Revista Archivoz

“Considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada”: Entrevista com o Professor Armando Malheiro da Silva

Entrevistámos Armando Malheiro da Silva, Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Docente da Licenciatura em Ciência da Informação e do Programa Doutoral Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, de cuja Comissão Científica  é membro Coordenador do Grupo Cultura Digital do CITCEM

(Archivoz) Iniciou a sua carreira como historiador, nomeadamente em torno da figura de Sidónio Pais nos alvores do Republicanismo em Portugal. Quando se deu o ponto de viragem para a investigação científica em torno dos arquivos?

(Armando Malheiro) Em rigor, minha atividade profissional, enquanto ainda estudante universitário, iniciou-se em 1978, como professor do ensino secundário e, em 1982, concluído meu curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (simultaneamente concluíra as Licenciaturas em História e em Filosofia), fui Responsável da Biblioteca Municipal de Barcelos e, pouco tempo depois, convidado para Técnico Superior do Arquivo Distrital de Braga – Unidade Cultural da Universidade do Minho. Por vicissitudes burocráticas, acabei acumulando funções de arquivista e de docente universitário, o que me levou a desenvolver investigação em História, para efeitos de progressão na carreira académica e funções técnicas e de docência em Arquivística. Portanto, a minha experiência foi desde cedo algo “múltipla”, agindo como historiador/investigador e como arquivista, papéis conflitantes naquela época e ainda hoje não são facilmente harmoniosos e compatíveis.

(Archivoz) O “salto” de um paradigma custodial para um novo paradigma científico-informacional, ou seja, das ciências documentais para a ciência da Informação foi um marco que hoje constitui numa nova visão da disciplina e do perfil do profissional da informação. Pode aprofundar um pouco este tema?

(AM) A identificação e a formulação de paradigmas, na área profissional e disciplinar das denominadas Ciências Documentais (Arquivística, Biblioteconomia e Documentação), foram devedoras da minha experiência profissional e de vida e tornaram-se necessárias depois de dez anos em que lecionei Arquivologia com o meu colega e amigo Dr. Júlio Ramos, Técnico Superior,  aposentado do Arquivo Geral da Universidade de Coimbra, no antigo Curso de Ciências Documentais da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 1990 a 2000. O estágio que fiz, em 1990, na École National des Chartes (Sorbonne, Paris), foi também influente no processo de reflexão sobre os pressupostos filosóficos, modelos teóricos, conceitos operatórios e outros elementos que, por via da formação superior e especializada e por força da atividade in locu, moldaram a mentalidade, o modo de ver, de pensar e de agir dos arquivistas, bibliotecários e museólogos vindos desde, pelo menos, a segunda metade do séc. XIX. Ao refletir sobre isto e com o passar do tempo, já com os paradigmas (inicialmente dois: o custodial e o pós-custodial) fixados, ao reler a conferência de Umberto Eco A Biblioteca (1980) e ao recordar o enredo de O Nome da Rosa (1980), percebi que a genialidade do académico e escritor italiano tinham conseguido capturar a essência do paradigma custodial, que marcou a fase sincrética ou pré-Ciência da Informação dos profissionais das Bibliotecas, Arquivos e Museus.  Estas instituições culturais ou “lugares de memória”, como os designou Pierre Nora, foram uma invenção da Modernidade , desde o dealbar da Era Digital ou Era da Informação, estão a sofrer um impacto profundo da revolução tecnológica em curso, transversal a todas as dimensões da vida humana e social, e, por isso, a formação dos respetivos profissionais tinha de ser alterada, e vem sendo, só que, genericamente, em dois sentidos extremos e paradoxais, com consequências perversas: a adaptação à mudança sem abandonar a vertente mais tecnicista e culturalista do paradigma custodial (tendência visível em vários pontos geográficos, nomeadamente na América do Sul, em Itália, na Grécia, em países dos Balcãs, etc.); e, num sentido eminentemente tecnológico, derivado da Information Science norte-americana, surgida a partir dos inícios dos sessenta do séc. XX e que herdou lastro importante da Ciência da Documentação de Paul Otlet, transformado pelo potencial de automação eletrónica. O movimento atual das iSchools, já espalhado na Europa e na Ásia, representa claramente essa tendência. Ora, diante destes dois extremos, a via do ponto de equilíbrio só pode ser, em minha opinião, a da defesa e consolidação de uma Ciência da Informação trans e interdisciplinar, que resulta da integração das disciplinas documentais anteriores e se configure como uma ciência social aplicada, mantendo, ao mesmo tempo, uma vocação interdisciplinar, desde logo com as Ciências da Comunicação e, mais extensivamente, no âmbito das Ciências Sociais, e com outras disciplinas mais afastadas, saberes e tecnologias. Este perfil de CI é o que melhor se encaixa no paradigma emergente pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar. Mais recentemente, eu e a Professora Fernanda Ribeiro acrescentamos mais um paradigma detectável na formação, que vem sendo dada algo disperso em várias latitudes, embora o tenhamos identificado mais claramente em cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutoramento) do Brasil. Trata-se de um paradigma importado da Sociologia, que aí se designa de Dialético e abrange várias nuances, uma das quais é a Teoria Crítica, herdeira da Escola de Frankfurt, de forte inspiração marxista. Entre este paradigma e o pós-custodial há um profundo potencial de convergência e integração, limadas algumas arestas e melhor centrado o exercício crítico no método científico. Aliás, o grande contributo da passagem de um arquivista ou de um bibliotecário do paradigma custodial para o pós-custodial tem a ver com o ganho de formação realmente científico e da capacidade crítica de superar os ensinamentos normativos e práticos, orientando-os para uma compreensão desse fazer como um processo intencional de mediação que é preciso conhecer, sistematicamente, em todas as suas implicações.

(Archivoz) Na atualidade, a formação em Ciência da Informação é completamente diferente da formação arquivística. Porquê?

(AM) Não é fácil, numa entrevista, responder com o necessário desenvolvimento a uma pergunta como esta, por isso terei de me limitar a alguns tópicos substanciais e começo por recomendar a consulta dos trabalhos da minha colega Fernanda Ribeiro, precisamente sobre os modelos de formação nesta área. O primeiro ponto que explica toda a diferença tem a ver com a alteração do tipo de formação que até 2001, ano em que começou a ser lecionada a Licenciatura em Ciência da Informação, uma parceria de duas faculdades da Universidade do Porto – a de Letras e a de Engenharia-, era de nível especializado, nem sequer de pós-graduação (Mestrado), com duas saídas separadas ou ramos específicos – Arquivo e Biblioteca. Era um curso de dois anos, feito após uma licenciatura em qualquer área, no entanto a maioria dos ingressos vinham da História, Línguas e Literatura e Filosofia. Os Cursos de Especialização em Ciências Documentais sucederam, em 1982, ao “velho” curso de Bibliotecário-Arquivista, com origens no final do séc. XIX e que foi lecionado ininterruptamente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra,  desde 1935, com duração de dois anos, exigia uma licenciatura como formação prévia. Eu e minha colega Fernanda Ribeiro fizemos esse curso pouco antes de ele ser extinto. A segunda diferença importante concerne à incorporação no plano de estudos da licenciatura de disciplinas tecnológicas, em qualidade e quantidade que nem dá para comparar com os residuais conteúdos de informática ministrados nos CECD’s. A terceira diferença, com impacto no mercado de trabalho e na resposta às necessidades sentidas, já não pelas instituições culturais da Modernidade, ampliadas com a oferta em nível municipal (Bibliotecas Municipais e Arquivos Históricos), mas pelas mais diversas organizações públicas e privadas carentes de gestores de informação capazes de dialogar com os informáticos.

(Archivoz) A arquivística, como ramo da Ciência da Informação, tem futuro ou a tendência será absorvida pela primeira?

(AM) Pergunta pertinente e que, em países como o Brasil, traduz um estado de espírito de resistência e de desconfiança em relação à Ciência da Informação. Ora, para atalhar dúvidas e equívocos, convém insistir na distinção, para mim claríssima, entre Information Science (norte-americana) e a Ciência da Informação trans e interdisciplinar, ensinada na Universidade do Porto. Aquela não pode absorver a Arquivística, porque é uma disciplina essencialmente tecnológica, em que falta a base humanista e sociológica, indispensável para que possamos deparar uma ciência social aplicada.  Este estatuto epistemológico só está ao alcance da segunda e, graças ao contributo de todas as disciplinas (inclusa a Information Science), interligam-se e constituem uma ciência nova com o melhor e mais substancial de todas elas. Neste novo campo disciplinar, a Arquivística está presente pelo legado que aportou, e o profissional formado por esta ciência nova – o gestor da informação – será, no contexto específico em que exercer funções, um “arquivista-gestor de informação”, um profissional mais polivalente, melhor dotado, que o mero arquivista de formação antiga, de competências tecnológicas e essencialmente versátil.

(Archivoz) Existe em Portugal uma grande discussão entre designar um arquivo como um Fundo ou como um Sistema de Informação. Afinal, é apenas um preciosismo de nomenclaturas ou é muito mais do que isso?

(AM) Posso começar por frisar que não se trata de um preciosismo ou, pelo menos, eu e meus colegas de CI do Porto não usamos o conceito operatório de Sistema de Informação como um mero preciosismo ou uma designação “moderna” para significar o mesmo que Fundo. No livro “Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação”, ficou escalpelizada a origem e evolução do conceito de Fundo, um conceito instrumental usado pelos arquivistas em detrimento do conceito de coleção, deixado para uso de bibliotecários e museólogos e conotado com a acumulação aleatória e diletante (sem necessidade orgânica ou funcional) de livros e objetos. E aí foi também introduzido o conceito de Sistema de Informação, com características que viriam a ser melhor trabalhadas posteriormente. A transição para o uso de SI significava, desde logo, não apenas um conjunto de documentos marcados pela mesma proveniência, mas muito mais que documentos de um produtor, também organizados e recuperados por esse mesmo produtor e ainda articulados com outro tipo de documentos (não exclusivamente jurídico-administrativos, político-administrativos ou técnicos), como os livros e objetos tridimensionais musealizados ou musealizáveis. Por definição, sistema não é um mero somatório de partes, mas uma unidade de partes diferentes e interdependentes, ou seja, unidade na diversidade. E por aqui se vê quão redutoras são as noções de fundo e de coleção e que a abordagem correta, a que melhor serve ao potencial utilizador da informação, é a que integra as partes que nasceram, contextualmente, interrelacionadas. O conceito de SI não pertence ao paradigma custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, mas claramente ao paradigma pós-custodial, infocomunicacional e transdisciplinar.

(Archivoz) Num mundo cada vez mais digital, as disciplinas de paleografia e diplomática praticamente desapareceram dos programas de estudo, pois os alunos aprendem hoje linguagens de programação e gestão de processos de negócio (construção de fluxos de informação e etc.). Como serão tratados os arquivos históricos num futuro próximo?

(AM) É verdade que, por exemplo, na Licenciatura em Ciência da Informação da Universidade do Porto, hoje a Paleografia e Diplomática, é residual e eventual, e os alunos preferem, no que toca a opcionais, outro tipo de disciplinas. No entanto, considero que a formação especializada em Codicologia e em Paleografia e Diplomática deve ser protegida e fomentada, porque os documentos anteriores ao séc. XIX precisam ser lidos e transcritos mesmo que sejam, e cada vez serão mais, digitalizados. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pela escola que teve, mestres de proa como o Professor Cónego Avelino Jesus da Costa, devem pensar em escalar estrategicamente a formação nestas competências específicas, porque não deixará nunca de haver mercado.”


Entrevista realizada por: Alexandra Vidal

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“Não podemos construir o futuro sem conhecermos o nosso passado coletivo”: Entrevista com Adelino Cunha

Entrevistámos Adelino Cunha, Professor Associado da Universidade Europeia e Investigador Integrado do Instituto de História Contemporânea da Universidade NOVA de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Quando é que nasceu, e em que contexto, a vontade de desenvolver investigação no âmbito dos arquivos políticos?

(Adelino Cunha) Diria que se tratou de um percurso que teve tanto de natural como de imprevisível. Natural porque (na juventude) comecei por escrever textos de ficção como primeiros exercícios de carácter literário, tendo depois iniciado uma carreira como jornalista, que se prolongou por mais de 20 anos, e preservando sempre o gosto pela escrita. Acabei por me especializar em temas políticos e a imprevisibilidade resulta dessas circunstâncias: o facto de ter feito uma reportagem sobre uma tomada de poder num partido acabou por se transformar numa investigação historiográfica para um livro, aliás, na sequência de um desafio do historiador recentemente falecido José Freire Antunes. É assim que publico o meu primeiro livro: o gosto pela escrita e o estímulo pela investigação.

(ARCHIVOZ) Considerando que em Portugal, tal como normalmente se verifica em termos internacionais, os partidos políticos são, por natureza, organizações fechadas sobre si mesmas, pouco abertos à mudança, não divulgando a documentação constantes dos seus arquivos, como é que tem sido efetuar investigação, nomeadamente no que respeita às fontes documentais destes partidos, existentes nos respetivos arquivos? Pode falar-nos desta questão, crucial, do acesso às fontes, na eventual escassez, perda e dispersão das mesmas?

