto em toda a cadeia produtiva, mas este impacto não está apenas na esfera da produção. Na preservação dos meios audiovisuais o impacto destas transformações tem um efeito devastador[11]. No atual contexto, o mundo digital, a digitalização é um processo inevitável e cada vez mais importante para a preservação audiovisual.  Não apenas como medida técnica, mas principalmente pela tendência das aquisições mais recentes serem nato-digitais, ou seja, geradas digitalmente e sem um correspondente analógico tangível. Estes procedimentos ainda estão em constante debate e apresentam uma série de questões fundamentais para o profissional, como a migração de suportes e o armazenamento do conteúdo digital. A questão digital tornou-se um desafio contínuo para o profissional que atua nestes acervos.

Perspectivas

A maior parte dos profissionais entrevistados no trabalho tinha longo tempo de casa nas respectivas instituições em que atuam, no entanto preocupa a falta de continuidade dos trabalhos realizados nos acervos. Da mesma forma que serviu de porta de entrada para muitos destes profissionais, a maior parte do tratamento destes acervos se dá por meio de projetos que contratam mão de obra temporária e tratando de questões pontuais, quando deveriam abarcar o processo de preservação como um todo e de forma contínua.

Isto acaba levando a uma falta de perspectiva, o que leva muitos profissionais a mudar de campo de atuação. A questão da formação é um dos principais fatores, além do econômico, uma vez que no Brasil não há cursos regulares específicos sobre o tema e os poucos oferecidos, em geral, exigem investimento financeiro expressivo, que o profissional não tem condições de arcar.

Se por um lado essa instabilidade profissional marca as últimas décadas do campo, Inês Aisengart aponta que a geração pós os anos 2000 teve “significativa atuação política”, sendo fundamental na “ampliação e o estabelecimento de políticas de preservação audiovisual, incentivo de seu ensino e melhoria das condições de trabalho”[12].

Considerações Finais

A questão da memória e do que deve ser preservado é algo extremamente atual. Sobre os meios audiovisuais, Jurandyr Noronha na década de 1940 já apontava que se trata de um “assunto da maior complexidade” e do qual não teria a “pretensão de o haver esgotado”[13] em seu texto, um dos primeiros em que se afirmava a necessidade de se fazer a prospecção do cinema nacional, encarado como “patrimônio nacional”. Hoje, após um longo caminho, a atividade do arquivista audiovisual é reconhecida como um campo distinto de atuação profissional, abrangendo padrões éticos e de conservação, melhores práticas de gestão de coleções, pesquisa histórica, exibição pública e interpretação de coleções e conservação cultural. No Brasil, as novas gerações têm avançado no tema, padronizando e sistematizando procedimentos e normas e ampliando o debate e a troca de experiências.

Trata-se de uma frente de trabalho crítica, que não tem tempo a perder e que necessita cada vez mais de profissionais empenhados e qualificados para garantir a preservação  de uma documentação complexa e extremamente relevante para a cultura contemporânea. Reconhecer estes profissionais e garantir a continuidade de seu trabalho é parte fundamental para a preservação dos documentos audiovisuais.

Referências Bibliográficas

ABPA. Plano Nacional de Preservação Audiovisual. 2016. Disponível em: <http://www.abpreservacaoaudiovisual.org/site/images/banners/PNPA.pdf> Acesso em 19 de janeiro de 2018.

COELHO, Maria Fernanda Curado. A experiência brasileira na conservação de acervos audiovisuais: um estudo de caso. 2009. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-19112010-083724/pt-br.php> Acesso em: 07 de outubro de 2016.

COSTA, Silvia Ramos Gomes da (Silvia Franchini). Ondas de destruição: a enfermidade do artefato tecnológico e o desafio da preservação audiovisual. 2012. Dissertação (Mestrado em Memória Social). UNIRIO, 2012.

EDMONDSON, Ray. Filosofia e princípios da arquivística audiovisual. Rio de Janeiro: ABPA; Cinemateca do MAM-RJ, 2013.

