“Os dez mandamentos da preservação digital passaram de 10 para 20”: Entrevista com Humberto Innarelli.

Humberto Innarelli muitas vezes, com seus jeito meio quieto, não transparece o medalhão que é para a área de arquivos. Nesta entrevista super especial conseguimos abordar desde o Humberto conhecendo a área de arquivos ao autor respeitado internacionalmente. Além de trazer sua posição em relação a assuntos em voga como o decreto de digitalização do governo federal, o Humberto nos brinda com o De/PARA de atualização de seus 10 mandamentos da preservação digital. Exclusivo para a Archivoz, o Innarelli mostra a evolução da teoria arquivística. Uma boa leitura a todas e todos.

(Archivoz) Humberto Innarelli, conta um pouco para nós sua trajetória na área de Arquivos.

(Humberto Innarelli)  Humberto Celeste Innarelli é um profissional que teve sua origem na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), sempre foi apaixonado pela área de tecnologia mas ainda buscava seu lugar na Unicamp – como profissional de TIC é claro –, pois era funcionário da área de manutenção de computadores e buscava algo mais interessante voltado à sistemas de informação e administração de redes de computadores – um sonho naquele momento. Foi nessa busca que um dia surgiu uma oportunidade de um concurso interno na Unicamp para trabalhar como Analista de Sistemas no Sistema de Arquivos da Unicamp (SIARQ/Unicamp).

Bom, aí começa a história em 1999, o Innarelli sabia o que era TIC, mas nem imaginava o que era um Arquivo, porém o importante naquele momento era sair da área de manutenção de computadores e ir para a área de Análise de Sistemas e Administração de Redes. Na cabeça de Humberto, esta era a oportunidade para – um dia – chegar a trabalhar no Centro de Computação da Unicamp (CCUEC/Unicamp), um sonho para qualquer profissional de tecnologia.

Quando passou no concurso interno, chegou ao SIARQ e viu aquele monte de “documentos velhos”, logo se perguntou: “O que que eu tô fazendo aqui?”. Bom, mas como os fins justificavam os meios e esse era seu trampolim para o CCUEC, Humberto decidiu encarar alguns anos para alcançar um sonho maior.

Daí para frente, sabe aquela história do profissional de outras áreas ser picado pelo “bichinho interdisciplinar do arquivo”, acho que foi isso que aconteceu com ele, pois com a ajuda visionária de sua coordenadora na época – Neire do Rossio Martins – conseguiu enxergar algo que estava iniciando no Brasil, os documentos arquivísticos digitais. Desde então, Humberto Innarelli nunca mais parou de estudar a Arquivística Contemporânea e com seus 21 anos de experiência estudando e trabalhando documentos arquivísticos digitais, virou um profissional que se aventura na área mesmo sem ser Arquivista.

Humberto completa sua apresentação dizendo que estuda e trabalha com documentos arquivísticos digitais desde o milênio passado.

Hoje, Humberto Innarelli, possui graduação em Tecnologia em Processamento de Dados pela FATEC-AM (1998), especialização em Educação, Interdisciplinaridade e Novas Tecnologias pela ACTA (2001), mestrado em Engenharia Mecânica pela UNICAMP (2006) e doutorado em Ciência da Informação pela USP (2015). Atualmente, atua como: profissional de Tecnologia da Informação e Comunicação e coordenador técnico do Arquivo Edgard Leuenroth do IFCH/UNICAMP; professor doutor da FATEC-AM e coordenador do projeto Repositório Institucional do Conhecimento do Centro Paula Souza – RIC-CPS. Entre outras publicações, destacam-se o livro Instrumenta: preservação de documentos digitais (INNARELLI, 2012) e o livro Arquivística: temas contemporâneos (INNARELLI, SANTOS e SOUSA, 2007).

(Archivoz) Humberto Innarelli, conta um pouco pra gente qual sua visão da atual situação da Preservação Digital em relação aos arquivos brasileiros?