(AC) É uma questão que terá de ser superada com celeridade, na medida em que se trata manifestamente de um obstáculo à investigação profissional. Por um lado, os partidos políticos tratam muito mal as suas memórias coletivas, desde documentos dispersos (perdidos!) pelas estruturas locais e regionais, até material de outro tipo (iconográfico, por exemplo) que fica para trás na voragem dos ciclos políticos. Por outro lado, o acesso aos arquivos (os poucos que existem ainda têm deficiências organizativas resultantes do não envolvimento de profissionais arquivistas) depende da boa vontade dos titulares provisórios dos cargos partidários. Não existe uma política previsível de acesso às fontes porque não existem sensibilidade para esta dimensão da vida pública dos partidos, sendo que se trata de acesso ao conhecimento que viabiliza partes importantes da construção da memória coletiva das sociedades.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta as dificuldades que referiu, no que respeita ao acesso às fontes primárias dos partidos políticos, quem quiser fazer investigação sobre a história, a ação de um partido político, ou, por exemplo, relativa a determinada personalidade política, tal como se tem sido o seu caso, onde é que deve dirigir-se, ou seja, para além dos arquivos na posse desses partidos políticos? Que arquivos, bibliotecas, públicos e privados, é que deve considerar nesse sentido? Existe esta tradição, entre os políticos portugueses, em vida ou no final desta, de legarem os seus arquivos aos respetivos partidos?

(AC) Diria que o processo de investigação deve começar pelos arquivos nacionais, tendo por base um roteiro de pesquisa que envolva depois os arquivos regionais/distritais e os arquivos públicos de vocação temática (recortes cronológicos concretos, temas especializados, etc.), por exemplo. Esse quadro-geral permite ao investigador avaliar as fontes que existem e as lacunas que necessita de preencher. É aqui que entram tanto os arquivos dos partidos como os arquivos de organizações de carácter privado e, creio que esta questão merece ser olha com crescente atenção, os arquivos privados (sejam de carácter público ou restrito). Não é fácil preparar um plano de investigação que identifique previamente todas as fontes suscetíveis de serem mobilizadas devido a esta dispersão. O que decorre da ausência de uma política pública integrada para todo os arquivos e pelo envolvimento fundamental de profissionais arquivistas no tratamento e organização da informação (mesmo em arquivos privados).

(ARCHIVOZ) Na introdução da sua obra Álvaro Cunhal: Retrato Pessoal e Íntimo, publicada, pela primeira vez, em 2010, e reeditada em 2020, pela Editora Desassossego, refere na Introdução as dificuldades que sentiu em chegar, vou citá-lo, ao “homem por trás do mito?”. Sabendo que as fontes nem sempre são neutras e que, intencionalmente, nos podem induzir em erro, por via dos seus objetivos apologéticos e laudatórios, de criar uma determinada narrativa, como é que conseguiu fazê-lo?

(AC) Não estou seguro de que tenha conseguido fazê-lo porque o historiador será sempre parte ativa no processo da construção do conhecimento (o que resulta na inevitável subjetividade do seu trabalho), mas estou seguro de que se trata de um trabalho transparente e honesto. Todas as fontes estão devidamente identificadas e algumas delas, principalmente as fontes orais, foram disponibilizadas ao público. É uma biografia que se encontra no Plano Nacional de Leitura e essa valorização corresponde também à responsabilidade do investigador tanto pelo rigor dos factos como da narratibilidade, na medida em que se mobilizam testemunhos únicos e originais dos familiares mais próximos de Álvaro Cunhal e alguns dos companheiros do seu núcleo restrito, que o acompanharam em momentos fundamentais da história do PCP e do combate do Estado Novo em Portugal.

(ARCHIVOZ) Mencionou a importância das fontes orais. É fácil chegar a estas pessoas e recolher o seu testemunho? Como é que estas reagem, particularmente as pessoas mais próximas, desde logo os familiares?

(AC) Elaborar uma biografia exige desconstruir políticas inexplícitas de esquecimento, mas também superar os obstáculos que resultam da própria reconstrução do biografado enquanto sujeito histórico complexo, da mobilização de fontes escassas e dispersas, e ainda da domesticação dos recortes cronológicos. Não existem linhas temporais metrificadas e totalizantes, isto é, mundos harmoniosos onde as peças se encaixam numa matriz narrativa que fornece todas as explicações. Aliás, como se pode medir o tempo na biografia se o ritmo dos acontecimentos passados em nada se compara com o fluir do tempo na contemporaneidade?  Se esses ciclos naturais do tempo não existem, qualquer exercício biográfico enquanto caminho de vida, isto é, um conjunto de factos orientados que constituem um todo, fracassará invariavelmente. A biografia não é uma história de vida, nem um caminho linear que se volta a percorrer de forma coerente e orientada. Não é uma demonstração geométrica de um saber revelado. Esta armadilha do tempo transitório tem estimulado a imaginação alguns autores e levá-los a aventurarem-se pelas «projeções presentistas» da história narrativa do pós-modernismo, ou seja, a assumirem uma espécie de ficção de autor sem quaisquer fronteiras. São narrativas que escapam aos critérios da História. Importam mais pela «compreensão» da sua força dinâmica do que pela verificação da veracidade dos factos. Por tudo isto, as fontes orais também um valor imenso. O valor final da investigação decorre da consistência e da boa vigilância da metodologia, baseada em processos rigorosos de ativação de fontes e  citações e referências bibliográficas. É nesse  escrutínio das fontes que se atesta a qualidade da investigação e a capacidade do investigador.

(ARCHIVOZ) No seu livro, com o título, António Guterres: Os Segredos do Poder, publicado em 2013, pela Alêtheia Editores, para além, naturalmente, de constituir uma investigação baseada em documentos e fontes orais, destaco o facto de António Guterres ter participado como fonte, caso único nas biografias que publicou. Com base na sua experiência, as figuras políticas, e mesmo os partidos políticos, estão recetivos a ser estudado, com vista a um melhor conhecimento da sua vida e obra?

(AC) Está na natureza humana uma certa apropriação da interpretação individual dos factos e dos acontecimentos de conhecimento direto. Nestas circunstâncias, existem, parece-me, duas alternativas: o biografado (o sujeito histórico) escreve a sua autobiografia e assume a interpretação monopolista; ou o biografado assume-se como fonte da sua própria biografia sujeitando-se evidentemente à interpretação do historiador, que mobiliza um vasto conjunto de outras fontes. No caso concreto de António Guterres, a sua mobilização como fonte revelou-se fundamental nos aspetos da sua vida privada, na medida em que, havendo ligação com a sua dimensão pública e política, existia também um limite ético autoimposto pelo investigador. Neste caso, a colaboração revelou-se muito importante pelo rigor na narrativização dos acontecimentos, mas também pela dimensão emocional em causa.

(ARCHIVOZ) Por sua vez, na obra A Ascensão ao Poder de Cavaco Silva / 1979-1985, publicado em 2005, pela Edeline, teve acesso às fontes do respetivo partido do político do biografado, apresentando-nos uma imagem deste muito diferente da que se encontra na autobiografia publicada pelo mesmo, ou seja, da versão “oficial”…

(AC) Trata-se do livro que citei no início desta conversa. Em primeiro lugar, existia a circunstância do biografado ter escrito a sua versão dos acontecimentos e de se encontrar em atividade política ativa, o que se traduziu numa natural relutância em colaborar com perspetivas diferentes da sua versão. O que aconteceu. O livro assume um recorte cronológico muito concreto e utiliza dois tipos de fontes fundamentais: as fontes orais, ou seja, os protagonistas dos próprios acontecimentos; e as gravações das reuniões partidárias, tornadas públicas pela primeira vez. Mesmo havendo interpretações divergentes entre os livros, não significa que a autobiografia tenha erros ou inverdades, o que existe, evidentemente, são interpretações diferentes que resultam da mobilização de fontes diferentes. Dir-se-á que em situações concretas essas interpretações excluem-se mutuamente, nesse caso, caberá aos leitores verificarem as fontes que sustentam as diferentes perspetivas, e terem conta as motivações dos autores, isto é, o político e o historiador.

(ARCHIVOZ) Já no seu livro, intitulado Júlio de Melo Fogaça, publicado em 2018, pela Editora Desassossego, menciona na Introdução as dificuldades que sentiu ao escrever esta biografia, o que lhe exigiu, passo a citá-lo,  “desconstruir políticas inexplícitas de esquecimentos, mas também superar os obstáculos que resultam da própria reconstrução de Júlio Fogaça enquanto sujeito histórico complexo, da mobilização de fontes escassas e dispersas, e ainda da domesticação dos recortes cronológicos”, fim de citação. Considerando as suas palavras, no que respeita e este contexto particularmente adverso para escrever a biografia desta personalidade, a que fontes recorreu para investigar e escrever a mesma?

(AC) Este livro tem sobre si (também) a responsabilidade de estar incluir no Plano Nacional de Leitura. Num certo sentido, penso (por isso) que se trata do reconhecimento de um dos mais importantes dirigentes comunistas do século XX, um rival de Álvaro Cunhal, que acabou por ser apagado tanto da História do PCP como do movimento comunista internacional. O que resultou desde logo numa acentuada limitação de fontes. Existiam (e existem, claro) fontes importantíssimas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e o espólio pessoal de Júlio de Melo Fogaça depositado na Academia de Ciências de Lisboa, mas, uma vez mais, as fontes orais foram de enorme importância e, acima de tudo, um arquivo pessoal que permitiu dar uma ampla dimensão à biografia, por exemplo, cartas pessoais, fotografias, documento familiares, etc. Sem todas estas múltiplas fontes teria sido impossível biografar Júlio de Melo Fogaça.

(ARCHIVOZ) Para terminar, como é que imagina que no futuro será o acesso à documentação dos arquivos políticos portugueses? Acredita que será possível um acesso muito mais alargado, por parte do público em geral, do que agora se verifica? Pensa que será possível uma aposta, por parte dos partidos políticos, na implementação e desenvolvimento de um serviço de arquivo, que aposte na digitalização e disponibilização sistemática de conteúdos, em livre acesso?

(AC) Há uma questão que me parece central: a urgência do envolvimento dos arquivistas profissionais na organização das fontes. Mesmo que casos em que os voluntários e os entusiastas organizam aquilo que consideram arquivos, é fundamental garantir a profissionalização no tratamento das fontes. O facto de a democracia portuguesa ser recente deve também ser considerada nestas circunstâncias, mas o caminho terá de ser feito com profissionais.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“É o momento para o reconhecimento do investimento realizado nesta área e uma oportunidade para o seu incremento”: Entrevista com Alexandra Lourenço

Entrevistámos Alexandra Lourenço, Diretora de Serviços de Apoio Especializado, Recursos Documentais e Relações Públicas da Secretaria–Geral do Ministério da Justiça.

 

(ARCHIVOZ) Fale-nos um pouco do seu percurso e das organizações em que desempenhou funções técnicas e de dirigente de nível intermédio, antes de chegar à Secretaria-Geral do Ministério da Justiça, onde se encontra desde o início deste ano.

(Alexandra Lourenço) Anteriormente, durante mais de uma década fui Chefe de Divisão de Arquivo na Direção-Geral do Tribunal de Contas e também mais de uma década Chefe de Divisão de Normalização e Apoio à Administração na Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. Em ambos os casos o exercício dos cargos pautou-se pela inovação, por trazer valor acrescentado à instituição e no caso da DGLAB ao sistema arquivístico da Administração Pública.

(ARCHIVOZ) Atualmente é Diretora de Serviços de Apoio Especializado, Recursos Documentais e Relações Públicas na Secretaria-Geral do Ministério da Justiça. Como carateriza a sua função neste cargo?

(AL) É uma função abrangente, envolve a gestão dos recursos documentais e informacionais, nas suas várias perspetivas, arquivo, biblioteca, espólio museológico, numa atuação integradora e dinâmica, contemplando as vertentes institucional e ministerial, conjugadas com uma componente social ativa.

(ARCHIVOZ) Ao longo da sua carreira tem orientado inúmeros projetos, de grande envergadura, com destaque, nos últimos anos, para a MEF (Macroestrutura funcional) e o ASIA (Avaliação Suprainstitucional da Informação Arquivística), no âmbito das funções que desempenhou como Chefe de Divisão de Normalização e Apoio à Administração na Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. Fale-nos um pouco dos principais objetivos e benefícios para a Administração Pública destas iniciativas.

(AL) Estes projetos colaborativos, que contaram a participação de quase duas centenas de interlocutores da Administração Local, Central e do Setor Público Empresarial, manifestam que é possível refletir, construir e evoluir em conjunto na área da gestão da informação.

Visaram a construção de uma linguagem comum para as entidades com funções de natureza pública e a determinação de prazos de conservação e destinos para a informação produzida no âmbito desses processos de negócio, numa abordagem de topo e suprainstitucional para a criação da memória do Estado, numa perspetiva de co-responsabilização dos intervenientes nos processos transversais, em que o dono do processo se responsabiliza pela conservação dos documentos constituintes, podendo os participantes eliminar os documentos resultantes da sua intervenção, findo os prazos de conservação, associados aos direitos e deveres resultantes do processo.

Estes projetos deram origem ao desenvolvimento de três componentes: 1/ a documental, consubstanciada na “Lista Consolidada para a classificação e avaliação da informação pública”, referencial que serve de base à elaboração de planos de classificação e tabelas de seleção; 2/ a tecnológica, materializada na plataforma CLAV – Classificação e Avaliação da Informação Pública, que disponibiliza orientações e ferramentas para a normalização das práticas de classificação e avaliação, para a interação entre a Administração Pública e o órgão de coordenação do sistema arquivístico nacional e ainda para a melhoria do conhecimento do cidadão sobre o Estado, 3/ a legislativa, corporizada na proposta de diploma legal “Regime jurídico para a classificação e avaliação da informação arquivística”.