_________________. Audiovisual Archiving: philosophy and principles. Paris: Unesco, 2004.

_________________. Is film archiving a profession? In Film History, Vol. 7, Nº3, Film Preservation and Film Scholarship. 1995. pp. 245–255. Disponível em: JSTOR, <www.jstor.org/stable/3815091> Acesso em: 20 de janeiro de 2018.

LINDNER, Maria Laura Souza Alves Bezerra. A Unesco e a preservação do patrimônio audiovisual. In: ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. V, Anais, Salvador: Ufba, 2009. (CD-Rom).

MENEZES, Ines Aisengart. Depoimentos. In: CINEOP, 9. CATÁLOGO, 2014. p. 133-135.

NORONHA, Jurandyr. In: A Cena Muda. Rio de Janeiro, n. 28, 1948. Disponível em: <http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/busca_ revistas.html>.Acesso em: 19 de janeiro de 2018.

ROCHA, Felipe. Projetando memórias: desafios e perspectivas da arquivística audiovisual como profissão. Monografia; (Aperfeiçoamento/Especialização em Gestão Arquivística) – Escola Pós Graduada de Ciências Sociais da FESPSP; Orientador: Maria Fernanda Curado Coelho; 2016. Disponível em: <http://biblioteca.fespsp.org.br:8080/pergamumweb/vinculos/000006/000006a0.pdf>. Acesso em: 19 de janeiro de 2018.

UNESCO. Programa Memória do Mundo: Diretrizes para a salvaguarda do patrimônio documental. Elaborado por Ray Edmondson. Paris. 2002. Disponível em: <http://www.unesco.org.uy/ci/fileadmin/comunicacion-informacion/mdm.pdf> Acesso em: 20 de outubro de 2016

________. Mensagem da UNESCO para o Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual. 2014. Disponível em: <http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/unescos_message_for_world_day_for_audiovisual_heritage>. Acesso em: 22 de outubro de 2016.

[1] Publicado na revista norte-americana Film History, ligada à Universidade de Indiana

[2] Em tradução livre: “Seria a arquivística audiovisual uma profissão?”

[3] EDMONDSON, 1995, p. 245-246.

[4] “Independentemente do grau de seu reconhecimento acadêmico ou oficial atual efetivo, a arquivística audiovisual será tratada aqui como uma profissão com seus direitos específicos. Donde, não será encarada como um subconjunto especial de uma outra profissão existente como, por exemplo, a biblioteconomia e a museologia – também profissões de coleta e conservação da arquivística clássica –, embora estreitamente relacionada a elas”. (EDMONDSON, 2013. p. 46)

[5] O diagnóstico encontrado na descrição do Programa Memória do Mundo da UNESCO considera que “considerável quantidade de patrimônio documental já está definitivamente perdida” (UNESCO, 2002, p. 9)”

[6] Em sua fala, Inês Isengart destaca dentre estes casos: a pesquisa e o blog de Rafael de Luna (http://preservacaoaudiovisual.blogspot.com); a monografia de Natália de Castro Soares; a dissertação e blog de José Quental (http://cinematecasmundoafora.blogspot.com); a pesquisa e o blog de Lila Foster (http://nitratoacetatopoliester.wordpress.com). MENEZES, 2014, p. 135.

[7] Retirado do site da ABPA (<http://www.abpreservacaoaudiovisual.org/>). Acessado em: 26 de outubro de 2016.

[8] Edmondson ressalta essa pluralidade já na origem da atividade: “A arquivística audiovisual originou-se de vários contextos institucionais. Na falta de alternativas, foi, e ainda é, natural que os que a praticam encarem e interpretem seu trabalho à luz de suas disciplinas formadoras ou de suas instituições-mães. Essas disciplinas incluem, em sua variedade, formação em biblioteconomia, museologia, ciência de arquivos, história, física e química, administração e as práticas técnicas envolvidas nas atividades de rádio e teledifusão, registro de imagens e sons. Podem excluir também algum tipo de treinamento formal, ou seja, podem ser fruto uma formação autodidata e entusiasta.” (EDMONDSON, 2013, p. 54).

