Antonio Manuel Silva

A sua experiência profissional em Arquivos remonta à década de 1990, época em que realizou o inventário dos arquivos municipais, Governo-Civil e Misericórdias do distrito de Aveiro. Desenvolveu funções docentes em diversas instituições de ensino superior, como a Escola Superior Artística do Porto e a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, exercendo desde 1994 funções como técnico superior da Câmara Municipal do Porto, presentemente no Arquivo Histórico Municipal/Casa do Infante. No âmbito da Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica (Comunhão Anglicana), entre outras funções, coordena o Instituto Anglicano de Estudos Teológicos e o Arquivo Histórico Diocesano. Encontra-se a ultimar o seu doutoramento em Arqueologia, na Universidade de Santiago de Compostela.

“O trabalho de um arquivo é uma obrigação permanente e uma responsabilidade de longo prazo”: Entrevista com António Manuel Silva, coordenador do Instituto Anglicano de Estudos Teológicos e do Arquivo Histórico Diocesano em Portugal

O estudo dos arquivos privados tem vindo a desenvolver-se nos últimos anos. Temos muitos casos de arquivos de família, pessoais e religiosos, estes últimos ligados à Igreja Católica Romana. Hoje apresentamos um caso único em Portugal, o Arquivo Histórico da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana de Portugal, através da entrevista com o seu director António Manuel Silva.

(Archivoz) Conte-nos um pouco da História da Igreja Lusitana e do seu arquivo

(António Manuel Silva) A​ Igreja Lusitana é uma diocese extraprovincial da Comunhão Anglicana, uma família de igrejas autónomas em comunhão com a Sé de Cantuária (Inglaterra), tendo o arcebispo de Cantuária como líder e foco de unidade. A Comunhão Anglicana, distribuída pelos cinco continentes, conta atualmente com 86 milhões de membros, mas a Igreja Lusitana é uma pequena igreja minoritária (presentemente formalizada como igreja radicada, nos termos da lei) com cerca de 5000 batizados, que remonta ao ano de 1880, altura em que um grupo de padres egressos da comunhão romana, em desacordo com decisões do concílio Vaticano I e outras afirmações dogmáticas do catolicismo romano procuraram – influenciados pela emergência em Portugal de correntes protestantes e em especial de rito anglicano – instituir uma igreja, de tradição e ordem católicas mas assente em sólidas bases bíblicas e uma espiritualidade evangélica, que fosse histórica e sociologicamente nacional e independente.

Neste cruzamento, aberto, tolerante e inclusivo, entre as tradições católica e evangélica (essência do Anglicanismo), a Igreja Lusitana vem oferecendo à população portuguesa, há quase 130 anos, uma via alternativa de prática religiosa marcada profundamente pelo envolvimento social e comunitário, com particular expressão no campo educativo mas também no apoio aos sectores da comunidade mais fragilizados social e economicamente, à população senior ou às crianças e jovens inseridos em meios familiares menos estáveis, ações que desenvolve através de várias IPSS tuteladas pela Igreja, uma bolsa de estudos, lojas solidárias, o projeto Esperança e outros mecanismos de intervenção local e diocesana.

O Arquivo Histórico da Igreja Lusitana (AHIL), bem como as principais bibliotecas da Igreja, foram objeto de trabalhos pontuais de inventariação e organização desde as décadas de 1980-1990, que todavia nunca tiveram continuidade por falta de pessoal técnico especializado, recursos e uma estratégia concertada de implementação e sustentação. O relançamento do projeto do AHIL, no ano de 2015, envolveu a contratação de uma arquivista em regime de prestação de serviços, a implementação de uma plataforma digital com o software​ livre ICA-Atom/ATOM e a reunião de uma pequena equipa de coordenação e apoio técnico (na sua generalidade não remunerada), envolvendo um técnico de informática e outros colaboradores e consultores.

(Archivoz) Porquê divulgar um arquivo religioso?