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 colocaram novos desafios aos arquivos, obrigando os seus responsáveis e colaboradores a adaptar-se a novas metodologias e formas de trabalhar. Fazendo uma retrospetiva desta nova realidade, que se faz sentir desde meados de março de 2020, como é que acha que os arquivos foram capazes de se reinventar e dar uma resposta eficaz aos problemas e oportunidades surgidas?

(AL) A sociedade adaptou-se e reinventou-se para responder aos efeitos da pandemia causada pelo novo coronavírus.

Ao nível da gestão da informação, esta adaptação veio demonstrar a inevitabilidade do caminho da desmaterialização, a digitalização da sociedade. A interação dos intervenientes nos processos passou a realizar-se por formas menos convencionais, recorrendo maioritariamente ao correio eletrónico, quando as transações informacionais não se verificam em plataformas orientadas ao negócio.

Um dos grandes desafios para os profissionais da informação passa pela institucionalização destas formas de interação, transformando estes atos em documentos oficias, associados à metainformação que os permitirá gerir em contexto institucional, de forma a garantir os direitos e deveres associados, bem como a sua preservação no médio e longo prazo.

A gestão dos sistemas de informação numa visão universalista são o desafio que se impõe a estes profissionais.

Na perspetiva dos arquivos históricos, este contexto veio igualmente acentuar a importância do estar em linha, à distância de um clique para obter a resposta na hora. É o momento para o reconhecimento do investimento realizado nesta área e uma oportunidade para o seu incremento.

De uma forma genérica, demonstrou-se que a resposta ao cidadão, às empresas, à entidade onde se trabalha é tanto melhor quanto o tratamento da sua informação e dados for efetuado com qualidade. Esta pode ser a ocasião para se reivindicar o reforço do papel do profissional de informação.

(ARCHIVOZ) Tem uma notável experiência como docente em Ciência da Informação, nomeadamente como assistente convidada, desde 2004 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na Universidade Autónoma de Lisboa, entre 1999 e 2009, e no Instituto Superior de Línguas e Administração, entre 2001 e 2004, para além de ter sido monitora em cursos técnico-profissionais de arquivo e em ações de formação da BAD. Considerando este percurso, como encara a formação dos profissionais nesta área?

(AL) A formação nesta área exige uma renovação permanente, acompanhando a evolução tecnológica e societal, que aportam novas formas de produção informacional e a necessidade de novas formas de tratamento e disponibilização da informação e dos dados.

No contexto atual, por muitos denominado da pós-verdade, é ainda indispensável que a formação dos profissionais de informação os dote das ferramentas que lhes permitam atuar aquando da conceptualização dos sistemas da produção documental e informacional, assegurando que, na criação dos documentos e informação intrínseca, estes se encontram dotados dos elementos que certificam a sua autenticidade, fidedignidade, integridade, mas também acessibilidade no momento da criação e ao longo dos tempos.

(ARCHIVOZ) Entre 2014 e o final de 2020 foi Presidente do Conselho Diretivo da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação. Que balanço faz do exercício destas funções?

(AL) Em termos de Associação, desenvolveu-se uma profunda alteração das suas bases internas e de gestão. A BAD encontra-se dotada de novos Estatutos, que proporcionam uma visão mais inclusiva, integradora e representativa dos associados; novas instalações, mais dignas, amplas e adaptadas às suas funções; novas formas de comunicação, como o site Eventos BAD.

Em termos de impacto na sociedade, a BAD foi trazida para a rua, é importante comunicar entre parceiros, mas é igualmente importante que os outros, a sociedade, nos conheçam e percebam o que fazemos.

Em defesa dos associados, dos profissionais de informação e dos serviços de informação e documentação, foi igualmente incrementada uma vertente de reivindicação, com uma componente de atuação política junto dos grupos parlamentares e dos membros do governo e com a participação em movimentos cívicos e cooperativistas, como a Plataforma Cultura em Luta, o Unidxs pelo presente e futuro da cultura em Portugal ou o PP-CULT Plataforma pelo Património Cultural.

É ainda de realçar alguns projetos com impacto na comunidade de profissionais de informação, como o Projeto Bibliotecas para o Desenvolvimento e a Agenda 2020 – financiado pela IFLA  – e o projeto de divulgação do papel dos profissionais de informação no âmbito do Regulamento Geral de Proteção de Dados.

(ARCHIVOZ) Uma última pergunta, tendo em conta o seu extraordinário trajeto nesta área, nomeadamente ao nível técnico, dirigente, docente e associativo, como é que vê o futuro dos arquivos em Portugal e quais é que pensa que são os grandes desafios e oportunidades para os profissionais da informação?

(AL) Os profissionais de informação, independentemente do nome que tomaram – arquivistas, documentalistas, gestores de informação… – foram essenciais ao longo dos tempos quer no papel de garantes da custódia documental, quer no de mediadores da informação.

Na vertente técnica, hoje, impõe-se uma permanente adaptação ao contexto tecnológico de produção informacional, já não é suficiente liderar a conceptualização e gestão dos sistemas de gestão documental, é indispensável intervir de raiz nos sistemas de informação orientados ao negócio.

Na vertente societal, em plena era da pós-verdade, perante o problema de notícias falsas nas redes sociais, na internet em geral, bem como na comunicação social, é imprescindível tornar acessível a informação administrativa e científica, incorporar a mediação informacional no quotidiano e atuar na promoção da literacia informacional e digital.

O grande desafio e oportunidade será sempre a capacidade para promover uma maior interação entre profissionais, porque é em conjunto, ajudando-nos, complementando-nos, que crescemos e que obtemos reconhecimento.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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“A história não é apenas ação dos grandes homens, mas sim de todos os homens que operam cotidianamente para a realização de ações que resultam em movimentos dessa mesma história”: Entrevista com Américo Baptista Villela

Américo Baptista Villela é Professor da Escola Técnica Bento Quirino, curador do Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” * na mesma instituição, e historiador do Museu da Cidade de Campinas, São Paulo. A Escola Técnica Bento Quirino é fruto do legado testamentário de Bento Quirino dos Santos, que foi um comerciante próspero e homem engajado na política e sociedade do seu tempo. Criada em 1915 como instituição particular masculina, a “Associação Instituto Profissional Bento Quirino” foi projetada pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo e edificada na região central da cidade de Campinas no ano de 1917.

A expansão das escolas profissionais no Brasil esteve, inicialmente, diretamente vinculada ao processo de urbanização e industrialização do país, mas também à necessidade de oferecer uma opção para os filhos dos homens brancos pobres e livres que viviam nas cidades, e aos órfãos e desprovidos de fortuna. Um dos principais objetivos era transformar os indivíduos em cidadãos e qualificá-los para o trabalho através da educação. Em 1927 a Escola foi incorporada pelo Governo de São Paulo, ano em que também passou a ser uma escola mista com a criação da Seção Feminina. No ano de 1967 deixa o seu edifício original e transfere suas atividades para o endereço onde está localizada até os dias de hoje, na Avenida Orosimbo Maia nº 2600.

(ARCHIVOZ) Prezado Professor, no ano de 2020 o Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” comemora 20 anos de existência. Gostaria que você comentasse como surgiu a ideia de constituição do Centro, assim como sua participação e dos alunos neste projeto.

(Américo Baptista Villela) Bom dia. Inicialmente, gostaria de agradecer a possibilidade de divulgar esse importante instrumento de ensino e pesquisa que é o Centro de Memórias “Orleide A. Alves Ferreira” da Etec Bento Quirino de Campinas. Isto posto, vou tentar reconstruir a trajetória que resultou na construção do mesmo.

Em 1992, a escola passa por muitas modificações preparando-a para ser incorporada pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, autarquia do governo do Estado de São Paulo, e para tanto há a mudança na direção da escola, bem como a chegada de um grupo de professores recém-formados no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas. A direção é assumida pela professora Orleide, posteriormente homenageada como patrona do Centro de Memórias, entre os professores estavam presentes eu, Ronaldo Finelli – in memoriam, Claudia Bevilacqua Denardi, Sandra Regina de Almeida Moratto.

Esse grupo, ao chegar a escola, encontrou uma rica documentação espalhada por diversas dependências do prédio e correndo risco de deterioração. Em um primeiro momento, a escola convida um grupo técnico do Centro de Memória da Universidade de Campinas para visitar a escola e conhecer a documentação em questão. Esse grupo composto por  Fernando Antônio Abrahão, diretor da área de arquivos históricos, Cássia Denise Gonçalves, arquivista – responsável pelo setor de fotografias, Maria Alves de Paula Ravaschio, diretora da biblioteca, após a visita,  reforçou a percepção original do grupo de professores sobre a importância do acervo e fez algumas recomendações sobre como proceder para garantir a preservação do mesmo, mas, naquela conjuntura, marcada pela transição que a escola vivia, essas recomendações não puderam ser atendidas.

Realizada a transição em 1995, os professores retomam o tratamento do acervo e em 1997, durante a comemoração dos oitenta anos da construção da primeira sede da escola, há a montagem de uma exposição sobre a história e desenvolvimento da mesma. Na construção desta exposição, o engajamento e participação dos alunos foi muito grande e demonstrou novamente a importância e riqueza do acervo. Em 1998, há aproximação com a equipe do Centro de Memória da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, que estava realizando uma parceria com o Centro Paula Souza e que contribuiu para viabilizar o sonho esboçado em 1992, de que a escola viesse a ter o seu próprio Centro de Memórias.

(ARCHIVOZ) Sobre a participação da Etec Bento Quirino no Projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais”, uma parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e o Centro Paula Souza, qual foi a maior contribuição deste projeto para a Escola, além claro, da criação do Centro?

(AV): Sem sombra de dúvidas, o protagonismo se deu em função do envolvimento de toda a comunidade escolar em torno do tema. Professores, alunos, funcionários e todos os órgãos auxiliares da escola como a Associação de Pais e Mestres e o Grêmio Estudantil se envolveram na transformação de um sonho em realidade. Além disso, a capacitação técnica oferecida pela equipe do Centro de Memória da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, bem como a capacidade do referido Centro em mobilizar o apoio de outras instituições da referida universidade como o Instituto de Estudos Brasileiros (USP), o Museu de Arte Contemporânea, etc. e também de instituições como o Arquivo do Estado de São Paulo para qualificar os professores envolvidos foi determinante.

Ainda, foram determinantes o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP, que ofereceu bolsas de estudos para os professores e recursos para a aquisição de materiais de consumo e equipamentos e da Associação de Pais e Mestres da escola, que auxiliou na reforma do espaço e recebeu a documentação. Difícil dimensionar qual foi a maior contribuição, mas eu acredito que foi a articulação entre ensino e pesquisa que o projeto não só permitiu como incentivou e que se mantém até hoje.

Ações foram desencadeadas pelos alunos para reconstruir o conhecimento sobre a história da escola e surgiram iniciativas de conservação e restauro de antigos documentos que incentivaram práticas transdisciplinares, como o atual restauro de um torno da década de 1940 ou a montagem do laboratório fotográfico para reprodução dos documentos iconográficos.  Além disso, aponto a forma como os alunos passaram a ver não apenas o patrimônio histórico cultural, mas o próprio patrimônio da escola como propriedade de cada um dos membros da comunidade escolar e portanto objeto de carinho, cuidado e guarda de todos, o que fez com que o patrimônio escolar deixasse de ser alvo de vandalismo.

(ARCHIVOZ) Para realizar a constituição do Centro de Memórias da Etec Bento Quirino foram realizadas capacitações para a equipe técnica-administrativa e professores da escola. Como se deu a incorporação dos alunos neste projeto que foi intitulado “Introdução ao Tratamento do Documento Museal” e quais as principais atividades realizadas?

(AV) O curso “Introdução ao Tratamento do Documento Museal” foi uma estratégia para socializar os conhecimentos adquiridos pelos professores participantes do projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais” durante as capacitações realizadas. Abriu-se inscrição para os alunos interessados através do Grêmio estudantil e o mesmo realizou a seleção para a participação, pois não foi possível atender a todos.

As atividades do curso, apostilado, ocorreram no período das férias de julho de 1998 e consistiram em 20 horas aulas, organizadas em 5 dias, com duas horas iniciais de discussão teórica seguidas de duas horas de atividades práticas. Em cada um dos dias de curso foi tratado um dos assuntos a serem aplicados pelos alunos: arquivística, teoria das três idades, iconografia, diferentes suportes de informação, tratamento de documento tridimensional, procedimentos museológicos, etc.

Após o curso, os alunos participantes passaram a socializar com os colegas que atuavam voluntariamente, para inventariar, catalogar, higienizar e embalar os acervos em seus diferentes suportes e formatos. Além disso, alguns alunos com habilidades em informática desenvolveram sistemas para controlar e disponibilizar o acervo ao público, o que levaria a inauguração do Centro de Memórias no ano de 2000.

(ARCHIVOZ): A professora Orleide, analisando os trabalhos que resultaram na construção do Centro de Memórias Bento Quirino avaliou que ao mobilizar a comunidade para higienizar, embalar e organizar os documentos, ficou evidente que o gerenciamento da coisa pública é responsabilidade de todos. Gostaria que você comentasse sobre essa experiência coletiva.