[9] Disponível em: http://www.abpreservacaoaudiovisual.org/site/images/banners/PNPA.pdf

[10] Coletivamente nós temos um trabalho urgente, e estamos fazendo isto com recursos insuficientes – por vezes irremediavelmente insuficientes.  Estamos acostumados a ensinar o pessoal novo no trabalho – foi como aprendemos, claro.  (…) A crescente literatura profissional concentrou-se mais na prática no que na teoria – o “como” em vez do “porquê” – para os quais houve uma necessidade óbvia e urgente (EDMONDSON, 1995, p. 247).

[11] O crítico, historiador e fundador da Cinemateca de Toulouse, Raymond Borde, conceituou o termo “ondas de destruição” para explicar os ciclos de descarte e desaparecimento de obras da indústria cinematográfica: “Destruição legal, normal, encorajada, obrigatória e triunfante: vem desde as origens e vou estabelecer sua história. Mas eu gostaria que fosse entendido em que medida a noção de arquivo cinematográfico é inseparável de uma prática cotidiana de descarte (Apud COSTA, 2012, p. 48)”.

[12] MENEZES, 2014, p. 134.

[13]  A Scena muda, n. 28, 13 de julho              de 1948, p. 33.

“Irá permitir que a instituição se destaque neste novo paradigma informacional”: Entrevista a Projeto Esep-Digital da ES de Enfermagem do Porto

A Escola Superior de Enfermagem do Porto (ESEP) é uma instituição de ensino superior politécnico não integrada, dedicada ao ensino da enfermagem. Em funcionamento desde 1 de janeiro de 2007, surgiu da fusão de três instituições de ensino superior público de enfermagem no Porto: as Escolas Superiores de Enfermagem de D. Ana Guedes, Escolas da Cidade do Porto e de São João. A origem remota da ESEP, ao serviço do ensino de enfermagem, remonta a 15 de junho de 1896, quando é então criado o Curso de Enfermeiros do Hospital Geral de Santo António (Porto), uma das primeiras escolas de enfermagem de Portugal.

Atualmente o sistema de Gestão Documental tornou-se insuficiente para as atuais necessidades da ESEP, sendo também impeditivo da adoção de medidas de desmaterialização processual que utilizem as mais recentes soluções de alto de desempenho e não permite a sua interoperabilidade junto de outros sistemas e aplicações informáticas.

Deste modo surgiu o Projeto ESEP DIGITAL e esta entrevista com alguns dos membros da sua equipa, o coordenador do projeto Luís Alexandre e Maria Tinoco, membro da equipa ESEP_DIGITAL.

(ARCHIVOZ) Como surgiu o Projeto ESEP-DIGITAL?

(LA) A partir da fusão das escolas é que começamos verdadeiramente a olhar para o arquivo, até esse momento todas as escolas tinham meramente depósitos de documentos. Foi um processo moroso, de alguns anos, pois não disponhamos de meios suficientes a nível humano e técnico.

Por outro lado, com a mudança de instalações verificou-se um crescimento exponencial da documentação o que contribuiu para alertar para a necessidade de termos uma Gestão Documental adequada.

A diminuição dos “custos de contexto através do reforço da disponibilidade e fomento da utilização de serviços em rede da Administração Pública e melhorar a sua eficiência e a qualificação da “prestação do serviço público, quer através da capacitação dos serviços, quer através da formação dos trabalhadores em funções públicas” são alguns dos objetivos deste sistema de apoio que são enquadráveis com a operação apresentada pela ESEP.

(ARCHIVOZ) Como caracterizaria o panorama documental que tem neste momento?

(LA) A nível arquivístico a instituição não dispõe de uma aplicação específica de gestão arquivística, o que temos resume-se a uma aplicação interna, desenhada na própria Escola, que começou por ser um aplicativo de gestão de correspondência que evoluiu para uma tentativa de gestão documental. Até hoje, é com essa aplicação que se vai fazendo a gestão arquivística.

