“Acho que a arquivística e os arquivistas estiveram à altura dos desafios que se colocaram à Ciência em geral neste século XXI”: Entrevista com Maria do Rosário da Costa Bastos

Entrevistamos Maria do Rosário da Costa Bastos docente na Universidade Aberta, especializada em História Ambiental, nomeadamente a interação Homem/Meio na zona de Interface entre o oceano e a costa; História Ambiental com especial incidência para análises de largo espectro cronológico com relevância para a denominada época Medieval.

(Archivoz) Como historiadora sempre esteve ligada aos arquivos. Pode-nos referir a sua primeira experiência nos arquivos? Como era na altura o acesso à informação?

(Rosário Bastos) A minha ligação aos arquivos, já como historiadora (“mirim”, como dizem os brasileiros e palavra a cuja sonoridade acho imensa graça), foi desde logo total e absoluta. Terminei a licenciatura em História na Época de Recurso, em setembro, porque decidira deixar uma cadeira (unidade curricular como hoje se intitula) para essa altura uma vez que em julho me encontrava exausta. Acontece que, imediatamente depois de concluído o curso, fui recomendada por um jovem Professor de História de Portugal Medieval para, em conjunto com uma Colega, ser entrevistada pelo Dr. Manuel Real, à época Diretor do Arquivo Histórico Municipal do Porto – Casa do Infante, tendo em vista chegarmos a um consenso para fazermos a descrição, leitura e sumário de todos os pergaminhos medievais à guarda do aludido Arquivo Histórico. Fixou-se o horário, a data de início dos trabalhos e o valor da minha remuneração e da minha Colega (uma vez que o jovem docente só nos iria orientar de quando em vez e não iria auferir nenhum valor pecuniário por estar em regime de exclusividade de funções). Em outubro comecei a trabalhar mal sabendo o que me esperava: ora me apareciam autênticos “lençóis”, imensos, onde para acompanhar a escrita, as linhas e as entrelinhas do pergaminho, tinha que recorrer a uma “mega” régua de madeira que, entretanto, engendrei; ora se me deparavam autênticos “buracos” com qualquer coisinha escrita; ora eram documentos com a tinta repassada… enfim, diria que fiz uma “recruta em palco de guerra”. Pesem embora os factos descritos, ao cabo de cerca de ano e meio a missão estava terminada e tinha ganho algo para a vida: humildade, resiliência (científica) e a absoluta convicção que, com muita persistência, quase tudo se consegue.

O acesso à informação, na altura, era muito, mas muito mais complicado do que ao presente. Não existiam praticamente fontes primárias disponíveis online e estávamos completamente dependentes do horário das instituições e, porque não dizê-lo, do humor dos funcionários que ora facilitavam um pouco, ora só deixavam sair à consulta o número de peças superiormente estabelecido para análise diária por investigador. São incomensuráveis as viagens que fiz ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo e ao Arquivo Distrital de Braga porque, por vezes numa só hora, já tinha atingido o limite de consultas/dia e, muitas vezes, sem ter encontrado nada que me interessasse (traída pelos catálogos de índices ou pela minha má interpretação dos mesmos na solicitação dos documentos que vinham para leitura).

(Archivoz) Entretanto, iniciou a sua carreira como historiadora medievalista, mas saiu fora das investigações tradicionalistas típicas da Idade Média: mosteiros, história da Igreja, etc…

