“Através da sua biblioteca, o Arquivo possibilita o acesso, num único espaço, a outros recursos, complementares às suas fontes, que podem auxiliar a investigação ali desenvolvida”: Entrevista com Marta Gomes

Entrevistámos Marta Gomes, Coordenadora da Biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Atualmente, entre outras funções que desempenha no Arquivo Municipal de Lisboa, é coordenadora da biblioteca deste serviço de informação de referência em Portugal. Fale-nos um pouco do seu percurso profissional, académico e formativo.

(Marta Gomes) Interessei-me pelo mundo das bibliotecas no último ano da licenciatura em História, em 1995, quando frequentei o seminário de biblioteconomia e realizei um curto estágio na Biblioteca Municipal Marquesa de Cadaval, em Almeirim. Mais tarde, em 1998, concluí na Universidade Autónoma de Lisboa a pós-graduação em Ciências Documentais e iniciei a minha atividade profissional nesta área, no centro de documentação da antiga Direção Geral de Transportes Terrestres. Após uma breve passagem pela Refer, ingressei na Câmara Municipal de Lisboa onde, desde 2001, sou responsável pela biblioteca do Arquivo Municipal.

(ARCHIVOZ) A sua dissertação de mestrado em Ciências Documentais, que apresentou à Universidade de Évora, tem o título “Implementação de políticas de indexação e metodologia para construção de tesauros: estudo de caso sobre o Arquivo Municipal de Lisboa” Quais foram as principais conclusões da investigação que desenvolveu?

(MG) Esta dissertação, e o seu tema, surgiram no momento certo. Estava a frequentar o mestrado em Évora quando o Arquivo Municipal de Lisboa deu início ao ambicioso projeto de construção de uma linguagem documental para a indexação da sua documentação, para o qual fui nomeada responsável. Abandonei, assim, o tema inicialmente escolhido para a dissertação e decidi especializar-me nesta área. Tinha a certeza de que a minha investigação acrescentaria valor ao projeto. Durante este percurso compreendi a importância da criação de uma política de indexação nos serviços de informação, através da qual se estabelecem os procedimentos que garantem a qualidade da indexação e, consequentemente, a eficácia da recuperação da informação. Confirmei que o tesauro é a linguagem documental que apresenta uma forma de construção e de acesso adequados às exigências da indexação de documentos de arquivo. Esta investigação obrigou a um conhecimento detalhado sobre a organização dos documentos do Arquivo Municipal de Lisboa, as suas características particulares e, consequentemente, a tomadas de decisão sobre como indexá-los. Este percurso continuou após a dissertação, com novas conclusões decorrentes da implementação da política de indexação no Arquivo Municipal de Lisboa.

(ARCHIVOZ) Ainda no Arquivo Municipal de Lisboa, é coordenadora editorial e membro do Conselho Editorial da revista científica Cadernos do Arquivo Municipal. O que nos pode dizer sobre esta publicação, e os seus principais objetivos, que progressivamente tem conquistado o seu espaço entre as revistas científicas publicadas em Portugal?

(MG) Os Cadernos do Arquivo Municipal, http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/investigacao/cadernos-do-arquivo-municipal/2-serie/), revista científica da Câmara Municipal de Lisboa, de acesso aberto e periodicidade semestral, são a forma bem-sucedida de aproximar o Arquivo Municipal de Lisboa à comunidade académica nacional e internacional. Têm como principal objetivo divulgar a documentação à guarda do Arquivo, promovendo o seu acesso e revelando a sua importância para a investigação científica. Embora a revista publique artigos que não fazem referência à documentação do Arquivo, a equipa assegura a sua divulgação em cada número através da Documenta, ou de textos de divulgação publicados na Varia. Neste momento acessível em diversos indexadores internacionais, os Cadernos do Arquivo Municipal têm obtido uma interessante projeção nacional, e em países como Espanha e Brasil.

(ARCHIVOZ) Apresente-nos a biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa, nomeadamente no que respeita à sua principal função, áreas temáticas e serviços prestados.