(AV) Como apontado anteriormente, os alunos passaram a ver não apenas o patrimônio histórico cultural, mas o próprio patrimônio da escola como propriedade de cada um dos membros da comunidade escolar, portanto objeto de carinho, cuidado e guarda de todos. Isso fez que o patrimônio escolar deixasse de ser alvo de vandalismo. Isto porque, acredito eu, foi transferida para eles a responsabilidade pelas ações que garantiriam a preservação dos documentos, e eles próprios passaram a se perceber como partes constituintes e agentes da história da escola. Sendo assim, cada um deles pretendia deixar um legado e compreenderam que carteiras, máquinas, enfim, objetos que hoje estavam ali em função de seu valor de uso, amanhã poderiam estar no Centro de Memórias pelo seu valor cultural.

Nas comemorações dos cem anos da escola em 2017, muitos retornaram para a cerimônia de abertura da Cápsula do Tempo. Nesta cápsula foram depositados bilhetes para a posteridade durante as comemorações dos oitenta anos da escola em 1997.  Em 2017 uma nova capsula foi lacrada, para que em 2037 seja reaberta com as recordações e objetos depositados pelos alunos.

(ARCHIVOZ) Você utilizou para a realização do seu projeto de Mestrado* * na Unicamp a documentação do Centro de Memórias.Por ter participado da constituição desse acervo, como se deu a seleção e análise dos documentos na elaboração da sua dissertação?

(AV) A bem da verdade, durante a realização do projeto “Pesquisa sobre o Ensino Profissional no Estado de São Paulo: memória institucional e transformações histórico-espaciais regionais”, algo me incomodava: era a percepção de que muitos acreditavam que o nosso papel era apenas o de garantir a conservação, preservação e disponibilização das fontes documentais para os pesquisadores e para a posteridade, o que, acredito eu, por si só, já seria uma meta louvável.

No entanto, eu entendia que o nosso papel como professores era maior. Era necessário não apenas garantir a conservação, preservação e disponibilização das fontes documentais para os pesquisadores e para a posteridade, mas também oferecer aos nossos alunos a possibilidade de se utilizarem dessas fontes para reconstruir o seu próprio conhecimento do passado e foi essa percepção que nos motivou a deixar que a exposição inaugural fosse construída por eles.

Para minha grata surpresa eles optaram por dividir a exposição em dois módulos: no primeiro, a partir dos instrumentos de trabalho que eles haviam utilizado (trinchas, estiletes, material para confecções de embalagens e jaquetas para as fotos, etc.) e imagens, eles reconstruíram a trajetória de criação do Centro de Memórias. Pensei comigo, muito bom, eles estão “dessacralizando” os objetos museológicos e percebendo que a história não é apenas ação dos grandes homens, mas sim de todos os homens que operam cotidianamente para a realização de ações que resultam em movimentos dessa mesma história. O Centro de Memórias não é criação dos professores ou da direção escolar, mas de toda a comunidade.

No segundo módulo, eles se propuseram a recontar os anos iniciais da escola a partir do acervo e, nesse ponto surge o embrião da minha dissertação. Ao reconstruir a história da escola eles romperam com a visão tradicional e consagrada pela memória oficial de ver a escola como uma ação de mera filantropia do patrono. Eles perceberam a criação da escola como resultado de uma cidade que via surgir a industrialização em uma economia agroexportadora baseada na cultura cafeeira, e em que o próprio benemérito havia se envolvido com o setor de serviços. Para tanto, eles se utilizaram de um quadro de 1914 oferecido pela Cia. Mogiana de Estradas de Ferro e Navegação para homenagear o patrono por ter sido presidente da mesma, destacando a importância do patrono para a criação da Cia. Campineira de Águas e Esgoto em 1889.

Mais do que isso, os alunos perceberam que os cursos oferecidos estavam diretamente relacionados com as fábricas que estavam se instalando na cidade. Foi a partir dessa exposição que comecei a pensar minha futura dissertação. A seleção e análise da documentação se realizou a partir das pesquisas realizada por alunos da própria ETEc e do suporte oferecido a outros pesquisadores que realizaram seus trabalhos sobre o acervo, pois me obrigaram a conhecer quantitativa e qualitativamente a documentação e, nesse sentido, as atividades oferecidas pela Faculdade de Educação da UNICAMP permitiram e contribuíram para um maior rigor e aprimoramento teórico metodológico da minha pesquisa.

(ARCHIVOZ) Hoje, como o acervo está organizado, quais os principais tipos documentais, tamanho do acervo, e quais as condições de consulta e acesso aos documentos? E perante às mudanças ocorridas na Escola e no Centro de Memórias, quais as possibilidades de retomada deste trabalho, esperança e perspectivas de futuro?

(AV) Hoje, o acervo que havia sido organizado em um espaço único composto por: uma sala de exposição, uma área grande para reserva técnica, duas salas para tratamento da documentação (sendo uma para o tratamento físico de higienização e embalagem para exposição ou guarda e outra para catalogar e alimentar banco de dados e página na internet), uma sala na qual foi instalado o laboratório fotográfico… novamente voltou a estar espalhado pela escola.

Documentos que exigem guarda em função de seu valor probatório, tais como prontuários de professores e ou de alunos estão sob gestão dos respectivos setores que os geram, a saber, respectivamente, Diretoria de Serviços e Diretoria Acadêmica. Os documentos que foram preservados em função de seu valor cultural, como imagens, livros ou objetos estão sob guarda do Centro de Memórias em uma pequena sala com uma exposição permanente.

O Centro tem apostado na utilização de técnicas museológicas para garantir a manutenção e ressignificação de objetos e espaços da escola. Assim, por exemplo, um antigo torno que seria leiloado foi restaurado por um grupo de alunos e musealizados na oficina da escola, e as placas que nomeiam algumas salas seguem acompanhadas de textos que explicam os motivos da menção. O objetivo é que no longo prazo a escola volte a perceber o potencial do Centro de Memórias como um importante instrumento de ensino e pesquisa, mas também como um espaço de cidadania.

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos desenvolvidos durante estes 20 anos por pesquisadores externos no Centro de Memórias? E internos? Quais você destacaria? De que forma a documentação/fontes utilizadas fundamentou os projetos desenvolvidos?

(AV) Difícil definir quais os principais, todos eles tem sua importância. Gostei muito da exposição inaugural, bem como da exposição organizada pelo Grêmio Estudantil em 2001, mas delas não restaram muitos registros, sendo assim, vou me pautar pela longevidade e possibilidades de trabalhos futuros, sendo assim destaco:

Entre os pesquisadores externos apontaria a dissertação de Lúcia Pedroso da Cruz “Bento Quirino e Cotuca: os passos do Ensino Profissional em Campinas”, tendo como orientadora Maria Helena Salgado Bagnato em 2008, e o seu Doutorado “A trajetória de um dispensário de puericultura em Campinas nas décadas de 1930 e 1940”, (2014) ambos defendidos na Faculdade de Educação da UNICAMP.

Entre os pesquisadores internos, cito os trabalhos dos alunos Jonathan Doro sobre relações étnicos raciais, que enfatiza a manutenção da discriminação racial no acesso à educação, e da aluna Sophia Carvalho Tosi sobre os cursos femininos, no qual ela analisa os impactos da revolução sexual dos anos 1960, sobre a forma como os trabalhos das meninas eram exibidos, ambos apresentados como banners no VI – Encontro de Memórias e Histórias da Educação Profissional  Concepções, Rupturas e Permanências, realizado pelo Centro Paula Souza em 2018.

Em todos esses trabalhos a documentação foi utilizada como indícios de um passado a ser conhecido e reelaborado a partir de uma análise crítica da mesma.

(ARCHIVOZ) Sobre a sua afirmação “pretendo que os documentos não apenas reafirmem e complementem as lembranças, mas que também possam gerar novas formas de reviver o passado…”. Queria que você falasse um pouco mais sobre essa questão: sobre como é possível, através do resgate do passado fazer novas reflexões sobre a história, o tempo presente, os acontecimentos,  e assim “estar preparado para mudar de ideia e reconstruir o processo histórico”.

(AV) Retomando o exemplo da exposição inaugural e o quadro mencionado ofertado pela Cia. Mogiana de Estradas Ferros e Navegação. O quadro foi entregue a escola para reforçar uma memória da ação do patrono, como filantropia, porém os alunos ao recontextualizar a vida do patrono, e da própria cidade, atribuíram a ele um outro significado que não apenas o da filantropia.

Mais do que isso, a exposição inaugural ocorreu em uma conjuntura marcada por um forte embate entre o movimento estudantil e o governo federal e estadual, tendo em vista o decreto 2208\97 que havia instituído o desvinculo entre o ensino técnico e médio, depois do projeto de lei 1603/96 não conseguir ser aprovado, o que forçou o governo a se utilizar de um expediente autoritário.

Isso fez com que os alunos inserissem lágrimas nos olhos da imagem do patrono na expografia. Na monitoria, eles explicavam para os visitantes que o patrono, caso vivo, estaria triste com as mudanças que estavam sendo impostas à escola, o que representaria uma redução da qualidade de ensino mais ampla almejada pelos republicanos do início do século XX. Assim, penso eu, a história deixa de ser pensada como algo pronto e acabado, mas sim em algo que está em constante reelaboração.

(ARCHIVOZ) Prezado professor, agradecemos a sua entrevista e disponibilidade. E desejamos sucesso na continuidade dos trabalhos no Centro de Memórias.
  • A Professora de história Orleide Aparecida Alves Ferreira, que dá nome ao Centro de Memórias, foi diretora da Escola Técnica Bento Quirino entre 1992 e 2004, ano em que retornou à sala de aula.
* * “O instituto profissional masculino Bento Quirino: uma visão social ideológica, maçônica, industrial e republicana” de 2011.
Crédito Fotográfico: Imagem cedida por Américo Baptista Villela.

Entrevista realizada por: Isabela Cristina Salgado

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A importância das fontes primárias para a pesquisa histórica: o caso da Senzala da Fazenda da Lapa de Campinas (Brasil). Entrevista com a Professora Sílvia Zakia., Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo.

No ano de 2018, a Sociedade Hípica de Campinas/São Paulo/Brasil, em comemoração ao 70º Aniversário do clube, implantou o seu Centro de Memória. A Hípica, um clube poliesportivo, foi fundado em 27/10/1948 numa antiga fazenda de café – a Fazenda da Lapa. A Fazenda está sediada antiga na  sesmaria do Mato Dentro, um instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras destinadas à produção agrícola, destinado a particulares no período da colonização (em Portugal e no Brasil).

Ao identificar os documentos históricos do Clube para compor os acervos do Centro de Memória, os historiadores encontraram uma pesquisa sobre um dos edifícios da fazenda: a Senzala. No imaginário dos associados da Hípica, a escravidão na fazenda era “lenda”. Mas uma pesquisa da Professora Sílvia Zakia, Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, comprovou a existência de escravos na fazenda de café. Com o objetivo de conhecer um pouco mais sobre essa história, a Archivoz entrevistou a Professora, para falarmos sobre a pesquisa que realizou sobre este edifício e sobre a importância das fontes primárias na comprovação de seus dados, que ainda de acordo com ela, foi fundamental no projeto de restauração do edifício no ano do cinquentenário da Hípica em 1998.

(ARCHIVOZ): Até a década de 1980, a ideia de patrimônio arquitetônico estava relacionada a bens de excepcional qualidade artística, conceito recentemente ampliado e abrangendo também os edifícios considerados testemunhos históricos da nossa memória coletiva. De lá para cá, o que mudou no conceito do patrimônio arquitetônico/histórico?

(S .Z.): Cumpre ressaltar, que no caso brasileiro, o primeiro órgão de preservação do patrimônio foi criado em 1937, SPHAN, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Grosso modo, num primeiro momento a noção de patrimônio arquitetônico esteve vinculada aos bens de excepcional valor artístico e estético. No entanto, o entendimento sobre patrimônio, foi ao longo do tempo, ampliado. A partir, das décadas de 1970 e 80, a noção de valor histórico invocando questões de representatividade e de exemplaridade foi incorporada à conceituação de preservação. Ademais, a criação de órgãos de preservação, estaduais e municipais vem também, nesse sentido, ampliar o escopo de atuação.

Ao lado do patrimônio barroco das igrejas mineiras encontram-se tombados, hoje, hospitais, escolas, palacetes ecléticos, vilas operárias, estações de trem, fábricas, estádios de futebol, enfim, uma variedade de edificações representativas de nossa história. Além das edificações, propriamente ditas, também passam a figurar como patrimônio, conjuntos arquitetônicos, como por exemplo, os bairros e também sítios históricos como fazendas, vilas, casarios, terreiros de candomblé, etc. Um patrimônio mais diversificado e plural, que espelha o conjunto da sociedade em seus vários momentos históricos.

(ARCHIVOZ): A senzala da Fazenda da Lapa de Campinas, onde hoje está sediada a Sociedade Hípica, é uma das únicas edificações remanescentes do conjunto original da fazenda, e também um dos poucos exemplares ainda existentes na região. Gostaria que a Professora falasse sobre este patrimônio, tão importante para a história da cidade.

(S.Z.): O conjunto da Fazenda da Lapa está inserido no recorte histórico que compreende a segunda metade do século XIX, período que contextualiza o surgimento e apogeu da fazenda enquanto produtora de café. Nesse sentido, é exemplar de uma tipologia própria da região campineira[1]. Sobre o patrimônio arquitetônico rural, no geral, encontramos maior número de remanescentes das sedes de fazenda de café e das casas-grandes dos engenhos. É mais difícil encontrar o conjunto completo de edificações destas propriedades rurais. Em Campinas, especificamente, temos duas situações distintas: engenhos de açúcar que foram transformados em fazendas de café e as fazendas de café propriamente ditas. No primeiro caso, tanto a casa senhorial como as instalações produtivas foram transformadas para atender às novas exigências produtivas e nesse sentido, as demolições e novas construções foram acrescidas aos novos complexos produtivos rurais.

