O CIUL – Centro de Informação Urbana de Lisboa, acolheu, no dia 29 de outubro de 2020, o 2.º Encontro Cidades, Arquitetura e Urbanismo no Contexto Ibérico, organizado pela Câmara Municipal de Lisboa, o CIUL – Centro de Informação Urbana de Lisboa, o CIDEHUS.UE – Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora e o ICA-SAR – Secção de Arquivos de Arquitetura do Conselho Internacional de Arquivos, contando, ainda, com a Fundação Calouste Gulbenkian como parceiro.

Devido ao novo coronavírus (SARS-CoV 2) e à COVID-19, este evento decorreu de forma bastante condicionada, no que respeita à presença de público, considerando as diretrizes nesses sentido da Direção-Geral da Saúde. Ainda assim, tendo em conta este contexto tão difícil, de pandemia, foi possível organizar esta iniciativa, gravá-la e disponibilizá-la em livre acesso, através do link https://www.youtube.com/watch?v=cS50XfpSHYw., de forma a permitir a sua divulgação, muitos para além das poucas pessoas que puderam estar presentes no auditório do CIUL.

À semelhança da primeira edição, realizada na Universidade de Évora, em 2019, a presente iniciativa teve a coordenação científica de Paulo Batista (CIDEHUS.UE) e Ricardo Costa Agarez (CIDEHUS.UE). Este Encontro, cuja sessão de abertura contou com a presença da Diretora do CIDEHUS.UE, Hermínia Vilar, reuniu arquitetos, professores e investigadores de arquitetura e arquivistas, provenientes dos meios académicos e municipais, nomeadamente do CIDEHUS.UE, do ISCTE-IUL – DINAMIA’CET-IUL, da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa – CIAUD, formaurbis LAB,  da Universidade Lusíada de Lisboa e da IE University, em Segóvia, de Espanhae dos arquivos municipais de Lisboa, Vila Real e Loulé, para além do ICA-SAR e da Fundação Calouste Gulbenkian.

O formato seguiu o modelo do primeiro Encontro, com quatro painéis, dois de arquitetura, da responsabilidade de Ricardo Agarez, e o mesmo número sobre arquivos, coordenados por Paulo Batista, cada qual com duas conferências, num total de oito apresentações, cujos resumos, que indicamos de seguida, foram disponibilizados pelos respetivos oradores.

Painel I – Exp(l)or(ar) Arquivos, Arquitetos e suas Sombras: de Lisboa a Berlim, via Barcelona

A primeira conferência deste painel, moderado por Ricardo Agarez, pertenceu a Patrícia Bento d’Almeida (ISCTE-IUL, DINÂMIA’CET – IUL), tendo como título Os Segredos da Cidade: A Importância dos Arquivos para a Reconstrução da História da Arquitetura Contemporânea

Segundo a autora, “Esta comunicação tem como objetivo dar a conhecer o conjunto de arquivos pessoais e públicos consultados para a elaboração de três trabalhos de investigação científica: 1) A obra do atelier dos arquitetos Victor Palla e Joaquim Bento d’Almeida; 2) O panorama urbanístico e arquitetónico do(s) bairro(s) do Restelo; 3) O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e a investigação científica em arquitetura e urbanismo.

Uma coleção de rolos de projetos de arquitetura e uma incompleta lista de obras serviram de impulso para dar início a um incessante trabalho de inventariação da obra do atelier dos arquitetos Palla e Bento d’Almeida. O espólio deixado por esta dupla de arquitetos ofereceu um manancial de informação que oportunamente foi confrontado e completado com o material depositado em diversos arquivos municipais, particularmente os pertencentes ao município de Lisboa (nomeadamente Arco do Cego, Intermédio e Fotográfico), bem como nos arquivos das Escolas de Belas Artes (Lisboa e Porto) e do Museu do Azulejo. Arquivos pessoais e a memória de alguns arquitetos, historiadores e clientes que com eles privaram foram também considerados. Redescobrir a história deste atelier promoveu a descoberta de alguns dos segredos da cidade de Lisboa. Para compreender a razão pela qual, durante as décadas de 1950 e 1960, Palla e Bento d’Almeida projetaram mais de meia centena de moradias unifamiliares para o Restelo, analisaram-se os planos urbanos e os projetos de arquitetura elaborados para esta área da cidade. Para esta pesquisa revelaram-se cruciais as consultas efetuadas aos arquivos municipais e de património cultural e de arquitetura depositados no Forte de Sacavém e, recentemente, para o estudo da arquitetura e do urbanismo no LNEC e a sua importância para a história da investigação científica em Portugal.”