(AMS) A história religiosa (e os Arquivos são apenas o seu principal repositório de fontes) não é atualmente apenas a história eclesiástica tradicional (da Igreja e dos seus líderes ou agentes principais) nem se esgota na tradição e narrativas da instituição histórica e sociologicamente dominante (no caso português a Igreja Católica Romana). Os percursos e a vivência das minorias religiosas (cristãs como de outras religiões) são muito importantes porque ao longo da História serviram muitas vezes de elementos percursores (proféticos, como diríamos em linguagem religiosa) de diversos elementos fundamentais da Modernidade, como o livre pensamento, a educação democrática e inclusiva, a paridade de género, etc.

Além do mais, como a seu tempo sublinhou Jorge Borges de Macedo, as minorias constituíram sempre um cenário de alternativas possíveis que o fluir histórico ignorou, rejeitou ou até, por vezes, em parte incorporou sem formalmente adotar, pelo que a sua consideração e análise histórica enriquecem sobremaneira a visão desejavelmente caleidoscópica das sociedades passadas e presentes, em desfavor das perspetivas monolíticas e enviesadas de muita da historiografia tradicional.

Por isso – respondendo diretamente à questão – divulgar um arquivo religioso (neste caso de uma pequena igreja minoritária) não resulta minimamente em expor um acervo de curiosidades ou idiossincrasias de um pequeno ramo da fé cristã em Portugal. Pelo contrário, contribui largamente para explicitar e alargar o espectro interpretativo da prática religiosa no nosso País nos últimos dois séculos, clarificando, num jogo de luz e sombras com múltiplos cambiantes, as práticas e dispositivos da crença dominante, em contraponto com outras práticas e dispositivos que viveram uma longa caminhada de afirmação como alternativas igualmente válidas, legítimas e do mesmo modo contribuintes de uma contemporaneidade civicamente informada, livre e partícipe de um Portugal de todos e em comunhão fraterna com todos.

(Archivoz) Quais as especificidades do Arquivo da Igreja lusitana?

(AMS) O​ Arquivo Histórico da Igreja Lusitana – que inclui documentos desde a primeira metade do século XIX e integra, entre outros fundos, o arquivo diocesano (bispos e instituições nacionais), os arquivos paroquiais, arquivos pessoais de várias personalidades e de muitas outras instituições educativas, assistenciais e de carácter missionário a nível local e regional – apresenta um interesse notório para a compreensão do processo de diferenciação e liberdade religiosa no trânsito entre os últimos decénios da monarquia e as primeiras décadas da República portuguesa.

O direito de cultuar a Deus segundo um rito ou um habitus (no sentido de Bourdieu) diferentes; o direito de ler a Bíblia em vernáculo e na tradução que a cada um aprouver; a opção por um modelo educativo laico, mas de inspiração e ética cívica cristãs – elementos que hoje em dia consideramos como conquistas definitivas e indiscutíveis da nossa sociedade – tiveram na história da Igreja Lusitana e na de outras confissões cristãs minoritárias, importantes páginas de luta e perseguições, de debate e intervenção política, de testemunho abnegado e resiliência corajosa, que a documentação do Arquivo ou da biblioteca e hemeroteca históricas da IL iluminam ou, pelo menos, oferecem como novas fontes de investigação e reflexão à ciência histórica e à sociologia religiosa dos nossos dias.

Importa notar, além do mais, que a documentação arquivística da IL não evidencia apenas os registos de uma certa elite dirigente nem constitui mero repositório eclesiástico de decisões episcopais. Pelo contrário, lança muitas vezes um feixe de luz transversal e diacronicamente representativo sobre todo o tecido social de muitas comunidades locais, como sucede, para citar apenas dois exemplos, com os registos escolares das diversas instituições de ensino que ao longo de mais de um século intervieram no Porto, em Lisboa, em Vila Nova de Gaia e outras localidades, ou os registos de membros das paróquias, missões e outras associações, culturais, religiosas ou mutualistas ligadas à Igreja.

Deve também relevar-se o papel da imprensa lusitana e evangélica em geral (que remonta a 1877 com A Reforma, o primeiro jornal protestante português), não só como veículo de missionação e afirmação dos princípios e crenças das respetivas confissões, mas também como forum de novas ideias e argumentos sociológicos e culturais, palco de polémica e apologética religiosas e repositório da vivência social e económica do meio em que se inseriam.