A Fazenda da Lapa foi fundada, em 1849, é fruto de desmembramento do Engenho Mato Dentro. O conjunto arquitetônico original foi especificamente construído para atender ao processo produtivo cafeeiro, e constituiu importante exemplar da tipologia arquitetônica das fazendas de café da região de Campinas[2], região esta, que corresponde a do segundo período de expansão cafeeira.

As fazendas de café eram praticamente autossuficientes, seguindo o mesmo conceito dos engenhos, onde quase tudo era produzido ou criado “in loco”: moradia, alimentação, materiais de construção, vestiário, criação de animais etc. A organização da lavoura cafeeira, assim como a do açúcar, era baseada na monocultura exportadora e no trabalho escravo, posteriormente substituído pelo trabalho livre do imigrante. Como propriedade rural autossuficiente, o complexo arquitetônico edificado das fazendas de café tinha como objetivo atender todas as exigências necessárias ao seu pleno funcionamento.

As residências (do senhor e dos escravos), tulha, beneficiamento, escolha, terreiro e a área de serviços secundários à produção eram construções formuladas individualmente, mas com estreita relação ao novo personagem: o terreiro de secagem. Em síntese, as edificações que compõem o conglomerado “cafezista” eram as seguintes: Sede – moradia do grande proprietário rural; Terreiro – que se destinava à secagem do café; Tulha – grandes edifícios para armazenamento do café; Casa-de-máquinas – edifício específico para abrigar as máquinas destinadas ao beneficiamento do café; Capela; Muros de taipa – os limites do conglomerado eram demarcados por extensos muros de taipa de pilão; Senzalas – em geral, constituíam-se de um edifício alongado dividido em lanços sucessivos, coberto por um único telhado corrido de duas “águas”, que poderia ser em linha ou em quadra. Quando em quadra era designado de “curro” ou quadrado. Esta disposição em “curro” era própria de fazendas com grande número de escravos (caso da Fazenda da Lapa), pois este partido facilitava o controle da escravaria.

A sede da Fazenda da Lapa era um grande sobrado, de implantação à meia encosta, com paredes de taipa de pilão e divisórias de pau-a-pique. Um misto do sistema construtivo paulista e mineiro. Um “sobradão” com planta em “L” e telhado de quatro “águas”. No primeiro lanço ficavam as salas, no intermediário os dormitórios e alcovas, e no lanço posterior a grande varanda. No prolongamento que formava o “L”, estavam situadas a cozinha e dependências de serviço. Uma escada central à frente da sede fazia a ligação entre jardim e o nível da moradia, que se desenvolvia neste piso. O nível inferior possivelmente, utilizado como depósito. Uma construção lateral alinhada à sede se prolongava até o quadrado, possivelmente esta edificação teria sido a primitiva senzala da fazenda. Um grande quadrado de senzalas abrigaria posteriormente uma vasta escravaria: aproximadamente 155 escravos inventariados em 1868. Extensos muros de taipa fechavam o conjunto, restando hoje apenas um pequeno pedaço de muro contíguo à senzala. A tulha e casa-de-máquina ficavam num nível abaixo do terreiro. Acima deste conjunto agenciado em quadra, ficava outro terreiro provavelmente mais recente.

(ARCHIVOZ): Sílvia, como se deu o processo da sua investigação? Quais os documentos consultados e as informações levantadas, que sabemos, foram fundamentais para o processo de restauro do edifício da senzala em 1998, ano do cinquentenário da Sociedade Hípica de Campinas?

(S.Z.): O estudo sobre o conjunto edificado da Fazenda Lapa foi realizado a partir de fontes documentais primárias, da iconografia, dos relatos dos viajantes e principalmente a partir da consulta dos inventários de particulares que estão no Arquivo Histórico do Centro de Memória da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Estes materiais foram imprescindíveis para o desenvolvimento da pesquisa e para a reconstituição hipotética do conjunto do edifício original. A partir das informações coletadas no inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, realizado em 1868, pudemos comprovar a existência de um contingente expressivo de escravos na Fazenda Lapa. Estavam registrados, no inventário, cento e cinquenta e cinco escravos, cujo montante total representava praticamente o dobro do valor das terras:

Benfeitorias e terras do sítio Mato Dentro de Baixo (Fazenda Lapa) correspondem a 94:300$000 mil réis;

155 escravos, no valor de 182:560$000 mil réis;

240 mil pés de café, no valor de 80:700$000 mil réis.

As terras e benfeitorias representavam 26,3% do montante total; os pés de café correspondiam a 22,6% e o lote de escravos… 51% restantes. Portanto, os dados contidos nos inventários fornecem importantes subsídios para pesquisas em variados campos disciplinares. No caso em questão, conseguimos comprovar, de um lado, a relevância econômica do escravo para o proprietário, e por outro, que o contingente expressivo de cento e cinquenta e cinco pessoas exigia um abrigo de grandes proporções, ou seja, uma senzala de grandes dimensões configurada de maneira a assegurar o controle do precioso bem.

Muitos inventários particulares do século XIX já estão disponíveis para pesquisadores no acervo do Arquivo Histórico do Centro de Memória da Universidade de Campinas. Sua consulta, obviamente, requer cuidados especiais para manuseio. São documentos originais, raros, e por vezes, em estado delicado de conservação. Quando realizei a pesquisa, entre 1998 e 1999, os inventários estavam disponíveis, exclusivamente, para leitura. O pesquisador podia copiar a lápis os dados que lhe interessavam. Cada acervo possui suas regras passíveis de alterações.

Em suma, posso asseverar que os inventários são fontes primárias essenciais para pesquisadores, contêm dados precisos, que podem fornecer subsídios para inúmeras análises. Uma ligeira visada sobre as designações do registro dos escravos da Fazenda Lapa permite identificar: origem, sexo, atividade exercida, e seus respectivos valores:

Procedência: Francisco Mineiro (1:000$000); Luiz Congo (2:000$000); Manoel Congo (700:000$000); José Pernambucano (2:500$000); Alexandre Baiano (1:900$0000). Atividade: Carlos cozinheiro (2:000$000); Trajano Copeiro (1:900$000); José Pedreiro (2:100$000); Antônio Monjolo (400:000$000); José copeiro (1:800$000); Joaquim Monjolo (400:$000); Benedito Monjolo (500$000); Francisco Alfaiate (1:200$000); Faixa etária: Anna Velha (50$000); Violante Velha (200$000); Caetano Velho (200$000); João Velho (50$000); Sebastião Velho (1:800$000); Firmina 13 anos (1:600$000).

(ARCHIVOZ): Agradecemos a Professora Silvia pela entrevista, e por nos contar sobre a importância da pesquisa com fontes primárias, que teve como um dos seus objetivos principais comprovar, e até mesmo desmistificar assuntos e temas tão importantes para a história brasileira, como a escravidão.

(S.Z.): Eu é que agradeço a oportunidade, agradecida por poder colaborar com a Archivoz. Os inventários podem ser consultados pessoalmente, pois ainda não foram digitalizados. Segue o site: https://www.cmu.unicamp.br/: Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D. Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.

 

[1] A fotografia do complexo cafezista da Fazenda da Lapa, registrada pelo fotógrafo suiço Guilherme Gaesnly, foi apresentada na publicação Il Brasile e gli italiani, obra patrocinada pelo governo brasileiro que tinha como objetivo atrair imigrantes italianos. Do lado esquerdo da imagem, ao fundo, o “quadrado” da senzala. Crédito fotográfico: Guilherme Gaensly,  Fazenda da Lapa, 1902 ou 1903. Coleção  Cartões Postais de Antônio Miranda. Centro de Memória da Unicamp – CMU.

[2] 1º Ciclo – região do Vale do Paraíba- primeiro quartel até meados do século XIX.

2º ciclo – região de Campinas – Oeste paulista – meados do século XIX e princípio do XX;

3º ciclo – região de Ribeirão Preto – “Novo” Oeste paulista – até 1930.

 

Referências bibliográficas

  • GOMES, Geraldo. Engenho & Arquitetura. 2ª ed. Recife: Fundação Gilberto Freire, 1998.
  • Il Brasile e gli italiani. Firenze : Pubblicazione del Fanfulla, R. Bemporad e Figlio, 1906.
  • Inventário de Francisco Ignácio do Amaral Lapa, 1868 – inventariado. D.Petronilha Egydio de Souza Aranha – inventariante.  3º ofício. Caixa 317. Processo 7.089. Centro de Memória da Unicamp, Universidade Estadual de Campinas.
  • MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba, c. 1830-1860. An. mus. paul.,  São Paulo ,  v. 13, n. 2, p. 165-188,  Dec.  2005 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142005000200006&lng=en&nrm=iso>. access on  10  June  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-47142005000200006.

Relatos de viajantes utilizados na pesquisa:

  • LAÈRNE, C.F. Val Delden. Le Brèsil et java. Rapport sur la culture du café en Amérique, Asie et Afrique. La Haye: martinus Nighoff, 1885.
  • MENDES, J.E. Teixeira. Lavoura cafeeira paulista (velhas fazendas do município de Campinas). Campinas: Instituto Agronômico do Estado, 1947.
  • RIBEYROLLES, Charles de. 1812-1860. Brasil Pitoresco: história, descrição, viagens, colonização, instituições. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed.da Universidade de São Paulo, 1980.
  • TAUNAY, Affonso d’Escrangolle. A propagação da cultura cafeeira. São Paulo: Edição do Departamento Nacional do Café, 1934.
  • TSCHUDI, J.J. Von. Viagens às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976.
  • ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação pela Província de São Paulo: 1860-1861. São Paulo: Martins, 1976.

 

 

 

“O Arquivo Municipal terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho”: Entrevista a Salomé Eiras, responsável do Arquivo Municipal dos Arcos de Valdevez

O Arquivo Municipal dos Arcos de Veldevez terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho/ história de vida/ memórias para publicar no portal: Entrevista a Salomé Eiras, responsável do Arquivo Municipal dos Arcos de Valdevez e do projeto Portal da Memória Arcuense

(Archivoz) Como nasceu o arquivo municipal dos Arcos de Valdevez?

(SE) O Arquivo Municipal José Terra, de Arcos de Valdevez, inaugurado a 11 de Julho de 2013, surgiu no âmbito de uma candidatura ao QREN (Quadro de Referência Estratégica Nacional) em 2009, com a reconstrução das antigas instalações do jornal semanário “Notícias dos Arcos”, em plena Praça Municipal. Sob a dependência da Divisão do Desenvolvimento Sociocultural, o Arquivo Municipal é responsável pela gestão arquivística da documentação produzida e recebida pela Câmara Municipal; compete-lhe, portanto, a recolha, selecção, avaliação, tratamento, gestão e difusão da documentação proveniente dos órgãos e serviços da Câmara Municipal, nas fases de arquivo intermédio e histórico, bem como recolher e tratar tecnicamente os arquivos e conjuntos documentais pertencentes a outras entidades do concelho de Arcos de Valdevez, com interesse histórico, patrimonial, arquivístico e/ou informativo, sempre que solicitado para esse efeito.

Atualmente, o Arquivo Municipal de Arcos de Valdevez tem certificação de qualidade e integra a rede de arquivos municipais do distrito de Viana do Castelo.

(Archivoz) Como surgiu o projeto do portal da Memória Arcuense?

(SE) O Portal da Memória Arcuense surgiu da vontade do município em perpetuar a memória de um concelho tão rico em História e tradições como é Arcos de Valdevez, numa plataforma online, acessível a todos e ao mundo, reunindo testemunhos orais e escritos marcantes da história local e comunidade.

(Archivoz) Explique-nos a estrutura do Portal.

(SE) Numa primeira fase, procedeu-se à reunião e digitalização de toda a colecção de jornais concelhios, bem como das publicações apoiadas pela Câmara Municipal; as figuras relevantes na história e desenvolvimento do concelho não foram esquecidas, assim como as histórias de vida de quem as deseja partilhar, sublinhando deste modo, tradições que ainda persistem, ou se perderam no tempo. No entanto, com o avançar do trabalho, a pretensão foi mais longe, e decidiu-se alargar o projecto, focando o trabalho também nos conteúdos e monumentos arqueológicos existentes, passando pelos testemunhos das Guerras Mundiais, Estado-Novo, ou do Ultramar. Uma descrição de todas as freguesias, fundamentada na pesquisa dos registos existentes no Arquivo Distrital de Braga, será também possível de consultar, na segunda versão do Portal, ainda em conclusão, mas lançado muito em breve.

(Archivoz) Qual a importância da disponibilização da Hemeroteca Digital? Quais foram os critérios de escolha dos periódicos?

(SE) A hemeroteca digital, tal como foi acima referido, foi o ponto de partida para a elaboração do projecto, já que é uma documentação muito solicitada; funcionando como um espelho social e cultural, e como ferramenta de trabalho para muitos, tornou-se imperativo torna-la acessível a quem vive fora do concelho, e até do país. Assim, procedemos à digitalização de todas as publicações existentes na Biblioteca Municipal, iniciando o trabalho pelos mais antigos; neste processo deparamo-nos, infelizmente, com várias lacunas, pelo que convidamos os leitores que tenham este tipo de espólio consigo, a cederem-nos edições que se verifiquem em falta (em digital, ou em papel), de forma a enriquecer esta hemeroteca, que é de todos. De momento, temos online sete jornais, mas no novo Portal teremos 23; serão milhares de imagens acessíveis gratuitamente ao público, de 1886 até ao presente.