(MG) A biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa reúne o conjunto de características que define uma biblioteca especializada, ou seja, disponibiliza um acervo bibliográfico centrado em determinados temas, relacionado com a entidade a que presta serviço, tentando responder às necessidades de informação de um público específico. Através da sua biblioteca, o Arquivo possibilita o acesso, num único espaço, a outros recursos, complementares às suas fontes, que podem auxiliar a investigação ali desenvolvida. Esta biblioteca está dividida em dois locais distintos, encontrando-se parte do acervo na sede do Arquivo em Campolide, e a outra parte no Arquivo Fotográfico, na rua da Palma. A área temática nuclear da primeira é a cidade de Lisboa, nomeadamente a sua história, arte, arquitetura ou urbanismo. Disponibilizam-se outras áreas, marginais, igualmente relevantes para o estudo da cidade. De entre a documentação disponibilizada, saliento a coleção de recursos visuais, constituída por materiais de divulgação (cartazes, folhetos, brochuras, entre outros), produzidos pela Câmara Municipal de Lisboa no exercício da sua atividade, que adquirem agora, ao fim de alguns anos, um valor informativo e documental. E ainda os dois espólios, o do jornalista José Neves Águas (constituído sobretudo por cartazes políticos produzidos entre as décadas de 70 e 80 do século XX) e o do espólio da ONU (cerca de 300 cartazes de campanhas promovidas por este organismo no mundo inteiro) que o Arquivo recebeu em 2003 após o encerramento do gabinete em Portugal. No Arquivo Fotográfico o tema central é a fotografia (história, técnicas fotográficas, fotografia de autor, catálogos coletivos, entre outros). A biblioteca do Arquivo disponibiliza o seu catálogo online (https://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/), a partir do sítio web do Arquivo Municipal de Lisboa. Grande parte dos recursos visuais encontram-se digitalizados e podem ser visualizados neste catálogo. A biblioteca presta um serviço de referência e realiza pesquisas a pedido, quer no seu catálogo, quer em outros serviços de informação. Nos últimos anos tem vindo a divulgar as suas coleções através da organização de mostras bibliográficas e da colaboração em exposições.

(ARCHIVOZ) Quais são os utilizadores da biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa e as suas principais necessidades de informação?

(MG) Os utilizadores da biblioteca são, sobretudo, os utilizadores do Arquivo Municipal de Lisboa, portanto, investigadores que procuram o Arquivo para a consulta de fontes e para o desenvolvimento de investigação sobre a cidade de Lisboa. Para além destes, a biblioteca tem sido muito procurada nos últimos anos para acesso aos recursos visuais anteriormente referidos. Neste caso, os contactos são feitos quer por investigadores, quer por outras entidades que recorrem ao acervo para variados fins (exposições, edições, divulgação, entre outros).

(ARCHIVOZ) O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19 tiveram impactos profundos nos serviços de informação em Portugal. Como coordenadora da biblioteca do Arquivo Municipal de Lisboa quais têm sido, desde março de 2020, os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação?

(MG) O ano de 2020 foi de mudança para a biblioteca, e só em parte devido à pandemia pelo SARS-CoV 2. Por um lado, a equipa perdeu dois elementos, por mobilidade e aposentação, tendo como consequência a reorganização do serviço e uma redistribuição de tarefas. O reforço da equipa, com a entrada de dois novos elementos já este ano, pode trazer um novo impulso a este serviço, uma vez que estão a ser pensadas outras formas de divulgação e de maior aproximação do público. Por outro lado, o atendimento do público foi interrompido durante algum tempo, assim como a organização das mostras bibliográficas promovidas bimestralmente e que ainda não foram retomadas. Mas o tratamento do acervo manteve-se com os funcionários em regime de teletrabalho.

Por vezes, em momentos como estes, surgem oportunidades. De modo a que o Arquivo Municipal de Lisboa pudesse assegurar o atendimento, com segurança e cumprindo as orientações da Direção-Geral da Saúde, ao maior número possível de leitores, a sala da biblioteca em Campolide, até aí sem receber público (que se concentrava na sala de leitura geral do Arquivo), foi reorganizada para poder passar a acolher investigadores. Esta alteração do espaço possibilitou a criação de uma área aprazível de acolhimento, assim como um acesso mais direto ao acervo bibliográfico e um atendimento ainda mais personalizado.

(ARCHIVOZ) Quais é que pensa que são os principais desafios e oportunidades que se colocam aos profissionais da informação na atualidade, particularmente aos que desenvolvem a sua atividade em bibliotecas?

(MG) Os profissionais da informação deparam-se com constantes e variados desafios. No caso das bibliotecas especializadas, talvez o reconhecimento da sua importância enquanto serviços de organização da informação e do conhecimento, em época de constante mudança organizacional, tecnológica e informacional, seja dos mais notórios. Muitas vezes penalizadas por constrangimentos orçamentais, estas bibliotecas encontram-se quase sempre no “fim da linha” das tomadas de decisão, nomeadamente no que diz respeito ao investimento nas suas coleções, na formação das suas equipas e, por vezes, nos seus espaços e equipamentos. Não obstante, compete aos profissionais da informação reformular, reinventar, enfim, encontrar novas soluções, meios e ferramentas que demonstrem a importância das bibliotecas especializadas e o papel ativo que podem e devem assumir nas organizações.

Imagem cedida pelo entrevistado:
Exposição de cartazes “O Arquivo Saiu à Rua”. Arquivo Municipal de Lisboa, 2014.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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