Leonor Calvão Borges

nasce a 18 de Outubro de 1963, em Lisboa. Licenciada em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa, pós-graduada em Ciências Documentais – opção arquivo e mestre em Paleografia e Diplomática pela Universidade de Lisboa, sendo atualmente doutoranda em Ciência da Informação na Universidade de Coimbra. Como arquivista desempenhou funções na Câmara Municipal de Lisboa – Arquivo do Arco do Cego e Gabinete de Estudos Olisiponenses, no Instituto Português do Património Arquitectónico e na Assembleia da República.

“É inegável que a profissão (arquivista) se desenvolveu bastante, deixando para trás a tutela apenas dos arquivos históricos”: Entrevista com Leonor Calvão Borges

Leonor Calvão Borges é especialista em arquivística, paleografia e diplomática com uma experiência diversificada em diversos arquivos. Hoje entrevistamos uma das mais reconhecidas arquivistas em Portugal que nos vai abrir as portas aos seus projetos e à sua visão sobre a participação cidadã nos arquivos.

(Archivoz) Através da sua diversidade de experiência em diferentes arquivos, como encara a profissão na atualidade?

(Leonor Calvão Borges) É inegável que a profissão se desenvolveu bastante, deixando para trás a tutela apenas dos arquivos históricos, e passando a contemplar funções de gestão documental. Para essa alteração decisiva, muito contribuiu a revisão dos curricula académicos, o papel que o órgão coordenador passou a ter nas áreas de modernização administrativa, bem como a alteração do processo de publicação na área. Também as dissertações, teses e artigos publicados nos últimos 10 a 15 anos espelham essa realidade.

Contudo, considero que a principal alteração neste século XXI se dá com a necessidade de comunicar via redes sociais, conceber e envolver comunidades de interessados, em suma, da transformação radical na forma de conceber o “utilizador”, que altera também a forma de conceber a descrição, indexação, divulgação, etc.

(Archivoz) Dos seus estudos em arquivos privados qual foi o mais marcante?

(LCB) Não consigo nomear apenas um, o meu primeiro encontro com um arquivo privado foi o arquivo pessoal do Engenheiro Vieira da Silva, existente no Gabinete de Estudos Olisiponenses (em Lisboa), onde foi possível constatar como a documentação, livros e objetos/peças por ele elaborados ou coleccionados constítuiam um todo harmónico, inter-relacionado e inseparável para a compreensão do seu autor e coleccionador. Em 1992 não era um facto muito comum: nem estudar/tratar arquivos privados, nem ter uma visão que hoje diríamos holística do arquivo e isso foi muito gratificante para mim.

Falando agora de arquivos familiares, considero que a abordagem ao Arquivo da Quinta das Lágrimas e estabelecimento do seu plano de classificação foi desafiante ao nível teórico, já que, ao não seguirmos a proposta de Armando Malheiro da Silva, nos obrigou a sustentar solidamente uma alteração da visão destes arquivos – neste caso, organizando por Casas e não por genealogia familiar. O tratamento posterior de outro grande arquivo – o Arquivo Lafões – permitiu consolidar esta nossa proposta.

(Archivoz) Da sua produção científica sente-se a presença da paleografia e da diplomática. Estas disciplinas fazem sentido na profissão de arquivista nesta era digital?

(LCB) Para mim, fazem todo o sentido. A nova abordagem da diplomática desenvolvida pela Luciana Duranti, e a sua aplicação aos documentos digitais, permite realmente ver como esta disciplina – que se inicia com a necessidade de verificar a autenticidade dos documentos das chancelarias – se reinventa para responder a desafio similar na era digital.

Quanto à paleografia, e face à enorme quantidade de documentação existente nos arquivos históricos por tratar e descrever, não se vê como seja possível largar uma paleografia de leitura bem alicerçada em conhecimentos da história da escrita.

De igual forma, os novos desenvolvimentos desta disciplina no sentido de uma ampliação do seu âmbito, inserido agora nas práticas de cultura escrita, tornam-na mais abrangente, interligada com a história dos suportes, instrumentos de escrita, tintas, literacia dos escreventes e níveis de alfabetização, servindo para uma melhor contextualização da documentação/acervo à guarda.

(Archivoz) Nos últimos tempos têm-se dedicado ao estudo dos mecanismos parlamentares de democracia participativa, tendo como o exemplo da Assembleia da República Portuguesa. Pode-nos elucidar sobre esta temática?

(LCB) O tema da participação e ciência cidadã é, hoje, transversal às instituições de memória.