(HI) Desde que as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) foram introduzidas como ferramentas fundamentais para o processo de automação e digitalização das instituições brasileiras, os arquivos iniciaram um processo irreversível de migração de sua documentação não digital para digital. A busca pela eficiência administrativa, fundamentada no uso dos recursos tecnológicos, não deixaram alternativas à arquivologia contemporânea, a não ser “correr” atrás da tecnologia e se adequar à realidade digital, pois os documentos arquivísticos até então produzidos em uma tecnologia analógica passaram a ser produzidos digitalmente. No Brasil, tudo isso aconteceu com raríssimas participações dos profissionais de arquivo e das próprias instituições arquivísticas.

As transformações impostas à arquivologia brasileira e aos documentos de arquivo, com o advento do digital, iniciaram no Brasil na virada do milênio, fruto do processo de modernização e informatização das instituições brasileiras. Com todo este processo e a real possibilidade de produção dos documentos arquivísticos pelos sistemas informatizados, os arquivos são introduzidos à era “Arquivoconomia Digital” (LUZ, 2020). Faço uma pausa neste momento para sugerir a leitura do livro “Arquivoconomia Digital” de Challey Luz, nesta obra o autor se apropria dos fundamentos da Arquivoconomia com a intensão de oferecer ao leitor uma viagem no tempo que remonta a arquivologia do início do século XX à arquivologia contemporânea, principalmente no que tange às questões dos arquivos contemporâneos, que lançam mão de infraestruturas de TICs como se fossem: o prédio; os depósitos; as paredes; as salas; o mobiliário; os equipamentos; os laboratórios; os materiais de trabalho etc.

Dito isso, ainda me pergunto: “Se depois de tudo que discutimos até hoje sobre gestão e preservação de documentos arquivísticos, podemos dizer que estamos fazendo preservação digital no Brasil?”

Uma questão parecida com essa, foi apresentada à mim por Marcelo Chaves – editor da Revista do Arquivo – para a edição nº 11 que tem sua publicação prevista para outubro deste ano –  http://www.arquivoestado.sp.gov.br/revista_do_arquivo/. Na entrevista, cuja temática foi “Perda de informações (sinistros) em arquivos nato digitais e representantes digitais”, refleti muito em uma de minhas respostas e disse: “Chegou um momento, entre os anos de 2008/2009, que parecia que a gente ia deslanchar, que o negócio dessa arquivística digital ia virar uma beleza, a gente estava no rumo certo. Por quê? Porque naquele momento a gente tinha algumas instituições preocupadas com políticas arquivísticas, e havia instituições financiadoras de política arquivística. É fácil você pegar investimentos da Fapesp, é fácil você pegar todo o movimento que a gente teve de colocar o arquivo dentro da gestão e não o arquivo como um órgão da Cultura. Estávamos no caminho muito bom, chegando num nível muito legal. Só que, a partir de 2010/2012, essas políticas começaram a falhar, a serem desmontadas, tanto no financiamento quanto no incentivo às instituições arquivísticas. Foi quando a gente começou a entrar numa descendente, que na minha visão, pensando na questão do digital, hoje eles querem muito mais funcionalidade de sistemas computacionais que resolvam os problemas de trâmite, burocracia e eficiência administrativa, do que de incorporar dentro desses sistemas políticas arquivísticas. Portanto, hoje a gente está aqui embaixo, as instituições pararam de enxergar os Arquivos como instituições importantes para a gestão, por diversos motivos. E pararam também de investir nos arquivos. A gente está num momento crítico”.

Ao considerar todo este contexto nas instituições, pouquíssimas Universidades interessadas em oferecer cursos de Arquivologia e pouco interesse pela procura da profissão de Arquivista – alguns cursos de Arquivologia estão correndo risco de fecharem –, vejo que ainda temos muito a caminhar quando falamos em preservação digital em arquivos no Brasil!

Por outro lado, as novas legislações sobre os “governos e instituições sem papel” potencializam o avanço das questões relacionadas a gestão e preservação dos documentos arquivísticos digitais (nato-digitais e digitalizados), fato que valoriza a Arquivística e o profissional de arquivo. Como ouvi a professora Luciana Duranti (coordenadora do projeto InterPARES na Universidade de Britsh Columbia no Canadá) dizer em 2002 em uma de suas palestras no Brasil: “… quando entendi que os documentos arquivísticos seriam digitais, achei que a profissão do arquivista estava fadada ao desaparecimento e que os informáticos seriam os novos gestores dos documentos arquivísticos, porém, com o passar do tempo e com nossos estudos no InterPARES, percebi que as TICs potencializariam a Arquivística e seus profissionais”. Foi nesse momento que eu acho que fui definitivamente picado definitivamente pelo “bichinho interdisciplinar do arquivo”.