Há cerca de três anos percebemos que cada vez mais com a evolução tecnológica e da documentação digital e nado-digital, esta solução já não respondia às necessidades e começamos a ponderar para a mudança para uma aplicação de gestão documental profissional e parametrizada por especialistas. Isto só foi possível com a mudança da cultura organizacional tradicional e da conceção do documento para uma abordagem digital que se enquadra no novo paradigma da Ciência da Informação, em que a informática não se pode dissociar das tecnologias, mas também estas não vivem sem os profissionais de informação.

(ARCHIVOZ) Como foi acolhido o projeto pela direção da Escola Superior de Enfermagem?

(LA) A liderança da Escola, a anterior e a atual, sempre esteve ao lado do arquivo, reconhecendo a sua importância para a memória da instituição, mas também no seu quotidiano olhando sempre para o futuro.

(ARCHIVOZ) E quais foram os impedimentos?

(LA) Os contratempos foram de ordem estratégica, pois com a implementação do RADA (Relatório de avaliação de documentação acumulada) e da MEF (Macroestrutura Funcional / Novo Plano de Classificação Arquivística – http://arquivos.dglab.gov.pt/programas-e-projectos/modernizacao-administrativa/macroestrutura-funcional-mef/macroestrutura-funcional-mef/) houve uma tentativa de que todas as instituições superiores de ensino de enfermagem do politécnico não integrado (Porto, Lisboa e Coimbra), dadas as semelhanças e especificidades dos seus processos de negócio, seguissem a mesma linha e acolhessem o projeto em conjunto. Tudo isto iria facilitar a implementação do novo plano de classificação arquivístico (MEF), mas como não foi possível obter um consenso avançamos nós com o projeto.

(ARCHIVOZ) Como evoluiu o projeto?

A ESEP já deu início ao processo de implementação do Sistema de Gestão da Qualidade com base na norma ISO 9001:2008 e nos princípios orientadores emanados pela A3ES (Agência de avaliação e Acreditação do Ensino Superior). Tal como recomendado na norma de referência – ISO 9001:2008, a abordagem do Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) efetuada pela ESEP, baseia-se na análise dos requisitos dos seus clientes, na definição dos processos que contribuem para um ensino da enfermagem de excelência e na manutenção dos seus processos de negócio.

Depois, partimos para uma Candidatura ao Programa 2020 (https://www.portugal2020.pt/Portal2020/programas-operacionais-portugal-2020-2) e a resposta foi positiva. Assim, procedemos à implementação deste projeto desde novembro de 2018, implementação esta que se prevê estar concluída até setembro de 2019.

(ARCHIVOZ) Quais as vantagens da implementação deste projeto?

(LA) Penso que um dos grandes benefícios é a desmaterialização de processos que vem trazer uma economia dos espaços físicos, uma redução dos custos operacionais, maior segurança e confidencialidade da informação, otimização dos processos, dos seus tempos e das atividades, melhor controle dos custos e acesso aos dados e a identificação eficaz dos prazos de conservação dos documentos. A tomada de decisão sairá facilitada, melhorará a definição dos objetivos e capacidade de negociação da instituição, pois vamos ter uma otimização dos processos negócio e aumento da capacidade da gestão da informação com os recursos existentes.

(ARCHIVOZ) E qual é perceção da gestora de informação envolvida no projeto?

(MT) o Projeto tem sido muito bem acolhido e temos tido a colaboração de todos os serviços, o que é fundamental. A implementação do novo sistema de gestão documental IPORTALDOC, a reengenharia de processos que está em curso, simplificação e desmaterialização de processos, vão trazer ganhos à instituição a nível da sua eficácia e eficiência.

(ARCHIVOZ) O que pensa que resultará deste projeto?

(MT) Estou convencida de que com formação, que é fundamental, e com o decorrer do projeto continuaremos a verificar uma maior recetividade, empenho e uma mudança de mentalidade em relação à gestão da informação e até à própria visão do trabalho do arquivista, o que irá permitir que a instituição se destaque neste novo paradigma informacional e no seu meio académico e científico.