Por fim, e agora no plano interconfessional e de ação conjunta em favor de objetivos maiores que os da simples afirmação institucional, recorde-se a importância das fontes conservadas no Arquivo Histórico da IL para o estudo do relacionamento entre muitas igrejas cristãs minoritárias nos séculos XIX e XX (com destaque para o fundo do Conselho Português de Igrejas Cristãs, recentemente depositado no AHIL), e destas com a Igreja Católica Romana, com outras igrejas cristãs no estrangeiro e com organismos internacionais como o Conselho Mundial de Igrejas, a Conferência das Igrejas Europeias e outros.

(Archivoz) Como tem sido a recetividade deste projeto?

(AMS) No​ plano da Igreja Lusitana tem sido muito boa, quer por parte de muitos membros da Igreja, quer também dos responsáveis nacionais, como aconteceu desde o início com o Bispo Diocesano (a IL constitui uma única diocese nacional), que compreenderam que o investimento e a valorização do arquivo e biblioteca históricas da Igreja não constituíam um simples «capricho» ou curiosidade de eruditos, mas eram, assertivamente, um imperativo ético e um desígnio importante da Igreja. Tais ações, na verdade, não só respeitam e redimensionam o testemunho de fé e prática de vida dos precursores, fundadores e de todos os que ao longo de mais de um século viveram, sonharam e multiplicaram a sua fé através da IL, como constituem um veículo de projeção institucional da Igreja e, sobretudo, de ampliação do anúncio do evangelho de Jesus Cristo aos homens e mulheres dos nossos dias.

Fora da IL temos também recebido um bom acolhimento e expressões de muito interesse, quer por parte da comunidade académica (onde os estudos sobre minorias religiosas ganham crescente investimento e curiosidade), quer por parte de um público mais generalista (de Portugal e do estrangeiro), que acede à plataforma do arquivo e que em consequência muitas vezes contacta a instituição em busca de informações genealógicas, pessoais ou de outra natureza.

Para esta divulgação muito tem contribuído a plataforma em linha do arquivo (​http://arquivo.igreja-lusitana.org​), que supre as dificuldades de disponibilização física de alguma documentação e oferece estes recursos a uma escala impensável há poucas décadas, e alguns trabalhos de cooperação com outras entidades, como o que resulta de um protocolo com o Arquivo Municipal Sophia de Mello Breyner, de Vila Nova de Gaia, que permitiu que as coleções dos principais jornais históricos da IL estejam disponíveis ao público na plataforma web daquela instituição, sendo a primeira vez que um arquivo público português aloja séries integrais de periódicos religiosos de uma confissão cristã minoritária.

(Archivoz) Quais as perspetivas e investimentos futuros?

(AMS) O​ trabalho de um arquivo é uma obrigação permanente e uma responsabilidade de longo prazo, considerando em especial o contínuo aumento do acervo e a diversificação de suportes. A par da manutenção, melhoria e «alimentação» da plataforma Atom com maior quantidade de documentação descrita e ilustrada com imagens, tem havido um significativo investimento na digitalização profissional das principais séries documentais e de periódicos e projeta-se a médio prazo a instalação do Arquivo e Biblioteca Histórica da IL em espaços dedicados e especialmente beneficiados para o efeito.

Todavia, o interesse e mobilização de meios da IL para estas finalidades, os recursos disponíveis por parte da Igreja são escassos e ficam muito aquém das necessidades do Arquivo, cujo desenvolvimento requer o contributo de pessoal técnico qualificado, equipamento e obras de requalificação de algum vulto para a sua reinstalação em local mais adequado. Desta forma, o Arquivo tem vindo a concorrer (infelizmente sem sucesso) ao apoio de entidades privadas e necessitará obrigatoriamente de captar o financiamento de instituições públicas ou o mecenato de particulares, estando também em análise a possibilidade de angariar apoios junto de identidades estrangeiras para o mesmo efeito.