Tudo isso para dizer que ainda não fazemos preservação digital no Brasil, mas temos ótimas iniciativas e estamos no caminho.

(Archivoz) Humberto, o que mudou desde “Os dez mandamentos da preservação digital” até os dias de hoje? Temos algum mandamento extra?

Que bela provocação!!! Esta pergunta me parece algo que chamamos nos processos de migração de sistemas informatizados de “De:, Para:”, ou seja, como podemos migrar os dados de um sistema tecnológico obsoleto para um novo com tecnologia atual sem perdas de dados, confiabilidade e integridade – inclusive a migração é o quinto mandamento: “V – Migrarás seus documentos de suporte e formato periodicamente”.

Apresento esta analogia para salientar que “Os dez mandamentos da preservação digital” – idealizados no primeiro semestre de 2006 e publicados de forma estendida em 2007 no livro “Arquivística: temas contemporâneos” (INNARELLI, SANTOS e SOUSA, 2007) – não estão obsoletos por terem passado por um processo de “migração”, o qual apresento em minha tese de Doutorado intitulada “Gestão da preservação de documentos arquivísticos digitais: proposta e um modelo conceitual” (INNARELLI, 2015). Neste caso, digo sempre que “Os dez mandamentos da preservação digital” passaram pela De 10 Para 20. Os princípios foram atualizados e nunca perdidos. Essa foi a grande mudança, a evolução/atualização dos mandamentos a partir do aprendizado contínuo e da prática.

De:

  • I – manterás uma política de preservação;
  • II – não dependerás de hardware específico;
  • III – não dependerás de software específico;
  • IV – não confiarás em sistemas gerenciadores como única forma de acesso ao documento digital;
  • V – migrarás seus documentos de suporte e formato periodicamente;
  • VI – replicarás os documentos em locais fisicamente separados;
  • VII – não confiarás cegamente no suporte de armazenamento;
  • VIII – não deixarás de fazer backup e cópias de segurança;
  • IX – não preservarás lixo digital e;
  • X – garantirás a autenticidade dos documentos arquivísticos digitais (INNARELLI, SANTOS e SOUSA, 2007).

Para:

  • I – Arquivistas como responsáveis pela gestão e preservação dos documentos arquivísticos digitais;
  • II – Capacidade de reprodução do documento arquivístico digital;
  • III – Cópias de segurança;
  • IV – Desenvolvimento de modelos que possam ser entendidos por profissionais de arquivo;
  • V – Desenvolvimento de modelos que possam ser utilizados por instituições diversas;
  • VI – Existência de uma política de gestão e preservação;
  • VII – Fragilidade do suporte digital;
  • VIII – Garantia da autenticidade;
  • IX – Garantia da forma fixa, conteúdo estável e variabilidade limitada;
  • X – Identificação dos documentos arquivísticos digitais;
  • XI – Independência da fase do ciclo vital do documento arquivístico digital;
  • XII – Independência de hardwares e softwares específicos;
  • XIII – Independência do documento arquivístico digital do sistema informatizado de gestão e preservação;
  • XIV – Migração como principal técnica de preservação;
  • XV – Obsolescência das TICs;
  • XVI – Preservação das características arquivísticas dos documentos digitais;
  • XVII – Preservação do documento digitalizado;
  • XVIII – Preservação, somente, dos documentos arquivísticos digitais que devem ser preservados;
  • XIX – Relação multidisciplinar e/ou interdisciplinar dos profissionais de arquivo com os profissionais de TICs, profissionais da administração e gestores dos sistemas informatizados e;
  • XX – Respeito às teorias arquivísticas (INNARELLI, 2015).

Acho que o “De:, Para:” explica tudo.

(Archivoz) Fale-nos de sua tese de doutorado. As perspectivas lá tratadas em relação Gestão da preservação de documentos arquivísticos digitais: proposta de um modelo conceitual. É o estado da arte para os arquivos brasileiros?