Muito obrigada pelo vosso contributo e por nos darem a conhecer este Projeto da Escola Superior de Enfermagem do Porto.

 

“A Gestão Documental deve ser tratada de forma centralizada e como um processo de trabalho formal em qualquer empresa”: Entrevista com Rachel Bueno, Especialista em Documentação

Entrevistamos Rachel Bueno, Especialista em Documentação com 40 anos de experiência na área de arquivos, nos conta um pouco de sua trajetória profissional, da gestão documental e dos desafios do profissional arquivista.

(Archivoz) Rachel você é Bibliotecária de formação e Especialista em Documentação, conte-nos o que te levou a mudar da biblioteconomia para a arquivística.

(Rachel Bueno) Na realidade não mudei, simplesmente tropecei na arquivística. No primeiro ano da graduação estagiei em uma empresa de processamento de dados no setor de informação coorporativa; em seguida, também em setor de informação, fui contratada para análise de dados para subsidiar propostas de empreendimentos na área da engenharia.

A partir daí, foi um caminho sem volta: os arquivos. Percebi que realmente minha área era a da informação, mas da informação orgânica e do grande desafio de converter o conceito de “arquivo morto” em gestão, organização e acesso.

(Archivoz) Ainda temos discussões entre os campos da biblioteconomia e arquivística, como você transitou pelas duas áreas, é possível que esses conhecimentos andem juntos e facilite o trabalho dos profissionais dessas áreas? Como?

(RB) Como dito anteriormente, não transitei profissionalmente nas duas áreas; por força da dinâmica da arquivística, não é possível o desenvolvimento de um projeto sem a colaboração de profissionais de outras áreas: biblioteconomia, direito, administração, história, etc.

(Archivoz) Sua atuação maior é como arquivista de documentação corrente, ainda temos problemas conceituais sobre a teoria das idades e muitas vezes a documentação chega sem tratamento algum na fase permanente, como minimizar essa questão?

(RB) Há muitos questionamentos à teoria das três idades, mas a aplicação de políticas de gestão documental, independente da linha de pensamento que se adote é imprescindível para que os documentos permanentes / históricos possam ser preservados e custodiados com proveniência e organicidade.

 (Archivoz) Como foi atuar como arquivista na Prefeitura de São Paulo?

(RB) Tive um privilégio como poucos: ingressei na PMSP no recém-criado Departamento de Informação e Documentação Artística – IDART, subordinado à Secretaria de Cultura do Município. Fiz parte da equipe do Arquivo Multimeios, com um acervo composto por nove grandes áreas temáticas: Arquitetura, artes Cênicas, Artes Gráficas, Cinema, Comunicação de Massa, Fotografia, Literatura e Música. Documentos estes, que já em 1.978 foram agrupados por “evento” (peça teatral, cinema, exposições, etc.), suporte do documento, itens documentais. Eram encaminhados ao Arquivo “descritos” pelo(s) pesquisador(es) da área produtora: temos aí um bom exemplo da “descrição arquivística’ em seus primórdios. No setor de Hemeroteca, tivemos também, a experiência de olhar os periódicos, não como recortes, mas como matérias de interesse sempre ligadas ao momento socio político da época. Não havia “recortes”, o periódico tinha sua página preservada para não perder o contexto.

 (Archivoz) Quais são os desafios do arquivista que atua no setor público? E quais são as mudanças necessárias para uma boa atuação?

(RB) Além da falta de vontade política por parte dos dirigentes, o maior desafio do arquivista em gestão no setor público é o próprio arquivista: não temos graduados o suficiente para cobrir a demanda e para estes falta “vivência”, considerando a extensão do mundo arquivístico. Deveríamos pensar em mudar o conceito do profissional arquivista, tendo em vista que os atuantes mais renomados vêm de outra área: história, jornalismo, administração, etc. Teríamos mais profissionais trazendo ganhos significativos para todos.

(Archivoz) Como é atuar como consultora em empresas privadas? Quais são os desafios que enfrenta?