A conferência seguinte deste painel, de Laura Martínez de Guereñu (IE University, Segovia), centrou-se em The Archival Evidence as an Antidote against Accepted Knowledge: Lilly Reich’s Work in Barcelona.

Como a sua autora assinalou, “The two outcomes of the research project “Re-enactment: Lilly Reich’s Work Occupies the Barcelona Pavilion”—a scientific article and an art intervention, developed under the auspices of the first Lilly Reich Grant for the Equality in Architecture—have been anchored on evidence found in archives of more than twenty cities of Germany (Berlin, Dessau, Frankfurt am Main, Weimar), North America (Montréal, New York, Washington DC), and Spain (Barcelona, Madrid).

Each of them was targeted to a different audience—the scholars interested in the history of architectural modernism and the broader public of exhibitions—to be able to offer a long overdue recognition beyond the professional and academic setting, and to submit Lilly Reich’s contribution to a wider critical judgment with society at large.

The archives—not only of architecture, design, and art, but also of commerce, industrial property, and international relationships—have been irreplaceable allies for developing the always difficult labor of credit recognition and for putting Lilly Reich in the right position in her collaborative relationship with Mies. This paper will show the way different documents (letters, maps, plans, photographs, postcards, snapshots, film footage, patent applications) discovered over the years have contributed to show novel sides to generally accepted knowledge and have managed to accredit an authorship otherwise relegated to oblivion.”

Painel II – Os Arquivos de Arquitetura: Das Diretrizes à Difusão

Carla Eiriz, do Arquivo Municipal de Vila Real, moderou este painel.

A primeira oradora foi Yolanda Cagigas Ocejo (ICA-SAR).

Para a autora, “El Consejo Internacional de Archivo (ICA) cree que la gestión eficaz de archivos es una condición previa esencial para el buen gobierno, el estado de derecho, la transparencia administrativa, la preservación de la memoria colectiva de la humanidad y el acceso a la información por parte de los ciudadanos. En esta comunicación se hace una breve síntesis del ICA: historia, objetivos, principales iniciativas, organización y gobierno, miembros, recursos técnicos y formativos, eventos, programas de ayuda, congresos internacionales, etc…

El núcleo básico de los beneficios para los miembros de ICA está relacionado con las secciones. Cada sección está especializada en un área de la práctica profesional, y para ello existen 12 secciones en activo que cubren temas muy diversos. La comunicación se centra principalmente en dar a conocer la Sección de Archivos de Arquitectura (SAR), cuyo principal objetivo es la promoción de los documentos de Arquitectura en todo el mundo.”

Este painel, e os trabalhos da manhã, encerraram com Helena Neves (Arquivo Municipal de Lisboa), cuja apresentação deu conta dos Arquivos de Arquitetos no Arquivo Municipal de Lisboa.

Como destacou, “Na comunicação apresenta-se o Arquivo Municipal de Lisboa como um serviço de informação e de memória.

Em particular dá-se conta da política de aquisição de espécies e de coleções com interesse documental para o Arquivo Municipal na prossecução da sua missão de recolher, guardar, tratar e preservar a documentação relativa à memória da cidade.

Apresentam-se os arquivos particulares de arquitetos que foram adquiridos, evidenciando o seu interesse para a memória coletiva da cidade, para a complementaridades das fontes do Arquivo Municipal e para a salvaguarda do património.

Assinalam-se os contextos, percursos e modalidades de aquisição, bem como o tratamento documental efetuado e as formas de divulgação destes arquivos.”

Painel III – Arquitetos e Não-Arquitetos em Arquivos: Cruzamentos e Possibilidades

O terceiro painel foi moderado por Ricardo Agarez, cujo primeiro orador foi João Cardim (ISCTE-IUL), com a comunicação Arquivos: “Das Casas de Férias aos Grandes Conjuntos Habitacionais do Arquitecto Justino Morais: Uma Viagem pelos Arquivos.”

No resumo disponibilizado, referiu que “A presente comunicação centra-se na experiência do autor – arquitecto de formação – no campo da pesquisa em arquivo, no âmbito de investigações de mestrado integrado e de doutoramento, e abrange cerca de dez anos de investigação não contínua.