(HI) Toda vez que perguntam da minha tese, me divirto muito, pois é um momento prazeroso em que deixo de falar somente da prática e da sopa de letrinhas – AI; AIP; ArchivesSpace; AtoM; BD; Blog; CMS; CPADA; DIP; DuraCloud; E-Arq; FEDORA; HTML; ISO-OAIS; LGPD; LOCKSS; LSTM; MADS; MARC; Memex; MODS; NOBRADE; OCR; PDF; RDC-Arq; SIGAD; SIP; SWIFT; TIC; uX; WorkFlow; WWW etc. – e me permito discutir e refletir conceitos e teorias que são fundamentais para o entendimento do documento arquivístico digital. Ninguém entende o documento arquivístico digital lendo somente normas, padrões, recomendações etc.!!!

Muitas vezes percebo que as discussões realizadas nos eventos e nas atuais lives sobre a temática relacionada aos documentos arquivísticos digitais são focadas em soluções práticas, padrões, recomendações e tecnologias que podem ser utilizadas nas instituições arquivísticas. Cá entre nós, e que os Arquivistas não nos ouçam: As vezes tenho a impressão que os profissionais que trabalham nos arquivos não querem discutir conceitualmente os documentos digitais e sim, achar soluções prontas e rápidas para que possam aplicar em suas instituições, pois as perguntas que mais ouço são: O Archivematica é uma solução para repositório? O que você acha do SEI para gestão documental? O SEI é um SIGAD? E o AtoM faz preservação digital? O RDC-Arq é muito difícil de ser implementado? Como fazer a digitalização dos documentos arquivísticos? O PDF é um formato de preservação?

Ops, sem polêmica, voltando a pergunta, a minha tese de doutorado intitulada de “Gestão da preservação de documentos arquivísticos digitais: proposta e um modelo conceitual”, “Busca apresentar a problemática da preservação de documentos arquivísticos digitais frente às teorias e práticas arquivísticas e às tecnologias da informação e da comunicação (TICs), com o intuito de identificar as variáveis que impactam diretamente as políticas de preservação dos documentos arquivísticos digitais. Busca ainda apoiar as bases conceituais da preservação digital no Brasil e instrumentalizar as instituições com vistas à implementação da preservação digital de seus documentos arquivísticos. Trabalha com a hipótese de que a gestão e a preservação inadequada dos documentos arquivísticas digitais – via de regra sob responsabilidade de administradores e profissionais das TICs sem interface com os arquivistas – coloca em risco o documento arquivístico digital e, consequentemente, a memória social de parte da história da humanidade. Propõe um modelo conceitual de gestão da preservação de documentos arquivísticos digitais aplicável a qualquer instituição, independentemente de seu porte, e o discute em relação às propostas desenvolvidas pelo projeto InterPARES. A análise do modelo conceitual permite identificar outros elementos em busca do aperfeiçoamento da gestão da preservação de documentos arquivísticos digitais (INNARELLI, 2015)”.

Coloquei o resumo da tese para responder a questão, pois não saberia sintetizar melhor o que a tese fala.

Assim como no caso dos “Dez mandamentos da preservação digital”, que abordam conceitos e não tecnologias específicas que ficam rapidamente obsoletas, a ideia do modelo conceitual é apresentar algo que seja atemporal e que possa ser “migrado” para as novas tecnologias, um dos fatos que garantirá a preservação digital.

Sobre o estado da arte, entendo que os fundamentos, discussões, modelos e processos que apresento na tese são contemporâneos e que precisam ser aplicados e testados para que virem uma realidade. Há uma discussão que faço na tese que é fundamental na questão da preservação digital: a discussão dos documentos arquivísticos digitais estáticos e dinâmicos, pois entendo que no Brasil, temos caminhos concretos para que possamos lançar mão de ferramentas e políticas que propiciem a preservação dos documentos estáticos, porém a discussão dos documentos dinâmicos ainda é pequena e difícil de ser estabelecida, uma vez que a complexidade destes tipos de documentos digitais são muito maiores que as dos documentos estáticos. Outra questão importante é que, apesar de todos os esforços de pesquisadores e profissionais da área para entrar na discussão dos documentos arquivísticos digitais, o esforço ainda é insuficiente para que possamos avançar com mais robustez. Ainda somos poucos e com pouca experiência!

(Archivoz) Sobre digitalização, qual sua visão com o que ocorreu a partir do decreto de digitalização Decreto nº 10.278, de 18 de março de 2020?