(Archivoz) Qual a interação entre o arquivo municipal e o portal da memória arcuense?

(SE) O Arquivo Municipal terá, em breve, um espaço destinado a todas as pessoas que nos queiram dar o seu testemunho/ história de vida/ memórias para publicar no portal, do anónimo ao “famoso”, toda a gente é bem-vinda a partilhar.

Está também encarregue da digitalização de toda a documentação inserida no Portal, bem como da pesquisa necessária nas diversas rubricas. Contudo, este projecto conta também com a cooperação da Biblioteca Municipal Tomás de Figueiredo.

 “Os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar de forma organizada a memória institucional”. Entrevista com Luísa Alvim, arquivista do Arquivo Municipal Alberto Sampaio – Vila Nova de Famalicão

(Archivoz) O que a levou das bibliotecas aos arquivos? Como uma bibliotecária se transformou numa arquivista?

(LA) Vim trabalhar para o Arquivo Municipal Alberto Sampaio, no município Vila Nova de Famalicão (Portugal), em junho de 2014. Tenho formação na área das Ciências Documentais, na variante de bibliotecas, tendo sido sempre profissional de informação nas instituições deste tipo, há mais de 26 anos. Quando fui convidada a ingressar no arquivo municipal, para trabalhar os fundos mais antigos, foi um grande desafio!

(Archivoz) E como encarou esse desafio?

(LA) Comecei por observar o que outros arquivistas fazem a nível profissional, a inteirar-me de procedimentos, técnicas, normas, etc. Foi um tempo de aprendizagem ainda em processo! Aprendi muito através de conversas, consulta de bibliografia, ações de formação e em 2015 já tinha disponibilizado online muita informação no portal Archeevo do Arquivo Municipal.

(Archivoz) conte-nos um pouco de todo esse processo de tratamento arquivístico

(LA) Comecei os meus trabalhos arquivísticos com a disponibilização da descrição arquivística do Fundo da Administração do Concelho de V.N. Famalicão. Primeiro, construí o Plano de classificação para este fundo, datado de 1856 a 1930 e fiz a sua descrição arquivística até ao nível de unidades de instalação. Esta documentação reflete as funções da Administração de natureza policial e de controlo de diversas atividades, desde o recenseamento e recrutamento militar ao registo de passaportes, passando pela tutela das contas de juntas de paróquia e confrarias. No âmbito da administração local de referir ainda documentos provenientes da antiga Câmara do Couto de Landim e várias Juntas de Paróquia e Juntas de Freguesia, sem esquecer os antigos Julgados de Paz, a Junta Escolar e a Comissão Municipal de Assistência.

(Archivoz) quer destacar alguns dos fundos que tratou?

(LA) Avancei, posteriormente, para trabalhar o arquivo pessoal do patrono do arquivo – Alberto Sampaio (1841-1908). Esta personalidade estudou na Universidade de Coimbra, concluindo o bacharelato em 1863, onde conviveu com algumas figuras notáveis da sua geração, entre as quais Antero de Quental, José Falcão, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, António de Azevedo Castelo Branco e Alberto Teles. Regressou ao Minho, à Quinta de Boamense, propriedade dos seus pais, situada na freguesia de Cabeçudos, concelho de Vila Nova de Famalicão. O seu nome está também ligado à fundação da Sociedade Martins Sarmento. Considerado, no seu tempo, um profundo conhecedor do mundo rural, especialmente no domínio da vitivinicultura, área em que a excelência dos vinhos verdes produzidos em Boamense foram internacionalmente premiados. Foi o autor de As Vilas do Norte de Portugal e, mais tarde, As Póvoas Marítimas, duas obras-primas, das quais a última, sobre as origens da nossa aventura marítima.

(Archivoz) Quais foram as etapas do tratamento do arquivo pessoal de Alberto Sampaio?

(LA) O arquivo privado que aqui refiro é somente a uma parte daquilo que seria o todo da produção de informação desta personalidade. Optou-se por uma organização em Sistema de Informação, pretendeu-se reconstituir o contexto orgânico-funcional e temporal de produção e receção da informação. O modelo sistémico adotado reconstruiu a documentação no contexto orgânico-funcional originário e refletiu a estrutura organizada naturalmente por objetivos atingidos através de funções e atribuições, ações e tarefas de Alberto Sampaio. O arquivo foi completamente digitalizado e disponibilizado juntamente com a descrição arquivística no portal do Arquivo Municipal.

(Archivoz) E outros desafios arquivísticos, quer partilhar connosco?

(LA) Um grande desafio foi trabalhar o fundo da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vila Nova de Famalicão (1890 – 2004), que chegou ao Arquivo Municipal por doação em condições físicas muito más. Neste caso, as minhas tarefas foram desde a limpeza ao acondicionamento, passando pela construção de um plano de classificação, descrição e disponibilização online no portal das imagens dos documentos e respetiva descrição. Este trabalho teve impacto na comunidade local e fui convidada a organizar uma exposição sobre esta Corporação de Bombeiros com base no seu arquivo.

(Archivoz) então esta experiência, ao ter impacto na comunidade local, abriu as portas para novos trabalho?

(LA) Após estes trabalhos, iniciei uma fase de tratamento de espólios familiares de personalidades locais, nomeadamente o fundo de José de Azevedo e Menezes (1849-1938), que foi um erudito que colaborou em variadíssimos jornais: Novidades, O Primeiro de Janeiro, Nova Alvorada, Correio do Minho, Progresso Católico e A Palavra, do Porto, de que foi um dos fundadores. Publicou Ninharias (1911); foi um dos inspiradores da reconstrução da casa de São Miguel de Seide, destruída pelo incêndio de 1915, e que é hoje a Casa-Museu de Camilo. Também todo o seu arquivo já está online no portal.

Atualmente, encontro-me a realizar o tratamento do Arquivo da Casa de Pindela. Aqui também me cabem todas as tarefas arquivísticas: (só não faço a digitalização porque tenho a trabalhar comigo uma colaboradora) acondicionamento e limpeza do fundo de documentos, inventariação, descrição arquivística dos documentos individuais, criação de um Sistema de Informação, carregamento do fundo no software Archeevo. Este fundo tem dimensões enormes, abarca 15 gerações de família do morgadio de Pindela (V.N. de Famalicão) e outos 6 subfundos de famílias que se cruzam com a Casa de Pindela, documentos desde séc. XVI ao século XX. Foi minha opção, trabalhar, no ano 2018 a 2020, a descrição da 14ª geração onde se destacam personagens importantes para a história do concelho e a nível nacional, nomeadamente o Conde de Arnoso, Bernardo Pinheiro Correia de Melo, e o seu irmão 2º Visconde de Pindela, Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada, e as respetivas famílias e outros relacionamentos profissionais e políticos.

Sempre que possível, trabalho pequenos arquivos de instituições locais e de espólio do município: Rotary Club de Famalicão, o arquivo do Museu da Guerra Colonial, o Projeto do Novo Edifício dos Paços de Concelho, Tribunal, etc. do arquiteto Januário Godinho (1952-1961).

(Archivoz) E perspetivas de futuro? Sente que necessita de uma equipa?

(LA) É com enorme paixão que me dedico a estes trabalhos arquivísticos, não sendo arquivista de formação inicial, penso que me adaptei, estudei e trabalhei para exercer com qualidade as funções que me foram solicitadas neste Arquivo Municipal. Este arquivo tem uma equipa de colaboradores, mas que têm funções só no arquivo administrativo corrente. Tenho pena de não ter uma equipa de trabalho neste departamento dos fundos históricos, exceto a colaboradora especialista na digitalização, que me ajudaria a crescer profissionalmente e a produzir melhores trabalhos.

(Archivoz) Para Finalizar uma última pergunta, Falou diversas vezes em digitalizações. Considera que os arquivos acompanham as novas tecnologias e os arquivistas terão futuro?

(LA) Em geral, os arquivistas precisam se esforçar mais em conhecer e explorar a tecnologia a favor da sua rotina profissional, tanto as novas soluções associadas à digitalização como às tarefas do processo arquivístico. Quanto ao futuro, acredito que os profissionais desta área da Arquivística têm competências de como pesquisar, consolidar e armazenar de forma organizada a memória institucional tanto de entidades individuais como coletivas, empresas, associações etc. Cada vez mais a informação tem valor acrescido e a consciência do poder da informação tratada e organizada tem um grande valor estratégico para a tomada de decisão das instituições.

Formar quadros: profissionais e profissão na preservação audiovisual

Em 1995, Ray Edmondson lançava em um artigo[1] a seguinte indagação: Is Film Archivng a Profession?[2]. Evocando a pergunta no próprio título do artigo, o autor elenca ao longo do trabalho os elementos que considerava essenciais e que faltariam à arquivística audiovisual para sua consolidação e reconhecimento como profissão. Edmondson parte da própria definição do termo “profissão”, descrevendo-o como:

(…) um campo de trabalho remunerado que envolve preparação e treinamento a nível universitário (…) envolve habilidades e experiência diversas, visão global, padrões e ética. Implica desenvolvimento contínuo de sua base de conhecimento definidora e de seus praticantes individuais.[3]

Ainda neste texto, Edmondson faz uma primeira definição do campo da arquivística audiovisual, problematizando a documentação que a área abrangeria e distanciando-se de uma noção que consideraria esta como um segmento da arquivística/arquivologia[4]. Para o autor, esta delimitação da área de atuação dos arquivistas audiovisuais é importante para que a imagem pública da profissão ganhe maior clareza, assegurando que estes profissionais tenham seus direitos devidamente garantidos.

Atualmente, Edmondson é um dos profissionais mais respeitados da área e sua obra Filosofia e princípios da arquivística audiovisual a principal referência no assunto – que vêm ganhando relevância crescente na medida em que a fragilidade e necessidade de preservação dos suportes audiovisuais tornam-se cada vez mais evidentes.

Para refletir estas questões foram entrevistados profissionais de sete instituições que possuem acervos de natureza audiovisual, procurando, nas respostas, relatos de experiências e narrativas que trouxessem o aprendizado individual de cada profissional e permitisse o enriquecimento desta perspectiva global que pretendia dar sobre o assunto.

O resultado final desta pesquisa foi o reconhecimento de três blocos temáticos principais: “Aprendizados”; “Desafios” e “Perspectivas”. Estes refletem, de certo modo, a trajetória média do profissional da preservação audiovisual, compondo assim, cada um com as questões que lhes dizem respeito, um perfil geral desses profissionais. Aqui tratarei brevemente das percepções apreendidas nestes três eixos e o impacto de cada um nas atividades da área da arquivística audiovisual.

Profissão e Profissional

O surgimento da preservação dos documentos audiovisuais está intrinsicamente associada à história de sua produção, remetendo suas origens desde os anos de 1930, quando instituições começaram a armazenar filmes, que originalmente eram distribuídos comercialmente, para garantir seu legado artístico e cultural. O tema ganha relevância no âmbito internacional principalmente a partir das Recomendações da UNESCO, em 1980, que passa a reconhecer a importância dos acervos audiovisuais como patrimônio para a herança cultural global. Com a tomada de consciência de que os arquivos audiovisuais do século XX corriam risco de desaparecer, é trazida à ordem do dia a demanda do capacitamento profissional para este trabalho[5].

Neste cenário instituições como a FIAF, FIAT, IASA, ICA e a IFLA principiam a promover eventos e seminários com o objetivo de disseminar os conhecimentos acumulados nas últimas décadas e surgem organizações com o objetivo de atender as necessidades profissionais e individuais desta força de trabalho, como a AMIA (Association of Moving Image Archivists), fundada em 1991, e a SEAPAVAA (South Asia Pacific Audio Visual Archives Association), fundada em 1996, consolidando o processo.

Em 1995, quando lança a provocação, Edmonson escreve em um cenário no que a arquivística audiovisual já é compreendida como um campo que abarca todos os aspectos da guarda e recuperação de documentos audiovisuais, bem como a administração dos locais de sua guarda e das organizações responsáveis pela execução dessas tarefas.

No Brasil, a implementação de medidas em prol da conservação de acervo, nestas instituições, acontece de maneira mais sistemática somente a partir de meados dos anos 1970, com a Cinemateca Brasileira em São Paulo e a Filmoteca do MAM-RJ como figuras chave deste processo. O movimento toma corpo de forma ativa nos Anos 2000, momento a partir do qual os profissionais que atuam na área começam a se mobilizar e incentivar, sobretudo, as iniciativas de ampliação da produção teórica e técnica[6]. Em 2006 nasce a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, festival no qual ocorre em paralelo o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que reúne anualmente os representantes de dezenas de instituições responsáveis pela preservação do patrimônio audiovisual nacional. Ao final de cada Encontro é elaborada uma carta, disponibilizada no site do evento. As Cartas de Ouro Preto funcionam como um registro do que é deliberado no evento, as considerações, propostas, resoluções, encaminhamentos e demandas que são identificadas e formuladas.