A apresentação divide-se em duas partes que se complementam: a primeira, que deriva da investigação de mestrado, é relativa a pesquisa em arquivo camarário (Câmara Municipal de Sintra), incidindo no levantamento exaustivo de moradias de férias na Freguesia de Colares, edificadas entre 1940 e 1974, e na sua relação com o trabalho de campo – visita e registo fotográfico dos melhores exemplares identificados.

Esta investigação despontou a oportunidade de estudar o espólio pessoal de um arquitecto em concreto, e daí nasceu o tema do doutoramento. Assim, a segunda parte desta apresentação centra-se no pré-inventário, em fase de conclusão, do espólio do arquitecto Justino Morais (1928-2011), actualmente integrado no arquivo do SIPA – Forte de Sacavém.

Apesar do título provisório do doutoramento – “Da Célula à Cidade: Composição Modular e Planeamento Urbano na Obra de Justino Morais (1966-1975)” – indiciar uma escolha mais estreita dos projectos deste arquitecto, tornou-se inevitável o levantamento total da sua obra, em grande medida desconhecida, uma vez que tal se mostrou essencial para uma avaliação correcta da amostragem a seleccionar tendo em vista uma análise mais aprofundada.

Procurar-se-á relacionar o levantamento em arquivo com a identificação dos casos de estudo no terreno, bem como explicitar a variedade de documentação inventariada e a sua importância na construção dos temas a explorar no doutoramento. Torna-se igualmente importante aferir os limites deste tipo de levantamento em arquivo e a maneira como um espólio pessoal pode ser complementado através de investigações noutros arquivos, noutros suportes e no próprio terreno.”

Por sua vez, Diogo Costa (Universidade Lusíada de Lisboa), apresentou Manuel Laginha: Um Autor, Vários Arquivos.

Segundo a mesma, “O estudo e resgate histórico de um qualquer tema depende, intrinsecamente, das características e qualidades das fontes documentais disponíveis sobre o mesmo. No campo da arquitetura moderna portuguesa de meados do século XX, essa investigação é possibilitada e fortemente alicerçada na documentação existentes em Arquivos Municipais e espólios pessoais dos arquitetos em questão, sem, no entanto, esquecer ou desvalorizar uma ampla gama de outros arquivos e fontes, escritas ou em registos menos convencionais.

Partindo do caso concreto de uma investigação académica sobre a obra do arq. Manuel Maria Cristóvão Laginha (1919-1985), pretendemos dar testemunho da dispersão e diversidade de fontes que documentam a obra de um autor e da realidade encontrada nos vários Arquivos consultados, analisando a sua diversidade, conteúdos, potencialidades e lacunas de cada um, condições de depósito, tratamento, consulta e de que maneira se podem relacionar entre si,  questionando ainda as consequências dessa dispersão e disparidade na prossecução de trabalhos de investigação desta natureza. Através da apresentação de alguns casos de estudo, enunciaremos exemplos em que diferentes arquivos e fontes se complementam, ‘dialogam’ ou, inclusive, se contradizem, denunciando a relevância de uma consulta plural e do cruzamento crítico das múltiplas fontes existentes para uma mais fidedigna compreensão e narração dos processos que documentam.

Laginha é, de resto e por maioria de razão, um caso paradigmático dessa dispersão de fontes, pela diversidade geográfica da sua obra (construída em diversos municípios do Algarve, da região de Lisboa e, inclusive, em Itália) e pelo seu multifacetado percurso profissional onde se cruzam arquitetura e urbanismo: o exercício liberal da profissão de arquiteto a título individual ou através de parcerias formais ou informais – e nem sempre assumidas – , com figuras centrais da arquitetura moderna portuguesa e com projetistas locais no Algarve; as funções de urbanista e apreciador público em serviços municipais e estatais; e até uma importante faceta associativa.”

Painel IV – Das convergências entre os arquivos de arquitetura e coleções fotográficas ao inventário das tipologias edificadas

O último painel teve a moderação de Nelson Vaquinhas, do Arquivo Municipal de Loulé e CIDEHUS.UE.

Ana Barata (Fundação Calouste Gulbenkian) foi o primeiro conferencista, com uma apresentação intitulada Arquivos de arquitetura e coleções fotográficas: relações e ligações potenciais. O caso das coleções da Biblioteca de Arte e Arquivos Gulbenkian.

