Clara Kurtz

“As mudanças na arquivologia são visíveis e exigem uma mudança de paradigma”: entrevista com Clara Kurtz, consultora na área de arquivos

A arquivologia brasileira se firma no final da década de 1970 a partir de duas cidades brasileiras: Rio de Janeiro e Santa Maria/RS. Nesta entrevista conversamos com Clara Kurtz que fez parte da primeira turma de graduados em Arquivologia do Brasil, em Santa Maria. Ativista da área, acompanhou as mudanças que ocorreram na ciência com a chegada dos documentos digitais.

(Archivoz) Você faz parte da turma dos pioneiros da arquivologia brasileira. Nos conte um pouco sobre o início da arquivologia. Era Rio e Santa Maria (RS) os pólos de estudo no Brasil, como foi desbravar esta nova ciência no Brasil do século passado?

(Clara Kurtz) Meu interesse pela área de arquivos ocorreu quando trabalhei como secretária de Escola no Colégio Maneco, em Santa Maria. Em 1977, ingressei na primeira turma do Curso de Arquivologia da UFSM, numa época em que arquivista era identificado com o “você trabalha na biblioteca?”.

A Arquivologia em Santa Maria nasceu do idealismo da Profª Darcila de La Canal Castelan que não mediu esforços para o desenvolvimento do curso e da área e, apesar da reduzida produção científica da época (Marilena Leite Paes, Schellenberg, Arquivos Públicos do Canadá).

Formou na década de 70 e 80, profissionais competentes e conhecidos no Brasil. Logo depois da aprovação da Lei n°6.546/78, sempre estivemos presentes em eventos e atividades que mostrassem qual o papel do arquivista, como profissional graduado em curso superior, na preservação da história e memória da sociedade.

(Archivoz) O que mudou para melhor e o que ficou pior na arquivologia na última década?

(CK) As mudanças na arquivologia, nas últimas décadas são visíveis e, cada vez mais exigem do profissional uma mudança de paradigma. O advento da tecnologia nas organizações exigiu que a formação buscasse a inclusão dos recursos da TI no ensino da arquivística.

Os desafios e as oportunidades a que os profissionais estão sujeitos obrigam a uma mudança radical da função arquivística e, a não aceitação desses câmbios poderá levar a profissão do arquivista a desaparecer.

Considero que esses desafios proporcionaram uma visibilidade maior aos arquivos e aos profissionais, haja vista o grande número de concursos realizados nos últimos anos e que eram raros até final dos anos 90. Não considero que estas mudanças tenham trazido prejuízo para a área, mas é urgente que as administrações dos arquivos estabeleçam com a chefia das organizações programas de preservação das informações produzidas em meio eletrônico.

(Archivoz) Durante muito tempo fostes presidente da Associação dos Arquivistas do Rio Grande do Sul, quais as dificuldades do associativismo na arquivologia? Por que a categoria é tão desunida?

(CK) Considero que a falta de participação dos profissionais nas Associações é resultado em parte, da condição do ser humano, de querer sempre se beneficiar antes de participar/colaborar e parte, por achar que, não sendo associado, não é responsável pela definição de políticas para o reconhecimento da profissão de arquivista e pela divulgação e implementação de políticas públicas estabelecidas pelo CONARQ, desde 1991.

Estudos realizados no RS – Censo dos Arquivos Municipais – 2006 e uma pesquisa realizada por Francisco Weliton Souza – UFRGS, 2014, mostram que os municípios conhecem as leis dos arquivos e dos arquivistas, mas nada fazem para mudar a realidade. Um trabalho de conscientização deve ser empreendido para que os arquivos sejam gerenciados por arquivistas, contando com o apoio dos gestores municipais, recursos financeiros, humanos e de materiais e com autonomia e autoridade próprios dos arquivo.

Essa ação deve ser implementada pelas Associações profissionais com o respaldo de seus associados.

(Archivoz) Como foi o momento em que você viu que não tinha mais volta a questão do digital? Demorou para a área ver isso?

(CK) Antes do ano 2000, já comentava em sala de aula, que muito breve veríamos estudantes, em sala de aula sem utilizar lápis e caderno e, alguns alunos viam como impossível isso ocorrer. Muitos profissionais de minha idade, não admitem essa realidade, mas mesmo não tendo acompanhado toda a evolução que houve, não podemos mais admitir que os arquivos continuem na era dos “fichários e arquivos de aço”.

Penso que a área e os professores dos cursos de formação são responsáveis por essa mudança de mentalidade; por outro lado, são os administradores e profissionais de TI que não conseguem ver esse elo entre ao tecnologia e os registros com os profissionais de arquivo.

(Archivoz) O advento do digital trouxe novos desafios, como você enxergou esta mudança na sua atuação e na atuação dos novos arquivistas?

(CK) Na verdade, não consegui acompanhar esses desafios. Depois de aposentada, me dediquei a desenvolver projetos de organização de arquivos municipais. Ministrei cursos para responsáveis por arquivos municipais e sempre mostrei a importância da tecnologia para eficiência das atividades da administração municipal, salientando que essa implementação exige, além da gestão documental, a criação de um Sistema Informatizado de Gestão Arquivística de Documentos- SIGADs, que constitui-se o grande desafio na atuação dos arquivistas, e que, hoje, algumas administrações começam a reconhecer essa necessidade.

(Archivoz) Por que não tem arquivistas donos de empresas de gestão de documentos?

(CK) Poucos são os arquivistas que se arriscam nesta área, sim. Conheço mais a realidade do Rio Grande do Sul e creio que nas primeiras turmas formadas por Santa Maria e Porto Alegre havia mais esse espírito empreendedor, podemos citar Anna Rocha, Maria Osmari , Rejane Tonetto e Charlley Luz, que continuam no mercado em todo o Brasil. Talvez, pela possibilidade de concursos públicos, os profissionais lutem mais por uma vaga com estabilidade do que estar na linha de frente na proposição de sistemas de gestão de documentos.

(Archivoz) Qual o recado para a nova geração que começa agora e que daqui a 10 anos estará no mercado de trabalho?

(CK) Os arquivistas precisam ser mais proativos, neste mundo digital, em que o excesso de informação gera, muitas vezes, desinformação. Conhecedor da teoria arquivística e dos câmbios produzidos pela globalização, o arquivista deve buscar a cooperação e a boas práticas com os demais produtores dos processos tecnológicos informacionais, nos seus locais de trabalho.

(Archivoz) Para fechar, qual sua visão sobre a arquivologia daqui pra diante?

(CK) O conceito de arquivo adquire novos significados: os arquivos são parte do “presente” que desaparecem em pouco tempo, para surgirem logo depois como “novos” arquivos, em vista da desenfreada evolução da tecnologia.