(RB) É verdade, mas simultaneamente não o é. Ora vamos lá a ver se me explico convenientemente! Como referi, ato contínuo ao final da licenciatura fui trabalhar com pergaminhos medievais. Depois ingressei no Mestrado em História Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e por lá fiquei com uma bolsa de investigação da então JNIC (Junta Nacional de Investigação Científica). O meu trabalho incidiu na análise do património e estrutura fundiária de um Mosteiro Agostinho do Entre Douro-e-Minho em finais da Idade Média, a saber, o de Santa Maria de Oliveira (no atual concelho de Famalicão). Concluído o mestrado tive a soberba oportunidade de ganhar nova bolsa e de trabalhar sobre o imaginário e representações da morte nos tempos medievos sob a égide do Professor Doutor José Mattoso. Seguiu-se uma muito fugaz passagem como docente de História num Instituto Privado de Ensino Superior e o convite para a entrada como assistente na Universidade Pública de Ensino a Distância Portuguesa, a Universidade Aberta, onde delineei o meu Projeto de Doutoramento sobre a temática da estrutura e gestão patrimonial dos mosteiros agostinhos do Entre Cávado e Minho durante a Idade Média (se a memória não me trai). Ou seja, preparava-me para usar o saber e experiência adquiridos durante o mestrado para uma obra de maior vulto, como seria expectável num doutoramento. O projeto foi aprovado no Conselho Científico da Universidade Aberta, onde planeava prestar as provas. Orientadores a contento, boa parte da documentação escrita “levantada” e, eis senão quando, uma tarde muda tudo! À época partilhava o meu gabinete de trabalho com um colega e amigo biólogo marinho. Estava eu posta em sossego a ler um documento qualquer quando o dito Colega se aproxima e questiona: “- Como é que consegues ler isso”? A resposta foi, obviamente, pacífica e fácil. “- Para que queres saber isso”? – Resposta novamente na ponta da língua! “- Mas isso requer realmente muita técnica e não seria possível usar isso para saber coisas diferentes, por exemplo ligadas à evolução do nosso litoral que é tão vasto, das espécies marinhas de antanho, sei lá de coisas que fossem mais abrangentes?” A resposta foi, igualmente célere mas, em boa verdade, dada de forma já aturdida! – “Vá lá, agora cala-te e faz as tuas coisas que eu faço as minhas”. Mas não fiz mais “aquelas minhas coisas” porque o tal biólogo, naquele dia, mudou o resto da minha vida científica para sempre. Pensei, pensei, tentei voltar à minha proposta de doutoramento (onde me sentia bastante confortável), mas já não conseguia prosseguir a tarefa. Tantos já tinham feito tão mais e melhor. Eu queria algo diferente! E as coisas foram-se desenvolvendo naturalmente. Cada vez trocava mais impressões com esse colega biólogo, fui conhecendo mais e mais cientistas de áreas disciplinares muito variadas e acabei num Hotel de Lisboa, face a um Júri de 6 ou 7 especialistas de diferentes Ramos Científicos, escolhidos pela Fundação da Ciência e Tecnologia, a defender um Projeto de Investigação interdisciplinar acerca da evolução geodinâmica e antrópica do litoral português. O Projeto foi aprovado para financiamento (no remoto ano de 2002, julgo) e eu decidi redirecionar as minhas pesquisas. Contra ventos e marés – e não sem algumas agruras – propus-me a um outo doutoramento em História, igualmente na Universidade Aberta, mas agora sob a temática “O Baixo Vouga em tempos medievos: dos preâmbulos da Monarquia aos finais do reinado de D. Dinis”. Este assumia um fácies profundamente interdisciplinar e para abarcar a análise como me propunha fazer tive que estudar incomensuravelmente mais do que se mantivesse a proposta de doutoramento anterior. Não obstante, lá concluí a tese com sucesso em finais de 2006 e, contra tudo o que objetivamente seria expectável para a época, em 2009, foi-me atribuído o Grande Prémio de História Medieval, exatamente pelo meu trabalho de doutoramento fazendo sobressair o seu carácter pouco comum e, lá está, interdisciplinar. Ou seja, e voltando à questão inicial, eu não me afastei da investigação tradicional na medida em que compulsei os mesmos documentos que os medievalistas costumam trabalhar (régios, monásticos, inéditos, publicados) e usei a metodologia histórica. O que mudei foi o carácter interpretativo das informações disponíveis com o fito de responder a objetos/objetivos de estudo pouco convencionais (ao menos, à época).

(Archivoz) Pode afirmar que foi pioneira em Portugal no âmbito da História Ambiental? Acha que foi levada a sério pela comunidade científica portuguesa?