(HI) Bom, o decreto é bastante recente e ainda estamos passando por um processo de “digestão”, mas como a digitalização de documentos arquivísticos para fins de eliminação era algo esperado há algum tempo, foi possível amadurecer esta questão que estava pautada nos órgãos federais desde de 2012, com a primeira legislação federal que pretendia em sua origem eliminar permanentemente os documentos arquivísticos frente a um processo de digitalização – Lei nº 12.682, de 9 de julho de 2012. Uma pena, que a comunidade arquivística não conseguiu se organizar para – antes do decreto de 2020 – participar da elaboração de uma legislação moderna que permitiria fazer processo de digitalização dos documentos arquivísticos e consequente a eliminação dos originais respeitando premissas arquivísticas. Esta falta de organização aliada há um processo de desvalorização das instituições arquivísticas, permitiu que logo no início da Pandemia de Covid-19, surgisse – de forma oportunista – uma legislação que pouco atendia as questões arquivísticas para uma questão tão delicada, o Decreto nº 10.278, de 18 e março de 2020.

Não sou contra processos de digitalização de substituição de documentos arquivísticos em fase corrente ou intermediária – que estejam classificados como não permanentes em Tabelas de Temporalidade de Documentos (TTD) – e de documentos arquivísticos em qualquer idade, cujo suporte não suporta mais a informação registrada ou utiliza tecnologia obsoleta, pois concordo que a digitalização seja realizada para este fim lançando mão de políticas, legislações, processos, normas e regulamentações institucionais e que não implique em riscos ao funcionamento e à memória da instituição.

Diante do exposto, entendo que o processo de elaboração do decreto – como dito anteriormente – proporcionou a publicação de uma legislação insuficiente, que não garante os requisitos necessários para que os documentos arquivísticos digitalizados produzam os mesmos efeitos dos documentos originais e tenham regras claras de gestão e preservação, permitindo desta forma a substituição do documento arquivístico original pelo documento digitalizado de uma forma bastante frágil e equivocada. Se as instituições implementarem o decreto ao seu modo e sem uma legislação complementar nacional e local, será instituído, em um futuro próximo, o caos administrativo e arquivístico, pois o que me preocupa neste momento não é somente o valor secundário (histórico e pesquisa) dos documentos arquivísticos, mas também o funcionamento das instituições que ainda não estão preparadas para fazer a gestão e a preservação dos documentos arquivísticos digitais, e consequentemente digitalizados.

Com o intuito de dar voz aos profissionais de arquivo e de estabelecer diretrizes e procedimentos técnicos a serem implementados no processo de digitalização de documentos para efetiva aplicação do decreto nº 10.278, de 2020, a presidente do Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ), Neide Alves Dias de Sordi, instituiu através da Portaria nº 120, de 28 de julho de 2020, a “câmara técnica consultiva com a finalidade de propor diretrizes e os procedimentos técnicos que deverão ser adotados pelos órgãos integrantes do Sistema Nacional de Arquivo – SINAR para implementação do disposto no Decreto nº 10.278, de 18 de março de 2020” – https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-120-de-28-de-julho-de-2020-271228562.

(Archivoz) Por favor, deixe uma visão de como pode ser o futuro com a preservação digital sendo aplicada desde já.

Meu Deus, essa ainda é uma visão turva e que precisamos ajustar as lentes para que possamos enxergar melhor, ao invés de deixar uma impressão do futuro, vou deixar uma visão que tive no passado e está difícil de superá-la: “Temos muito mais a discutir sobre documento digital antes de chegarmos a qualquer fórmula ou resultado, porém, é assustador imaginar que enquanto discutimos, muitos documentos foram e estão sendo perdidos” (INNARELLI, 2003).

Esta é uma reflexão que trago desde 2003 e apresento em todas as minhas palestras e lives. A promessa, é que não citarei mais essa reflexão quando ela deixar de ser verdadeira ou quando conseguir enxergar melhor como pode ser o futuro com a preservação digital sendo aplicada desde já. O que posso dizer é que estamos tentando, mas com certeza estamos errando mais do que acertando neste momento.

Obrigado e espero ter contribuído com esta revista que admiro tanto.


Entrevista realizada por: Charlley Luz

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