Michele Silva Joaquim

Resenha do livro Arquivoconomia Digital de Charlley Luz

A área da arquivologia vem enfrentando novos desafios, acostumados a tratar de documentos físicos, profissionais se vêm em uma nova realidade com a produção de documentos nato digitais e o desafio de sua preservação, a obra Arquivoconomia Digital de Charlley Luz com a participação de Humberto Innarelli e de Vanderlei Batista dos Santos vem com a proposta de resgatar uma disciplina “esquecida” nos estudos da arquivologia como uma possibilidade para se pensar o desenho de ambientes de gestão de arquivos digitais.

Charlley Luz é arquivista, coordenador e professor da pós-graduação em gestão de documentos da FESPSP e consultor em estratégia de informações e ambientes digitais da Feed Consultoria. Autor dos livros Arquivologia 2.0 e Primitivos Digitais.

O livro Arquivoconomia Digital foi publicado em 2020, em 16 capítulos parte das definições de Arquivoconomia, com revisão bibliográfica sobre essa disciplina – como ela é abordada por Eugênio Casanova – texto referência do livro, chegando às aplicações em sistemas integrados de arquivos digitais.

O exercício verificado é o resultado que o livro aborda: os principais itens que formam a Arquivoconomia, com analogias aplicadas à realidade dos documentos digitais.

Faz um périplo por autores como Albuquerque, Antónia Heredia Herrera, MatillaTascón, Aurelio Tanodi, entre outros e suas considerações teóricas acerca da definição dos termos arquivo, arquivística e Arquivoconomia.

Isto resulta em recortes das análises de vários autores sobre o termo arquivoconomia, adotando um que será utilizado em todo o livro: técnica e métodos a serem empregados na estruturação de serviços de arquivos, tanto físicos como digitais.

A publicação descreve a visão de Eugenio Casanova em seu livro Archivistica de 1928, que traz os elementos para a construção de arquivos, quatro fundamentos principais que, nesta obra, servirão para a estruturação de arquivo digital. Existe todo o detalhamento das etapas da Arquivoconomia de Casanova correlacionada com a realidade digital, como síntese existe um quadro comparativo que facilita para o leitor as ideias apresentadas.

A partir de Casanova que consolidou uma tradição que vinha desde José Morón, ainda em 1879, de como deveria ser as etapas para construção de um arquivo físico, o livro relaciona a estrutura de tecnologia da informação e apresenta requisitos, além de uma visão completa do Entorno Digital do arquivo, aplicada na criação de um arquivo digital.

Para construção de um arquivo apresenta para o caso brasileiro o SIGAD (Sistema Informatizado de Gestão Arquivística de Documentos), sua operação de acordo com o E-Arq, mostrando como deve ser montado e seus requisitos básicos.

Em relação à higiene e manutenção das instalações (preservação) e restauração mais uma vez Charlley Luz estabelece um paralelismo com a necessidade de entender a preservação digital como um continuum que deve ser tido em conta desde a criação da informação e não somente a reta final do seu percurso. Mas ainda vai mais longe destacando 9 etapas da arquivoconomia e comparação com planejamento digital.

Pensando na estrutura de gestão, preservação e difusão, aborda os requisitos para os Repositórios Arquivísticos Digitais (RDC-Arq). Explorando o uso do software livre Archivemática, sistema de preservação digital de código aberto, projetado para manter o acesso à longo prazo para a memória digita. Trazendo também os requisitos para a difusão dos documentos, seja em site, blog, portal.

Pensando na distribuição do espaço, onde os serviços de um arquivo ocorrem, na realidade digital aponta para serviços online, aplicativos, definidos pela Arquitetura da Informação e pela Experiência do Usuário (uX). Este campo do conhecimento de acordo com o autor, se preocupa em organizar, estruturar e categorizar a informação. Uma disciplina que ajudaria na construção do ambiente para arquivo digital.

O livro finaliza chamando outros pesquisadores para o estudo da arquivoconomia aplicada ao ambiente digital, que é nossa realidade, já existem requisitos disponíveis para a criação de um Arquivo Digital Histórico, sendo necessária sua aplicação.

O livro é muito interessante ao trazer para o século XXI a discussão de uma disciplina do final dos anos 20 do século passado, demonstrando que é possível um resgate de conceitos históricos esquecidos, diante de tanta informação já produzida acerca dos arquivos físicos, e poder aplicar na construção dos arquivos digitais, há muita semelhança na estrutura, muitas vezes nos vemos perdidos nessa realidade, mas o conhecimento já existe, sendo necessário adaptações.

Além de mostrar que para a construção desses ambientes digitais, a interdisplinariedade é fundamental, há outras áreas que podemos beber da fonte, ou termos profissionais diversos para essa construção, visando a preservação desse vasto conhecimento que estamos produzindo, mas que ainda não temos todas as respostas para sua perpetuação.

Sublinha-se os vários esquemas realizados pelo autor, interpretando e concluindo que a Arquivoconomia Digital deve ser entendida como uma metodologia de planeamento de ambientes digitais, onde estarão sempre garantidas a gestão, preservação e acesso das Plataformas Arquivísticas Digitais.

Deste modo, podemos referir que o paralelismo estabelecido entre antigas teorias e problemáticas digitais atuais podem nos ajudar a entender os princípios universais da arquivologia que são os pilares da construção do labor arquivístico. Constituindo um bom manual para conhecer “velhas” teorias e, no fundo, a história da teorização arquivística e as questões e desafios atuais no que concerne à preservação da informação digital, a sua manutenção, difusão e os perigos da obsolescência. Muito importante, para ler e refletir, por todos aqueles que diretamente trabalham com arquivos nativos digitais, ou necessitam migrar arquivos analógicos para digitais.