(RB) Não, não posso afirmar semelhante e creia-se que poderia ser por pudor, por modéstia, mas não o é. É porque não corresponde à verdade, tão-só! Se atentarmos em trabalhos de grandes vultos intelectuais da Academia Portuguesa, e circunscrevendo-nos apenas às ditas Ciências Sociais e Humanas (embora o exemplo de alguns geógrafos que vou citar seja difícil de encaixar nestas “gavetas do conhecimento”), vultos como Jaime Cortesão, de certa maneira Virgínia Rau (com os seus estudos sobre o sal), Oliveira Marques, Vitorino Magalhães Godinho ou mesmo Orlando Ribeiro, Suzanne Daveau, Nicole Vareta, e outros que certamente merecerão o meu perdão por não ser exaustiva nesta enumeração, fizeram ipso facto estudos que hoje se incorporariam em trabalhos da designada História Ambiental. Acontece, todavia, que essa designação como sub-área da História não era ainda conhecida ou, ao menos, vulgarmente usada no Portugal de antanho. O que eventualmente não fizeram nem era, de todo expectável, foi uma Ciência completamente interdisciplinar (a multidisciplinar, em alguns casos, já a terão encetado), mormente apelando a saberes e metodologias que cruzassem práticas das rotuladas Ciências Sociais e Humanas com as das Exatas e Naturais. Aí sim, modestamente, tanto quanto pude e soube, lancei uma “pedrada no charco” no medievalismo da Ciência e da Academia portuguesa. Compreendo perfeitamente a perplexidade dos meus pares que, de repente, a propósito da deslocação de uma sobrepopulação confinada ao Entre-Douro-e-Minho para uma zona pacificada com definitiva conquista da fronteira cristã em Coimbra, em 1064, para um grande golfo litoral que viria a transformar-se na atual laguna de Aveiro e seu hinterland, se deparem com conceitos como formação e desenvolvimento de uma restinga arenosa, carreamento de sedimentos pelos rios e, ao longo da costa, pela deriva litoral, enraizamento de esporões a partir de cabedelos, ações antrópicas e/ou ecossistemas lagunares etc.,etc., etc.! Tudo isto era novo e, à época considerado bizarro para não dizer “algo esotérico” vindo de alguém que estudava o período medieval. Não obstante, “atrás do tempo, tempo vem” e a História Ambiental, que surgiu com este epíteto na década de setenta do século passado nos Estados Unidos, acabou por se vir a impor um pouco por todo o mundo, Portugal incluído evidentemente, muito embora no segmento cronológico medieval não esteja, de todo, a prosperar como podia, devia e merecia.

 (Archivoz) Acha que foram os arquivos e a sua evolução em Portugal que permitiram aos historiadores diversificar as suas áreas de estudo?

(RB) Com total honestidade, acho que não foram só, mas também. Acho que a arquivística e os arquivistas estiveram à altura dos desafios que se colocaram à Ciência em geral neste século XXI. No que concerne às Ciências Sociais e Humanas ou, para ser mais específica, à História em particular, a emergente competição a nível internacional implicou a pressão para uma crescente publicação em Revistas e Publicações indexadas e bem cotadas interna e externamente, o que exigiu uma inevitável aceleração quer da fase heurística, quer hermenêutica. No que respeita à primeira, porventura aquela que mais importa para a temática em apreço, a própria Arquivística se viu como que compelida a um enorme salto qualitativo e quantitativo que pudesse facilitar as consultas absolutamente imprescindíveis à produção de Ciência de raiz. E fê-lo, e bem! Ademais penso que se tornou mais popular e eclética. Veja-se por exemplo a multiplicação de cursos de pós-graduação, mestrado e doutoramento que surgiram na área, bem como a adesão registada na sua frequência. Refiro-me a este facto sem qualquer consulta ou dados estatísticos compulsados; baseio-me nos inúmeros exemplos que conheço de cursos ministrados em Instituições de Ensino Superior Público e Privado, na certeza que, sobretudo estas últimas, não investiriam em formação que não tivesse procura e, com isso, garantia de rendibilidade.

(Archivoz) A História Ambiental é interdisciplinar, os arquivos também podem ser?