Como realçou, “O registo fotográfico (no duplo estatuto de imagem e técnica) constitui fonte privilegiada para o estudo de outros bens patrimoniais, designadamente do património arquitetónico. Por outro lado, esse registo é, enquanto produto de civilização, na sua essência, pela sua própria natureza técnica, primeiro que qualquer outra coisa, primeiro que uma obra de arte – embora o fosse desde bastante cedo -, mnemónica. Conserva a memória da imagem dos indivíduos, das paisagens, dos edifícios e dos mais variados objetos no momento em que os destaca da massa civilizacional pela atenção que lhes consagra no ato de os reproduzir e registar.

Porque é um meio mecânico de captação e reprodução da realidade, aparentemente menos subjetivo que a mão humana, deu azo à convicção que as memórias conservadas pelas suas imagens eram as mais fiéis às realidades que reproduziam ou que lhes serviram de referentes. Por esta razão, compreende-se que a arquitectura tenha sido, desde bastante cedo, um dos temas mais recorrentes da imagem fotográfica. Aquilo que o desenho e a gravura representam, a imagem fotográfica reproduz. Ao fazê-lo, reforça a sua função pedagógica de levar o conhecimento do que é imóvel, do que não pode ser deslocado, até aos indivíduos nas paragens mais distantes, até à intimidade doméstica. A imagem fotográfica permite estabelecer a biografia do edifício, a sua história particular, assinalando as transformações que foi sofrendo ao longo do tempo, desde, pelo menos, da primeira vez em que foi fotografado.

Nesta comunicação pretende-se abordar estas questão tomando como objetos de estudo as coleções fotográficas e os arquivos de arquitectura dos acervos da Biblioteca de Arte e Arquivos Gulbenkian.”

A derradeira conferência deste Encontro pertenceu a Sérgio Padrão Fernandes (Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitetura, CIUAD, formaurbis LAB).

Com o título O formaurbis LAB e o Atlas Morfológico da cidade portuguesa, “Esta comunicação apresenta os resultados do Atlas Morfológico que tem vindo a ser construído durante a última década na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. Propõe uma reflexão sobre um processo de investigação da forma da cidade que estabelece uma síntese entre os arquivos municipais, repositório privilegiado dos projectos originais, dos processos de obra, etc, e o levantamento “in situ” da cidade construída, entendida como repositório do conhecimento de si própria.

Em 2018 o grupo de investigação “Forma Urbis LAB” ganhou uma bolsa de investigação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (PTDC/ART-DAQ/30110/2017) para desenvolver um extenso inventário das tipologias edificadas em Portugal que abordam o capítulo final do Atlas. Assim, após a realização das várias fases anteriores de investigação será possível, pela primeira vez, realizar uma abordagem articulada entre todas as componentes do tecido urbano – o traçado urbano, a praça, a rua, o quarteirão, a parcela, o edifício – tendo como caso de estudo cerca de 100 cidades portuguesas.

O projeto do Atlas Morfológico da cidade portuguesa visa satisfazer três objetivos principais. O primeiro é fornecer um instrumento didático e pedagógico para o estudo e ensino da arquitectura e do urbanismo, que se mostrará tão fundamental quanto a própria cartografia. A segunda é disponibilizar uma ferramenta que possa ser usada no âmbito da prática profissional, que propõe uma tipologia de formas e de elementos, i. e., exemplos tangíveis e conhecidos que são tratados de modo a que possam ser tomados como referência para uma formulação conceptual onde a transferência implique a construção de uma realidade análoga. O terceiro e mais ambicioso objectivo é a constituição de uma base de dados exaustiva de informação disponível, que permita a toda a comunidade científica ter acesso a uma fonte única de material para a realização e extensão de investigação no âmbito da morfologia urbana, tendo como recurso a forma da cidade portuguesa.”

Um comentário final para destacar o debate que caraterizou o encerramento de cada painel, envolvendo arquitetos, investigadores de arquitetura, arquivistas e público em geral, enfatizando a importância deste Encontro, de forma a contribuir para uma melhor compreensão e comunicação entre os primeiros, os utilizadores dos serviços de informação arquivística, e os profissionais da informação.

Para o ano (2021), fica a vontade de levar esta iniciativa ao norte, depois de já ter passado pelo sul (Évora) e centro (Lisboa) do país.

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