Mais um livro para a área arquivística, que nos instiga a voltar nos clássicos e buscarmos soluções para nosso presente e futuro.

Libro en Amazon: Arquivoconomia Digital de Charlley Luz

 

Da Archivoz, desejamos um feliz Natal e convidamos a ler os 10 artigos mais lidos de 2019

Mais um ano, da equipe editorial de Archivoz desejamos boas festas e que o próximo ano de 2020 seja repleto de êxitos pessoais e profissionais para todos.

Acreditamos que o final do ano é um bom momento para agradecer aos leitores e colaboradores por terem feito desde 2019 um ano muito especial. Nestes 12 meses conseguimos consolidar nosso projeto informativo que, iniciado em 2017, já conta com mais de 130.000 leitores por ano espalhados por todo o mundo graças ao esplêndido trabalho de uma equipe editorial multidisciplinar formado por profissionais de 12 países diferentes em 4 continentes. Mas tudo isso teria sido impossível sem a participação voluntária de mais de 75 especialistas que colaboraram em nossas entrevistas ou fizeram artigos de interesse para Archivoz. A todos eles devemos grande parte do sucesso que estamos tendo entre a comunidade profissional.

Encerramos o ano com a certeza de ter trabalhado duro na análise de tendências, criação e publicação de conteúdo de qualidade, tendo colocado o melhor de nós na elaboração de entrevistas, no resgate e a difusão de patrimônio audiovisual esquecido, na criação de novos fóruns de debate através de nossa I Jornada Archivoz em Madri (aproveitamos para anunciar que estamos trabalhando na II Jornada Archivoz que será celebrada em Bogotá, Colômbia), ou na busca de sinergias e colaborações com coletivos profissionais, como exemplo, a recente assinatura do convênio de colaboração com a Sociedade Espanhola de Documentação e Informação Científica.

Para nos despedir antes das férias de Natal até o ano que vem (já que a revista tira umas férias curtas de 23 de dezembro a 05 de janeiro durante as quais prepararemos novas surpresas para o ano que começa), deixamos aqui 3 dos artigos mais destacados e lidos de todo 2019 em cada idioma que publicamos. Aproveite a leitura, nos vemos na volta!

Artigos em espanhol:
Artigos em português:
Artigos em inglês:
Artigos em italiano:

Aula aberta «O Público e o Privado nos Arquivos»

No dia 06/06/2019 a FESPSP promoveu uma aula aberta intitulada “O Público e o Privado nos Arquivos”, como parte da 3ª Semana Nacional de Arquivos, trabalho voluntário da instituição que tem como finalidade ampliar temas tratados em aulas e convidar o público externo para novos debates e ideias.

Com a participação de Fernando Padula – Diretor do Arquivo do Estado de São Paulo, Ubirajara Prestes – Coordenador do Arquivo da Câmara de São Paulo e Charlley Luz – Coordenador do Curso de Pós – Graduação em Gestão Arquivística da FESPSP.

Charlley Luz tratou de arquivos privados de interesse público, nos alertando para a falta de normatização para o tratamento de acervos de artistas, pesquisadores, arquivos científicos. Os arquivos empresariais e suas criações de centros de memória, que nem sempre tem um alcance para a população. E também a discussão sobre a MP 881/19 e suas consequências ao aprovar a destruição de documentos após sua digitalização, causando insegurança jurídica nos documentos privados.

Ubiraja Prestes trouxe sua experiência de 10 anos atuando no Arquivo da Câmara de São Paulo, os desafios na conservação do acervo físico que data do final do século XIX até a atualidade, e o esforço para a normatização do tratamento dos documentos nato digitais, desafio que todas as instituições estão enfrentando, pois as regras para acervos físicos já estão consolidadas e com os nato digitais cada local tem encontrado soluções próprias. Falou um pouco da difusão do acervo através da revista da Câmara que possui um editorial chamado Desarquivando, escolhendo um documento histórico para ser apresentado, além do site Centro de Memória CMSP que traz a trajetória da Câmara e documentos digitalizados que podem ser consultados.

Fernando Padula atual Diretor do Arquivo do Estado de São Paulo, falou um pouco sobre a particularidade do novo prédio, o primeiro construído para ser um arquivo, referência de construção para demais instituições com custódia de acervos. Trouxe dados sobre a importância da gestão documental, que impacta inclusive no orçamento da instituição, mostrando que o esforço para a construção de tabelas de temporalidade, classificação dos documentos é importante e eficaz. Falou da experiência do arquivo que é passada para que outras instituições possam tratar seus acervos, com o Mapa Paulista de Gestão Documental podemos saber em quais cidades a gestão vem sendo implantada e qual etapa está. Mostrou o novo acesso que o público pode ter no acervo bibliográfico e a hemeroteca da instituição.

Após as três falas o público presente participou com algumas perguntas, todas respondidas e ficando alguns questionamentos futuros sobre a difusão dos acervos, política para a criação de cursos na área de arquivos no estado de São Paulo, lacunas na legislação que trate de acervos de empresas.

A aula aberta nos mostra a importância de encontros como este, pois com a troca de informações ajuda a pensarmos em soluções para nossos locais de atuação, e pensarmos nas possibilidades da construção conjunta das políticas que ainda não foram criadas.