(RB) Não só podem como o são! Vejamos na História Ambiental, por definição, estuda-se a interação entre o Homem e o seu Meio, numa análise diacrónica. Ora esta análise, tendo uma abordagem de largo espectro temático, não pode nem deve ser confinada a áreas de saber estanques. Do ponto de vista das Ciências Sociais e Humanas já atrás aludimos a algumas “disciplinas” que contribuem para a construção da narrativa historiográfica; assim, também no que concerne ao Meio ou entorno natural que configurou as sociedades de outrora, existe uma plêiade quase interminável de áreas do saber que são imprescindíveis para que possamos compreender, tanto quanto possível” o binómio ser humano/natureza no passado. Para tanto, os arquivos fornecem-nos dados preciosos para uma análise profícua! Vamos a dois exemplos: 1 – a climatologia histórica ou, mais precisamente a reconstituição do passado climático na História e o impacto do Clima na vida das sociedades humanas pretéritas é passível de ser feito de diversas formas entre as quais se contam, sem peias, as descrições de boas/más colheitas e respetivos preços de bens de primeira necessidade (sobretudo cereais), os relatos de tempestades (continentais e marítimas) bem como de chuvas e secas, a descrição de invernos ou verões atípicos, o relato de mortalidade associadas a fomes por causa de eventos climáticos extremos etc, etc. etc.. Um outro exemplo, cingindo-nos agora ao caso português, exemplifica com propriedade que os documentos à guarda dos arquivos nacionais podem ser indagados e analisados numa ótica interdisciplinar: é o caso da Chamadas Memórias Paroquiais de 1.758 que tanto nos podem fornecer importantes elementos para a análise de uma historiografia mais tradicional como, se atentarmos sobretudo na secção que diz respeito às serras e aos rios, nos permitem aferir de importantes elementos para o conhecimento da flora e fauna de muitas e variadas paróquias do Portugal de meados do século XVIII.

(Archivoz) Na atualidade, em que tantos arquivos nacionais e internacionais estão online acha que é uma mais-valia? Os arquivos online dão-lhe todas as respostas para as suas pesquisas?

(RB) Eventualmente nunca como agora os arquivos online foram tão importantes para a produção do conhecimento. Vivemos numa época atípica em que, em função da evolução da pandemia de Sars-Cov-2 que se instalou em todo o planeta, temos ritmos de trabalho que ora exigem um confinamento absoluto, ora permitem a saída de casa para algo mais que não a aquisição de bens essenciais e consultas médicas. A situação é muito complicada a vários títulos e a pesquisa, seleção e análise das fontes (e mesmo da bibliografia complementar) fica, amiúde, dependente das consultas efetuadas em linha. Isto há um bom par de anos seria completamente inviável! Acresce que os arquivos online dão-nos facilidades que a visita e consultas de arquivos físicos, in loco, não permitiriam, designadamente a flexibilidade de horário, a acessibilidade independentemente do local onde se encontra o investigador, a capacidade   infinita de consulta de fundos por pesquisa; a diminuição dos custos de reprodução de originais e muitas outras vantagens. Todavia, existe o verso do que acabei de referir. Em caso de dúvidas ou de originais cuja disponibilização é feita com baixa qualidade de reprodução, torna-se absolutamente indispensável recorrer ao material físico para a leitura dos originais e/ou para dissipação de dúvidas na leitura paleográfica. Acresce que nem todos os documentos de que necessitamos para a investigação do momento estão online e, nesses casos, obviamente que a recolha arquivística terá que ser feita nos moldes tradicionais, digamos assim. Posso referir um último senão da consulta em linha mas esse, confesso, estou a conseguir ultrapassar por autodisciplina (e necessidade) e está ligado ao prazer do tato e do olfato que compulsar as fontes nos arquivos físicos confere! Porém, até aqui, temos que nos adaptar a uma nova realidade!

 (Archivoz) Como vê o futuro da historiografia e dos arquivos?

(RB) Vejo o futuro da historiografia e dos arquivos, realidade inter – relacionadas e dependentes, com esperança e otimismo. Considero que, mercê de uma realidade que nos ultrapassa (e não refiro, propositadamente, à qual fomos alheios) estamos num ponto de viragem. A pandemia obrigou-nos a parar para pensar tudo, Ciência inclusive! Temos que decidir o que queremos efetivamente fazer das nossas vidas e da dos nossos vindouros. Está na altura de olhar para o passado e, agora como sempre, aprender com ele. É o momento de, com base nos ensinamentos que a História nos possibilita, com especial acuidade a História Ambiental, perceber até que ponto (mais) estamos dispostos a ir ou quando dizemos coletivamente chega e assumimos que atingimos o ponto de ruptura; o que estamos dispostos a largar, de que é que conseguimos prescindir para que o presente e o futuro não se transformem num inferno onde se desfiem um rosário de pandemias. Assim, considero que mais por necessidade do que por opção estamos fadados a repensar o nosso modo de vida e, nele, a valorizar a Ciência.


Entrevista realizada por: Alexandra Maria Silva Vidal

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