Desdobramento direto dos debates das primeiras edições, durante o terceiro Encontro de Ouro Preto em 2008, é criada a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) com a missão de “estimular a conscientização e promover o interesse público pela salvaguarda e acesso ao patrimônio audiovisual brasileiro como fonte histórica, cultural artística, educativa e econômica[7]”. A partir de sua criação, a ABPA passa a ter o Encontro sob a sua responsabilidade, ampliando e aprofundando as discussões técnicas e buscando promover maior aproximação do setor de preservação audiovisual com o Estado, estabelecendo, assim, avanços na criação de políticas públicas nacionais para o setor.

Aprendizados

Ao longo do trabalho, cada nova visita deixava mais claro como os conhecimentos exigidos a esse profissional extrapolavam a sua formação original. Assim, ficou evidente a diversidade de formação dos profissionais envolvidos com a preservação dos acervos nas instituições. Essa pluralidade traz à tona duas considerações importantes: não há uma formação específica para a área e a lacuna deixada pela ausência formativa torna-se uma oportunidade profissional para mão de obra oriunda de outras áreas[8].

Muitos começam suas trajetórias na área como estagiários durante a graduação ou como mão de obra temporária, contratados para projetos específicos e aprendem sobre a documentação na prática. A aprendizagem e formação são relacionadas, porém, estão dissociadas na prática da profissão da arquivística audiovisual no Brasil. A falta de cursos não forma quadros para substituir os profissionais que se aposentam, na mesma medida é preciso tempo para treinar os novos contratados que chegam às instituições ainda “crus” e vindos de formações diversificadas. Este tempo hábil para a adaptação e treinamento dos profissionais nem sempre acaba sendo viável.

Outro ponto chave aqui é a rápida obsolescência da bibliografia especializada, que não é capaz de acompanhar a incessante renovação tecnológica com a qual o arquivista audiovisual deve lidar cotidianamente. Muitas vezes esta bibliografia não dá conta de responder às questões que surgem, ou por estar desatualizada, ou por ser específica demais, como no caso de manuais técnicos produzidos pelas próprias instituições: nem sempre o que funciona para uma, pode servir para a outra. O intercâmbio de experiências entre instituições e profissionais acaba sendo o principal recurso informativo para os trabalhadores da preservação audiovisual. Nesse sentido, o surgimento de novos espaços para o debate especializado sobre o tema e ações como a publicação do Plano Nacional de Preservação Audiovisual pela APBA em 2016[9] são fundamentais na instrumentalização plena das atividades do arquivista audiovisual no Brasil.

Desafios

No cotidiano, o trabalho diário depende, em grande medida, da instituição na qual o profissional atua. Fatores como disponibilidade de recursos e equipamentos, infraestrutura de armazenamento, manutenção da equipe e, principalmente, capacidade de planejamento em longo prazo são diretamente afetados pela cultura organizacional e a natureza da instituição.

O principal desafio, no entanto, é a questão tecnológica. Ligada de maneira intrínseca ao desenvolvimento das tecnologias, a preservação audiovisual tem que adaptar-se constantemente e repensar suas estratégias e técnicas, frente às mudanças de suporte, armazenamento e reprodução. Para Edmondson, essa urgência da atuação do arquivista audiovisual foi um dos fatores responsáveis pelo atraso em determinar questões filosóficas, teóricas e de reconhecimento profissional para a área. Problemáticas essas que acabaram por ficar em segundo plano de prioridades, frente às dificuldades diárias que a profissão demanda.[10]

Cada mudança tecnológica tem impacto em toda a cadeia produtiva, mas este impacto não está apenas na esfera da produção. Na preservação dos meios audiovisuais o impacto destas transformações tem um efeito devastador[11]. No atual contexto, o mundo digital, a digitalização é um processo inevitável e cada vez mais importante para a preservação audiovisual.  Não apenas como medida técnica, mas principalmente pela tendência das aquisições mais recentes serem nato-digitais, ou seja, geradas digitalmente e sem um correspondente analógico tangível. Estes procedimentos ainda estão em constante debate e apresentam uma série de questões fundamentais para o profissional, como a migração de suportes e o armazenamento do conteúdo digital. A questão digital tornou-se um desafio contínuo para o profissional que atua nestes acervos.

Perspectivas

A maior parte dos profissionais entrevistados no trabalho tinha longo tempo de casa nas respectivas instituições em que atuam, no entanto preocupa a falta de continuidade dos trabalhos realizados nos acervos. Da mesma forma que serviu de porta de entrada para muitos destes profissionais, a maior parte do tratamento destes acervos se dá por meio de projetos que contratam mão de obra temporária e tratando de questões pontuais, quando deveriam abarcar o processo de preservação como um todo e de forma contínua.

Isto acaba levando a uma falta de perspectiva, o que leva muitos profissionais a mudar de campo de atuação. A questão da formação é um dos principais fatores, além do econômico, uma vez que no Brasil não há cursos regulares específicos sobre o tema e os poucos oferecidos, em geral, exigem investimento financeiro expressivo, que o profissional não tem condições de arcar.

Se por um lado essa instabilidade profissional marca as últimas décadas do campo, Inês Aisengart aponta que a geração pós os anos 2000 teve “significativa atuação política”, sendo fundamental na “ampliação e o estabelecimento de políticas de preservação audiovisual, incentivo de seu ensino e melhoria das condições de trabalho”[12].

Considerações Finais

A questão da memória e do que deve ser preservado é algo extremamente atual. Sobre os meios audiovisuais, Jurandyr Noronha na década de 1940 já apontava que se trata de um “assunto da maior complexidade” e do qual não teria a “pretensão de o haver esgotado”[13] em seu texto, um dos primeiros em que se afirmava a necessidade de se fazer a prospecção do cinema nacional, encarado como “patrimônio nacional”. Hoje, após um longo caminho, a atividade do arquivista audiovisual é reconhecida como um campo distinto de atuação profissional, abrangendo padrões éticos e de conservação, melhores práticas de gestão de coleções, pesquisa histórica, exibição pública e interpretação de coleções e conservação cultural. No Brasil, as novas gerações têm avançado no tema, padronizando e sistematizando procedimentos e normas e ampliando o debate e a troca de experiências.

Trata-se de uma frente de trabalho crítica, que não tem tempo a perder e que necessita cada vez mais de profissionais empenhados e qualificados para garantir a preservação  de uma documentação complexa e extremamente relevante para a cultura contemporânea. Reconhecer estes profissionais e garantir a continuidade de seu trabalho é parte fundamental para a preservação dos documentos audiovisuais.

Referências Bibliográficas

ABPA. Plano Nacional de Preservação Audiovisual. 2016. Disponível em: <http://www.abpreservacaoaudiovisual.org/site/images/banners/PNPA.pdf> Acesso em 19 de janeiro de 2018.

COELHO, Maria Fernanda Curado. A experiência brasileira na conservação de acervos audiovisuais: um estudo de caso. 2009. Dissertação (Mestrado em Estudo dos Meios e da Produção Mediática) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-19112010-083724/pt-br.php> Acesso em: 07 de outubro de 2016.

COSTA, Silvia Ramos Gomes da (Silvia Franchini). Ondas de destruição: a enfermidade do artefato tecnológico e o desafio da preservação audiovisual. 2012. Dissertação (Mestrado em Memória Social). UNIRIO, 2012.

EDMONDSON, Ray. Filosofia e princípios da arquivística audiovisual. Rio de Janeiro: ABPA; Cinemateca do MAM-RJ, 2013.

_________________. Audiovisual Archiving: philosophy and principles. Paris: Unesco, 2004.

_________________. Is film archiving a profession? In Film History, Vol. 7, Nº3, Film Preservation and Film Scholarship. 1995. pp. 245–255. Disponível em: JSTOR, <www.jstor.org/stable/3815091> Acesso em: 20 de janeiro de 2018.

LINDNER, Maria Laura Souza Alves Bezerra. A Unesco e a preservação do patrimônio audiovisual. In: ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura. V, Anais, Salvador: Ufba, 2009. (CD-Rom).

MENEZES, Ines Aisengart. Depoimentos. In: CINEOP, 9. CATÁLOGO, 2014. p. 133-135.

NORONHA, Jurandyr. In: A Cena Muda. Rio de Janeiro, n. 28, 1948. Disponível em: <http://www.bjksdigital.museusegall.org.br/busca_ revistas.html>.Acesso em: 19 de janeiro de 2018.

ROCHA, Felipe. Projetando memórias: desafios e perspectivas da arquivística audiovisual como profissão. Monografia; (Aperfeiçoamento/Especialização em Gestão Arquivística) – Escola Pós Graduada de Ciências Sociais da FESPSP; Orientador: Maria Fernanda Curado Coelho; 2016. Disponível em: <http://biblioteca.fespsp.org.br:8080/pergamumweb/vinculos/000006/000006a0.pdf>. Acesso em: 19 de janeiro de 2018.

UNESCO. Programa Memória do Mundo: Diretrizes para a salvaguarda do patrimônio documental. Elaborado por Ray Edmondson. Paris. 2002. Disponível em: <http://www.unesco.org.uy/ci/fileadmin/comunicacion-informacion/mdm.pdf> Acesso em: 20 de outubro de 2016

________. Mensagem da UNESCO para o Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual. 2014. Disponível em: <http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/unescos_message_for_world_day_for_audiovisual_heritage>. Acesso em: 22 de outubro de 2016.

[1] Publicado na revista norte-americana Film History, ligada à Universidade de Indiana

[2] Em tradução livre: “Seria a arquivística audiovisual uma profissão?”

[3] EDMONDSON, 1995, p. 245-246.

[4] “Independentemente do grau de seu reconhecimento acadêmico ou oficial atual efetivo, a arquivística audiovisual será tratada aqui como uma profissão com seus direitos específicos. Donde, não será encarada como um subconjunto especial de uma outra profissão existente como, por exemplo, a biblioteconomia e a museologia – também profissões de coleta e conservação da arquivística clássica –, embora estreitamente relacionada a elas”. (EDMONDSON, 2013. p. 46)

[5] O diagnóstico encontrado na descrição do Programa Memória do Mundo da UNESCO considera que “considerável quantidade de patrimônio documental já está definitivamente perdida” (UNESCO, 2002, p. 9)”

[6] Em sua fala, Inês Isengart destaca dentre estes casos: a pesquisa e o blog de Rafael de Luna (http://preservacaoaudiovisual.blogspot.com); a monografia de Natália de Castro Soares; a dissertação e blog de José Quental (http://cinematecasmundoafora.blogspot.com); a pesquisa e o blog de Lila Foster (http://nitratoacetatopoliester.wordpress.com). MENEZES, 2014, p. 135.

[7] Retirado do site da ABPA (<http://www.abpreservacaoaudiovisual.org/>). Acessado em: 26 de outubro de 2016.

[8] Edmondson ressalta essa pluralidade já na origem da atividade: “A arquivística audiovisual originou-se de vários contextos institucionais. Na falta de alternativas, foi, e ainda é, natural que os que a praticam encarem e interpretem seu trabalho à luz de suas disciplinas formadoras ou de suas instituições-mães. Essas disciplinas incluem, em sua variedade, formação em biblioteconomia, museologia, ciência de arquivos, história, física e química, administração e as práticas técnicas envolvidas nas atividades de rádio e teledifusão, registro de imagens e sons. Podem excluir também algum tipo de treinamento formal, ou seja, podem ser fruto uma formação autodidata e entusiasta.” (EDMONDSON, 2013, p. 54).

[9] Disponível em: http://www.abpreservacaoaudiovisual.org/site/images/banners/PNPA.pdf

[10] Coletivamente nós temos um trabalho urgente, e estamos fazendo isto com recursos insuficientes – por vezes irremediavelmente insuficientes.  Estamos acostumados a ensinar o pessoal novo no trabalho – foi como aprendemos, claro.  (…) A crescente literatura profissional concentrou-se mais na prática no que na teoria – o “como” em vez do “porquê” – para os quais houve uma necessidade óbvia e urgente (EDMONDSON, 1995, p. 247).

[11] O crítico, historiador e fundador da Cinemateca de Toulouse, Raymond Borde, conceituou o termo “ondas de destruição” para explicar os ciclos de descarte e desaparecimento de obras da indústria cinematográfica: “Destruição legal, normal, encorajada, obrigatória e triunfante: vem desde as origens e vou estabelecer sua história. Mas eu gostaria que fosse entendido em que medida a noção de arquivo cinematográfico é inseparável de uma prática cotidiana de descarte (Apud COSTA, 2012, p. 48)”.

[12] MENEZES, 2014, p. 134.

[13]  A Scena muda, n. 28, 13 de julho              de 1948, p. 33.

“Irá permitir que a instituição se destaque neste novo paradigma informacional”: Entrevista a Projeto Esep-Digital da ES de Enfermagem do Porto

A Escola Superior de Enfermagem do Porto (ESEP) é uma instituição de ensino superior politécnico não integrada, dedicada ao ensino da enfermagem. Em funcionamento desde 1 de janeiro de 2007, surgiu da fusão de três instituições de ensino superior público de enfermagem no Porto: as Escolas Superiores de Enfermagem de D. Ana Guedes, Escolas da Cidade do Porto e de São João. A origem remota da ESEP, ao serviço do ensino de enfermagem, remonta a 15 de junho de 1896, quando é então criado o Curso de Enfermeiros do Hospital Geral de Santo António (Porto), uma das primeiras escolas de enfermagem de Portugal.