Contudo, as instituições parlamentares, tradicionalmente vistas como fechadas, têm mostrado entender a informação parlamentar como um bem público a trasmitir gratuitamente.

Esse caminho percorrido no seguimento de políticas de modernização administrativa, digitalização massiva de conteúdos e declarações internacionais e nacional, de transparência da informação, têm vindo a ter reflexos na remodelação dos sites parlamentares, agora com uma filosofia de user-oriented.

Outra das consequências foi o repensar os mecanismos parlamentar de democracia participativa, tais como petições, iniciativas legislativas de cidadãos, e iniciativas cidadãs de referendo.

Foi assim implementada uma plataforma para entrega de petições individuais ou coletivas no site da Assembleia da República, que facilitou bastante a sua entrega.

Também no caso das iniciativas legislativas de cidadão, foram baixados os números de assinaturas necessárias para a sua efetivação.

O site do parlamento português foi remodelado a partir das reflexões de um Grupo de Trabalho do Parlamento Digital, com funcionamento entre 2016 e 2018, tendo surgido ainda novas formas de comunicação com os parlamentares, tal como a bolsa de sugestões

(Archivoz) Referiu-nos ultimamente a participação cidadã nas instituições de memória, gostaríamos que nos desse alguns exemplos.

(LCB) Este é um campo que me tem interessado bastante, e no qual eu vejo o futuro da comunicação nas instituições de memória e a sua própria sobrevivência em termos de cativação de novos públicos.

Claro que tal só é possível através do desenvolvimento da web 2.0 e das redes sociais.

Há projetos internacionais sólidos, com resultados francamente positivos.

Um dos projetos muito interessantes foi o desenvolvimento, pela Biblioteca do Congresso, do projeto Flickr Commons, onde foram disponibilizadas milhares de fotografias do seu acervo, apelando a participação pública, quer através da aposição de tags, quer por comentários.

Os resultados, publicados ao fim de um ano e depois de dez anos, demonstraram o seguinte:

  • A disponibilização de imagens numa rede social trouxe novos públicos àquela instituição. Pessoas que não pesquisavam no site da Biblioteca do Congresso para ter acesso a essa informação.
  • O contributo dos cidadãos permitiu: melhorar descrições, identificar imagens ou pessoas nas imagens e ainda no caso do que a BC chamou super-taggers fazer links para periódicos do início do séc. XX, cujas notícias faziam um enquadramento de fotografias de lutas sindicais, por exemplo.

Claramente uma iniciativa a seguir.

No área dos arquivos, a aposta é no apelo à transcrição massiva de documentos. Os arquivos nacionais Norte-Americanos, Ingleses e Franceses têm projetos francamente interessantes, chegando a criar tarefas para os cidadãos arquivistas, uma designação feliz dos arquivos Norte Americanos.

Desta forma, consegue-se que, fundos quilométricos onde muitas vezes ainda não há descrição suficientemente fina para permitir acesso a todos os documentos, e instituições que têm uma tradicional falta de recursos humanos e financeiros, consigam agilizar o trabalho técnico e disponibilização de mais conteúdos.

Quanto aos museus, os projetos variam, desde o Museu do Prado, onde se pede que se façam vídeos sobre “Mi Prado” até pedidos de transcrição de rótulos das peças no Museu de Manchester, ou ainda o desafio lançado na atual situação pandémica para que os cidadãos retidos em casa façam uma fotografia dos membros da família a retratar um qualquer quadro famoso.

São definitivamente novas formas de chegar a novos públicos! E são muito eficientes.

(Archivoz) Por último, outra área dentro dos arquivos privados que tem merecido a sua atenção são os arquivos literários. Considera que são os arquivos esquecidos? Onde devem ser integrados, nas bibliotecas, nos arquivos ou em ambos?

(LCB) O que acho mais revelador é mesmo não haver uma única orientação para estes acervos. Na Biblioteca Nacional, por exemplo, estes arquivos são exclusivamente vistos como literários, assim organizando a documentação e descrição.

No caso dos arquivos literários existentes no Museu do Neo-realismo, por exemplo, já se dá uma tónica arquivística, vendo o arquivo no seu todo, o que, de resto, também acontece em arquivos depositados em arquivos municipais ou distritais.

Considero que há uma grande falta de reflexão por parte da comunidade da ciência da informação sobre estes arquivos, visível na diversidade de soluções e no esquecimento a que têm sido votados.

Agradecemos, desde já, a sua prestimosa participação. Muito obrigada em nome da Revista Archivoz!