(RB) Na área privada lidamos muito com a resistência dos colaboradores e como a maioria dos documentos, produzidos hoje, são nato digitais, eles não são vistos como “documentos” e sim arquivos que não incomodam e não ocupam espaço. Outro problema são os aplicativos de ECM e Workflow que são tratados como gestores informatizados de documentos de arquivo, quando na realidade a maioria é só um gestor de informação.

Então há dois momentos distintos, a massa acumulada (geralmente em suporte analógico) e a produção corrente (nato digitais), o desafio? Fazer com que todos tratem o documento e não o suporte.

(Archivoz) Atualmente você é professora na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) no curso de Gestão Arquivística. O que falta na formação do profissional da área de arquivos? Como minimizar a defasagem de ensino, já que em São Paulo há somente dois cursos de ensino superior em arquivologia?

(RB) Citei anteriormente que o conceito de arquivista graduado é uma barreira que não atende à demanda existente, tanto no setor público, quanto no privado. O maior mérito dos cursos de pós em Gestão Arquivística é desmistificar os arquivos e mostrar como os caminhos da Arquivística estão ligados a várias áreas de atuação, fazendo com que a defasagem possa ser minimizada.

(Archivoz) Vivemos um momento que todos querem digitalizar seus documentos, esperando que assim todos os problemas sejam resolvidos. Como trabalhar essa questão socialmente, já que temos projetos de leis que visam a queima de arquivos físicos?

(RB) A gestão documental vai muito para além do simples tratamento e digitalização de documentos em papel, mas temos vários aspectos para levar em conta:

– Considerando a história, os interesses de hoje pelo passado mudam com o tempo e eliminar um documento original é “desmaterializar o DNA do documento”; sua destruição deixariam as pesquisas inviáveis, dependendo de como e porque, o contato com o documento é essencial.

 – Como é possível substituir um documento arquivístico original sem termos a garantia de autenticidade e principalmente de sua preservação? Ainda não temos políticas para este armazenamento confiável.

E aí temos um ponto, debatido à exaustão, que é a educação de base: se não houver mais integração nas disciplinas ensinadas desde o início do ensino formal, seja história, ciências, artes, etc., ligadas à observação do passado para melhor compreensão do futuro, não teremos mais do documento histórico, as pesquisas e os muitos porquês.

(Archivoz) Você tem falado em palestras sobre a gestão documental, quais são os caminhos para uma boa gestão?

(RB) A Gestão Documental deve ser tratada de forma centralizada e como um processo de trabalho formal em qualquer empresa. Este tratamento centralizado tem sido um grande desafio principalmente pelo surgimento de novas formas de entrada e saída de documentos (e-mail, por exemplo) e a falta de procedimentos para o controle de documentos arquivísticos desde sua entrada ou produção até sua saída ou arquivamento na instituição. A “boa gestão” está ligada ao entendimento que políticas de gestão documental são a base da informação e do conhecimento, pois esta gestão impacta de forma direta na produtividade e, consequentemente, nos resultados obtidos pela empresa.

(Archivoz) Com mais de 40 anos de carreira, o que você tem a dizer para quem quer seguir a profissão de arquivista?

(RB) Começaria dizendo que é a melhor profissão do mundo: cada acervo é um estudo lógico, desafiante e uma viagem indescritível aos subterrâneos de uma organização. O arquivista é um profissional inter e multidisciplinar, sendo necessário ter disciplina, estudo contínuo (técnico-científico), um conhecimento, ao mesmo tempo amplo, técnico e específico para tratar adequada as informações de qualquer organização ou pessoa física, em qualquer suporte ou formato, com ou sem apoio de tecnologias. Deverá também primar princípios éticos, fundamentais. Poderá atuar como gestor de instituições arquivísticas, na docência, como pesquisador entre outras muitas funções.

Agradecemos a Rachel pela entrevista, e nos falar um pouco de sua larga atuação no mundo dos arquivos e mostrar sua visão sobre a gestão documental e sobre a carreira do profissional arquivista.