Atualmente o sistema de Gestão Documental tornou-se insuficiente para as atuais necessidades da ESEP, sendo também impeditivo da adoção de medidas de desmaterialização processual que utilizem as mais recentes soluções de alto de desempenho e não permite a sua interoperabilidade junto de outros sistemas e aplicações informáticas.

Deste modo surgiu o Projeto ESEP DIGITAL e esta entrevista com alguns dos membros da sua equipa, o coordenador do projeto Luís Alexandre e Maria Tinoco, membro da equipa ESEP_DIGITAL.

(ARCHIVOZ) Como surgiu o Projeto ESEP-DIGITAL?

(LA) A partir da fusão das escolas é que começamos verdadeiramente a olhar para o arquivo, até esse momento todas as escolas tinham meramente depósitos de documentos. Foi um processo moroso, de alguns anos, pois não disponhamos de meios suficientes a nível humano e técnico.

Por outro lado, com a mudança de instalações verificou-se um crescimento exponencial da documentação o que contribuiu para alertar para a necessidade de termos uma Gestão Documental adequada.

A diminuição dos “custos de contexto através do reforço da disponibilidade e fomento da utilização de serviços em rede da Administração Pública e melhorar a sua eficiência e a qualificação da “prestação do serviço público, quer através da capacitação dos serviços, quer através da formação dos trabalhadores em funções públicas” são alguns dos objetivos deste sistema de apoio que são enquadráveis com a operação apresentada pela ESEP.

(ARCHIVOZ) Como caracterizaria o panorama documental que tem neste momento?

(LA) A nível arquivístico a instituição não dispõe de uma aplicação específica de gestão arquivística, o que temos resume-se a uma aplicação interna, desenhada na própria Escola, que começou por ser um aplicativo de gestão de correspondência que evoluiu para uma tentativa de gestão documental. Até hoje, é com essa aplicação que se vai fazendo a gestão arquivística.

Há cerca de três anos percebemos que cada vez mais com a evolução tecnológica e da documentação digital e nado-digital, esta solução já não respondia às necessidades e começamos a ponderar para a mudança para uma aplicação de gestão documental profissional e parametrizada por especialistas. Isto só foi possível com a mudança da cultura organizacional tradicional e da conceção do documento para uma abordagem digital que se enquadra no novo paradigma da Ciência da Informação, em que a informática não se pode dissociar das tecnologias, mas também estas não vivem sem os profissionais de informação.

(ARCHIVOZ) Como foi acolhido o projeto pela direção da Escola Superior de Enfermagem?

(LA) A liderança da Escola, a anterior e a atual, sempre esteve ao lado do arquivo, reconhecendo a sua importância para a memória da instituição, mas também no seu quotidiano olhando sempre para o futuro.

(ARCHIVOZ) E quais foram os impedimentos?

(LA) Os contratempos foram de ordem estratégica, pois com a implementação do RADA (Relatório de avaliação de documentação acumulada) e da MEF (Macroestrutura Funcional / Novo Plano de Classificação Arquivística – http://arquivos.dglab.gov.pt/programas-e-projectos/modernizacao-administrativa/macroestrutura-funcional-mef/macroestrutura-funcional-mef/) houve uma tentativa de que todas as instituições superiores de ensino de enfermagem do politécnico não integrado (Porto, Lisboa e Coimbra), dadas as semelhanças e especificidades dos seus processos de negócio, seguissem a mesma linha e acolhessem o projeto em conjunto. Tudo isto iria facilitar a implementação do novo plano de classificação arquivístico (MEF), mas como não foi possível obter um consenso avançamos nós com o projeto.

(ARCHIVOZ) Como evoluiu o projeto?

A ESEP já deu início ao processo de implementação do Sistema de Gestão da Qualidade com base na norma ISO 9001:2008 e nos princípios orientadores emanados pela A3ES (Agência de avaliação e Acreditação do Ensino Superior). Tal como recomendado na norma de referência – ISO 9001:2008, a abordagem do Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) efetuada pela ESEP, baseia-se na análise dos requisitos dos seus clientes, na definição dos processos que contribuem para um ensino da enfermagem de excelência e na manutenção dos seus processos de negócio.

Depois, partimos para uma Candidatura ao Programa 2020 (https://www.portugal2020.pt/Portal2020/programas-operacionais-portugal-2020-2) e a resposta foi positiva. Assim, procedemos à implementação deste projeto desde novembro de 2018, implementação esta que se prevê estar concluída até setembro de 2019.

(ARCHIVOZ) Quais as vantagens da implementação deste projeto?

(LA) Penso que um dos grandes benefícios é a desmaterialização de processos que vem trazer uma economia dos espaços físicos, uma redução dos custos operacionais, maior segurança e confidencialidade da informação, otimização dos processos, dos seus tempos e das atividades, melhor controle dos custos e acesso aos dados e a identificação eficaz dos prazos de conservação dos documentos. A tomada de decisão sairá facilitada, melhorará a definição dos objetivos e capacidade de negociação da instituição, pois vamos ter uma otimização dos processos negócio e aumento da capacidade da gestão da informação com os recursos existentes.

(ARCHIVOZ) E qual é perceção da gestora de informação envolvida no projeto?

(MT) o Projeto tem sido muito bem acolhido e temos tido a colaboração de todos os serviços, o que é fundamental. A implementação do novo sistema de gestão documental IPORTALDOC, a reengenharia de processos que está em curso, simplificação e desmaterialização de processos, vão trazer ganhos à instituição a nível da sua eficácia e eficiência.

(ARCHIVOZ) O que pensa que resultará deste projeto?

(MT) Estou convencida de que com formação, que é fundamental, e com o decorrer do projeto continuaremos a verificar uma maior recetividade, empenho e uma mudança de mentalidade em relação à gestão da informação e até à própria visão do trabalho do arquivista, o que irá permitir que a instituição se destaque neste novo paradigma informacional e no seu meio académico e científico.

Muito obrigada pelo vosso contributo e por nos darem a conhecer este Projeto da Escola Superior de Enfermagem do Porto.

 

“A Gestão Documental deve ser tratada de forma centralizada e como um processo de trabalho formal em qualquer empresa”: Entrevista com Rachel Bueno, Especialista em Documentação

Entrevistamos Rachel Bueno, Especialista em Documentação com 40 anos de experiência na área de arquivos, nos conta um pouco de sua trajetória profissional, da gestão documental e dos desafios do profissional arquivista.

(Archivoz) Rachel você é Bibliotecária de formação e Especialista em Documentação, conte-nos o que te levou a mudar da biblioteconomia para a arquivística.

(Rachel Bueno) Na realidade não mudei, simplesmente tropecei na arquivística. No primeiro ano da graduação estagiei em uma empresa de processamento de dados no setor de informação coorporativa; em seguida, também em setor de informação, fui contratada para análise de dados para subsidiar propostas de empreendimentos na área da engenharia.

A partir daí, foi um caminho sem volta: os arquivos. Percebi que realmente minha área era a da informação, mas da informação orgânica e do grande desafio de converter o conceito de “arquivo morto” em gestão, organização e acesso.

(Archivoz) Ainda temos discussões entre os campos da biblioteconomia e arquivística, como você transitou pelas duas áreas, é possível que esses conhecimentos andem juntos e facilite o trabalho dos profissionais dessas áreas? Como?

(RB) Como dito anteriormente, não transitei profissionalmente nas duas áreas; por força da dinâmica da arquivística, não é possível o desenvolvimento de um projeto sem a colaboração de profissionais de outras áreas: biblioteconomia, direito, administração, história, etc.

(Archivoz) Sua atuação maior é como arquivista de documentação corrente, ainda temos problemas conceituais sobre a teoria das idades e muitas vezes a documentação chega sem tratamento algum na fase permanente, como minimizar essa questão?

(RB) Há muitos questionamentos à teoria das três idades, mas a aplicação de políticas de gestão documental, independente da linha de pensamento que se adote é imprescindível para que os documentos permanentes / históricos possam ser preservados e custodiados com proveniência e organicidade.

 (Archivoz) Como foi atuar como arquivista na Prefeitura de São Paulo?

(RB) Tive um privilégio como poucos: ingressei na PMSP no recém-criado Departamento de Informação e Documentação Artística – IDART, subordinado à Secretaria de Cultura do Município. Fiz parte da equipe do Arquivo Multimeios, com um acervo composto por nove grandes áreas temáticas: Arquitetura, artes Cênicas, Artes Gráficas, Cinema, Comunicação de Massa, Fotografia, Literatura e Música. Documentos estes, que já em 1.978 foram agrupados por “evento” (peça teatral, cinema, exposições, etc.), suporte do documento, itens documentais. Eram encaminhados ao Arquivo “descritos” pelo(s) pesquisador(es) da área produtora: temos aí um bom exemplo da “descrição arquivística’ em seus primórdios. No setor de Hemeroteca, tivemos também, a experiência de olhar os periódicos, não como recortes, mas como matérias de interesse sempre ligadas ao momento socio político da época. Não havia “recortes”, o periódico tinha sua página preservada para não perder o contexto.

 (Archivoz) Quais são os desafios do arquivista que atua no setor público? E quais são as mudanças necessárias para uma boa atuação?

(RB) Além da falta de vontade política por parte dos dirigentes, o maior desafio do arquivista em gestão no setor público é o próprio arquivista: não temos graduados o suficiente para cobrir a demanda e para estes falta “vivência”, considerando a extensão do mundo arquivístico. Deveríamos pensar em mudar o conceito do profissional arquivista, tendo em vista que os atuantes mais renomados vêm de outra área: história, jornalismo, administração, etc. Teríamos mais profissionais trazendo ganhos significativos para todos.

(Archivoz) Como é atuar como consultora em empresas privadas? Quais são os desafios que enfrenta?

(RB) Na área privada lidamos muito com a resistência dos colaboradores e como a maioria dos documentos, produzidos hoje, são nato digitais, eles não são vistos como “documentos” e sim arquivos que não incomodam e não ocupam espaço. Outro problema são os aplicativos de ECM e Workflow que são tratados como gestores informatizados de documentos de arquivo, quando na realidade a maioria é só um gestor de informação.

Então há dois momentos distintos, a massa acumulada (geralmente em suporte analógico) e a produção corrente (nato digitais), o desafio? Fazer com que todos tratem o documento e não o suporte.

(Archivoz) Atualmente você é professora na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) no curso de Gestão Arquivística. O que falta na formação do profissional da área de arquivos? Como minimizar a defasagem de ensino, já que em São Paulo há somente dois cursos de ensino superior em arquivologia?

(RB) Citei anteriormente que o conceito de arquivista graduado é uma barreira que não atende à demanda existente, tanto no setor público, quanto no privado. O maior mérito dos cursos de pós em Gestão Arquivística é desmistificar os arquivos e mostrar como os caminhos da Arquivística estão ligados a várias áreas de atuação, fazendo com que a defasagem possa ser minimizada.

(Archivoz) Vivemos um momento que todos querem digitalizar seus documentos, esperando que assim todos os problemas sejam resolvidos. Como trabalhar essa questão socialmente, já que temos projetos de leis que visam a queima de arquivos físicos?

(RB) A gestão documental vai muito para além do simples tratamento e digitalização de documentos em papel, mas temos vários aspectos para levar em conta:

– Considerando a história, os interesses de hoje pelo passado mudam com o tempo e eliminar um documento original é “desmaterializar o DNA do documento”; sua destruição deixariam as pesquisas inviáveis, dependendo de como e porque, o contato com o documento é essencial.

 – Como é possível substituir um documento arquivístico original sem termos a garantia de autenticidade e principalmente de sua preservação? Ainda não temos políticas para este armazenamento confiável.

E aí temos um ponto, debatido à exaustão, que é a educação de base: se não houver mais integração nas disciplinas ensinadas desde o início do ensino formal, seja história, ciências, artes, etc., ligadas à observação do passado para melhor compreensão do futuro, não teremos mais do documento histórico, as pesquisas e os muitos porquês.

(Archivoz) Você tem falado em palestras sobre a gestão documental, quais são os caminhos para uma boa gestão?

(RB) A Gestão Documental deve ser tratada de forma centralizada e como um processo de trabalho formal em qualquer empresa. Este tratamento centralizado tem sido um grande desafio principalmente pelo surgimento de novas formas de entrada e saída de documentos (e-mail, por exemplo) e a falta de procedimentos para o controle de documentos arquivísticos desde sua entrada ou produção até sua saída ou arquivamento na instituição. A “boa gestão” está ligada ao entendimento que políticas de gestão documental são a base da informação e do conhecimento, pois esta gestão impacta de forma direta na produtividade e, consequentemente, nos resultados obtidos pela empresa.

(Archivoz) Com mais de 40 anos de carreira, o que você tem a dizer para quem quer seguir a profissão de arquivista?

(RB) Começaria dizendo que é a melhor profissão do mundo: cada acervo é um estudo lógico, desafiante e uma viagem indescritível aos subterrâneos de uma organização. O arquivista é um profissional inter e multidisciplinar, sendo necessário ter disciplina, estudo contínuo (técnico-científico), um conhecimento, ao mesmo tempo amplo, técnico e específico para tratar adequada as informações de qualquer organização ou pessoa física, em qualquer suporte ou formato, com ou sem apoio de tecnologias. Deverá também primar princípios éticos, fundamentais. Poderá atuar como gestor de instituições arquivísticas, na docência, como pesquisador entre outras muitas funções.

Agradecemos a Rachel pela entrevista, e nos falar um pouco de sua larga atuação no mundo dos arquivos e mostrar sua visão sobre a gestão documental e sobre a carreira do profissional arquivista.